quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Acaso versus Sincronia*

Querido leitor, que você esteja em paz.

Você já parou para pesquisar a quantidade de invenções, verdadeiros avanços para nossa humanidade, que foram descobertas e inventadas por acaso? E que, às vezes uma frase, uma ideia, um livro pode contribuir muito com as pessoas, as organizações e até salvar um emprego?

Atrás da minha mesa de trabalho, em meu escritório, há um painel com frases de pensadores que me foram muito úteis no passado. Algumas delas já não me fazem tanto sentido, outras, nenhum sentido, mas há algumas que me são atualíssimas.

“Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável”, de Sêneca, é um exemplo dessas frases atuais. Ela pode significar algo extremamente importante para uma pessoa, para uma organização, na medida em que foca no seu propósito, no seu objetivo, em seu norte.

É uma frase feita, mas para alguns, ainda tem seu valor. Imagine um planejamento estratégico de uma determinada empresa: um grupo de profissionais, desde o corpo diretivo até o de chão de fábrica, caso não haja um consenso nas ações, é possível que cada um puxe para um lado e o “barco” afunde. E, como sabemos, estamos todos no mesmo barco.

Questões como essas podem vir do acaso, surgidas depois de muito debater, discutir e eis que aparece a genial ideia. Mas nem sempre é assim. Muitas vezes elas surgem do acaso fortuito e sincrônico. E exemplos não faltam.

O que têm em comum a plasticina, o raio-X e a batata palha? À primeira vista, nada. Mas num mergulho mais profundo na origem destas invenções vamos perceber que nasceram de um acidente ou por mero acaso.

A plasticina, por exemplo, era um produto de limpeza para papel de parede. Foi Joseph McVicker que, em 1956, resolveu emprestar um pouco do produto à cunhada que era educadora infantil. Ela viu ali um brinquedo ideal para acalmar crianças irrequietas.

Já a batata palha, pasmem, nasceu como forma de vingança, em 1853. Depois de um cliente se queixar que as batatas fritas estavam muito grossas, George Crum, um cozinheiro amargurado, decidiu cortá-las o mais fino possível, carregá-las de sal e torná-las o mais tenras possível. Ao estilo "toma lá que já almoçaste". O cliente adorou.

Estas e outras invenções acidentais fazem parte do livro "Invenções Acidentais que Mudaram as Nossas Vidas", de Birgit Krols, publicado pela Booksmile.

Diante de tantos avanços vindos do acaso, do novo descoberto sem querer, me vem à mente o tratado de Carl Jung sobre Sincronicidade. Será que existe acaso ou é tudo uma sincronicidade?

Sincronicidade é um conceito desenvolvido por Carl Gustav Jung para definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado. Desta forma, é necessário que consideremos os eventos sincronísticos não relacionado com o princípio da causalidade, mas por terem um significado igual ou semelhante. A sincronicidade é também referida por Jung de "coincidência significativa".

Seja por acaso ou por sincronia, que cada ideia seja considerada, seja ponderada, seja levada em conta. Onde há tudo isso, todos saem ganhando. A própria vida é uma medida de competição. Portanto, todas as áreas onde queremos crescer e progredir, para mim, devem possuir algum vento contra.

Quantas empresas e organizações mantém a peso de ouro pessoas que sabem se contrapor à unanimidade? No dizer do Rabino Nilton Bonder, precisamos criar uma cultura em que fomentemos e dependamos de oposições sincrônicas ou do acaso. Sempre que alguém discordar de você, ao invés de se sentir confrontado, perceba a incrível oportunidade de ouvir uma voz discordante. Quantas pipas não estariam hoje voando se tivessem um pouco de vento contra?

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre acaso versus sincronia?

*Beto Colombo
Empresário, escritor, filósofo clínico, coordenador da filosofia clínica na UNESC
Criciúma/SC

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Contextos*

No palco da vida
lágrimas se tornam sorrisos
e dores se despedem de dias sem fim
palavras eternizam saudades
e silêncios revelam mistérios
perdidos nos textos
de velhos contextos
em pretéritos
de outros tempos e estações
nas luzes que se apagam
de um velho espetáculo
as esperanças reacendem
as luzes de novas manhãs
que nos poentes
de outras histórias
são reescritas com as tintas
de versos nascidos
da inspiração semeada
nos quintais de outros palcos
e que renascem a cada instante
para a vida sempre nova
no amor original
de singulares expressões

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, filósofo clínico
Cambuí/MG

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A lua ceifadora*

Cá está ela, a Lua da Morte.

E, mais uma vez, a magia dessas luas pode ser comprovada. Saturno em Escorpião, neste 2012, e no período anual em que a Vida e a Morte bailam de forma intensa. É hora das finalizações.

Ainda não estamos com satisfatória consciência do que Saturno faz no signo de Scorpion, mas sentimos já intensa e até melancolicamente sua presença, já que Netuno também está lá junto dando a sua tônica.

A Lua da Entrega, do ciclo lunar anterior, provocou alguns novos, intensos ou difíceis estados emocionais. Estados diferentes, transformadores, quando muita coisa mudou. E agora deve-se assumir tais finalizações e concretizá-las.

Este passado recente favoreceu a ampliação da nossa consciência. Tempo da carta do Pendurado, esse tempo sem tempo, momento por excelência do espírito! Gerou sensações, em muitos momentos, de que o “mundo parou”. Mas o contrário ocorreu, foi dali que o recomeço esteve propício com nova e maior abertura da nossa percepção.

E agora essa Lua forte da Morte. Tudo já acabou ao seu redor, mas há prontidão para as ceifações ainda necessárias, até mesmo do que possa ter sido considerado finalizado. A potência para esse renascimento se apresenta, agora.

Limpe, quite, extermine, elimine, despeça-se, finalize(-se).

E sinta nascer o novo de novo, mais forte, mais vivo. Assim é a Vida, aliada da Morte.

Aproveito para dizer que o nome desse Site que hospeda esse Blog mudou durante a passagem da Lua da Entrega para esta Lua Ceifadora. Em breve, será Renascido.

Inicio também uma nova data para divulgação desses textos, não mais no dia da Lua Cheia, mas sim, 1 dia antes dela, pra quem possamos aproveitar a magia da Lua Cheia em seus dias mais poderosos: antes de seu próprio dia.

Aproveite a força desse dia para finalizar/iniciar algo.

Faça a sua parte, de preferência, não por partes.

Desejo-lhe boas colheitas!

*Renata Bastos
Astróloga profissional, Mestre em Filosofia, Filósofa Clínica
São Paulo/SP

domingo, 28 de outubro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXI*

Soberania

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos.

A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.

Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber.

Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.

Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho.

E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

*Manoel de Barros

sábado, 27 de outubro de 2012

2012 - O véu se abre*

Por que tantas especulações e medos sobre o que poderá acontecer em 2012? O que dizem os Calendários Maias? Por que os homens gostam de criar uma expectativa em relação a um possível fim de mundo? Estas e outras questões causam polemicas por fazer parte do imaginário humano por um desejo de profunda transformação planetária. Por não suportar a condição injusta de vida, o poder egoísta que domina, a corrupção que rouba do trabalhador honesto lhe tirando a dignidade, a exploração global e tantas outras insatisfações promovem no coletivo um desejo inconsciente de morte do sistema falido para fazer renascer uma nova vida sustentável.

Há uma vontade inconsciente coletiva de destruição por um lado e construção para o outro. Daí surgirem os mitos, que são realidade do imaginal coletivo. Não podemos falar em verdades, nem mentiras, mas dos desejos filhos das faltas. O mal estar da civilização causa esta profunda angústia, esta ansiedade de transformação.

