domingo, 30 de setembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXV*



" Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida"

"Não há linha reta, nem nas coisas nem na linguagem. A sintaxe é o conjunto dos desvios necessários criados a cada vez para revelar a vida nas coisas"

"(...) as coisas são mais perigosas que os seres humanos: eu não as percebo sem que elas me percebam; toda pecepção como tal é percepção de percepção"

"Um mapa de virtualidades, traçado pela arte, se superpõe ao mapa real cujos percursos ela transforma"

"O original, diz Melville, não sofre a influência de seu meio, mas, ao contrário, lança sobre o entorno uma luz branca lívida, semelhante àquela que 'acompanha no Gênesis o começo das coisas"

"(...) a língua não dispõe de signos, mas adquire-os criando-os, quando uma língua age no interior de uma língua para nela produzir uma língua, língua insólita, quase estrangeira"

"Já não é a sintaxe formal ou superficial que regula os equilíbrios da língua, porém uma sintaxe em devir, uma criação de sintaxe que faz nascer a língua estrangeira na língua, uma gramática do desequilíbrio"

"É que o espírito que contempla não é em si mesmo vazio, e as abstrações são os olhos do espírito"

*Gilles Deleuze

sábado, 29 de setembro de 2012


Mulher: Substantivo feminino...*

Nem sempre contente com a realização de um grande dia, muito inconstante e dores diferentes.
De repente o peito aperta e então ela pensa se é por causa dos hormônios ou do inchaço da última menstruação! Chega a diversas conclusões sem solução, aí, eis que lágrimas correm desassossegadas por sua face e ela escreve e escreve sem parar como numa neurose incansável. Ela sabe que já é madrugada e que deveria ter lido um pouco antes de dormir, surgem culpas e pensamentos desordenados enquanto ela está cansada de ter que arrumar tempo para viver uma vida contemporânea. Estar arrumada, trabalhar, namorar, ser bonita a todo momento, gentil e afetuosa...

Porém,

Soa um grito de dor! Porta do quarto fechada e o coração sufocado de tanto representar a "mulher ideal", perfeita sem uma gota de insatisfação! Não, não mesmo! Não foi por isso que ela lutou séculos e séculos. Ela só pretendia ser uma pessoa, entendam, uma pessoa como outra qualquer... Era só! Mas aí vieram os silicones, as revistas cheias de perfeitas mulheres e detalhe: Todas felizes! Ela não suportou tamanha pressão social e criou um casulo só seu, inacessível, trancado.

Entretanto, vez por outra, ela dança e aí surge alma nessa pessoa que queria ser e ela percebe que a dança também se tornou uma grande aliada, uma obsessão!!!

Mas quando movimenta o corpo a alma é elevada a nível tão profundo que nem a droga mais poderosa do momento seria capaz de lhe dar tamanho prazer.

Sua vida se torna poesia e o inchaço já nem incomoda tanto, as dores musculares são recompensadas pelo ganho do movimento esperado. Sua filosofia, outra paixão, pode esperar até o dia seguinte, o livro não vai sair do lugar e então, realizada, as leituras terão outro tom, outro sabor, outro saber.

E uma coisa eu garanto, sexo frágil ela não é não! Essa época já se foi! Ela sabe bem o que quer. Conquistou o mundo e pretende dominá-lo, seduzi-lo com movimentos no corpo, no cérebro, na alma e no coração! Sim! Mulher, eu sou e amo muito esse estado de ser.

*Vanessa Ribeiro
Atriz, dançarina, filósofa, matemática, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Des-Concerto*


Na utopia da vida
o coração é sempre peregrino
percorre territórios desconhecidos
e encontra-se sempre
com o que em mim se perde
nas esquinas dos sentimentos
atravessa as ruas da insensatez
faz escolhas certas
e se perde nas verdades
quase sempre erradas
que sempre foram
o que nunca eram
vive-se o que acredita
do pouco apenas o muito
e das esperas
sempre as partidas
nos mapas da vida
a direção sempre certa
sempre se perde nos caminhos
que não estavam no mapa

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXIV*


EMBRIAGUEM-SE

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.


Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

*Charles Baudelaire

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Jogo de Linguagem*

Querido leitor, aceite o meu fraternal e caloroso abraço. Hoje vamos refletir sobre jogos de linguagem.

Antes de aprofundar no tema, vale lembrar que foi o filósofo austríaco, naturalizado britânico, Ludwig Wittgenstein que criou a expressão “jogos de linguagem”. Ao fazer isso, seu objetivo era descrever o que fazemos ao falar, ou seja, nossos jogos com as palavras.

Talvez o exemplo seja mais claro. No consultório do amigo e médico cardiologista, Dr. Carlessi, há uma arte representando o funcionamento de um coração: as camadas, as artérias, os músculos, enfim um desenho anatômico. Certa ocasião tive uma verdadeira aula acerca do assunto, justamente de uma das referências do tema no Sul do Brasil. Ciência pura, gélida e racional. E foi bem interessante.

Continuamos com o cardiologista, em outros papeis existenciais do Rogério Carlessi, agora não mais o doutor, mas sim pai e avô. Ao chegar em casa, ele chama sua netinha Bianca que o recebe de braços abertos, sorri e o abraça com toda a força de uma criancinha cheirosa de dois aninhos de idade. Então esquecido da gravura ele exclama emocionado. “Querida netinha, te amo do fundo do meu coração”.

No consultório, provavelmente quando fala do coração e suas nuances quer dizer uma coisa. Em casa, com a netinha, do fundo do coração será um outro significado. Traduzindo: jogo de linguagem. O abraço da netinha em seu acolhedor lar o faz mais do que médico, racional e científico, o transforma em poeta.

Outro exemplo? Vamos a ele.

Numa viagem à Grécia, o professor Edson Ribeiro, extrovertido e espontâneo, se indignou com uma colega depois de contar uma piada. É que para gargalhar a piada, para a mulher, precisaria ter lógica e contexto. “Piada é piada!”, comentou ele. Que ainda justificou: “O que se espera de uma piada é que ela provoque riso, ninguém quer saber se a história aconteceu de verdade”.

As poesias, as parábolas, até algumas metáforas não passam de jogos, não para falar de coisas que existem, é apenas um jogo de linguagem para fazer beleza. Assim como a piada, a parábola, a poesia são jogos de linguagem, a ciência é o jogo de um dogma, de uma verdade repassada em linguagem, é o jogo de falar do mundo sem poesia. A ciência fala de coisas que existem, a poesia fala de um mundo imaginário.

Quando pequeno, eu e minha irmã Maria, e também meus irmãos mais novos, ficávamos horas deitados na grama observando o movimento das nuvens que se transformavam em girafas, elefantes, cavalos, navios, avião. Até bicicleta que lembrava o Natal. Geralmente chegavam os mais velhos e destruíam nossos bonecos chamando-nos a atenção: “Deixem de ser bobos, são só nuvens”.

Para eles era ciência, são só nuvens. Para nós era a verdade lúdica vinda em forma de desenhos, de poesia. Às vezes, quando deito na areia do mar e olho para as nuvens, lembro daqueles momentos e o melhor é que ainda continuo vendo desenhos como antigamente. Só que agora não deixo ninguém apagar o coração que vejo no céu. É nuvem? É coração?... São nuvens de coração.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, usa jogos de linguagem no seu cotidiano?

*Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Experimentando....*

Pensar é bom, sentir é ótimo e experimentar melhor ainda.
A existência nos convida o tempo todo a experimentar.
Escolher livremente qual caminho seguir.
O medo nos boicota no fixar na suposta certeza do acertar.
Paralizados vamos criando desculpas no fazer tudo sempre igual.
Evitamos as novidades e o trilhar caminhos desconhecidos.
A capacidade de experimentar os desafios que nos apresentam
Promove vivências, por vezes positivas, por vezes negativas.
Por que não podemos falhar, errar, perder?
Para que sempre acertar e ganhar?
A vida, como caminho no cultivar a alma, nos coloca diante
Florestas obscuras, cavernas escuras, mares profundos.
A riqueza do experimentar permite que vivenciemos as intensidades
Mesmo que o medo por vezes apareça.
Podemos sentir medo e mesmo assim ousar experimentar.
Não temos que ser heróis.
Podemos chorar, sofrer, frustrar...
Ilusão buscar verdades e certezas absolutas.
Quem sonha com a vida apenas perfeita, certinha...
Feliz morte lenta!
Vamos experimentar novos sabores, gozos e situações?
Novas músicas, outros rítmos e possíveis devaneios?
Andar pela escuridão da alma num desvelar o mítico-poético?
Ler outros estilos, vestir outros personagens?
Conhecer outras pessoas e criar o inusitado?
Bem... Experimentando vamos renovando perigosamente,
Com coragem e medo , podendo então dizer:
- Fui , fiz e experimentei! Valeu ou não valeu?
- Vivi!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXIII*


Uma oração

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana.

É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido.

Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo.

Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore.

Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados. Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

*Jorge Luis Borges

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Escrever...

... é uma construção de difícil partilha. Tão rápido se escreve, mais rápido ainda se dá a incompreensão. Como se fazer compreender? Talvez a melhor resposta seja: lapidação. Tal como um diamante que antes de ser lapidado parece ser mais uma pedra bonitinha, depois da lapidação orna, em colares, pulseiras e roupas, o corpo humano.

Por vezes, tenho simplesmente me ocupado em juntar pedras e mais pedras. O simples fato de poder expressar as várias ideias que brotam em mim, já me satisfaz bastante, mas não o bastante. Estou consciente de que a palavra é um símbolo, uma maneira aproximada de apontar para tudo o que experienciei de algum modo, seja o que vi, pensei, li, intuí, etc.

Mas, não basta um apressado gesto de expressão. Muitas vezes, ainda que brote e pareça muito com o que quis expressar, o texto, tal qual um mapa, pode orientar os navegantes para longe do tesouro que quis compartilhar. Veja bem, leitura para mim não é um fim em si, é um caminho.

Diante disso, basta saber apontar. Apontar o tesouro. Lapidar o diamante. Reorganizar o texto. A escrita deve seguir regras externas e internas concomitantemente. Se basear-se na primeira, será um amontoado de premissas lógicas. Se buscar somente a segunda, não passará de devaneios impulsivos e obscuros.

Longo ou curto, o texto deve acima de tudo ser claro. Quando o que escrevo leva alguém a perguntar o que eu quis dizer com aquelas palavras e eu precisar de longo tempo para explicar-me, é porque talvez nem eu saiba o que de fato queria dizer ou que estava tentando colocar as águas do mar (grande quantidade de ideias) num copo (num parágrafo).

Por outro lado, permito-me acreditar que com a entonação correta na leitura do trecho questionado, quando devidamente lapidado, já é suficiente para que o leitor compreenda o que o autor quis expressar. Na dúvida, o dado literal deve sempre ser o melhor parâmetro.

Lapidar, lapidar, lapidar... Caso contrário, ambiguidades seguidas corrompem o texto e conduzem o leitor para caminhos equívocos. Mesmo sabendo que todo texto, depois de feito, carrega consigo uma gama própria de significados que por vezes extrapolam a intenção do autor, este ainda foi quem o escreveu e ao menos essa marca deve caracterizar o texto.

É interessante que sequer pensei em escrever mais do que um parágrafo quando iniciei esse texto, e veja o que saiu. Espero manter-me na intenção da clareza, por mais difícil que seja expressar o que sai de mim. E que, a cada texto, a busca pela clareza se torne a mola propulsora de mais palavras, frases e parágrafos em vista de compartilhar o que em mim transborda e não me vejo mais no direito de manter somente comigo.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Entre achados e perdidos*



Como eh boa a sensação de achar algo que te traga boas memórias, lembranças guardadas hå muito em um baú de madeira, então lå vai um poeminha de 24.01.2000!



Necessito-te

quando estah longe
saudade
quero estar com ele sempre

me tornou uma pessoa pacífica
me sinto de alma limpa

é a certeza de que
soh pode ser amor

nåo eh mais paixão que sufoca

segurança
no seu peito

proteção
no seu abraço

me sinto inabalável
com ele por perto

com ele por perto
o mundo eh estranho aos meus olhos
mas tudo se explica
como se fosse fácil
apenas acreditar

seus carinhos
são o que eu preciso
na dose certa
todos os dias
hoje

hoje
meu coração bate afagado
como se tivesse uma boa razão para bater

*Débora Perroni
Professora de Filosofia, estudante de Filosofia Clinica.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Se beber, não dirija. Também não faça declarações*

Trinta e cinco mil pessoas por ano perdem a vida em decorrência de acidentes de trânsito no Brasil. Preste atenção: 35 mil!!! Quase cem pessoas por dia!!! Estes números são alarmantes e a tendência é de crescimento. Segundo o Ministério da Saúde, metade destas mortes está relacionada ao uso de álcool por motoristas.

O álcool é um forte depressor do Sistema Nervoso Central. Inicialmente quem bebe perde a inibição e sente-se mais corajoso, mas com a progressão da ingestão, passa a ter reflexos mais lentos, perde a noção de distância e torna-se sonolento, sendo uma vítima e um agressor potencial ao volante.

Campanhas educacionais não foram eficazes para estancar esta mortandade alcoólica automotiva. Os números cresciam ano a ano. Quando a sociedade ameaça entrar em colapso devido a determinado comportamento funesto, o governo está autorizado a regulamentar tal conduta criando uma lei para preencher o vazio. A lei invade o território da ética para evitar uma degradação ainda maior.

Foi com este espírito que surgiu a “Lei Seca”, apelido carinhoso da lei 11.705 do Código de Trânsito Brasileiro que penaliza o indivíduo que estiver dirigindo com uma taxa maior que 0,1 grama de álcool por litro de sangue (0,1%) em 957 reais e suspende seu direito de dirigir por um ano.

Esta dosagem sanguínea de álcool é atingida com a ingestão de apenas uma lata de cerveja ou um cálice de vinho. Na medida em que a dosagem aumenta, a lei torna-se mais rígida. Se o individuo estiver com uma medida superior a 0,6% (equivalente a 2 latas de cerveja) a infração é considerada crime e a punição envolve prisão em flagrante, detenção entre 6 meses a 3 anos, multa e suspensão ou proibição de obter a permissão ou habilitação para dirigir veiculo automotor.

