segunda-feira, 30 de julho de 2012

Leituras de Filosofia Clínica I*


“O pastor Miguel Brun me contou que há alguns anos esteve com os índios do Chaco paraguaio. Ele formava parte de uma missão evangelizadora. Os missionários visitaram um cacique que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto e calado, escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram esperando.
O cacique levou um tempo. Depois, opinou:
— Você coça. E coça bastante, e coça muito bem. E sentenciou:
— Mas onde você coça não coça”.
Eduardo Galeano**

Na Filosofia Clínica há um elemento denominado interseção, importantíssima para a prática do consultório. Ela é dividida em interseção positiva, negativa, confusa e indefinida. Não necessariamente o exercício de consultório deverá ser totalmente baseado na interseção positiva, até mesmo porque às vezes o partilhante precisa de outras formas de interseção para que o andamento dos trabalhos em consultório aconteça. Mas, o que interseção tem a ver com a coceira tratada no texto acima? Vamos aprofundar o assunto.

Quando um partilhante (como é chamado o cliente ou paciente na Filosofia Clínica) aparece buscando ajuda, é comum dentro de nós surgir diversas formas de solução do problema. Inclusive em nossas práticas diárias de relacionamento podemos notar uma infindável exposição de opiniões para resolução das questões alheias. Entretanto, nem sempre onde “coçamos” com nossa resolução, “coça” na questão do outro.

O missionário em questão apresentou uma proposta na “língua” do outro. Mas, não bastou falar como o outro fala. É necessário ir além. Quando em consultório o partilhante apresenta seus problemas, muitas vezes essas são o que na Filosofia Clínica chamamos de Assunto Imediato.

A queixa inicial do partilhante, nem sempre condiz com a questão principal a ser trabalhada. Muitas vezes uma dor de barriga antes do trabalho, tem muito mais ligação com questões relacionais no trabalho do que propriamente fisiológicas. O que nos remete para aprofundar mais.

No andamento do consultório, além da língua do outro, é necessário descobrir onde de fato a “coceira” se dá. E não é só ouvindo o que primeiro surge, que conseguimos atingir o Assunto Último. Faz-se necessário a historicidade, o enraizamento, as traduções, etc., para reconhecermos a Estrutura de Pensamento do partilhante e assim trabalhar algumas questões.

Algo que é válido ser dito nesse momento, é que por vezes não é o reconhecimento do problema que diretamente nos permite buscar solucioná-lo. Ao reconhecer os tópicos dominantes na Estrutura de Pensamento do partilhante, o que será feito vai muito além do que uma simples resolução de choques entre esses tópicos reconhecidos. A esse respeito, Lúcio Packter diz que:

“o objetivo da clínica filosófica é, tanto quanto possível, reconhecer e entender as interseções (choques) entre os tópicos da Estrutura de Pensamento, e em seguida utilizar os submodos para tentar trabalhar essas interseções tópicas.
Trabalhar no sentido de resolver, aplacar, abrandar, dissolver, absorver, expurgar etc ??!
A priori, não sei.
A resposta vai depender do que for obtido da pesquisa que o filósofo clínico e a pessoa conseguirem em seu trabalho mútuo.” (Caderno A).

Reparem que trabalhar as interseções tópicas possui variadas formas e isso dependerá do partilhante, da interseção com o Filósofo Clínico e de diversos outros elementos implicados na prática da terapia. Por isso, não há previamente como afirmar o que será feito no consultório. Cada caso é único e qualquer movimento de resolução a priori pode cair por terra imediatamente após o primeiro minuto de conversa em consultório.

No processo clínico, após os exames categorias e a colheita da historicidade, o filósofo buscará uma construção compartilhada. Buscará ir ao mundo do outro por meio do que chamamos de recíproca de inversão. Reconhecerá diversos aspectos do outro: linguagem, termos agendados no intelecto, pré-juízos, o que acha de si mesmo, etc. E a partir dessa ida ao mundo alheio, poderá trabalhar o que no outro se apresenta.

A última palavra não é minha, sou agente de auxílio para o processo que caberá o outro cumprir. A esse processo a Filosofia Clínica denomina “autonomia de pensamento”. É claro que a própria afirmação já requer certo contexto e aceitação de determinadas contingências que surgem pelo caminho. Novamente vale lembrar que cada caso é único, singular.

Um caso clínico sem as devidas tomadas de medidas metodológicas pode cair em ausência de recíproca do partilhante, quando fizermos nossos agendamentos na aplicação de submodos; os agendamentos máximos sem a devida colheita da historicidade, podem causar danos enormes; a aplicação de submodos não condizentes como a pessoa age no mundo dela também pode ser danoso; e por fim, o que não esgota as possibilidade de estragos, cito a possibilidade do Filósofo criar no partilhante “coceiras” que ele jamais teve e, contraditoriamente, não resolver o que ele a princípio já possuía.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

**(A função da arte 2, In: Eduardo Galeano. O Livro dos Abraços. trad. Eric Nepomuceno. 9 ed. Porto Alegre: L&PM, 2002. p. 18)

*** Estou ciente de que diversos termos próprios do vocabulário da Filosofia Clínica com significados bem próprios não são claramente desenvolvidos. Entretanto, caso o fizesse incorreria no problema de ter que estender o texto a proporções impróprias para um blog. Diante disso, garanto que aos poucos nos próprios textos, irei clareando o significado de conceitos à medida que forem surgindo.

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