sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Destinados ao vigente*

“O filósofo, ainda que nada possua, é dono do próprio destino.” **

A motivação para escrever esse texto veio do filme sobre Giordano Bruno que, inclusive, recomendo. Não li nenhuma obra dele. E o pouco que sei foi lendo textos introdutórios de história da filosofia. Mas, a vida e a pensamento desse filósofo não importa aqui. No filme, duas falas me motivaram a pensar o que vou expor brevemente. Contudo, não me comprometo a argumentar sobre as ideias que me vieram. Pretendo apenas compartilhá-las. Os conceitos que utilizo são mais próprios ao senso comum do que ao rigor filosófico.

No filme Giordano Bruno diz: “O filósofo, ainda que nada possua, é dono do próprio destino”. Uma pequena frase me trouxe uma série de confabulações internas. Para auxiliar essa exposição, busco dois pensadores. O teólogo e filósofo Paul Tillich, afirmava que a filosofia obedece à tentativa do filósofo de corresponder ao logos, à razão. E que ela não poderia jamais corresponder a outro princípio como, por exemplo, às questões cristãs. Tillich confiava na possibilidade de as verdades reveladas (base para a teologia) e as filosóficas convergirem em algum ponto a partir de caminhos que lhes são próprios. Afinal, segundo postulava, não há verdades, mas verdade.

A esse respeito, Heidegger foi ainda mais enfático, e diz que pensar uma filosofia cristã é o mesmo que pensar um “ferro de madeira”. Isso porque o âmbito em que se constrói o pensamento cristão é diferente do que busca a filosofia, mesmo que o filósofo seja cristão.

Apresentadas as concepções tillichianas e heideggerianas – que ilustrativamente servem para se prestar ao que penso – faço agora algumas considerações. Quando um filósofo (trato de filosofia porque é a área na qual transito, e talvez por questões que lhes são próprias) se propõe a buscar algo, ou é motivado por algo, ou qualquer tipo de motivação ou finalidade, em última análise sua busca somente é legítima quando a motivação lhe é própria e não externa a ele. Daí é que desenvolver uma filosofia cristã é inviável. Pois impediria o filósofo de criticar suas próprias convicções no seu caminho de pensamento.

Motivado por sua questão própria ou, nas palavras de Tillich, buscando corresponder ao logos, o filósofo inicia um caminho cujo fim não sabe onde vai dar. Podendo, desse modo, desconstruir todas as suas convicções, crenças, verdades, etc. Toda ordem estabelecida é questionada, seja por meio de convenção ou imposição. Nesse instante entra a segunda frase que surgiu no filme por parte de um homem que dialoga com Bruno: “Há momentos em que você e suas teorias me provocam medo. Penso na desordem que poderia nascer no mundo se todos... até os servos, os banqueiros... o que queria trazer para minha casa, os pobres... se habituassem a pensar como você quer”. Nessa frase reside o risco que a busca do filósofo gera. Há a possibilidade de romper com toda ordem de pensamento, leis, moral, costumes, conhecimento, entre outros, estabelecida.

A mudança, o novo, causa medo há muitos. Acordar um dia pensando que tudo o que acreditou até então não vige mais, assusta. Pode trazer um caos interno e externo. Então, um filósofo nesse momento pode provocar o medo, como expresso na frase do interlocutor de Giordano Bruno.

Quando pensaram diferente da ordem vigente, como no caso de Giordano Bruno e Guilherme de Ockham na filosofia – abrangendo as instâncias há o Galileu Galilei nas ciências, o Che Guevara no âmbito social, até mesmo o Leonardo Boff na teologia – o erro do pensamento vigente foi pensar que eles buscavam ser contra o que estava estabelecido. Seria uma insanidade almejar simplesmente ir contra o já posto, se este fosse, no pensamento desses autores, o certo. Seria um absurdo interior ir contra o que conceberiam como a verdade. Não faria muito sentido, uma vez que concebessem o sistema contra o qual se colocam, o isento de falhas.

Quando pensaram coisas que não correspondiam ao que se acreditava ser o real, duvido que fosse apenas por um “capricho” intelectual. Esses homens deram a vida pelo que acreditaram. Não somente vida no sentido de morrer pela causa, mas de dedicação da vida, do tempo que dispunham. Heidegger, filósofo que atualmente estudo, era professor auxiliar de Husserl, pai da fenomenologia atual, quando começou a desenvolver uma fenomenologia com traços próprios. Seria, a meu ver, um grande absurdo discordar de vários filósofos consagrados pela história, neste caso inclusive seu “mestre”, para defender uma ideia própria por mais de cinquenta anos. Não digo que acredito que haja gente assim. Mas, penso que há um número muito maior dos que são simplesmente fiéis aos que pensam e, por isso, levam até o fim.

Mas, a essa altura surge uma questão: Na primeira frase citada, afirmou-se que o filósofo é dono do seu destino. Entretanto, foi dito também que os resultados podem ir contra as convicções do filósofo. Desse modo, como é possível alguém cujo pensamento é capaz de desconstruir as convicções do pensador, dar a este a posse de seu destino? Trata-se de um destino que contemplam algumas vias, mesmo assim permanece livre. Como exemplo, pensemos duas. Um filósofo pode viver segundo o sistema vigente, mesmo que suas ideias apontem para outros caminhos. Pode também optar por caminhar sob a égide de seu pensamento, ficando a mercê das consequência deste. E aqui deixo exemplos de algumas das possibilidades de apossar-se de seu destino.

E o que seria então não viver com a posse de seu destino? Não é preciso ser filósofo, e poucos o são, para perceber um mundo no qual vigora a entrega do próprio destino ao estabelecido. Não basta questionar para ser capaz de desconstruir o caminho imposto pela vida. Mas, não acredito que seja para todos o caminho que leva à posse do que se é para seguidamente poder-ser.

Eu me enquadro nessa multidão que ao mesmo tempo em que vive pensando ter superado o estabelecido, ainda se espanta com os Brunos, Ockhams, Heideggers, Einsteins, Galileis e tantos outros...

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

** Frase atribuída a Giordano Bruno no filme que leva seu nome.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Horizontes*

Poetizo saudades em horizontes
descubro no mistério o nome que não sei
versos em tempos
saudades a serem escritas
no sertão das gerais
versos de reversos
textos sem contextos
cubro-me em estrelas
na beleza perdida em letras
do que ainda germina
assento-me em tardes
contemplo saudades
do que será
espero no ponto final
o parágrafo a chegar
assim sem medo
vida em mim
de águas a levar
amor em gestos palavras

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, filósofo clínico
Cambuí/MG

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXIX*


CONVITE À VIAGEM

Existe um país soberbo, um país idílico, dizem, chamado Cocagne que eu sonho visitar com uma velha amiga. País singular, nascido nas brumas de nosso Norte e que poderia se chamar o Oriente do Ocidente, a China da Europa, tanto pela sua calorosa e caprichosa fantasia quanto por ela, paciente e persistentemente ser ilustrada por sábias e delicadas vegetações.

Um verdadeiro país de Cocagne, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde o luxo se compraz em se ver em ordem, ou a vida é livre e doce de se respirar; de onde a desordem, a turbulência e o imprevisto são excluídos; onde a bondade está casada com o silêncio; onde a própria cozinha é poética, rica e excitante ao mesmo tempo; onde tudo se parece contigo, meu anjo.

Conheces essa doença febricitante que se apossa de nós nas gélidas misérias, essa nostalgia de um país que ignoramos, essa angústia vinda da curiosidade? É um lugar que se parece contigo, onde tudo é belo, rico, tranqüilo, honesto; onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de se respirar, onde a felicidade está casada com o silêncio. É lá que se precisa ir viver, é lá que se precisa ir morrer.

Sim, é lá que se precisa ir respirar, sonhar e esticar as horas para o infinito. Um músico escreveu o Convite à Valsa, quem comporá o Convite à friagem, que se possa oferecer à mulher amada ou à irmã preferida?

