quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Amor-Perfeito*



Foi em uma manhã quase já sem esperanças que ele pegou as sementes e foi ao campo semeá-las. O terreno ainda coberto pelo mato precisava ser limpo. Aos poucos foi percebendo que semear não era tão fácil como havia imaginado. A cada minuto o cansaço era sempre maior. Com o suor molhando a camisa olhou e viu que a primeira etapa estava concluída. Terreno limpo, mas ainda impossibilitado de receber aquelas sementes.

Era preciso mais… Teria que revolver aquela terra. Retirar pedras e sujeiras. Sob o sol e com o peso da enxada na terra pensou muitas vezes em desistir. Contudo, o desejo guardado no coração de ver aquelas sementes floridas era mais forte que o desânimo que insistia em chegar.

Quando o sol anunciava sua despedida lançou naquela terra, fruto do trabalho e do suor as primeiras sementes… Cada semente que ali era plantada era uma esperança a ganhar vida no solo seco de seus erros.

Durante a noite a chuva chegou de mansinho irrigando as sementes que se preparavam para morrer. No silêncio do tempo cada semente morreria para viver com mais intensidade. Dos primeiros brotos o sinal da terra sendo rompida para germinar novas possibilidades.

Todas as manhãs ele visitava o terreno que aos poucos se tornava verde. Em uma destas visitas contemplou os primeiros botões das flores que agora eram os frutos do seu suor.

O tempo passou mais rápido do que poderia acompanhar… E as sementes germinadas agora eram lindas flores prontas para serem colhidas. Com todo carinho retirou da terra algumas daquelas plantas. O colorido era tão variado quanto o número de pessoas que conhecia. A perfeição estava na diferença. A harmonia estava no contraste das cores que juntas criavam uma unidade a partir das mais variadas diferenças. No plural das cores estava o singular de cada flor.

Após cada flor ser devidamente armazenada em um único vaso estavam prontas para serem entregues ao seu destinatário.

Ao abrir a porta encontrou um vaso e ao lado um bilhete:

“Querida Luara, quando rompemos nosso noivado eu ainda estava preso em um amor possessivo. Cheguei em casa sem esperanças. E foi então que encontrei uma velha lata onde no rótulo já apagado pelo tempo ainda se podia ler: Como cultivar um amor-perfeito. Decidido a aprender a cultivar aquela flor, preparei o terreno, vivenciei o cansaço do trabalho, e aprendi a cultivar a paciência das estações. E quando as primeiras flores surgiram descobri que a perfeição do amor está no respeito as diferenças. Uma diferença que não se separa, mas ao contrário complemente. Nesta flor que hoje você recebe está o todo o tempo de um aprendizado que precisou morrer para nascer novamente. Hoje o amor que desejo viver ao seu lado é toa perfeito quanto estas flores. Aquelas sementes que hoje germinaram me ensinaram que o amor mais perfeito que existe é aquele que nasce do respeito e do cuidado. Na diferença aprendi das cores destas flores aprendi a te ver como a mais bela flor que completa o meu jardim.”

*Pe Flávio Sobreiro
Poeta, filósofo clínico
Cambuí/MG

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Licença Poética*



Tenho licença poética. Posso escrever o que eu quiser! Criar meus neologismos o quanto quiser.

Tenho licença poética. Posso chorar e bebericar palavras como mel. Posso me embriagar na arte de escrever e escrever o que me vier à cabeça.

Tenho licença poética. Posso suspirar por amores incompreendidos. Posso chorar como criança por ter me arrependido.

Tenho licença poética. Minha vida pode ser escrita em prosa, verso ou proversido.

Tenho licença poética. Pra falar o que vier na telha. Pra criar, pra parir, pra deslocar de contexto, pra rir.

Tenho licença poética. Pra dizer asneira, pra ser besteira, pra rasteira. Pra ser compreendido, pra ser atrevido, pra ser convalido, pra fazer sentido.

Tenho licença poética. Pra ser Platão, pra Aristóteles. Pra dirimir um sermão, pra ter ereção, pra criar algum teles.

Tenho licença poética. Posso poetizar sobre as coisas dos céus, da terra, e dos infernos. Posso tocar nos véus, na serra e nos cadernos.

Tenho licença poética. Pra poetizar sobre tudo e sobre nada. Pra delirar e me achar. Pra me perder e pra me entregar.

Tenho licença poética. Porque sou poeta, porque sou artista, porque sou filósofo, porque eu quero!

Com minha licença poética sou eu, único e muitos, sou você, em toda sua abertura e velamento.

Sou o que sou e o que quero ser nos meus poemas, pois tenho licença poética.

