sexta-feira, 31 de agosto de 2012

SOLIDÃO OU SOLITUDE*

Conquistar ou encontrar o grande amor de sua vida, pode ser muito fácil ou muito difícil. E depende muito do que você está procurando de verdade. E a dificuldade se instala exatamente neste ponto! Você sabe o que está procurando?

Mulheres que já chegaram à casa dos trinta, que são independentes econômica e financeiramente, lindas, ultra bem cuidadas, ainda têm dúvidas quanto o que seria ideal para compartilharem em amor, em vida conjugal.

Muitas dizem não ter sorte, que não existe homem disponível. Duvidam de sua competência como mulheres. Outras se expõem ao risco do envolvimento com qualquer pessoa, de qualquer jeito em uma busca inconsciente de algo, de alguém que as fará sofrer.

Se envolver com qualquer pessoa, só para ter alguém, justificando para a sociedade que foi capaz de casar-se e exercer domínio sobre alguém, é coisa do passado onde as moças eram treinadas para isto. O homem podia ser uma peste, mas se fosse julgado pela família, pelo meio, que era um bom partido, valia tudo. _ Minha filha, cala a boca, fica quieta. Mulher veio a mundo pra isso mesmo. Agradece a Deus que você não está encalhada.

Hoje as coisas são bem diferentes e a mulher, ainda não acordou para esta realidade que as beneficia de todas as maneiras. A mulher hoje, pode simplesmente amar alguém, ser feliz, dividir ou não um espaço, ter filhos ou não com ele e o melhor, se ela for inteligente, não se permitir amar qualquer um.

Eu sei que a gente não manda no coração, no corpo da gente, nas coisas que a gente sente. Mas diante de tanta autonomia, não daria para ao menos passar um filtro rápido pelo histórico familiar e amoroso do rapaz? _ Ah, não se deve julgar uns pelos outros? _ Ele foi assim com as outras porque ainda não tinha me conhecido. _ O pai dele era assim, mas ele não seguiu os maus exemplos deixados por ele. Realmente, seus pensamentos podem ser condescendentes, entretanto é sempre bom, antes de cair de quatro pelo mocinho, saber do que ele foi capaz antes de você.

Se na sua vida de Balzaquiana, linda, leve, solta, só está faltando um grande amor, outra dica é não assustar o pretendente com toda a sua independência. Eles ainda não aprenderam lidar com isto. No sexo então, se você quer conquistar alguém para casar, finja-se de morta! Calma, não é bem assim. Deixe-o saber de todo o seu poder, mas lembre-se que alguns homens precisam acreditar que, é ele quem dá as ordens. Se permitir conhecer um pouquinho a pessoa antes do “vamos ver”, saberá a medida exata de como usar esta tática.

E agora, a receita infalível para conquistar o seu único e grande amor da vida inteira: conquiste-se, ame-se, valorize-se, cultive a humildade sobre toda esta conquista, sobre todo este valor, mantenha o curso de sua vida com simpatia, com doçura, com beleza e não vai faltar quem queira estar ao seu lado.

Como dizia o bom amigo Mario Quintana: 'cuide do seu jardim..' eu acrescentaria: 'mas não faça isso somente para que as borboletas venham pousar nele. Viva feliz nele'.

Namastê!

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Pois então!*

Dor de medo da felicidade que se aproxima...

Antes tudo era só vontade e esperança, agora, depois de tanto querer e sonhar e desejar estou mais próxima do meu sonho realizado!

Porém, aqui dentro confusão de sensações:
Medo, angústia e dor.

A felicidade trás espasmos pra minha alma e muitas vezes parece que o choro brota como alívio nem sei de que.

Situação sem endereço, sem finalidade aparente ou racional. Emoção a flor da pele eu sou e sempre serei por mais que tente negar!

Ansiedade corre veloz no centro do peito, somente a arte pra extravasar...

Mesmo com dores dos excessos de ensaios eu quero mais dançar e dançar, porque não há limite para a alma e agora que aprendi a voar eu sei que posso mais e mais e ninguém me segura não!

Respiro uma, duas, três vezes... Lembro de cada movimento conquistado e repetido e como num orgasmo pulsante eu quero mais e mais dançar!

Loucura é viver sem arte, sem alguém para amar...

Loucura é não chorar mil vezes, loucura é não se permitir ser feliz!!!

E, hoje apesar de críticas eu me permito ir além, muito mais do que a imaginação possa me levar. Eu chego perto dos anjos, me sinto divina em cada movimento preciso, me sinto mais mulher e mais amante!

O meu suor é sagrado e nada vai me derrubar. Minha alma transborda e eu estou inteira novamente. Em paz! Tranquila e feliz.

*Vanessa Ribeiro
Atriz, dançarina, matemática, filósofa, estudante de filosofia clinica
Petrópolis/RJ

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Faz-me Casto, mas não Ainda*

Querido leitor, que você esteja em plenitude. 28 de agosto festeja-se o dia de Santo Agostinho, uma das personalidades mais destacada da história da filosofia, principalmente entre os cristãos.

Agostinho nasceu na cidade de Hipona, no norte da África em 354 depois de Cristo, porém, suas viagens o levaram para longe de casa, pelo mundo mediterrâneo, até sua morte na sua cidade natal. Seu pai era pagão, já sua mãe Mônica era uma mulher simples de fé cristã.

Agostinho se afastou do cristianismo na adolescência e aos 18 anos lançou-se numa busca filosófica que o levaria a frequentar várias posições intelectuais diferentes, antes de se voltar ao que ele chamou de cristianismo católico. Primeiro Agostinho abraçou a doutrina do profeta persa Mani, o maniqueísmo do século III depois de Cristo. Para Mani, o universo é o campo de batalha entre forças do bem e do mal, da luz e das trevas.

Depois se tornou um filósofo cético da sua época do tipo predominante na academia fundada por Platão. Aos 32 anos retornou ao cristianismo, levando consigo o platonismo e seu neoplatonismo, fundindo-os com o cristianismo de um modo que teria consequências de grande importância.

Platão acreditava que o verdadeiro conhecimento está num reino de entidades atemporais, perfeitas e imateriais, com as quais nosso contato é não-sensorial, ou seja, nesse mundo as coisas são imperfeitas e decadentes, porém, em uma outra dimensão existe uma entidade perfeita.

A doutrina de Platão ainda diz que uma parte de nós também é atemporal e imaterial já pertencente àquele reino, enquanto nossos corpos estão entre objetos materiais fugazes e decadentes do mundo sensorial. Tudo isso se tornou parte da visão de mundo cristão que muitos, ou quase todos os cristãos, vieram a supor que tais ideias são originais do cristianismo e devem ser pensadas como parte natural dele.

Em sua autobiografia no livro "Confissões", Agostinho relata sua infância, o retrato de sua mãe e confissões de sua promiscuidade sexual quando jovem, onde ele, querendo, mas ao mesmo tempo não querendo, escapar da escravidão sexual, rogava a Deus: "Senhor, faz-me casto, mas não ainda".

Suas crenças são de natureza histórica, mais que filosófica, acredita que Deus criou o mundo e depois veio viver no mundo como uma das pessoas que o habitam. E o fez por intermédio de um homem chamado Jesus, na Palestina, e viveu uma vida do qual temos registros históricos. Para ele, ser cristão implica, entre outras coisas, acreditar nisso e tentar viver do modo como ordenou, pela boca de Jesus, o Deus que nos criou.

Santo Agostinho viveu até os 32 anos numa busca e numa incerteza entre gozar a vida ou ser casto. Conviveu com uma bonita frase de Paulo: “Tudo lhe é possível, mas nem tudo lhe convém”.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, vive com a incerteza entre a escravidão sexual e a santidade?

*Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Solidão Singular*

Foi Clarice Lispector quem escreveu: “Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”

Na alma humana existem prisões e campos de liberdade. Perspectivas diferentes que habitam manhãs e tardes no tempo de cada coração em silêncio ou canção. Diante da singularidade da vida, cada ser humano irá vivenciar dentro de si um jeito diferente de ver e viver sentimentos e sensações que são próprias de sua historicidade, cultivadas no solo dos terrenos de suas experiências únicas e outras vezes plurais.

No tempo e no lugar de cada história a solidão pode ter um papel fundamental ou destrutivo. Contudo ela pode ainda não ter nenhum papel existencial tendo em vista a Estrutura de Pensamento de cada um. Aquilo que em im é vida poderá nunca ser gerado na alma do outro.

Em nossa sociedade a solidão ganhou várias matizes, formas e conceitos. Há aqueles que defendem a solidão como espaço para o encontro consigo mesmo. Outros irão dizer que a solidão pode ser uma patologia. Outros ainda não conseguem ficar sozinhos com seu mundo e por isso mesmo criam outros mundos em tempos próprios de seu ser. Não há regras estabelecidas, apenas um jeito de viver o tempo que cabe a cada um.

Para Arthur Schopenhauer “a solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais. Sorte para uns, medo para outros. No universo que habita cada coração as vivencias são tão singulares como as flores. As alegrias são únicas e por isso mesmo impossíveis de serem expressas em palavras. As dores são tão particulares que diante delas apenas o olhar de compaixão pode compreender de maneira fragmentada o que nunca poderemos sentir.

As cores que a solidão adquire ao longo da vida são tão variadas quanto às estações que o ser humano carrega em si mesmo. Há solidão de amizades, solidão de amores, solidão que nasce de saudades, solidão que surge sem nome e se instala na vida e algumas vezes cria raízes e produz frutos. Francis Bacon fala sobre a solidão nascida da falta de amigos: “Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto.” Alguns irão discordar de Francis porque a vida sem amigos nem sempre será solidão, mas apenas um modo de ser no mundo.

Para outras pessoas a solidão é um inferno. Na tortura de terem que conviver com a solidão encontram-se em um lugar existencial de tormento, pois fazem a experiência de viverem com aquilo que não desejam, ou que criaram como uma maneira de ser no mundo e na vida. Victor Hugo parecia ter esta concepção de inferno-solidão quando escreveu: “Todo o inferno está contido nesta única palavra: solidão.” Mas há quem diga: “Todo o céu está contido nesta única palavra: solidão”. O mundo é sempre um jeito singular de viver e conviver com o próprio coração.

