terça-feira, 31 de julho de 2012

A razão violada*



“A linguagem, voltada sobre si mesma, diz o que por natureza parecia escapar-lhe. O dizer poético diz o indizível.”
Octavio Paz





Um dialeto dos subúrbios se oferece na palavra maldita. Sua desconexão aprecia ampliar os horizontes do discurso bem comportado.

A irrealidade dessas páginas desencontradas possui o barroco das possibilidades incompreendidas. Muitas vezes se parece com uma região de exílios, onde conjecturas expõe o absurdo e tênue abismo onde ser e não-ser são.

Resultante da interseção do sonho com a utopia, sua alegoria parece seguir à deriva de si mesma.

Num movimento existencial difuso, semelhante ao lirismo dos super-heróis internados, parece encontrar a retórica perdida. No lugar extraordinário de todo lugar, visibilidade e cegueira ressoam mensagens cifradas.

Nas entrelinhas de tudo e nada uma atenção insone se diverte a distorcer eventos do dia nos territórios da noite. Talvez esboço para saber a versão das alturas, sobrevoos, mergulhos.

A razão violada está nas ruas, em um desses lugares onde a vida é instante. Suas inesperadas lacunas insinuam derivações, regiões despercebidas, contornos de originalidade a guisa de dialogar com os calçados nas calçadas.

O sussurro dos corredores, as vozes atrás das portas, as janelas que se abrem na parede, no inédito assoalho. Atualizam delírios, irreflexões na memória recém-chegada, a margem daquilo que ainda não é, para ser outra coisa.

Assim a desrazão percorre e se alimenta de estradas, becos, avenidas, labirintos de si na invenção para si, como fonte de ins_piração ao saber das margens. Quiçá uma espécie de anúncio do porvir, ao sentir a natureza do desconforto de toda calmaria.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Leituras de Filosofia Clínica I*


“O pastor Miguel Brun me contou que há alguns anos esteve com os índios do Chaco paraguaio. Ele formava parte de uma missão evangelizadora. Os missionários visitaram um cacique que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto e calado, escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram esperando.
O cacique levou um tempo. Depois, opinou:
— Você coça. E coça bastante, e coça muito bem. E sentenciou:
— Mas onde você coça não coça”.
Eduardo Galeano**

Na Filosofia Clínica há um elemento denominado interseção, importantíssima para a prática do consultório. Ela é dividida em interseção positiva, negativa, confusa e indefinida. Não necessariamente o exercício de consultório deverá ser totalmente baseado na interseção positiva, até mesmo porque às vezes o partilhante precisa de outras formas de interseção para que o andamento dos trabalhos em consultório aconteça. Mas, o que interseção tem a ver com a coceira tratada no texto acima? Vamos aprofundar o assunto.

Quando um partilhante (como é chamado o cliente ou paciente na Filosofia Clínica) aparece buscando ajuda, é comum dentro de nós surgir diversas formas de solução do problema. Inclusive em nossas práticas diárias de relacionamento podemos notar uma infindável exposição de opiniões para resolução das questões alheias. Entretanto, nem sempre onde “coçamos” com nossa resolução, “coça” na questão do outro.

O missionário em questão apresentou uma proposta na “língua” do outro. Mas, não bastou falar como o outro fala. É necessário ir além. Quando em consultório o partilhante apresenta seus problemas, muitas vezes essas são o que na Filosofia Clínica chamamos de Assunto Imediato.

A queixa inicial do partilhante, nem sempre condiz com a questão principal a ser trabalhada. Muitas vezes uma dor de barriga antes do trabalho, tem muito mais ligação com questões relacionais no trabalho do que propriamente fisiológicas. O que nos remete para aprofundar mais.

No andamento do consultório, além da língua do outro, é necessário descobrir onde de fato a “coceira” se dá. E não é só ouvindo o que primeiro surge, que conseguimos atingir o Assunto Último. Faz-se necessário a historicidade, o enraizamento, as traduções, etc., para reconhecermos a Estrutura de Pensamento do partilhante e assim trabalhar algumas questões.

Algo que é válido ser dito nesse momento, é que por vezes não é o reconhecimento do problema que diretamente nos permite buscar solucioná-lo. Ao reconhecer os tópicos dominantes na Estrutura de Pensamento do partilhante, o que será feito vai muito além do que uma simples resolução de choques entre esses tópicos reconhecidos. A esse respeito, Lúcio Packter diz que:

“o objetivo da clínica filosófica é, tanto quanto possível, reconhecer e entender as interseções (choques) entre os tópicos da Estrutura de Pensamento, e em seguida utilizar os submodos para tentar trabalhar essas interseções tópicas.
Trabalhar no sentido de resolver, aplacar, abrandar, dissolver, absorver, expurgar etc ??!
A priori, não sei.
A resposta vai depender do que for obtido da pesquisa que o filósofo clínico e a pessoa conseguirem em seu trabalho mútuo.” (Caderno A).

Reparem que trabalhar as interseções tópicas possui variadas formas e isso dependerá do partilhante, da interseção com o Filósofo Clínico e de diversos outros elementos implicados na prática da terapia. Por isso, não há previamente como afirmar o que será feito no consultório. Cada caso é único e qualquer movimento de resolução a priori pode cair por terra imediatamente após o primeiro minuto de conversa em consultório.

No processo clínico, após os exames categorias e a colheita da historicidade, o filósofo buscará uma construção compartilhada. Buscará ir ao mundo do outro por meio do que chamamos de recíproca de inversão. Reconhecerá diversos aspectos do outro: linguagem, termos agendados no intelecto, pré-juízos, o que acha de si mesmo, etc. E a partir dessa ida ao mundo alheio, poderá trabalhar o que no outro se apresenta.

A última palavra não é minha, sou agente de auxílio para o processo que caberá o outro cumprir. A esse processo a Filosofia Clínica denomina “autonomia de pensamento”. É claro que a própria afirmação já requer certo contexto e aceitação de determinadas contingências que surgem pelo caminho. Novamente vale lembrar que cada caso é único, singular.

Um caso clínico sem as devidas tomadas de medidas metodológicas pode cair em ausência de recíproca do partilhante, quando fizermos nossos agendamentos na aplicação de submodos; os agendamentos máximos sem a devida colheita da historicidade, podem causar danos enormes; a aplicação de submodos não condizentes como a pessoa age no mundo dela também pode ser danoso; e por fim, o que não esgota as possibilidade de estragos, cito a possibilidade do Filósofo criar no partilhante “coceiras” que ele jamais teve e, contraditoriamente, não resolver o que ele a princípio já possuía.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

**(A função da arte 2, In: Eduardo Galeano. O Livro dos Abraços. trad. Eric Nepomuceno. 9 ed. Porto Alegre: L&PM, 2002. p. 18)

*** Estou ciente de que diversos termos próprios do vocabulário da Filosofia Clínica com significados bem próprios não são claramente desenvolvidos. Entretanto, caso o fizesse incorreria no problema de ter que estender o texto a proporções impróprias para um blog. Diante disso, garanto que aos poucos nos próprios textos, irei clareando o significado de conceitos à medida que forem surgindo.

domingo, 29 de julho de 2012

O avesso do avesso*

Às vezes, há instantes que – como respirações suspensas e eternizadas pelo tênue ar que mantém a fugacidade do momento – traduzem os infinitos que nos compõem e transpiram a vitalidade da essência de que somos feitos, como se conseguissem concentrar num átimo toda a potencialidade da existência. Momentos assim são como pérolas escondidas em conchas vigorosas que resistem em se revelar, temerosas de que seu valor jamais seja devidamente apreciado.

E, no entanto, expressam uma preciosidade que não pode ser transposta na insanidade da realidade que ofusca e que muitas vezes nem mesmo se percebe. A vida é mais do que o avançar do tempo, muito mais do que o contar dos batimentos. A vida não se esgota e não se permite rótulos, embora as vendas se acumulem nos olhos de quem se recusa a verdadeiramente engolir a pílula vermelha... cor do sangue de que nos alimentamos, da maçã que nos incita a não resistir tanto às tentações, da vibração que nos mantém aquecidos e atentos ao instante seguinte.

A vida, aliás, não deveria nunca ser rotulada, pois que na vã ilusão cotidiana, ela se preenche com uma suprema e inextinguível capacidade de superação, onde vontades se manifestam e desejos se infiltram, como mágica que tece os imprescindíveis sonhos.

Como pássaros, que na essencialidade existem para ser livres e alçar voos, aninhando horizontes em sua aparente fragilidade, também nascemos para potencialmente existir, segundo o que nos determinamos. Então, no que consiste a validade do que somos? Esta é singularmente própria, especial, até mesmo oculta da razão e nos indica caminhos que relutamos em mergulhar. O que determina o que é certo ou errado? Em lugar algum está escrito que devemos restringir
.
Nem sempre conseguimos expressar os alentos, alegrias e desesperos que navegam por nossos sentimentos ou por outras vias da alma. Seria aconselhável uma espécie de pilhagem existencial, onde as raízes sejam extraídas e a seiva transportada como combustível para que realizações se cumprissem. A vida deveria ser exaustivamente vivenciada e forjada a fogo em seus momentos mais sublimes.

Para tanto é preciso, da perspectiva existencial, considerar que nem sempre o direito é o certo ou o avesso o lado a ocultar; aliás, melhor seria se não houvesse certo ou errado, direito ou avesso, em cima ou em baixo... pois, o que há são apenas perspectivas, direcionamentos que acontecem e para os quais nem sempre temos condições de ser nem mesmo responsáveis. Porque muitos caminhos se constroem sem que necessariamente possamos aplacar dores e desafios que, inerentes às trilhas que se desenham, nos tomam de forma imprevisível e quase absurda?

Aliás, diria Camus: Viver é fazer que o absurdo viva. Fazê-lo viver é, antes de mais nada, contemplá-lo. Talvez nunca sejamos capazes de entender precisamente a leitura de um contexto de vida ou de um simples instante. Cada um poderá ser realmente eternamente desconhecido a si mesmo, mas sempre perscrutará sua respiração suspensa em busca desse algo que ainda não captou, que se encontra do lado que ainda não viu, do avesso que ainda não se atreveu a conferir. É que não sabe ainda o lado que deve olhar; qual direção que deve seguir, pois que todas são viáveis... todas o levam a algum lugar.

Então, qual seria o avesso do avesso, afinal? O lado direito... e por direito vamos entender o lado que somos de verdade, o que nos identifica, nossa essência, a estrutura que antecede o pensamento... ou o lado que não se revela, pois que não pôde se fazer visível, exatamente por sua mais transparente essência.

Só nos resta desejar que as possibilidades se tornassem passíveis de se expressar... que sejamos generosos para aceitar e respeitar todas as indizíveis brutalidades ou a extrema e primordial suavidade de nossas essências! Enfim, não importa o lado, de alguma perspectiva, seremos inconfundivelmente lindos, irresistíveis e especiais... singularmente únicos!