*Vinícius Fontes
Filósofo, estudante de Filosofia Clínica
Rio de Janeiro/RJ

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Lua Estelar_25fev2013*



E significativos foram os acontecimentos vindos do céu físico e metafísico – tempestades, asteróide, renúncia, tragédias. O momento agora é o de convalescença e de iniciar uma jornada de libertação de nossas mágoas, traumas, memórias e vivências emocionais que sofreram, sem dúvida, trancos e solavancos. Se não individuais, coletivos. A lua cheia passada foi forte e aniquiladora.

Eis agora uma Lua Estelar que apresenta alguma luz no fim do túnel e acena com oxigenações interessantes aos estados memoráveis e registrados em nosso corpo material e astral. Esse Arcano, a Estrela, ainda lida com o pathos, mas de forma regular e fluente, com menos impacto e significativa restauração. Sim, esta é necessária para dar continuidade às reestruturações que virão a partir das que foram desmoronadas ou partidas.

A imagem dessa Lua Estelar é poética, por trazer a luz das estrelas e do céu, numa noite ainda longe de um amanhecer. Há distante percurso até ele, mas já há nutrição dessa movimentação interna em direção às luzes que se apresentam a estes_lares. Este momento traz maior aconchego, e tudo há de ficar mais claro por conta disso. O que passou a ser vivenciado, porém, desde o mês passado, é que nossas casas habitam um universo aberto e nova consciência desta ausência de delimitação entre nosso planeta e o infinito deixa de ser apenas teórica, e nossos lares foram ampliados.

Outro aspecto desse Arcano é exatamente este, o de trazer a tona, tirar os véus, desnudar e, como consequência, desanuviar. Apesar das dificuldades de desapego, ele será extraordinário no comando das direções de qualquer construção, ou até mesmo destruição obviamente.

Época de soltar, desapegar, fluir, deixar escorrer as lágrimas, suores e ressentimentos. Banhe-se em límpidas águas mas, sobretudo, observe a existência e possibilidade de acesso às mesmas. Desnude-se de si e para si. Aí está o segredo. Hora de clareza conosco e isso trará paz ao mundo. Mas não se iluda que isso será fácil, porém, sem dúvida, verdadeiro.

O período é de renovação e de readquirir confiança em si e na vida. A intuição estará a postos para guiar-nos. Lembre-se da possibilidade de equilíbrio a ser acessada por todo ser vivente, senão não estaríamos nesta condição sobrevivente. Na verdade, a esperança não morre, apenas se apaga. Comece a acender e a enxergar sua própria estrela de novo. Ela lhe ascenderá.

Abra-se para sua morada estelar, Mãe Natureza. Você só precisa de você mesmo para sentir os céus e as estrelas, eles sempre estiveram aqui, nós é que deixamos de considerá-los dessa maneira próxima. O momento permite que haja essa comunhão nova_mente. E familiaridades extra_lares se apresentarão.

A Morada do Sentir receberá muito desse Avante Estelar

*Renata Bastos
Filósofa, mestre em filosofia, filósofa clínica, terapeuta astral
São Paulo/SP

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Em caso de paixão, use o cérebro!



Bom dia

A pauta de nossa reunião hoje é curta, mas de importância vital para nossa integridade. A situação está piorando, os resultados péssimos e as queixas se acumulando. Se continuarmos assim, seremos ultrapassados pela concorrência e logo decretaremos falência. Chamei vocês dois aqui, Coração e Cérebro, em regime de urgência, para comunicar uma pequena alteração em suas atribuições.

Coração, teu desempenho das funções orgânicas tem sido excelente ao longo de todos estes anos, mas no que tange as questões ditas “do coração”, está deixando a desejar. Continua a se comportar como um adolescente. Será que todos os treinamentos e reciclagens pelas quais temos investido não surtiram efeito?

Em primeiro lugar, comete erros de seleção dignos de um estagiário. Mais ainda, repete com freqüência o mesmo padrão. Esqueceu as lições que o cérebro te ensinou sobre sinais de que o outro está desinteressado? Mesmo depois de todas nossas conversas ainda é ingênuo, mole e inocente demais. Demora muito para escolher alguém, mas quando isso acontece, é totalmente passional. Cria lógicas malucas, nunca pede parecer algum para o cérebro e decide tudo sozinho. Doa-te por inteiro, não cobra nada, acredita que todos são sinceros e ama com todas as forças.

Sei que este tipo de comportamento promove aquela sensação maravilhosa de passarinhos verdes cantando, borboletas no estômago e macacos no telhado, mas isto não é duradouro. Enquanto se mantém é ótimo, tomara fosse eterno, pois é a estratégia vencedora que todos perseguimos. Mas às vezes, este mesmo coração que mostrou coragem e ousadia para mergulhar em águas profundas, afoga-se por um amor não correspondido.