Sim, é nessa atmosfera que seria bom viver — lá onde as horas mais lentas contêm mais pensamentos, onde os relógios marcam a felicidade com a mais profunda e a mais significativa solenidade.

Sobre as telas brilhantes ou sobre os couros dourados, de sombria riqueza, vivem, discretamente, as pinturas beatas, calmas e profundas como as almas dos arriscas que as criaram, Os sóis poentes que cobrem tão ricamente a sala de jantar ou o sabão são amenizados pelos belos tecidos ou por altas janelas trabalhadas divididas pelas esquadrias de chumbo em numerosos compartimentos.

Os móveis são vastos, curiosos, bizarros, armados de fechaduras com segredos, como as almas refinadas. Os metais, os espelhos, os tecidos, a ourivesaria e a faiança tocam para os olhos uma sinfonia muda e misteriosa; e de todas as coisas, de todos os cantos, das frestas das gavetas e das pregas dos tecidos emerge um perfume singular, um retorne de Sumatra, que é como a alma do apartamento.

Um verdadeiro país de Cocagne, digo-te, onde tudo é rico, limpo e luminoso como uma consciência pura, como uma magnífica bateria de cozinha, como urna esplêndida ourivesaria, como uma joalheria multicor! Os tesouros do mundo inteiro afluem, como na casa de um homem trabalhador que bem os merece. País singular, superior aos outros, como a Arte é em relação à Natureza reformada pelo sonho, onde é corrigida, embelezada e refundida.

Que eles procurem, que pesquisem mais, que recuem sem cessar os limites de sua felicidade, estes alquimistas da horticultura! Que proponham o preço de sessenta e de cem florins na solução de seus ambiciosos problemas! Eu encontrei minha tulipa negra e minha dália azul!

Flor incomparável, tulipa reencontrada, dália alegórica, está lá, não é?, nesse belo país tão calmo e tão sonhador que seria preciso ir viver e florescer Não estarias enquadrada em tua analogia e não poderias mirar-te, para falar com os místicos, em tua própria correspondência?

Sonhos! Sempre sonhos! E quanto mais ambiciosa e delicada é a alma, mais os sonhos se afastam do possível. Cada homem leva em si sua dose de ópio natural, incessantemente secretada e renovada, e, do nascimento até a morte, quantas horas temos nós de alegria positiva e de ações bem-sucedidas e decididas? Viveremos nós, por acaso, passaremos nós alguma vez nesse quadro que meu espírito pintou, esse quadro que se parece contigo?

Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem, esses perfumes, essas flores miraculosas, és tu. Es tu, ainda, esses grandes rios, esses canais tranqüilos. Esses enormes navios que os singram carregados de riquezas e de onde provêm os cantos monótonos das manobras, são estes meus pensamentos que dormem ou rolam sobre teu seio. Tu os conduzes docemente em direção ao mar que é infinito, a refletir as profundezas do céu na limpidez de tua bela alma; e quando, fatigados pelas vagas e saciados dos produtos do Oriente, eles retornam ao porto natal, são ainda meus pensamentos enriquecidos que voltam do infinito para ti.

*Charles Baudelaire

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A Lua Integradora_28nov2012*

Depois da intensidade lunar do último mês, chegamos em uma lua propícia às (re)integrações. Ela vem consonante a um espírito natalino que se apresenta através da maior egrégora do país, todo ano, a que, religiosamente e não, comemora o Natal no dia 25 de dezembro.

Época de confraternizar, de pegar leve, de se emocionar, de sentir mais. A Lua é a da Temperança, e essa Mocinha Angelical sente. E como. Devemos nos esforçar para escutar o que vai dentro de nós mesmos. Ali está o caminho, o segredo e a orientação.

É uma carta complexa, de alquimia interior e exterior consequentemente.

Vamos nos aproximar com cuidado e atenção desse bálsamo que começa a se formar dentro de nós e que trará, certamente, maiores acomodações no melhor sentido da palavra. É hora de receber esse conforto, de nutrí-lo. É momento de acessar algum sossego, capaz de aliviar as tensões vividas nos últimos tempos, e trazê-lo para fora, numa espécie de oferenda.

A carta é clara, traz essa luz de dentro pra fora. Que haja percepção e habilidade para desdobrá-la. Tenhamos Fé. Ingrediente indispensável para caminhar desse escuro para o claro. É momento também de lavar as más águas. Deixe ir, deixe arrefecer o que já mostrou-se empalidecido. Já houve a poda, agora é tempo de nutrir, de regar e torcer para que novas plantas apareçam ao redor.

E que esse final de ciclo previsto pelos maias possa ser compreendido em sua dimensão: a de que muita coisa já acabou mesmo, agora é hora da reintegração conosco, com a Terra e com o Universo. Que nosso próprio olhar possa ser desvendado.

A magia inicial acontece dentro. Portanto, vibremos-na!

Pensei que meu novo site já estivesse pronto… Paciência. Esta é uma qualidade central desta carta. Sem ela, as coisas acontecem, mas a gente não vê.

Desejo que este Anjo ilumine nossa interioridade neste Natal.

Adeus Final de Mundo e um Feliz Rê_Natal a todos!

*Renata Bastos
São Paulo/SP
Astróloga profissional, mestre em filosofia, filósofa clínica, orientadora da terapêutica astral

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

PREÇO DA CONSULTA MÉDICA*

Prezado Cliente:

Talvez você não esteja satisfeito com a qualidade de meu trabalho como médico. Admito também não estar gostando da maneira como venho realizando as consultas, e este é o motivo desta correspondência. Talvez juntos, possamos encontrar uma solução para este problema.

Em virtude da baixa remuneração oferecida aos médicos pelos planos de saúde (consulta entre 30 e 60 reais), preciso atender um número excessivo de pacientes para dar conta de despesas tais como aluguel, secretária, telefone, livros, congressos, anuidades de conselhos regionais, impostos...

Isto ocasiona um tempo médio de atendimento por paciente de 20 minutos, insuficiente para uma consulta de qualidade, por mais experiente que o médico seja. Estas consultas expressas geram insegurança, tanto do paciente quanto minha, pois torna-se impossível examinar e dar as orientações necessárias lutando contra o relógio. Além disto, se você quiser marcar consulta comigo, a agenda estará sempre lotada. Provavelmente terei horário para lhe atender dentro de dois ou três meses. Sinto-me frustrado com este sistema de atendimento.

A opção de largar o plano de saúde e só atender pacientes privados é inviável, tanto para você, que talvez não tenha recursos disponíveis e troque de médico, como para mim, que corro o risco de ficar com o consultório vazio. Pensei numa alternativa e gostaria de saber sua opinião.

Pretendo reduzir os pacientes de meu consultório para uma quantidade que permita passar mais tempo com cada um deles. As consultas serão mais tranqüilas, haverá facilidade em agendar horários (no máximo para o dia seguinte ou o próximo), desaparecerão os inconvenientes da sala de espera e meu telefone celular ficará disponível 24 horas por dia.

Este projeto pretende valorizar dignamente sua saúde e seu tempo. A espera não fará mais parte de sua experiência de atendimento médico. Você será ouvido, examinado e as dúvidas esclarecidas sem pressa ou atrasos. Para fazer parte deste seleto grupo de pacientes, cobraremos uma taxa anual de 1500 reais, referente ao atendimento preferencial. As consultas continuarão sendo normalmente financiadas pelo plano de saúde, você estará pagando apenas pelo direito de exclusividade no atendimento.

Não gostaria de perdê-lo como paciente nem tampouco abandoná-lo, mas mudanças no sentido de um atendimento mais humanizado e eficaz tornam-se necessárias. Caso queira participar deste novo projeto, entre em contato com nossa secretária e faça sua inscrição. Lembre-se, as vagas são limitadas.

Este é um texto de ficção. Apesar da carta ser imaginária, os fatos são reais e você já deve ter vivenciado uma experiência de insegurança, espera ou atraso semelhante. Qual sua reação ao receber uma correspondência com tal teor? Espanto? Indignação? Indiferença? Alegria?

