quinta-feira, 31 de maio de 2012

Dizem... que sou louca...

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


...não sou Rita Lee, nem Frida Khalo,
muito menos Raul Seixas...
sou Eu, como eu sou!
"gostante"de mim mesma nesta contra mão
cada vez mais livre de ser agir escrever no fazer
assim...
admiro os loucos
os corajosos seguidores de suas almas
nem sempre tão nobres
sem precisar ser perfeita e agradar sempre
apaixonada por Fernando Pessoa,
Wood Allen, Chaplin, Drumond...
Subcomandante Marcus! Paulo Freire...
sem gostar de bebidas e drogas
cara limpa e alma intensa
amante do silencio e da solidão
saudosa de meus avós e pai
neta do cinema paradiso
filha da beleza razão solta no espaço
louca pelo aconchego da minha casa
e pela presença de meus filhos e marido
a noite me inspira
o frio me excita a alma
a música me embala
ando na escuridão
acendo as luzes em pleno dia
tomo café expresso com sorvete de chocolate
uso um só dedo para escrever
...dizem... que sou louca!
ah! o dia que deixar de ser louca
não serei mais Eu,
mas um fantoche e robô instituido
felizmente sigo minha alma mutante
crio minhas opiniões e ações
sem medo da rejeição
...sou louca de amor
este é o segredo:
penso por mim,logo existo!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Mauro melhora sufocando

Lúcio Packter
Pensador da Filosofia Clínica


Durante algum tempo as aulas de Filosofia Clínica aconteceram na Universidade Federal do Piauí, em Teresina. Em um pátio cercado de bambuzais, atendi a muitas pessoas em um período de aproximadamente dois anos. Mauro veio à consulta trazendo um livro que recomendava o diálogo, a expressão livre dos sentimentos, sobretudo dos medos, o abrir-se ao outro como maneira de aliviar sintomas e em alguns casos as questões mais profundas.

Para ele, isso não o livrava da asfixia. Isso o asfixiava. Sua historicidade era pontuada de explanações, conformações que mostravam que para ele as coisas não poderiam funcionar de outro modo.

Não são poucas as pessoas que quando têm questões existenciais conflitantes costumam fazer um recolhimento; lambem suas feridas, cicatrizam alguns ferimentos, procedem em silêncio, longe das conversações, próximas aos monólogos. Somente após uma melhora subjetiva elas conseguem retomar o diálogo. De certo modo, o diálogo é contra-indicado a pessoas como Mauro em mais de uma vez.

Achar que uma conversa carinhosa, repleta de compreensão, é o caminho indicado pode levar a enganos dolorosos. Quem propõe a conversação pensa estar ajudando; quem é como Mauro pode estar experimentando o mesmo que aconteceu em Crime e Castigo, de Dostoievski. O pobre Raskolnikov em suas conversas com o comissário de polícia vai arruinando seu próprio equilíbrio.

“Eu costumo melhorar sufocando as minhas coisas” - falou Mauro. E no caso dele isso não se tratava de um sintoma.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Entre as Linhas da Vida

Pe Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG


O tempo passa... Às vezes rápido demais, outras vezes tão lento que nos sentimos presos nele. Há sentimentos que estacionam e outros que correm velozes. Tudo na alma humana é muito complexo. Na verdade somos seres extremamente complexos. Sentimos sabores diversos e aromas únicos.

O perfume de trinta anos atrás ainda lembra aquele primeiro encontro. E junto com esta bagagem emocional sente-se o vento refrescante daquela noite, enxerga-se a lua cheia a brilhar no céu, o frio na barriga é tão intenso quanto à longa espera da mulher amada que não chegava. Tudo guardado no baú das emoções de um tempo tão presente quanto à distância dos anos ainda vivos no coração.

No mistério da vida se encontra o mistério daquilo que sentimos e vivenciamos. Não há palavras que possam expressar aquilo que foi vivido e sentido dentro de cada coração. Na vida há muito conteúdo impresso na alma. E cada conteúdo traz grifos, aspas, parênteses, travessões, hífens, vírgulas, exclamações, interrogações, pontos finais... que precisam ser respeitados. Quem não respeita a gramática da vida será incapaz de respeitar o mistério escondido em cada coração.

Uma das tarefas do terapeuta é esta: respeitar cada livro que está sendo escrito na vida de cada pessoa. Somente quem é capaz de abrir o livro da vida de outra pessoa com reverência e cuidado será capaz de ler nas entrelinhas da história aquilo que ainda está sendo escrito.

Não basta conhecer teorias se a prática ensina que o respeito a cada vivencia é anterior a qualquer julgamento. Somente quem pisa com reverência o solo sagrado de cada vida é capaz de olhar além daquilo que se vê e assim ajudar a cada pessoa a descobrir o caminho que a conduza a felicidade.

Quem não sabe o caminho que deve seguir jamais descobrirá o mapa que conduz ao coração do outro.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Universos paralelos

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/ RJ


Uma prévia preparação talvez tivesse sido aconselhável... mas não houve nenhuma. Na verdade, seria melhor não pensar muito a respeito enquanto a paisagem se transformava ao redor. Apenas a sensação indefinida, uma espécie de “frio na barriga”, confirmava que estava a caminho de um momento tantas vezes insinuado e igualmente esperado. Porque o desconhecido pode causar uma espécie de estranhamento desavisado, daqueles envoltos na névoa que brinca quando não se tem noção do porvir.

Quem sabe se por conta do torpor quase sempre presente no coração dos que vivem cotidianos confusos e desencontrados, ou quem sabe se pela ausência de um ser que nem sempre se reconhece, mas o fato é que algumas mentes se recusam a aceitar de pronto qualquer tipo de empolgação e assim vai se conduzindo sem saber bem o que esperar.

Então, do nada e de tantos outros lugares transitados pela alma surgem as surpresas, embrulhadas em coloridos papéis ou apenas amarradas por frágeis cordões dourados ou puídos pelo tempo, mas também cientes de que existem, de que suas próprias surpresas não são alheias ao seu valor, mas carregam singularidades que dançam ao redor de si mesmas, se embriagam de ilusões e se recarregam na fantasia da verdadeira realidade: aquela que elas mesmas determinaram, sem se deixar levar pelas ondas efêmeras da sanidade formal.

Duelos acontecem nas atmosferas mais improváveis, por meio de euforias tolhidas por quem não se apercebe de sua própria loucura. Afetos se compensam pela perpetuação de um abraço imaginário, de um amigo que está prestes a sucumbir, por uma fresta em que se derramam possibilidades. É algo maior que si mesmo; algo pelo qual vale a pena se arriscar.

Desfiles de peculiaridades são apresentados com direito a tapete vermelho, iluminados por estruturas de pensamento que se manifestam com uma íntima sanidade, desde as coerentes e com raciocínios altamente estruturados até outras com termos quase ausentes; algumas expressividades prestes a explodir em esteticidades brutas, cujas consequências só poderiam ser avaliadas em momentos seguintes. Mas também a demonstração presente de interseções construídas com carinho e pautadas em confianças extremas.

Enfim... emoções, deslocamentos longos e um festival de semioses, com a música, o desenho, a fala que acontece através de afeto presente e direcionado se destacam. Mas talvez a maior dentre todas seja a constante demonstração de uma normalidade que se esforça em explicitar tudo o que se significa, na tentativa de sair de seu próprio espaço e se apresentar com presença e dignidade.

Extrair a aceitação de que qualquer almejada liberdade pode estar em muitos lugares, de muitos modos, mesmo atrás de portões abertos para quem nem sempre deseja sair. Porque as amarras são internas e mesmo sem autorização para ir e vir, precisamos fortemente desses confrontos para nos dar conta do quanto humanos e frágeis nós somos, a ponto de perceber que há um limiar muito estreito que nos separa desse universo, paralelo sim, mas presente e assustadoramente possível.

Perceber lógicas inusitadas é absolutamente fascinante. Permite dimensionar a vida tal como ela se apresenta: com suas infinitas diversidades ativas e seus universos paralelos, que coexistem com a nossa absurda normalidade.

Permite que sejamos loucos pela vida, em pura interseção, em magia de momentos cúmplices e delirantes. Pois quem de nós não alterna momentos, não só nos múltiplos exercícios de papéis existenciais, mas igualmente naqueles em que nos confrontamos com nossos pesadelos diários?

O fundamental é não deixar esmorecer o ato de cuidar e ser cuidado, em suas inúmeras possibilidades e aberturas, pois este talvez seja o supremo exercício de humanidade: o de ajudarmos uns aos outros e iluminarmos, cada um segundo sua luz, a eventual sombra de nossos contemporâneos partilhantes.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Pensando as redes sociais

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


Quero tratar aqui especificamente das críticas que surgem nas redes sociais, de qualquer forma, inclusive numa forma de intolerância. Frequento cada vez menos as redes sociais. Cheguei a conhecer algumas, mas usei somente o Orkut e o Facebook. Deixei de usar o Orkut e o Facebook ultimamente uso para manter contato com alguns colegas, conhecidos, amigos, para contatos profissionais e para divulgar o Alétheia, de onde vem a maior parte dos acessos.

O que tenho observado no facebook, talvez com mais força do que via no Orkut, são pessoas criticando tudo, tendo opinião formada sobre tudo, e tentando impô-la aos demais. No entanto, tenho observado críticas rasas demais, extremamente superficiais. Tanto nas críticas quanto nas defesas de certas posições, os atacantes e os defensores não aprofundam em quase nada – não espero pessoas formadas na área, me contentaria com um mínimo de aprofundamento nas questões, com estudos, leituras, pesquisas em geral, etc. Esses partidários da “livre expressão” de suas opiniões partem de um elemento, premissa, particular e generalizam como regra – esse é apenas um ponto dos muitos que aparecem.