Inferno para uns e céu para outros! Que digam os poetas! Nas noites solitárias nascem os versos que falam dos silêncios nascidos em frases silenciosas, rabiscadas na alma e escritas na vida. Solidão companheira que inspira o dom de poetizar em palavras a dor ou a alegria de sentir-se só. Na lua que brilha no céu e devolve a noite a claridade das percepções, a poesia caminha de mãos dadas com a solidão que grita nas entranhas da alma. No silêncio das palavras não pronunciadas verbalmente o tempo ganha dimensões de eternidade nos registros que brotam serenos ou angustiados da vida em reversos.

Mauro Santayana, jornalista brasileiro, nascido no Rio Grande do Sul, que estudou apenas até o segundo ano do antigo primário, acredita que a “educação para a vida deveria incluir aulas de solidão.” Aprender a conviver com a solidão ou despedir-se dela? Cada um aprende de acordo com as suas próprias tendências, leituras e interpretações que faz da sua própria história singular que muitas vezes é povoada de plurais.

Fernando Pessoa descobriu na solidão uma maneira de ser um com ele mesmo:
“Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.”

Quando adentramos no território da solidão todo cuidado é necessário, pois o modo como cada um vê os seus sentimentos é único e querer que o outro veja o mundo com nossos olhos pode lhe causar uma cegueira existencial sem volta. Ver a solidão do outro como dor ou alegria que ele traz em si mesmo é uma maneira delicada de respeitar aquilo que nunca será nosso, porque foi germinado no singular de um tempo próprio de ser e de viver.

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Filosofia Clinica - uma abordagem terapêutica com base na singularidade*

Vivemos numa época de pensamentos antagônicos, onde a tecnologia e a rapidez de comunicação das mídias sociais convive sem problemas com as mensagens de auto-ajuda e correntes de pensamentos positivos.

Como comenta Edgar Morin em "A minha esquerda", há uma percepção geral de que as necessidades humanas não são apenas econômicas e técnicas, mas também afetivas e mitológicas. Enunciado este, já feito pela banda Titãs com a música, "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte".

A possibilidade de pensar os problemas de cada um em específico, entendendo a pessoa dentro do seu universo e da sua linguagem, entendendo e trabalhando suas necessidades no sentido do seu bem-estar, é o que se propōe a Filosofia Clínica.

A Filosofia Clinica é nova abordagem terapêutica, Idealizada na década de 90 por Lúcio Packter, um médico gaúcho, que tem como fundamento teórico a filosofia. Com um método de pesquisa e um vocabulário próprio, Packter se referencia em filósofos como Schopenhauer quando fala da representação de mundo de cada um, base do estudo da singularidade.

O que realmente tem significado para cada pessoa é muito específico. O que faz sentido para alguns não são mais convenções sociais, dilemas de condição econômico-social, sendo que para determinados individuos, isso possa ainda estar presente.
Esta multiplicidade de pensamentos e de valores, possibilita a convivência desde o tradicionalismo das relações familiares estratificadas, até a busca por sentido religioso, alternativas eco-políticas, ou mesmo a luta pela sobrevivência, em um mesmo contexto social.

A Filosofia Clínica se pretende uma nova abordagem terapêutica, tendo como o centro do seu interesse a pessoa no seu universo próprio.

O conceito central de singularidade busca entender cada partilhante - quem faz terapia com um Filósofo Clínico - a partir da sua história de vida, de seus valores, do que para cada um significa e é significado.

Assim podemos entender porque, na representação de mundo de uma pessoa, as regras sociais com base na condição econômica sejam determinantes, quando para outra, convivendo no mesmo espaço, não tenham a mínima importância.

Cada pessoa significa o seu mundo a partir das suas experiências, e cabe ao Filosofo Clinico, ao conhecer a experiência de vida de cada partilhante, mergulhar nessa nova linguagem, descobrindo e propondo novas possibilidades de abordagens de cada questão existencial. Desta maneira, cada terapia é realizada como única, pois quando abre mão das tipologias e do diagnóstico, o terapeuta está apto a escutar o excepcional da história de vida de cada partilhante.

Partindo da compreensão que a filosofia ė resultado de um encontro, de um diálogo entre diferentes pontos de vista, assim a Filosofia Clinica estabelece o seu fazer, a partir do encontro entre Filosofo Clinico e partilhante.

O partilhante vai conduzir o Filósofo Clinico por uma nova linguagem, por um novo mundo, considerando os elementos da sua história de vida, e partir da construção de uma relação de confiança, o Filosofo vai também conduzir seu partilhante, mas pelos caminhos ensinados por este mesmo, no sentido do seu bem-estar emocional e fisico.

Assim, se desenha mais um instrumento terapêutico que nos possibilite lidar com a impermanência deste mundo, deste mundo dentro de cada um de nós. Mais ainda, uma possibilidade de escuta dos infinitos mundos que cada um carrega, neste mundo tão veloz e complexo.

*Luz Maria
Empresária, Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 26 de agosto de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXIX*

"(...) não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão"

"Suponho que haja tantos credos, tantas religiões, quantos são os poetas"

"(...) Volto àquela tarde sul-americana já antiga e vejo meu pai. E o vejo nesse momento; e ouço sua voz dizendo palavras que eu não compreendia, e no entanto sentia"

"(...) de súbito a palavra ganha vida"

"Há versos, é claro, que são belos e sem sentido. Porém ainda assim têm um sentido - não para a razão, mas para a imaginação"

"Suspeitei muitas vezes que o sentido é, na verdade, algo acrescentado ao verso. Tenho plena convicção de que sentimos a beleza de um poema antes mesmo de começarmos a pensar num sentido"

"(...) imagino que uma nação desenvolve as palavras de que necessita"

"Os homens buscaram parentesco com os derrotados troianos, e não com os vitoriosos gregos. Isso talvez porque haja uma dignidade na derrota que dificilmente faz parte da vitória"

"(..) gostaria de dizer que cometemos um erro bastante comum ao pensar que ignoramos algo por sermos incapazes de defini-lo"

*Jorge Luis Borges

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Folhas da Lua*


Parte de minha alma se esvaiu no infinito
Perdeu-se procurando sonhos
Acalentando vislumbres esvoaçantes
Não tem volta...
Mas outra acaba de se encontrar
Nasceu de encantos que não definham
Como paralelas que se flagram
Tal voo de gaivotas
A espreita de algo
Que simplesmente surge
E depois se perde novamente
Folheando as fases da Lua
Viro páginas...
O que sou não importa
Só o luar conta!

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O que te impede de beijar assim?*

A idéia de escrever um texto contando como foi meu aprendizado do “melhor beijo do mundo” e deixar a revelação da técnica em suspense, tinha a intenção explícita de estimular a fantasia dos leitores, porém a proposta era ainda maior. Gostaria também que refletissem acerca de quem, como, quando e porque estão beijando ou deixando de dar e receber este presente.

Não existe a fórmula do beijo perfeito ou descrição da melhor forma de beijar, a qualidade está muito mais na cabeça dos parceiros que dentro das bocas. Sentimento e emoção são os ingredientes, sem isto o beijo torna-se morno, insosso, indiferente, vazio. O gosto do beijo vai melhorando na exata medida da entrega dos amantes e da veracidade do sentimento.

O segredo que minha amiga ensinou para tornar cada beijo único e inesquecível é beijar sempre como se fosse a última vez. A derradeira despedida. Vivenciar o instante com toda a intensidade, sentir que precisa preservar o momento, segurar o outro com a língua, envolver e ser envolvido, beijar já sentindo a falta e, finalmente, transformar aquele beijo apaixonado em um beijo sagrado. Um beijo inteiro. Um beijo infinito.

Não há beijo melhor. Se você acha que isto é uma explanação teórica, romântica e sem fundamento, das duas uma: ou você esqueceu como é um bom beijo, ou precisa experimentar. E aqui está o problema, as pessoas pensam que vão viver para sempre, esquecem que não são proprietárias dos outros e não se dão conta que relacionamentos precisam ser alimentados e bem tratados. Apesar de vivermos quase um século, este tempo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, dizermos tudo o que precisaríamos, beijarmos como realmente gostaríamos. Vivemos procrastinando.

Cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros, mas para a maioria, é apenas um dia a mais. Steve Jobs conta que ficou muito impressionado com uma frase que dizia “Se você viver cada dia como se fosse o último, um dia isto vai acontecer” e a partir dali, todos os dias olhava-se no espelho e perguntava: “Se hoje fosse o meu último dia, gostaria de ter feito o que fiz hoje? Se a resposta fosse “não” por muitos dias seguidos, sabia que precisava mudar.

Nada na vida continua, tudo recomeça. Sei que as palavras “nada” e “tudo” são fortes, mas esta é a intenção. Viva cada dia como último e renasça a cada manhã. Faça suas 24 horas valerem a pena. Serão seus melhores dias. Seus beijos não serão automáticos nem monocórdios, mas intensos e definitivos.

Morrendo a cada dia, você vai ansiar por voltar a viver. Vai dar valor às pequenas coisas boas e também o devido valor às pequenas coisas ruins que receberam tamanho exagerado. Talvez aprenda que alguns dias tem sido inúteis enquanto alguns momentos, por mais fugazes e simples que pareçam, têm o poder de mudar uma vida. Uma única palavra, um simples carinho, um perdão sincero, um sorriso espontâneo, uma lágrima escorrida, um beijo de verdade. Momentos definitivos.

A vida é curta para quem a mede em anos, e longa para quem a mede em segundos – Mário Quintana.