Decepcionado, mas ainda batendo loucamente, deixa de ver o colorido da vida. Não suporta mais sentir dor, nem escutar um não. Tal qual uma garotinha assustada, esconde-se na elegância e finge desinteresse, abdica da adrenalina da paixão, substitui a montanha russa emocional por um carrossel e sai de cena. Pede férias, solicita licença saúde, ameaça aposentadoria precoce e delega a autonomia do sentimento para o cérebro, que solícito como um super-herói, até tenta ajudar, mas falta-lhe sensibilidade.

.Outras vezes mostra toda a falta de jogo de cintura, desencadeando arritmias perigosas. Não sabe negociar, tem ciúmes, medo, insegurança, vergonha. Têm medo até dos teus próprios sentimentos. O cérebro se aproveita disto e te escraviza, não permitindo que se aventure naquilo que tens de melhor, amar sem porquês. Está satisfeito apenas com tuas funções físicas e aquelas relacionadas ao amor pelo semelhante? Esta feliz sendo quem não és? Pode bem mais do que isto.

Cérebro, agora é a sua vez. Sei que não tem a menor experiência com o tema, é um teórico. Nunca sentiste o que é amar, tampouco ser amado. Teu alimento são conceitos e o prazer em arrumar toda a bagunça que o coração deixa para trás. Mesmo sabendo que não foi consultado, ou que por alguma razão tenha te omitido, assume a responsabilidade pelos estragos emocionais, busca nos teus arquivos todos os sinais que o coração ignorou, racionaliza e justifica a fim de curar as feridas. E ainda por cima, dá conselhos, que entram por um ouvido e saem por outro.

Outras vezes te antecipa ao coração e passa a recrutar possíveis candidatos a um relacionamento. Avalia pré requisitos, testa, cria defeitos, coloca virgulas, insere “poréns”, e quando se dá conta, as coisas já aconteceram a tua revelia ou mais provavelmente deixaram de acontecer. Não gosta de conversar, silencia, adora a lógica, e quase nunca escuta o que o coração quer dizer.

Não quero mais que fique vigiando os outros nem que trabalhe durante as madrugadas e finais de semana. Dê liberdade ao coração. Na medida em que ele tiver autonomia, poderá lhe ensinar o prazer de um sentimento. Vai gostar de desfrutar da paz que um amor romântico oferece.

Desculpem se fui muito rigoroso com vocês, acho que o estresse da vida profissional está tão incorporado em mim, que os tratei como funcionários de uma empresa, mas na verdade gostaria de cuidá-los como filhos. Lembro de quando eram crianças e viviam brincando, conversando, se divertindo. Dormíamos e acordávamos felizes, sempre juntos, unidos. Não sei o que aconteceu, mas agora cresceram e ficaram diferentes. Não se falam. Quando um gosta, o outro discorda; quando o outro escolhe, o primeiro não aceita. Parece que nem se conhecem, um quer dominar, ignorar o outro.

Se vocês não fizerem as pazes e dialogarem entre si, como imaginam se relacionar com outras pessoas? Os outros têm cérebros e corações que não funcionam igual a vocês e a complicação será maior ainda. Existem cérebros que pensam como empresas, corações que se alimentam só de amor, cérebros ditadores, corações escravos, cérebros omissos, corações frágeis...cada “eu” é diferente dos demais. Existem até mesmo casais onde um faz o papel de cérebro e o outro de coração. Antes de se aproximar dos outros, vocês precisam estar juntos e se entender. Como já foi dito por alguém,” Não é o amor que sustenta os relacionamentos, é o modo de se relacionar que sustenta o amor”. Fiquem bem. Amanhã será um novo dia.

* Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

**Artigo escrito em parceria com Claudia Marques

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos*



Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!

*Mário Quintana

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Nos braços de um anjo*



Era de sexo também. Mas não era só de sexo. Era com sexo. E sexo dos bons, é claro. Não era só de sexo que eu falava. Mas era para sentir uma coisa que justificasse aquele sexo bom.

Era para encaixar. E encaixou. E?

E aí o medo tomou conta de tudo e mais um casal se perdeu em meio às regras que brotam de todo lugar e impedem o ser humano de amar.

Conheci poucas pessoas que não sentiam medo de amar. Medo de amar... Ha ha ha!

Conheci poucas pessoas que arriscavam tudo pela delícia de sentir tudo, muito além do que o corpo pode registrar.

Conheci poucas pessoas capazes de esquecer o amanhã para se entregar ao amanhã de corpo e alma. É isso mesmo. E só tem um jeito de se chegar ao amanhã com plenitude e com aquele "tum tum tum" gostoso no peito. É esquecendo que ele existe.

Viver é uma arte que poucos sabem realizar. Viver é uma arte.

Amar é outra, que é para poucos.

Descobrir que encaixou e seguir em frente é para raríssimos. E o tal do medo?

Então a gente fica só com o sexo? Também não é para qualquer um!

É isso gente. As singularidades. Cada um é um. Cada um tem uma necessidade, ou muitas.