Barreiras policiais são montadas aleatoriamente e os motoristas são submetidos a testes de ingestão alcoólica através do etilômetro ou bafômetro (aparelho que permite determinar a concentração sanguínea de álcool analisando o ar exalado dos pulmões).

Apesar desta iniciativa louvável, muito ainda precisamos progredir para coibir a mistura álcool e direção. Além de o Brasil ostentar o triste titulo de detentor de um dos mais altos índices de mortes no trânsito por habitante, o povo brasileiro é o campeão em criatividade no quesito malandragem para burlar a lei.

Não bastassem os traumatismos e seqüelas físicas que o álcool pode causar ao volante, preocupo-me sobremaneira com os abalos, ferimentos e mortes emocionais causadas por atitudes decorrentes da ingestão alcoólica. Certamente este número ultrapassa em muito os 35 mil óbitos/ano nas estradas.

O individuo começa a beber, fica sociável, alegre, torna-se sábio, acha-se bonito, perde a inibição, cria coragem, faz declarações, fala alto, paga contas... A bebida vai descendo e o individuo entra em um estágio no qual perde a noção do ridículo, acredita que as pessoas estão rindo com ele e não dele, leva para a cama uma deusa e acorda ao lado de uma bruxa e pior de tudo, vai ficando desmemoriado. Por vezes no outro dia não lembra o que fez ou finge que esqueceu.

Imagine quantos pedidos de casamento, declarações de amor, convites para transar, beijos, agressões, humilhações, rompimentos foram realizados no embalo etílico. Não seria justo uma dosagem do teor alcoólico para verificar a credibilidade das propostas? Um bafômetro retirado da bolsa no momento certo pode evitar tanto desastres físicos como emocionais.

Claro que não fosse pelo estimulo de uma cerveja ou de um espumante, muitos romances não teriam iniciado. A bebida é responsável por muitas mortes, mas também por muitos nascimentos, alguns indesejados. O álcool é capaz de provocar grandes metamorfoses, discursos eloqüentes e atitudes imponentes, porém vale lembrar que a mistura álcool e paixão quase sempre faz perder a razão.

Geralmente quando se cometem excessos sem danos físicos, panos quentes são colocados e a culpa recai sobre a bebida, que é socialmente aceita e oferecida sem limites nas grandes comemorações. O problema são as conseqüências. Uma palavra mal dita pode destruir uma vida. Será que o álcool pode ter alguma influência?

Talvez o conselho de Ernest Hemmingway seja útil: “Faça sempre lúcido aquilo que você disse que faria bêbado. Isto o ensinará a manter sua boca fechada”.

Se beber não dirija. Também não faça declarações.

*Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A Arte de Bem-Viver*

Muitas questões existenciais percorrem os caminhos de nossa natureza humana. Reféns de um sistema repleto de inúmeras respostas e soluções fáceis aos diversos questionamentos humanos há perguntas que continuarão sem respostas e há respostas que sempre serão tão frágeis como a palha seca que se queima com a primeira faísca de um questionamento mais profundo.

Fato é, que o coração muitas vezes precisa de um porto seguro, onde viver seja uma experiência concreta e que traga felicidade plena. Há, no entanto pessoas que não buscam a razão de viver, pois já a descobriram, ou então estão felizes como vivem. Mas e aqueles que buscam a plenitude do viver?

Viver uma vida plena implica em aprendizagem. Quando me refiro ao aprendizado estou alicerçado em um conceito que vai além de um sistema educacional alicerçado no saber teórico, pois acredito que viver é sempre a extensão prática da teoria.

A teoria nos apresenta conceitos e experiências particulares. Cada ser humano vê o mundo no singular do universo que cria para si mesmo. Interpreta a vida de acordo com suas crenças ou descrenças. Descobre e perde-se nas tramas que permeiam o seu ser. E vai assim construindo o seu habitat existencial à medida que se aventura em territórios muitas vezes desconhecidos.

Nascemos sem um manual de instruções. Ao longo da vida vamos formando os critérios que se tornam parte de nós mesmos. No entanto os critérios que em nós existem não chegaram até nós do nada. Eles são partes de outras historicidades que fazem parte da teia de relações que vamos tecendo ao longo do nosso caminhar existencial.

Cada vida ou experiência de viver é um caminho plural para o singular que somos. Nosso manual da vida é sempre um resumo, algumas vezes mal escrito, outras vezes bastante elaborado, de muitos outros manuais que foram incorporando-se ao nosso mundo interior. No impar de nossas equações vivenciais, muitas outras vidas entraram em contato com o nosso modo de ser, de ver e de viver.

Como viver plenamente e descobrir o sentido da vida a partir de uma existência povoada por outros tantos mundos? Esta pergunta não traz em si uma resposta anexada ao questionamento proposto. Descobrirá o sentido de viver quem tiver a coragem de ver a vida com um novo olhar, muito embora este modo de olhar esteja preenchido por outros olhares já impressos em nosso ser.

Não há certezas no caminho da descoberta de si mesmo, pois o próprio ato de caminhar é incerto, tendo em vista que sempre iremos percorrer caminhos já trilhados por outros. Em tão qual o sentido da busca do bem-viver?

O que nos põe em contato com o sentido pleno da existência singular é o olhar que depositamos em caminhos plurais, Os poetas o novo a partir de realidades velhas e perdidas no tempo de pretéritos passados.

A singularidade da vida não exclui os plurais de outras experiências impressas em nosso ser, mas atualiza-as e faz delas matéria-prima para novos aprendizados. Na gramática da arte do bem-viver há sempre um novo texto há ser escrito a partir de contextos já finalizados.

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

domingo, 16 de setembro de 2012

Porque nada está pronto*

Em nenhum lugar está escrito que a vida seria um mar de rosas em tempo integral. O mais provável é que os caminhos sejam, para a grande maioria dos seres mortais, de desafios que alternam as estruturas e surpreendem até a si mesmos, sem prévio aviso e regado com profusão de ritmos.

Mas parece que de alguma forma acreditamos nesta possibilidade. Nesta esperança que impulsiona sentires em direção a algo no qual acreditamos.

Todo amanhecer pressupõe renovação, até mesmo quando nada se manifesta. É como uma flecha se encaminhando de forma precisa para onde supomos não haver nada.

Quantos vazios se escondem na multidão... quantos temores vãos se reconhecem e se proliferam, na tentativa de ganhar espaço nas veias abertas das dores e dos dissabores... quantos enigmas nos perpassam e nos convidam a refletir e penetrar zonas desconhecidas de nossos limites próprios... quantas fronteiras ainda a explorar.

E nossos instintos nos pedem apenas que sobrevivamos. Mas insistimos em ir além, simplesmente porque é impossível parar. Não estamos perscrutando os movimentos internos de nossa natureza apenas para existir, mas igualmente porque é preciso nos recriar a cada instante, como se não houvesse reconhecimento cada vez que nos olhamos. Sempre será preciso mais; é quase inerente.

É como se lançássemos o coração... só para depois ir ao encontro dele.

Esse encontro pode se traduzir como uma necessidade perene ou feroz, muitas vezes não concretizada, de estar apaixonada, de estar inteira na vida, no âmbito das relações que fazem sentido a cada um.

A questão dramática é que isto impede a realização até mesmo de ambições simples, muitas vezes abatendo emocionalmente.