Assim, não podemos criticar ou ridicularizar as profecias. Elas são necessárias, pois fazem mover possibilidades na psique de buscar novas condutas. O que importa é tentar refletir sobre o fenômeno que se encontra por traz do mito do fim do mundo. O que se deseja destruir, fazer morrer? O que se deseja transformar?

O mundo que se fala não é só o mundo exterior, material, planetário, mas fala-se também do desejo do mundo subjetivo, intrapsíquico, pessoal que se sente oprimido, explorado, deprimido na sua relação com este mundo engolido pelo poder e capitalismo selvagem. A alma do mundo encontra-se enferma e com esta doença disseminada nós humanos fomos contaminados. Resta-nos a esperança de um fim de mundo, um fim deste estado “coisificado”, um fim deste mundo adoecido e pobre.

Há um desejo coletivo de resgatar a alma poética do mundo. Resgatar a Afrodite e seu amor. Resgatar a vida em toda sua real possibilidade. Uma um desejo de harmonizar no ar. Os Maias, leitores do céu,com uma precisão fidedigna, viram que em 22 de dezembro de 2012, um novo tempo se abriria, as sombras passariam e as luz da consciência planetária se abriria.

Esta data significa o início e não um fim. Um portal de mudanças efetivas. Um tempo de esperança ativa. Um tempo para além do tempo onde nos comunicaremos com outros planetas parecidos com a terra. Interessante como já estamos encontrando estes planetas!

As comunicações serão telepáticas. Isto não significa virtuais como já estamos a viver? Urge, ao invés de julgar e criticar as profecias Maias, abrirmos os olhos e corações para ver o mundo de possibilidades quânticas que estão se apresentando. Nossa visão é muito limitada. Há um mundo invisível bem a nossa frente. Quem tiver olhos que vejam! Pensar com coração.

Os grandes pesquisadores não desanimam, duvidam do estabelecido e partem para as grandes descobertas com coragem e loucura. Cabe a cada um de nós nos prepararmos para as grandes mudanças, nos tornando mais conscientes, reflexivos, solidários, livres, ativos, participativos, revolucionários, angustiados, guerreiros, insatisfeitos com as injustiças e, sobretudo com vontade determinada para transformar radicalmente este mundo. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, escritora, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

RENASCIMENTO DO EU QUE EXISTE AI*

Particularmente não só acredito no que disse como tenho a mais precisa impressão desse abuso do catolicismo sobre a natureza humana e o reconheço dinâmico ainda nos dias atuais. O exemplo clássico: - 1-Um padre para o "ser" tem que "ser" assexuado e renegar sua natureza e lutar contra ela a vida toda até que morra ou pecar e se arrepender infinitamente - 2 O massacre pela interpretação satânica de inocentes na inquisição - 3 A proibição do acesso ao conhecimento não institucionalizado. - 4 O confisco e destruição e ou reedição modificadas de livros dos grandes pensadores - 5 O assassinato de todos que ousavam se rebelar - Estas imposições ao que o homem é capaz de descobrir, modificar e desejar, perfeitamente resulta em perversidades de toda natureza, desde maltratos com sigo no autoflagelo, até comportamentos de afetividade distorcida como pedofilia, esquizofrenia etc

Ao nos deparamos com acontecimentos históricos do fim da idade média, tais como a queda do Império Romano a descoberta das Américas, ascensão da burguesia , percebemos a que direção a humanidade caminha. Tais acontecimentos marcam o fim de uma era pautada na contemplação do Divino, de submissão e degeneração da personalidade humana. Em prol as leis doutrinárias, o mundo dos homens é praticados por homens e não há como escapar por mais que se invente dogmas e teorias o verdadeiro Deus é o homem que cria, essa é verdadeira trindade, "o homem é quem faz, homem é quem muda e o homem é quem submete".

A Grécia Antiga nos mostra um movimento que não se bastou em si, no que se refere às respostas praticas e muito menos ao que se refere a respostas míticas. Porem foi um mundo de grandes pensadores, grandes filósofos grandes observações do homem na Natureza e da Natureza no homem. Por não se bastar e ter por conseqüência da liberdade de proliferar valores, crenças e atos diversos entre si, este mundo foi ruindo, não resolvia uma questão básica: a perenidade da existência, capacidade de defender-se dos eventos naturais e das guerras entre Cidades estados e da diluição dos valores ANTE a diversidade.

Então vem a idade media, com uma instituição que se forma em nome de um ser superior e o usa para ser perene, porem também é ineficiente apesar de ser constante e progressiva. Este caminho, do catolicismo medieval "estuprando" o ser (o obrigando a se comportar de maneira diversa a sua natureza, renegando sua força suas capacidades de movimento, de criar, inventar, desvendar e desejar) pela obrigação a crença institucionalizada. Não teria durado tanto tempo sem a imposição da força. Neste dois pólos a paradoxalidade da liberdade ineficiente versos o aprisionamento emocional institucionalizado.

A que se observar, a natureza humana se move, mesmo que atolada em leis adversas a ela e entre traves . Em todos os cantos e tempos, temos seres humanos e estes evoluem, se direcionam para o futuro, seja para construir o conhecimento, seja para o ciclo da própria vida . A historia da filosofia nos mostra que nos sabemos capazes de crer em um ou em muitos Deusese , porem vivemos existindo e buscando a evolução deste existir através do bem pensar que vai abrindo portas no dia pratico das pessoas, com ajuda sempre muito eficaz do poder financeiro, que instiga o surgimento de novas classes capazes de ter autonomia para buscar novas soluções. Assim chegamos ao Renascimento.

Não tenho duvida que a idade media teve um valor histórico de organizar e sistematizar comportamentos, criar um código geral em comunidade com grandes nomes a se dedicar na construção do mundo melhor, conseguiu manter por muito tempo a união de suas ovelhas .Mas a apropriação do saber para domesticar o homem, a apropriação de uma condição divina, não lhe parece imoral?

Não serei eu uma reles estudante de filosofia que ira categorizar as coisas, , afinal temos inúmeros pensadores que debatem ainda com mais força, e claro com bons argumentos. “Veja Manoel Kant que desconstruiu o argumento Ontológico que define Deus como um personagem formulado cognitivamente, não-empírico”. Já Friedrich Nietzsche parte de outros princípios, de revolta literalmente, denuncia o Apostolo Paulo de Tarso em sua apropriação da idéia de Deus e a deturpação das sagradas escrituras, conforme interesses.

Nietszche usa a famosa frase "o evangelho morreu na cruz" por que na visão do filosofo o evangelho se tornou não o que Deus queria, mas os que os homens dominantes de seu tempo queriam, chega a inferir que ideologicamente Jesus foi o único católico de verdade. Tenho minha convicção sobre estes assuntos, em bases psicológicas levando consideração os Princípios de Prazer, a teoria da libido os mecanismos inconscientes, a parte fisiológica do ego, a vida pulsional de nossa mente e de nosso corpo, reveladas por Freud na sua magnífica obra, também por discernimento lógico, afinal também necessito crer e mais ainda por base filosófica como mostrei acima. Psicologicamente sabemos da necessidade humana de acreditar e de dar fé aos criadores de ilusão e mitos, em busca de um conforto emocional que a estabilize e as direcionem.