Só sexo! Ainda assim é muito bom, mas não é para qualquer um. Assim como amar não é para qualquer um.

Agora, fazer sexo amando é de morrer e não querer voltar. E também não é para qualquer um.

Tem que ter o peito aberto, ser livre e... Sei lá! Ser leve, talvez. Não pensar no amanhã. Não pensar no que passou. Não pensar em nada. Viver o agora... Sentir cada vibração, cada pulsação. Sentir o calor, calma e lentamente. Aquela coisa que encaixou, lembra? Naquela hora em que você não pensou no trabalho, no cachorro, nos filhos, no carro, na celulite... Nos seus medos. O momento da verdade em suas mentiras. Aquela coisa que bate lá dentro e que você despreza só para culpar Deus ou a sua vida, por não ser feliz no amor.

Mas não é tão fácil assim, eu sei. A tal da singularidade, cada um é de um jeito. Respeito.

Mas quem quiser aproveitar a receita, digo que tem gente por aí se lambuzando de sexo da melhor qualidade e... Com a alma nas alturas! Com um sorriso constante nos lábios. Com uma luzinha vermelha brilhando no peito. Como um segredo menino que quer pular para fora da gente e gritar que é feliz.

Uau!

As alegrias do amor são sempre proporcionais ao medo de as perdermos.
Stendhal

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Escrituras, desleituras, releituras VI*



"O artista da fome vai longe demais. Mas este é o risco, o perigo inerente a qualquer ato artístico: deve-se estar disposto a dar a vida"

"(...) pedir vida às palavras é arriscar-se a ser esmagado por elas"

"Tudo tem lugar na ausência, na distância entre palavra e elocução, e cada poema surge no momento em que nada mais resta a dizer"

"A obra que desperta nosso senso de literatura, que nos dá um novo sentimento do que a literatura pode ser, é a obra que muda nossa vida. Muitas vezes, parece improvável, como se surgisse do nada, e por estar tão implacavelmente fora da norma, não temos escolha a não ser criar um novo lugar para ela"

"Louis Wolfson se situa fora da literatura como a conhecemos e para sermos justos com ele devemos lê-lo em seus próprios termos. Pois somente assim seremos capazes de descobrir o livro dele pelo que é: uma das raras obras capazes de mudar nossa percepção do mundo"

"O poeta como errante solitário, como um homem na multidão, como um escriba sem rosto. A poesia como uma arte da solidão"

"(...) é mais que apenas solidão. É exílio e uma forma de chegar a um acordo com o exílio que, de alguma forma, para o bem ou para o mal, consegue deixar a condição de exílio intacta"

"Como em Tchekhov ou na fase inicial de Joyce, o desejo é deixar os acontecimentos falarem por si mesmos, escolher o detalhe exato que tudo dirá e, desse modo, permitir que o máximo possível permaneça não dito. Essa espécie de contenção requer paradoxalmente uma abertura de espírito de que apenas poucos estão dotados: uma capacidade de aceitar o dado, de permanecer uma testemunha da conduta humana e não sucumbir à tentação de se tornar juiz"

"O indizível gera uma poesia que ameaça continuamente ultrapassar os limites do dizível"

"Ashbery escreve como um forasteiro, como alguém destituído da possibilidade de uma interação tolerável com o mundo e, por mais dissimulado ou humorístico que se torne, o sentimento essencial em seus poemas é de saudade"

"Se a linguagem deve ser levada até seu extremo, então o escritor deve se condenar a um exílio de dúvida, a um deserto de incerteza. O que temos de fazer, com efeito, é criar uma poética da ausência. Os mortos não podem ser ressuscitados, mas eles podem ser ouvidos, e suas vozes vivem no Livro"

*Paul Auster

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O Lobo do Homem*



Querido leitor que você esteja em paz. Thomas Hobbes, filósofo inglês que viveu na idade moderna (1588-1679), populariza um dizer de Plauto (254-184) “Homo homini lúpus”. Traduzindo para o português, a frase quer dizer “o homem é o lobo do homem”.

De acordo com Hobbes, o egoísmo é o mais básico comportamento humano. Ele acreditava que o homem é por natureza mau e, se você lhe tirar seu espaço, ele se torna agressivo e cruel com seu semelhante. A solução para que essa maldade seja amenizada era que o homem deveria ser privado de certas liberdades. Essa era a única forma que Thomas Hobbes via de manter a ordem e a paz nos burgos, do contrário, será uma “guerra de todos contra todos”.

Para o filósofo inglês, os homens são perfeitamente iguais, desejam as mesmas coisas, têm as mesmas necessidades, o mesmo instinto de autopreservação. Por isso, em “Estado Natural” ele necessita do conflito e, dessa forma, surgem as revoltas e a guerra. As guerras existem, portanto, porque os homens querem as mesmas coisas, sustenta Hobbes. Como então manter a paz neste “estado natural” de guerra da espécie humana?