Pode ser um cotidiano mal resolvido que insiste em colocar tudo a perder; pode ser o grande sonho que ainda não se definiu; pode ser uma dualidade que não percebe o caminho do meio ou que ainda não esticou as pernas o suficiente para se entregar aos dois destinos. Não há como saber... o que fica é um vazio, uma tristeza, um sentimento de perda de algo precioso.

Mas ainda que a vida esteja em compasso de espera, instiga uma tentação quase irresistível de ir ao encontro dela, como se fossemos impelidos ao abismo.

E não adianta resistir ao abismo; é quase inútil. O abismo da existência vai te sugar e te conferir plenitude, mesmo que não seja o momento de ser pleno. E plenitude é relativa! Então, que cada um que a saboreie no seu tempo. O que importa é vencer as ilusões que as amarras temporais entravam e clarear as névoas da percepção, mas com o máximo de cuidado, para não ofuscar o próprio brilho.

Sublimar momentaneamente pode ser um pequeno alívio, um descanso para a alma suspirar. Porque a respiração é imprescindível e sublimar é, num certo sentido, lidar racionalmente com situações muitas vezes limite para evitar dor ou mesmo uma desnecessária exposição.

Apenas é bom lembrar que tudo na vida tem seu preço e mesmo um gerenciamento eficiente vai um dia pedir as contas... só que também cabe lembrar que há contas que valem a pena ser pagas.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

sábado, 15 de setembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXII*

AS MULTIDÕES

Não é dado a todo o mundo tomar um banho de multidão: gozar da presença das massas populares é uma arte. E somente ele pode fazer, às expensas do gênero humano, uma festa de vitalidade, a quem urna fada insuflou em seu berço o gosto da fantasia e da máscara, o ódio ao domicílio e a paixão por viagens.

Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis pelo poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só no meio de uma multidão ocupadíssima.

O poeta goza desse incomparável privilégio que é o de ser ele mesmo e um outro. Como essas almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando quer, no personagem de qualquer um. Só para ele tudo está vago; e se certos lugares lhe parecem fechados é que, a seu ver, não valem a pena ser visitados.

O passeador solitário e pensativo goza de uma singular embriaguez desta comunhão universal. Aquele que desposa a massa conhece os prazeres febris dos quais serão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso. ensimesmado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias, todas as misérias que as circunstâncias lhe apresentem.

Isto que os homens denominam amor é bem pequeno, bem restrito, bem frágil comparado a esta inefável orgia, a esta solta prostituição da alma que se dá inteiramente, poesia e caridade, ao imprevisto que se apresenta, ao desconhecido que passa.

É bom ensinar, às vezes, aos felizes deste mundo, pelo menos para humilhar um instante o seu orgulho, que existem bondades superiores às deles, maiores e mais refinadas.

Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os sacerdotes missionários exilados no fim do mundo conhecem, sem dúvida, alguma coisa dessas misteriosas bebedeiras; e, no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem rir, algumas vezes, dos que se queixam de suas fortunas tão agitadas e de suas vidas tão castas.

*Charles Baudelaire

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Leituras de Filosofia Clínica III*

“Lembro-me, já nos últimos tempos de sua estada conosco, de um conceito dessa natureza, que nem chegou a ser mesmo um conceito, mas antes unicamente um olhar. Foi quando um célebre historiador e crítico de arte, de renome europeu, anunciou uma conferência na universidade local e logrei persuadir o Lobo da Estepe a que fosse assistir a ela, embora não me demonstrasse nenhum prazer em ir. Fomos juntos e nos sentamos um ao lado do outro no auditório.

Quando o orador subiu a tribuna e começou a elocução, decepcionou, pela maneira presumida e frívola de seu aspecto, a muitos de seus ouvintes, que o haviam imaginado algo assim como um profeta. E quando então começou a falar e, à guisa de introdução, endereçou aos ouvintes palavras lisonjeiras, agradecendo-lhes por terem comparecido em tão grande número, nesse exato momento o Lobo da Estepe me lançou um olhar instantâneo, um olhar de crítica àquelas palavras e a toda a pessoa do conferencista, oh!, um olhar inesquecível e tremendo, sobre cuja significação poder-se-ia escrever um livro inteiro!

O olhar não apenas criticava o orador e destruía a celebridade daquele homem com sua ironia esmagadora embora delicada; não, isso era o de menos. Havia naquele olhar um tanto mais de tristeza que de ironia; era na verdade um olhar profundo e desesperadamente triste, com o qual traduzia um desespero calado, de certo modo irremediável e definitivo, que já se transformara em hábito e forma. Não só transverberava com sua desesperada claridade a pessoa do vaidoso orador, ironizava e punha em evidência a situação do momento, a expectativa e a disposição do público e o título um tanto pretensioso da anunciada conferência – não, o olhar do Lobo da Estepe penetrava todo o nosso tempo, toda a afetação, toda a ambição, toda a vaidade, todo o jogo superficial de uma espiritualidade fabricada e frívola.

Ah! Lamentavelmente, o olhar ia mais fundo ainda, ia além das simples imperfeições e desesperanças de nosso tempo, de nossa espiritualidade, de nossa cultura. Chegava ao coração de toda a humanidade; expressava, num único segundo, toda a dúvida de um pensador, talvez a de um conhecedor da dignidade e, sobretudo, do sentido da vida humana. Esse olhar dizia: ‘Veja os macacos que somos! Veja o que é o homem!’ E toda a celebridade, toda a inteligência, toda a conquista do espírito, todo o afã para alcançar a sublimidade, a grandeza e o duradouro do humano se esboroavam de repente e não passavam de frívolos trejeitos!” (Hermann Hesse. O Lobo da Estepe. pp. 17-18).

O texto acima nos mostra o que um olhar pode gerar um processo diverso de qualificação da interseção. O Jovem personagem que relata a cena acima olha para Harry Haller, o Lobo da Estepe, e em seu olhar desenvolve uma série de aferições de sentido intermináveis. Bela exemplificação do misto de Ideias Complexas, Inversão, Adição e Significado. O incrível disso é que o Lobo da Estepe sequer disse uma palavra.

Escolhi abrir a reflexão com uma obra literária pela abrangência relacionada a questões da existência humana e sua compreensibilidade – o que soaria limitado se fossem apresentados muitos exemplos concretos, pois seria uma impressão de “caso singular”. A arte, em seus diversos aspectos, tem um alcance muito mais abrangente aos que se identificam ou apreciam.

Nos momentos iniciais da consulta em Filosofia Clínica, esta nos orienta a fazer o agendamento mínimo, ou seja, nos leva a interferir o mínimo possível na fala do partilhante (nome dado a quem procura os serviços do filósofo clínico) de modo que seja o mais próximo possível de seu modo de estar no mundo. Importa notar que mesmo que haja a adjetivação “mínimo” o procedimento permanece como um “agendamento”.

Na verdade, desde o momento em que bate na porta de um filósofo clínico até sentar-se para iniciar a partilha, o partilhante já está sendo agendado. O ambiente, a recepção, o preenchimento da ficha, enfim, todo pequeno movimento vai na direção de inferir algum tipo de impressão ao sujeito no processo da clínica.