O que não aceito é que se perverta coisa tão genuína essa necessidade em prol a manutenção de um sistema que já despencou, podemos ate supor que a mola propulsora dessa queda é força humana de ressurgir, pois -Ressurge Burguesa - Ressurge encontrando novas terras - Ressurge criando novas igrejas - Ressurge Curiosa e ávida por respostas por avanços no que pode validar e preservar a espécie. No início dos tempos a instituição católica deu conta destas necessidades, mas se perverteu na administração das ilusões e na petulância, porque na verdade não podia matar todos seus seguidores nem todas as pessoas que começavam a enxergar suas falias, afinal seres humanos são o que são e existem aquém de suas religiões.
Todos estes pontos convergem para o Renascimento.

Quanto a discutir A frenagem que supostamente a igreja realizou na brutalidade da época, não posso concordar - Quem pode dizer que não teríamos evoluído muito mais, quem pode dizer que nesse tempo não teríamos nos tornados nós mesmos infinitamente melhores do que somos? E quanto os milhões de mortes?
Seria esta uma hipótese valida , ao meu ver no sentido de tentar descobrir por que o ser humano é seu próprio algoz.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga, filósofa clínica
Curitiba/PR

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A utilidade da filosofia e a liberdade em Sartre pensada na sua utilidade diante da vida*

O texto abaixo foi feito como conteúdo para projeto de aula, no estágio que fiz durante a graduação. Estava na licenciatura nessa época e queria tratar algum tema que tivesse proximidade com o discurso dos alunos. Hoje não sei se trabalharia os temas abaixo. Enfim, revirando meus arquivos encontrei esse texto. Espero que gostem. De minha parte, garanto que foi bem divertido ler alguma coisa feita por mim há dois anos. Tão pouco tempo e tantas coisas já mudaram. Fiz questão de deixar sem cortes, correções ou acréscimos tanto no título quanto no conteúdo. Confiram!

A pergunta clássica: “para que serve a filosofia?” Não deve ser somente aplicada à filosofia. A matemática em si não serve para nada, a física igualmente; e o que se dirá das leis e ainda dos guias de macetes de videogame? A matemática ajuda na compreensão do mundo concreto, a física nas leis da natureza a fim de trabalhar nela. As leis são escritas para reger a sociedade a fim de organizar seu relacionamento. E os macetes de videogame? São meros sinais em papéis, mas se utilizados na prática, ajudam os jogadores a passar nas fases, fortalecem os personagens, etc.

A filosofia igualmente, enquanto uma série de escritos nos livros, não são mais do que um monte de teorias, mas se pensados numa relação direta com a vida, ela serve tanto para pensar questões importantes da vida, quanto para pensar as condições de possibilidade de todas as demais formas de epistemologia.

Jean-Paul Sartre foi um grande pensador do século passado. Ele elaborou uma reflexão sobre a liberdade, uma dentre tantas de suas reflexões. Segundo ele mesmo afirma em sua clássica frase “Estamos condenados a ser livres”, mas essa liberdade requer responsabilidade.

Não há nenhuma determinação que de ao ser humano uma finalidade pronta, postula o filosofo. Embora seja um filósofo ateu, podemos pensá-lo em sua ideia inclusive pensando Deus. Nem Deus, segundo o raciocínio sartreano, pode ser o inibidor de nossa liberdade. Aderir à vontade divina requer liberdade. Obedecer às leis, requer liberdade. Fazer as coisas, sendo contra ou a favor do que as pessoas pensam, requer liberdade.

Ou seja, posso ficar com qualquer pessoa, trair, matar, usar drogas, ajudar as pessoas, ter relações sexuais com várias pessoas, enfim, posso qualquer coisa que quiser. Porém, essa ação livre tem consequências. Sartre dará a essa consequência o nome de responsabilidade.

Toda ação humana praticada, tem como consequência ao menos um mínimo de efeitos. Matar levará à sociedade a prendê-lo por o acharem inapto a viver nela, ou pelo menos para pagar pela falta cometida contra ela. Ter relações sexuais indiscriminadamente, pode levar o sujeito a doenças graves, ou a gravidez indesejada. Para quem crê em Deus, não agir segundo a sua vontade acarretará numa falta, num pecado.

Optar por não fazer nada deitado numa cama até morrer, também é um ato de liberdade. E para não ficar somente nas questões negativas podemos pensar no resultado das boas ações. Adotar uma criança pode levar tanto quem adotou quanto o adotado num caminho de amor, alegrias, realizações, entre outras. Ajudar alguém faminto com alimentos, contribuirá com o bem de sua saúde, e talvez, com o fim de violências urbanas causadas por pessoas que, por exemplo, roubam para conseguir dinheiro para comer.

Aconselhar um amigo, pode levá-lo a até, em casos extremos, não se matar. Trabalhar honestamente pode levar o sujeito a melhorar o país no qual vive. Um bom exemplo dado aos filhos pode auxiliá-los na escolha por seguir pelo caminho da pacificação de uma sociedade.

Por fim, cabe pensarmos sobre a finalidade de cada uma de nossas ações, e não culparmos nada e ninguém por nossas ações cometidas. São realmente as determinações externas que qualificam minhas ações? É pelo fato de não haver emprego para todos que devo roubar? Não vou cursar uma faculdade porque sou pobre e os pobres têm pouca chance na vida? Vou me revoltar contra meus pais, por não terem me dado uma infância e uma adolescência mais farta?

Deixarei de ajudar as pessoas pelo fato de não ter encontrado ninguém que me ajudasse no momento em que mais precisava? Ficam aqui algumas questões para pensar, devendo sempre lembrar que mesmo que nossa liberdade não sendo tão vasta como a postulada por Sartre, pelo menos ainda há liberdade que permite escolhermos vários caminhos importantes para nossa vida.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXX

Se eu fosse um padre*

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!

___________________________


Eu queria trazer-te uns versos muito lindos*

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!

*Mário Quintana

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Padre pela vocação e escritor por paixão*

É pela sensibilidade das palavras que o jovem padre da Arquidiocese de Pouso Alegre Flavio Sobreiro da Costa encontrou para evangelizar. Seu primeiro livro será lançado no mês de novembro e traz um retrato poético do cotidiano das pessoas através de contos e poemas.

A ideia de escrever “Rascunhos da Alma” surgiu há mais de um ano. O livro mostra os diferentes aspectos dos sentimentos humano de uma maneira poética e filosófica, retratados a partir do cotidiano da vida e das múltiplas experiências vivenciadas por cada ser humano. Para padre Flávio “escrever é sempre um desafio e ao mesmo tempo um mistério”. Com 34 anos, o mineiro de Inconfidentes foi ordenado sacerdote em 2011. “Sinto-me realizado como ser humano na vocação que escolhi”.

O livro “Rascunhos da Alma” é uma publicação da Penalux. A obra apresenta 29 contos e 2 poemas. Cada conto reflete fatos do dia a dia que se misturam a tristezas, alegrias, despedidas, saudades, dores, lágrimas, sonhos, esperanças, fé. Cada momento do cotidiano da vida é retratado sob um olhar poético e que muitas vezes reacende a esperança onde já não havia mais solução.

Cada página do livro é uma surpresa a ser descoberta pelos leitores. Ultrapassando os limites da literatura religiosa, a obra permite mergulhar no espaço mais sagrado do ser humano: a alma, e nela descobre novas possibilidades. O tempo de cada ser humano é apresentado neste livro de maneira singular, respeitando o passado, o presente, e o futuro de cada um, pois as estações da vida são tão múltiplas quanto os sentimentos que cada um carrega em seu coração.

“Rascunhos da Alma” foi prefaciado pelo Filósofo Clínico de Porto Alegre Hélio Strassburger. Ele apresenta a obra a partir de uma perspectiva poética que ilumina o livro de possibilidades e humanidade. Ele descreve que o escritor “Flávio Sobreiro não cabe num só papel existencial: padre, poeta, filósofo, se atribui outras buscas, deslocamentos por este vasto mundo. Em seu olhar de escuta amorosa para com o outro, oferece generosamente a semeadura das boas coisas”.

