terça-feira, 24 de julho de 2012

Sobre a amizade*


O tempo passa rápido e a distância não consegue sepultar um sentimento verdadeiro. Plantamos as sementes do amanhã no solo que cultivamos hoje.

Assim é a amizade. Uma verdade plantada no jardim dos mistérios da vida. Cultivar é preciso. Regar também.

Concordo com Sócrates quando sabiamente disse: “Para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolver em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos”.

No mundo competitivo em que vivemos uma amizade verdadeira torna-se tão rara como as pérolas escondidas em ostras no fundo do oceano. Talvez seja por isso que quando as encontramos sua beleza é inexplicável e seu valor incalculável. Pérolas são raras e especiais. Amizades verdadeiras também.

Há um provérbio popular que diz: “Nunca foi um bom amigo quem por pouco quebrou a amizade”. Amizades verdadeiras não se quebram por futilidades. Elas resistem às duras tempestades das diferenças e se fortalecem com as esperanças partilhadas.

Não gosto de sentimentos que se esfriam com o tempo. Kant também devia não gostar quando escreveu: “A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor”. O tempo pode fortalecer o que a verdade um dia deu à luz. Porém, pode também revelar que a mentira em que acreditávamos ser verdade sempre foi uma máscara no grande baile da vida.

Muitas amizades terminaram quando as máscaras foram arrancadas. As luzes de uma noite de festa não duram uma vida toda. Um dia elas se apagam e a realidade mostra a sua verdadeira face. Acredito que a mais triste decepção seja aquela das pessoas que acreditaram em verdades mascaradas, em amizades fantasiadas de boas intenções.

Os filósofos são reconhecidos como amigos da sabedoria. Verdadeiros amigos dividem o saber com amor e partilham as dores com compaixão. Cícero certa vez disse: “Dos amores humanos, o menos egoísta, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade”.

Muitos se queixam da solidão. Procuram amigos nas esquinas da vida e se deparam apenas com ruas vazias. Sem confiança em si mesmo e no outro a amizade será apenas mais uma busca sem sentido.

Para ser amigo de verdade faz-se necessário aceitar as diferenças. Na busca do amigo perfeito muitos acabaram ficando sozinhos. Cobraram um preço alto demais das pessoas. Preço este, que nem mesmo eles conseguiam pagar. Atropelaram o processo da existência. E hoje padecem a dor de estarem sós e amargurados na vida.

Estranho é saber que a amizade é uma realidade tão rara no cotidiano da vida. Confia-se desconfiando. Busca-se amigos, mas não se busca a amizade. Aristóteles sabia muito bem disso quando escreveu: “Um Amigo se faz rapidamente; já a amizade é um fruto que amadurece lentamente”.

Amizade é processo lento que requer uma vida toda para ser adquirida. Em cada novo amanhecer renovamos a aliança da amizade com as pessoas que não mais queridas. Cuidar da amizade é a cada dia fazer a experiência de ser um jardineiro nos canteiros da vida.

Arrancar as ervas daninhas da incompreensão e plantar novas flores do amor. Regar o gramado da esperança e recolher as folhas secas de um passado que não voltará mais. É adubar a terra de confiança e retirar as pedras das mágoas.

Amizade verdadeira resiste ao tempo. Nem a tempestade de um momento de raiva pode separar o que a vida uniu. Albert Einstein um dia disse: “Pode ser que um dia deixemos de nos falar... Mas, enquanto houver amizade, faremos as pazes de novo”. Recomeçar acreditando que por detrás de cada curva dos problemas da vida encontra-se um novo horizonte de possibilidades a ser desvendado.

Ontem remexendo em meu velho baú de recordações encontrei uma carta de um velho amigo. Nela está escrito: “A amizade é um amor que nunca morre!” Assinado: Mário Quintana.

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

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