Um simples gesto pode levar o partilhante em direção às ideias complexas, adição, torná-lo altamente inversivo, significar coisas diversas ao que intentava o filósofo ao recebê-lo. A título de exemplo, um pequeno gesto do filósofo, um olhar como apresentado acima, pode levar a significar indiferença. Isso pode vir de pré-juízos formados ao longo da vida no qual via que toda vez que alguém não discordava de seu ponto de vista, não estava dando atenção ao que ele dizia. E por aí poderiam ser acrescentados infindáveis elementos importantes no processo da clínica.

Quando iniciamos os estudos de Filosofia Clínica aprendemos que ela não se restringe ao consultório e que muitos estudantes não vão querer trabalhar em consultório depois de formados. Mas, é possível e importante trazê-la para a vida cotidiana. Diante disso, pensamos que se em consultório é difícil e demorado o processo de compreensão da Estrutura de Pensamento do outro, no dia a dia, isso é muito mais complexo.

Essa complexidade deve ser levada em conta diante de atitudes que observamos por parte dos que nos cercam quando não os compreendemos de imediato. Ações estranhas a nós, por parte de pessoas com as quais convivemos, muitas vezes nos levam a ficar indignados, nervosos, etc.

Entretanto, diante do trecho literário que abriu essa reflexão, vemos o quanto podem ser imperceptíveis os movimentos internos da pessoas cuja ação posterior apenas é um reflexo. Logo, todo cuidado é pouco antes de julgarmos indiscriminadamente a ação alheia. O outro permanece sempre um mistério cujo alcance de compreensão de nossa parte é sempre limitada. Fica, com isso, uma lição da Filosofia Clínica: respeito à singularidade.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A busca do que é “íntimo” na minha tela de computador*

Nossa necessidade de outras pessoas é paradoxal. Ao mesmo tempo em que nossa cultura se encontra enredada na celebração de uma independência feroz, também ansiamos por intimidade e por uma ligação com um ser amado especial.

Voltando um pouco para a raiz da palavra “intimidade”, do latim “intima”, que significa interior ou “mais interior”, para alguns autores como o Dr. Dan McAdams, que trata do tema intimidade, frequentemente a define assim: “O desejo de intimidade é o desejo de compartilhar nosso eu mais profundo com outra pessoa”.

O psicanalista Social Erich Fromm afirmou que o medo mais básico da humanidade é a ameaça de ser isolado de outros seres humanos, que está relacionada afirma ele, a experiências humanas na tenra infância de onde se originam o medo, tristeza e mágoa.

Levando-se em consideração a importância vital da intimidade, como tratamos de conseguir intimidade na nossa vida diária? Se uma das definições de intimidade é estar próximo do outro, como analisar outras formas de contato que não seja o físico? “Para os especialistas da “Arte da intimidade”, que olham esta experiência como ‘ a capacidade de se conectar” com outras pessoas.

As definições encontradas são amplas, que inclui até nossos relacionamentos com objetos inanimados – árvores, estrelas e até mesmo o espaço. Entre formas ideais de intimidade e noções românticas ao longo de nossa história, percebemos que estes hábitos culturais variam de cultura para cultura. Por exemplo, para a cultura Surda que não tem muito o hábito do toque, a não ser que o outro seja surdo-cego, a via para a intimidade é a habilidade de se comunicar através da Língua de Sinais Brasileira.

Para outras culturas como a asiática que são menos vulneráveis ao tipo de decepção que leva desintegração dos relacionamentos por não valorizarem os sentimentos pessoais, a regras técnica e formal, traz mais resultado.

Enfim quando não temos os veículos disponíveis para nos consolarmos uns com os outros por meio de abraços e apertos de mão, nos consolamos por vias indiretas como as que utilizamos nas redes virtuais especialmente, através dos bate-papos, chats, mensagens, textos, imagens, etc.

E em outra modalidade de intimidade entre duas pessoas, não posso deixar de citar a partilha terapêutica, onde o corpo do meu partilhante é um “livro vivo", segundo a Filósofa Clínica Idalina Krause (A Arte de Partilhar-2007): “Somos uma opção viva diante do outro, é se ver e se mostrar, é um exercício existencial”.

O corpo também é uma unidade expressiva afirma Krause, que se explicita na linguagem através de suas percepções singulares. A forma singular do diálogo vai depender da historicidade de cada um.

Portanto precisamos urgente expandir nossos conceitos de intimidade para descobrir através de mediações ou não, muitos modos novos e igualmente satisfatórios de conexão com os outros., formando laços profundos e autênticos baseados na humanidade comum.

*Ivânia Egas
Professora Especialista em Educação Especial e
Filósofa Clínica.
Manaus/AM

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Estranhamente muda!

Ando tão calada que posso escutar as batidas do meu coração...

Tenho me questionado o motivo de tanto silêncio e não encontro explicação!

Será tristeza, apatia ou nada disso?

Será que estou precisando ouvir mais? Mas o que? Como saber? Silenciando mais? Não encontro explicação.

Talvez esteja enjoada ou cansada de falar para quem não entende determinadas coisas sutis...

Talvez seja um silêncio de indignação ou só solidão. Não é vazio não, isso posso afirmar. Pensei que talvez seja porque ando a pensar em escutar com mais atenção. Porém, certeza, não tenho não!

Sinto cada vez mais nítido o perfume das coisas, o som das poucas canções...

Angústia também não é não!
É um sem explicação!

Os pensamentos tentam se organizar em meio ao silêncio do dia, as culpas vão se dissipando com leveza! Estou aprendendo a dizer não.

Sim é fácil demais, entretanto, estive passando por cima de meu querer e de meu coração.

Até, que o ato de escrever, tem me libertado de mim mesma, das amarras que a cilada do pensamento tenta criar para me atordoar.

Eu vejo demais, escuto o que não gostaria, percebo certas entrelinhas e aí...

Não vou fingir que tudo que vejo corresponde a verdade, não mesmo. Na maioria das vezes vejo tantos disfarces que já nem tenho ânimo mais de prestar a atenção. Será isso um problema ou talvez a solução?

*Vanessa Ribeiro,
Filósofa, matemática, atriz, dançarina, estudante de Filosofia Clínica
Petrópolis/RJ

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXI*



"Vagabundo*

Eu durmo e vivo no sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso,
Nas noites de verão namoro estrela;
Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso!



Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo à Nossa Senhora, e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa. "

*Alvares de Azevedo
Poemas Malditos

domingo, 9 de setembro de 2012

Estamos juntos ?**

Haicai * é uma forma extremamente pequena de poesia, surgida no Japão durante o século XVI, que valoriza a concisão e objetividade. A idéia é transcender a limitação imposta pela linguagem usual e pensamento científico-linear e transmitir a percepção da essência de um local, momento, drama em apenas 17 silabas. Tudo precisa estar refletido em poucas palavras.

Em seu livro “Shogun”, James Clavell descreve esta forma de expressão como uma parte do ritual onde o guerreiro samurai escreve um Haicai antes de cometer o suicídio.
Exemplo: “Barco de papel naufraga na torrente chuva de verão” ou “Estas pimentas! Acrescentai-lhes asas e serão libélulas”.

Se já é difícil descrever o significado de uma existência, imagine agora fazer isto em apenas 17 silabas. Palavras impactantes que vão enquadrar o que restou da jornada de alguém neste planeta, neste plano. Um costume ocidental semelhante é colocar frases sobre túmulos e mausoléus (epitáfios) homenageando pessoas ali sepultadas.