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

sábado, 28 de julho de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXVII*

"O filósofo americano Thoreau fala em algum momento de um quarto Estado. Ao lado da Igreja, do Estado e do povo, o estado do 'andarilho errante'. Que podemos entender através de todas essas figuras nômades que recusam a estabilidade sexual, ideológica ou profissional."

"Claro, não é nenhuma novidade, mas, como em outros períodos de mutação, continuamos a analisar ou julgar os fatos sociais com critérios de outras épocas."

"É preciso saber chamar a atenção para o fato de que os grupos sociais são constituídos do mesmo material que os sonhos que os habitam."

"O imaginário social tem uma autonomia específica. É móvel, fugidio, polimorfo, mas não menos eficaz. E somente um politeísmo epistemológico pode levar a entender o advento das figuras em torno das quais se estrutura a ligação social."

"O fenômeno incita à modéstia, por sua complexidade e também por sua indecisão. É nebuloso e plural, não podendo ser 'reduzido' à unidade do conceito."

"A escolástica tem medo da vida. E toma a si a missão de inculcar por todos os meios esse temor."

"Pluralidade dos mundos em si mesmo: o dos jogos de máscaras, das identificações múltiplas. 'Eu' é sempre um outro. Está sempre em outro lugar. Nômade por essência. Pluralidade dos mundos no espaço social, o do policulturalismo, do politeísmo dos valores."

"O gênio enraizado no mundo contém em si todos os 'tipos' humanos, o louco, o santo, o criminoso, a mamãe e a puta, sem esquecer o tipo sem qualidades que constitui o homem de todos os dias."

*Michel Maffesoli

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vontades alheias*


Alguns cogumelos vivem no mundo real; para eles, o devir é o que existe: a grama, a pedra, o orvalho que bebem, o tronco das árvores que eles mesmos ajudam a decompor.

Há os que sonham, saltitam no imaginário, um outro mundo no qual Platão preferiria viver e no qual plantava a sua verdade. Era assim pra ele, diria o Hélio. É assim para muitos. Lá eles são fortes, têm bolinhas azuis na sua copa de guarda-chuva vermelho e por dentro são uma sanfona macia e doce.

E há ainda os seres simbólicos, metafóricos, psicodélicos, mitológicos, que existem em outra dimensão, flutuam para não se espatifarem sobre os blocos duros da realidade – e nem do sonho, imagina! Conseguem sumir do espaço insosso, espaço grosso no qual vivem e que não conseguem mudar. A rotina de ir à missa, diz minha mãe, é um meio de vida para se ter condições para sobreviver na vida a que se reservou o cogumelo bege.

Quero passar algumas coisas maravilhosas que as aulas do Mestrado em História me me trazem à mente, nesse momento em que também faço versos e analiso casos.

Às vezes não se mexe na própria vida e transfere-se essa iniciativa para a vida do outro; arriscando um pouquinho, pode-se inaugurar uma área cerebral para o divertimento dos neurônios, iniciando novas atividades que desfoquem o problema. Mas pelo menos há atitude! E se não tiver, também, que tem? Tem o bem-estar de se identificar perfeitamente, rigidamente, repetidamente.

Houve um dia em que o poder se questionou; ele, que detinha a palavra. Para Foucault, pensar a palavra através da palavra é a objetivação através da metalíngua, a palavra reclamando de si mesma. Foucault saiu de si, separou-se do mundo, distanciou-se dele e voltou a si mesmo.

Como Renato Russo: “Vamos celebrar a estupidez humana,/a estupidez de todas as nações”, terminando por se refletir: “a estupidez de quem cantou essa canção.”

A bela forma de inversão, usar o outro para falar de si. E como é que aquele partilhante que não nomeia ninguém – pra ele o mundo é feito de universais – pode sair de seu mundo genérico para, por favor, definir-se identificar-se para a medicante de seu movimento intelectivo, para que, pelo menos, eu o possa entender?

Oras, meu caro, eu o atendo. Eu procuro entender de que são feitas essas paredes do seu labirinto. Desconfio que são de um tecido fino, às vezes vermelho rosa, às vezes azul, até transparente, por trás do qual você tenta se esconder: de mim, se não o conquistei para a partilha, de si, para não se enfrentar, dos seres invisíveis que podem te descobrir.

Eu vejo a sua sombra. Imagino de que jeito é a sua pele, do que é que você gosta. Penso como o Chico: “E à noite, para quem/ você é uma luz/ debaixo da porta?” Acompanho os seus jogos, os seus mitos. Também me divirto com eles.

Volto a ler Camões, sou a lança de Quixote. E, se fala de mim na figura de outra pessoa, eu me transporto num momento e retorno para meu papel. Vejo sua valorização sobre as mulheres e tento não me colocar no gênero, estando nele.

Ouço-o falar de mãe, e não penso em mim. Tento desembaraçar-me de me ser e, puxa vida, eu não vou desligar agora. Estou firme, olho seus olhos e é possível sorrir.

De vez, entro no rodopio da história, o furacão que eu nem imaginava existir num recortezinho da sua narrativa corrida. Quem sabe o assunto imediato nasceu aí? Cadê a lanterna pra eu caçar o assunto último?

A vida quer que eu me divirta. Quer que ria dos deslizes dos outros, alegrando-os quando se iram, se tropeçam, se arregalam. Na aula, falou-se de estruturas de prédios, cimento, construção e havia um edifício em construção que me vinha pela janela, com os andares sendo montados com armações de madeira sobre outros, com paredes de concreto preenchidas de tijolos.

O poder pastoral, tão fundante para a política, me traz a maior representação de fé que já registrei, seguida daquela da sala de milagres da igreja que acolhe os romeiros em Trindade/GO, com peças de cera esverdeada; não deixei lá meu vestido de noiva de cetim branco, de pregas cruzadas que fiz. Já não faço promessas.

A maior é a imagem de Nossa Senhora num nicho, escanteado num corredor que dá acesso às caldeiras da usina de açúcar e álcool de Delta/MG, onde se chega após várias escadas verticais, 90 graus de inclinação, a uns 45 graus de calor. Ali a fé era mais fácil de ser vista.

Calor à tarde, temos sono. O culto fálico nas cerimônias gregas. Compreendemos as estruturas que nos servem de base, nossos símbolos são os mesmos, muito mais complicados que o imaginário, nossos mitos do tarrafeiro e da sacerdotisa.

O homem da pesca passava os dias tecendo redes, a sua e a dos outros. Trançava a linha de nylon em losangos belos, maleáveis. Um trançado de macramé, uma rotina no tamanho dos pontos, um ponto dependendo do outro. O tamanho da urdidura conforme ao peixe que se quer pegar.

Era uma vez um tarrafeiro confuso, cheio de preocupações com o seu mundo, mas umas preocupações que ele tecia em fio sintético, desses que não esticam, quanto mais se puxe. Assim, as tramas que envolveriam os peixes não se expandiam quando seus dedos inchavam e quase não havia como perpassar a grande agulha, espécie de forquilha na qual também se enrolava a linha de pesca, de grossura também adequada ao esforço do peixe, pra cada tamanho da urdidura losangular. Trançava circularmente.

O oráculo das conchas, o oco silêncio dos caracóis, o colar de sementes entremeado com vértebra da espinha pisciana marinha, pêga na praia e presenteada pelo turista baiano de gíria paulista braba, dessas de programa humorístico. Gente, então lá se fala assim mesmo? Objetos, sentimento e magia na minha singularidade existencial.

Você vive fazendo redes que nunca ficam prontas, não têm nó na primeira carreira. Eu desisto de servir a alguém e continuo cedendo a inúmeras vontades alheias. A ética do favor impagável. As relações personalistas na esfera pública. Estamos armadilhados e padronizados, existências milenares com ações recorrentes, discursos incompletos – somente os emissores significam.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Uberlândia/MG

quarta-feira, 25 de julho de 2012


Apontamentos de uma estudante de Filosofia Clínica*

"Hoje sou toda poesia...
Sem melancolia, a vida segue seu rumo mais feliz, mais inteira, mais em paz!

Se ontem fui tristeza, garanto que hoje sou paz.

Por horas me sinto sentindo um contentamento contente de quem já viveu tanto em tão pouco tempo.
Sou fardo, sou muito, sou "over", sou paz...

Meu coração bate acelerado, de uma forma tão desordenada dentro da ordem da paixão que não caibo em mim
Mas... De repente... Lembro

Lembro do abismo que vivi em tão pouco tempo e percebo o quão arriscado é existir. Tudo tão incerto e desorientado que não há bússola para conseguir guiar essa louca delícia que se chama existir!"

"O frio lá fora me faz querer ficar aqui dentro, agasalhada e quentinha. Um bom livro ou um programa de entrevista será uma boa!

Refletir sobre a vida também faz sentido! Penso que reflito mais quando estou encolhida em mim mesma e isso o frio faz. Quase em posição fetal, posição de conforto pra alma e pro corpo... Alonga a coluna e esquenta os sentidos.

Viver é necessário mas sonhar não é proibido! Eu sonho mesmo! Com um mundo mais colorido e quente, e seguro. Acabo de olhar meio sem querer pra minha estante e vejo minha bíblia: "A República" de Platão e me lembro dos seus escritos acerca do bem estar.

Segundo Platão, quando a cidade está bonita e organizada as pessoas ficam melhores. Eu concordo com este pensador maravilhoso que queria construir uma cidade ideal! Às vezes penso que posso contribuir para a construção de um mundo melhor e cheio de luz, assim como quis o mestre Platão.

Mas isso é muito utópico e então faço do meu mundo um reflexo de poucas virtudes que restam para uma multidão que nem mesmo reconhece a diferença entre vícios e virtudes.

Sou um ser aprendiz, nem de longe me comparo ao mestre, nunca tive essa pretensão. Sei que preciso caminhar muito pra chegar perto do desapego e do amor universal que pregou Platão através de sua vida dedicada à filosofia."

*Vanessa Ribeiro
Atriz, Filósofa, Matemática, estudante de Filosofia Clínica
Petrópolis/RJ

terça-feira, 24 de julho de 2012

Sobre a amizade*


O tempo passa rápido e a distância não consegue sepultar um sentimento verdadeiro. Plantamos as sementes do amanhã no solo que cultivamos hoje.

Assim é a amizade. Uma verdade plantada no jardim dos mistérios da vida. Cultivar é preciso. Regar também.

Concordo com Sócrates quando sabiamente disse: “Para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolver em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos”.

No mundo competitivo em que vivemos uma amizade verdadeira torna-se tão rara como as pérolas escondidas em ostras no fundo do oceano. Talvez seja por isso que quando as encontramos sua beleza é inexplicável e seu valor incalculável. Pérolas são raras e especiais. Amizades verdadeiras também.