* Ildo Meyer
Médico, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Mudando perspectivas*

Passamos do geocentrismo para o heliocentrismo, do teocentrismo para o antropocentrismo. A Terra não é o centro do universo, o homem é a medida de todas as coisas. O sol é o centro do nosso sistema planetário, mas está longe de ser o centro de nossa galáxia, a Via Láctea. O sol nem é mais a estrela de quinta grandeza entre as conhecidas. Agora é muito menor. A Via Láctea é um imenso sistema com planetas e estrelas dentre inúmeras galáxias.

Até o fim da Idade Média, tudo girava em torno da Terra. O homem media sua importância por aquilo que a divindade lhe concedia, pela revelação, em algumas culturas. O homem era altamente valorizado, por exemplo, pelo Deus judaico-cristão. Os cristãos ainda tiveram um Deus que se fez homem para elevar os homens à dignidade de seu convívio na eternidade. Mais do que isso, o Reino de Deus já acontecia no tempo, no qual todas as coisas tendem a ser corruptíveis, frágeis, falhas, limitadas, e os homens, pecadores.

A era Moderna surge com a retomada da filosofia greco-romana, a era do Renascimento. René Descartes propõe o Discurso do Método a partir do qual todas as coisas podem ser conhecidas. Além disso, “encontra” o ponto de contato da alma com o corpo, na glândula pineal, e concebe o corpo humano como uma máquina. Com isso, Descartes deixa seu legado para as ciências empíricas que começam seus primeiros passos.

Observa-se que no céu também os astros são corruptíveis. A existência de Deus, antes tão evidente e indubitável, começa a ser posta em dúvida com mais afinco. Surge, em seguida, o Iluminismo, no qual a razão é o parâmetro das coisas que são e as que não são. Kant deixa como legado uma teologia que não se propõe provar a existência de Deus. Toda teologia passa a pensar Deus a partir da perspectiva e fé humanas. Tendo, diante disso, a clareza de que a impossibilidade de provar a existência da divindade não impede a busca por pensá-la.

A metafísica, grande foco da filosofia, perde espaço para a razão na técnica. O positivismo eleva-se. Torna-se mais importante produzir condições de conforto e entender como funciona determinado sistema do que buscar o fundamento último de todas as coisas. O Ser não é mais importante do que o trato com os entes. O tempo que antes era tão certo e contado, chegou ao século XX recebendo um status de relativo. Relativas foram se tornando toda moral e costumes. Talvez desde que o homem é homem, tenha sido, mas agora é oficial. A verdade, dizia Nietzsche, é uma criação humana e deve reinventar-se a cada nova necessidade de afirmação da vida.

Hoje o universo não é visto como aquele que simbolicamente foi feito em seis dias para que o homem dele desfrutasse e Deus descansasse no sétimo dia. O homem é tão poeira de estrelas quanto qualquer outra coisa que vemos. Deus não criou as coisas paulatinamente. O universo originou-se a partir do Big Bang, seja lá como ele tenha iniciado. No relógio universal, desde o Big Bang até hoje, poderíamos dizer que, em todo desenvolvimento, os dinossauros nos precederam alguns segundos e o homem veio praticamente no último segundo do que conhecemos sobre nossa realidade.

É isso mesmo! Como o mais importante ente de toda “Criação” acabou sendo tão insignificante diante de tudo que o precedeu? Talvez a pergunta seja outra. Cabe indagar por que aquele que com a consciência capaz de perguntar-se pelo sentido de toda sua realidade, seja capaz de em um momento da história se considerar tão importante e em outro, no qual tanta coisa foi capaz de pensar e criar, se considerar com tão ínfimo valor? O universo tomou novas formas a cada interpretação que formulamos? O homem, desde que tomou a forma atual, mudou? Não seria tão somente uma questão de perspectiva? Ou a realidade se moldou a cada novo sentido que lhe damos?

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 20 de agosto de 2012


Substrato*

Quero dia a dia mais leveza
meu mundo mais suave
que minhas armas obsoletem.

Fazer um ninho de livros amortecido por paginas rasgadas
de linhas que ninguém deve ler.

Quero exercer todas as minhas competências
Acima de tudo, superar limites e estar sempre em mim .
Podendo visitar o outro nele mesmo,
sem tornar-me refém de projeções.
Quero a liberdade do saber.

Eis aqui um substrato
do meu mundo como vontade de poder.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga, Filósofa Clínica
Curitiba/PR

domingo, 19 de agosto de 2012

Pretéritos*
Nada é como antes
porque tudo se faz novo
a cada instante
de um tempo sem nome
nascido de saudades
de outonos com cores de primavera
a dor que chega na alma
parte sem despedir-se
nada é como no futuro
de uma passado sempre sonhado
de novas estações sem cor
e com amor
no tempo que me cabe
o tempo que não conheço
no que sou
ainda o que serei
nada é como no passado
onde o presente nunca foi futuro
e nas despedidas de hoje
a espera do amanhã
da noite que se foi
e do dia que ainda vai chegar

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Poéticas do indizível*

“(...) Graças às sombras, a região intermediária que separa o homem e o mundo é uma região plena, de uma plenitude de densidade ligeira. Essa região intermediária amortece a dialética do ser e do não-ser.”
Gaston Bachelard


Uma crença muito antiga aprecia atualizar-se nesse enigmático hoje que um dia foi amanhã. Poderia ser o pretérito imperfeito de uma busca ou aquele quase nada onde tudo acontece. Atualização de um dialeto nem sempre dizível, se alimenta nas fontes inenarráveis, nos paradoxos, nas desleituras criativas.

Seu visar inédito sugere desvãos ao mundo que se queria definitivo. Costuma ser abrigo do acaso na versão do avesso das coisas. Ao referir o encantamento das pequenas devoções, parece ter a vocação de traduzir esse texto interminável, por onde a vida escoa seus segredos. Realiza um esboço sobre as tentativas de decifrar por inteiro um mundo que é mistério por natureza.

A característica de ser imprevisível seria insuportável, não fora a poesia re_significada numa lógica delirante. No submundo dos outros é possível reconhecer parte do nosso, isso pode acontecer no elogio ou crítica, censura ou aplauso. Essa contradição parece fundamentar uma distância aproximada de cara metade. Assim ódio e paixão podem se reconhecer no mesmo objeto de desejo.

O transbordamento discursivo relata a vida num desses lugares onde os sonhos acontecem. A recriação estética imprecisa sua matéria-prima nas gavetas desmerecidas, na via marginal, no rastro dos rituais exóticos.

Ao primeiro olhar, a inexatidão dos rascunhos aponta manuscritos ilegíveis. Há que se conviver em meio às brumas para aprender sua dialética, a trama significativa de existir absurdo.

Talvez os personagens de cada um possam se esboçar na percepção de consciência alterada, oferecer leituras sobre os fenômenos ao seu redor, como uma ousadia retórica a testar o limite das palavras na relação com os extraordinários eventos.

Universo subjetivo inconformado com a definição refém de si mesma, ao deixar entrever sua fonte de originais, se alimenta nas ressonâncias dos ensaios irrefletidos.

As poéticas do indizível se associam em código próprio, para desvendar sua arquitetura irreal, reivindicam uma interseção nem sempre cabível a verdade dos consensos. Ao se colocar numa ótica de devaneio e invenção sua decifração percorre os instantes de um discurso que silencia.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Leituras de Filosofia Clínica IV*

Tive o grande prazer de ler a obra do prof. Dr. José Maurício de Carvalho (UFSJ) intitulada Filosofia Clínica, estudos de fundamentação. Trata-se de um vasto trabalho de conclusão de sua especialização em Filosofia Clínica. Após ler o livro que, além dos capítulos, apresenta várias resenhas de grande qualidade em anexo, seria uma vergonhosa pretensão me propor a fazer uma resenha dessa obra. Portanto, intento expor em poucas linhas uma impressão acerca de tão valorosa obra.

Carvalho apresenta seu livro em cinco capítulos e no fim acrescenta um apêndice com resenhas de nove obras de outros autores sobre Filosofia Clínica. No primeiro, nos trás a Filosofia Clínica em seus aspectos gerais, incluindo a exposição de cada tópico da Estrutura de Pensamento e todos os Submodos – os Exames Categoriais, como fundamentais para que o conteúdo seja totalmente contemplado, foram evidentemente apresentados. No segundo capítulo, trata da tese central de todo seu trabalho que é postular à Filosofia Clínica um aspecto predominantemente marcado pela fenomenologia.

Em seguida, desenvolve uma discussão entre fenomenologia, psiquiatria e as psicologias, com ampla citação de autores. Entretanto, enfatiza e centraliza nas obras de Jaspers. No quarto capítulo busca contribuir com a fundamentação teórica da Filosofia Clínica apresentando a filosofia de Ortega y Gasset. Na quinta parte trata de Filosofia Clínica e linguagem com a finalidade de mostrar que a Filosofia Clínica é menos filosofia da linguagem do que fenomenologia. Por fim, em apêndice, apresenta o supracitado conteúdo.

O ponto forte desse trabalho está na erudição e capacidade do prof. Dr. José Maurício de articular uma grande soma de pensadores. Além dos autores mais conhecidos no ambiente acadêmico no Brasil, que são os filósofos estrangeiros, o professor nos apresenta muito bem uma série de pensadores brasileiros, dos quais jamais ouvira falar em minha graduação.

Além de articular a ideia desse vários pensadores, ainda nos deixa como nota ao fim de cada capítulo uma breve biografia deles. Talvez este último aspecto seja um cuidado que a Filosofia Clínica nos lega tão bem ao postular a importância da historicidade na compreensão da pessoa e a intrínseca marca desta em suas ideias e modo de lidar com o mundo.

Ler essa obra nos remete a um grande curso. Diversos pensadores em diálogos fortes em suas diversas escolas e correntes de pensamento. Conteúdo que claramente poderia ser passado em um semestre inteiro de disciplina bem trabalhada. O texto será muito bem compreendido por quem acessá-lo, pois as ideias são expostas em linguagem bem acessível, sem perder a profundidade e a capacidade de articulação do conteúdo sofisticadamente.

Mas, não tive somente impressões positivas acerca desse trabalho. Se a proposta de toda grande exposição de um pensamento é ser difundida, discutida e colocada em questão, buscarei expor o que penso criticamente de modo sucinto.