Robespierre, personalidade marcante da Revolução Francesa – “Passante, não chores minha morte”. Robert Frost, poeta californiano – “Ele teve um caso de amor com a vida”. Mario Quintana, poeta gaúcho das coisas simples, marcado pela ironia – “Não estou aqui”, refletindo sua imortalidade através dos livros publicados.

Meu amigo, filósofo e escritor Beto Colombo, muito saudável física e espiritualmente, experimentou projetar o que hoje resumiria sua existência: “encontrei Deus, e ele me vê pelos olhos dos outros”. Inspirado no Beto, tentei simular o que seria meu primeiro e último Haicai: “Aprendi, criei, transformei, respeitei, amei, aproveitei”.

Não foi fácil, dias inteiros meditando, praticando introspecção, sem contudo alcançar uma representação que contemplasse eternizar minha existência em 17 silabas. Somos mais que um haicai, pensava eu. De qualquer maneira a experiência foi válida porque me auxiliou a ver que estava descrevendo minha passagem e não minha essência. Esta sim talvez caiba dentro de um haicai.

Deixemos a meditação de lado e voltemos ao mundo real. Imagine o indivíduo como um circulo, onde no centro reside sua essência e à medida que migramos para a periferia, esta essência vai se diluindo e transformando-se em derivativos.

Gostar de cinema, teatro, viagens, esportes, dança, culinária são afinidades derivativas que aproximam casais, mas não são essência, não é disto que tratam os haicais. Alguns relacionamentos se apóiam e sobrevivem apenas destes encontros periféricos. Poderíamos chamá-los metaforicamente de convivência por vizinhança.

Os núcleos, essências, almas, seja lá o nome que se queira dar, nutrem-se de amor, fé, sabedoria, justiça, caridade, esperança, liberdade, beleza... Talvez alguns prefiram ganância, falsidade, poder, prazer ...cada indivíduo tem seu âmago e pode fazer um esforço para percebê-lo, metaforicamente haicaizá-lo e conscientizar-se de que se as palavras agora ainda não são boas, talvez ainda haja tempo para resignificá-las.

O desafio do encontro é reconhecer-se, descobrir-se e depois, completamente despojado, caminhar em direção ao outro. Ir além da linguagem, ultrapassar os portais periféricos e fazer os núcleos se encontrarem em um diálogo silencioso, sincero, simples e objetivo, assim como um Haicai. “O outro só vai existir em relação à mim, porque eu existo”, “Amo-te porque tu és tu e eu sou eu”, ou como dizia Leonardo da Vinci, “estar junto não é estar perto, e sim do lado de dentro” – 18 sílabas.

* Haicais japoneses tem regras de métrica bem rígidas; haicais brasileiros não são tão rigorosos assim.

**Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

sábado, 8 de setembro de 2012

Crônica de um Aviso*


De que forma lhe avisam que não está bem, que tome cuidado, ou que precisa acordar?

Se tentava libertar dos mitos que lhe ensinaram e das lendas que fez em si próprio. Escolhera não um caminho, pois gostava de variedade, mas três possibilidades. Um coração, uma mente e um espírito a seguir. E como agradar a tantos senhores, governantes de bulas diversas?

A virtude queria corpo casto e mente limpa, ordeira como receptáculo do Bem, meta do espírito. Invariavelmente não realizava nem um, nem outra, nem outro. E brigava com Fulano, esfomeava Cicrana, amordaçava Beltrano.

O fantasma reclama da usura e o ridiculariza em nome de modéstia e humildade, fruta amarelo-ocre com coração de espinhos.

- Mas esses valores não estão na moeda, dizia ele.

E não sabia se se escravizava nas dívidas, na acumulação ou na pobreza.

O corpo mortificado pela mente esmorecia e definhava a esperança por músculos ferozes e poderosos, doces para os dentes da amiga. Não há mais forças para lutar, as uvas estão verdes.

Surge, de furacão, o rosto rosado da volúpia, vindo não sabe de que cheiro, cena ou toque. Ele está lá, o desejo nunca morreu; só lhe dera uma trégua para que fosse assombrar outras aldeias desencantadas, que compartilhar é preciso – aprendeu.

O viajor estava confuso e tinha sede. E há tempos não bebia tanto e não sentia a vontade ardente de se banhar e sair por aí, pelo vento morno – vento morno, coisa rara nas suas noites – e conversava consigo mesmo.

Agradecido pelo sol que se fora, e com ele o trabalho, agora pode descansar a mente sentindo-se mais uma vez como homem de lugar algum.

Teme que sua alma voe pela janela aberta e encontre mundos mais estranhos ainda daqueles que visita na jornada que escolheu.

No quarto novo, é como se nunca houvesse tido rotina. Nem vida. Seu coração está nos vários gânglios, não sabe mais o que é, se é quem; se deita acelerado, não dorme.

E uma canção – canção, pois música antiga, daquelas que já tocavam quando ainda nem tinha nascido –, a música velha o leva pra dançar de novo. Mas pena, é uma versão em português – e retorna, senta no salão de baile que ainda está decorando. Não sabe se haverá mesmo festa.

Lá fora o movimento do rodeio de touros, tão comum ali e tão destoante, lhe assegura: conserve-se ou te incorporo.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Estilo e Construção - A Alquimia na arte de escrever*


Escrever é o mesmo que preparar uma receita. As palavras são os ingredientes necessários na etapa de preparação.

Cada palavra somada a muitas outras irá dar a forma e consistência necessárias à elaboração da receita que já existe silenciosa na alma do escritor. Cada um irá elaborar seus textos de acordo com as inspirações nascidas no coração ou na razão.

Na alquimia da arte de escrever criam-se estilos e métodos próprios. Cada texto tem sua receita única. Por mais que alguém tente copiar uma receita literária, ela nunca sairá como a original. Estilos na escrita são tão variados quanto às estrelas no céu. Na infinidade das formas está o ser de cada autor.

Por isso que escrever é sempre uma aventura solitária. É sempre o autor diante de si mesmo e de suas vivências, na busca de tentar levar até o leitor o mundo que deseja partilhar no plural da vida. O que a vida imprimiu na alma é expresso em palavras nas páginas do tempo.

Não há estilo perfeito, se perfeito não for o desejo de quem escreve aperfeiçoar sua técnica. Descobrir o seu jeito de ser ao expressar as inspirações que nascem na escrita é sempre o melhor caminho para não se perder em outros caminhos que não sejam o seu próprio caminhar.

O que faz um autor obter reconhecimento no mundo literário é o seu estilo que conquista os leitores que com ele se identificam. Cada jeito de expressar as palavras é sempre um jeito singular de ver o mundo e ser visto por ele.

Na soma das palavras, o escritor vai construindo um mundo próprio elaborado com os ingredientes já presentes no seu dicionário literário. Não há receita pronta para quem escreve.

O autor sabe que cada palavra já foi usada milhões de vezes por outros autores e que irão adquirir em sua receita um sabor novo e inovador. O segredo de um bom texto é a maneira como se prepara a receita da construção das frases e o sentido que se dá a elas.