Há um provérbio popular que diz: “Nunca foi um bom amigo quem por pouco quebrou a amizade”. Amizades verdadeiras não se quebram por futilidades. Elas resistem às duras tempestades das diferenças e se fortalecem com as esperanças partilhadas.

Não gosto de sentimentos que se esfriam com o tempo. Kant também devia não gostar quando escreveu: “A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor”. O tempo pode fortalecer o que a verdade um dia deu à luz. Porém, pode também revelar que a mentira em que acreditávamos ser verdade sempre foi uma máscara no grande baile da vida.

Muitas amizades terminaram quando as máscaras foram arrancadas. As luzes de uma noite de festa não duram uma vida toda. Um dia elas se apagam e a realidade mostra a sua verdadeira face. Acredito que a mais triste decepção seja aquela das pessoas que acreditaram em verdades mascaradas, em amizades fantasiadas de boas intenções.

Os filósofos são reconhecidos como amigos da sabedoria. Verdadeiros amigos dividem o saber com amor e partilham as dores com compaixão. Cícero certa vez disse: “Dos amores humanos, o menos egoísta, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade”.

Muitos se queixam da solidão. Procuram amigos nas esquinas da vida e se deparam apenas com ruas vazias. Sem confiança em si mesmo e no outro a amizade será apenas mais uma busca sem sentido.

Para ser amigo de verdade faz-se necessário aceitar as diferenças. Na busca do amigo perfeito muitos acabaram ficando sozinhos. Cobraram um preço alto demais das pessoas. Preço este, que nem mesmo eles conseguiam pagar. Atropelaram o processo da existência. E hoje padecem a dor de estarem sós e amargurados na vida.

Estranho é saber que a amizade é uma realidade tão rara no cotidiano da vida. Confia-se desconfiando. Busca-se amigos, mas não se busca a amizade. Aristóteles sabia muito bem disso quando escreveu: “Um Amigo se faz rapidamente; já a amizade é um fruto que amadurece lentamente”.

Amizade é processo lento que requer uma vida toda para ser adquirida. Em cada novo amanhecer renovamos a aliança da amizade com as pessoas que não mais queridas. Cuidar da amizade é a cada dia fazer a experiência de ser um jardineiro nos canteiros da vida.

Arrancar as ervas daninhas da incompreensão e plantar novas flores do amor. Regar o gramado da esperança e recolher as folhas secas de um passado que não voltará mais. É adubar a terra de confiança e retirar as pedras das mágoas.

Amizade verdadeira resiste ao tempo. Nem a tempestade de um momento de raiva pode separar o que a vida uniu. Albert Einstein um dia disse: “Pode ser que um dia deixemos de nos falar... Mas, enquanto houver amizade, faremos as pazes de novo”. Recomeçar acreditando que por detrás de cada curva dos problemas da vida encontra-se um novo horizonte de possibilidades a ser desvendado.

Ontem remexendo em meu velho baú de recordações encontrei uma carta de um velho amigo. Nela está escrito: “A amizade é um amor que nunca morre!” Assinado: Mário Quintana.

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Direito ao Delírio*
Querido leitor, paz! Hoje vamos refletir sobre um artigo do uruguaio, prêmio Nobel da Paz, Eduardo Galeano.

Intitulado “Direito ao Delírio”, o artigo, que é originalmente apresentado de viva voz em um programa de televisão na Espanha, atravessa o mundo em diversos idiomas. Ele escrevia justamente na virada do milêncio, do século XX para o XXI e focava esperanças para o novo milênio que se apresentava.

Existem coisas que são irretocadas. Este artigo é uma delas. Não vou lê-lo na íntegra, pois tomaria mais tempo que este programa tem, mas vou resumi-lo, tomando o cuidado de manter a sua originalidade. Ele diz assim:

“Nasce o novo milênio. Nada de levar a questão muito a sério. Embora não possamos adivinhar o tempo que vai ser, nós temos pelo menos o direito de imaginar o que nós queremos.

Em 1948 e 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a grande maioria da humanidade só tem o direito de ver e não ouvir. Então, que tal começarmos a exercer o direito de sonhar? Que tal nos delirarmos um pouquinho?

No próximo milênio o ar estará limpo de todo veneno. O televisor deixará de ser o membro mais importante da família. As pessoas trabalharão para viver, em vez de viver para trabalhar.

Os economistas não chamarão nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida a quantidade de coisas. Ninguém será considerado herói ou tolo só porque faz aquilo que acredita ser justo, em vez de fazer aquilo que mais lhe convém.

A comida não será uma mercadoria, nem a comunicação um negócio, porque comida e comunicação são direitos humanos. A educação não será um privilégio apenas de quem possa pagá-la. A polícia não será a maldição daqueles que não podem comprá-la. A justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, voltarão a juntar-se, bem unidas ombro com ombro. E os desertos do mundo e os desertos da alma serão reflorestados”.

Sonhar, delirar, ter devaneios. Por que não, se em algumas ocasiões o sonho é o prenúncio da realidade?

É assim como Eduardo Galeano sonhava este novo milênio. E você, como sonha este novo tempo?

*Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

domingo, 22 de julho de 2012

Todo dia, é dia Santo*

Amar nunca é demais. Expressar o sentimento sempre que possível, não expõe ninguém a risco algum.

Fazer amor para expressar o que sente pela pessoa amada, é opção de cada um. Fazer isto todo dia, também é.

Você tem alguém disponível todos os dias? O nível de desejo de vocês dois, corresponde em numero, gênero e grau? Então qual é o problema.

Você nem ama tanto assim, mas tem alguém legal, com uma química incontestável que está com você todos os dias e tudo possibilita que vocês transem sempre, de manhã, a noite antes de dormir, no final de semana umas seis vezes. Isto é um problema?

Não existe problemas nem riscos à saúde por fazer amor todos os dias e na hora que der. Nenhuma vagina vai se dilacerar e nenhum pênis, jamais vai ficar machucado ou coisa desse tipo. Ninguém vai ter estafa, nenhum coração vai parar, muito pelo contrário.

O grande problema da frenquência nas relações sexuais, está em o casal não estar ajustado de uma forma ou de outra. O grande problema é a freqüência ser obrigatória.

Ou um dos dois não quer e se sente obrigado a ceder, ou alguém não está se sentindo muito bem e para agradar, força uma barra e vai mesmo assim. Ou o ambiente não é propício e um dos dois se sente constrangido.

Quando o amor acontece naturalmente e espontaneamente, o desejo é inevitável. Mas algumas pessoas, mesmo que desejando o parceiro, nega a entrega ao sexo, por alguns conceitos que não são verdadeiros.

Negam também por pirraça, por vingança, por acreditar que bancando o difícil vai apimentar mais a relação, negam porque é dia do Santo Casto, porque a mãe falou que fazer demais faz mal, porque Deus ta vendo e assim é pecado.

A negação, também quando não é por um motivo justo, quando um dos dois não está doente ou muito triste, pode gerar conflitos às vezes irremediáveis. A parte negada, não compreende e se revolta. Se sente condenada a viver sem o que lhe é de direito (não pelo direito legal, mas pelo direito de gozar a vida, de ser feliz), já que aparentemente está tudo bem entre o casal.

- O que está acontecendo? Por que você não está me querendo?

E a não ser que a resposta seja sincera: Não me sinto bem, tenho dores, estou triste, porque ficar triste é direito de todo mundo e ficar doente também, se não for assim e se não for verdade, fica muito difícil o parceiro entender a negativa.

Quando é sincera, a negativa é acolhida, o companheiro é solidário, não existe cobrança e nem incompreensões. Não existe insulto e não gera mágoa.

Quando é falsa, articulada, maldosa, preguiçosa, displicente, relaxada, descuidada, traidora, a negativa vem como facas a cortar o peito de quem ama e é rejeitado. A pessoa sabe que está sendo rejeitada, é diferente. É evidente.

Bom, mas se você não tem nenhum motivo verdadeiro para desprezar a oportunidade de se ver sempre que puder, nos braços da pessoa que ama, manifestando seu sentimento, não perca tempo, não deixe sua imaginação viajar por caminhos sem sentido, não brinque com o que alimentará de verdade a felicidade de vocês, por muitos e muitos anos, até que envelheçam e ainda assim, quando mais velhos que se vejam, sempre que puderem, um nos braços do outro, usufruindo da energia divina do amor dos homens, para continuarem vivos e dispostos.

Não tem medida, cada um cria a sua.

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, Filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Adeus Pimbo, a-Deus

Sou do tempo antigo. Quando decidi casar, pedi a mão da noiva ao Pimbo, meu futuro sogro. Ele concedeu, com uma única ressalva: - faça minha filha muito feliz.

Quando nos divorciamos, mais uma vez o procurei e tivemos outra conversa formal.. Expliquei que havíamos tentado várias alternativas, mas não conseguíamos mais ser felizes juntos.

Seu pedido perdera a validade. Ele me abraçou, disse que gostava de mim como um filho, lamentava demais, porém precisava respeitar nossa decisão. O casamento terminou, a amizade permaneceu.

Agora ele está morrendo. Estado vegetativo em um leito hospitalar, com os dias contados. Fomos nos despedir, eu e meu filho. Chegamos à noite. Estávamos a sós com ele no quarto, apenas uma atendente de enfermagem semi-dormindo no sofá ao lado.

Não queria que aquilo fosse apenas mais outra formalidade, mas não sabia como me comportar. Tampouco meu filho. Aproximamo-nos, despidos de defesas, com o desejo de dizer adeus ao ex sogro, amigo e avô. Meu filho, com os olhos marejados de lágrimas começou a acariciá-lo e assim permaneceu por algum tempo. Sabíamos que estava faltando alguma coisa, mas nossas vozes e gestos estavam embargados.

Impulsivamente abracei o Pimbo e disse que quando chegasse a minha hora de partir, gostaria de receber na despedida muitos beijos e abraços de meu filho. Demorou um pouco, mas aconteceu. Leonardo, ainda com os olhos molhados e voz sufocada apertou o avô contra seu peito e disse: - Vou sempre me lembrar de ti. Nunca vou te esquecer. Te amo, vô. Um beijo demorado no rosto selou suas palavras.

Quando o filósofo judeu Emmanuel Lévinas faleceu, seu colega e amigo Jacques Derrida fez um discurso de despedida, onde dizia ter de pronunciar uma palavra de adeus, uma palavra a-Deus, para Deus e diante de Deus.

O fato de permanecer vivo na ausência do outro, gerava uma culpabilidade sem falta ou dívida e se transformava em uma responsabilidade herdada. Em outras palavras, Derrida na falta de Levinás se obrigava a responder por ele, por quem não mais responde, ou seja, assumindo a falta do outro, em nome do outro e frente a um outro, o inegável mesmo da ética.