Enquanto observava as postagens críticas, fui tentado a participar e cheguei a debater alguns assuntos. Porém, em determinado momento, notei que gastava tempo com discussões inúteis não levando a nada, principalmente porque os debatedores não estão dispostos a dialogar, trocar ideias, abrir-se a compreender a posição do outro. Acontece uma exposição de ideias numa verdadeira “Torre de Babel” onde ninguém entende a língua do outro e cada indivíduo acha sua opinião a principal.

Cansado desses debates, observei que quem era bem preparado para alguns desses discursos estavam na minha lista de amigos do facebook, mas não participavam. Fiquei intrigado com aquilo. Mas, logo vi que talvez eles já tivessem percebido bem antes, que em redes sociais não se debate. Nela, cabe apenas expor opiniões, até para simplesmente ter quem concorde com o propósito de alimentar o ego de alguns.

Esses “preparados” para várias discussões – políticas, sociais, científicas, religiosas, filosóficas, etc. – me ensinaram, com seu silêncio, que há espaço para esses relevantes assuntos serem tratados, mas, não era a rede social. Artigos, simpósios, colóquios, universidade, encontros, um bom diálogo pessoal, uma roda de amigos, enfim, quaisquer outros lugares que não sejam essas “redes sociais” onde o diálogo não é favorecido.

Não posso negar que encontrei quem se colocasse muito bem nessas discussões, conseguindo sintetizar um assunto que dominava, em apenas um “grande” comentário de três parágrafos. Mas, ser persuasivo, bem fundamentado, logicamente claro, não são requisitos fundamentais de um bom diálogo em rede social. O espetáculo, a superficialidade, a crítica exposta numa imagem com apenas uma frase, as piadas apelativas, são mais eficazes do que o esforço para entender que a vida é mais complexa do que aparenta quando se trata de certas questões – diria inclusive que todas as questões da vida são complexas.

E falando em parágrafos, algo que tenho percebido é a dificuldade que muitos têm apresentado para ler textos. Não digo que não leem. Hoje uma série de Best-sellers com 400 páginas estão lotando a mesa e quartos de adolescentes. Mas, quando falo em leitura, trato daquelas que visam formar uma mudança de ponto de vista (ou de abrangência deste), aquelas que sugiram que se veja além do aparente, que vão além do entretenimento.

Acompanho duas turmas de graduação, como tutor, e vejo como é difícil de pensar um texto de autores que tentam pensar o tempo em que vivem (a escrita desses estudantes dispensa comentários). Se os que pensam a pós-modernidade – quase descrevem a realidade atual – já não são compreendidos, os que pensam em termos universais em vista de tentar compreender o todo, os clássicos, sequer podemos citar. Fico fascinado quando vejo um autor como Nietzsche tão “adorado”, citado, fundamentador de opiniões diversas, enquanto é tão pouco conhecido. Também vejo o quanto a física quântica (e outras áreas) serve de fundamento para várias ideias por pessoas que sequer conhecem a física elementar.

As facilidades da internet geraram, para os que acostumaram a pesquisar numa biblioteca empoeirada e cheia de traças, mais uma ferramenta extremamente útil para aprofundar suas pesquisas. Mas, infelizmente, a geração que já surge com a internet é muito “capacitada” para buscar respostas prontas – desculpem a generalização, sei que não são todos. Se antes a televisão formava mentes passivas, a internet tem sido usada por muitos como ferramenta onde “ativamente” a pessoa escolhe ser passiva, onde as respostas são fáceis e onde a lei do menor esforço se mostra claramente. Temos hoje o grande sábio “Google” para qualquer problema.

O resultante disso tudo se encontra nos cientistas, filósofos, literatos, sábios, psicólogos, teólogos, doutores de internet, que tem opinião (ou “verdade” própria) formada sobre tudo e todos, defendendo uma liberdade de expressão que os mesmos desvalorizam quando vinda do outro. Não sou contra opiniões. Mas, prefiro boas premissas (ainda que opinativas) que me ajudem a chegar a boas conclusões, inclusive as que desconstruirão todo meu arcabouço de ideias formuladas sobre qualquer coisa.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Mulher, página por página.

Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


Existem as que vêm prontas e as que precisam de um pequeno preparo. Tem também aquelas que representam precisar de um preparo, mas que no fundo, são bem mais experientes que muitos homens para o sexo. As mulheres e suas facetas.

A charmosa, a esperta, a medrosa, a independente, a carente. De meninas a senhoras, tipos e tipos, fazendo tipo de todos os tipos e poucas, bem poucas, ínfimas, a viver uma existência dependendo dela mesma para ser feliz. Estabelecendo critérios de convivência a partir de suas descobertas como ser que sabe o que precisa para ser feliz. Não é fácil, a gente sabe. Mas nem tentar, não cabe mais nos dias de hoje. A ignorância é uma fonte funda de infelicidade.

Mesmo que em conjunto com um homem experiente e bem resolvido sexualmente — porque não — hoje em dia, diante de tantas conquistas e de tanta informação, é de bom tamanho que as meninas se cuidem e se preparem para uma vida sexual menos problemática. Menos cercada de opiniões, muitas vezes passadas por mulheres que não conseguem ao menos resolver suas próprias questões.

A boa notícia é que, mesmo transgredindo leis e códigos de conduta de família e de religião, muitas moças estão se preparando melhor para uma sexualidade menos conflitada. Muitas já acordaram para a verdade que dita à vida melhor e mais plena, diante da possibilidade de prazer. Muitas já estão, inclusive, preocupadas com o seu desenvolvimento neste canal da vida e mais: preocupadas em não viverem experiências vazias, pobre de sentidos e de sentimentos. Estão atentas à possibilidade de se frustrarem ao depositarem no parceiro o sucesso de suas primeiras experiências sexuais. A maioria não está mais se entregando sem saber o que realmente quer sentir.

Às que não sabem nada, meus pêsames, meus sinceros sentimentos. Passar anos a fio sem nada buscar entender de sua sexualidade e do sexo com um homem pode representar bem mais que um charminho qualquer. Pode querer dizer que até então, elas nem mesmo existiram e dificilmente existirão sem a presença de um homem em suas vidas. Não que seja bom viver sem eles, não é nada disso, mas só viver para eles pode não dar em boa coisa.

E, rapazes, cuidado com as mocinhas que depositam em suas mãos toda a fonte de sua felicidade. Dependência afetiva e sexual pode gerar danos irreparáveis, traumas para toda uma vida, na vida dos dois. Os meninos podem passar a viver com o prejuízo de que todas as meninas são iguais e elas, para variar, pensando para sempre que homem não presta. Um aparte.

Quando a questão for sexo, é bom que as mocinhas não misturem tudo e definam logo que isto é importante para elas. É muito comum — e isso não é de hoje — mulheres abrirem mão de sua felicidade sexual pela conveniência de uma vida confortável ao lado de um homem que, na maioria das vezes supre a falta que ele faz na cama com, status, carros, joias e todo tipo de mimo que vem fácil, mas que pode custar uma vida de prazeres verdadeiros. Sabe aquela sensação de vazio? Você tem tudo e não está satisfeita nunca? E busca nas orações, nos filhos, nos parentes, no trabalho, nos estudos e mais tarde, quando se dá conta, teria trocado tudo, por momentos plenos de amor.

O conselho para as mulheres é que suas vidas sejam lidas como um livro bom. Aqueles que a gente relê várias vezes com atenção e sublinha quando encontra pontos de onde tiramos lições e passamos a seguir com êxito, alguns de seus exemplos. Descubra-se o mais cedo possível. Evite as armadilhas que irão levá-la à amargura de uma rainha de um castelo de areia.

Não despreze seus sentidos. Seu corpo fala e seu bom senso, somado à sua inteligência e sabedoria, podem escutar e atender sinais que permitirão, por exemplo, que você tenha um rei ao seu lado para sempre. Com status, carros, joias, todos os modelos e perfumes imagináveis e compráveis da face da terra, mas em uma relação coroada de muita felicidade, da felicidade que você um dia, descobriu antes de a dor bater a sua porta, que era importante para você.

Se sexo for importante na sua vida, procure auxílio caso não consiga resolver sozinha, mas não suplante ou sublime esta necessidade em nome de nenhum padrão que não seja o que você estabelecer para viver sorrindo.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Fruir ou Fluir? Você decide.

Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico, Escritor
Porto Alegre/RS


Você sabe a diferença entre as palavras fluir e fruir? Fluir tem significado de escorrer, escoar, correr em estado liquido. Fruir é totalmente diferente, significa ter prazer, desfrutar, gozar, usufruir.

O champagne escorrendo pela garrafa está fluindo, o casal bebendo está fruindo. Maratonistas, concertistas, bailarinos, amantes, poetas, cirurgiões, quando mergulhados em suas atividades, geralmente estão fruindo, ou seja, desligam-se dos problemas mundanos e são capazes de esquecer até mesmo de comer ou dormir, tamanho o prazer que desenvolvem.

O processo de fruição não acontece somente com pessoas dotadas de talentos especiais. Enquanto consertamos o rádio quebrado, atendemos um cliente, lemos um livro, voltados verdadeiramente para a tarefa, estamos fruindo.

Se fruir é tão prazeroso, por que não continuamos neste estado indefinidamente? O que existe de melhor para fazer? Ficar fruindo por muito tempo faz mal? Pelo contrário, fruir desenvolve um estado de bem estar, euforia, regozijo, criatividade que leva as pessoas a esquecerem do tempo e das agruras da vida.

O que faz com que as pessoas deixem de fruir é o convencimento. O menino é obrigado a interromper a brincadeira porque precisa jantar ou fazer o tema de casa ou emprestar a bicicleta para o irmão menor, e só depois vai poder voltar a fruir de novo. O escritor não pode continuar escrevendo seu livro, porque precisa trabalhar como jornalista para sobreviver. A mãe suspendeu as aulas de piano porque os filhos pequenos exigiam atenção. Alguma justificativa há de surgir para interromper a fruição.