Para Thomas Hobbes, a solução é somente por intermédio de um pacto, de um contrato formal entre pessoas iguais que renunciam suas liberdades em troca de tranquilidade. É desse período que vem muitas de nossas convenções presentes em nossos dias atuais. Há os que acreditam e defendem esse ponto de vista filosófico e citam os pactos como as cartas magnas de cada país conhecidas por nós como Constituição. Aqui, cabe mais uma pergunta: o que seria de um país sem sua constituição?

Thomas Hobbes pertence ao período filosófico que denominamos de “contratualismo”, que é o período onde os filósofos acreditavam que a evolução do homem passa por um acordo coletivo. Portanto, só poderia se manter a paz e a evolução da espécie humana por intermédio de instrumentos contratuais.

Você já refletiu sobre essas questões anteriormente? Você concorda que o homem literalmente se mata para ter mais dinheiro, status, sucesso, poder, enfim, que o homem é o lobo do homem?
Jean Jacques Rousseau, ao contrário de Thomas Hobbes, com uma visão um pouco mais puritana e humanista, acreditava que “o homem é bom por natureza”, contudo é o convívio em sociedade que o corrompe.

Talvez não seja correto afirmar que nem o homem é o lobo do homem e nem o homem é bom por natureza. Antes disso, vêm as características individuais, pessoais de cada indivíduo, não há uma regra geral. Para cada um é de um jeito. É a singularidade, algo singular em cada indivíduo que só a ele pertence, fruto de uma história vivida a partir da sua realidade.

Para nós, filósofos clínicos, a singularidade é a digital de cada pessoa, como a íris, ou seja, é única. E esse caráter único, autêntico, também pode se traduzir como sendo o seu sabor pessoal. Portanto, quando Hobbes diz ser o homem lobo do homem, ou seja, “mau por natureza” isso é assim para ele.

Quando Rousseau diz que o homem é “bom por natureza” isso é assim para Rousseau. Portanto, quando alguém vir com receita pronta, ideias pré-concebidas onde abrange a coletividade, a humanidade, para mim, devemos primeiro saber que isso é a representação de mundo da pessoa que está falando, que está dizendo, e não uma verdade absoluta.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre o homem ser o lobo do homem?

*Beto Colombo
Empresário, filósofo clínico, coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Leitura ingênua*



Esses dias, remexendo em alguns livros que (impulsivamente) comprei em sebos, encontrei um que somente comprei por causa do preço (R$ 7,00). Uma obra de John Stuart Mill, intitulada Da Liberdade (On Liberty). Resolvi lê-lo nas horas vagas para ver do que trata, já que é de uma coleção chamada Clássicos da Democracia e por ser um texto do século XIX, achei que não fosse achar interessante. Afinal, “um livro sobre filosofia política, quase bicentenário, poderia ser enfadonho”. Mas, para minha surpresa, estou gostando. Inclusive espero, assim que estiver com mais tempo, fazer uma resenha.

Entretanto, o que gostaria de tratar no presente texto não é da qualidade ou das teses da obra de J. S. Mill. Lendo-o percebi que a primeira impressão de um livro pode nos levar a enganos. Em outras palavras, o que num primeiro momento parece uma ideia bem articulada e claramente compreensível, pode esconder diversas teses, temas subentendidos, finalidades não esclarecidas, questões contextuais tanto pessoais quanto político e históricas.

Nos estudos que empreendo sobre Heidegger percebo que determinadas afirmações estão em germe em leituras feitas anteriormente pelo filósofo e mais claras em textos posteriores. Também é possível ver mudanças de perspectivas, finalidades não tão claras e, por fim, se me ativer em uma obra, jamais saberei a fundo (se é que isso é possível) o que ele quis com seu texto.

Enquanto me detenho na pesquisa de determinado tema, de um período e com uma finalidade específica, vejo o quanto de riqueza que se extrai ao ler várias vezes o mesmo texto que uso de base para a pesquisa. E, por fim, noto que constitui um grande engano esperar conhecer qualquer autor a partir de uma obra.

Ainda em relação à Heidegger, diversas pessoas se atêm a Ser e Tempo, lendo-o várias vezes para querer entender o autor. Mas, esquecem que há mais de 10 anos ele já vinha desenvolvendo suas pesquisas e o resultado destas aparecia em cursos e nos trabalhos publicados. Isso sem contar com as leituras dos filósofos anteriores que o influenciaram fortemente e todo o contexto do qual fez parte e que certamente contribuíram para orientação de seu empreendimento filosófico.

Não tenho a ilusão de achar que conhecerei bem esse filósofo, nem na questão específica que vou tratar. Tenho convicção de que deverei ficar sempre disposto a ter refutados os resultados do que pesquisei. Afinal, a única certeza de que tenho na vida é de que esta cessará um dia.