Da escrita simples dos primeiros textos foi aperfeiçoando seu estilo literário buscando na poética do cotidiano uma maneira de trazer de modo claro e simples os versos e reversos da vida. “O livro será uma oportunidade para que cada leitor olhe para a sua vida e veja que há sempre uma possibilidade de ser feliz” explica ele. Formado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Teologia pela Faculdade Católica de Pouso Alegre o jovem escritor faz do cotidiano a essência para seus textos. “A escrita nasce daquilo que eu vivencio no meu dia-a-dia”.

Mesmo com as inúmeras responsabilidades do seu dia a dia ele encontra tempo para escrever seus artigos e textos. “Cada texto nasce das minhas experiências no processo de viver. Não há separação: vocação e paixão pela escrita fazem parte daquilo que eu sou”. Colunista do Portal Canção Nova, padre Flávio teve inúmeros artigos publicados em vários sites de todo o Brasil. Esse reconhecimento de seu trabalho vem conquistando espaço no meio literário nacional.

De acordo com ele em 2013 vai lançar seu segundo livro “Caminhos Espirituais” pela Editora Canção Nova. O contrato já foi fechado com a editora que atualmente publica obras de escritores conhecidos no cenário nacional como Padre Fábio de Melo, Gabriel Chalita, Mirian Rios, entre outros.

*Jailson Silva
Jornalista
**Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXIX*


Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.



Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.

Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.

Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

*Lya Luft

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sons da alma*

“E na luz nua eu vi...pessoas escrevendo canções que vozes jamais compartilharam. E ninguém ousava perturbar o som do silêncio”
(Simon & Garfunkel)

Existem sons que vem de algum lugar que não distinguimos. Até conseguimos ouvi-los, mas eles nos surpreendem como se fossem brumas sonoras a se espalhar pelo ar...

Essas ondas se espalham, penetram os sentidos e invadem expectativas, preenchendo entranhas e formando novos sonhos. Às vezes, formam delírios e transportam a outros mundos. Outras vezes, recordam instantes de êxtase que se propagam como impulsos a invadir destinos. Mas podem também massacrar como ferros, rasgando e ferindo, sepultando lembranças.

E há os sonhos que cristalizam o momento, não permitindo que o tempo caminhe... ou talvez apenas o torne lento o bastante para que seus passos sejam marcados pelo deleite de um clímax anunciado.

Esses momentos são como pérolas resgatadas que reverberam a concha que as abriga. Esses acordes iluminam os corações em sua mais íntima vibração, mas em segredo, de forma quase imperceptível, num ímpeto que ninguém consegue perceber e que não pode sequer ser expresso... talvez apenas a lágrima solitária, e nem sempre visível, os denuncie.

Mas são mesmo para serem velados esses momentos, pois não há o que verbalizar, a não ser pela emoção, pelo sentir oculto no sorriso e no olhar perdido, que ainda tenta captar e capturar o instante.

Os sons da alma são os sons do mundo sensível aos que se dispõe a ouvi-los... quem sabe por aqueles que se apaixonam, pois que é preciso silenciar o corpo e entreabrir algumas portas secretas para deixar entrar o que vibra somente em ressonância com sentimentos mais sutis ou mais sublimes; ou podem ser sentimentos fortes e dotados de um poder tamanho que seriam capazes de mudar cursos... da história, dos destinos singelos ou daqueles que intencionam mudar o mundo.

Que importa? Pois que não há absolutamente quase nada que substitua o incomensurável prazer de sentir a alma vibrar pela nota singularmente vital do supremo instante de beleza condensada na canção dotada de sentido.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Me Esqueci de Viver*

Querido leitor e querida leitora, paz! Em nosso artigo de hoje vamos refletir sobre uma bonita música gravada inicialmente pelo espanhol Julio Iglesias e regravada no Brasil numa versão assinada por José Augusto. Tanto um quando o outro foram cantores que marcaram a minha geração.

A música “Me Esqueci de Viver” foi muito usada na minha época de grupo de jovens da igreja católica, principalmente nos anos de 1980 e depois, de casais na década seguinte, em 1990. Em 2006 foi uma das músicas que mais cantei no caminho de Santiago. Arrepiado saboreava a sua letra que, provavelmente, funcionou como uma dose de ânimo até chegar à casa do santo.

Eis as duas primeiras estrofes: “De tanto correr pela vida sem freio, me esqueci que a vida se vive num momento. De tanto querer ser em tudo o primeiro, me esqueci de viver os detalhes pequenos”. “De tanto brincar com os sentimentos, vivendo de aplausos envoltos em sonhos, de tanto gritar as canções ao vento, já não sou o que fui; hoje eu vivo e não sinto”.

O estribilho é simples e nos remete a uma bonita reflexão, repetindo quatro vezes: “Me esqueci de viver”.

Segue a canção: “De tanto cantar ao amor e à vida, eu fiquei sem amor uma noite e um dia. De tanto brincar com que eu mais queria, eu perdi sem querer o melhor que eu tinha”. “De tanto brincar com verdades e mentiras, me enganei sem saber que era eu quem perdia. De tanto esperar, eu que não oferecia, hoje eu fico a chorar... Eu, que sempre sorria”.

E retorna o estribilho: “Me esqueci de viver”.

Formada por seis versos de quatro linhas cada um, a música “Me esqueci de viver” fala em seu penúltimo: “De tanto correr pra roubar tempo ao tempo, querendo ganhar dias e noites um sonho... De tantos fracassos, de tantos intentos, por querer descobrir cada dia algo novo”...

E finaliza a canção: “De tanto brincar com os sentimentos, vivendo de aplausos envoltos em sonhos, de tanto gritar as canções ao vento, já não sou o que fui; hoje eu vivo e não sinto”. E finaliza repetindo quatro vezes: “Me esqueci de viver”.

É assim como a música nos é cantada. E você, como tem levado sua vida, tem vivido ou esquecido de viver?

*Beto Colombo
Empresário, filósofo clínico, coordenador da filosofia clínica na UNESC
Criciuma/SC

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Antes de morrer, viva!

Atenção! Este artigo pode ser lido por pessoas de todas as idades, mas dependendo da faixa etária, despertará interesses diversos e quem sabe até, antagônicos.

Jovens não têm idéia e nem imaginam como será sua velhice, muito menos a morte. Já os velhos, mais sábios e experientes, convivem com a proximidade da morte mais realisticamente. Embora possa parecer paradoxal, este artigo é dedicado a todos aqueles que não querem envelhecer. Jovens, meia-idade e idosos, leiam enquanto é tempo.

Um dos grandes sonhos da humanidade é a descoberta da fonte da juventude. Fortunas e vidas foram e continuam sendo gastas nesta procura. Milhões de pessoas foram enganadas com promessas de retardar, parar ou reverter o envelhecimento e a ilusão da vida eterna.

Nas bases científicas atuais, imortalidade ainda é uma impossibilidade. Mesmo eliminando todas as causas de morte relacionadas ao envelhecimento que aparecem nos atestados de óbito, ainda assim ocorreriam acidentes, homicídios, suicídios e os processos biológicos de envelhecimento continuariam realizando suas funções.

Se não morrer é impossível, não envelhecer também o é. Não acredite nas mídias antienvelhecimento, pois são tão utópicas quanto permanecer jovem congelando em um freezer ou realizando um pacto com o diabo.

Diante deste cenário, não existe outra saída, a única forma que se descobriu de viver muito tempo é envelhecer, e ficar velho, na verdadeira acepção da palavra, é uma questão de tempo. Literalmente.