A obra foi prefaciada por Lúcio Packter (criador da Filosofia Clínica) que além dos elogios relacionados ao conteúdo – o que podemos ver claramente ao ler a obra – também tece a seguinte crítica:

“No entendimento de Carvalho, o estruturalismo e a analítica de linguagem são elementos laterais à Filosofia Clínica se pensamos na contribuição fenomenológica. Opinião vigorosa que não encontra confirmação nos catedráticos que lhe ministraram os ensinamentos da clínica filosófica, a saber, Packter, Soares (indiretamente), Strassburger” (CARVALHO, 2005, p. 7. O sublinhado é meu).

Vemos que, além de Packter, Hélio Strassburger e Sebastião Soares, experientes professores e filósofos clínicos, não comungam inteiramente com a possibilidade da Filosofia Clínica ser predominantemente fenomenológica em detrimento das demais correntes filosóficas postuladas em nossos cursos como fundamentais na elaboração do método filosófico clínico.

Todo o livro é trabalhado a partir da ferrenha defesa de que a Filosofia Clínica é baseada e fundamentada na fenomenologia. Esta que inclusive, segundo Carvalho, é a base de leitura utilizada por Packter para ler toda história da filosofia, à qual este lançou mão para elaborar o método. Logo nas primeiras linhas da conclusão de sua obra, Carvalho diz:

“Trabalhamos com uma hipótese, a de que a fenomenologia existencial fornece, como método, o fundamento epistemológico para a filosofia clínica [...]. Contudo, como a fenomenologia existencial revela diferenças conceituais, indicamos o que destas reflexões nos parece válido para a filosofia clínica” (CARVALHO, 2005, p. 262).

Mesmo defendendo uma forte influência da fenomenologia ao longo do livro – acrescentado da possibilidade de enriquecimento a partir do raciovitalismo orteguiano (cap. 4) que, segundo o autor, também auxilia na compreensão do sujeito que procura a clínica filosófica – Carvalho, como bom pesquisador e coerente com o conteúdo que articula, reconhece que nem toda fenomenologia é válida para a Filosofia Clínica. Diante disso, a fenomenologia necessita de um reconhecimento do que parece válido para a clínica filosófica. E, em seguida, no término de sua conclusão, admite o caráter de utilidade do estruturalismo e da linguagem na atividade clínica. Embora estas não tenham, segundo ele, o caráter de sustentabilidade ou fundamento do método em questão. Veja o que o autor diz literalmente:

“A filosofia estruturalista e a análise da linguagem são úteis ao filósofo clínico? Entendemos que sim, embora não como elemento de sustentação ou fundamento. Essas teorias entram como complemento ao que a fenomenologia existencial considera ser a existência humana e a melhor forma de abordá-la” (CARVALHO, 2005, p. 273).

Quando em anexo, Carvalho apresenta resenhas de obras de outros autores sobre Filosofia Clínica, destacamos um comentário acerca do Compêndio de Filosofia Clínica de Margarida Nichele Paulo feito após a apresentação de seu conteúdo e elogiá-lo, com o levantamento da seguinte ressalva:

“O livro revela também aspectos que merecerão aprofundamento nos próximos tempos. Entre eles, parece-nos mais urgente elaborar melhor a discussão sobre os métodos empregados na filosofia clínica; também é um importante desafio fundamentar melhor os tópicos da EP e os vínculos que ligam o processo clínico com a tradição filosófica. A solução dessas questões abrirá caminho para o reconhecimento, aceitação da técnica e sua melhor divulgação” (CARVALHO, 2005, p. 280).

Embora o autor cobre um aprofundamento e desenvolvimento teórico que fundamente a Filosofia Clínica, penso ser mais urgente cobrar a aplicação mais próxima possível do método tal como foi pensado. E este, por sua vez, pede um dos elementos mais falados na própria fenomenologia: suspensão de juízo. Lúcio Packter mesmo chega a comentar nos Cadernos que teve que excluir determinados tópicos pela inviabilidade na prática.

O que nos remete ao pensamento de que é mais na prática que a Filosofia Clínica se constitui. Até poucos anos ela não era indicada para quem não tivesse raciocínio estruturado, como é o caso do paciente ou interno de hospital psiquiátrico, o que através da prática e pioneirismo de filósofos clínicos como Hélio Strassburger, acabou por se constituir como importante terapia num hospital psiquiátrico em Porto Alegre/RS.

Penso (não atribuindo à formação que me foi legada pelos professores Hélio Strassburger, Gustavo Bertoche e Silvana Agostini) que quanto mais teoria e fundamentação, mais pré-juízos por parte do filósofo clínico na recepção do partilhante. Compreender e estudar os filósofos, a meu ver, é mais imprescindível e constitui-se um imperativo para ampliar os horizontes do filósofo que vai “estudar” aquele que aparece no consultório pedindo ajuda, do que proporcionará possibilidades de “diagnósticos” ou capacidade de “interpretar” o partilhante. O que não é o mesmo que dizer que o filósofo clínico precisa lançar mão dos filósofos para melhor fundamentar ou aprofundar nos pressupostos teóricos da Filosofia Clínica.

O que caracteriza e defende a Filosofia Clínica é a influência de correntes filosóficas na elaboração de seu método, e não o fato dessas correntes serem efetivadas na prática clínica. Em si, as correntes não servem para a prática da Filosofia Clínica tal como está estabelecida. Não somente a filosofia da linguagem e outras correntes seriam falhas, mas inclusive a fenomenologia, tal como Carvalho defende, pode ser considerada em si na aplicação da clínica.

Quando Lúcio lançou mão das leituras dos filósofos, aproveitou o que neles encontrou de útil para elaboração de seu método que em si é uma filosofia. Filosofia Clínica não é a fenomenologia aplicada à clínica. Filosofia Clínica é ela mesma e seus pressupostos para a atividade terapêutica proposta – aqui já não penso a formulação usual que diz que a Filosofia Clínica é a filosofia acadêmica aplicada à clínica, pois penso que ela poderia gerar uma compreensão limitada do método.

Toda e qualquer elaboração externa ou método pode levar o filósofo clínico a carregar mais pré-juízos para o trabalho com o partilhante do que torná-lo, na medida do possível, aberto para exercer seu trabalho em consultório. Se há algo que aprendo cada vez que mergulho nos estudos da Filosofia Clínica, esse algo é a abertura e ausência (na medida do possível) de teorias prévias, ou pré-concepções acerca do partilhante.

O método é eficaz quanto mais aberto for para que o partilhante o preencha de modo a ser compreendido a partir de si. O fundamento último da Filosofia Clínica não é dado pelas obras lidas por Lúcio ao longo da elaboração do método, mas como ele mesmo concebeu esse método. Isso não torna, entretanto, prescindível a leitura dos textos de modo algum.

Em outro texto (O que faz daFilosofia Clínica, filosofia?) postulei que a filosofia heideggeriana, por exemplo, não é fundamentada por Rickert, Scotus, Husserl, Aristóteles, Kierkegaard ou qualquer outro. Estes serviram para pesquisa e vários conceitos foram aproveitados. Entretanto, todos foram ressignificados para aplicação no sistema de pensamento do próprio Heidegger. Querer compreender as influências de Heidegger não significa compreender sua filosofia.

Entender Lúcio Packter ou a Filosofia Clínica (que hoje recebe contribuições de diversos filósofos clínicos em atividade atualmente), assim como entender Heidegger, exige aprofundar naquilo que ele pensa e expressa. Suas influências são somente referenciais. Talvez o que constitui um grande paradoxo ao atribuir a leitura que Packter fez dos filósofos seja fenomenológica, seja que se em Filosofia Clínica quem nos ensina como a pessoa “funciona” seja o próprio partilhante, e Lúcio diz que não foi do modo como Carvalho atribui, inferir algo contrário à própria compreensão da pessoa acerca de si seja um erro metodológico.

O fato de haver mais proximidade com a fenomenologia do que com outras correntes filosóficas as considerações de Lúcio não significam que a fenomenologia seja ou sirva de fundamentação predominante. Somente significa que haja mais proximidade ou identificação, nada mais. A proximidade – e mesmo se fossem semelhanças – de visões filosóficas pode claramente fazer lembrar o exemplo no qual Leibniz e Newton chegaram à mesma conclusão de uma fórmula matemática chamada “teorema fundamental de cálculos” utilizando seus próprios métodos (caminhos), sem que um soubesse do caminho ou pesquisas do outro. Com isso não quero dizer que a metodologia e fundamentação da Filosofia Clínica seja intrinsecamente fenomenológica, mas apenas mostrar que se há possibilidade de ser defensável, não há motivos para tal se o fundador da prática não o confirma.

Diversas opiniões podem ser geradas a partir da leitura de Filosofia Clínica, estudos de fundamentação. Do mesmo modo como pude aproveitar bastante a grande aula que essa obra me proporcionou ao mesmo tempo em que me levou a levantar pontos de vista contrários ao do autor, recomendo a leitura. Segundo meus pré-juízos, somente bons livros são capazes de despertar o fascínio e o espanto, no meu caso, o crítico, diante de seu texto. Possa a leitura desse livro, despertar em você também novas impressões. Não vou me estender em maiores considerações devido ao espaço.

Diante disso, concluo que a necessidade de fundamentos e a ênfase na fenomenologia é um traço do autor, fruto de suas vivências, visão de mundo entre tantos outros fatores. Fatores também que me levam a defender o aprofundamento na Filosofia Clínica tal como foi pensada a partir dos estudos empreendidos por Lúcio Packter.

A riqueza da Filosofia Clínica está no fato de ser uma obra aberta, como toda boa filosofia, disposta a ser lapidada a cada contribuição dos que se propõe a pensá-la e atuar a partir dela. Em outras palavras, seja no âmbito teórico, seja no prático, a Filosofia Clínica tem como principal riqueza o fato de permanecer a mesma para todos, ainda que diante de paradoxais pontos de vista. E você, como pensa, vivencia ou pratica a Filosofia Clínica?
_____________________________

Bibliografia:

CARVALHO, José Maurício de. Filosofia Clínica, estudos de fundamentação. São João del-Rei: UFSJ, 2005.

*MiguelAngelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Melhor Beijo do Mundo*

A conversa corria solta no botequim quando meu amigo contou de um tio muito experiente em baladas noturnas e especialista em beijos. Havia lhe ensinado o melhor beijo do mundo e agora também ele desfrutava deste segredo e prazer com as mulheres.

“Como beijar” não é o tipo de conversa que homens costumam ter enquanto bebem, e por conta disto, o assunto não progrediu. O fato de uma conversa ter sido interrompida não significa que o recado não foi dado. O assunto foi trocado, mas a curiosidade permaneceu agendada em meu cérebro.

Como seria o tal beijo? Demorado, olhos fechados, molhado, mordido, línguas em labirinto, ininterrupto? Estilo Hollywood?
Roubado, decidido, precedido de uma conversa, um carinho, um olhar? As opções eram tantas que me desestimularam a ir adiante.

Achei que classificar um beijo como o melhor do mundo não era algo sério e registrei apenas as variantes catalogadas.
O destino queria que o assunto fosse adiante e criou a oportunidade. Sábado à noite, final de festa, lei seca, ofereci carona para meu amigo e sua companheira.

Sentaram no banco de trás e partimos. Comecei a escutar barulhos estranhos, estalos, gemidos, sucções e percebi que o tal beijo estava sendo colocado em prática. Pisquei para minha namorada com certa cumplicidade e decidimos ficar quietos para não atrapalhar a performance. Tentei olhar pelo espelho retrovisor, mas era noite escura e não pude visualizar quase nada.

Enquanto dirigia, meus pensamentos iam e vinham, mas uma certeza eu pude ter: aquele beijo deveria ser muito bom mesmo, pois os ruídos eram fantásticos. Quando chegamos em casa, até tentei praticar com minha namorada, mas o som de nosso beijo era discreto demais.

Não resisti a curiosidade e no dia seguinte pedi ao amigo que me ensinasse a técnica utilizada no beijo da noite anterior. Detalhe fundamental: solicitei uma explanação teórica, nada mais. A explicação não durou mais de trinta segundos, e foi mais que suficiente, sai dali convicto de ter aprendido o melhor beijo do mundo.

Querem saber? Estou em dúvida se conto agora ou deixo o final para o próximo artigo, afinal de contas já estou me estendendo demais. Uma coisa eu garanto, funciona. Façamos assim, já que esperaram até agora, mais alguns dias não vão fazer a diferença.

Beijar é uma maneira de compartilhar intimidades, de sentir o sabor do outro, de interromper a fala quando as palavras tornam-se supérfluas, de dizer mil coisas em silêncio. Pratiquem, criem situações novas, conversem com os companheiros, mandem sugestões. Vou ficar esperando. Logo, logo, ensino a técnica.

Ildo Meyer*
Médico, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Tem certas coisas que a gente não esquece*

Estive recentemente em Paraty e conheci um artista plástico que faz pinturas em lonas de caminhão reciclado. Quando entrei em seu ateliê me deparei com um quadro que não me sai da cabeça. Era uma pintura belíssima de uma mulher com uma rosa vermelha sobre seu vestido.

A sensação é que a rosa está flutuando por cima da tela. Eu adoro rosas vermelhas e senti que esse quadro fazia parte de uma parte de minha alma que nem mesmo o artista poderia saber.

Então, pensei nas coincidências da vida e nos encontros 'sem querer'.. Será que realmente são 'sem querer'?

Hoje estou inclinada a acreditar mais no que defendia Jung, grande pensador, discípulo de Freud: são sincronicidades. Se eu tivesse questionado isso ontem diria que sim, são 'sem querer', mas hoje aconteceram tantas coisas comigo que venho me questionando! Pareciam respostas dadas por uma força maior e, de repente, tudo fez sentido e compreendi o meu mundo.

Quanto mais precisaremos questionar para encontrar respostas? Por que será tão complexo compreender o ritmo da vida? As questões mais simples? As mais estranhas? Será que a filosofia daria conta de tantas questões?

E, se sim ou se não, por que nossas crianças não tem acesso nas escolas desde mais tenra idade a outras informações ? Creio que a educação precisaria ser recomeçada! Deveríamos exigir uma educação completa e verdadeira para nossas crianças, como: Artes, música, filosofia, matemática e afins...

No começo sempre é mais fácil! Talvez se eu tivesse tido uma educação assim entenderia o motivo das rosas e do quadro.

*Vanessa Ribeiro
Atriz, dançarina, matemática, filósofa, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O que pode ser*

Nas expressões das verdades interiores (de cada ser pensante) que nos atropelam por aí, quantas vezes não nos pegamos pensando sobre a vontade que dá de, inadvertidamente, dizer também o que pensamos ou sentimos ou as duas coisas, a partir de nossas próprias perspectivas, sobre elas.

Diante de tais situações que vão despencando, aqui e ali, pode ser que baste um olhar mais atento a nossa volta para entender que verdades são incontestáveis, uma vez que cada um tem a sua – e certamente a receita jamais se repete – a forma provavelmente é lançada na fogueira a cada criação, e os desígnios são apenas as assimilações de como a vida um dia se projetou para cada um, pautada tão somente em textos e contextos para lá de subjetivos. Porque, afinal, origens e fins acontecem todos os dias!

Só podemos então falar por nós mesmos... e ainda assim esta fala já não será mais a mesma coisa infinitésimos de segundos depois. Até a imagem que selecionamos e captamos já não é a mesma ao ser refletida em nosso olhar. Nada é estático, nada permanece, nada se engessa... podemos apenas supor o que pode ser. Ou o que desejamos que seja!

Que possa a jornada ser uma reflexão, eterna a todos que se dispuserem a tal, mas ainda assim, mesmo para estes, que não sejam concedidos limites, se assim o desejarem. Que esta não se paute em regras inóspitas e inúteis, como se conhecimento fosse um decreto e como se leis alheias e desavisadas orientassem o sagrado movimento de dedos a folhear entremeios de novas perspectivas.

Que horizontes possam ser vastos, na medida em que a axiologia de cada momento o permitir e que os caros juízos não consigam interferir e até se calem por breves instantes, pois para alçar voos será preciso soltar grilhões, fazer concessões, abrir fossos e aquietar mentes.

Que se busquem simples ou complexas verdades, se estas importarem à percepção do juízo de valor de cada um e que sejam adicionadas se ainda continuar a valer a pena... a vida é mutante, assim como os pensamentos e os sentimentos que a organizam, e o que tanto valia ontem pode nada mais significar presente ou futuro próximo, afinal muito muda no decorrer do caminho e novas e inusitadas verdades se revelem aos olhos, especialmente àqueles que nunca se fecham.

Que encontros afins aconteçam, e que sejam infinitos em suas emanações e de todas as formas e naturezas, para que atendam às demandas fluídicas, afetivas, racionais de cada êxtase de alma. Mas que os diversos e incoerentes também partilhem a beleza da diversidade de suas entranhas e nos façam entender que nem sempre apenas os semelhantes se atraem.

Que alegrias e tristezas transformem rostos que a imobilidade condenou, pois que não há nada mais insípido que alguém que não sofreu por amor ou por qualquer outra coisa, que não sorriu ou chorou, que não lutou ou não se martirizou, mesmo que por inutilidades suspensas. Àqueles que não podem fazer transparecer, que seu coração se agite, ainda que por uma rala camada de algo que nem mesmo possa ser identificado. E que a insanidade a todos instigue e persiga, para que não esqueçam de que os pés resvalam entre os tênues limites das margens existenciais e se lembrem de que correr riscos às vezes vale a pena.

Que o encanto de perceber nuances nos envolva e nos conceda o que há de mais essencial, de tudo que se desdobra da fonte que jorra do âmago de seres que se permitem olhar através da penumbra vaga que esconde prazeres e sonhos, dores e devaneios. Pois pela poesia as comportas se abrem como vazadouros impossíveis de serem contidos. Assim reinventamos o que ainda não se vislumbrou ou que não foi revelado e seres encantados se revelam, comunicando o que jamais seria possível sem a extrema beleza da sensibilidade.

Que nos seja possível aceitar as crenças ou a ausência delas e que, neste limiar, não haja debates vãos que não conseguem se dar conta da profundidade de seus próprios receios, alguns a tal ponto de não perceber que muitos deles são tão rasos que os pés facilmente tocariam o chão e, assim, poderiam se salvar pela simples calma de seus domínios agitados.

Pois talvez sejamos como náufragos nos debatendo no oceano solitário em que insistimos em mergulhar. Porque o que quer que haja nos limites de qualquer imaginável dimensão, de fato já o é... ou, se não for, não o será por decisão ou perspectiva de quem quer que seja, o que nos dá a liberdade de trânsito entre ideias e sentimentos, desde que se entenda que está estabelecido que esta liberdade valha para todos. E, consequentemente, respeito idem!

Que a liberdade caminhe silenciosa pelas matas densas das surpresas inseridas em cada raiz que se planta e se ramifica. E que não se esconda ou não seja tolhida, para que não se perca uma só folha e para que suas sementes sejam espalhadas ao vento imprevisível da vontade de realmente ser.

Então, enquanto a vida segue seu rumo independente, solitariamente nos adaptamos ao nosso aquário existencial como habitantes indecisos de nosso papel, apenas exercendo o direito – concedido pela dádiva da vida, entendida como convier, vinda de onde vier, alcançando seja lá o que for – de expressão, de busca e de recolhimento, de transcendência e de luta, de gritos e ausências, de amor e perversidade, de sim e de não, de luz e do que ofusca, de trevas e do que apenas não se deixa revelar.