Casais, amizades, equipes, famílias, empregos também podem em algum momento, transitoriamente, deixar de fruir sem maiores prejuízos. Mais adiante retomam a jornada, muitas vezes fortalecidos. Em outros casos a interrupção é tão danosa que a fruição jamais retorna. Esta perda é tão grande, que alguns tentam compensá-la com exageros de quantidade. Comida, bebida, compras, exercícios, sexo...

Quanto você quer para deixar de fruir? A Sociedade pode lhe fornecer esta compensação, é só você deixar de fazer aquilo que gosta. Cada dia você terá algo novo para ser consumido e cada vez será necessária uma quantidade maior para que você se satisfaça, chegando ao ponto de deixá-lo fatigado com tanto esforço e desgostoso com tudo que receberá em troca. É o que se chama de vazio por excesso.

Não existe garantia de felicidade, mas a maneira de tentar manter ou retomar a fruição passa por abandonar as compensações que nos impedem de chegar naquilo que realmente somos. Quando se está bem consigo mesmo, quase nada é preciso. Infelizmente vivemos em uma sociedade onde a maioria das pessoas deixa de fruir suas vidas e passa a fluir de acordo com a correnteza. Você sabe mesmo a diferença entre fruir e fluir?

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Fantasia

Vânia de Freitas Dantas
Filósofa Clínica, Poeta
Uberlândia/MG

No
fundo profun-
do de você eu me
refaço e me realizo
para viver e - mais im-
portante - con-
tinuar vivendo sem
nenhum vírus ou mo-
léstia que nos inter-
rompa. Assim, qua-
se que enclausurado,
ainda me sinto com-
pletamente livre para
tudo aquilo que você
ousar. Vista a sua fan-
tasia, suas rendas; ren-
da-se, encare. Este mo-
mento que é só nosso
pode durar mais do que
você imagina. Pois que
sejam só lembranças de
prazer. E dor, quase que
nenhuma. Porque, se ho-
je as relações são uma a-
meaça, nosso encontro é
uma explosão completa.
Eu deixo que você venha;
venha tranqüilamente, cons-
ciente. E com toda a incosci-
ência de que sofrem as bruxas da
sedução. Me tome, te entrego. Vem...

Nota do Editor: poema impresso em marcador de página para a Campanha de Prevenção da Aids, da Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia e distribuído durante o Carnaval.

domingo, 20 de maio de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCIX*


"(...) vocábulos que estão em permanente estado de mutação, em peças de um caleidoscópio, dando a mais inesperadas combinações"

"A língua da análise científica, esqueletizada pelo uso de abstrações, é rica de termos que definem e determinam as coisas em todos os sentidos, porém é pobre de palavras, criadoras de imagens"

"O artista que aspire a pensar originalmente e a dizer coisas próprias de seu tempo deve preparar a língua de que necessita com suas próprias mãos"

"O poeta imagina, a imaginação vê o mundo como não é... finge, inventa, não imita (...) criador, inventor, não imitador, eis o caráter essencial do poeta"

"As regras nascem quando falta quem pense (...)"

"O mal de nossa época é que a poesia já esteja reduzida a arte, de modo que, para ser verdadeiramente original, é preciso romper, violar, desprezar, deixar de parte inteiramente os costumes e os hábitos e as noções de normas, de gêneros, recebidas de todos"

"(...) justamente esse desvio da norma, que rompia as expectativas do leitor, explicava o processo da arte, que é um processo de desautomatização (o uso normal do código automatiza as reações) mediante um recurso de singularização, efeito de estranhamento"

"O poeta uso o código da língua em cada obra ou conjunto de obras, como uma espécie de subcódigo individual, personalíssimo. Este código privado e individual, no nível da função poética, vai constituir um idioleto"

"Chomsky põe a ênfase no aspecto criador da linguagem, ao nível de sua utilização corrente, dizendo que as coisas se passam como se o sujeito falante inventasse de certa maneira a língua à medida que se fosse exprimindo ou a redescobrisse à medida que a fosse ouvindo falar em seu redor"

"Lévi-Strauss defende o ponto de vista de que o signo linguístico é arbitrário a priori, mas deixa de o ser a posteriori, pois os grupos de sons escolhidos arbitrariamente para designar objetos acabam afetando de nuances particulares o conteúdo semântico que lhes ficou ligado"

"(...) a adoção da linguagem verbal como padrão absoluto e tirânico de todos os demais sistemas de signos, a redução destes à condição de sistemas heterônomos, pode levar a descaminhos perigosos e empobrecedores"

*Haroldo de Campos

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Noite...

Olympia
Filósofa Clínica, Poeta
São João del Rei/MG

Vizinho de quarto
Esperança - perda
Alegria - dor
Riso - choro
Movimento - estagnação
Gente - fragilidade
Coração - vazio
Cheiro - ausência
Voz - silêncio
Possibilidade - nada
Vida - morte
Caminhos...

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Deuses e Gregos

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG


Que os deuses do Olimpo nos habitam
não há como duvidar
politeístas, múltiplos,vastos e devassos
sem religião, nem diabos
libertavam e destruíam
Dioniso, Apolo, Afrodite...
Socrátes e Platão bem sabiam
Pré-socráticos intuiram
e criaram a filosofia
pois podiam pensar livremente
escolher caminhos
sem "ismos"
sutis viam os dois lados da moeda
o bem e o mal misturado
luz e sombra, lado a lado complementares
herdamos a reflexão
renascentistas perceberam
...e nos perdemos na Idade Média
buscamos freneticamente salvadores
abandonamos os deuses e fugimos do Olimpo
empobrecemos na miséria
passamos a ver apenas o mal
na busca desenfreada do bem
na repressão paralizamos
que retornem os deuses gregos!
que retorne a alma!
que nos libertemos das lentes moralistas
e trilhemos os abismos e as florestas
deixando de lado o ego heroíco
caminhando como humanos
observando os fenômenos como eles são
vendo as coisas na profundidade
resgatando o corpo almado
sem preocupar com curas e milagres
pois tudo é imaginação

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Simplesmente

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ


Na vida, em geral, nem sempre compartilhamos sentimentos... estes, às vezes, estão potencialmente defasados, como se buscassem uma completude que nunca se realiza. Invariavelmente não é algo que se deva lamentar, apenas é o que acontece. Concretizamos o que somos capazes de exercer e externar, ainda que sem limites para novos voos. Cada um sente ao seu modo... e todos são válidos!

É provável que nos apaixonemos por aquilo que mais valorizamos, procurando no outro o que nos identificamos ou, eventualmente, o que falta em nós. Mas talvez essa busca seja exatamente o que nos sublima, pois dela extraímos sentidos e horizontes.

Quando entendemos que as subjetividades são compreendidas a partir de tudo o que nos revela, no sentido próprio do que nos compõem, realizamos um encontro com nossa própria essência e isto nos remete ao que acreditamos que somos ou ao que achamos de nós mesmos.

Com os sentimentos também pode ser assim. E nesta via, não custa lembrar que amor simplesmente se sente... simples como o calor do Sol, a pluralidade das estrelas ou o magnetismo da Lua... simples como a explosão que emana de si mesmo, do que não se esgota, não se supõe, não se explica... apenas existe e se encanta, absorto na ingenuidade do seu próprio sentido. Amar sem amarras, sem culpas, sem limites, sem consequências é tarefa de gente... ou apenas daqueles que existem e se permitem.

Sentimentos podem até mesmo ser referência de espanto filosófico para aqueles que se convertem ao rigor não dogmático do saber puramente existencial... isso, quando aceitam as multiplicidades de tudo o que não explicam ou não sistematizam.

Ainda assim, para alguns outros, esses mesmos sentimentos passarão pela via epistemológica da racionalização emocional. Mas então não é possível que sejam afetivos, diriam alguns. E por que não? O que mais fascina na constituição humana é justamente sua incrível capacidade de se moldar às infinitas possibilidades, inclusive sentimentais.

Se lhe convier que sentimentos devam passar por rigores racionais, pode até ser que não encontre reflexos na experiência usualmente estabelecida, mas sempre haverá um par de sapatos que lhe serão divinamente ajustados.

E ainda temos a eventual possibilidade de sentimentos que inexistam em manifestações convencionais, como buracos negros que sugam a matéria existente e convertem-na em algo supostamente inexplicável. Propostas surreais de existência emocional adversa, mas ainda assim passíveis de encontrar quem os admire.

Justamente da incrível sublimação de que se supõem o entremeio da loucura que se revela, é que partilhamos os sentimentos que se manifestam e o único fato que talvez não se cale seja o de que eles existem e estão entre nós, como seres invisíveis a nos rondar. Observadores sutis que nos acompanham e se exprimem quando nem sempre estamos preparados.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ao Deus desconhecido

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


“De pé, então, no meio do Areópago, Paulo falou: ‘Cidadãos atenienses! Vejo que, sob todos os aspectos, sois os mais religiosos dos homens. Pois, percorrendo a vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei até um altar com a inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Ora bem, o que adorais sem conhecer, isto venho anunciar-vos’” (Atos dos Apóstolos 17, 22-23).

Quais templos de dúvidas estamos reservando ao Deus desconhecido? Será que podemos colocar um deus no lugar de um templo cujo lugar esteja reservado para as nossas maiores dúvidas. Preenche-lo não seria um abandono da possibilidade das buscas? Será que não é a busca que move o homem e este cada vez que responde definitivamente determinadas questões acaba diminuindo suas capacidades e movimentos naturais da vida?

Mestre Eckhart, místico medieval dizia que as imagens de deus eram criações que o afastam de deus. Portanto, a máxima dele: “Peçamos a Deus que nos livre de deus”. Tendo em conta que esta divagação possui uma vertente agnóstica e não mística, podemos ver que o próprio discurso de quem vive em profundidade as questões da religião, fala antes das formas de tentar contemplar um “deus” do que privilegiar um discurso moralista (como a maioria das religiões ocidentais o fazem hoje). Mas, o foco aqui não é religião, e sim as “certezas”.