Somente quem conhece o segredo de cada palavra que usará em seus escritos saberá que o seu estilo de escrever será sempre pessoal e plural em um universo onde os sabores e os saberes são tão variados quanto às maneiras de cada um expressar-se.

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Uma filosofia da exceção*


“Depois de ler essa passagem de Gertrude Stein, estilisticamente estranha: ‘uma rosa é uma rosa, é uma rosa’, ela de repente nos faz perceber que os problemas que a preocupavam só podiam ser expressos daquela forma.”
Jacob Bronowski



É incrível notar que gestos significativos possam ter o silêncio como chão. Ao saber das coisas indizíveis, parecem restar atitudes de excesso, para além do gesto reconhecível no olhar cotidiano.

Esse lugar onde os loucos sonhos se exercitam, aprecia ter vínculos estreitos com a alma em instantes de transgressão criativa. Quase inacreditável ser a interrogação sua própria resposta, um vislumbre a se perder de vista para outros horizontes.

Um rascunho de abstração profunda, no lugar nenhum da palavra reconhecida, eis a ousadia desses contornos de exceção. Na raridade da menção obtusa muita coisa morre pra seguir vivendo.

Os desdobramentos subjetivos apreciam a invenção das palavras para testemunhar novas realidades. O teor dessa retórica fugaz possui significado próprio, lugar de onde a autoria se faz sujeito.

A simbologia de traço mal_dito faz referência e atua para dar seguimento ao que restaria desconhecido. Ao qualificar a interseção com esses episódios da arquitetura singular, os eventos vão se apresentando na simplicidade do momento compartilhado. Sua visibilidade se ajusta ao teor esotérico dos encontros.

Ao leitor é possível ser co-autor desses esboços, na intervenção com sua leitura, sobre os apontamentos do autor primeiro. Essas raridades parecem escolher uma espécie incomum de sujeito para se mostrar. Aos demais cabe olhar sem ver.

As representações da irrealidade sugerem novas possibilidades existenciais. No difuso mundo da estética o desmerecimento costuma legitimar seu viés de novidade. Talvez assim esparrame vestígios sobre as margens impronunciadas.

Nesse contexto a pluralidade significante de cada um, pode vir a ser momento de ensaio na aproximação entre o querer dizer e o mencionar efetivo.

A integração da pessoa assim descrita, após o evento precursor, reivindica aprendizados sobre essa nova estruturação, como um íntimo desconhecido recém-chegado para si mesmo.

*Hélio Strassburger

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O lastimável Ser Humano*

Tenho uma necessidade bem humana de crescer ,evoluir e estar ligada ao todo, sigo buscando conhecimento, aperfeiçoamento e evolução.

Faço exercício para policiar meus limites e respeitar a todos até que possam se mostrar,sem julgar e muito menos sentenciar, é um caminho trabalhoso e exige dedicação.

Ontem no final da tarde, estava um pouco envergonhada , não sabia porque sentia aquilo , estava assim mas não era por mim, era por algumas pessoas (poucas felizmente) que acabo tendo que conviver devido as minhas buscas. Criaturas que a principio parecem politicamente corretas , pais e mães de familia, religiosas, espiritas, pessoas que vivem falando da beleza do amor trancendental de espíritos que supostamente são do bem , pessoas pretendem ensinam o amar, que falam de Cristo, do amor ao proximo e ao mesmo tempo as vejo ali discursando e deboxando de quem é diferente, de quem se agita por demanda sentimental.

Como pode, pessoas com curso superiror, especializadas e graduadas para lidar e entender o ser humano, e ao mesmo tempo vc vê que no mesmo grupo são as mais intolerantes, mais narcisistas, mais Julgadoras e preconceituosas, como pode? Quanta contradição. Então o conhecimento é todo teórico? Elas não aprenderam nada alem de usar isso para usurpar a generosidade ,expressividade alheia e manipular o ambiente? Que coisa hem?

Ainda bem que este grupo não representa a maioria ,no mesmo microcosmos exitem outras pessoas bem diferentes , que sentem, percebem e respeitam o outro e a diferença, pessoas ao qual o conhecimento aperfeiçoou sua humanidade, porque ela ja estava ali no proposito, naquilo que as motiva, no primeiro motor. Percebi quem mesmo sendo mestrada, doutorada em humanas, quando uma pessoa tem seu registro existencial no mito, no fantástico, nada demove sua tendencia de ficar cega, pois esta foi a vivência de afeto que a fundou no real.

Não ha nada de errado nisso, o que lastimo é que justamente por isso elas só tem auto critica para fora e nada para si mesmas, então contaminam os mais ingênuos. Como diz meu mestre, a medida que você evolui internamente seus pensamentos evoluem e a vizinhas destes pensamentos muda completamente e não adianta se forçar a ficar na antiga vizinhança simplesmente não da.

Que bom que é possível ter uma boa vizinhança no mesmo ambiente de outras vizinhanças ,claro isso só é possível pela transitóriedade . Uma verdade, que cedo ou tarde temos que nos defrontar é a de que onde vivem as pessoas também vivem suas mazelas e limitações ,poucos conseguem transcender, os que conseguem são aqueles que nos fazem acreditar que na frente ha um continente, onde é possível desembarcar sua pureza sua essência e que por mais que nos ocupemos de criar realidades a solidão é uma probabilidade, porém nela é provável a expansão de seus domínios, saborear a luz da introspecção e esta inestimavel vontade de viver.

A sabedoria vai trazendo recursos para que a simplicidade se acomode em meio a todo tormento e todo o alivio que a percepção nos propõe. A coerência é um bom caminho a seguir, mas para isso é necessário que olhemos no espelho para ver a natureza do que somos com os valores que possuímos e as diretrizes de nossas razões.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga, Filósofa Clínica
Curitiba/PR

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Vivendo Interpretações*

“Para terminar nosso estudo resta esclarecer ainda uma última ficção, um engano fundamental. Todas as ‘interpretações’, toda psicologia, todas as mentiras de tornar as coisas compreensíveis se fazem por meio de teorias, mitologias, de mentiras; e um autor honesto não deveria furtar-se, no fecho de uma exposição, a dissipar essas mentiras dentro do possível. Se digo ‘acima’ ou ‘abaixo’, isso já é uma afirmação que exige um esclarecimento, pois só existem acima e abaixo no pensamento, na abstração. O mundo mesmo não conhece nenhum acima nem abaixo” (Hermann Hesse. O Lobo da Estepe, p. 70).

O presente texto expõe a questão da interpretação a partir da qual nos situamos no mundo, no todo, do qual somos parte. E essa interpretação corre o risco de tornar-se tão certa para quem a possui, que a imposição desta aos convivas se torne quase impulsiva. É como se o detentor dessa interpretação, levasse consigo “a verdade”. Os filósofos citados ao longo do texto são apresentados a fim de corroborar com a reflexão, o que prescinde de maiores aprofundamentos nas concepções filosóficas desses.

Heidegger, antes de publicar sua obra mais conhecida, Ser e Tempo, em 1927, já havia escrito e pensado em vários de seus conceitos que mais tarde viriam a ser apresentados sistematicamente em sua obra magna. Dentre esses conceitos, está o de vida fática. Para Heidegger, o homem é um ser-no-mundo, isto é, um ser cuja definição mais originária está em sua constituição no mundo. Husserl, a quem Heidegger dedica Ser e Tempo, antes havia dito que toda consciência é consciência de algo. Isto é, não há como pensar um sujeito consciente destituído da coisa pensada.