A medicina sempre foi encarada como um sacerdócio e não um negócio. Médicos ficavam constrangidos em tratar honorários, terceirizando aspectos monetários para outras pessoas. Nosso mundo agora é essencialmente capitalista, portanto quem dita as cartas é o mercado, e a regra do jogo chama-se lucro. Os planos de saúde, aproveitando a negligência médica no assunto dinheiro, assumiram o controle de preços e instituíram um sistema de pagamento que não está sendo capaz de alinhar oferta com demanda. Resultado: ineficiência no atendimento médico.

A carta fictícia foi utilizada apenas como um sinalizador de problemas no sistema de saúde e tem por objetivo reflexão. Pressionado pelo mercado e asfixiado com as contas em seu consultório, o médico buscou como salvação uma alternativa igualmente capitalista. Não cabem julgamentos. O fato é que o valor da consulta médica não pode ser medido pelo preço pago. Existem coisas que estão acima do dinheiro, saúde é uma delas, mas infelizmente o mercado não reconhece estes limites.

A consciência é o melhor mestre em termos de moral, mas é o que menos se consulta. Uma pena, porque a solução do problema saúde só será digna se passar pela prova do travesseiro.

* Ildo Meyer
Médico, escritor, palestrante, filósofo clínico
Porto Alegre/RS.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Quando silenciar é alienação***

Sábados pela manhã. Cafefil. Gente que tem a coragem de pensar e dizer o que vem de dentro, sem medo da crítica e das oposições epistemológicas. Como é bom filosofar e aprender a história da filosofia! Vicia e aquece nosso coração.
A pergunta que não me calou esta semana: - Será que silenciar e falar no mesmo tom é sabedoria?

Pensei, repensei e li vários autores sobre o silenciar. Eu mesmo publiquei no meu último trabalho: Meditações Filosóficas um texto sobre a importância do silenciar. Mas, agora, repenso nos cuidados que precisamos ter com este silenciar.

Até que ponto não se passou a silenciar por medo da crítica? O silenciar não pode também conter uma repressão e medo da exposição? Quantas vezes não se silencia para disfarçar e mostrar uma sabedoria, que no fundo é falsa? Ou mesmo representar um papel de educado e fino, quando na verdade é uma máscara social para enganar os outros?

Nem sempre o silenciar tem a riqueza que sabemos ser necessária para um diálogo honesto e verdadeiro. Ele pode ser um simulacro. Pode esconder o desejo de poder e controle.

Um verdadeiro silenciar é fundamental a boa escuta, que se torna fundamental para o diálogo. Mas, saber falar também é honestidade, é a capacidade de doar-se e compartilhar os saberes, é expressão do entusiasmo e amor, que deseja colaborar no exercício do pensar bem.

Saber e ter coragem de falar e expor, se sujeitar às críticas e julgamentos, assim como vibrar num diálogo expondo o seu pensar e suas crenças é fantástico e bom exercício de calor humano. Ainda não somos anjos e muito menos fantoches da corte francesa nos tempos dos salões onde a fofoca corria solta atrás dos leques.

Falar e calar são, pois um exercício de sabedoria e arte de dialogar. Muitas vezes, o falar alto demonstra o entusiasmo que vem da alma e demonstra a intensidade festiva da celebração da vida. Quantas vezes o silenciar neurótico, fruto da repressão e do medo não expressa a energia contida das almas deprimidas que negam a vida e são submetidas ao que os outros pensam e acham?

O que verdadeiramente importa é a liberdade de escolher a hora de calar e falar sem se preocupar com padrões impostos. Não podemos nos calar frente a injustiça, a mentira, as aberrações em nome do saber poder, dos controles autoritários e das opiniões forjadas em nome de verdades absolutas. Não podemos calar frente uma política que explora e rouba descaradamente, dos crimes hediondos e dos massacres em nome de Deus. Não podemos calar, com a falsa elegância, representar um papel e deixar a opressão tomar conta.

Silenciar é fundamental, porém, saber falar torna-se essencial para despertar as almas adormecidas. Vivam os livros! Vivam os artistas! Vivam as pessoas corajosas que não se quedam diante os falsos moralismos!
Que saibamos falar quando é tempo de falar e silenciar, sem tagarelice interna, quando se faz tempo de escutar.

*Rosangela Rossi
Psicoterapeuta, escritora, filósofa clínica ,
Juiz de Fora/MG
**Texto republicado

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXVIII*


Itinerário

A que horas sai o trem para a saudade?

Quero um lugar já nos primeiros bancos

para chegar mais depressa ao que perdi,

voltar aos sonhos da minha mocidade

quando não tinha estes cabelos brancos

e não pensava em sofrer o que sofri.

Quero um lugar no trem que está partindo

e que sai desta estação rumo ao passado

em cima de infindáveis e invisíveis trilhos,

onde quem hoje chora vai sorrindo,

quem dorme para sempre está acordado

e quem já é até avô não tinha filhos.

Quero um lugar no trem antes que parta

e eu não tenha outro modo de rever

tanta coisa que ainda guardo na lembrança:

uma foto amarelada, um lenço, a carta,

o perfume que nunca mais pude esquecer

e o lugar onde ficou minha esperança.

Por favor, dê-me logo essa passagem,

pois já escuto o sinal e até o apito

que avisa a todos que é hora da partida.

Eu não posso perder essa viagem,

talvez a última que faço, ansioso e aflito,

em busca do que eu mais quis na minha vida.

*Amaury Nicolini

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXVII*


Almas perfumadas*

Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas,pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.

Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, para me falar de amor.

*Ana Cláudia Saldanha Jácomo
(Para minha avó Edith)

domingo, 18 de novembro de 2012

Rotas polares*

“E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de ideias ou nesse universo infinito de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida como ela é e não forme ideias preconcebidas de espécie alguma em sua mente"
(Jack Kerouac)

Na vida, às vezes, é preciso traçar caminhos que nos levem de um ponto a outro por rotas aparentemente mais longas e difíceis. São percursos instáveis, que se delineiam quase que como atalhos e que podem inadvertidamente invadir territórios desconhecidos, demonstrando ser amigáveis ou não.

Na verdade, dificilmente há como prever o que quer que seja, ainda que exista busca. Mesmo acontecimentos próximos, presumíveis e consequentes são passíveis de mudanças na rota, de instabilidades temporais e de revezes de humor.

Já as possibilidades são absolutamente infinitas e a vida, traiçoeiramente inconsequente. Então ocorre que as linhas temporais se sobrepõem a cada ínfima escolha e alternam futuros essencialmente prováveis, ainda que potencialmente válidos no sentido de sua efetivação.

Em muitos aspectos, o traçado que liga os pontos da rota se revela ambíguo, descrente de suas próprias vias, como se não soubesse exatamente aonde chegar. E na verdade não sabe mesmo, afinal não há como se deter diante da realidade iminente, aquela que transparece assustadoramente após a próxima curva, lembrando-nos que o domínio se restringe ao momento presente, estático, ainda que determinante. A parte boa é que sempre é possível dar a volta e fazer contornos; lá no fundo, talvez todos os caminhos nos levem de volta ao ponto de partida.

Reflexões sobre os porvires podem se configurar tanto como uma respiração rasa que estimula, como um sorver profundo que alimenta. Mas não afastam fantasmas que atormentam ou anjos noturnos que fazem sonhar, embora permitam cumplicidade com o que há de mais autêntico no âmago. Mas refletir pode doer, dilacerar a alma, o corpo, a rota... pode desviar caminhos e adentrar atalhos imprevistos. Mas pode também resgatar uma humanidade que se encontrava oculta entre as folhagens do selvagem jardim atrás da própria casa ou das rotas polares do destino, lá longe onde pode não haver orientação possível ou pelo menos precisa... onde pode não haver absolutamente nada, apenas o branco ensurdecedor de um grito ecoado pela alma.