Pimbo, ficar para sempre na memória de um neto é um legado e tanto de vida. Pode ir em paz, tua missão foi cumprida. Adeus e a-Deus. Mesmo sem enxergarmos, estarás aqui.

* Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Para todas as outras coisas, use Mastercard*

Dizer tudo em uma frase é algo que pode facilitar coisas que não necessitam mais do que isso. Se não por outros benefícios, ao menos diríamos tudo em uma frase.

Livros maçudos, filmes que passaram do fim, óperas, um discurso inteiro que escreveram para o Lula, tudo em uma frase e poderíamos ir embora. A frase diria tudo. Duas frases, dois livros.

Como é que a Hyundai vende um Tucson? A gente abre a página dupla de uma revista, encontra o carro virado para lá, vários adesivos indicando prêmios e outras coisas que não lemos, mas que indicam isso, e uma frase: escolha o melhor do mundo. E, pronto, já sei porque devo comprar um automóvel automático no valor de R$ 115000,00.

Por que eu compraria um notebook que tem em qualquer lugar no Ponto Frio? Porque lá eu posso pagar em doze vezes sem juros. E mesmo que eu possa fazer isso em qualquer outro lugar, eles é que estão me comunicando o fato. Sinto-me como um Tucson automático, o melhor do mundo.

A Vivo me mostra celulares lindíssimos, todos de pezinho, números pululando à volta, nem leio, mas reparo que qualquer um dos celulares posso ter por R$ 10,00. Isso mesmo. Não preciso de um celular, já quase não sei o que fazer com o meu, só que a Vivo me contou em uma frase o que ela acha que me importa e quase me vende um celular, ainda que eu não queira.

Me diga uma coisa: você gosta de Banco? Ou tem aquela opinião que eles ganham horrores com o nosso dinheiro suado, sente um gostinho de vingança com a quebra ocasional de um de vez em quando?

Pois então porque eu deveria depositar meu dinheiro no Unibanco? Entre outros motivos, porque esta instituição, em uma única frase, veja bem, me diz que nem parece Banco. E grafou Banco em minúsculo.

... viro mais páginas e encontro a Vivo de novo.

“Na Vivo você faz DDD com preço de ligação local” – já pensou? Em uma frase me dizem uma coisas desta, logo eu que viajo pelo país todo dando aulas e fazendo palestras, logo eu que posso ligar para casa pelo mesmo preço de quando estou em casa, que é caro igual, mas a frase única me faz parecer contente porque parece que estou ganhando algo.

Vamos adiante. Por que eu deixaria um Tucson de lado e compraria um Honda Civic Si, lançamento esportivo da montadora que me coloca diante de um possante vermelho, os olhos do leitor à altura das rodas de liga leve? Para que eu levaria para casa aquela coisa de 192 cavalos, 6 marchas com LSD, que eu nem sei o que é e antes achava que era droga? Em uma frase: “Acredite, você não vai querer ver este carro irritado”. Eu acredito, claro que acredito, ainda mais com o céu que pintaram acima e ao fundo sobre o possante, o bólido, a coisa.

Muitos podem objetar afirmando que uma frase não traduziria a profundidade de Proust e eu digo que em muitos contextos a profundidade de Proust não serve para nada, nem mesmo para profundidade.

Muitos podem objetar que a poesia, a demora, a complexidade de certos assuntos não são cabíveis na cápsula de um comprimido; sim, talvez. Mas refiro-me ao que é cabível. E o argumento oposto não é menos verdadeiro, pois certos conteúdos de um comprimido não deveriam ser expansíveis às dimensões de uma caixa d’água.

E lembre de usar Avon por causa do “momento perfeito em que tudo pode acontecer”. Eh eh eh, que coisa! Isso vai tomando conta da gente. Mas não se preocupe: saia com um Peugeot, dirija este prazer. Qualquer problema, Basf neles, a química da vida. Mas somente vestido, então Orient, vista seu pulso.

Tudo em uma frase, o mundo. Uma das tendências atuais. Nada de perder tempo, que tratemos de ganhá-lo para fazer depois coisas como desperdiçá-lo, jogos de paciência, ansiedade, comprimidos de novo, uma frase.

Eis uma característica da nossa época...

*Lúcio Packter
Criador da Filosofia Clínica

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Erasmo de Rotterdam*


LOUCURA E RAZÃO

Elogio da Loucura foi dedicada a Thomas More. Editada primeiramente em 1509, na qual a loucura é uma deusa determinadora das ações humanas.

Organizadora das cidades, mantenedora dos governos e da religião. Essa obra é relevante no movimento renascentista (KANTORSKI, 2010, p. 241). “Erasmo de Rotterdam soube atacar, com muita astúcia e capacidade, os abusos e as contradições presentes no clero e em toda sociedade de sua época, sugerindo alternativas para uma vida moralmente correta” (KANTORSKI, 2010, p. 243).

Na obra erasmiana a deusa grega é vista como força de energia do cotidiano. Trata-se de um monólogo na qual a loucura apresenta os motivos que a torna cultuada. Mostrando, assim, sua relevância e superioridade às demais faculdades humanas, baseando-se nas ações dos próprios homens formando “as cidades, os governos, a religião e a própria vida, consistindo em uma espécie de divertimento da mesma” (KANTORSKI, 2010, p. 244).

Nessa obra, Erasmo rebaixa ao ridículo os sacerdotes, os poderosos da Igreja, bem como as diversas organizações de seu tempo, retratando “com caráter extremamente satírico as aberrações, os contra-sensos e as mazelas presentes nas diversas classes sociais e instituições vigentes” (KANTORSKI, 2010, p. 244). Os costumes da cultura européia são tratados de modo irônico, nos quais a loucura está como elemento presente, orientador da ação humana, no sentimento, na ligação entre ambos e na religião.

Erasmo não alimentou reservas ao tecer críticas à Igreja que ainda no século XVI concentrava grande poder, e assim suas críticas são em grande parte voltadas para os membros do clero. “Erasmo defende o acontecimento das expressões da loucura humana no meio religioso, enfatizando seus reflexos na aspiração dos homens por riquezas, na preocupação com as necessidades do corpo e na negligência com a própria alma” (KANTORSKI, 2010. p. 246). A crítica erasmiana se embasava no cristianismo primitivo, tecendo severas críticas aos clérigos por não viverem o amor e a simplicidade, contrários ao modelo exemplar trazido pelos apóstolos.

Outra crítica severa está nos abusos dos membros da Igreja com a venda de indulgências e de perdões, com tarifas estabelecidas e recebidas pelos sacerdotes, inclusive contabilizando o tempo da alma no purgatório.

Erasmo buscava trazer o cristianismo das origens se valendo, inclusive, da Loucura como denunciador dos exageros, contra toda superstição, abusos, cerimônias sem sentido, a luxúria, questões lógicas metafísicas da escolástica que fundamenta até a guerra.

Sua busca era pelo evangelho puro, livrando-o dos excessos adicionados por interpretações ao longo da história. Para isso buscava o texto em si. O que seria mais necessário é tornar o evangelho da Vulgata mais acessível em compreensão para o povo, sendo necessárias correções sempre que essa compreensão fosse menos acessível. No humanismo, o saber dos autores pagãos e a sabedoria cristã se identificavam em igualdade de valor. Era importante, portanto, que se tornassem acessíveis à população.

Segundo Kantorski o “conceito de loucura para Erasmo poderia ser simplesmente resumido pelas ações realizadas por algo maior que nos move, ou seja, através da manifestação do indivíduo pela paixão”. E afirma em seguida que Erasmo rompe com a compreensão convencional atribuída à ideia de loucura, em busca de apresentá-la nas diversas esferas da sociedade inclusive instituições tais como o casamento, a Igreja e que é por fim “uma natureza das paixões própria do ser humano” (KANTORSKI, 2010, p. 247).

Erasmo vale-se de uma personificação mitológica da loucura como artifício literário, já indicando a crítica racional dessa concepção. Ele era fruto de seu tempo e das questões que surgiam. Por isso, se pôs a criticar essa visão de loucura, e mais, fazer uma crítica à racionalidade oriunda da Escolástica.

Erasmo de Rotterdam realmente empenhou esforços para relatar a realidade Européia, destacando, neste contexto, a importância da Loucura, que simbolizava o resultado de todas as ações sociais. O intelectual também alcançou seu propósito, pois os preceitos da Igreja Católica começaram a ser revisados e, seu livro destacou-se pela notória preciosidade. A partir deste autor, poderoso em sua escrita e considerado modelo às gerações seguintes de protestantes, o humanismo ganhou fôlego (KANTORSKI, 2010, p. 248).

O Elogio da Loucura é a mais conhecida de suas obras. Nela, Erasmo trata da loucura em seu extremo negativo na vida do homem, e em seu extremo positivo que se dá na fé da “loucura da cruz” já afirmada por São Paulo. Diante de uma loucura que toma diferentes roupagens em momentos distintos, a da fé está sempre voltada para o transcendente como seu ponto culminante, e o cume dos cumes se dá na felicidade celeste, somente alcançada na outra vida dadas à percepção ainda na terra aos piedosos, somente de modo breve.

As críticas declaradas aos prelados em seus maus costumes renderam a Erasmo algumas de suas obras na lista do Index e outras receberam o pedido de cautela quanto a seu conteúdo. Não somente por parte da Igreja, mas Lutero se opôs à questão do Livre-arbítrio, que o levou a definir Erasmo como ridículo, tolo, sacrílego, tagarela, sofista e ignorante, e sua obra como cola e lama de lixo e excrementos. Mesmo havendo objetivos próximos, os caminhos trilhados por esses dois grandes pensadores, foram bem divergentes.

Em suma, Erasmo privilegia a razão ao modo clássico e estóico para fundamentar suas concepções e críticas. Em sua obra prima Elogio da Loucura, a razão é um tema importante. Trata-se de uma sátira à tolice, diante da qual todo homem sob os mais diversos níveis da sociedade toma pra si a convicção de sua própria importância, concebendo uma visão da realidade sob essa ilusão.

Ao mesmo tempo em que é criticada, a loucura também recebe elogios em diversos graus: irônico, satírico e apologético. Tudo isso com sutis distinções. Mas, que por fim sobra a conclusão de que há dois tipos de loucura, uma sábia e outra louca. A sábia conduz a felicidade e à pureza e está ligada ao amor, ao prazer (tempero da loucura), amizade (que busca não notar o defeito do outro), autoilusão (não notar nossos próprios defeitos), e a religião que privilegia a simplicidade e o Cristo encarnado, prometendo felicidade de alma fora do corpo, que dá margem para o Elogio da Loucura afirmar uma felicidade do homem fora de si. Loucura que permite um bom convívio social. Uma sabedoria que conduz as paixões para o bem. Enquanto a louca permanece em seu sentido pejorativo.

