sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Leituras de Filosofia Clínica III*

“Lembro-me, já nos últimos tempos de sua estada conosco, de um conceito dessa natureza, que nem chegou a ser mesmo um conceito, mas antes unicamente um olhar. Foi quando um célebre historiador e crítico de arte, de renome europeu, anunciou uma conferência na universidade local e logrei persuadir o Lobo da Estepe a que fosse assistir a ela, embora não me demonstrasse nenhum prazer em ir. Fomos juntos e nos sentamos um ao lado do outro no auditório.

Quando o orador subiu a tribuna e começou a elocução, decepcionou, pela maneira presumida e frívola de seu aspecto, a muitos de seus ouvintes, que o haviam imaginado algo assim como um profeta. E quando então começou a falar e, à guisa de introdução, endereçou aos ouvintes palavras lisonjeiras, agradecendo-lhes por terem comparecido em tão grande número, nesse exato momento o Lobo da Estepe me lançou um olhar instantâneo, um olhar de crítica àquelas palavras e a toda a pessoa do conferencista, oh!, um olhar inesquecível e tremendo, sobre cuja significação poder-se-ia escrever um livro inteiro!

O olhar não apenas criticava o orador e destruía a celebridade daquele homem com sua ironia esmagadora embora delicada; não, isso era o de menos. Havia naquele olhar um tanto mais de tristeza que de ironia; era na verdade um olhar profundo e desesperadamente triste, com o qual traduzia um desespero calado, de certo modo irremediável e definitivo, que já se transformara em hábito e forma. Não só transverberava com sua desesperada claridade a pessoa do vaidoso orador, ironizava e punha em evidência a situação do momento, a expectativa e a disposição do público e o título um tanto pretensioso da anunciada conferência – não, o olhar do Lobo da Estepe penetrava todo o nosso tempo, toda a afetação, toda a ambição, toda a vaidade, todo o jogo superficial de uma espiritualidade fabricada e frívola.

Ah! Lamentavelmente, o olhar ia mais fundo ainda, ia além das simples imperfeições e desesperanças de nosso tempo, de nossa espiritualidade, de nossa cultura. Chegava ao coração de toda a humanidade; expressava, num único segundo, toda a dúvida de um pensador, talvez a de um conhecedor da dignidade e, sobretudo, do sentido da vida humana. Esse olhar dizia: ‘Veja os macacos que somos! Veja o que é o homem!’ E toda a celebridade, toda a inteligência, toda a conquista do espírito, todo o afã para alcançar a sublimidade, a grandeza e o duradouro do humano se esboroavam de repente e não passavam de frívolos trejeitos!” (Hermann Hesse. O Lobo da Estepe. pp. 17-18).

O texto acima nos mostra o que um olhar pode gerar um processo diverso de qualificação da interseção. O Jovem personagem que relata a cena acima olha para Harry Haller, o Lobo da Estepe, e em seu olhar desenvolve uma série de aferições de sentido intermináveis. Bela exemplificação do misto de Ideias Complexas, Inversão, Adição e Significado. O incrível disso é que o Lobo da Estepe sequer disse uma palavra.

Escolhi abrir a reflexão com uma obra literária pela abrangência relacionada a questões da existência humana e sua compreensibilidade – o que soaria limitado se fossem apresentados muitos exemplos concretos, pois seria uma impressão de “caso singular”. A arte, em seus diversos aspectos, tem um alcance muito mais abrangente aos que se identificam ou apreciam.

Nos momentos iniciais da consulta em Filosofia Clínica, esta nos orienta a fazer o agendamento mínimo, ou seja, nos leva a interferir o mínimo possível na fala do partilhante (nome dado a quem procura os serviços do filósofo clínico) de modo que seja o mais próximo possível de seu modo de estar no mundo. Importa notar que mesmo que haja a adjetivação “mínimo” o procedimento permanece como um “agendamento”.

Na verdade, desde o momento em que bate na porta de um filósofo clínico até sentar-se para iniciar a partilha, o partilhante já está sendo agendado. O ambiente, a recepção, o preenchimento da ficha, enfim, todo pequeno movimento vai na direção de inferir algum tipo de impressão ao sujeito no processo da clínica.

Um simples gesto pode levar o partilhante em direção às ideias complexas, adição, torná-lo altamente inversivo, significar coisas diversas ao que intentava o filósofo ao recebê-lo. A título de exemplo, um pequeno gesto do filósofo, um olhar como apresentado acima, pode levar a significar indiferença. Isso pode vir de pré-juízos formados ao longo da vida no qual via que toda vez que alguém não discordava de seu ponto de vista, não estava dando atenção ao que ele dizia. E por aí poderiam ser acrescentados infindáveis elementos importantes no processo da clínica.

Quando iniciamos os estudos de Filosofia Clínica aprendemos que ela não se restringe ao consultório e que muitos estudantes não vão querer trabalhar em consultório depois de formados. Mas, é possível e importante trazê-la para a vida cotidiana. Diante disso, pensamos que se em consultório é difícil e demorado o processo de compreensão da Estrutura de Pensamento do outro, no dia a dia, isso é muito mais complexo.

Essa complexidade deve ser levada em conta diante de atitudes que observamos por parte dos que nos cercam quando não os compreendemos de imediato. Ações estranhas a nós, por parte de pessoas com as quais convivemos, muitas vezes nos levam a ficar indignados, nervosos, etc.

Entretanto, diante do trecho literário que abriu essa reflexão, vemos o quanto podem ser imperceptíveis os movimentos internos da pessoas cuja ação posterior apenas é um reflexo. Logo, todo cuidado é pouco antes de julgarmos indiscriminadamente a ação alheia. O outro permanece sempre um mistério cujo alcance de compreensão de nossa parte é sempre limitada. Fica, com isso, uma lição da Filosofia Clínica: respeito à singularidade.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

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