A maior beleza da humanidade, afirma uns é a natureza. Segundo alguns ela é perfeita, segundo outros ela é estudável (permitam-me o neologismo), para outros ela é a mais perfeita criação de “deus” seja ele qual for e que expressa sua beleza ou perfeição. Mas, o que todos os que se maravilham diante do que percebem (religiosos, cientistas, filósofos, um simples lavrador, engraxate, poeta) é a indizibilidade daquilo que seus olhos o permitem maravilhar-se.

Talvez o ponto em comum entre todos é o ar de maravilhar-se ou espantar-se diante da natureza e o segundo passo é querer entendê-lo. Filósofos postulam que o espantar-se com as coisas é o princípio da filosofia, que por sinal não finaliza suas questões por mais abrangente e sistemática que seja sua construção teórica.

Outra maravilha que observamos na vida e na natureza é o que as pessoas chamam de amor. Embora seja um dos termos mais comuns e mais controversos da sociedade. Pois diversos são os grupos e indivíduos que proclamam o amor quando na verdade cada pessoa ama de um jeito. Caso o leitor discorde de mim, pergunte ou observe como as pessoas a sua volta expressam na prática o amor por alguém. Se afirmarem que o sentimento é algo comum a todos, será uma hipótese vazia, pois até onde é observável, sentimentos não são mensuráveis em outro lugar que não a vida concreta.

Não estendendo essa reflexão para além de Deus, Natureza e Amor, retomemos o raciocínio. Deus é o nome dado ao que não é Deus, pelos místicos tais como Eckhart e João da Cruz o afirmam em suas obras. A natureza nos coloca diante de um maravilhar-se que nos impulsiona a buscar respostas sobre sua origem, funcionamento e sentido.

O amor é um “sentimento lindo”, porém não é algo “superior”, “sobrenatural”, ou tem a origem em outra coisa que não a própria vida (ou seríamos tão limítrofes e asquerosos que não nos julgaríamos capazes de possuir um sentimento tão nobre por qualquer coisa que seja?).

Diante de tais afirmações (passíveis e saudavelmente aceitáveis de serem postas em questão) podemos inferir o seguinte: diante de um experiência pessoal cuja referência (aparentemente sobrenatural) não se explica, não explique, pois perderá todo o sentido (se é que queira que essa faça sentido).

Toda explicação será posta em debate e como toda afirmação humana, correrá o risco de ser racionalmente desfeita. Quanto à natureza em sua origem, funcionamento e sentido para quem se maravilha com esse fenômeno digo que primeiro experimente essa alegria que, até onde sabemos, só o homem é capaz de perceber desta forma. Quanto às explicações, toda afirmação será limitada e questionada.

Se o leitor faz uma afirmação dogmática (seja de qualquer lugar que possa vir essa dogmatização) guarde para si. Pois, a partir do momento que for posta em questão para um grupo de humanos, ela será passível de ser destruída. Portanto, se quer pôr à prova sua afirmação, abra para discussão. Mas, se tiver medo de desfazer tudo o que acreditou ser a resposta final até agora, mantenha-se com suas certezas guardadas.

Por fim, quando se tratar de amor, não o explique ou não queira que ela tenha uma origem inexplicável (cuja contradição está em afirmá-la inexplicável explicando-a) e que ela tem um caráter homogeneamente universal. Basta apenas amar. O resto é resto. E toda afirmação é questionável, inclusive a minha aqui no texto.

Grande abraço a todos e fiquem à vontade para comentar, criticar, apoiar, concordar ou discordar. Pois, se sou contra dogmatizações, minha opinião não deve contar como dogma e me coloco aberto para mudar minha opinião ou minhas certezas por outras mais plausíveis.

sábado, 12 de maio de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCVIII*


"Aonde chegaríamos se quiséssemos despir o conceito dos primórdios de sua natureza relativa ? Só existem começos relativos"

"Certas conquistas da alma e do conhecimento não podem existir sem a doença, a loucura, o crime intelectual"

" Na esfera de Lessing, nós nos acostumamos a relativizar as coisas, a humanizar o conceito de verdade, e nos habituamos à ideia de que os critérios do que é verdadeiro residem menos na verdade defendida do que naquele que a defende"

"A palavra é recriada, sem que tenha sido gasta, é única, como se fosse retirada pela primeira vez do seio da linguagem, reinventada, reassociada com o seu sentido de maneira que esse sentido começa a transcender estranhamente (...)"

"(...) os amigos da humanidade e da perfectibilidade que acreditam que o ser humano almeja a felicidade e a vantagem, quando na verdade ele também anseia por sofrimento, essa única fonte do conhecimento, e não deseja o palácio de cristal e o formigueiro da perfeição social, jamais abrindo mão da destruição e do caos"

"(...) enquanto poeta, Hermann Hesse ama a postura de editor e de arquivista, o jogo de esconde-esconde atrás da máscara de alguém que "revela" os papéis de outras pessoas"

"A natureza não oferece paz, simplicidade, univocidade; ela é o elemento da interrogação, da contradição, da negação, da dúvida ampla"

"(...) aquilo que resulta da doença é mais importante e estimulante para a vida e sua evolução do que qualquer normalidade aprovada do ponto de vista médico"

"A vida não é suave com as pessoas, e podemos dizer que ela prefere mil vezes a doença criativa, doença que doa genialidade, doença que enfrentará os obstáculos a cavalo, saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde que anda a pé"

"A genialidade na arte seria então o elemento da surpresa e do encanto que causa pasmo, o elemento da ousadia que só pode ser conhecido em suas realizações"

*Thomas Mann

sexta-feira, 11 de maio de 2012

FRIO*


Dia nublado
Úmido e frio
Aconchego, fogão a lenha
Batata picada miudinha
Tempero verde e alho
Transforma numa delicosa
Sopinha de batata
Aroma invade
Toda casa
Sabor da infãncia
Trás personagens
Daquele tempo
Eta vida ligeirinha

*Olympia
Filósofa Clínica
São João del Rei/MG

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Loucura – danação da norma

Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG


Pensei em escrever sobre os itens a loucura como tentação/danação à norma e observei a presença dela nos artistas, nas mulheres e nas clínicas, levada por diferentes motivos, dentre os quais a compulsão, a percepção, a sociabilidade e a mente.

Percebe-se momentos de loucura quando o ser não suporta o abstrato ou o sensorial e desmonta por dentro ou por fora, tendo como motivos o que ele acha do mundo e da vida batendo de frente com seus preconceitos, as buscas que tem em confronto com os próprios valores, e daí pra uma série de outras coordenações tópicas possíveis.

No mundo dos críticos perfeitos é possível rotular qualquer um. Segundo José Ângelo Gaiarsa , trata-se da expansão do sentimento egoísta na sociedade: o que não faz parte da família é estranho e não merece cuidado.

O cliente nem sempre tem razão simplesmente porque o ser humano não é único e universal. A sociedade é uma fábrica de alienados que atinge o seu ápice nos atendimentos de telemarketing e balcão, onde não há pessoas, mas a exigência de máscaras e tons de voz.

Por outro lado, destacamos a loucura que produziu frutos estéticos aceitos pela sociedade, como na história de Camile Claudel, musa-aluna-colega de Rodin rondada pela habilidade escultural em paranóia com a busca amorosa frustrada; a loucura de van Gogh pelo reconhecimento de si e de sua obra; a beleza da escritora Virgínia Woolf entrando no rio para morrer por seus dramas, afogando os problemas, os pré-juízos, a bissexualidade, a esterilidade uterina e a instabilidade num bilhete, o adeus desesperado ao amado, tal qual Elis Regina ao telefone, após a dose fatal de cocaína.

Sim, a poesia pode regenerar o escritor pelo encontro com o belo, mas também machucar, como a espátula na tela. Como machucava a dor de cabeça de Antonin Artaud, aliviada com ópio, gritando dentro dos sanatórios, internado por vontade própria, tal era o sofrimento; a mania de super-homem de Nietzsche (cuidado com o trocadilho, quem não conhece...), de quem receito “A genealogia da moral”, ou a moral do ressentido, afundado em despeito; a certeza da Cartomante de Machado de Assis, que guia o consulente ao seu destino, com a mesma objetividade de “O Alienista” , na mais perfeita consideração que Guimarães Rosa defende: “Ninguém é doido. Ou, então, todos” .

E como fumam os alienados... como se alienam os fumantes ao se concentrar na respiração... por que umas drogas sim, outras não? Compulsivos são eternas crianças? Substituem a comilança pela bebeção; a pizza pelo chiclete; o cigarro pela atividade física... tudo muito. Muita ansiedade, muita angústia. Vamos comer o mundo, comprar o shopping, mascar os homens, um sem-fim de rasgar o sonho – fígado de Prometeu.

E a cultura bairrista alega que a cerimônia cultivada num canto do mundo é crime noutro, quando se utilizam a coca, o daime e a erva do diabo. Ela coloca no mesmo saco a dança dos derviches, a pajelança, a mediunidade e a histeria para se resguardar na normalidade. O exagero da histeria, na etimologia vem de útero gritante; úteros enlouquecidos cospem sangue em rios, se contorcem e dão nó em corpos frágeis, chacras indefesos...

Afinal, doido por que? Doido pra que? O manifesto biológico dos hospitais tem sua explicação. Loucura como fenômeno mental pode ser desestruturação do raciocínio. Na dissecação, com tesouras fortes, “o fruto, então, se abre: sob a casca, meticulosamente fendida, surge algo, massa mole e acinzentada, envolvida por peles viscosas com nervuras de sangue, triste polpa frágil em que resplandece, finalmente liberado, finalmente dado à luz, o objeto do saber.” A noz de Foucault encerra o motivo biológico do erro comportamental e merece medicação para entrar nos eixos.