O cerne do pensamento de Erasmo no Elogio da Loucura está, segundo Rodrigues, em defender

uma religião que não se limitasse a práticas exteriores, mas que a partir do interior promovesse ações éticas e humanizadoras que resultariam num mundo melhor. Estariam desqualificados para essa tarefa, portanto, o misticismo e a escolástica. O primeiro por constituir uma religiosidade interior individualizada que não proporcionava humanização, e a última por lidar apenas com postulados racionais que na aridez de suas discussões não representavam nenhuma contribuição substancial para a sociedade (RODRIGUES, 2008, p. 07).

____________________

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

** Texto será apresentado em quatro partes.

***A bibliografia utilizada será apresentada na quarta parte.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O LUGAR DA SENSIBILIDADE E DE PASCAL*

Num tempo em que os valores estão em crise e a humanidade vive o caos mascarado em desenvolvimento, o homem se encontra perdido, sem saber para que lado ir.

O estresse, a frieza , a superficialidade, a agressividade, a competição, a compulsão, os vícios são sintomas de uma sociedade doente emocionalmente.

No isolamento as pessoas estão cada vez mais sós a buscar um mundo virtual para preencher este vazio existencial.

Neste ponto de mutação, momento de transição, é preciso resgatar a sensibilidade e colocar a compaixão, o amor , a estética, a relação com os outros no plano de frente, ou morremos todos de depressão e tédio.

Pascal, o filósofo do século XVII, integra a racionalidade com a afetividade. Ele afirma que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Sua filosofia nos auxilia a resgatar a sensibilidade perdida. Ele nos coloca diante a faculdade emocional em uma era marcada pela supervalorização do racionalismo, cientificismo e na veneração da tecnologia em que o homem se tornou insensível.

Pascal não reduz a vida humana ao mero racionalismo e mecanicismo. Ele afirma: “O último esforço da razão é reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a ultrapassam”.

Pascal reconhece algo mais no homem, a sensibilidade. Ele disse: “ Não se ensina os homens a serem homens de bem, e tudo o mais se lhe ensina;e de nada se jactam mais que de ser homem de bem. Só se vangloriam de saber o que não aprenderam”.

Resgatar a sensibilidade significa observar a razão solta no espaço, dar asas a imaginação, ver e ouvir a poesia nos entorno, ter tempo de escutar o outro, sentir Deus em cada detalhe e agradecer cada mínimo detalhe da existência.

Hoje li um texto de José Castello: Uma magia modesta, e senti sua sensibilidade:

“Quando as força me fogem, quando o mundo me parece insípido demais, recorro aos livros de Thomas Bernhard. Não que le seja um otimista, longe disto. Não que ele seja um otimista, longe disso. Não que suas idéias me consolem. Bernhard me ajuda a enfrentar o deserto do presente. Não me dá forças, me mostra a inutilidade da força. Ele me dá coragem para reencontrar a delicadeza”.

“Refletir iluminados por pascal é colocar o homem no seu devido lugar, de ser limitado, que nada em sua constituição é perfeito. Há a necessidade da abertura a sensibilidade, uma sensibilidade generalizada, um verdadeiro esprit de finesse. A ética da sensibilidade generalizada é um apelo, talvez não tão novo, mas urgente e indispensável par nossa época. Blaise Pascal abre esta perspectiva. Olhar o ser humano na sua totalidade é o desafio e a solução para as futuras gerações e para buscar a autocompreensão e a via de solução de problemas tão humanos” disse Rodrigo Manzano.

A maior das razões, para mim, torna-se, pois a coragem de abrir o coração sem medo de viver a realidade tal qual ela se apresenta. Sensibilizar com tudo e com todos. Enfim, urge resgatar a sensibilidade e olhar para o outro e outros como iguais a mim a gritar por amor.

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

domingo, 15 de julho de 2012

O que é um Remédio*

Querido leitor, que você esteja em paz!
Hoje vamos refletir sobre remédio. Há anos venho ouvindo e assistindo nos meios de comunicação propagandas de remédios e até dos locais onde são vendidos. “Melhore sua saúde, tome o remédio tal”, ou “Empresa tal, o endereço da sua saúde”. Enfim, exemplos não faltam.

Sempre que ouço as propagandas, logo me vem à mente um pensamento: remédio não é para quem tem saúde, é pra quem está doente. E observando melhor a palavra “doente”, logo percebo que há um “ente” e, aqui, ente é um ser, uma pessoa.

Portanto, indo um pouco mais a fundo, concluo que doente é um ser que não está com saúde. É aqui que entra o remédio. E remédio, é bom lembrar, vem de meio, ou seja, trazer a pessoa doente para o meio, “remediar”.

Quando nos passamos, seja física ou psicologicamente, na grande maioria das vezes vêm os efeitos colaterais e, para muitos, a somatização. Surgem as doenças das mais variadas formas e locais e contar destas, a forma mais usada é a medicação que é uma forma de trazer os doentes para o meio, para a saúde, para a homeostase.

Então você pode se perguntar quem é o médico, a figura do terapeuta que vem do grego, que é aquele que cura, aquele que sara. Médico é quem deveria fazer a mediação - ou medicação - entre o ser “do-ente” e o ser saudável.

Embora existam também as pessoas que são doentes por remédios e até aqueles que se auto-remediam. Médico é aquela pessoa que nas culturas eram conhecidos por magos, xamãs, bruxos, curandeiros, benzedores, enfim, eram pessoas que buscavam, cada um do seu jeito, trazer as pessoas para o caminho do meio.

É corrente que a ciência tem contribuído sobremaneira para o avanço da cura das doenças por intermédio dos remédios. Mas a Unesco, em 1987, alertou: “A ciência não pode mais assistir passivamente as implicações irresponsáveis das suas descobertas. Chegou o momento complementar da união entre ciência, cultura, arte e tradições espirituais da humanidade”.

Homem santo, mulher santa não significa outra coisa se não um homem são, uma mulher sã; um homem e uma mulher com saúde, saudável. Estes seres humanos santos são entes livres de mazelas, sejam elas físicas, psíquicas ou espirituais.

Aqui o remédio, para algumas dessas pessoas, pode estar em algo que tem a ver com a sua história de vida e que fora deixado para trás, “que está em falta” para voltar a ter harmonia.

O que boa parte das pessoas quer se não uma vida vivida no meio, sem a necessidade de algo que as leve de volta, um remédio?

Na dúvida, o ditado popular pode ser uma boa receita: “É melhor prevenir do que remediar” Bom dia aos sãos, às santas e saúde aqueles que ainda não são sãos e santas.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, como tem se medicado?

*Beto Colombo
Empresário, Escritor, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

sábado, 14 de julho de 2012

Sentenças possíveis*


“De onde as coisas têm seu nascimento, para lá também devem afundar-se na perdição, segundo a necessidade; pois elas devem expiar e ser julgadas pela sua injustiça, segundo a ordem do tempo”.

(A sentença de Anaximandro – tradução de F. Nietzsche).

Que o austero filósofo me permita uma espécie de licença poética e/ou talvez temporal – forçosamente adaptada aos nossos dias – de suas palavras. Mas me ocorreu, enquanto relia a sentença, que na nossa atual dimensão espaço-tempo, parece que sofremos uma espécie de sentença em escala planetária, associada aos prenúncios quase apocalípticos de que estamos à beira do caos existencial, pragmaticamente falando!

Obviamente que estamos atravessando momentos críticos, no que tange à consistência física, estrutural e social do planeta, entre outros fatores. Mas creio que já estamos nesta fase há algum tempo. Talvez devêssemos começar a agir como as crianças que se encantam e buscarmos uma postura mais deslumbrada diante da vida, entendendo que nosso papel é ínfimo diante da vastidão de possibilidades.

Discussões reincidentes à parte, talvez seja preciso apenas iniciar (e prosseguir) uma singela reflexão sobre a dinâmica da vida, que se renova e se completa em si mesma. No fundo, talvez ela (a própria natureza), seja muito mais forte do que possamos conceber e nós, que a sentenciamos e nos julgamos determinantes, ainda rastejamos em busca de algo que nem mesmo entendemos.

Talvez sejamos apenas catalisadores de algo que a precipite sobre si mesma. A vida, em sua extensa dimensão, provavelmente se basta, se integra, se conecta, se estabiliza e existe por si só... nosso papel, embora importante e fundamental como parte desta conexão e deste equilíbrio tão ansiado, se resume a uma composição, cujo sentido ainda está se revelando.

O que importa então seja simplesmente retomarmos um atribuído olhar primordial grego de que tudo está imbuído de e na natureza, no sentido simples e assustadoramente intrigante de sua essência; de que ela totaliza entes e participa da constituição de algo maior do que supomos... de algo que também faz parte do universo; de algo que por si só é o próprio universo.

Então, ficamos pequeninos e, assim, quase tudo que é efêmero perde seu sentido... quase tudo se esquiva diante da imensidão da eternidade ou do pulsar contínuo da inspiração entre dois princípios. Será que diante de algo assim, guerras, emissões de gás carbônico ou discussões efêmeras e de intenções duvidosas têm, afinal, importância? Bem, talvez sim, se considerarmos que cada emanação de energia pensante e atuante pode fazer a diferença, que cada singularidade pode alterar sensivelmente o destino final da folha que se solta da árvore ou do som de uma pena que toca suavemente o chão.

Na ordem do tempo, que existe por si mesmo, atemporal na sua suposta e imune estagnação, preexiste a noção de que, de fato, possa vir a ser aquilo a que se está destinado. Na sua dimensão, nada (ou tudo) faz sentido... mas talvez só seja contabilizado o que realmente importa ou, enfim, apenas os atos que tenham em si algo de transformador, ainda que ínfimos.

Pontualmente, é preciso acordar para que os rios continuem fluindo, para que os fenômenos climáticos continuem determinando as temperaturas que nos cercam, para que o ar puro prossiga invadindo bilhões de pulmões carentes de vida e de sonhos. É preciso que a sentença do nosso nascimento não nos apavore ao ponto de minar as esperanças que nos faz rolar a pedra ladeira acima, sem jamais desanimar, sem nunca desistir... como se o instante de lucidez ao voltarmos o olhar para a pedra que rola nos fizesse cientes de nosso momento único na escala que intercedemos.

A perdição de nossa certeza nos incita a continuar, a resistir, a insistir em compreender o que está entre nós desde o início dos tempos e que vai permanecer, quer nos afundemos em nossas expiações e necessidades, quer elevemos o olhar para um destino que está além do topo da montanha.

Certamente que ainda há muito que trilhar num sentido mais amplo e sensível... deve faltar pouco, mas esse pouco é tão significativo, que pairam dúvidas... Seja lá, entretanto, o que vier a acontecer ao destino, pode ser que a esperança tome as rédeas e abrande a respiração de seus seres racionais – aqueles que se julgam mais capazes, inteligentes, sensíveis e com maior domínio sobre bens, materiais ou imateriais, que não possuem.