A opção possível talvez seja simplesmente aquietar, avizinhando momentos de solidão, resvalando neles como reflexos que se fazem presentes sem obviamente estarem lá; como se a vontade de fluir e estar no caminho fosse apenas o que importa, desviando das pedras persistentes ou transpondo os sulcos intensos na fronte das impressões que encantam e que por isso mesmo se tornam indeléveis. São as marcas extenuadas da emoção do percurso, que se encantaram com cada nuance desconhecida.

Mas eis que, às vezes, acontece de ser preciso interromper a andança e procurar refúgio na estrada, talvez até se esconder por entre silenciosas grutas convenientes e descansar. Ou apenas sentar e refletir sem pressões, exatamente para tornar o caminho mais curto para o amanhã efetivo, aquele onde as rotas colidem com sonhos.

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

sábado, 17 de novembro de 2012

O Limite que Liberta*

Livre é quem aprende a viver com sabedoria e maturidade diante das escolhas que a vida apresenta. Vivemos em uma sociedade que convida-nos ao pleno exercício da liberdade. Contudo, a vida exige que aprendamos a ser livres em meio a outros que conosco trilham caminhos singulares que se encontram nos plurais existenciais de nossas experiências humanas, sociais e culturais.

Em busca de uma liberdade fantasiosa muitas atrocidades têm sido cometidas em nosso meio. Ser livre está longe de fazer o que se quer sem pensar nas consequências. A liberdade verdadeira nasce do profundo e sincero desejo de ser ponte e não abismo que aprisiona e fecha possibilidades de uma vida plena e feliz.

Tudo aquilo que escraviza o ser humano torna-se prisão. Liberdade sem limites é uma triste maneira de estar preso sem saber. Muitos estão presos na liberdade que buscaram para si mesmos. Tornaram-se escravos de uma liberdade perigosa. Vivem sem limites pela vida. A minha liberdade termina quando ela aprisiona o outro em minhas escolhas. Quem prejudica ao próximo é também vitima de suas próprias inconsequências diante da vida.

Foi Simone de Beauvoir quem escreveu: “O homem é livre; mas ele encontra a lei na sua própria liberdade”. George Bernard Shaw sabia que a liberdade era precedida pela responsabilidade diante das escolhas na vida: “Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela”. A vida livre nasce sempre de escolhas maduras.

É preciso aprender a ser livre na liberdade que possuímos. Ninguém nasceu para ser escravo, mas também ninguém nasceu para na sua liberdade aprisionar outras pessoas ao sofrimento por meio de atos imaturos e irresponsáveis. Descobrirá o verdadeiro sentido de ser livre quem ver na vida compreender o verdadeiro significado da palavra “limite”.

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, filosofo clínico
Cambuí/MG

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Divagações filosóficas descontinuadas*

À percepção aristotélica é predominante a visão. Sua Metafísica a confirma. Mas, o verdadeiro para Platão nem está no que vemos. Nós só vemos a cópia. O original está nas Ideias. Husserl resolve ir às coisas mesmas. Heidegger aparece e diz que a questão fundamental ficou no esquecimento. Mas, a questão só tem valor enquanto questão. O erro não foi esquecer a questão, foi achar que a solucionaram. É mesmo?

Tomás de Aquino pensa que resolve: Deus é o Ser, ato puro. Um verdadeiro cristão aristotélico. E o que diriam os (neo)platônicos? Agostinho que o diga. Nessa briga surge um alemão de sobrenome Lovejoy e diz que a história da filosofia não passa de notas de rodapé de Platão e Aristóteles. Será que é isso mesmo?

Bom mesmo é Nietzsche, que resolve fazer uma filosofia à marteladas. Kierkegaard vai angustiar-se diante do que a filosofia não abarca, a fé. Ele diz que é necessário um salto qualitativo. Então, não importa quantos pulos você dê. É necessário saltar no abismo das incertezas. Mas, voltando a Nietzsche, saltar para onde, se Deus está morto?

Camus, diante disso tudo dirá: tudo é absurdo. É necessário como Sísifo, rolar a pedra nessa vida sem sentido. Sartre adverte: devemos escolher. Não escolher é uma escolha. Somos condenados a ser livres. Mas, é necessária a responsabilidade. Então devemos ser responsáveis pelas escolhas nessa vida absurda?

O que é afinal a filosofia? Deleuze e Guattari são categóricos em suas respostas: filosofia é criar conceitos. Wittgeinstein diz que o sentido da palavra (o conceito) se dá no uso dentro de um contexto. Então para fazer filosofia devo conversar com alguém com o qual compartilharei o sentido dos conceitos?

Bem que Sócrates concordaria em partes com a proposta acima. Afinal, as ideias são inatas. E basta somente um bom método, a maiêutica, para fazer o interlocutor lembrar-se das coisas que já sabe de antemão. Então, mais do que um conceito partilhado no diálogo, Sócrates defende que há uma Verdade. A maiêutica, palavra que designa a ocupação da mãe do Sócrates, isto é, parteira, deu a esse pensador a convicção de que damos luz às ideias. Estamos grávidos(as) de ideias?

Sei que nada sei. Resposta que leva tantos ignorantes a repetir em tom de sinceridade (de fato o são), mas que Sócrates utilizava com a mais sofisticada ironia. Sofisticada, aliás, lembra os Sofistas. Estes são simbolizados na célebre frase de Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”. Tudo é pautado pelo que dizemos que é?

Ainda bem que a filosofia é ocupação de desocupados. Não me culpem. Aristóteles quem disse que a filosofia requer ócio. Sócrates vivia nas ruas de Atenas conversando. Quem tem tempo pra isso hoje? Aliás, Sócrates disse que uma vida irrefletida não valia a pena ser vivida. Pobre e ingênuo Sócrates. Claro que vale a pena! Basta ter dinheiro! Dinheiro pra quê? Pra comprar os livros de Sócrates, ora. Mas, ele não escreveu nenhum livro. Platão falou sobre ele. Ah, mas não quero ler sobre alguém que disse que vivo as cópias e que o verdadeiro está nas ideias. Posso comprá-las?

Comprar? Sócrates preferia morrer a ter que viver sem seguir seus princípios. Seus discípulos tentaram comprar sua liberdade enquanto estava sendo julgado. Ele negou. Preferiu tomar cicuta a fugir e viver como um exilado. Mas, a essa altura ele já estava velho. Será que se ele fosse jovem, faria a mesma coisa? Afinal, ele não disse que uma vida sem “princípios” não vale a pena ser vivida, mas uma vida não refletida. Poderia então ter fugido e refletir sobre isso?

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Floripa*

Querido leitor, que você esteja bem. Hoje vamos refletir sobre a nossa capital, exatamente sobre o nome de Florianópolis.
Como você, ouvinte atento, deve lembrar, recentemente falei, em um artigo intitulado “Entre a Montanha e o Mar”, a minha relação com a água, com o mar. Naquela oportunidade escrevi que só fui conhecer o oceano quando tinha oito anos, antes disso, ficava imaginando como seria o mar.

Também falei da minha relação com a orla marítima, com a água salgada, com as ondas, os ventos, os pássaros. Falei sobre o balneário Rincão e sobre as praias de Florianópolis. Lembro-me que deixei subentendido que muita coisa me fisgava em Floripa, e as praias era uma delas, e de uma importância decisiva.

Contudo, algo jamais gostei da nossa capital, se é que você me entende: não gosto e assumo, não gosto do nome. Florianópolis. Como sabemos, seu nome é da junção de duas palavras: pólis, que significa cidade, e Floriano, que vem de Floriano Peixoto, primeiro presidente da República.

Fundada por bandeirantes paulistas na segunda metade do século XVII, a antiga Nossa Senhora do Desterro mudou de nome com o advento da República, em 1889. Conta a história que as resistências locais ao governo republicano provocaram um distanciamento do governo central e a diminuição dos seus investimentos.