Alguns têm o sexo como instância de existência, às vezes exageradamente para seus próprios padrões, adoecidamente, culpadamente. É a pessoa que nos revela a intensidade nos conflitos com os valores que tem, no que pensa da sociedade e de si, na sua relação sensorial com o corpo, na relação abstrata com ele. Na relação sensorial com os pensamentos... na visualização com sons e cheiros...

Abstratamente composta e nefasta, assim a pessoa se vê um problema. A loucura é um caminho muito fácil para se buscar e até mesmo desejado nostalgicamente por uma geração que já não tem motivos para lutar. “Eu sou um pássaro/ me trancam na gaiola/ mas um dia eu consigo existir/ e vou voar pelo caminho mais bonito” . Assim Renato Russo narra o pensamento de Clarisse, de 14 anos, na sua tentativa de suicídio cortando os pulsos. Neste mundo de determinações sobre os estados de ânimo, todos os atos extremos seriam atentados da loucura.

1. GAIARSA, José Ângelo. A família de que se fala e a família de que se sofre.
2. ASSIS, Machado de. O alienista.
3. ROSA, Guimarães. A terceira margem do rio.
4. Foucault, Michel. O nascimento da clínica.
5. Renato Russo. Clarisse.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Eu só quero saber do que pode dar certo.

Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG


O que é dar certo? O que pode dar certo? Não, melhor perguntar, como pode dar certo? E melhor, a quem perguntar? Como não errar?

O que é tacanho, quase sempre é o pressuposto que sugere o erro. É pensar que sabe como fazer para tudo dar certo. Que não necessita do que o outro pensa, que o outro deve se enquadrar e pronto. Ou então, o ridículo imaginário que o outro pensa como você e deseja o mesmo que você. Ou o que é pior, que o outro está tão disposto quanto você.

É como alguém que acredita piamente que o tempo resolve tudo. Alguém um dia disse isto. É mais fácil e menos trabalhoso. Mas e se, o outro, prefere ajeitar as coisas, esclarecer, resolver se aceita ou não? Como assim o tempo resolve tudo? No máximo acomoda tudo e na maioria das vezes, por falta de comunicação, por omissão, oportunidades valiosas são perdidas. Bom, mas tem quem prefira ir pulado de galho em galho.

O sexo, se hoje em dia não estivesse tão banalizado, seria uma forma de aferir estas colocações. Mas em que outro âmbito da vida se pode analisá-las? Vamos fazer pelo sexo mesmo. Pelas posições sexuais, que são apresentadas como possibilidade de aumento de prazer.

Por exemplo, todas as 64 posições do Kama Sutra, foram estudas e apresentadas ao mundo por um homem que sentiu e ouviu dizer de quem compartilhou com ele da experiência, que sentiu prazer ao executá-las. O maravilhoso livro do amor, o Kama Sutra de Vatsyayana. Quanta sabedoria, que bela intenção em ajudar aos casais que se amam, maneiras de explorar melhor seu encontro sexual. Quanta doçura em tentar não separar o sexo do amor. O olho no olho, as sensações que ultrapassam a região da genitália, que invadem a alma e o coração. A preocupação em fazer o outro feliz.

Hoje se fala em Kama Sutra como se bebe água. Vatsyayana deve estar se revirando no túmulo. Foi para o amor que ele o criou, que estudou, experenciou e divulgou. Tal sabedoria e arte, vendidas como artefato erótico para encontros profissionais ou fortuitos, resultado da incompetência em aprimorar junto a um amor o melhor do sexo.

As pessoas estão malucas. Estão buscando formas de prazer, intensidade de prazer em situações, com outras pessoas, com quem não tem a menor afinidade.

É como, se em um primeiro encontro, com alguém com quem nem um beijo trocou ainda, você quisesse ou pretendesse, ter uma explosão de prazer combinando as melhores posições do Kama Sutra, aquelas que você elegeu como melhores, sem ao menos saber se o seu parceiro ao menos um dia, já ouviu falar em Kama Sutra. Quanta boçalidade.

Propostas como esta não foram criadas para seres imediatistas, iludidos e fora da realidade, que vêm em qualquer pessoa ou em qualquer coisa, um caminho para a felicidade. Não é bem assim , não é tão fácil assim. Por mais otimista que seja a visão de cada um, não é tão fácil assim.

Não nego que afinidade seja algo que se detecta instantaneamente e que seja possível um excelente resultado entre duas pessoas que se propõe a compartilhar em sexo, sem se conhecerem amplamente. Mas casos assim são raros e todo mundo está por aí, se engalfinhando com um e com outro, julgando e justificando ser, pelo menos, por afinidade.

Quer testar se foi ou não? Quando tudo acabar - você é um ser humano, tem algo a mais que simples instinto – tente não se sentir em um vácuo. Se isto acontecer, se alguma boa impressão for registrada, se um suspiro te subir ao peito, havia ao menos afinidade. Caso contrário, é como se você terminasse, lavasse o vibrador e o guardasse na gaveta para uma próxima vez, ou já sairia dali, planejando um dia na semana que vem, planejando suas finanças para alugar novamente uma moçinha do sexo de plantão, a qual você não vai lembrar a fisionomia, meia hora depois. Vazio, pobre, veloz, fugaz.

Praticar o Kama Sutra nestas situações dá certo? Tem gente que acha que dá. E é possível que dê mesmo, depende da expectativa de cada um. Tem gente que se julga feliz, porque “deu uma bem dada”, em duas posições maravilhosas do Kama Sutra. Ok, vá em frente. Se isto é bom para você. Felicidade é busca de cada um, é o dever único e irrevogável de cada pessoa.

Fazer dar certo, com outra pessoa, propõe, mesmo que não haja afinidade e muitas vezes não há um mínimo de acordo. Isto é possível. Não desistam tão fácil. Não acreditem que possa ser mais fácil sair por aí. As aparências enganam.

Casais que não se afinam em tudo, que no sexo tem opiniões diversas, mas que tem a inteligência de saber que tudo se ajusta, que podem se ajustar, olham para o Kama Sutra e combinam testarem juntos as melhores posições. Que bela sacada. Em questões anatômicas especiais, onde o casal pode ter dificuldade em se encaixar para o sexo, o Kama Sutra vem como excelente auxilio, oferecendo inovação, ilustrando as possibilidades de encaixe de acordo com cada dificuldade. Que benção.

Entre casais afins, as posições sexuais acontecem naturalmente, confortavelmente e o prazer vem de onde nem se imagina. Casais assim olham o Livro do Amor, as posições sugeridas e felizes descobrem que já fizeram esta ou aquela. Que já fizeram muitas delas. Que delícia.

Para casais que se dão super bem em tudo, ele vem como um manancial de novidades que possibilitarão este casal, viver sua gostosa rotina, variando, brincando, gozando da oportunidade de estarem juntos, construindo uma felicidade. Que felicidade.

Namastê.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ir ao Mundo do Outro

Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC


Querido leitor, paz! Desde que passei diariamente a falar na Rádio Som Maior, muitas pessoas que me encontram debatem na rua, fazendo suas ponderações, assim como também fazem sugestões de temas e, geralmente, os acolho. Hoje, por exemplo, vou falar de um tema sugerido pela xará Albertina Manenti Silvestrini.

Refiro-me ao livro “Operação Cavalo de Tróia”, de JJ Benitez, lançado em 1984, que conta que no fim da vida, em seu refúgio no México, um militar e cientista da Força Aérea estadunidense confia a ele documentos que, surpreendentemente, revelam a execução de uma experiência que lhe permitiu voltar no tempo. Na verdade, retornar quase dois mil anos e ser testemunha ocular e participante dos últimos dias de Jesus Cristo na terra. Ele foi testemunha de sua entrada em Jerusalém, de sua prisão, julgamento, crucificação e ressurreição.

Esta experiência, batizada pela NASA de “Operação Cavalo de Tróia”, teria sido realizada sigilosamente em 1973, em pleno coração de Israel. O major chamava esta experiência prodigiosa de “a grande viagem”. Esta viagem exigia a aceitação e cumprimento de algumas regras na qual pretendo refletir com vocês, meus ouvintes:

A primeira regra era que os exploradores não podiam, sob nenhum pretexto, nem sequer de sobrevivência, mudar ou influir nos homens, grupos sociais ou circunstância. Resumindo: a história não poderia ser modificada. Já a segunda regra era de que os “grandes viajantes” não poderiam levar nem trazer nada do mundo do outro. Afinal de contas, suas missões não eram julgar as pessoas ou os acontecimentos, mas sim, observar e ser testemunha.

Boa parte dos meses anteriores à viagem, o major se dedicou a estudar a língua falada por Cristo, o aramaico ocidental ou galileo. O major não quis se aprofundar muito nos textos bíblicos, para enfrentar os fatos sem ideias preconcebidas e de espírito aberto, com a obrigação de observar e transmitir a verdade daqueles dias, conservando uma atitude limpa e desprovida de pré-juizos. Tanto a nave chamada de “berço”, quanto o major foram revestidos com uma película protetora para evitar que germes fossem ingressados em outro tempo e em outras pessoas.

Durante a releitura desta obra, agora com o olhar filosófico clínico, me peguei pensando nas vezes que vamos ao mundo do outro com a pretensão de influenciar na sua história de vida, às vezes com conselhos, fofocas. Quantas vezes vamos ao mundo do outro com a pretensão de torná-los a nossa imagem e semelhança. Das vezes que vamos ao mundo do outro como juízes e, pior, com a sentença pronta.

Que direitos temos de ir ao mundo do outro levando nossos germes? Será que temos o direito de ir ao mundo do outro levando nossos problemas, nosso mau humor, nossas queixas?

Lembro-me dos meus primeiros dias de estágio como aprendiz de filósofo clínico o quanto foi difícil exercitar o ouvido atendo, me dedicando em apenas ouvir a história de vida do partilhante sem interferir, sem agendar, sem julgar, sem interromper para simplesmente não mudar o curso da história do meu partilhante.

