sexta-feira, 6 de julho de 2012

Divagações V*


Mais uma divagação no Alétheia. Estava no ônibus seguindo de Juiz de Fora (MG) para Teresópolis (RJ) enquanto ouvia algumas músicas do Teatro Mágico e lembrava uma série de coisas que a música me suscita (e que já relatei num texto anterior).

Nesse caminho me vieram aulas que ando assistindo, textos que ando lendo, ideias, etc., enfim, conteúdos que geram o movimento (devir) de meus pensamentos e concepções acerca das coisas.

Isso me fez repensar o que ando escrevendo na série Divagações. Repensei, mas não desfiz o que construí nos textos anteriores. Somente senti a necessidade de pensar alguns aspectos não tratados e tratar outros pouco tratados nos escritos precedentes.

Encontro-me em um momento ímpar da vida (talvez todos o sejam). Instante em que, racionalmente, critico a tentativa de minha própria razão de querer dar conta de tudo. Tenho voltado a fazer uma coisa que há tempos não havia dado atenção: ouvir música com mais frequência. Isso me trouxe uma série de ideias e reflexões. O que me levou a escrever um brevíssimo texto, que considerei parte de minhas Divagações. Mas, agora vamos a essa breve exposição.

A razão “pensa”, conhece, explica. Mas, ela não chega a ser propulsora disso. Quando estudo, busco aprender, investigo, não é a razão, mas, o desejo, a vontade que me impulsiona. Se não me engano, Platão dizia que o que move a filosofia é o eros, a paixão.

Posso racionalmente dizer (ou procurar dizer) o que é amor, vontade, desejo, paixão e prazer. Porém, o que disser jamais serão as coisas ditas. Jamais o desenvolvimento e exposição sistemáticos acerca dos elementos propulsores, darão conta de esgotar a experiência destas. E mais, jamais a razão será suficiente a si própria.

Tenho a impressão de que a sensação ou a constatação da precariedade humana – genialmente desenvolvida pelo movimento existencialista – impulsionam o homem a superar-se, e isso se estende a todos os elementos intrínsecos à vida. Razão, vontade, desejo, sonho, busca, amor são continuamente vivenciadas enquanto incompletas.

Quem viveu algum momento da vida no qual seus desejos e sonhos mais “baixos” foram alcançados, deve ter percebido certa ausência de sentido. Um exemplo pode ser observado nos que desejam a riqueza e depois de alcançar o almejado, se encontraram em crise por não saber mais o que fazer. Alguns, nessa ausência de busca, se matam, por ausência de sentido e incompletude.

Jean-Paul Sartre dizia que a existência do homem precede sua essência, que é construída. Eu diria que é exatamente próprio da essência humana existir para forjar sua essência numa circularidade ou num ritmo espiral profundo valendo-se da totalidade do que se é.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

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