Em detrimento a essa oposição, pelo menos duas centenas de catarinenses foram mortos e enforcados na Ilha de Anhatomirim. A vitória das forças comandadas pelo Marechal Floriano Peixoto, Marechal de Ferro, cinco anos após a proclamação da República, portanto em 1894, provocou a mudança do nome da cidade. Mudança esta que saiu de Desterro para Florianópolis, justamente em homenagem a Floriano Peixoto.

Floripa é uma ilha especial, uma cidade destacada para onde acorrem muitas pessoas, mas o que realmente não gosto é desse nome que lembra o Marechal de Ferro nascido em Ipioca, Distrito de Maceió (AL), que executava ou mandava executar os inimigos da recém-criada República.

Contra isso, há uma ideia que se arrasta há anos para fazer um plebiscito para mudar o Hino de Santa Catarina, que também foi uma imposição. Dizem que é uma letra que cabe para qualquer cidade, qualquer estado e até país. Fala muito, não diz nada. Em resumo: Não tem a cara a nossa gente. Mas sobre o hino do Estado, podemos refletir em outra ocasião.

Então, que tal a câmera de vereadores da capital se inspirar no plebiscito e também propor a mudança do nome de Florianópolis para Floripa? Ao invés da Cidade de Floriano, teríamos a cidade das flores. Que tal?

Já viajei todos os continentes, conheci muitos lugares, mas o lugar que realmente gosto, que me sinto em casa, principalmente quando me deslumbro olhando para o mar é Floripa.

É assim como analiso a mudança do nome de Floripa hoje. E você, já discutiu sobre isso antes?

*Beto Colombo
Empresário, filósofo clínico, coordenador da filosofia clínica na UNESC
Criciúma/SC

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXVI*

Jogos de sombras

Sempre que me procuro não me encontro em mim,
pois há pedaços do meu ser que andam dispersos
nas sombras do jardim,
nos silêncios da noite,
nas músicas do mar,
e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos
nesta serena unção crepuscular
que lhes prolonga o trágico tresnoite
da vigília sem fim,
abro meu coração, como um jardim,
e desfolho a corola dos meus versos,
faz-me lembrar a alma que esteve em mim,
e que, um dia, perdi e vivo a procurar
nos silêncios da noite,
nas sombras do jardim,
na música do mar...

*Hermes Fontes
1888-1930

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Queridos amigos, colegas, articulistas,

No dia de hoje atingimos 1021 postagens neste blog que se propõe, em seus recentes dois anos de existência, oferecer espaços de convívio, reflexão, humanidade, estudos e desenvolvimento em Filosofia Clínica.

Parabenizamos a todos os nossos articulistas, colaboradores, visitantes, críticos, pela inestimável contribuição para a qualificação da Filosofia Clínica em todos os espaços por onde se oferece, como um novo modelo de atenção e cuidados com a vida: hospitais, empresas, clínicas, escolas..

Em 2013 teremos novas parcerias de atuação profissional, estágios, pesquisas, colóquios, publicações e outras agradáveis surpresas.

Nossa busca é seguir contando com o talento e a cumplicidade do grupo todo e venha quem mais vier, pois a Casa é nossa!

Um abraço fraterno,

Coordenação
A palavra mágica*

“Vive a tua hora como se gravasses o teu nome na epiderme de um tronco novo. Mas não voltes mais tarde para junto dessa árvore, porque podes não reconhecer o teu nome nas cicatrizes das velhas letras.”
Felippe D’Oliveira

Sua tez de singularidade maldita refere uma simbologia em viés de encantamento. Na veemência discursiva compartilha uma fatia generosa de paraíso. O sagrado_profano esboça uma íntima convivência com a reciprocidade. Os significados apreciam aliar-se aos papéis existenciais de travessia. Assim o feitiço da palavra como medicamento aprecia as estruturas mutantes envolvidas na interseção.

Ao sugerir a cidade das maravilhas, é possível um novo entendimento e relação com o universo interior. Sua fonte de inspiração, muitas vezes, se faz menção em dialetos de esquiva. A magia, um pouco antes de ser representação traduzível, aprecia transbordar nalguma forma de excesso.

Uma fenomenologia em aromas de dama da noite aponta o lugar renascimento de todo lugar. O discurso assim descrito considera um artesão em meio a raridades, sua arte de acessar e esculpir subjetividades convida aos eventos de simplicidade complexa. Um ser iconoclasta se lança em busca de antigas promessas, seu compêndio de páginas por vir acolhe originalidades à margem do instante.

O vocabulário possui raízes na historicidade da pessoa, muitas vezes refém dos agendamentos a considerar irrealizáveis seus projetos de bem estar.

Nessa ótica de contra-ideologia os termos agendados, quando substituídos, podem oferecer códigos de libertação. Numa contemplação indefinível das ideias e sensações, se encontra um cogitar de amanhãs. Um esboço, ainda tímido, revela possibilidades em processo. Vislumbre de outras linguagens a percorrer subúrbios de si mesmo.

Ao andarilho que se sabe andarilho, encontra um abrigo eficaz na sua pronúncia. Seu aspecto de ser errante é cúmplice desses momentos, onde razão e desrazão deixam de ser para devir. Em seus relatos de magia, uma mescla de fantasia_realidade reescreve a dialética da contradição em possibilidades. Sua natureza grávida de originais reflete os espelhos da singularidade.

Assim o sujeito rascunha-se em busca de alguma edição para sua utopia em processo. A trama delirante anuncia pluralidades pela alma inadequada.

Na concepção e uso da palavra exilada destitui-se sua condição de refém das circunstâncias, nela se apresentam ensaios aos novos horizontes, ingredientes, até então, refugiados nalguma espécie de devaneio ou loucura.

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A arte e a vida...*

Depois de profunda reflexão chego a conclusão que o que realmente liberta e traz sentido a vida é a expressão. Não importa de que modo isso ocorra. Pode ser por uma pintura, uma canção, uma dança, um poema, não importa. O mais importante é a expressão.
Digo isso por viver na pele essa necessidade diária de expressar o mais profundo do meu coração. O que existe de mais belo na minha alma é o ato de expressar. Acredito que por mais que se busque, que por mais que se conheça as filosofias de grandes mestres, sem expressão não há solução!

Tenho pensado em como seria mais salutar se nos hospitais os doentes fossem tratados somente com arte. Por que não? A filosofia clínica permite esse casamento e é por isso que sou grata de tê-la conhecido.

Quando trabalhava como atriz o que mais me intrigava nas personagens eram os seus porquês existenciais e hoje eu entendo que os espetáculos nos quais trabalhei foram aqueles que poderiam fazer de fato as pessoas melhores em suas almas. Eu ficava muito feliz quando alguém chegava para me cumprimentar e dizia: " Você me emocionou menina".

Nada traduz o sentimento de um ator depois de receber uma confissão dessas! Eu sentia uma espécie de contentamento e dever cumprido. Muitas vezes eu percebia que em cenas densas muitos se retiravam do teatro e eu amava essa rejeição por aquela personagem que estava vivendo, eu percebia que o incomodo também poderia ser uma espécie de catarse, de protesto! Por que não?

Agora que estou de volta aos palcos assumindo um outro papel, o de dançarina, percebo que a emoção é igual. Os movimentos tomam formas e expressam emoção, os aplausos mais estéricos, mais vivos, tenho a sensação de que a platéia dança conosco. É como se todos fossemos um!

Não há estranhamento, vibramos na mesma sintonia, as cores se tornam mais vibrantes, os sentimentos escorrem por todos os poros suados das coreografias trabalhadas minuciosamente, é uma explosão de sentimentos misturados de alegria, de morte, de vida, de orgasmo compartilhado sem culpa nem repressão!
A cura acontece, então! E eu sou só gratidão.

*Vanessa Ribeiro
Filósofa, matemática, atriz, dançarina, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

domingo, 11 de novembro de 2012

Temperamentos do Tempo*

Outubro inicia com mudança de direção dos ventos, usa o calor pra se fazer anunciar. Algumas pessoas são mais sensoriais que outras e como os ventos mudam a direção com seus afetos, não sem antes superaquecer para depois vaporizar suas resistências.
Nunca ninguém tentou medicar o tempo, será que não perceberam ainda que ele é quadripolar?
Há Sim, o tempo pode! Esta aquém a qualquer tipologia. Na verdade, o tempo está aquém do nosso controle, inspirou e ainda inspira muitas reflexões filosóficas.