Para mim como pai, para você como mãe, como vamos ao mundo dos nossos filhos? Você professor, empresário, comerciante, político... Quem é o outro e como vamos aos seus mundos? O outro, para Emanuel Lévinas, é solo sagrado e não podemos adentrar nesse solo levando as sujeiras de nossas sandálias.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre ir ao mundo do outro?

domingo, 6 de maio de 2012

Fragmentos Filosóficos Delirantes XCVII*


"(...) as conclusões a que chegamos através do raciocínio tinham muito pouca ou mesmo nenhuma influência para alterar o curso de nossas vidas"

"Diante do desconhecido o homem é aventureiro. Dar-nos uma sensação de esperança e felicidade é uma qualidade do desconhecido. O home sente-se robusto, jovial. Mesmo a apreensão que o desconhecido desperta é muito gratificante. Os novos videntes viram que o homem fica em sua melhor forma diante dele"

"Um nagual deve ser flexível o suficiente para ser qualquer coisa. Ser um nagual, entre outras coisas, significa não ter nenhuma posição a defender"

"(...) os antigos videntes se concentraram exclusivamente no desenvolvimento de milhares das mais complexas técnicas de feitiçaria. Acrescentou que o que nunca perceberam foi que seus métodos intrincados, por mais bizarros que fossem, só tinham valor como meios de quebrar a fixação de seus pontos de aglutinação e fazer com que se deslocassem"

"Dom Juan havia-me repetido que os guerreiros vivem com a morte ao lado, e do conhecimento de que a morte está com eles retiram a coragem para enfrentar qualquer coisa. Ele dissera que o pior que nos pode acontecer é termos que morrer, e já que esse de qualquer modo é nosso destino inalterável, somos livres; aqueles que perderam tudo nada mais tem a temer"

"(..) a percepção coerente mas irracional de que tudo que aprendemos a perceber está inexplicavelmente ligada à posição em que o ponto de aglutinação se encontra. Se ele é desalojado daquela posição, o mundo deixa de ser o que é para nós"

"(...) vê-lo sozinho, sem a ajuda de ninguém, era um passo importante, porque todos temos certas ideias que devem ser quebradas para que sejamos livres; o vidente que viaja para o desconhecido a fim de ver o incognoscível deve encontrar-se em um estado impecável de ser"

* Carlos Castañeda

sábado, 5 de maio de 2012

Outra resenha

Livro - Poéticas da singularidade
Por Prof. Dr. José Mauricio de Carvalho
Chefe do Departamento de Filosofia da UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei/MG)
16 de November de 2008

STRASSBURGER, Hélio. Filosofia Clínica, poéticas da singularidade. Rio de Janeiro: e-papers, 2007. 116 p.


O livro de Hélio Strassburger expõe suas experiências fazendo um relato singular da filosofia clínica por um terapeuta experiente e sensível. O autor percorre em vinte e seis pequenos textos os momentos fundamentais da relação clínico-partilhante e das singularidades desse processo, valendo-se do estilo poético.

A filosofia clínica é apresentada como “escrita em reciprocidade de compartilhar (...) aquilo que, para muitas pessoas, é o mais sagrado, sua história de vida” (p. 7). Essa é sua forma de reconhecer que existir é coexistir. É sobre esta relação compartilhada que o autor descreve “uma fenomenologia do fazer clínico que esboça encantamentos indizíveis ao olhar de senso comum” (p. 8). Evidencia-se a sua convicção de que a atividade clínica não pode ser bem descrita com linguajar comum, só a poética alcança seus recantos mais escondidos. O propósito da clínica é promover uma “interação transformadora com as crises” (p. 9). Ela é uma forma de indicar novos roteiros de vida para pessoas cujos choques na estrutura de pensamento tornaram a vida difícil e sem sentido.

O início do processo revela a aproximação de mundos diversos, terapeuta e partilhante vivem realidades distantes porque focam a circunstância de maneira diferente. Hélio assume um pressuposto da fenomenologia, não há um mundo em si, mas vários de acordo com a atitude existencial adotada pelos sujeitos. Na fase inicial do processo é preciso cuidado para não reduzir o mundo do partilhante a uma tipologia rígida ameaçando sua singularidade, pois como o homem é existência isso significa que sua estrutura de pensamento constitui uma ótica da existência. O espírito do encontro é a abertura à mudança, o cuidador não reduz as alternativas do partilhante. “O ir e vir das interseções, afirma o autor, aprecia roteiros para a desconstrução das antinomias da inflexibilidade” (p.13). É este encontro que promove a desconstrução de conflitos íntimos incompreensíveis “nos paradoxos das fórmulas prontas” (p. 14).

O reconhecimento da singularidade existencial é o aspecto mais marcante do início do processo. Em linguagem fenomenológica isso significa que o homem é um projeto único e seu ter que ser o torna histórico. A habilidade do cuidador leva o partilhante a lhe apresentar sua história de vida da forma que ele julgue mais fácil expor suas intimidades mais fundas, suas dores mais escondidas. “Vestígios dessa raridade existencial se antecipam nos primeiros encontros, através do sofrer em pedidos de ajuda” (p. 15).

Nesse momento, explica o autor, a atenção se concentra na reciprocidade cuidador – partilhante. O propósito da acolhida existencial é permitir “a ruptura com as estruturações de onde tirava forças para limitar as possibilidades de melhor viver” (p. 16). Ao ser acolhido, o partilhante encontra alternativas para reconstruir sua vida, superando os nós existenciais nascidos nos conflitos de sua estrutura de pensamento. O terapeuta acompanha a jornada única do partilhante, pois o viver é “um jeito único na subjetividade de cada pessoa” (p. 19). O ambiente de liberdade no compartilhar de experiências “nunca se confunde com o artificialismo do laboratório” (p. 20). O desafio da relação será então a de favorecer o acesso do partilhante a seu mundo, mesmo que ele pareça absurdo, pois “a vida busca escrever seus melhores roteiros a partir de sua existência” (p. 22).

O mundo do partilhante começa a se abrir com as primeiras queixas denominadas de assunto imediato. Quanto mais o partilhante encontra acolhida ao expor sua queixa inicial, quando melhor compreendida sua história de vida e mais bem elaborado o planejamento clínico, mais ele muda. Para Hélio sua transformação é atribuída à magia das interseções, mas isso não significa ausência de uma técnica precisa de ajuda. Os encontros expõem o mundo do partilhante e aí se encontra o reflexo de suas origens. O autor reconhece que as experiências das fases iniciais da vida são muito intensas e se refletem no decorrer da existência, confirmando o que as principais escolas de psicologia dizem sobre as aprendizagens na infância. Assim, os medos começam a se mostrar numa viagem para trás, para lugares existenciais escondidos. Ele diz que “a insegurança e o medo podem descortinar temores de raiz mais funda, alimentam-se com o cristalizar dos sonhos em abstrações cada vez mais distantes” (p. 28).

Os encontros clínicos expõem paisagens de um passado distante que, apesar de longínquos, revelam a vida mesma. Essa perspectiva de análise é fundamentalmente fenomenológica, reconhece que a existência é situada e que o estar presente no mundo possui um sentido temporal. A ida a lugares distantes é também, uma viagem ao passado e a lugares que a consciência conserva vivos. No passado as lembranças se modificam no que o autor denomina feitiço do tempo e que é a forma como o “viver contido re-inaugura-se na insanidade normalizada dos dias” (p. 32). O encontro com o passado permite re-significar experiências e romper os choques formados na estrutura do pensamento. Qual o sentido que tem um fato? Depende das possíveis atitudes do sujeito tendo em vista sua estrutura de pensamento, se mais ou menos emotiva, mais ou menos inversiva, mais ou menos epistemológica, etc.

O encontro clínico é revelado como troca de impressões humanas nem sempre traduzíveis pelas palavras. Ao comentar a expressividade do silêncio, o autor explica porque a filosofia clínica não se resume à analítica de linguagem, uma vez que o silêncio do encontro propicia uma reconstrução de choques inalcançados “pela lógica do dizer” (p. 35). E isso é fundamental na técnica porque o silêncio traduz “o pressuposto para a conexão com as instâncias mais profundas do viver, lá onde a contemplação do livre curso das idéias encontra-se com a eterna novidade de si mesma” (p. 35). E textos de Clarice Lispector são empregados para traduzir encontros onde o que se sente não é dito em palavras. A linguagem é um caminho possível para o íntimo, mas é só uma das maneiras de chegar lá. “As palavras podem estabelecer vínculos de aproximação ou distanciamento entre as pessoas” (p. 40).

O terapeuta descobre assim uma das mais maravilhosas funções da poesia que é a de deixar aparecer o mundo íntimo da pessoa quando a linguagem precisa e objetiva empregada pela ciência positiva e a analítica de linguagem não parece a melhor para traduzir o que o partilhante quer dizer. Por isso ele faz referência a Heidegger e ao papel da linguagem que “longe de abandonar o lugar da poesia, (...) permite que toda movimentação do dizer seja reconduzida para a origem sempre mais velada” (p. 44). Essa ida ao mundo do outro ganha uma feição mais claramente fenomenológica quando a referência a Heidegger se completa com as teses de Merleau-Ponty.

O autor afirma que Merleau-Ponty diz existir “uma maneira de introduzir o outro como incógnita em sendo a única que considera sua alteridade e a explica” (p. 47). O encontro com o mundo do outro pode ser comparado a um ir atrás do espelho até os sonhos e símbolos pelos quais ele se expressa. O autor menciona também Rubem Alves para quem “não sabemos o nome de nossos desejos mais profundos. Resta-nos, segundo ele, suspirar suspiros que são profundos demais para palavras” (p. 49). O partilhante pode encontrar muitas formas de se expressar e “criar uma linguagem sua e se expressar no dizer sem palavras” (p. 53).