Ou talvez seja melhor entender que o planeta, enfim, deve ser mais sábio que alguns de seus arrogantes habitantes! Para o caos inimaginável, provavelmente seria preciso o extremo, e o pior é que somos capazes de chegar lá... mas outras formas de vida ainda serão vidas e talvez seja só o que importa. A natureza tem seus mistérios, afinal!

Sobre a sentença, o que importa dizer? Que cada um conforte a sua dor, sua incoerência, da origem ao ocaso, de onde for capaz de extrair suas próprias verdades (pois que cada um tem a sua, a seu modo e a sua medida) e que, de acordo com seu tempo subjetivo e eterno, e segundo sua necessidade e desejo, decida se é hora de expiar ou se recriar, pois que a única justiça possível advém do que está depositado exclusivamente em suas crenças e esperanças.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sexo foi feito pra fazer e ter prazer*

Se tem uma coisa que é completamente relativa, é o resultado do diálogo quando utilizado para resolver desajustes na vida sexual de um casal.

Cada dia fica mais provado, que sexo a gente faz e pronto. Deu certo, ótimo. Não deu. Aí vai depender muito das partes envolvidas serem coerentes e coesas o suficiente para, a partir de uma conversinha, a coisa ir se arrumando. É possível e inteligência, resolve bem isso.

Vai depender muito do quesito receptividade e mais ainda de uma virtude extremamente difícil de ser praticada. A humildade. Vai depender ainda de a pessoa te amar a ponto de querer te agradar, mesmo que isto a fira de alguma forma. É bom saber que muitas pessoas amam egoisticamente, ou seja, desde que você as ame mais e nunca as contrarie.

É muito difícil para alguém ouvir: É bom, mas... Foi bom, mas...

Mais difícil ainda, é aquele que gostaria que algo fosse melhor no outro, precisar se manifestar ou pior ainda, suportar o que falta em nome amor, que afinal de contas é constituído de vários outros fatores, não é mesmo? Tem gente que troca todos eles por uma boa pegada, mas vai levando.

O que é de se estranhar e cabe comentar sempre, é que o sexo é o maior dos problemas que um casal pode ter. O segundo. Querem saber? É o dinheiro. Mas vamos falar de sexo que é mais gostoso e mais barato resolver.

Até falta de dinheiro, um sexo bom, da conta de resolver. O que as pessoas não entendem e não acreditam é que uma vida sexual gostosa, sem grilos, pode sustentar um casal em vários outros aspectos onde encontram diferenças. Pode atenuar tensões geradas por diferentes pontos de vista, manias, diferenças econômicas, intelectuais e sociais. Casais com uma química forte têm mais tolerância. Na falta dessa química, interesses diversos, conduzem bem a relação até que a morte os separe.

Mas como dizer que está faltando uma coisinha a mais para você? E logo onde, meu Deus.

O grande problema é que existem pessoas que não aceitam observações. Que se ofendem mortalmente, que se sentem humilhadas e que o efeito da conversa pode ser o completo reverso do que se esperava.

As pessoas não admitem, ou se admitem que sejam, digamos... Fraquinhas sexualmente, além de não fazerem nada para melhorar, se sentem agredidas, se enfurecem e põe tudo a perder, buscando fora da relação, constatação de que o parceiro deve estar errado.

Se revoltam, brigam, fazem pirraça, tentam provar que o outro nem é tão bom assim. Ou apelam para a piedade. Se vitimizam, choram e vivem se justificando ou apontando culpados para sua negligencia em melhorar em favor do amor que dizem sentir. Ou o que é pior, se vingam com desprezo, rejeição e podem chegar até a traição, para se sentirem superiores. Costumam pagar e até usar de fetiches e fantasias, para acreditarem que são bons de cama.

Esta é uma questão muito complexa. Em relações fugazes, todo mundo é bom de cama. Mas quando a relação é aprofundada, quando a intimidade se solidifica e o mais exigente percebe que não vai acontecer mais nada além daquilo ou quando quem representava de alguma forma se esmerar sobre a alcova, se cansa e deixa a máscara cair, o problema aparece.

Falar pode não ser a melhor solução. Pode ferir muito a autoestima de alguém que não está preparado para isto. E que não vai estar jamais. Existem pessoas que acreditam até o fim da vida, mesmo sofrendo muito por padrões de comportamento dos quais elas insistem em não se livrar, que um dia, alguém vai gostar dela, assim como ela é. E vai jogando fora oportunidades valiosas em suas vidas. “Mamãe me acha maravilhosa.”

Está certo gostar, amar alguém, do jeitinho que ela é. Admirá-la apesar de alguns defeitos. Aceitar suas limitações, porém se o que não é perfeito chega a incomodar muito, não está certo. E mudanças podem ser operadas em favor dos dois.

Se você não quer partir para uma nova tentativa, que seria o mais indicado no caso do sexo ser a queixa principal na relação e acredita que uma conversa ou manifestação de que algo fosse melhor na transa de vocês, vejam algumas dicas que podem ajudar.

•Use a técnica do sanduíche:

_ Você é maravilhoso

_ Mas

_ Então, fazendo assim, vai ficar melhor ainda

Pode ser que funcione, colocando sempre na abertura e no fechamento da conversa, a pessoa como alguém muito especial e o problema como um detalhe.

•Mostre cenas em filmes eróticos, que apontam o que é legal para você.

_ Adoro isso!

Se ele não ficar mordido por pensar que você já viveu aquilo antes com alguém, pode funcionar muito bem. Se for atencioso, vai ser tiro certeiro.

•Falar diretamente é diretamente mesmo e no sexo é melhor que seja assim. Nada de: Precisamos conversar. Isso pode até traumatizar, tenha certeza.

Na hora “H”, diga: Faça, assim, faça assado, faça mais, gosto que pegue assim. Ou então, ainda na moleza do pós, suspire e diga: amei aquilo que você fez “e” (nunca diga “mas”) da próxima vez vou querer que faça com mais força ou vou querer ficar em pé ou vou querer que demore mais, de tão bom que foi.

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Filosofia Clínica e Aconselhamento Pastoral*

Muitas são as demandas quando entramos em contato com outro ser humano nos atendimentos paroquiais.

Tão vastos quanto os mistérios do ser humano são as dificuldades apresentadas pelo mesmo no processo de construção de sua história pessoal. Cada pessoa é única, e esta singularidade precisa ser respeita. Fórmulas prontas não servem para todas as pessoas.

No atendimento pastoral cada caso é um caso, cada história é uma história, cada lágrima é uma lágrima. Há lágrimas de felicidade e de dor. Há expressões faciais e gestuais diferentes. Há silêncios que podem dizer mais que mil palavras. Tudo isto é matéria prima para aquele que tem diante de si não apenas mais uma pessoa, mas sim um ser humano.

Fato é, que cada pessoa que procura um padre, não chega ali por acaso. Ela traz consigo um assunto imediato, que nem sempre é realmente a causa de ter chegado até ao padre. Muitas vezes o assunto imediato da procura pode conduzir a um assunto último.

Como aconselhar, indicar caminhos, quando não se conhece a história de quem está a nossa frente? Muitos padres indicam como recurso terapêutico a oração do salmo 22 diante de inúmeras dificuldades.

Muitos que nos procuram muitas vezes não buscam uma indicação de algum Salmo, pois tem uma fé muitas vezes maior que a nossa. O que busca um ser humano quando se apresenta diante de nós? O que ele traz em sua bagagem existencial? Como ele se localiza no mundo? Como ele vê o mundo que o cerca? Como ele vivencia o tempo em sua vida?

Sempre lembro que a prática do Aconselhamento Pastoral não é uma sessão de Filosofia Clínica. Pois a prática terapêutica da Filosofia Clínica requer tempo e estudo da historicidade da pessoa. É um processo longo e que requer inúmeros pressupostos para que possa se desenvolver de maneira satisfatória.

Na prática do Aconselhamento Pastoral, o padre não dispõe de muito tempo. Na maioria das vezes, ou em quase 100% das vezes, um fiel não volta para uma segunda conversa. Por isso o tempo que se tem deve ser aproveitado da melhor maneira possível.

A Filosofia Clínica não é uma prática de aconselhamento, pois é o ser humano que faz a trajetória de seu próprio caminhar, auxiliado pelo Filósofo Clínico. Não há conselhos, mas sim buscas e caminhos a serem trilhados.

Mas encontramos na Filosofia Clínica elementos que nos ajudam a colaborar com quem nos procura de uma maneira mais eficaz. Conhecer um pouco a história do outro, seu tempo de viver a vida nas múltiplas estações do coração.

Ouvir seus silêncios de maneira humana, deixando de lado os preconceitos que carregamos em nosso próprio coração é um dos muitos caminhos que a Filosofia Clínica nos aponta para que cada encontro seja de vida e vida em plenitude.

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, filósofo clínico
Cambuí/MG

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Segredos incompreendidos*




“(...) certas conquistas da alma e do conhecimento não podem existir sem a doença, a loucura, o crime intelectual (...).”
Thomas Mann




A estética do delírio é uma das maneiras da natureza exercitar seus dons, transgredir definições, emancipar horizontes, transbordar limites. Via de exceção por excelência, esse instante de milagre possui linguagem própria. Atribui indícios ao murmurar vontades sobre o sonho dos buscadores de segredos.

Nesse vagar incompreendido, a sina do inventor de amanhãs se desdobra diante do precipício das ameaças, contornos de paixão antiga pelas fendas dos padrões discursivos. Uma expressividade assim poderia ficar impronunciada, refugiada nalguma peça de ficção ou desconsiderada pelo saber poder especialista.

É admirável no vislumbre descritivo, a interseção onde ingenuidade e descoberta se tocam. Seu momento de atração irresistível sugere, entre influência e agendamento, novos roteiros de saber incerto. João do Rio: “A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa” (A alma encantadora das ruas, 1997. p. 29)

Os achados inéditos se oferecem num teatro cotidiano, quase invisível por sua simplicidade e sofisticada objetivação. Dele saltam inúmeros personagens, de cena difusa, surreal e a modificar quase imperceptível os atores, a cena, a própria história de seu entorno acontecendo.

Um viés intuitivo_delirante faz referência ao absurdo continente invisível ao derredor. Façanhas que ficariam desconhecidas, não fora o desatino inaugural, recheado de esteticidades, a se oferecer por essas lógicas de anúncio.

Para qualificar a relação com a singularidade desses eventos é impreciso estar no lugar inédito de todo lugar. Ao se entrevistar com esse esboço quase invisível, muitas vezes fugaz, de aspecto estranho e foco desajustado se reivindica o outro, estruturado numa frequência semelhante. Honoré de Balzac: “Há delicadas voluptuosidades que não podem ser saboreadas senão entre duas criaturas, de poeta a poeta, de coração a coração” (As ilusões perdidas, 1993, p.33).

