terça-feira, 4 de setembro de 2012

Vivendo Interpretações*

“Para terminar nosso estudo resta esclarecer ainda uma última ficção, um engano fundamental. Todas as ‘interpretações’, toda psicologia, todas as mentiras de tornar as coisas compreensíveis se fazem por meio de teorias, mitologias, de mentiras; e um autor honesto não deveria furtar-se, no fecho de uma exposição, a dissipar essas mentiras dentro do possível. Se digo ‘acima’ ou ‘abaixo’, isso já é uma afirmação que exige um esclarecimento, pois só existem acima e abaixo no pensamento, na abstração. O mundo mesmo não conhece nenhum acima nem abaixo” (Hermann Hesse. O Lobo da Estepe, p. 70).

O presente texto expõe a questão da interpretação a partir da qual nos situamos no mundo, no todo, do qual somos parte. E essa interpretação corre o risco de tornar-se tão certa para quem a possui, que a imposição desta aos convivas se torne quase impulsiva. É como se o detentor dessa interpretação, levasse consigo “a verdade”. Os filósofos citados ao longo do texto são apresentados a fim de corroborar com a reflexão, o que prescinde de maiores aprofundamentos nas concepções filosóficas desses.

Heidegger, antes de publicar sua obra mais conhecida, Ser e Tempo, em 1927, já havia escrito e pensado em vários de seus conceitos que mais tarde viriam a ser apresentados sistematicamente em sua obra magna. Dentre esses conceitos, está o de vida fática. Para Heidegger, o homem é um ser-no-mundo, isto é, um ser cuja definição mais originária está em sua constituição no mundo. Husserl, a quem Heidegger dedica Ser e Tempo, antes havia dito que toda consciência é consciência de algo. Isto é, não há como pensar um sujeito consciente destituído da coisa pensada.

Mas, o que Heidegger pensa acerca da vida fática? Qual é a relação entre a faticidade e a concepção de ser-no-mundo? E como se articula a concepção heideggeriana com a questão da consciência do sujeito em relação à coisa pensada? E, por fim, qual a relação dessas questões com a da “interpretação” anunciada no título?

Para Husserl, o que o homem conhece é o fenômeno, ou seja, a manifestação do objeto para a consciência a ela voltada. A consciência humana está ligada ao objeto à qual ela se volta, sendo um processo que não se separa a não ser metodologicamente. Portanto, só há como falar da consciência a partir dela em relação ao objeto que se manifesta para o sujeito consciente. Daí a máxima conhecida de Husserl que diz que “Toda consciência é consciência de algo”.

Heidegger vai mais a fundo e pensa não somente uma consciência enquanto voltada a algo, mas pensa o homem inserido no mundo de tal modo que, no primeiro momento não há divisão entre homem e mundo, sujeito e objeto, racional e irracional. A faticidade é constituída de um aspecto tão evidente, no sentido de tão intrínseco à existência humana, que acaba por passar despercebida. A máxima latina Primum vivere, deinde philosophare (primeiro viver, depois filosofar) talvez remeta a esse sentido. De que modo?

Antes de pensarmos o mundo a nossa volta, já nascemos nele. Como dizem as pessoas normalmente “revoltadas” com a vida: eu não pedi pra nascer! Talvez seja essa a melhor concepção para se pensar popularmente o termo mais tarde tão citado de Heidegger denominado Dasein que em tradução mais usual é tido como Ser-aí. Somos seres lançados no mundo.

Viemos ao mundo sem uma compreensão prévia do que era antes, mas carregamos toda cultura que nos precedeu conosco e a levamos adiante. Aquilo que Heidegger postulou como verdade, aliou-se ao conceito de Alétheia como des-velar. A verdade segundo esse autor não era mais do que o mostrar-se de algo que novamente se encobre a cada tentativa de apreensão. E toda apreensão acaba sendo uma formulação da verdade, a nosso ver, que por sua vez acaba tomando status de indubitável.

A separação sujeito e objeto, conhecedor e conhecido é uma criação humana que surge como tentativa de explicação do todo no qual estamos inseridos e dele fazemos parte. Não somente a consciência é consciência de algo, como diz Husserl, mas somos tão intrínsecos que sequer a consciência e o algo ao qual ela é consciente são tão originários na experiência da vida fática.

Toda compreensão é derivação da experiência originária e devedora desta de tal modo que todas as vezes que revemos a busca por compreendê-la, temos que atualizar essa perspectiva a partir do que temos hoje. Embora ligados à tradição e herdeiros desta em nossa visão de mundo, também levamos conosco toda esta tradição acrescida da experiência que se atualiza a cada dia e que lega para os que vêm em seguida, novas perspectivas.

Tudo isso, entretanto, talvez não passe de sonho. Uma doce ilusão que nos mantém seguros de nós mesmos ou com uma sensação de devidamente situados. Mesmo que venha uma literatura, como a que citei antes de iniciar o texto, e desdiga tudo o que se compreende ou compreendia com segurança.

Embora saibamos que somos intérpretes do mundo que nos rodeia, ou melhor, criamos explicações e compreensões derivadas da nossa faticidade, continuamos precisando disso para nos situar. O grande problema, como advertia Nietzsche, é continuar achando que todos os parâmetros e verdades são imutáveis, esquecendo que em algum momento fomos nós mesmos que as construímos.

Estou ciente enquanto discorro nesse texto sobre a relatividade da verdade que, igual a muitos, continuo buscando uma possibilidade de encontrar uma instância última ou fundamento de tudo o que é. Talvez seja isso o que me mantém na filosofia. Mas, não posso negar a tradição que me precedeu mostrou as dificuldades dos grandes sistematizadores como Aristóteles e Hegel em abarcar a totalidade e de todos os demais filósofos em postular um fundamento metafísico.

Inclusive ler pensadores, comumente chamados de existencialistas, evidencia a gama de questões inconclusivas que a humanidade e suas ânsias mais incertas muitas vezes não são levadas em conta por muitos filósofos precedentes. Pode ser que essa busca seja o motor de toda busca humana por sentido e que em si mesma ela será sempre inconclusiva e que toda aparente evidência de finalidade definida não seja nada além de um momento em que se resolve suspender alguns questionamentos para deleitar-se com as provisórias e confortantes verdades. Afinal, quem determinou ser certa ou errada essa posição? Essa determinação já pressuporia referencial absoluto, o que iria contra todo constructo dessa reflexão.

Portanto, continuemos criando “mundos” para nos situar, prossigamos interpretando a realidade de modo a nos organizar, cultivemos o que nos foi legado pela tradição e que possa nos ajudar a pensar o mundo e a viver segundo o que pensamos que seja o melhor para nós. Mas, levemos conosco, ainda que bem escondido, o incômodo de saber que tudo não passa de interpretação, sobretudo no momento em que formos tentar impor nosso modo de ver o mundo, ou nosso mundo, ao outro.

Afinal, o que garante a veracidade de nossas verdades? Não teria sido antes, o que hoje é inverossímil, algo verdadeiro? Não teria o tempo forjado verdades e mentiras que posteriormente mudaram seu status, tornando-se a verdade mentira e a mentira verdade? O que nos arroga o direito de estarmos com a verdade indubitável acerca das coisas e que não era padrão de garantia aos nossos antecedentes e que hoje são mentiras?

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

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