A espécie humana não aceita as infinitas variações de personalidades em sua natureza, algumas delas são consideradas patológicas e por isso sujeitas a todo tipo de intervenção.

Mas o tempo, não da para controlar, dá?

Com a onda de comportamento sustentável, com expansão da Eco Visão, constata-se que a concentração da manipulação humana junto à natureza, já causou seus estragos e dia a dia nos coloca mais e mais refém dos humores extremos da natureza.

Muito já se fez, como aproveitar o fluxo dos rios para fazer barragens, para então gerar energia, e o mesmo se faz com cataventos que ficam ali a disposição dos humores do vento, e quanto mais violento estiver melhor.

Às vezes penso que instintualmente, nossa espécie escolhe fugir de seus instintos, como uma doença autoimune, ataca e tenta barrar sua própria natureza,seja por vias de leis morais, por concepções éticas ,seja por não suportar a consciência fenomênica de sua impotência no fluxo das coisas.

Quando Freud segue as concepções de Schopenhauer e mergulha a fundo e traz a guisa de entendimento o que chamará de mecanismos inconscientes, nos dá também, uma noção mais precisa daquilo que não temos acesso pela qual só recebemos notícias ,por sonhos atos falhos e Chistes, seriam conteúdos bloqueados, que poucos hackers emocionais teriam acesso e a maioria destes, se perde na volta ou fica apenas na margem ou na sala de espera.

A natureza parece ser tão absolutista que nos vetou este portal e o preço por romper este veto, é perda de contanto, é a mudança de vizinhança de tal ponto que neste abismo você só se avizinharia aos vários desdobramentos do seu próprio eu nu, profano a senso comum e inviável para a cultura de massas. Mas sem duvida sempre uma denuncia ,um alerta que existe este portal e diante de algumas catástrofes internas pode ser o único lugar seguro a se refugiar.

Alba Regina Bonotto
Psicóloga, Filósofa Clínica
Curitiba/PR

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXV*

Pintura a óleo/tela por Cândido Portinari (1934)

Discurso proferido num jantar de poetas (1929)

Eu faria um poema se fosse cabível ele ser contado agora por Eugênia. Porque então o que não pode ser dito ficaria sensível e visual na voz de Eugênia que é revelação. Para serem ditas por mim as palavras têm de valer por si mesmas. E exprimindo o seu sentido próprio, não poderão denunciar viva e presente a essência de nosso encantamento pela arte de Eugênia. Arte de prestidigitação que escamoteia o mundo aparente para substituí-lo por inúmeros mundos da invenção dos poetas, mundos profusos conjugados em sistema solar pela atração de sua sensibilidade transfiguradora.

Desse encantamento, permanente em nós todos, nenhum de nós saberá contar. Admiração. Gratidão. Êxtase. Alegria. É tudo junto. É encantamento. Encantamento de Aladim que pede à lâmpada mágica coisas maravilhosas e tem logo a maravilha. E a maravilha não é a que esperava, a que se vira antes. É outra, passada através de uma inteligência e de um coração, que se desagregam, se transfundem, se prodigalizam e não se gastam, chamas que irradiam sem se consumirem.

É assim para os que não são poetas e a escutam, enternecidos. É assim para os que somos poetas e a escutamos com surpresa. Para eles, a arte de Eugênia é aquela cambraia fina que se põe diante dos olhos a fim de perceber o vago São Jorge desenhado pelas montanhas da lua. Para nós que inventamos os poemas é a claridade indispensável de que os vitrais precisam.

O velho Ricardo dizia que só a dança revela a música, como só os corpos mergulhados na luz podem revelá-la e tornar o infinito luminoso diferente do infinito de treva.

É o que, para a poesia, é a arte de Eugênia: dança. Dança estática ou tumultuosa de sensações que acharam o corpo das palavras inertes e que depois ganharam a respiração da vida. Dança de imagens que se desarticulam, adquirem volume e se constroem objetivamente. Dança de pensamentos cadenciados que se amplificam ao prestígio de sua voz - comovente e empolgante como o silêncio. Dança que se propaga de seu instinto para o nosso inconsciente violentado e acorda ou gera a admiração, a gratidão, o êxtase, a alegria de nosso encantamento.

É o que as palavras sabem dizer do muito que não sabem exprimir, desse muito que a percepção de Eugênia descobrirá como descobre novos valores em nossos poemas, quando os dignifica e os enriquece por sua arte reveladora.

*Felippe D'Oliveira
1891 - 1933

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXIV*



Que é Simpatia

Simpatia – é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.


Simpatia – são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.

Simpatia – meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d’agosto
É o que m’inspira teu rosto…
- Simpatia – é quase amor!

*Casimiro de Abreu

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Virtualidades*

Porque as redes sociais nos atraem tanto? Porque postamos infinidades de textos e imagens? O que nos liga ao virtual? Porque nos tornamos dependentes de uma rede de amigos que não conhecemos? Porque “curtimos” postagens? Porque compartilhamos? Porque não guardamos em nosso coração o que foi postado ontem? Porque os laços de amizade nas redes sociais são frágeis e anônimos? Por quê? Por que... Por que.

O mundo virtual chegou para ficar. O Orkut ficou para trás com a chegada do Facebook. Quem nunca esperávamos encontrar nas redes sociais chegam sem avisar. Alguns ainda relutam em se conectar. Outros estão conectados 24 horas.

A vida particular tornou-se publica com os álbuns de fotos. Do sofá ao baile conhecemos o que alguém fez no final de semana ou nas férias. O desconhecido tornou-se conhecido. O anônimo tornou-se celebridade. O particular tornou-se universal.

Porque postamos? Cada um irá dar uma resposta a esta questão. Postamos para não ficarmos de fora da moda? Postamos para que saibam que continuamos vivos? Postamos para não sermos esquecidos entre as centenas de amigos que possuímos?

Postamos porque queremos transmitir uma informação importante? Postamos porque o perfil não pode ficar desatualizado? Postamos porque é preciso receber ao menos uma “curtida”? Postamos para sermos compartilhados? Postamos porque refletimos sobre o que foi postado? Postamos para termos um arquivo de informações que irão nos ajudar quando precisarmos? Postamos porque afinal?

Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Então que as imagens digam por nós aquilo que não conseguimos dizer. O que as imagens nos dizem? As imagens revelam aquilo que somos e acreditamos de fato? Quando compartilhamos uma imagem estamos convictos de que aquela imagem faz parte do que somos e carregamos em nosso coração? Se a imagem vale mais do que mil palavras o que ela quer dizer realmente?

Conectamo-nos a pessoas de norte a sul do mundo. Alguns amigos conhecemos e mantemos contato real mesmo utilizando os meios virtuais. Outro mundo de anônimos habitam nossas páginas. Nada sabemos acerca de suas dores e alegrias. Estão ali vivos através das postagens. Sabemos quem são pelas postagens que nos chegam.

Porque adicionamos muitos e não nos preocupamos em conhecê-los? Quem são o que fazem da vida e porque chegaram até nosso perfil? O nos motiva a convidar quem ainda não conhecemos? Na era digital a timidez não existe.

O mundo virtual pode tornar-se facilmente um campo de relacionamentos líquidos e frágeis. Reflexão, amizade, laços que superam as fronteiras virtuais somente serão construídas se o que nos mover for mais forte que a virtualidade liquida que tem nos consumido.

Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, filósofo clínico
Cambuí/MG

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Que assim seja!


Eterna Paz
Como é bom adormecer
Com a consciência tranquila
As chuteiras penduradas
Depois do dever cumprido
Despertar num mundo livre
E despoluído
Onde tudo é só amor...
(Martinho da Vila)

O que quer que seja que te faz bem... que seja de todas as cores, formas e de todos os muitos sentidos de que pode transparecer.