A intuição fenomenológica é a forma do autor reconhecer o fato primitivo da consciência, isto é, pensar a vida do sujeito como abertura ao que não é o sujeito. O que não é o indivíduo é, no mínimo as coisas e pessoas que o rodeiam e a implicação sujeito mundo assim expressa por Hélio: “deixamos a verdadeira essência das coisas falar imediatamente para nós, deciframos a autêntica assinatura das coisas” (p. 53). No caso do clínico a intuição fenomenológica se manifesta nos projetos existenciais dos partilhantes, cujas partes se organizam e reorganizam como as figuras do caleidoscópio. A terapia permite que os elementos do projeto possam se combinar com risco reduzido para a pessoa e seus próximos. Hélio explica: “em terapia pode-se ir bem longe sem sair do lugar. Em alguns casos, chegar até onde o interseção permita. Para, quem sabe depois, voltar e saborear a renovação dos antigos refúgios” (p. 62).

A clínica igualmente propicia descobrir vivências escondidas no dia-a-dia. “Na magia do desvendar-se íntimos distanciamentos podem se evidenciar singularidades calcadas pelo não-ver das cotidianas cegueiras” (p. 63). O espaço do encontro clínico-partilhante cria o ambiente para a expressão do que é exótico na vida e é esquecido pela própria pessoa. E esse encontro, pelas dificuldades de caracterização, não mereceu ainda um relato preciso do exercício do cuidador. Trata-se, contudo, de atividade com objetivo definido “construir indícios aos novos endereços existenciais para onde a pessoa encaminha as suas buscas” (p. 77). Os endereços existenciais traduzem chamados íntimos que Ortega y Gasset denominava vocação.

A revelação do mundo do partilhante, ainda que mostre muita singularidade, não é comparável ao que a psiquiatria denomina loucura. Sobre o assunto o autor faz referência ao trabalho de Michel Foucault e a função da loucura que o filósofo francês diz ser “aproximar-se tão perto quanto possível da razão” (p. 81). Sobre a imagem que o autor constrói da loucura reflete “aspectos de um mundo desconhecido pelo próprio sujeito. Uma espécie exilada na própria casa” (p. 85). A loucura é um processo de re-significação que a pessoa realiza, mesmo que sem sucesso.

A filosofia clínica é apresentada nesse livro como cúmplice do bem viver, forma de obter uma vida com mais qualidade pela superação dos nós existenciais que nascem dos choques presentes na estrutura de pensamento do partilhante. Não se trata, pois, de “normalizar ou curar” (p. 95). A técnica é apresentada como uma forma de terapia compreensiva que não se mostra nos antigos paradigmas. A preparação do filósofo clínico para realizar este procedimento é específica, inclui aulas presenciais, estudo de textos, pré-estágio e prática de atendimento.

A filosofia clínica para o partilhante é a oportunidade de rever a vida, experimentar devaneios, buscar compreender a si próprio. Buscar nexo onde ele parece não existir.

O livro de Hélio Strassburger não é uma introdução à filosofia clínica, também não é uma exposição objetiva ou detalhada da técnica. É um relato íntimo de vivências terapêuticas apresentadas em linguagem poética, nem sempre de simples compreensão. É, sobretudo, uma revelação luminosa do encontro pessoal e das riquezas dos mundos singulares. O acesso à singularidade pessoal é sempre um desafio da clínica.

A obra foi construída sobre os pressupostos fundamentais da fenomenologia existencial como procuramos evidenciar, num diálogo que aproxima Heidegger e Merleau-Ponty.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Por que confiar?

Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico, Escritor
Porto Alegre/RS


Faz tempo que tenho vontade de escrever sobre confiança. Alguns bloqueios e muitas dúvidas seguraram meu ímpeto de colocar no papel o que pensava. Precisei conversar com pessoas, testar níveis de confiança, fazer pesquisa de campo até decidir compartilhar minhas idéias.

Para uns, confiança é um ato de fé e dispensa raciocínio; para outros, confiança não é inata e precisa ser conquistada. Seja como for, confiança é algo a ser dado ou emprestado a alguém como crédito ao bom comportamento.

Funciona como um presente que é ofertado em determinado momento da relação e sinaliza uma expectativa de que esta pessoa ou entidade está orientada para decidir nossos interesses tão ou melhor que nós mesmos faríamos se estivéssemos em seu lugar.

Resumindo, confiança é a previsibilidade de valores comportamentais em qualquer situação, até mesmo diante do imponderável. Cabe uma indagação: é possível prever o comportamento do outro?

Uma das características do inconsciente coletivo brasileiro é a cultura do “levar vantagem em tudo”. A malandragem implícita neste conceito inevitavelmente cria uma rede de desconfiança que coloca em risco todos os tipos de relacionamento, pois a qualquer momento podemos ser passados para trás. Desta forma, hoje em dia confiar é como caminhar no escuro, sempre vai existir a possibilidade, mais ou menos remota, de tropeçar.

Como devem então se comportar os casais? Ao conhecer uma pessoa é recomendável dar um voto de confiança ou inicialmente deve-se desconfiar de tudo e todos? Depois de quanto tempo um namorado(a) pode saber se confia no outro e se entregar totalmente? Confiança é um sentimento quantitativo ou qualitativo? Pode haver confiança seletiva, ou seja, confiar que o companheiro(a)o nunca vai deixar de prover a família e estar presente nos momentos importantes, mas desconfiar da fidelidade conjugal?

É possível amar e não confiar? Qual a graça do amor quando há ausência de confiança? Por que conviver com uma pessoa sabendo que ela não merece nossa inteira confiança? A resposta para a maioria destas perguntas poderia começar com a palavra “depende”, e talvez ai esteja a chave da questão, dependemos de algumas coisas para depositarmos nossa confiança.

Nem sempre o problema da falta de confiança é culpa do outro. O ciúme é um bom exemplo, pois representa uma demonstração muito maior da falta de confiança em si, do que no comportamento do outro. Podemos eventualmente ser traídos por nossos próprios julgamentos.

Se você não confia no outro, este não lhe retribuirá a confiança e a traição será apenas consequência da confiança não depositada. Nem sei se podemos chamar isto de traição, pois quando não se deposita confiança, não se configura traição.

Outra forma de pensar seria depositarmos no outro a mesma medida que nos sentimos confiáveis, ou seja, se me julgo leal, o mesmo crédito vale para o outro. Claro que existe o lado inocente de confiar cegamente para depois descobrir que foi enganado(a).

Você dá abertura, alguém entra na sua vida, rouba seu tempo, destrói sua confiança, agride sua auto-estima, estilhaça o pouco que resta da sua esperança no amor e depois vai embora. Qual o tamanho da mentira ou traição para que se perca a confiança? Uma vez perdida, jamais poderá ser recuperada?


Nem sempre fazemos as escolhas mais sensatas, por vezes uma voz interior aponta um caminho enquanto outra grita dizendo que devemos ir para o lado oposto. Confiar socialmente ou entrega total? A escolha é individual, envolve riscos e recompensas. Cada um sabe até onde quer ir ou pode chegar.

Dá para entender a dificuldade em escrever sobre o assunto? Afinal de contas, qual a serventia de confiar? Por que entrar num jogo onde as chances de perder são reais? Não é melhor ficar sempre com “um pé atrás”?

Confiar é apostar tudo, mesmo correndo o risco de não dar certo. Poucos são capazes deste desprendimento. Confiar é dar espaço, abrir portas, entregar um cheque em branco. Confiar é acreditar em si e no outro. Confiar é ir atrás, mesmo que digam não querer mais. Confiar é perdoar antes mesmo do erro acontecer.

Confiar é escutar aquela voz interior dizendo que apesar da escuridão, podemos amar sem medo, pois a única forma de o amor fluir, é confiando totalmente em seu brilho. E se falhar? Não perca a confiança!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Anaxímenes e o aproximar-se do que não distancia

Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG


Anaxímenes, continuador do processo iniciado por Tales e discípulo de Anaximandro, escreveu uma obra intitulada Sobre a Natureza. Esse filósofo voltou sua atenção à meteorologia e foi quem primeiro disse que a Lua recebe luz do Sol. Embora pouco se falou dele na nascente história da filosofia, foi considerado o principal da escola de Mileto, da qual vieram os dois filósofos supracitados.

Depois de Tales postular que o elemento fundamental do todo é a água e Anaximandro dizer que é o ápeiron, indeterminado, ilimitado, Anaxímenes apresentará outra tese. Segundo este, o princípio é o ar. Mas, ao introduzir essa definição acrescenta definições por analogias que geram uma série de interpretações. Primeiramente, nos voltemos para o que disseram os comentadores de suas sentenças.

Simplício diz que assim como os filósofos predecessores, Anaxímenes afirma uma natureza como subjacente a tudo. Entretanto, ao contrário de Anaximandro, que postulava um ilimitado que é também indeterminado, agora o ilimitado é determinável, é o ar que “Rarefazendo-se, torna-se fogo; condensando-se, vento, depois, nuvem, e ainda mais, água, depois terra, depois pedras, e as demais coisas (provém) destas” (Simplício, Física, 24, 26 (DK 13 A 15)).

O movimento, que em Anaximandro é o próprio ápeiron, agora é causado pelo ar que o eterniza. Esse ilimitado não o é em quantidade, logo não são vários os princípios. Seu caráter ilimitado está em sua grandeza, aplicável na concepção de princípio tanto de Anaximandro quanto de Anaxímenes.

Hegel postula que tal como Tales, Anaxímenes precisava de um princípio que fosse sensível. Mas, ao invés de lançar mão da água, optou pelo ar que “possui, ao mesmo tempo, a vantagem de ser o mais liberto de forma” (Hegel, Preleções sobre a História da Filosofia).