Assim é impreciso sentir_visar, pela via da reciprocidade, os conteúdos inexplicáveis, desconsiderados lá onde sua nascente é margem de uma geografia conhecida. Ao dialogar com o espírito de multidão em cada um, é possível o conhecer aprendiz das múltiplas possibilidades.

A reestreia diária da qual se ocupa o fenômeno humano supera as entrelinhas de seu próprio devir. Busca a inspiração dos pretextos aos novos rascunhos existenciais. Ao parecer exilado nas próprias circunstâncias, esse quase refém é um sujeito em busca de simbologias ainda sem tradução.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

terça-feira, 10 de julho de 2012

A riqueza contida na história de vida*

A nossa capacidade de reviver momentos e fatos ocorridos no decorrer da vida pode ser uma experiência intensa e reveladora.

Muitas vezes uma fotografia, um aroma, uma flor, uma música nos remetem à vivências intensas que de alguma forma estão registradas na nossa existência.

A hitória de vida diz respeito à tudo aquilo que a pessoa vivenciou, sentiu, pensou, intuiu. São registros que nos acompanham no decorrer da caminhada existencial que é unica, singular a cada pessoa, mas também influenciada por questões culturais, religiosas, sociais entre tantas outras que se encarregaram da padronização de certas ações ou comportamentos.

Algumas pessoas não se interessam evitam ou ficam desconfortáveis ao visitar sua história. Outras encontram aí um rico manancial de respostas para questões atuais, tomada de decisões e alívio para certas dores do corpo e da alma.

A visita à própria história pode ocorrer da várias formas. Algumas pessoas ao acessá-la fazem divisões, por exemplo, por eventos: quando ganhei a primeira bicicleta, quando comecei a namorar, os diferentes empregos que tive, quando comprei meu Fusca novinho, quando mudei para a nova casa, casamento, formatura, etc. Há ainda as que tem um olhar cronológico e fazem essas partições por datas, em 1954, 1976 ... Outras acessam sua história por eventos traumáticos ou de dor: quando quebrei a perna, quando minha mãe faleceu, quando fiz uma cirurgia.

O acesso também ocorre de forma sensorial, por exemplo: ao sentir o aroma do café a pessoa revive o tempo em que frequentava a casa da avó, as conversas ao redor do fogão, o calor do fogo, o estalido da madeira, o chimarrão. Outras pessoas ao ver o cair de uma fina chuva de verão são remetidas às divertidas pescarias de lambari na sanga que cortava a velha estância. Outras ao ouvir uma música ou programa viajam ao passado e relembram o som chiado do velho rádio que trazia as notícias do mundo e o entretenimento.

Também é possível buscar dados externos que a pessoa internalizou na forma de uma emoção como por exemplo, conquistas históricas do Internacional de Falcão ou do Grêmio de Renato Portaluppi. Cada uma vai guardar, registrar para si aquilo que lhe fizer mais sentido, tiver mais relevância e ao revisitar um fato vivem a mesma emoção como se estivessem naquele exato momento do passado.

Criada no final dos anos 80 , em Porto Alegre/RS, pelo Filósofo gaúcho Lúcio Packter, a Filosofia Clínica, baseada na Filosofia acadêmica, usa como principal fonte a história de vida da pessoa contada por ela mesma. A partir da Historicidade se entende então como a pessoa estruturou-se existencialmente em sua malha intelectiva, tendo como resultado a Estrutura de Pensamento. Através do conceito da Singularidade, cada pessoa é considerada única e através de construções compartilhadas aparecem as respostas filosóficas, racionais ou afetivas para as dificuldades existenciais.

Algumas pessoas com dificuldade de expressar-se verbalmente o fazem de forma brilhante através da escrita, da música, da pintura, da dança, da afetividade. E todas estas são formas de contar a própria história de vida. Uma pessoa que vive hoje em circustâncias que estão em desacordo com sua Estrutura de Pensamento ao revisitar suas fontes pode fazer os ajustes necessários, resignificar questões e seguir seu caminho confortavelmente.

Não é raro ouvir queixas de pessoas que ao longo da vida usaram o trabalho como principal forma de expressividade.
Com o passar dos anos, não é mais possível exercer algumas atividades que sempre foram rotineiras na vida dessas pessoas. Podem ocorrer aí alguns choques existenciais onde a pessoa passa a sentir-se menos útil, menos importante, fica abatida e inicia-se uma maratona de consultas, remédios, processos de somatização. Um dos possíveis alívios pode estar justamente na história de vida desta pessoa.

Ao revisitar, olhar para tudo o que fez, projetou, buscou, vivenciou, pode perceber o quão importante foram suas ações, a sua doação, o acolhimento que deu à muitas pessoas, um lindo legado que deixou. Esse dar-se de contas permite uma resignificação consigo mesmo. À partir desse novo olhar a pessoa pode atualizar dados da história com seu novo contexto, lugar, tempo. Desconstrói e reconstrói sobre novos alicerces, muitas vezes mais sólidos, fatos, crenças, verdades que carrega consigo e que em alguns casos refletiram culpas, medos, dores no corpo e na alma ao longo da vida.

Neste caminho, que chamamos de Historicidade em Filosofia Clínica, pode-se vivenciar situações difícieis, mas não há necessidade de permanecer nelas e muito disso dependerá do olhar, do foco dado à estas questões. A realidade não é somente aquilo que nossa mente e olhar alcançam, existem também os espaços entremeio. É como uma fotografia que a pessoa registra, ali está parte de um momento, que se olhado novamente com atenção pode revelar elementos que no primeiro instante passaram despercebidos, ou que a lente não capturou. As lembranças que carregamos são memórias vivas, caminham, nos acompanham e principalmente, se atualizam.

Usar a compreensão no lugar do julgamentos para consigo e com os outros, entender que cada ser estruturou-se de forma singular, através das milhares de combinações que perfizeram toda sua história de vida. Todos os elementos exteriores à esse indivíduo, como escola, família, grupo social, governo, religião, etc., somados com seus elementos interiores, como personalidade, percepção, emoções, motivações, valores, buscas, resultaram no indivíduo em si. Cada pessoa vê à si mesmo e ao mundo da forma que lhe parece. Tem o seu certo, suas verdades, de acordo com toda essa estruturação que traz consigo de cada momento de sua existência.

Saber ouvir é um dos grandes acolhimentos que pode ser oferecido à uma pessoa, é uma forma de expressar gentileza e interesse por quem tem tanto à contar. Partilhar sua história, suas vivências, dores e alegrias com um ouvinte sem julgamentos, atento, que irá acolher a pessoa em cada um destes pontos, é muitas vezes uma experiência transformadora.

*Artigo escrito em conjunto por:
Dilvane Balen e Alexandre Lima
Filósofos Clínicos
Chapecó e Porto Alegre/RS

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Respeite a vida e o tempo do outro*

Por que todo ser humano tem a pretensão de achar que pode interferir na vida alheia? Ou dando palpites, ou pitacos, opiniões…

Diferente de um psicólogo, psicanalista ou terapeuta que faz a pessoa buscar suas verdades, suas razões, seus princípios e ir em busca da sua individuação, as pessoas em geral acham que têm o direito de invadir a vida alheia e opinar sobre aquilo que lhes convém, da forma que lhes convém, esquecendo que o outro tem uma trajetória diferente, gostos diferentes, escolhas diferentes e principalmente uma história de vida diferente da sua.

Talvez seja porque temos a triste ideia de que todos devem seguir como nossa cabeça e nosso coração manda. É estranho saber que outros pensam de forma diferente. O esquisito disso tudo é que na maioria das vezes nós mesmo não sabemos em que direção seguir, pra que lado ir ou com quem ficar.

Pior ainda quando cismamos de dar uma de Santo Antônio, Santo Casamenteiro, Cupido ou coisa que o valha. Aí, é um Deus nos acuda. Não conseguimos lidar nem com nossos relacionamentos, que dirá com o do outro. Estranho isso né?

Mas quando vemos um amigo solitário aqui, ou uma amiga carente ali, muitos de nós não resiste… resolve atacar e pronto, mil ideias para fazer os pombinhos se conhecerem, se entenderem, se juntarem, se amarem.

Talvez porque nosso relacionamento não deu certo, somos frustrados e queremos que alguém nessa vida seja feliz no amor. Ou talvez porque somos super felizes e queremos que todos sejam apaixonados como nós, e ver amigos desiludidos nos faz culpados por amar demais.

Claro, as intenções são sempre as melhores possíveis, mas antes de mais nada pare e pense: será que ao menos os “pombinhos” querem se comprometer, querem se amar, querem se prender ou se apaixonar? A escolha não é sua, nunca foi e nunca será.

O importante é respeitar o espaço alheio e aceitar que existem pessoas felizes sozinhas ou que você não vai conseguir juntar todas as panelas com suas tampas, ou todo pé cansado com seu chinelo velho. As pessoas precisam procurar seus pares, ou, se você der uma forcinha pra isso acontecer, pelo menos depois deixe o casal seguir seu próprio rumo.

Difícil isso né? É. Que atire a primeira pedra quem nunca palpitou na vida alheia, seja com um amigo, com um namorado, com um amante, com um colega… faz parte da natureza humana, mas lembre-se: respeito é bom e eu - você e todo mundo - gosta.

*Patrícia Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

domingo, 8 de julho de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXVI*

"As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou"

"As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se junto com elas"

"(...) se possuir este amor ao insignificante; se procurar singelamente ganhar como um servidor a confiança daquilo que parece pobre - então tudo se lhe há de tornar fácil, harmonioso e, por assim dizer, reconciliador (...)"

"Numa ideia criadora revivem mil noites de amor esquecidas que a enchem de altivez e altitude"

"Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação"

"(...) não pense que o grande amor que lhe fora imposto na sua adolescência se tenha perdido. Não terá sido então que amadureceram em si grandes e bons desejos e propósitos dos quais o senhor vive ainda hoje ? Creio que aquele amor persiste tão forte e poderoso em sua memória justamente por ter sido sua primeira solidão profunda e o primeiro trabalho interior com que moldou a sua vida"

"O futuro está firme (...) nós é que nos movimentamos no espaço infinito"

"Estamos colocados no meio da vida como no elemento que mais nos convém. Também, em consequência de uma adaptação milenar, tornamo-nos tão parecidos com ela que, graças a um feliz mimetismo, se permanecermos calados, quase não poderemos ser distinguidos de tudo o que nos rodeia"

"Não sabia estar em transição ? Desejava algo melhor do que transformar-se ? Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho"

*Rainer Maria Rilke
Cartas a um jovem poeta

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Divagações V*


Mais uma divagação no Alétheia. Estava no ônibus seguindo de Juiz de Fora (MG) para Teresópolis (RJ) enquanto ouvia algumas músicas do Teatro Mágico e lembrava uma série de coisas que a música me suscita (e que já relatei num texto anterior).