De todos os desejos... que sobressaia a Paz, ainda que em opostas vontades, sejam elas simples ou banais, extremas ou complexas, pois da oposição pode surgir o consenso ou a alternativa que faltava a persistentes expressões. Que seja ansiada em suas tantas cores e nuances, refletindo espectros de infinitos raios de gentileza e compaixão, buscada em suas crenças e partilhada por sentimentos que vão além da simplória compreensão cotidiana.

Ampliada, através dos espaços e permeada em múltiplos tempos ou em cada tempo subjetivo, para que se possa conceber seu significado nos desejos entremeados de conexões sutis de entendimentos.

Contemplada por todos que a compreendam à sua maneira, livremente, traduzindo tão somente o que cada um entenda, como uma passeata na qual apenas a cadência dos passos defina os horizontes descobertos de tudo o que ainda se desconhece. Assim, cada um a traria em seu ritmo, como se embalasse uma causa em sua luta.

Que não seja jamais limitada a que quer que seja, nem mesmo pelos emblemas dogmáticos, restritos à pequenez de um egoísmo utópico, que a esvaziam e a profanam. Que não seja esgotada pela ausência de fé na profunda e irrevogável crença da existência, mantendo-se íntegra em qualquer símbolo a que se apegue, mesmo que apenas uma fraca luz a guie.

Que seja propagada como uma onda que não se extingue, nos invadindo como um oceano de beleza infindável e irrestrita e que não se banalize, como uma troca de pele inconsciente, sem nexo, penetrando poros não conscientes de sua fundamental importância, pois que nada se perde no vazio do universo reciclável.

Que seja vermelha, espalhando energia em seus instintos mais básicos e rudimentares, espargindo a vitalidade de tudo que se entenda através do calor da vida e de sua sagrada perpetuação. Igualmente revitalizada pela acolhida suave de tons alaranjados, vazando e canalizando energias através de divinos reflexos pulverizados por inteligíveis canais.

Na magnitude ondulante do amarelo, que se traduz e se manifesta na intenção do equilíbrio e da qualificação da espontaneidade necessária à alegria da vida, que seja brilhante como uma luz que também aquece. Assim como te quero na abrangência emocional do verde que abraça os seres em sua incrível capacidade de conferir amor universal a quem se dispõem a receber e unir pontos diametralmente opostos em sua curvatura existencial.

Que esteja lúcida em seu mais celestial azul, transmitindo pela fala dos deuses o entendimento entre os homens, por todas as artes, por todas as melodias, por todas as letras... por tudo o que traduz a mais refinada essência dos deuses em nós. E por todos os olhos possamos vê-la na intuição de um azul ainda mais forte, na esperança de que és possível, plena na orientação de todas as vias pelas quais a visão divina penetra nas entranhas de todos os seres.

E que seu ilimitado arco-íris, revelado pelos prismas da condição humana, espraia violetas por aberturas imprevisíveis, permitindo que energias se atualizem e se assimilem em todos os aspectos e de todas as formas, por todas as convergências de elementos que se propõem um encontro.

Enfim, que percorra todos os pontos inacessíveis da qualidade humana, todos os corpos e todas as possibilidades. Que se manifeste plena e sensível, branca e dotada de todas as suas cores. Que seus raios, ao tocar o horizonte, abram as comportas dos sonhos de ouro onde se cultivam esperanças eternas e imortais em suas essências.

Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Nietzsche: platonismo, cristianismo e amor fati*

"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música" (F. W. Nietzsche).

Há alguns que desconsideram Nietzsche como filósofo pelo fato deste criticar a filosofia. Mas, se há uma característica típica da filosofia, essa está em ela ser crítica de si mesma e constantemente se colocar em questão. Desse modo, Nietzsche é de fato filósofo quando filosoficamente põe em cheque a história do pensamento ocidental em sua base. A partir disso, qual é a crítica desse filósofo ao pensamento ocidental? Primeiramente precisamos ver como geralmente os manuais de filosofia – introduções, textos de história da filosofia, etc. – tratam o suposto avanço que o pensamento filosófico legou para o Ocidente.

Em geral nos é apresentado uma passagem do Mito ao Logos, do discurso elucidado pela “fantasia” ao desenvolvido pela elaboração explicativa racional. Sócrates, até muito mais do que os que o precederam, é visto como aquele que foi capaz de centralizar no homem e sua capacidade racional, todas as questões referentes ao homem, suas relações e preocupações. Com Sócrates e, concretamente, legado por Platão, foi-nos apresentadas explicações nas quais o conceito, dado no mundo das Ideias, precederia e serviria de parâmetro para o reconhecimento no mundo concreto, mas não mais real do que a ideia.

O problema dessa concepção na crítica nietzschiana está em que com essa suposta passagem do Mito ao Logos, a vida passa a ficar aprisionada ao cerebral, ao racional, ao conceito, ao que pode ser explicado, definido, enquadrado. Toda a “realidade” passa a ser reconhecida como aquilo que pode ser apreendido pelo aspecto lógico-racional. A partir de Sócrates a vida passa a ser resumida à racionalidade. E assim surge o primeiro problema: a racionalidade é importante, disso ninguém tem dúvida, mas considerar tudo a partir dela é reducionismo.

Uma primeira impressão pode induzir a uma crítica a Nietzsche, considerando-o como contra a razão. Mas, trata-se de uma impressão falsa. Quando o filósofo propõe uma crítica à razão, se vale da mesma. Desse modo, tal como acusá-lo de ser anti-filosófico seria um erro, o mesmo pode-se dizer para um falso apontamento relacionado à razão.

O que Nietzsche pretende com sua filosofia, ou crítica, é o convívio com os elementos que, segundo sua interpretação, se harmonizavam na Grécia antiga: o Apolíneo e o Dionisíaco. Esses nomes são originados de dois deuses gregos cuja representatividade era a seguinte: Apolo: beleza, simetria, medida, moderação, figuras equilibradas, luz, ordem, etc.; Dionísio: força instintiva, embriaguês, festas, harmonia com natureza, criação artística, sexualidade, criação de si mesmo (auto-autoria), etc. Onde, entretanto, se encontra essa possível desarmonia?

Sócrates surge como aquele que enfatiza de tal modo a racionalidade, o Apolíneo, que o elemento Dionisíaco é quase abortado das considerações acerca da vida. É importante notar que a razão em si não é algo ruim. Todo conforto, condições de manutenção da vida e a ciência estão aí para nos mostrar a relevância da razão. Mas, o problema se dá no momento em que esse elemento é absolutizado.

Para Nietzsche, a vida está aí para ser vivida e não pode ser resumida a racionalidade argumentativa. A vida não pode ser reduzida a razão. Não há sistema filosófico racional capaz de abarcar a vida em seu todo. É um erro tentar compreender, dominar, a vida com a razão. Assim, Sócrates e Platão, segundo o filósofo alemão, são sintomas de decadência.

Há quem somente lembre o Nietzsche anunciador da “morte de Deus”. De fato, há esse aspecto, mas não se trata de um simples anúncio de um ateu negando a existência da divindade. Sua filosofia é mais complexa do que isso. E, para isso, precisamos pensar o cristianismo. O que é o cristianismo?

Cristianismo é interpretado como repressão do dionisíaco, por meio da imposição de sacrifício, submissão, pecado, culpa e sofrimento. O cristianismo, no pensamento nietzschiano, não foi somente apolíneo, ele o absolutizou. Os problemas da vida não são vividos, pois cria-se uma esperança em algo distante para justificar as dores, as frustrações e as limitações. Nega-se a vida em prol de explicações e fundamentações fora dela. A vida não é vivida. Para o filósofo, a racionalidade, a via científica e a religião são modos de negação da vida.