Enfim, direitos de ser ou de não ser... pouco importa, pois que a revelação dos porquês sempre será algo a investigar, algo que estará além da compreensão... e além é justamente seu lugar, para que nunca realmente a alcancemos, pois que olhar pela fresta da indefinição é o que nos aguça a certeza de que sempre seremos.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

sábado, 11 de agosto de 2012

Distâncias*

Na dor de manhãs sem nome
reescrevo as alegrias de outrora
percorro montanhas e atravesso vales
encontro o perdido
e me perco no achado
no mistério que do silêncio se faz nome
encontro-me com a vida
e nela me perco em mim mesmo
daquilo que sou
apenas a incerteza
que nasce de verdes esperanças
em tardes que se anunciam
novas estações
de tempos sempre novos
que germinam no solo das possibilidades
que em mim cultivo
nas impossibilidades
a certezas quase sempre incertas
da fé que me refaz
humano em outros passos
e caminhos desenhados
com as cores dos sonhos
que sempre serão novos
enquanto acreditar
que a vida é sempre uma alegria
a ser sempre redescoberta
nos retalhos de velhos sonhos
que sempre são novos
em minha alma
que clama pelas esperas
ainda não reconciliadas

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Dialogar*

Sobre a Filosofia Clinica Dialogar ou não com as outras linhas Terapêuticas.

Estudei por sete anos Psicologia e por questões circunstanciais, tive contato direto com a Psiquiatria, estudando e aprendendo durante 12 anos. Convivi com terapeutas do Brasil inteiro, tive uma clinica de terapia comportamental e eu mesma como paciente fiz terapia cognitiva, Gestáltica, psicanalítica até chegar na Filosofia Clinica.

Com isso , acho que posso dizer alguma coisa enquanto paciente e como estudante e pesquisadora. Entendo que se tem uma linha que dialoga com as outras é a Filosofia Clinica, primeiro por ser honesta no sentido de dar o mérito de sua fundamentação a mãe de todas, ou seja a própria Filosofia, que por si só já é um oceano tão grande e recheado de conteúdos que poderíamos dela já ter múltiplas e infinitas linhas terapêuticas.

Segundo porque profissionais de todas as áreas podem fazer o certificado B, que da a base teórica a clinica filosófica, porem para a pratica e para o certificado A é preciso antes ter feito filosofia.

Outra, quem estudou FILOSOFIA ,sabe como encontrar conteúdos e fundamentos. Em Aristóteles, sua lógica silogista as suas Causas, Categorias, Psicologia, ideias de Ato e Potência e Primeiro Motor .Também em sua metafísica que da a filosofia o primado da investigação causal, bem como a teoria das essências como reveladora da identidade. Já em Descartes, tem-se o método (Verificar, analisar, Sintetizar, Enumerar). E a teoria do Cogito, dando a existência a partir do pensamento? Quem copia o que de quem? Quem deu a dica que no pensamento do homem está a validação da sua existência?

Foi a FILOSOFIA, é certo! Assim como foi e é nela, que primeiramente a FC se fundamenta. E Kant? Quando nos apresenta seu juízo estético , relacionado ao principio de prazer que temos em relação às coisas? Em apenas uma das suas frases celebres já podemos ver por exemplo uma das raízes que ira despontar em uma das teorias que ira falar em Id e Super Ego -"o céu estrelado por sobre mim e a lei moral dentro de mim" - Aqui também esta redescoberta a idéia de sensibilidade e consciência, ja revirada por Platão.

Há também a Critica da Razão Pura, sobre juízos e a coisa da coisa em si? E as condições de sensibilidade e de possibilidade? O Imperativo categórico, que entre outras coisas convida o sujeito a olhar para suas ações, como uma forma de legislar seus limites e os do outro.

Quem mergulhar profundamente na filosofia vai descobrir estas e muitas outras ferramentas infalíveis para criar um método e para mudar a visão de mundo construir um arsenal de novas concepções e ferramentas para ajudar o ser humano. Para tanto, é claro , tem que ter o pó da genialidade, pois ideias sem este tempero ficam insípidas.

Com Freud o pai da Psicanálise, não foi diferente, quem conhece psicanálise e filosofia sabe que este entre outros bebeu do saber em Sócrates, Aristóteles, Descartes ,Hume,Kant, mergulhou profundamente em Schopenhauer e achou seus grandes insights ' s em Nietz. Poderia ficar páginas e páginas fazendo ligações com outros grandes filósofos que contribuíram de forma contundente as linhas terapêuticas, mas isso fica pra outra hora.

Quem estudar filosofia e depois estudar qualquer uma das linhas terapêuticas modernas , não mais cometerá o engano de pensar que tudo começou com essa ou aquela linha terapeutica . Contudo , só posso dizer que a Filosofia Clinica é puro dialogo e está muito mais aberta do que imaginamos.

Para tanto se faz necessário, ampliar o olhar e desperta-lo das paixões cegas . Basta abrir os olhos, para ver no núcleo de estudos e formação de Filosofia clinica , médicos, psiquiatras, enfermeiros, professores, biólogos, teólogos, matemáticos,psicólogos,pedagogos ,terapeutas e muito mais, isso por si mesmo já é a prova mais clara e eficiente de que o dialogo entre a Filosofia Clinica e as outras linhas acontece, seu método aplaca inúmeras possibilidades.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga, Filósofa Clínica
Curitiba/PR

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


Phaínesthai como critério de verdade nas redes sociais*

Estava a refletir sobre fenômenos nas redes sociais que mostra o quanto podemos nos equivocar, com o que se apresenta como uma verdade inconteste.Segundo o filósofo Russerl que deu um conteúdo novo a essa palavra tão antiga.

O termo fenômeno, örigina-se etimologicamente do verbo grego PHAÍNESTHAI, que significa "mostra-se".Fenomêno, quer dizer:ö que se mostra em si mesmo,o que se revela.

Na verdade o que vejo nas redes sociais, ainda não se aproximou do conceito grego Phaínesthai, por falta de oportunidades de leitura e reflexão, perdemos a oportunidade do conhecimento do outro SER real do outro lado de nosso laptop,viramos um emaranhado de entes passeando nas redes, postando argumentos, verdades e inverdades do outro, para deleite e degustação muitas das vezes masoquistas do outro, através dos posts e de curtidas sem explicações e justificativas.

Mergulhando na caverna, visitamos a ilógica da via unica, onde todos serão analisados por fragmentos solitários e julgados numa lógica de mão única de herança clássica,gerando e banalizando a extirpação da humanidade do homem.Estamos ainda nas redes na segunda etapa do que seria um verdadeiro fenômeno segundo Husserl: o do objeto intuído(aparente), como o que nos aparece aqui e agora.

Devemos estar alerta para a representação mental do outro.Se nosso olhar, supondo, volta-se para uma cachoeira, um sentimento de prazer (música) que nos fala de amor, iremos recorrer a análise intencional, isto é partiremos das coisas mesmas, pois para Husserl a consciência destas imagens não são só frutos de um ato gerado pela razão, é muito mais do que isto, são todos os nossos atos psiquícos ou vivências intencionais.

Sem tentar esgotar esta breve reflexào, coloco um questionamento: e nós que estamos conectados e interligados com a emoção, o pensamento e cotidiano dos nossos amigos de lista, já estamos buscando encontrar a verdadeira essência do Phaínesthai em nossas comunidades e na relação com o outro?implicitamente considero este pensar numa intencionalidade básica de participante, a de:partilhar o que penso e de cumplicidade pela busca comum a todos: a aproximação e conhecimento do meu próximo virtualmente falando.

*Ivânia Egas
Professora ínterprete de surdos, Filósofa Clínica
Manaus/AM

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A gente não quer só comida... A gente quer fazer amor.*

Perguntamos aos internautas como andava sua satisfação em relação a sua sexualidade. Para nossa surpresa, já que, em tempos modernos, todos se declaram resolvidíssimos neste assunto, o resultado ficou entre o sofrível e o mortal.

Quem não respondeu que não está satisfeito, ficou pela casa do ainda posso melhorar e os índices são altos, tanto na participação, quanto na distribuição da votação.

Seguindo a lógica da experiência de consultório, já, há alguns anos, abordando corajosamente este dilema na vida das pessoas, e fundamentada em estudos sobre o comportamento da humanidade dentro deste cerne, posso desmentir, aqui agora, ainda neste parágrafo, que não tive surpresa alguma. E mais, posso pontuar algumas questões que levam as pessoas a um alto nível de insatisfação com sua sexualidade.

Vamos fazer uma brincadeira? Eu cito alguns pontos, aleatoriamente, e você me envia uma mensagem, classificando por ordem de importância, o que julga atrapalhar mais a vida sexual das pessoas no século XXI.

A indústria do sexo e a mídia abusiva.

A pressão na oferta de produtos e serviços sexuais, além do constante apelo da arte cênica moderna em torno do sexo, promovendo em nossas mentes um alerta libidinoso, um despertar a qualquer custo, para a necessidade de transar o máximo possível com o máximo possível de pessoas. A ansiedade gerada por esta gama extra de informação que é diariamente distribuída pela internet, pelas revistas femininas e masculinas, pelas novelas, pelos filmes e, de uma forma implícita, nos anúncios de variados produtos. Tudo isto nos dizendo, diariamente, que se não transamos, que se não "pegamos" alguém, que se não variamos, não fazemos parte do clã.

Mitos, preconceitos e tabus.

O medo em ferir tudo e todos, em transgredir os conceitos de nossa formação, em agredir os feitos de nossos criadores a partir de Deus e passando pelos nossos avós, pais e professores em um passeio conturbado pela nossa consciência que bloqueia nossos desejos mais íntimos, nos impelindo à inércia diante da possibilidade de viver feliz, através de uma vida sexual liberada e rica em sensações da melhor qualidade. A crença em histórias escabrosas que ouvimos na infância, em uma tentativa voraz de nos tornar tão infelizes quanto quem nos ensinava que sexo faz mal.

Falta de conhecimento de si mesmo e de suas preferências sexuais
A negligencia contra o próprio corpo. O terrível hábito que o ser humano tem de não se olhar, de não buscar o melhor para si e de não trabalhar em seu favor. A estranha mania de esperar que façam por nós.

