quinta-feira, 19 de julho de 2012

Para todas as outras coisas, use Mastercard*

Dizer tudo em uma frase é algo que pode facilitar coisas que não necessitam mais do que isso. Se não por outros benefícios, ao menos diríamos tudo em uma frase.

Livros maçudos, filmes que passaram do fim, óperas, um discurso inteiro que escreveram para o Lula, tudo em uma frase e poderíamos ir embora. A frase diria tudo. Duas frases, dois livros.

Como é que a Hyundai vende um Tucson? A gente abre a página dupla de uma revista, encontra o carro virado para lá, vários adesivos indicando prêmios e outras coisas que não lemos, mas que indicam isso, e uma frase: escolha o melhor do mundo. E, pronto, já sei porque devo comprar um automóvel automático no valor de R$ 115000,00.

Por que eu compraria um notebook que tem em qualquer lugar no Ponto Frio? Porque lá eu posso pagar em doze vezes sem juros. E mesmo que eu possa fazer isso em qualquer outro lugar, eles é que estão me comunicando o fato. Sinto-me como um Tucson automático, o melhor do mundo.

A Vivo me mostra celulares lindíssimos, todos de pezinho, números pululando à volta, nem leio, mas reparo que qualquer um dos celulares posso ter por R$ 10,00. Isso mesmo. Não preciso de um celular, já quase não sei o que fazer com o meu, só que a Vivo me contou em uma frase o que ela acha que me importa e quase me vende um celular, ainda que eu não queira.

Me diga uma coisa: você gosta de Banco? Ou tem aquela opinião que eles ganham horrores com o nosso dinheiro suado, sente um gostinho de vingança com a quebra ocasional de um de vez em quando?

Pois então porque eu deveria depositar meu dinheiro no Unibanco? Entre outros motivos, porque esta instituição, em uma única frase, veja bem, me diz que nem parece Banco. E grafou Banco em minúsculo.

... viro mais páginas e encontro a Vivo de novo.

“Na Vivo você faz DDD com preço de ligação local” – já pensou? Em uma frase me dizem uma coisas desta, logo eu que viajo pelo país todo dando aulas e fazendo palestras, logo eu que posso ligar para casa pelo mesmo preço de quando estou em casa, que é caro igual, mas a frase única me faz parecer contente porque parece que estou ganhando algo.

Vamos adiante. Por que eu deixaria um Tucson de lado e compraria um Honda Civic Si, lançamento esportivo da montadora que me coloca diante de um possante vermelho, os olhos do leitor à altura das rodas de liga leve? Para que eu levaria para casa aquela coisa de 192 cavalos, 6 marchas com LSD, que eu nem sei o que é e antes achava que era droga? Em uma frase: “Acredite, você não vai querer ver este carro irritado”. Eu acredito, claro que acredito, ainda mais com o céu que pintaram acima e ao fundo sobre o possante, o bólido, a coisa.

Muitos podem objetar afirmando que uma frase não traduziria a profundidade de Proust e eu digo que em muitos contextos a profundidade de Proust não serve para nada, nem mesmo para profundidade.

Muitos podem objetar que a poesia, a demora, a complexidade de certos assuntos não são cabíveis na cápsula de um comprimido; sim, talvez. Mas refiro-me ao que é cabível. E o argumento oposto não é menos verdadeiro, pois certos conteúdos de um comprimido não deveriam ser expansíveis às dimensões de uma caixa d’água.

E lembre de usar Avon por causa do “momento perfeito em que tudo pode acontecer”. Eh eh eh, que coisa! Isso vai tomando conta da gente. Mas não se preocupe: saia com um Peugeot, dirija este prazer. Qualquer problema, Basf neles, a química da vida. Mas somente vestido, então Orient, vista seu pulso.

Tudo em uma frase, o mundo. Uma das tendências atuais. Nada de perder tempo, que tratemos de ganhá-lo para fazer depois coisas como desperdiçá-lo, jogos de paciência, ansiedade, comprimidos de novo, uma frase.

Eis uma característica da nossa época...

*Lúcio Packter
Criador da Filosofia Clínica

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