Voltando ao Stuart Mill, em breve devo terminar de ler sua obra. Sairei dessa leitura com várias ideias, dúvidas, novos modos de ver o mundo e meu modo de lidar com este. Mas, o que não poderei afirmar é que conheço bastante as ideias de Mill. Do mesmo modo seria ingênuo achar que, por exemplo, conheço Machado de Assis por ter lido duas obras dele (Isso mesmo! Li somente duas obras), e assim para vários outros.

Mas, nada disso tira a validade de se ler uma ou outra obra de quaisquer autores. Minha finalidade ao expor essas ideias é somente deixar claro que se constitui grande ingenuidade pensar que conhecemos o suficiente qualquer ideia que nos é apresentada pelos textos (e não somente destes). Ao mesmo tempo, penso que é sempre bom ler ideias diversificadas, pois, mesmo não nos tornando especialistas em determinados assuntos, ganharemos bastante com cada nova ideia que nos surge.

Da mesma maneira como ler J. S. Mill me ajudou a pensar outras perspectivas do tema da liberdade na organização social, mesmo não o compreendendo em detalhes – já que estes passam despercebidos por uma impressão de aparente evidência e clareza, uma vez que como não conheço tanto o autor –, certamente está valendo à pena. Ler, estudar, pesquisar somente torna-se válido quando todos os resultados sejam reconhecidos como aproximações.

A filosofia me ensinou que antes de buscar coisas novas para aprender, devemos questionar o que no quotidiano nos parece óbvio e banal. Por trás de uma palavra podem estar escondidas empoeiradas ideias que nos foram legadas há séculos e hoje se encontram com seu vigor inicial apagados. Aliás, boa parte do que disse ao longo desse texto devo a Mill e Heidegger.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Matemática da Vida*



No compasso do tempo
o círculo da vida
divide-se em partes
nem sempre iguais

que desiguais
somam partidas e chegadas
e multiplicam esperanças

subtraem barreiras
e constroem pontes
nos centímetros de pequenas alegrias

quilômetros são percorridos
e no segundo que antecede
a chegada vitoriosa

a eternidade se faz memória
do passado sempre presente

em futuras equações
repletas de possibilidades
que de tão velhas e cansadas
sabem-se incertas na soma final

do hoje que se perde
nos encontros das horas
cronometradas no relógio da vida

que no tempo de cada tempo
surge o tempo que nos resta

na felicidade que se faz igual
presente nos contextos frágeis
de questões sem respostas

e números escritos com silêncio
nascidos na alma
e crescentes no ser

*Padre Flávio Sobreiro
Poeta, filósofo clínico
Cambuí/MG

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXXI*



Um instante

Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

*Ferreira Gullar

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Fragmentos filosóficos delirantes XCXXXX*

Soberania

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

*Manoel de Barros

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Escrever para se conhecer*

Escrever me compele a escrever. Pensar me faz pensar. Meu ócio nem sempre é criativo como gostaria que fosse, mas eu procuro fazer dele algo pra mim. No meu ócio criativo, quando dos meus insights me embebedo, escrevo muitas coisas que gostaria que tivessem tom filosófico, porém às vezes não são. Quando são poemas, também fico feliz! Pois quando têm tom filosófico, fico maravilhado!

Levo comigo meu bloco de notas, no mundo moderno, no celular, para não perder tempo procurando lápis ou caneta. Apesar de ser um "escritor" à moda antiga, estou cada vez mais me rendendo às tecnologias do mundo moderno. Em compensação, minha mente vai muito mais além e mais rápido do que meus dedos conseguem acompanhar.

No meu ócio criativo, transformo-me a cada frase composta. Repenso em várias coisas ao mesmo tempo; e chego à conclusão de que estou sempre aberto à mudança. A vida é transformação e transformação pressupõe movimento.

No movimento da minha vida, estou a cada dia e a cada palavra, descobrindo-me! Entendendo que sou mais do que um: sou muitos e todos são tão complexos que preciso da minha vida inteira pra descobrir.

*Vinícius Fontes
Filósofo, estudante de filosofia clínica
Rio de Janeiro/RJ

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Escrituras, desleituras, releituras V*

Sobre a Escrita...

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida.

Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas.

Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

*Clarice Lispector

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Flores pelo caminho da alma*

O vento vai trazendo e levando sementes.
Plantando sonhos e desejos.
Imaginando. Devaneios múltiplos.
Angustiadamente duvidando assobiando vai.
Lá vai o vento e o tempo!
Lá vai!
Pelos caminhos pedregosos,
Flores, entre meios, escutam o vento.
E se deliciam sem ao menos se entristecer.
Há mais sentido em tudo
Do que se enrigecer diante os vendavais.
Render e se deixar levar,
Como as folhas e flores,
Acendem a alma e encantam a vida.
As flores pelo caminho da alma
Dão lições que nem mesmo o vento,
Com toda sua serilepice,
Consegue alcançar.
Quem tem ouvidos aprende.
Quem vê através da alma, imagina.
Quem planta colhe poesia.

