sábado, 4 de agosto de 2012

11 de setembro*

É um assunto meio óbvio hoje, né? Mas as conseqüências pessoais que o 11/09 me trouxe não são óbvias.

11 de setembro de 2001. Eu estava no último período da faculdade de filosofia, às voltas com minha monografia, dando aula em duas escolas.

Tive aula bem cedo na UERJ. Cheguei por volta de 9h em casa e fui estudar. Meu irmão chamou logo depois: “Gustavo, caiu um avião em Nova Iorque!”

Não dei muita importância, pois as estatísticas dizem que isso um dia aconteceria. Fui para a sala assistir à televisão.

Diante da cena da torre do WTC em chamas, imaginei que algum louco teria lançado seu monomotor (no máximo seu jatinho particular) contra o edifício. Quando soube que era um Boeing, fiquei chocado, mas ainda achava que teria sido um acidente – mesmo quando começaram a surgir rumores de atentado terrorista.

Foi quando, sentado no sofá, copo de coca-cola na mão, assisti – live – ao segundo avião.

Tive a certeza de que era um atentado.

Minha primeira reação foi de euforia. Sim, euforia. Afinal, eu estava testemunhando, ao vivo, a História.

Minha segunda reação foi a alegria de uma vingança. Vingança. Fiquei feliz em ver que os EUA haviam sido golpeados com força.

Continuei assistindo. Os bombeiros partiam para dentro da fumaça. Os repórteres, sob a chuva de detritos, permaneciam fazendo a cobertura. Paramédicos chegavam aos montões, tentando salvar aquelas pessoas totalmente enegrecidas de fuligem e de cimento. Sem saída, homens e mulheres, queimados, desesperados, desiludidos, se jogavam para a morte.

Minha terceira reação foi a vergonha.

Vergonha de achar o atentado o máximo. Vergonha de pensar: “finalmente”. Vergonha de meu terrível preconceito. Vergonha de, me achando inteligente, assumir valores de ideologias assassinas.

O onze de setembro não mudou só a geopolítica. Mudou a mim, num sentido muito profundo. Eu não podia, depois daquele atentado absurdo, continuar com meus valores ingênuos de rapaz latino-americano ressentido por ter nascido num país de merda.

Deixei de acreditar em utopias. Larguei a militância no PSB. Identifiquei que eu era, sem me dar conta, anti-liberal, anti-democrata, anti-americano, anti-semita; percebi que eu detestava o golpe de 64, mas adorava o regime castrista; percebi que eu achava um absurdo a Guerra do Iraque, mas achava linda a guerrilha das FARC; percebi que eu considerava pior uma bomba israelense sobre um abrigo de terroristas do que um terrorista palestino explodindo um ônibus escolar.

Estranho: embora eu tenha largado as utopias, deixei de ser pessimista quanto ao ser humano. Ao mesmo tempo que passava a acreditar no ser humano, me descobri detestando qualquer forma de absolutismo.

Isso porque não eram ideologias se jogando do WTC. Não eram ideologias enfrentando os desabamentos. Não eram ideologias sacrificando a própria vida por alguém que não conheciam.

Eram pessoas que morriam. Milhares de pessoas. Morriam sem saber o porquê – porque fanáticos políticos desejavam, como eu desejava, inflingir dor a um povo cujo grande pecado foi ter, por seus próprios méritos, crescido em riqueza e em liberdade.

Que eu nunca mais precise de um onze de setembro para despertar.

E que os radicais de todo o mundo, um dia, possam abrir a vista e olhem, envergonhados, para a monstruosidade assassina e covarde que criaram – e arrependam-se de todo o coração.

*Gustavo Bertoche
Filósofo Clínico, Mestre em Filosofia, Doutorando em Filosofia (UERJ)
Rio de Janeiro/RJ

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