Como dito no texto sobre Anaximandro, os comentadores, em especial os modernos, trazem as ideias dos filósofos e buscam neles fundamentação para sua concepção filosófica. Com Hegel isso não é diferente. Como um filósofo em busca de construir um sistema que desse conta de toda a realidade, Anaxímenes poderia conferir alguma ajuda nesse sentido. Sua tradução do fragmento ficou do seguinte modo:

“Como nossa alma, que é ar, nos mantém unidos (syncratei), assim um espírito (pneuma) e o ar mantêm unido (periékhei) também o mundo inteiro; espírito e ar significam a mesma coisa” (Hegel, Preleções sobre a História da Filosofia).

Hegel se valerá da questão da alma como espírito tratando do ar para postular que o pré-socrático tirou o caráter objetivado da análise para voltar-se à consciência. Ele vai considerar que a anterior filosofia da natureza, toma caráter de filosofia da consciência. O que antes dava origem era visto de modo objetivo, passa a ser subjetivado de tal modo que se encontra na consciência. Concepção perfeita para um postulado de dialética rumo à manifestação do Espírito Absoluto culminado na filosofia hegeliana.

Dentre os fragmentos que nos chegaram, optarei por apresentar o que se encontra em Aécio:

“Como nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém” (Aécio, I, 3. 4)

Agora me atrevo a fazer algumas considerações pessoais acerca desse fragmento. O ar era comumente apresentado como elemento vital, de tal modo que alma, anima, nada mais é que a afirmação de um ente, corpo, dotado de vida. Um ser “animado” é um ser cujo ar está presente, a vida está contida nele.

Ora, o ar é algo que designa a vida e é ilimitado ao mesmo tempo em que é determinado como sensível, e concomitantemente designado como princípio como aceita a exposição hegeliana da concepção de Anaxímenes. O próprio Hegel foi quem afirmou a necessidade de Anaxímenes de deixar o elemento indeterminado, para voltar-se para uma consideração na qual ele estivesse sensível.

Então, pensá-lo como consciência, como algo próprio de uma subjetividade criadora ou consciente de sua projeção, seria o mesmo que dar uma não sensibilidade e tirá-lo da totalidade para deixar a cargo do homem dotado desta consciência para dar sentido ou dotar de fundamento algo que já é antes que dela nos demos conta.

Vejo Anaxímenes na mesma linha de seus predecessores que, em busca de algo que desvele a totalidade de tudo o que é em busca de seu elemento unificador, depare-se com algo que de tão além é ao mesmo tempo tão presente à percepção aguçada que chega a não ser notado. Tomando distância ou aproximando-nos ao máximo do que é não nos permite ficar à parte dessa totalidade.

Somos tão parte, que somos tentados a ver como se fôssemos distintos para melhor enxergar, e novamente voltamos ao inevitável: enquanto constituintes da totalidade por mais que nos distanciemos, continuaremos parte e inevitavelmente passíveis de nos encontrarmos ofuscados com o que se nos desvela a cada aproximar-se daquilo que jamais nos distanciamos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Flores pelo caminho da alma

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG


O vento vai trazendo e levando sementes.
Plantando sonhos e desejos.
Imaginando. Devaneios múltiplos.

Angustiadamente duvidando assobiando vai.
Lá vai o vento e o tempo!
Lá vai!

Pelos caminhos pedregosos,
Flores, entre meios, escutam o vento.
E se deliciam sem ao menos se entristecer.

Há mais sentido em tudo
Do que se enrigecer diante os vendavais.

Render e se deixar levar,
Como as folhas e flores,
Acendem a alma e encantam a vida.

As flores pelo caminho da alma
Dão lições que nem mesmo o vento,
Com toda sua serilepice,
Consegue alcançar.

Quem tem ouvidos aprende.
Quem vê através da alma, imagina.
Quem planta colhe poesia.

terça-feira, 1 de maio de 2012

As paredes do labirinto

Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG


Alguns cogumelos vivem no mundo real; para eles, o devir é o que existe: a grama, a pedra, o orvalho que bebem, o tronco das árvores que eles mesmos ajudam a decompor. Há os que sonham, saltitam no imaginário, um outro mundo no qual Platão preferiria viver e no qual plantava a sua verdade. Era assim pra ele, diria o Hélio. É assim para muitos. Lá eles são fortes, têm bolinhas azuis na sua copa de guarda-chuva vermelho e por dentro são uma sanfona macia e doce.

E há ainda os seres simbólicos, metafóricos, psicodélicos, mitológicos, que existem em outra dimensão, flutuam para não se espatifarem sobre os blocos duros da realidade – e nem do sonho, imagina! Conseguem sumir do espaço insosso, espaço grosso no qual vivem e que não conseguem mudar. A rotina de ir à missa, diz minha mãe, é um meio de vida para se ter condições para sobreviver na vida a que se reservou o cogumelo bege.

Quero passar algumas coisas maravilhosas que as aulas do Mestrado em História me me trazem à mente, nesse momento em que também faço versos e analiso casos.

Às vezes não se mexe na própria vida e transfere-se essa iniciativa para a vida do outro; arriscando um pouquinho, pode-se inaugurar uma área cerebral para o divertimento dos neurônios, iniciando novas atividades que desfoquem o problema. Mas pelo menos há atitude! E se não tiver, também, que tem? Tem o bem-estar de se identificar perfeitamente, rigidamente, repetidamente.

Houve um dia em que o poder se questionou; ele, que detinha a palavra. Para Foucault, pensar a palavra através da palavra é a objetivação através da metalíngua, a palavra reclamando de si mesma. Foucault saiu de si, separou-se do mundo, distanciou-se dele e voltou a si mesmo.

Como Renato Russo: “Vamos celebrar a estupidez humana,/a estupidez de todas as nações”, terminando por se refletir: “a estupidez de quem cantou essa canção.”

A bela forma de inversão, usar o outro para falar de si. E como é que aquele partilhante que não nomeia ninguém – pra ele o mundo é feito de universais – pode sair de seu mundo genérico para, por favor, definir-se identificar-se para a medicante de seu movimento intelectivo, para que, pelo menos, eu o possa entender?

Oras, meu caro, eu o atendo. Eu procuro entender de que são feitas essas paredes do seu labirinto. Desconfio que são de um tecido fino, às vezes vermelho rosa, às vezes azul, até transparente, por trás do qual você tenta se esconder: de mim, se não o conquistei para a partilha, de si, para não se enfrentar, dos seres invisíveis que podem te descobrir.

Eu vejo a sua sombra. Imagino de que jeito é a sua pele, do que é que você gosta. Penso como o Chico: “E à noite, para quem/ você é uma luz/ debaixo da porta?” Acompanho os seus jogos, os seus mitos. Também me divirto com eles.

Volto a ler Camões, sou a lança de Quixote. E, se fala de mim na figura de outra pessoa, eu me transporto num momento e retorno para meu papel. Vejo sua valorização sobre as mulheres e tento não me colocar no gênero, estando nele.

Ouço-o falar de mãe, e não penso em mim. Tento desembaraçar-me de me ser e, puxa vida, eu não vou desligar agora. Estou firme, olho seus olhos e é possível sorrir.

De vez, entro no rodopio da história, o furacão que eu nem imaginava existir num recortezinho da sua narrativa corrida. Quem sabe o assunto imediato nasceu aí? Cadê a lanterna pra eu caçar o assunto último?

A vida quer que eu me divirta. Quer que ria dos deslizes dos outros, alegrando-os quando se iram, se tropeçam, se arregalam. Na aula, falou-se de estruturas de prédios, cimento, construção e havia um edifício em construção que me vinha pela janela, com os andares sendo montados com armações de madeira sobre outros, com paredes de concreto preenchidas de tijolos.

O poder pastoral, tão fundante para a política, me traz a maior representação de fé que já registrei, seguida daquela da sala de milagres da igreja que acolhe os romeiros em Trindade/GO, com peças de cera esverdeada; não deixei lá meu vestido de noiva de cetim branco, de pregas cruzadas que fiz. Já não faço promessas. A maior é a imagem de Nossa Senhora num nicho, escanteado num corredor que dá acesso às caldeiras da usina de açúcar e álcool de Delta/MG, onde se chega após várias escadas verticais, 90 graus de inclinação, a uns 45 graus de calor. Ali a fé era mais fácil de ser vista.

Calor à tarde, temos sono. O culto fálico nas cerimônias gregas. Compreendemos as estruturas que nos servem de base, nossos símbolos são os mesmos, muito mais complicados que o imaginário, nossos mitos do tarrafeiro e da sacerdotisa.

O homem da pesca passava os dias tecendo redes, a sua e a dos outros. Trançava a linha de nylon em losangos belos, maleáveis. Um trançado de macramé, uma rotina no tamanho dos pontos, um ponto dependendo do outro. O tamanho da urdidura conforme ao peixe que se quer pegar.

Era uma vez um tarrafeiro confuso, cheio de preocupações com o seu mundo, mas umas preocupações que ele tecia em fio sintético, desses que não esticam, quanto mais se puxe. Assim, as tramas que envolveriam os peixes não se expandiam quando seus dedos inchavam e quase não havia como perpassar a grande agulha, espécie de forquilha na qual também se enrolava a linha de pesca, de grossura também adequada ao esforço do peixe, pra cada tamanho da urdidura losangular. Trançava circularmente.

O oráculo das conchas, o oco silêncio dos caracóis, o colar de sementes entremeado com vértebra da espinha pisciana marinha, pêga na praia e presenteada pelo turista baiano de gíria paulista braba, dessas de programa humorístico. Gente, então lá se fala assim mesmo? Objetos, sentimento e magia na minha singularidade existencial.

Você vive fazendo redes que nunca ficam prontas, não têm nó na primeira carreira. Eu desisto de servir a alguém e continuo cedendo a inúmeras vontades alheias. A ética do favor impagável. As relações personalistas na esfera pública. Estamos armadilhados e padronizados, existências milenares com ações recorrentes, discursos incompletos – somente os emissores significam.