Mas, o que Heidegger pensa acerca da vida fática? Qual é a relação entre a faticidade e a concepção de ser-no-mundo? E como se articula a concepção heideggeriana com a questão da consciência do sujeito em relação à coisa pensada? E, por fim, qual a relação dessas questões com a da “interpretação” anunciada no título?

Para Husserl, o que o homem conhece é o fenômeno, ou seja, a manifestação do objeto para a consciência a ela voltada. A consciência humana está ligada ao objeto à qual ela se volta, sendo um processo que não se separa a não ser metodologicamente. Portanto, só há como falar da consciência a partir dela em relação ao objeto que se manifesta para o sujeito consciente. Daí a máxima conhecida de Husserl que diz que “Toda consciência é consciência de algo”.

Heidegger vai mais a fundo e pensa não somente uma consciência enquanto voltada a algo, mas pensa o homem inserido no mundo de tal modo que, no primeiro momento não há divisão entre homem e mundo, sujeito e objeto, racional e irracional. A faticidade é constituída de um aspecto tão evidente, no sentido de tão intrínseco à existência humana, que acaba por passar despercebida. A máxima latina Primum vivere, deinde philosophare (primeiro viver, depois filosofar) talvez remeta a esse sentido. De que modo?

Antes de pensarmos o mundo a nossa volta, já nascemos nele. Como dizem as pessoas normalmente “revoltadas” com a vida: eu não pedi pra nascer! Talvez seja essa a melhor concepção para se pensar popularmente o termo mais tarde tão citado de Heidegger denominado Dasein que em tradução mais usual é tido como Ser-aí. Somos seres lançados no mundo.

Viemos ao mundo sem uma compreensão prévia do que era antes, mas carregamos toda cultura que nos precedeu conosco e a levamos adiante. Aquilo que Heidegger postulou como verdade, aliou-se ao conceito de Alétheia como des-velar. A verdade segundo esse autor não era mais do que o mostrar-se de algo que novamente se encobre a cada tentativa de apreensão. E toda apreensão acaba sendo uma formulação da verdade, a nosso ver, que por sua vez acaba tomando status de indubitável.

A separação sujeito e objeto, conhecedor e conhecido é uma criação humana que surge como tentativa de explicação do todo no qual estamos inseridos e dele fazemos parte. Não somente a consciência é consciência de algo, como diz Husserl, mas somos tão intrínsecos que sequer a consciência e o algo ao qual ela é consciente são tão originários na experiência da vida fática.

Toda compreensão é derivação da experiência originária e devedora desta de tal modo que todas as vezes que revemos a busca por compreendê-la, temos que atualizar essa perspectiva a partir do que temos hoje. Embora ligados à tradição e herdeiros desta em nossa visão de mundo, também levamos conosco toda esta tradição acrescida da experiência que se atualiza a cada dia e que lega para os que vêm em seguida, novas perspectivas.

Tudo isso, entretanto, talvez não passe de sonho. Uma doce ilusão que nos mantém seguros de nós mesmos ou com uma sensação de devidamente situados. Mesmo que venha uma literatura, como a que citei antes de iniciar o texto, e desdiga tudo o que se compreende ou compreendia com segurança.

Embora saibamos que somos intérpretes do mundo que nos rodeia, ou melhor, criamos explicações e compreensões derivadas da nossa faticidade, continuamos precisando disso para nos situar. O grande problema, como advertia Nietzsche, é continuar achando que todos os parâmetros e verdades são imutáveis, esquecendo que em algum momento fomos nós mesmos que as construímos.

Estou ciente enquanto discorro nesse texto sobre a relatividade da verdade que, igual a muitos, continuo buscando uma possibilidade de encontrar uma instância última ou fundamento de tudo o que é. Talvez seja isso o que me mantém na filosofia. Mas, não posso negar a tradição que me precedeu mostrou as dificuldades dos grandes sistematizadores como Aristóteles e Hegel em abarcar a totalidade e de todos os demais filósofos em postular um fundamento metafísico.

Inclusive ler pensadores, comumente chamados de existencialistas, evidencia a gama de questões inconclusivas que a humanidade e suas ânsias mais incertas muitas vezes não são levadas em conta por muitos filósofos precedentes. Pode ser que essa busca seja o motor de toda busca humana por sentido e que em si mesma ela será sempre inconclusiva e que toda aparente evidência de finalidade definida não seja nada além de um momento em que se resolve suspender alguns questionamentos para deleitar-se com as provisórias e confortantes verdades. Afinal, quem determinou ser certa ou errada essa posição? Essa determinação já pressuporia referencial absoluto, o que iria contra todo constructo dessa reflexão.

Portanto, continuemos criando “mundos” para nos situar, prossigamos interpretando a realidade de modo a nos organizar, cultivemos o que nos foi legado pela tradição e que possa nos ajudar a pensar o mundo e a viver segundo o que pensamos que seja o melhor para nós. Mas, levemos conosco, ainda que bem escondido, o incômodo de saber que tudo não passa de interpretação, sobretudo no momento em que formos tentar impor nosso modo de ver o mundo, ou nosso mundo, ao outro.

Afinal, o que garante a veracidade de nossas verdades? Não teria sido antes, o que hoje é inverossímil, algo verdadeiro? Não teria o tempo forjado verdades e mentiras que posteriormente mudaram seu status, tornando-se a verdade mentira e a mentira verdade? O que nos arroga o direito de estarmos com a verdade indubitável acerca das coisas e que não era padrão de garantia aos nossos antecedentes e que hoje são mentiras?

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Sou assim*

Sou pessoa de dentro pra fora. Minha beleza está na minha essência e no meu caráter.

Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente.

Sou isso hoje. Amanhã, já me reinventei.

Reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim.

Sou complexa, sou mistura, sou mulher com cara de menina. E vice-versa. Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar...

Não me dôo pela metade, não sou tua meio amiga nem teu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada.

Não suporto meio termos. Sou boba, mas não sou burra. Ingênua, mas não santa. Sou pessoa de riso fácil...e choro também!

Sou gente!

*Jane Difini Kopzinski
Fisioterapeuta, Quiropraxista, Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 2 de setembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXX*


"(..) enquanto ele olhava de frente e intensamente um determinado objeto, ela parecia ter o hábito de considerar tudo segundo diferentes pontos de vista"

"(...) estarei condenado para sempre a sentir o que não consigo expressar"

"A vida cotidiana numa casa em que há jovens e velhos é cheia de curiosas cerimônias e pequenas devoções"

"Ser é mais do que fazer"

"Davam vazão a algum espírito que não encontrava lugar na vida real"

"(...) habituara-se a escutá-los como a gente escuta crianças, sem pensar nela mesma"

"É a vida que importa, nada além da vida, o processo da descoberta, o perene, perpétuo processo, não a descoberta em si absolutamente"

"Quero outra ilusão para poder continuar"

"(...) enfrentava a vida fortificada pelas palavras dos poetas"

"(..) a natureza humana ultrapassa, na sua beleza, tudo o que os mais loucos sonhos podem oferecer como sugestões, alusões"

*Virginia Woolf