Nesse caminho me vieram aulas que ando assistindo, textos que ando lendo, ideias, etc., enfim, conteúdos que geram o movimento (devir) de meus pensamentos e concepções acerca das coisas.

Isso me fez repensar o que ando escrevendo na série Divagações. Repensei, mas não desfiz o que construí nos textos anteriores. Somente senti a necessidade de pensar alguns aspectos não tratados e tratar outros pouco tratados nos escritos precedentes.

Encontro-me em um momento ímpar da vida (talvez todos o sejam). Instante em que, racionalmente, critico a tentativa de minha própria razão de querer dar conta de tudo. Tenho voltado a fazer uma coisa que há tempos não havia dado atenção: ouvir música com mais frequência. Isso me trouxe uma série de ideias e reflexões. O que me levou a escrever um brevíssimo texto, que considerei parte de minhas Divagações. Mas, agora vamos a essa breve exposição.

A razão “pensa”, conhece, explica. Mas, ela não chega a ser propulsora disso. Quando estudo, busco aprender, investigo, não é a razão, mas, o desejo, a vontade que me impulsiona. Se não me engano, Platão dizia que o que move a filosofia é o eros, a paixão.

Posso racionalmente dizer (ou procurar dizer) o que é amor, vontade, desejo, paixão e prazer. Porém, o que disser jamais serão as coisas ditas. Jamais o desenvolvimento e exposição sistemáticos acerca dos elementos propulsores, darão conta de esgotar a experiência destas. E mais, jamais a razão será suficiente a si própria.

Tenho a impressão de que a sensação ou a constatação da precariedade humana – genialmente desenvolvida pelo movimento existencialista – impulsionam o homem a superar-se, e isso se estende a todos os elementos intrínsecos à vida. Razão, vontade, desejo, sonho, busca, amor são continuamente vivenciadas enquanto incompletas.

Quem viveu algum momento da vida no qual seus desejos e sonhos mais “baixos” foram alcançados, deve ter percebido certa ausência de sentido. Um exemplo pode ser observado nos que desejam a riqueza e depois de alcançar o almejado, se encontraram em crise por não saber mais o que fazer. Alguns, nessa ausência de busca, se matam, por ausência de sentido e incompletude.

Jean-Paul Sartre dizia que a existência do homem precede sua essência, que é construída. Eu diria que é exatamente próprio da essência humana existir para forjar sua essência numa circularidade ou num ritmo espiral profundo valendo-se da totalidade do que se é.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Diante da folha em branco*

Escrever é uma catarse... quase um delírio. Difícil até mesmo dimensionar.

Um movimento que transborda, vindo do que ainda falta ser dito, do que nem mesmo se entende, do que se pretende ou não e até do que não se consegue dizer.

Vindo do âmago ou da superfície, não importa. O que conta é que costuma vir da alma, do que reconhecemos em nós mesmos; daquilo que se desafia, se precipita e se extingue. Uma eterna página inacabada; um eterno devir.

Escrever é quase solitário, imprevisível, incrivelmente confortador!

Mas não é um caminho simples. Que ninguém pense que é corriqueiro ou mesmo obviamente possível externar o que se sente ou o que se pensa. Pode ser até doloroso... de uma dor que machuca, mas que também compensa e se redime pelo sofrimento provocado, curando e renovando. Por conta do seu movimento, é uma ação autorreflexiva, autoflageladora, de onde não se prevê a consequência... quase uma loucura, exacerbada pela irresistível ação que a motiva.

Aliás, frequentemente ocorre que tudo se misture ou se condense na penumbra de uma nuvem obscura e cinzenta, onde o olhar turva e confunde o que vislumbra. É isso... escrever é um encantador vislumbre! Pode acontecer do ser se evaporar ao final de cada ponto ou reticência... mas é preciso lembrar que até a vida, às vezes, é reticente... é extensa... é turva. Então, pouco há o que fazer. E nada que uma nova respiração não reanime.

Escrever concede essa possibilidade assustadoramente autogênica, transformadora, que abre as comportas da imaginação no momento em que esta se permite esvair. É um alento para quem se rasga e se emenda. Restaura e reedita emoções.

Oferece à alma a chance de se regenerar, de se expor, de se extorquir, de se recompor. Tudo sem se render a nenhum caminho do meio, a nenhuma máscara, pois não é permitido um caminho do meio para a expressividade que se dispõe a vazar.

Ainda que se apague e se reescreva, ou mesmo que se amasse o papel ou delete a ideia, o que gerou as linhas aconteceu, existiu e tomou forma, nem que por um só instante. A entropia reflexiva aumenta, mas ao contrário do que se supõem, não degrada; na verdade, agrega contribuições múltiplas ao constante exercício expressivo.

As palavras são simplesmente ferramentas que concretizam o fluxo da imaginação. Por elas, nos revelamos, mesmo que se revelem mudas em seu grito ou construídas pelo silêncio.

Mas escrever é, essencialmente, um prazer, uma deliciosa aventura, que lança o que se desnuda para muito além do que imagina.

Não há limites possíveis... não há fim imaginável... não há horizonte que se esgote... até mesmo porque não há como deter o sentimento, a dor, o prazer, a saudade. Não há um fim! Pois quando a alma expele a lava intensa, não há fuga possível. Ou melhor, a lava é a fuga!

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Bonde do amor*

Era uma vez... Um homem e uma mulher que, sentados ao pé do Cristo, no Morro de Imperador, se prometeram amor eterno. Seus cabelos brancos, as rugas e o tremor de muitos anos de separação lembravam o início de uma história inacabada no Parque Halfeld.

Chovia muito quando o bonde chegou. Ela vestia o uniforme engomado do colégio Santa Catarina e ele, o uniforme bem passado do exército. Seus olhares se encontraram por instantes. Ela desviou o rosto, envergonhada, com a face queimando, e fez que não o viu. Ele tossiu, tentando disfarçar o coração disparado de tanta emoção.

O bonde passou na vida dos dois. E eles nunca mais se viram. Ficou apenas o olhar e a imagem. Os anos sopraram como os ventos. Ela casou com um amigo. Ele foi para capital. Tiveram filhos, criaram histórias opostas de amor e dor.

Até que, em uma tarde, na Catedral Metropolitana, ao som da marcha nupcial, ele entrou com sua bela filha, vestida de noiva. Ele, que foi morar para além-mares, voltou na semana do casamento. Ela, como mãe do noivo, desfilou pela nave da igreja, trêmula, diante de todos os ansiosos convidados.

Lá fora, chovia. Não havia mais bonde. Mas, diante do altar, os olhos se cruzaram. Eles não eram os noivos, porém o mesmo olhar e a mesma emoção. Eles não mais disfarçaram. Fixaram o olhar que reacendeu a paixão vivida por um instante fugaz. Os corpos se acenderam. Os sinos tocaram. As almas se encontraram.

E... Não mais se falaram, pois a festa no Clube Bom Pastor os separou. Eram pais dos noivos a receber amigos e a celebrar o enlace.

Naquela noite, não dormiram. Ela viúva. Ele separado. Corações pulsavam e a imaginação acendia desejos há tempos congelados. No ar, devaneios.

Naquele sábado bem cedo, ela desceu a Rua Halfeld até a Getúlio Vargas. Seu olhar procurava. Nem sabia o que. Andou feito barata tonta de lá para cá em meio ao movimento da abertura das lojas festivas para aquele dia sempre especial de sábado. Era sempre uma festa no centro da cidade, o fim de semana. Parou no Café do Cine Palace. Bicou um expresso. Coração agitado. Saudade do filho único que, na volta da lua de mel, moraria lá na Cidade Alta.

Ele, bem cedo, foi caminhar no Museu Mariano Procópio. Pensou no como conseguiu conhecer o noivo da filha só no dia do casamento. Desde que separou, não mais voltara a Juiz de Fora, nem viera mais ao Brasil. Sua filha sempre o visitava no exterior.

Em meio a estes pensamentos, sentado diante o lago, ele sentiu como se o tempo tivesse retrocedido. Viu umas charretes movimentarem pela antiga Villa Ferreira Lage. Sentiu um homem, com barba espessa e polainas, sentar ao seu lado. Era Alfredo Lage, que o saudou, dizendo:

- Este parque ainda continua muito bonito! Hoje, 23 de junho,seria aniversário de meu pai. Ele foi um grande homem, engenheiro e político. Construiu a Estrada União e Indústria que uniu Juiz de Fora a Petrópolis. Recebeu D. Pedro II e sua comitiva para a inauguração. Foi uma grande festa.Transformei esta nossa casa em Museu em homenagem a meu pai, quando completou 100 anos de seu nascimento, pois ele tinha um grande acervo de arte.

Esta quinta tinha 78mil m2 e era um paraíso tropical com uma flora exótica, como dizia meu amigo naturalista suíço Jean Louis Rodolph Agassiz. O castelo ali no pico da montanha, onde é o museu, sempre foi assim envolto em árvores, estilo renascentista, projetado pelo alemão Carlos Augusto Gambs. Sempre adorei este lugar. Vou dar mais uma volta para ver como tudo ficou. Bom dia! Ah, se tiver oportunidade conte a todos que sempre passeio por aqui. Não fique assustado, o tempo é uma ilusão.

Ainda sob o forte impacto daquele encontro, ele pensou: - Pena que o Museu se encontra fechado para o público e seu acervo corre o risco de se perder!

Como a vida tem seus segredos e mistérios que não têm explicação, aconteceu. Ela, no impulso vindo da memória do passado, foi ao Parque Halfeld, ao meio-dia. Ele, no impulso vindo do passado, e ainda meio tonto do encontro no Museu, foi ao Parque Halfeld, ao meio-dia.

Não havia nem bonde, nem chuva. Em frente às escadas da Câmara Municipal, eles se reencontraram. Olharam-se. Sorriram e se abraçaram. Nenhuma palavra foi dita. Nem era preciso. Pegaram o carro em direção ao Morro do Imperador. No caminho, uma neblina intensa criava um ar bucólico, romântico- poético. Ele ligou o rádio que tocou a música: Algum lugar do passado. Ela derramou algumas lágrimas. Ele, silencioso, sentia o coração pular pela boca.

O abraço e o beijo aconteceram como em toda historia romântica, ou conto de fadas, ou no mito moderno. E... Como todos já perceberam. Começou uma linda história de amor, onde poderíamos apenas escrever FIM.

Com certeza, foram felizes para sempre na bela cidade de Juiz de Fora, entre as montanhas azuis, onde os raios gostam de brincar e os deuses se escondem para descansar.

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, filósofa clínica, escritora
Juiz de Fora/MG