Com a morte de Deus, anunciada por Nietzsche, instaura-se uma nova moral (dionisíaca), como aceitação dos valores vitais. Em Platão, a ideia (forma) pura é o modelo a partir do qual se compreende o concreto, imperfeito. Igualmente, postula o filósofo, se dá no cristianismo. A relação de ambas está em conceberem outra realidade para pensar o concreto, a vida. Em Platão o mundo das Ideias, as formas; no cristianismo, o céu, lugar de perfeição. Em ambos, o mundo concreto, lugar do apolíneo, é desconsiderado ou diminuído pelo predomínio do dionisíaco.

Assim, Nietzsche concluirá que o cristianismo é um platonismo para o povo. Empobrece-se o platonismo e o aplica ao povo. O cristianismo é negação da vida, do concreto, do inalcançável pela razão.

Embora não nos alongaremos na questão da morte de Deus, vale ressaltar que com seu anúncio ao mesmo tempo em que critique sua época por colocar elementos como a própria razão no lugar desse Deus, ele propõe um novo caminho: a vida. É necessário não somente que Deus morra, mas que não se coloque nada – razão, ciência, moral, etc. – em seu lugar.

Sua proposta é bem resumida na seguinte máxima: “Amor Fati”, frase latina que significa “amor ao fato”, à vida concreta com todos os seus gozos e dores. A vida que temos é essa, lidemos com isso, amemos todo esse fato! Assumir nossa vida com alegrias e tristeza, é o que postula Nietzsche. O conceito ligado ao platonismo e caro ao cristianismo é combatido pelo filósofo.

Abramos um parêntese na exposição das ideias nietzschianas. Em geral, constitui-se um erro quando se cobra extrema coerência entre a vida do filósofo e suas ideias. Afinal, nossa discussão parte antes da obra e reflexão exposta na obra e não na biografia de seu autor. Mas, é interessante notar que alguém atingido por dores constantes de cabeça, de uma saúde frágil – que o levou a deixar seu trabalho e viver de uma pensão que o permitiu viver e publicar seus livros –, além de desilusões amorosas e amizade desfeita por incompatibilidade de ideias, ainda tenha se mantido escrevendo e vivendo sem lamentações e murmúrios. Com isso, podemos pensar alguém que não somente desenvolveu um pensamento postulando o “amor fati”, mas que buscou vivê-lo.

Voltando ao assunto. O cristianismo é contrário aos instintos. A compaixão, tão afirmada pelo cristianismo, é um obstáculo à lei do desenvolvimento como seleção. Deus é o referencial de inimizade à vida, à natureza e à vontade de viver. Ele perverte o humano. O pecado é contrário a todo prazer e valor na terra. Mas, seria Nietzsche tão avesso à compaixão? Teria ele sido um filósofo de tal modo mal pensador, que negaria algo aparentemente tão comum e presente na vida?

Para isso, é necessário distinguir compaixão e compaixão. Qual é a compaixão criticada por Nietzsche? Alguns exemplos elucidam o tipo combatido de compaixão: uma criança pede algo com seu balbuciar próprio. Nos primeiros momentos de vida, dar a ela o que pede antecedendo até sua expressão, é algo bom. Entretanto, se no decorrer dos anos, esse pedido não for se transformando em espera para que a criança expresse corretamente articulando palavras, o que quer, corre-se o risco de, por compaixão, os pais anteciparem tanto o pedido da criança interpretando seus balbucios, que essa criança corre o risco de mal desenvolver-se com o uso das palavras. Outro exemplo: um professor, por pena dos alunos “que estão cursando muitas disciplinas” resolve facilitar as notas e diminuir a quantidade de matérias a serem estudadas. Os alunos passarão no ambiente onde o professor fingirá que ensina e os alunos, que aprendem. São essas compaixões negativas e combatidas. Seria Nietzsche alguém que odeia a vida humana a ponto de negar a compaixão?

É importante notar que a compaixão criticada pelo filósofo é a que impede o desenvolvimento das pessoas, tal como apresentado nos exemplos. Observando dois acontecimentos elucidativos da história do filósofo não é tão difícil ver que ele não foi avesso à compaixão. Quando estava no início de sua carreira docente, recém apossado de sua cátedra, houve uma guerra. E, para surpresa de quem apenas leu sua crítica à compaixão, Nietzsche deixou suas aulas por um tempo e foi para a guerra como enfermeiro voluntário auxiliar os soldados feridos. Não teria sido isso um ato de compaixão? Quantos adeptos da compaixão teriam a coragem de tal ato? Outro fato da história desse pensador se deu não em relação aos homens, mas a um animal. O último impulso antes de entrar na total invalidez de sua vida produtiva se deu quando, por compaixão ao ver um equídeo carregando excesso de peso, lança-se ao animal e o abraça. Eis alguém que não teve somente compaixão por homens, os animais também foram contemplados.

Por se tratar de um texto pequeno, as ideias foram passadas de modo extremamente sucinto. É claro que o cristianismo, o platonismo e as ideias de Nietzsche não se resumem a estas linhas. A proposta aqui foi elencar alguns elementos relevantes para se pensar a filosofia nietzschiana. Em geral, ficam alguns aspectos importantes.

Ajudar uma pessoa até onde não precisa é a compaixão combatida por Nietzsche. Isso caracterizaria uma barreira pela afirmação da vida dessa pessoa. O filósofo defende a vida, o impulso para o viver. E tanto os elementos teóricos que afastam da vida, quanto os práticos que a acomodam, podem impedi-la. Eis talvez o momento em que se faz um bom uso da razão: reconhecer que a vida é mais ampla do que sua explicação e que é necessário amá-la com todas as suas sortes e reveses, dores e gozos.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

domingo, 4 de novembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXIII*



Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei



Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive


E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

*Manuel Bandeira

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Fases*

Estive escondida dentro de mim
Vi e percebi muitas coisas,
algumas boas e outras medonhas...

Fiz uma enorme faxina existencial
Sinto-me leve novamente, vibrante e feliz.

Sim! Sou otimista demais! Não posso negar minha natureza,
sinto a pureza das crianças, o barulho das gargalhadas descompromissadas...
Sinto, sinto e sinto muito por incomodar por meu sentir demais.

Exagerada no sentir, intensa no viver, colorida ao me expressar
Pequena na estatura mas enorme nos atos.

Quanto aos anseios me acalmo mais
O tempo de vivência traz muita tranquilidade!
Não sei certo o quanto mudei, porém, sei que muito se transformou aqui dentro do peito!
Morri e renasci várias vezes em pouco tempo...

Descobri que a coragem é mais sábia do que o medo,
ouso me arriscar para ser quem sou!
Correta, coerente? Não sei responder...
Sigo em paz!
A verdade é minha saga, que se inicie por mim, então.

*Vanessa Ribeiro
Filósofa, matemática, atriz, dançarina, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXII*


Fazer 30 anos

QUATRO pessoas, num mesmo dia, me dizem que vão fazer 30 anos. E me anunciam isto com uma certa gravidade. Nenhuma está dizendo: vou tomar um sorvete na esquina, ou: vou ali comprar um jornal. Na verdade estão proclamando: vou fazer 30 anos e, por favor, prestem atenção, quero cumplicidade, porque estou no limiar de alguma coisa grave.

Antes dos 30 as coisas são diferentes. Claro que há algumas datas significativas, mas fazer 7, 14, 18 ou 21 é ir numa escalada montanha acima, enquanto fazer 30 anos é chegar no primeiro grande patamar de onde se pode mais agudamente descortinar.

Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.

Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.

Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.

Um dia eu fiz 30 anos. Estava ali no estrangeiro, estranho em toda a estranheza do ser, à beira-mar, na Califórnia. Era um homem e seus trinta anos. Mais que isto: um homem e seus trinta amos. Um homem e seus trinta corpos, como os anéis de um tronco, cheio de eus e nós, arborizado, arborizando, ao sol e a sós.

Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.

Mas fazer 30 anos é como sair do espaço e penetrar no tempo. E penetrar no tempo é mister de grande responsabilidade. É descobrir outra dimensão além dos dedos da mão. É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes.

Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.

Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó.

Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.

*Affonso Romano de Sant'Anna