Se cuidássemos de nós, de saber de nós, com a mesma dedicação com que pretendemos cuidar da vida do outro... Se cuidássemos de nós, antes de cuidarmos da vida alheia, saberíamos o que nos faz bem, saberíamos viver nossa sexualidade sem conflitos, teríamos a capacidade de nos doar e de receber do parceiro com naturalidade, o que nos dá prazer. Teríamos a expressão da liberdade em comunicar onde gostamos de ser tocados, como gostamos de beijar, qual posição é mais favorável, a fantasia mais excitante, os sonhos mais secretos.

A estética moderna e a imposição sobre o corpo perfeito.

O que é estar em forma? Para quem temos que estar em forma? Existe um padrão da boa forma? Fazemos sexo com o sistema que estabelece este padrão? Estamos cada dia mais complexados e inseguros quanto a nossa forma física e dependentes do padrão de beleza estabelecido pela mídia que nos influência e deprime. Abrimos mão de viver nossa sexualidade em plenitude, nos reprimimos e não atingimos a felicidade que tanto buscamos. Isto é certo? O que é perfeito e belo, neste caso, não teria que dizer respeito somente aos dois envolvidos? O que é belo para você, passa somente pelo que você vê ou tem que estar nos moldes do que foi determinado pelos outros?

Você seria capaz de se envolver com alguém que exigisse de você, uma aparência física além do que pode ter? Alguém que tivesse observações negativas a seu respeito neste sentido? Estas são questões que, se analisadas e compreendidas, poderiam modificar para melhor a vida sexual de muitas pessoas. Por que você se propõe a fazer sexo com alguém que não lhe agradou em 100% e por que você se propõe a fazer sexo com alguém que tem observações a seu respeito? O que obriga as pessoas a isto? Isto nem é honesto e, para indivíduos pouco estruturados, pode significar um grande problema.

Vou aguardar pelas mensagens.

Bem-estar!!!

O que tem de mais em se entregar ao bem-estar, antes de qualquer outra coisa? Bem-estar com você, bem-estar com o outro. Sensação de bem-estar. Sensação de que está fazendo a coisa certa com a pessoa certa. Atente-se a este grande detalhe, atenda a este sinal e quem sabe assim, possa descobrir que sua sexualidade e a maneira como a conduz pode ser algo muito mais simples e gostoso. Seja forte e repila os conceitos que a sociedade dispara para te enfraquecer. Busque esta força dentro de você.

*Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Leituras de Filosofia Clínica II*


“Podemos falar aos outros somente quando participamos de suas preocupações, não por condescendência, mas nos envolvendo em seus problemas. Podemos indicar a resposta cristã apenas se, por outro lado, não formos iguais a eles. Em terceiro lugar, podemos usar essas pessoas e suas ideias para despertar os que ainda vivem numa torre de marfim. Podemos despertar nelas elementos escondidos sob respostas que pensam possuir. Tenhamos na mente essas três fases. Devemos participar sem perder nossa identidade. Deixemos de lado a complacência com os que pensam já conhecer todas as respostas, mas não percebem seus conflitos existenciais.
Nossas respostas devem ter tantas formas quantas forem as questões e as situações individuais e sociais” (Paul Tillich. Teologia da Cultura, pp. 265-266).

Com essas palavras o filósofo e teólogo alemão radicado nos EUA, Paul Tillich (1886-1965), mostra que as respostas cristãs devem levar em conta primeiro a questão da pessoa a ser evangelizada. Impor um Cristianismo como resposta a questão que o outro não tem, não possui validade nem resultado efetivo. Essa concepção é fruto de quem presenciou o nascimento do regime nazista, e vivenciou o horror quando foi capelão na Primeira Guerra, vendo amigos morrerem e soldados lendo Zaratustra de Nietzsche ao ver suas esperanças todas ruindo nas cenas de mortandade à sua volta. Alguém que, diante dos limites e crises existenciais da alma humana, viu as esperanças ruirem, restando angústia, desamparo, desespero, desânimo, ausência de sentido e de um fundamento último. E o que tem Teologia e Cristianismo a ver com Filosofia Clínica?

Na prática de consultório, o filósofo clínico mesmo com toda a carga de seu conhecimento filosófico e com toda base da própria Filosofia Clínica, precisa aproximar-se de seu partilhante a ponto de por meio de uma recíproca de inversão, ir ao mundo ou à visão de mundo de quem busca por seus préstimos. A situação dos que procuram o consultório às vezes muito se assemelha ao que Tillich presenciou durante a Guerra. Nesse exercício de entrar em recíproca, é o outro quem diz quais são suas questões e somente após conhecer bem essas questões é que será possível buscar “respostas” efetivas. Esse conhecimento se dá por meio dos exames categoriais, historicidade, dados divisórios e enraizamento, passos que aqui aparecem didaticamente, mas que são inteiramente feitos respeitando a subjetividade de quem procura o consultório.

O texto de Tillich é dirigido aos educadores e sua finalidade é a evangelização a partir da questão do outro e não como resposta a questões que inclusive a pessoa a ser evangelizada não tem. Na Filosofia Clínica a meta jamais será uma “evangelização” do outro. Não há respostas prontas e nem respostas construídas para cada questão. Não há sequer certeza se haverá resposta após conhecer a questão do outro. O que o filósofo clínico sabe acerca de como será desenvolvida a clínica? Nada.

Somente com o andamento dos trabalhos é que se reconhecerá a questão do partilhante. E, com base nessas questões, respeitando a subjetividade, é que se pensará uma singular “resposta” ao que o partilhante necessita. Enfatizo a “resposta”, pois, às vezes, o partilhante sequer precisa de alguém dizendo o que deve fazer. Às vezes, somente um desabafo em uma ou duas consultas são o suficiente para externalizar suas questões e deixar a clínica com o alívio que precisava. Em outros momentos será esse mesmo tipo de desabafo que fará com que suas “ideias” se reorganizem fazendo com que ela encontre meios de resolver o que precisava.

Como se pode notar, nada é definitivo para a Filosofia Clínica. Entretanto, não é um subjetivismo relativista que essa proposta terapêutica propõe. Sua proposta está em trabalhar a partir da pessoa, sabendo de sua “circunstancialidade” e de todos os elementos que a afetam direta ou indiretamente. Com isso pode-se dizer que ao trabalhar com o partilhante em vista do “bem-estar” ou alívio entre os tópicos de sua Estrutura de Pensamento, cabe a seguinte reflexão: não é finalidade da clínica responder a questão de modo indevido, levando em conta exclusivamente a subjetividade do partilhante.

Alguns exemplos disso valem ser apresentados. Um marido traído pode chegar ao consultório dizendo que somente após matar sua esposa ou seu amante é que recomeçará sua vida. Ou, em outro caso, alguém que não tem dinheiro para pagar suas dívidas resolve que roubará um banco para liquidar suas dívidas, pois a ficar endividado, ele prefere suicídio. O assassinato, o roubo ou o suicídio não são as respostas que a clínica filosófica bem aplicada irá dar a esses partilhantes. É claro que são casos caricatos e exagerados, mas ilustram bem o que se quer apresentar. Embora se respeite a subjetividade em vista de trabalhar com o partilhante, a Filosofia Clínica não é arbitrária.

Entretanto, a não arbitrariedade da Filosofia Clínica também não é proposta de estudos de diagnósticos e formulas de resoluções. Questões existenciais necessitam de respostas existenciais. E é nesse sentido que as palavras de Tillich ajudam a refletir esse aspecto da vida humana. A esse respeito ele diz: “Nossas respostas devem ter tantas formas quantas forem as questões e as situações individuais e sociais”. Veja que ele, embora tenha a finalidade de propor uma mensagem, está consciente de que se ela não toca a questão da pessoa em sua complexidade individual, jamais irá atingi-la. Em relação à Filosofia Clínica, esse aspecto subjetivo de chegar ao outro também é válido.

Não são nossas respostas que ajudarão o outro. Faz-se necessário compreender o que o outro tem como questão – questão aqui tem sentido abrangente: pode significar problema, crise, tristeza, falta de sentido, etc. – e somente após a montagem da Estrutura de Pensamento é que será possível um trabalho de aplicação de submodos para viabilizar as “respostas”. Entretanto, mais uma vez vale frisar: as respostas não estão prontas, não são conteúdos de mensagens, muito menos formulas pré-estabelecidas. Responder aqui significa encontrar um meio de viabilizar um trabalho que somente na prática será possível pensá-lo junto ao partilhante.

Por fim, cabe ao filósofo clínico, embora faça a recíproca de inversão, ou seja, vá ao mundo existencial do outro, pensar as palavras de Tillich: “participar sem perder nossa identidade”. Isto é, o filósofo clínico por mais que esteja participando por meio da dita recíproca, somente pode ajudar por estar vendo no exercício de seu papel existencial de cuidador com todo arcabouço que o formou antes de iniciar os trabalhos com a clínica, acrescido de sua experiência e sensibilidade enquanto humano.