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, escritora, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Tempo*

Há deuses nos olhando...
E dentre todos que nos assistem e insistem,
O tempo é entidade das mais estranhas.
Não se desnuda facilmente;
Não se permite ao óbvio... muito menos se oculta dele.
Como nuvens que esvanecem,
Corre solto por aí, inconsequente em seu percurso vago.
Obstinados e alucinados a ele se agarram...
Enquanto certos outros lhe abrem as portas,
Deixando passar até o que desconhecem.
Mergulhados em sonoridades leves, livres e intensas,
E pe(n)sares profundos ou transitórios,
Aguardam sentenças inexoráveis e incoerentes,
Algumas dotadas do sabor efêmero de deleites incomuns...
O sabor do tempo de cada um.
Sua natureza imprevisível
A uns engana
E a outros simplesmente não se permite.
Não plenamente...
Sabe que seu sofrer e ressentimento não são por vezes
Sequer percebidos na fugacidade que os envolve.
Ele sabe ser carente do que não pode reter,
Do que não se aventura a revelar;
Driblado como se a rede da incredulidade o balançasse
Ou abanasse o pó vazio dos pesares.
Delírios o desafiam, enquanto senilidades o contemplam,
Plácidos e confiantes de que,
Não importa para onde caminhem,
Ele sempre estará lá, na espreita incerta de uma chegada.
O tempo surpreende distraídos e amantes,
E pune Setembro, trancando-o fora do Universo...
Apenas por intervir em vidas e tempos alheios.
Mas nos seus próprios limites
Não finda nunca o que recicla... e renova tudo o que chega ao fim.
Sua linearidade se confunde com muito de tudo que preferiria esquecer ou lembrar,
Pois não há maior dor do que presenciar dores eternas...
E não há plenitude melhor do que sentir os ímpetos de amor.
Os segredos das linhas do tempo...
Apenas se escondem daqueles que não sonham o suficiente...
Mas ainda que em sonhos, que ninguém se engane:
A eternidade esbarra em todos, mas a atemporalidade é para poucos...
Exercê-la demanda atitude, investimento e um quê de insanidade,
Além do tempo maduro dos que se permitem.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Bom dia amigos*












O cineclube AudiovisUAI de São Tiago/MG retornará às suas atividades no mês de fevereiro.

A primeira exibição acontecerá no domingo, dia 17, com uma sessão especial no FORNO da praça de São Tiago, a partir das 19 horas.

Falaremos de samba, Baden Powell e Cartola e, também, de circo e palhaços.

E muito café-com-biscoito!

Participe e convide seus amigos divulgando a nossa programação.

*Mariana Fernandes
Cineasta, jornalista, filósofa clínica
Coordenadora do Cineclube AudiovisUAI
São João del Rei/MG

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O SIM QUE VALE POR UM NÃO*

Vou iniciar contando uma piada antiga, a diferença entre o político e a mocinha. Quando o político diz “sim”, significa “talvez”. Quando fala “talvez”, quer dizer “não”, e quando diz “não”, deixa de ser político. Por outro lado, quando a mocinha diz “não”, tem o significado de “talvez”. Quando fala “talvez”, quer dizer “sim”, e quando diz “sim”, deixa de ser mocinha.

Sem entrar no mérito da piada, a intenção foi apenas ilustrar quantas vezes dizemos “sim”, quando na verdade gostaríamos de falar “não” e vice versa. Será que é mais fácil dizer um “sim” que um “não”? Dizer “sim” não demanda muitas explicações, mas dizer “não” quase sempre exige uma justificativa. Em tese, se você concordar e aceitar terá maiores chances de agradar e ser bem quisto pelos outros.

Por isto, algumas pessoas dizem “sim”, mas terminam agindo como um “não”. Você não queria ir à praia, mas não conseguiu recusar o convite. Vai mas fica emburrado o tempo todo, sequer pisa na areia. “Sim” verbalizado e “não” na atitude. O contrário também é verdadeiro. Você diz que não vai comprar mais nada até o final do ano, na outra semana chega em casa com uma linda bolsa adquirida por uma bagatela na liquidação. “Não” prometido e conduta de “sim”. Pode estar havendo uma espécie de conflito entre consciente e inconsciente que se manifesta por um engano entre o verbal e o comportamental.

Para evitar estas contradições, inventaram a palavra “talvez”, que não significa nem “sim”, nem “não”. Na verdade não significa nada. Você não sabe o que responder, então lança mão do “talvez”, que funciona como sinônimo de não sei, tanto faz, é possível. O que é pior, escutar um “sim” que significa “não” ou um “talvez” que não significa nada?