A expectativa de vida para recém nascidos hoje nos Estados Unidos (país com condições de prover um bom atendimento em saúde) é de 77 anos. No inicio do século XX era de 47 anos. Este acréscimo de 30 anos não se deve a alterações morfológicas nos indivíduos que agora estão aptos a viver mais tempo e sim ao ambiente protegido em que vivemos e aos avanços na medicina que permitiram diagnosticar e tratar doenças de maneira precoce e eficaz. Continuamos a envelhecer da mesma maneira que nossos antepassados, a medicina é que evoluiu.

Intervenções cirúrgicas, cosméticos, vitaminas, antioxidantes, hormônios, engenharia genética podem vir a aumentar a expectativa de vida, porém do ponto de vista científico nenhum método provou modificar os efeitos subjacentes ao envelhecimento humano. Em outras palavras, as terapias utilizadas podem maquiar os efeitos da idade, influenciando as manifestações, mas não o processo de envelhecimento.

O ser humano foi programado para nascer, crescer, envelhecer e morrer, entretanto, o envelhecimento e a morte não estão programados objetivamente em nossos genes, de tal forma que podemos melhorar o estado fisiológico em qualquer idade se evitarmos comportamentos que acelerem a expressão de doenças relativas ao envelhecimento. (fumo, excesso de bebidas alcoólicas, exposição demasiada ao sol e obesidade)

Estilo de vida saudável, incluindo exercícios, dieta balanceada e sono adequado podem contribuir para aumentar a expectativa e a qualidade de vida na velhice, contudo, não existe evidência científica comprovando que estas praticas aumentem a longevidade por modificações no processo de envelhecimento. Não leve estas afirmativas como desculpa para relaxar os cuidados com seu corpo. Idade é uma coisa, qualidade de vida é outra. Podem andar juntas ou não, esta escolha você pode fazer.

O potencial humano de vida está calculado em 120 anos, porém ainda estamos longe de alcançar esta marca. Se não houver nenhuma descoberta que altere a fragilidade que acompanha o envelhecimento, a expectativa de vida para o século XXI não ultrapassará os 90 anos.

Prestem atenção neste número, noventa anos. Para que desejamos viver mais tempo? Nem sabemos direito o que fazer com esta curta vida que recebemos, por que pensarmos em uma vida eterna? Quanta energia é desperdiçada com a preocupação de esconder os fios de cabelos brancos ou apagar a história escrita em formas de rugas?

Sabemos que é melhor chegar à velhice do que morrer no meio do caminho, mas não queremos chegar tão cedo e negamos que tenhamos chegado. Para que lutar contra o tempo e nos enganarmos? A derrota é certa.

Se não é possivel parar o tempo, podemos utilizá-lo a nosso favor. Aproveite, pegue leve, saboreie cada dia. Adicione vida aos anos ao invés de anos à vida, afinal de contas, idade não é um pretexto para envelhecer. Não lamente o fato de estar ficando velho, é um privilégio negado a muitos. Viver é envelhecer, nada mais.

Lembre-se, antes de morrer, viva!

* Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

sábado, 13 de outubro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXVIII*


O Analista de Bagé

Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

— Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

— O senhor quer que eu deite logo no divã?

— Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

— Certo, certo. Eu...

— Aceita um mate?

— Um quê? Ah, não. Obrigado.

— Pos desembucha.

— Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

— Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

— Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe

— Outro.

— Outro?

— Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

— E o senhor acha...

— Eu acho uma pôca vergonha.

— Mas...

— Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

~//~

Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.

— Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira... Mas acabou concordando.

— Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê! . Qual é o causo?

— Bem — disse o home — é que nós tivemos um desentendimento...

— Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?

— Eu não meti a espora. Não é, meu bem?

— Não fala comigo!

— Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

— Ela tem um problema de carência afetiva...

— Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.

— Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais e...

— Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

— Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?

— Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

— O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

— Mas isto tá ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.

— Eu?

— Ela. Tu espera na salinha.

*Luis Fernando Verissimo

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A palavra fora de si*

Na percepção dos excepcionais arranjos existenciais se movimenta uma euforia narrativa. Sua estética de viés inacabado contém presságios de reciprocidade com o indizível. Seu vislumbre aponta rascunhos de exceção para anunciar regiões desconsideradas.

Um traço de alvoroço criativo antecipa subterfúgios de vida nova. Acrescenta rasuras a máscara bem moldada da definição. Seu aspecto de miragem delirante possui uma fonte inesgotável. A nascente multifacetada denuncia o refúgio de onde alça voos e mergulhos ao viver sem pensar.

Seu estado de ânimo de embriaguez epistemológica sugere a quimera por onde a irrealidade se faz saber eremita. Sendo evento de rara inspiração, se aloja nas entrelinhas de quase tudo. Ao desrealizar seu cotidiano atualiza andanças pelas margens de si mesmo.

Em meio à multidão estrangeira de pensamentos, sensações, ideias o enredo visionário antevê a alquimia das múltiplas versões.
Assim a autoria transborda na esteticidade da palavra fora de si, rumores de singularidade denunciam um discurso fora da lei.

Sua dialética faz referência ao sujeito desestruturado nas páginas de grafia inconclusa, tenta descrever os extraordinários eventos desse esboço de travessia.

Um vocabulário inusitado anuncia mensagens de caráter estranho, reivindica tradução aos devaneios criativos. Nessa fonte de matéria-prima o espírito aprecia seu ser provisório nos indícios de transição. Sua essência é distorção ao que intenta superar. Seu relance se aloja nas retóricas mal resolvidas, lugar de afinidades entre possível e impossível.

O teatro das múltiplas representações esgaça os papéis existenciais e com eles realiza a rebelião comunicativa necessária aos horizontes que vai abrindo. Nessa linguagem forasteira uma mescla de realidade e ficção se oferece no exílio dos rascunhos, se desveste dos códigos conhecidos para ser outra. Ao acessar o sentido dessas originalidades é necessária uma conversação com o estado de animo da pessoa fonte.

A ênfase nos eventos do acaso pode descobrir padrões em um contexto inesperado. Para se aproximar desses refúgios há que se ter uma interseção privilegiada. A geografia desses esconderijos parece escolher com critérios próprios, as expressões, o meio para se esboçar. Assim a regularidade descritiva apresenta desvãos por onde o sujeito ensaia amanhãs.

Um murmúrio de terra distante atualiza a reinvenção das próprias fronteiras. O estar fora do entendimento imediato reivindica um sujeito raro para interagir com esse território de verdades inéditas. A imersão nesse mundo de faz de conta desenvolve vocabulários ao mencionar absurdos. Enredos de ser humano em dialetos de desassossego.

*Hélio Strassburger

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

No conhecer, mais é menos*



“Querem que vos ensine o modo de chegar à ciência verdadeira? Aquilo que se sabe, saber que se sabe; aquilo que não se sabe, saber que não se sabe; na verdade é este o saber.” (Atribuída a Confúcio)




Tenho pensado em escrever sobre o filósofo alemão Martin Heidegger. Pode parecer estranho que, estudando especificamente um autor, fale tão pouco sobre ele – embora suas influências não deixem de aparecer no que escrevo para o Alétheia. Pensei em diversas possibilidades para apresentá-lo: a partir de resenhas, de textos introdutórios, de temas, de problemas, etc.

Enfim, fiquei me perguntando o motivo da minha autocrítica constante em não expô-lo, haja vista que é minha leitura mais frequente. E, em meio a essas interrogações, acabei chegando à conclusão de que quanto mais conheço determinada situação, ideia, pessoa, mais sei o quanto estou longe de compreendê-las em sua totalidade, profundidade ou mais me convenço do quanto é limitado meu conhecimento.