Pois, por maior que seja seu método, jamais deverá prescindir de sua humanidade. Uma frase que tenho visto divulgada como de autoria do Carl Gustav Jung (o que não posso confirmar, mas que não perde sua importância) ilustra bem um elemento para até os mais estudiosos da arte do cuidado do outro como terapeuta: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar a alma humana, seja apenas outra alma humana”.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

domingo, 5 de agosto de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXVIII*


"A própria natureza é o "médico interior" que palpita em cada criatura desde o seu nascimento e que, por isso, sabe sobre enfermidade mais do que qualquer especialista, que tem de limitar-se ao exame dos sintomas externos"

"A mim me parece que a raridade desses verdadeiros mestres da alma é a razão por que a psicanálise será sempre uma vocação ao alcance de alguns e jamais poderá ser considerada um ofício e um negócio"

"(...) Mary Baker se antecipa realmente à doutrina da auto-sugestão de Coué, quando diz: 'os enfermos se prejudicam a si mesmos quando dizem que estão enfermos'

"Eu opino pela grande predisposição de Mary Baker para o milagre"

"(...) em sua maioria ignoram-se recíprocamente e nenhum sabe de Mesmer, o desaparecido, nem Mesmer sabe dêles (..) entregues as observações, deduções, experimentam vezes e vezes os fatos revelados pelo mestre e, também por via subterrânea, para usar de outra metáfora, penetra e avança o novo método através de Strassburg e através das cartas de Lavater, da Suíça"

"Podem profetizar, por introspecção (um modo peculiar de ver, de si para si): ler no seu próprio corpo e no alheio, e diagnosticar assim, sem perigo de erro, as enfermidades. Indivíduos analfabetos são capazes de falar em latim, hebraico e grego"

"(...) existem certas naturezas de tal forma dotadas, mágicas e médicas a um tempo, que, por meio da simples aplicação da mão e da ação de sua personalidade através da atmosfera, conseguem curas diante das quais a ciência mais positiva e esclarecida tem de se declarar impotente"

"O povo prefere, em vez do técnico, possuidor da ciência das moléstias, o "homem que cura", o que tem "poder" sobre a doença. Não importa que há anos a bruxaria e o demonismo se tenham volatilizado e transformado em luz elétrica; a fé nestes homens maravilhosos e feiticeiros tem permanecido mais viva do que parece e do que não nos atrevemos a confessar publicamente"

*Stefan Zweig
A cura pelo espírito

sábado, 4 de agosto de 2012

11 de setembro*

É um assunto meio óbvio hoje, né? Mas as conseqüências pessoais que o 11/09 me trouxe não são óbvias.

11 de setembro de 2001. Eu estava no último período da faculdade de filosofia, às voltas com minha monografia, dando aula em duas escolas.

Tive aula bem cedo na UERJ. Cheguei por volta de 9h em casa e fui estudar. Meu irmão chamou logo depois: “Gustavo, caiu um avião em Nova Iorque!”

Não dei muita importância, pois as estatísticas dizem que isso um dia aconteceria. Fui para a sala assistir à televisão.

Diante da cena da torre do WTC em chamas, imaginei que algum louco teria lançado seu monomotor (no máximo seu jatinho particular) contra o edifício. Quando soube que era um Boeing, fiquei chocado, mas ainda achava que teria sido um acidente – mesmo quando começaram a surgir rumores de atentado terrorista.

Foi quando, sentado no sofá, copo de coca-cola na mão, assisti – live – ao segundo avião.

Tive a certeza de que era um atentado.

Minha primeira reação foi de euforia. Sim, euforia. Afinal, eu estava testemunhando, ao vivo, a História.

Minha segunda reação foi a alegria de uma vingança. Vingança. Fiquei feliz em ver que os EUA haviam sido golpeados com força.

Continuei assistindo. Os bombeiros partiam para dentro da fumaça. Os repórteres, sob a chuva de detritos, permaneciam fazendo a cobertura. Paramédicos chegavam aos montões, tentando salvar aquelas pessoas totalmente enegrecidas de fuligem e de cimento. Sem saída, homens e mulheres, queimados, desesperados, desiludidos, se jogavam para a morte.

Minha terceira reação foi a vergonha.

Vergonha de achar o atentado o máximo. Vergonha de pensar: “finalmente”. Vergonha de meu terrível preconceito. Vergonha de, me achando inteligente, assumir valores de ideologias assassinas.

O onze de setembro não mudou só a geopolítica. Mudou a mim, num sentido muito profundo. Eu não podia, depois daquele atentado absurdo, continuar com meus valores ingênuos de rapaz latino-americano ressentido por ter nascido num país de merda.

Deixei de acreditar em utopias. Larguei a militância no PSB. Identifiquei que eu era, sem me dar conta, anti-liberal, anti-democrata, anti-americano, anti-semita; percebi que eu detestava o golpe de 64, mas adorava o regime castrista; percebi que eu achava um absurdo a Guerra do Iraque, mas achava linda a guerrilha das FARC; percebi que eu considerava pior uma bomba israelense sobre um abrigo de terroristas do que um terrorista palestino explodindo um ônibus escolar.

Estranho: embora eu tenha largado as utopias, deixei de ser pessimista quanto ao ser humano. Ao mesmo tempo que passava a acreditar no ser humano, me descobri detestando qualquer forma de absolutismo.

Isso porque não eram ideologias se jogando do WTC. Não eram ideologias enfrentando os desabamentos. Não eram ideologias sacrificando a própria vida por alguém que não conheciam.

Eram pessoas que morriam. Milhares de pessoas. Morriam sem saber o porquê – porque fanáticos políticos desejavam, como eu desejava, inflingir dor a um povo cujo grande pecado foi ter, por seus próprios méritos, crescido em riqueza e em liberdade.

Que eu nunca mais precise de um onze de setembro para despertar.

E que os radicais de todo o mundo, um dia, possam abrir a vista e olhem, envergonhados, para a monstruosidade assassina e covarde que criaram – e arrependam-se de todo o coração.

*Gustavo Bertoche
Filósofo Clínico, Mestre em Filosofia, Doutorando em Filosofia (UERJ)
Rio de Janeiro/RJ

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Construção compartilhada*



Após a palestra do professor Hélio Strassburger ficou mais evidente para mim que o homem é fruto do seu meio**, pois ninguém que viva em sociedade é capaz de construir algo sozinho, as relações entre as pessoas é o que possibilita a nossa vida em sociedade e o que torna possível a evolução do ser humano.

Isso não quer dizer que a pessoa não é autônoma, pelo contrário, é justamente entendendo essa relação de interdependência (alteridade) que se pode ser verdadeiramente autônomo.

Mas é ingenuidade achar que se pode ser completamente independente do outro, pois você somente pode ser reconhecido como indivíduo, com toda sua singularidade, no momento em que existe o outro para legitimar a sua identidade.

Ainda que seja possível a uma pessoa viver isolado de qualquer contato humano, para sua existência foi necessário haver dois outros seres humanos que o geraram (ou então alguma espécie de criador).

No primeiro caso mesmo que o sujeito negue suas origens, não pode se livrar da sua herança genética, que é um condicionamento. A pessoa que nasce em determinada família está fadada a uma herança, não só genética, mas também social. Cada família possui os seus ritos, agendamentos, nenhuma delas é igual à outra e querendo ou não a pessoa carrega consigo as lembranças desse convívio.

Mesmo que a pessoa queira afastar-se da sua origem (ainda que consiga tornar-se completamente o avesso da sua origem) não pode negar que foi justamente essa origem (a recusa dela) que lhe possibilitou tornar-se o que é.

Tornou-se comum dizer "isso é atávico" elevando esse a uma esfera metafísica e num tom de que é algo que se deve rejeitar. Saber que você pratica ações atávicas não te liberta delas, pode sim ser uma enorme porta aberta para, através dessa tomada de consciência, iniciar uma mudança.

Agora imagine você se esforçando para ter ciência em todos os momentos da sua vida analisando se seus atos estão sendo autônomos ou se você está sofrendo alguma influência, é algo inconcebível, por tanto ter ciência de que existe uma herança histórica, cultural, religiosa, etc. não é algo libertador.

E se a pessoa quiser justamente honrar (seguir) as tradições herdadas, repetindo o que já foi feito antes, (tivesse sucesso ou não) não nos cabe julgar e mesmo que ele queira repetir exatamente o mesmo feito está presente aí uma nova consciência e um ser humano que é outra vez fruto do seu meio em um meio que é inverso daquele dantes.

Saber que a minha ansiedade é causa da minha gastrite não vai fazer com que ela cesse, é preciso antes que eu encare a vida de maneira mais leve, consciente daquilo que eu não posso controlar devo aceitar ou encontrar algum jeito de desconstruir.

Alguns eventos independem da minha própria existência ou dos meus antepassados.

Dessa maneira entendo que dizer-se fruto do seu meio não determina pontualmente o destino de um sujeito, mas significa ter clareza de que você depende do outro para ser quem você é. As pessoas nos ajudam na construção de nós mesmos, e nesse sentido a construção compartilhada é parte de cada singularidade.

*Débora Perroni
Filósofa, estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS
**Rousseau

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Assim ela me parece*


A Filosofia Clínica não se divorciou do mundo acadêmico, apenas escolheu dar vida aos pensamentos dos grandes filósofos. Os termos indecifráveis continuam sendo válidos e necessários.

Mas a Filosofia descobriu que sem poesia, aromas e sonhos ela não conseguiria chegar a essência do ser humano. Assim nasceu o que foi gestado durante séculos por tantos filósofos e filósofas. A criança ainda está no berço...

Enquanto tantas terapias tem respostas prontas e psicologizadas, a Filosofia Clínica rema contra a maré das respostas prontas e múltiplas. Ela navega pelo oceano da singularidade. Num mundo onde a certeza é o caminho que todos procuram, a Filosofia Clínica demonstra que o incerto é ponto de partida.

Talvez a Filosofia Clínica não seja para todos... Assim como a Psicologia, a Física, a Matemática... não seja para todos... Porém, todas as outras ciências do saber cabem na alma da Filosofia Clínica.

O rótulo foi deixado de lado, quando os Filósofos Clínicos descobriram que a diferença é essencial para quem deseja se aproximar dos caminhos que se cruzam na grande teia da vida.

As noites de lua cheia, o silêncio, o poema que estremece a alma, os aroma do café, o cheiro da chuva na terra seca, a música que recorda uma saudade nostálgica... sempre serão matéria-prima deste novo modo de entender e respeitar o ser humano.

A liberdade de ser aquilo que sempre sonhamos em ser, é a única garantia que a Filosofia Clínica pode dar a um partilhante. Ir além desta realidade pode ser perigoso. Mais incerta que nossa historicidade é o caminho que nos propomos a percorrer.

Talvez não haja chegada, mas apenas o início de uma longa viagem com novas maneiras de se compreender aquilo que ainda não tem nome.

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo |Clínico
Cambuí/MG