A chave para esta questão está na coerência entre intenção, atitude e verbo. Os três precisam estar alinhados. Imagine como seria fácil se o “sim” e o “não” exprimissem exatamente aquilo que cada um pensa, sente ou fala e somente fossem ditos nestas condições. A piada da mocinha e do político não existiria e as relações seriam bem mais tranqüilas.

Ao “talvez” sobrariam então apenas aquelas situações específicas onde em determinado momento estaríamos convictos de um “não”, mas acenaríamos com a possibilidade de se transformar em um “sim” futuramente. Hoje o prisioneiro não tem liberdade, mas se houver bom comportamento, talvez possa sair da prisão.

“Sim” ou “não” são afirmativas e negações que mudam toda uma existência e não devem ser ditos sem convicção. Precisam demonstrar firmeza, certeza, clareza, segurança. “Sim”, aceito casar com você. “Sim”, você foi aprovado. “Não”, vou largar este emprego. O talvez é inútil, serve só para fragilizar nossa auto-estima.

Não existe um número perfeito, um equilíbrio ideal entre “sim” e “não” ao longo da vida. Certamente serão muitos, e precisam ser bem mais numerosos que as incertezas do “talvez”. “Sim” e “não” precisam ser sinceros, mas necessariamente não precisam ser eternos. Que assim seja!

*Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A Santa Maria que eu vivi!**

A que bebeu poesia*









A louca que passa
Deixou na vidraça
Um olhar que no fundo
Tem muita desgraça.

Será minha mãe
A pobre da louca
Que nada mais tendo
Conserva a ternura?

Será minha noiva
Que louca ficou
Depois que parti
No barco da guerra?

Será minha filha
A louca do bairro
Que a vida judiou
Depois que morri?

Ou foi a poesia
Que a louca bebeu
Que lhe deu esse ar
De ser doutro mundo?

*Luiz Guilherme do Prado Veppo
Médico psiquiatra, professor de literatura, poeta
1932 - 1999

**Hélio Strassburger

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Os poemas *












Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

*Mário Quintana
(Esconderijos do Tempo)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sobre a arte de redigir silêncios*

Uma fenomenologia da espera descreve seu vocabulário pela quimera a se mostrar esconderijo. A palavra refugiada na estrutura do silêncio parece dizer mais. Seu instante fugaz aponta entrelinhas de um esboço. Seu viés multiplica-se nos enredos da expressão absurda.

A suspeita de uma razão vigiada persegue eventos pelos contornos da ficção. Talvez essa novidade, como um deslize da ideia não declarada, se mostre nas páginas em branco. Esses episódios se sucedem em pretextos para um sentido à margem do discurso principal.

Os manuscritos do inesperado podem ser anúncio ao relatar invisibilidades. Ao interrogar esses indizíveis esconderijos das perolas imperfeitas, um olhar escuta a geografia dos exílios. Os espaços desacreditados se protegem no retiro das fórmulas secretas. Os rituais da linguagem singular apreciam a redescoberta desses espaços calados. Ânimos de diversidade na interseção entre a promessa de se mostrar e os rastros.

A interrogação que se desdobra para além das respostas conhecidas, busca transbordar eventos ainda sem tradução. Num brevíssimo intervalo de tempo entre dizer e não-dizer, uma legião de personagens e territórios se insinua. Esteticidades a proteger um continente nem sempre dizível. Na penumbra das possibilidades a quase realidade sugere uma metafísica do anonimato.

O excesso de ruído costuma afugentar a expressividade do silêncio, um desses lugares por onde a alma se manifesta. A pronúncia irrefletida desse vocabulário por vir aprecia o descaso do leitor desavisado. Não tem vontade de retornar ao modelo com o qual aprendeu a decifrar sempre as mesmas coisas. Eis aí um desses refúgios onde a classificação e o gesso acadêmico não conseguem entrar.

Uma singularidade híbrida abriga a estrutura de pensamento impregnada de mistérios, segredos por onde o silenciar esboça caricaturas. Aprisionada nos entremeios de verdade e ficção, essa mescla indefinível de imagens se oferece na pluralidade dos contra sensos.

Há rumores e pressentimentos dessas vozes da interioridade em lógicas superlativas. Assim de súbito, parece ser a errância a cumplice dessa emancipação da realidade conhecida como fantasia. A sensibilidade calada, ao tentar ser vida cotidiana, parece sussurrar episódios fora de si.

Ao repensar um texto graças à incompletude da autoria, inúmeros espaços de atuação existencial podem ser recriados, assim descontinua-se a obra inicial na direção de outros inéditos. A retórica das quietudes aguarda a nova fonte de originais (você),

*Hélio Strassburger