Nesse caso, quanto mais leio Heidegger, mais fico consciente do pouco que sei dele, o oposto acaba “parecendo” verdadeiro. No Alétheia postei textos específicos sobre filósofos (Até agora: Tales, Anaximandro, Anaxímenes e Erasmo de Rotterdam). E, não sendo especialista em nenhum deles, não tive tanta autocrítica em postar minhas impressões. Acabei me cobrando pouco e escrevi livremente.

Talvez faça o mesmo com as pessoas. Quanto menos as conheço, mais fácil é julgar seus atos e posturas. Ainda sobre as pessoas, já aconteceu de após conhecê-las um pouco mais, mudar concepções e julgamentos prévios que fiz a elas.

Voltando à questão dos textos, vejo que na medida em que estudo Heidegger, menos escrevo com facilidade sobre ele, pois me torno ciente do pouco conhecimento de suas obras e da possibilidade de imprecisão ao tratar de determinados conceitos. E quanto menos sei de algum filósofo, mais considero o que me dizem sobre ele com menos censo crítico, e o comento com mais liberdade.

Isso não me impede de continuar escrevendo sobre eles. Pois, busco um conhecimento, ainda que raso, da filosofia em geral. Quanto a Heidegger, talvez ainda fique por mais tempo sem escrever. Mantenho o senso crítico sobre o que conheço dele, o que me impede de postar algo por hora.

Concluindo, quanto mais conheço, menos falo a respeito. Talvez o mesmo aconteça nas relações pessoais. Se por um lado estou aberto a julgar e falar dos que vejo, no dia a dia me dou conta do quão pouco sei acerca das pessoas e quantas intenções e motivos estão escondidos.

E talvez quando veja pessoas que mesmo em busca constante de conhecimento ou esclarecimento sobre alguma coisa e que supomos que tenha muito a nos dizer, ainda fique calada, pode ser que estar ciente do que falta conhecer diante do mínimo que sabe é tão grande, que é melhor ficar calado e continuar aprofundando. Afinal, a brevidade da vida limita-nos quando se trata de abarcar epistemologicamente o micro e o macrocosmos. Concorda comigo?

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXVII*

Estranheza do Mundo

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.

Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.

Pervago em um mundo estranho.

Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.

Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

*Ferreira Gullar

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Os Sinais do Caminho*

Breno cuidou tanto os sinais que esqueceu da estrada. Percorreu todo o trajeto e quando terminou sabia exatamente que tinha terminado porque tinha lido na última placa, metros antes.

Alcina viveu a estrada, os sinais eram apenas referências, instruções sobre cuidados. Avistou Breno diversas vezes, mas este nunca a viu.

Afonso povoou a jornada com sinais contraditórios. Acabou atrapalhado, mas não sabia direito com o que, uma vez que um sinal lhe avisava que tudo estava bem, calçadas abertas.

Clóvis nunca viu qualquer sinal, sempre guiou pelo curso que se abria diante de seus olhos, viajou bem, chegou em paz; diferente do que houve com Evaristo, que também ignorava os sinais, e acabou precocemente sua andança em uma bifurcação acentuada à esquerda.

Gunter vinha atrás de Clóvis e de Evaristo, cuidou as coisas, cuidou ambos, tornou-se um especialista na evolução de Clóvis e de Evaristo, mas pouco sabia de si mesmo. Isso não lhe interessava, aliás.

Heraldo entendia os sinais quando a estrada confirmava lá na frente o que ele havia visto lá no passado; Isidoro, não. Antecipava os sinais; quando não havia sinais, ele tratava de criar alguns. Não acreditava na segurança de coisas não sinalizadas.

Jurandir procurou a vida inteira compreender as relações entre o itinerário e o sentido dos avisos.

*Lúcio Packter
**artigo publicado na edição 38 da revista Filosofia, da Editora Escala.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sem palavras...*

Sabe aquele momento em que tudo parece sem cor, sem tom, sem sabor?
Aquele momento cinza, sem sentido, sem vida...
Aquele momento,
Aquele!

Sabe quando tudo parece simples e complicado?
Enrolado e são?
Sabe?

As cores mais pastéis...
A vida por um triz e uma noite gris?
Que nem uma gota pode ser, tampouco saber!

Eu tento expressar, mas...
Sei lá!
Estranhamento na alma criativa e ativa
Apatia, dor, solidão
Nenhum grão!
Nada, ninguém, vazio, fundo, profundo, obscuro.

Sem palavras, só um pulsar, bem devagar
Leve, quase sem cor, pálido!
Frio, quente, morno, insensato...
Ingrato!

Momento de hiato...
Medo? Tristeza? Desencontro?
Sei não.

Nenhuma definição adequada ou bem estruturada
Suspiros, madrugada!
Fome, sede, vontades...
Sem sanidade.

*Vanessa Ribeiro
Filósofa, matemática, atriz, dançarina, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

domingo, 7 de outubro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXVI*


"A presença do caos impede que o mundo se imobilize. O mundo não é só uma coleção de coisas, é também o arranjo das coisas, tocadas pelos projetos dos que nele habitam. O mundo está e não está pronto"

"Tanto no líquido derramado quanto nas folhas levadas pelo vento, a desordem existe só para o observador incauto. Águas e folhas movem-se rigorosamente dentro de leis estabelecidas pela natureza"

"O homem define-se nas suas muitas relações. Define-se ao se indefinir. Onde procurar o homem se a cada instante quebra grilhões ?"

"A busca da verdade empreende-se no silêncio, longe do ruído das multidões. Estas exigem palavras claras, consagradas, familiares. Como esperar que aplaudam intrincadas oposições ? Os que se embrenham no matagal do saber carregam a singularidade como sacrifício. Isolam-se, porque a poucos interessa tão insólita aventura. Forma-se uma elite marginalizada, porque colocada sem recursos à margem"

"Sublevar-se conota rebeldia guerreira. E o que está aí ? Sistemas rijos que se querem absolutos. Textos que proíbem ulteriores investigações. Em lugar do movimento, instauraram a letargia. A mesma rigidez letal paralisa inteligências do presente e do passado, vivos e mortos"

"A opinião, desamparada de fundamento seguro, pode auxiliar os pensantes como jogo. Opiniões são lances que podem dar com verdades que escapam à severidade do método"

"Não contemplamos o mundo de fora, como se assistíssemos a um espetáculo sentados na platéia"

"Como Heráclito não é um arbusto pensante, raízes não o fixam. Ergue o corpo, caminha, move a cabeça, e a cada passo o mundo se transfigura. Os horizontes ampliam-se e estreitam-se, a paisagem recompõe-se"

"Vivemos de perdas e ganhos. Drummond dirá, falando heracliticamente: 'ganhei (perdi) meu dia'. Como ganhar sem perder ? Nada se ganha sem que a perda abra espaço a novas aquisições. Não poderíamos beneficiar-nos de novas águas, se pretendêssemos reter as que já temos"

*Donaldo Schuler

sábado, 6 de outubro de 2012

O Palhaço das Ilusões*

A alegria no picadeiro prometia ao meu coração triste uma manhã com sabores de eternidade. O sorriso atrás da maquiagem que lhe roubava o seu verdadeiro semblante escondia um olhar que descobri somente quando me ofereceu uma flor enquanto eu esperava a pipoca ficar pronta. Enquanto ela estourava na panela meu coração estourava de alegria dentro de um sorriso que não conseguia disfarçar.

Enquanto o circo arrastava multidões, você arrastava meu coração para os seus braços. Nada conseguia esconder minha felicidade diante do espetáculo do amor que a cada noite se tornava mais belo. Foi assim que em muitas noites que pareciam nunca terminar que planejamos um futuro sem máscaras ou tristezas.

No palco eu contemplava seu olhar a distância. Em meio à multidão eu colhia cada sorriso seu como as mais belas flores no jardim dos meus sonhos. Naquela noite em que a chuva chegou sem avisar, voltei para casa contemplando as estrelas que se emocionavam com minha felicidade. Suas palhaçadas eram sempre a certeza de que a vida não era uma simples brincadeira. Sabia sorrir com suas tristezas e chorar com nossas alegrias.

Havia decidido não continuar seguindo viagem, pois havia encontrado seu porto seguro junto ao meu coração. Estava disposto a estacionar a vida nos meus braços e juntos sacramentalizarmos o amor que nascia entre sorrisos de uma noite de espetáculos sem fim.

Enquanto todos arrumavam as malas para partir em busca de novas plateias, você fixava residência na minha alma. De inquilino tornava-se morador definitivo na minha vida. Para lhe esperar, retirei as folhas secas do outono de outros tempos, semeei flores de novas estações, retirei o pó das decepções e acendi a esperança de um novo tempo em meu coração.

Infelizmente nosso amor não durou mais do que um espetáculo. A dor de deixar seus velhos sonhos foi maior que minhas lágrimas implorando para que não partisse. O aplauso de estranhos falou mais alto que as lágrimas que caiam de meus olhos. E foi assim que com um sorriso que tentava consolar-me que você voltou para um mundo que nunca foi meu.

Nada pude fazer. Fiquei no portão olhando você partir com as bagagens coloridas dos meus sonhos de outrora. Hoje vivo com as sementes de uma primavera que nunca floriu. Do espetáculo do amor guardo apenas a lembrança de um sorriso que não era para ser somente meu. Outros contemplam hoje a alegria que um dia me ofereceu por alguns instantes que se eternizaram em minha alma.

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Filósofo Clínico
Cambuí/MG

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O que vale a pena*

“O mais absurdo é o encontro entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem”.
(Albert Camus)

Pode ser tudo ou nada... ou o que há poucos instantes não possuía significado algum e ainda navegava impreciso no âmbito da subjetividade indecisa de seus anseios. Quem sabe limitada aos devaneios ineficazes em criar compor melodias de embriaguez, como Dioniso a espreitar seu próprio delírio. Pode ser até o que nem sequer se suspeita

Talvez o que valha a pena seja o que faça com que algo ou alguém nos permita olhares singulares – mais profundos, mais densos, mais translúcidos – e que surpreendem até a quem os carregam. Olhares que fascinam, encantam e se tornam especiais sem maiores dizeres ou até sentires.

É ficar em êxtase simplesmente pela existência ou pela constatação de que amanhãs são possíveis. E ainda que não o sejam, que algo da nossa essência se perpetue, como um legado a transcender o que possa valer para a alma.

É o transpor de realidades vãs que não comportam o perseguido e indulgente estado do nirvana, onde as almas se perdem em vazios que libertam e absorvem plenitude, mas que excluem as multiplicidades que colorem a instabilidade e a busca. E que também congelam a instigante característica de básica humanidade: a que permite saborear o que ainda não foi concedido, porque não chegou o momento... porque ainda não é válido conceder.

O que se revela como essencial a tudo o que o instante traduz, completando o vazio que não se explica e recriando a distância que separa o que instiga e incomoda da complacência do espírito, inserindo reticências necessárias ao aos preceitos indizíveis do pensamento.

Ou o que seduz, tal como o reflexo de tudo o que apenas desejamos revelar e reconhecer em nós mesmos, como um espelho difuso que reflete fantasias ocasionais de um sonho ainda por despertar.

Compreender o que somos a partir de tudo o que pode ser tenuemente vislumbrado, na medida elementar para apenas nos sentirmos confortáveis em nosso próprio reduto, como referências para sensações e afinidades, trocas e prazeres intencionados.

Vale a pena quando um ínfimo grão é capaz de deslocar a órbita da engessada zona de conforto existencial, revirando tudo o que supostamente banaliza a vida, lançando-a em turbilhões emocionais passíveis de movimentar além de céus e infernos ou de mundos possíveis, com passagens secretas para a ilusão virtual... na tentativa de desbravar as portas fechadas que a ignorância e o torpor insistem em convencer.

Enfim, pode ser tudo o que nos incita a querer o que vai além do sombrio vale da inércia instaurada em geografias que nem mesmo são percebidas... em mares onde cantos de sereias inebriam e horizontes que nunca se revelam.

Porque transformar pedras em pétalas por caminhos escorregadios não é tarefa para heróis ou seres mágicos, mas para quem ainda acredita na própria divindade, na autocondição de que vale realmente a pena levantar o olhar e buscar ar onde tudo sufoca. Porque inspirar a vida é função para quem existe, para quem se atropela, mergulha fundo e vaza limites... é para quem sonha!

Mesmo sabendo que, às vezes, é preciso deixar o tempo passar... para que a coragem desista de se ocultar ou a insanidade se aproxime. Porque viver é se revestir do que importa, do que transgride e do que ultrapassa, do que confere vitalidade ao grão, ainda que de forma insana e absurda. Ou porque viver, além de tudo o que possa ser sentido, é fazer valer o que pulsa, o que vibra, o que apaixona.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A situação e a interpretação*

Cada vez mais tenho me dado conta de que a fenomenologia, hermenêutica, a filosofia em geral e a Filosofia Clínica têm me ensinado é que em si as coisas são o que são. Mas, que diante disso, não é o que a coisa é que verdadeiramente importa, e sim como ela é para nós. Todas as coisas em si são o que são e elas não precisam ser mais do que isso, pois simplesmente são. Entretanto, o que cada coisa é para nós, assim torna-a influente em nossa vida.

Há uma velha história do copo de água. Colocaram um copo com água na exata metade. Quando perguntaram para um indiferente sobre o que ele vê, ele disse que era apenas um copo com água. O pessimista disse que era um copo quase vazio. E o otimista disse que era um copo quase cheio. Indiferença, otimismo ou pessimismo diante da vida, influi fortemente no modo como agimos no mundo, e não com a coisa, fato ou situação na qual estamos quando estas não podem ser mudadas. Contudo, nós mudamos a cada novo olhar sobre o mundo.

Um pessimista assiste telejornais sensacionalistas e corre o risco de querer deixar de sair de casa, pois o “mundo está muito perigoso”. Um otimista muda de canal e procura uma programação que mostre belos lugares para conhecer. Violento ou não, o risco é o mesmo para ambos, mas na melhor das hipóteses o otimista vai aproveitar muito mais do que o pessimista.

Um olhar mais atento a nossa volta e percebemos que um olhar pessimista e um otimista podem ser construídos. Não nascemos tão prontos e nos tornamos passíveis de mudança a todo o momento. E quando não nos dispomos mudar de dentro para fora, é possível mudar de fora para dentro. E como isso é possível? Uma proposta é alimentarmos nossos pensamentos, olhares, sensações do mesmo modo em que alimentamos nosso corpo com comida. Se comemos gorduras, nosso corpo fica engordurado, se comemos comidas saudáveis, nosso corpo torna-se são.

Filmes, amigos, família, festas, trabalho agradável, academia, programas mais inteligentes, comédias, bons livros, boas conversas, cursos e tantas outras opções são remédios que nos enriquecem e nos dispõe para novo olhar no mundo. A desesperança pela fome corrupção e violência pode mudar quando há ação, como uma doação a uma instituição que ajudará a diminuir a fome das pessoas da nossa cidade; podem fazer com que nos tornemos mais conscientes e participantes do processo democrático; pode nos levar a sorrir para a caixa do supermercado e fazer com que isso se torne uma corrente de bom humor e contribuir, como que num “efeito borboleta”[i], para que uma mãe passe bons exemplos para os filhos.

Não sabemos de todos os efeitos daquilo que fizemos. Mas, sabemos que um bom modo de ver as coisas nos predispõe a ficarmos melhores diante das situações do mundo, tanto as que podemos quanto as que não podemos mudar.

Assim é o que penso sobre as coisas hoje. Tudo isso pode mudar a qualquer momento, seja de dentro para fora, ou vice-versa. O importante aqui é mudar, de preferência, para melhor, seja lá o que isso possa significar para cada um de nós.

[i] Longe de uma explicação técnica, o “Efeito borboleta” popularmente é interpretado segundo a ideia de que um simples bater de asas de uma borboleta, desencadeia um processo em sequência que pode resultar num tufão do outro lado do mundo.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Expressividade 1, 2, 3*

Expressividade é o quanto cada pessoa revela dela mesma e quanto guarda para si. Quanto fica retido e quanto flui em direção ao outro. É uma característica individual na relação consigo mesmo e depois em direção ao outro.

Não pode ser quantificada com exatidão. Algumas pessoas são completamente fechadas, não conseguindo liberar nada. Outras se abrem por inteiro, deixando passar de forma bruta tudo aquilo que vivenciam. A maioria filtra o que pode sair e o que deve ficar. Não existe certo nem errado, entretanto tanto a falta como o excesso podem causar dificuldades

- UM -

Às vezes não consigo entender nem expressar direito o que estou sentindo no exato momento em que as coisas estão acontecendo. Fico com aquilo apertando ou alisando minha alma durante um tempo, para depois então aflorar e ficar escancarado. Não sei se isto é bom ou ruim. A vantagem desta demora é que quando finalmente o sentimento mostra a cara, já vem amadurecido. A desvantagem é que pode chegar atrasado e perder a hora.

Outras vezes não necessito tempo algum, é como uma máquina fotográfica instantânea registrando o sentimento ao vivo e a cores. Não sei se ontem à noite consegui expressar tudo que se passava comigo.

Nossa conversa no restaurante estava tão boa que nem percebi as horas voarem. Fomos os últimos a sair e só o fizemos porque os atendentes começaram a apagar as luzes e empilhar cadeiras. Neste momento meu sentimento estava muito claro: Quero continuar, quero mais!

Não lembro a última vez que esqueci a hora, o compromisso do outro dia, o perigo de ser assaltado dentro do carro... Estava me sentindo tão bem, a conversa fluía espontânea, as risadas vinham sem piada, os olhares se encontravam sem medo. Era como se nos conhecêssemos desde sempre. Havia uma intimidade não compatível entre duas pessoas praticamente desconhecidas. Estava adorando.

Eram quase duas horas da manhã, o restaurante praticamente nos expulsou, mal nos conhecíamos, estava louco de vontade de continuar ao teu lado, não queria de forma alguma me despedir naquele momento, mas algo me impediu de te convidar para esticarmos a conversa.

Senti aquele aperto na alma e uma voz muito chata que dizia para ter paciência, não atropelar, segurar meus instintos, afinal de contas teríamos a vida inteira para ficarmos juntos e talvez aquele ainda não fosse o momento apropriado para um convite deste tipo. Provavelmente era a voz da razão se manifestando.

A voz da emoção não falava nada, só alisava minha alma deixando-a leve e plena para usufruir tudo aquilo. Não tinha vontade nem condições de ficar elaborando teorias ou estratégias sobre o futuro.

Jamais vou esquecer aquele momento. Porta do restaurante fechada, madrugada fria, cidade adormecida, segundos infinitos de silêncio enquanto olhávamos um dentro do outro...

- DOIS -


Era apenas nosso terceiro encontro. Havíamos marcado caminhar no parque às 10 horas. Passei a noite inteira excitado, pensando em como estava gostando de ter te conhecido, como me sentia bem ao teu lado, como te achava bonita, como tínhamos afinidades e como a vida demorou a nos aproximar.

Pensava de que maneira poderia te dizer, sem parecer muito ousado, que estava super interessado no aprofundamento de nosso recém iniciado relacionamento. Não dormi direito fantasiando mil e uma situações. Acordei cedo, tomei banho, cheguei antes da hora e fiquei te esperando.

Viestes acompanhada de um rapaz mais jovem que eu, bonito e bem apessoado. Enquanto se aproximavam percebi que estavam se divertindo bastante e tinham certo grau de intimidade.

Ao ver esta cena, logo bateu uma sensação de inveja ou ciúmes, não sei direito. Fiquei mal, meus planos começaram a desabar, a auto-estima desceu ladeira abaixo, senti um vazio, um desânimo e tive vontade de ir embora prá não fazer um papel ridículo. Permaneci ali por educação e também para ficar perto de ti.

Apesar disto, estavas linda com aquela camiseta regata grudada ao corpo e os cabelos ao vento. Chegastes sorrindo e dissestes apenas uma frase: “Não te preocupa, ele é meu primo.”

Não foi preciso mais pra dissipar minha insegurança. Percebestes o mal estar e tratastes de me enquadrar imediatamente. Senti a sintonia, o acolhimento, e mais do que isto, senti que não precisava dizer nada do que havia planejado durante a noite. Já havias feito a leitura.


- TRÊS -

Espero que a viagem esteja maravilhosa e que consigas aproveitar ao máximo tua estadia em Las Vegas. Por aqui as coisas não mudaram, exceto pela temperatura que sobe e desce quase quinze graus num mesmo dia, e pelo teu time, o Internacional, que não consegue vencer no campeonato.

Ontem aconteceu algo interessante. Desde que meu marido faleceu, nunca mais havia aberto uma gaveta onde guardávamos nossos CDs. Pois não é que bateu uma nostalgia e fui direto pegar um CD que gostava muito de escutar. O cantor é um espanhol chamado Joaquim Sabina (conheces?) e a música em especial que queria relembrar chama-se “Contigo”.

O cantor fala para sua amada um monte de situações de amor civilizado que não pretende mais conviver, tais como carregar malas para ela, ser esperado na saída do trabalho, viagens ao passado com vontade de chorar, convites para recomeçar, orgulho, piedade, ciúmes...

Depois de colocar o que não quer, conclui enfaticamente dizendo o que ele quer da relação: “ O que eu quero, garota de olhos tristes, é que morras por mim. E morreria contigo se te matasses. E matar-me-ia contigo se tu morresses. Porque o amor quando não mata, morre. Porque amores que matam, nunca morrem.

Sempre que escuto esta música me emociono e choro. Quando voltares, gostaria de abrir um vinho tinto que tenho guardado na adega há muito tempo, sentar na varanda da sala, olhar nos teus olhos e degustar contigo o vinho e a canção. Quem sabe choramos juntos?

* Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Sombras*

Tentava desvendar seu intimo
por fotos sobradas

Em álbuns públicos
frases ermas..

Com poemas sem linha
Era suave e mergulhava fundo

Tinha fôlego e anunciava
Uma dor refinada diluída quase liquida

Tudo tão esteticamente pensado
Que parecia ter um espelho sempre a mão

Escondia-se claramente entre as algas
Seu lugar é ao fundo do mar por isso sofria
Sobrava-lhe brânquias ideias onde só tinha ar
No mar, faltavam-lhe as sombras.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga, Filósofa Clínica
Curitiba/PR