terça-feira, 30 de abril de 2013

Timidez*



Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

*Cecília Meireles

segunda-feira, 29 de abril de 2013

OS PROJETOS*



Sozinho, passeando em um grande parque, ele dizia para si mesmo: “Como ela ficaria bela em seu vestido real, complicado e faustoso, descendo, através da atmosfera de uma bela tarde, os degraus de mármore de um palácio diante de grandes gramados e laguinhos! Porque ela tem, naturalmente, o ar de uma princesa.”

Passando, mais tarde, por uma rua, ele parou diante de uma loja de gravuras e encontrando numa pasta uma estampa representando uma paisagem tropical. se disse: “Não! Não é num palácio que eu desejaria possuir sua querida vida. Nós não estaríamos em casa. Porque em suas paredes incrustadas de ouro não haveria lugar para pendurar o seu retrato; naquelas solenes galerias não existiriam recantos para nossa intimidade. Decididamente, é lá que é preciso ficar para cultivar o sonho de minha vida.”

E, analisando com os olhos todos os detalhes da gravura, ele continuou, mentalmente: “À beira-mar, uma bela cabana de madeira, cercada por todas essas árvores bizarras e luminosas das quais me esqueço os nomes..., na atmosfera um odor inebriante, indefinível.., na cabana, um perfume de rosas e almíscar. Mais longe, atrás de nosso pequeno domínio, as pontas de mastros dos botes oscilando com as ondas.,, em volta de nós, além do quarto iluminado por uma luz rósea tamisada pelas cortinas, decoradas com esteiras frescas e flores capitosas com algumas cadeiras de rococ6 português, de uma madeira pesada, tenebrosa (onde ela repousaria, calmamente, refrescando-se e fumando um tabaco levemente opiáceo); além do terraço, a gritaria de pássaros embriagados pelas luzes e a tagarelagem das negrinhas.., e à noite, para servir de acompanhamento a meus sonhos, o canto lamentoso de árvores musicais, de melancólicas casuarinas. Sim, na verdade, é bem este cenário lá que eu procurava. Que faria eu com um palácio?”

E, mais adiante, como ele seguisse por uma grande avenida, vislumbrou um albergue asseado onde, de uma janela alegrada por cortinas indianas multicores, penduravam-se duas cabeças sorridentes. E, logo a seguir: “É preciso”, disse para si, “que meu pensamento seja um grande vagabundo para ir procurar tão longe o que está perto de mim. O prazer e a felicidade estão no primeiro albergue encontrado, no albergue do acaso, tão fecundo e voluptuoso. Uma lareira, faianças vistosas, um jantar passável, um vinho rude e um leito muito largo com lençóis um pouco ásperos, mas frescos; o que há de melhor?”

E voltando para casa sozinho àquela hora onde os conselhos da sabedoria não são mais abafados pelo burburinho da vida exterior, ele se disse: “Tive hoje, em sonho, três domicílios onde encontrei prazeres iguais. Por que obrigar meu corpo a mudar de lugar se minha alma viaja tão rapidamente? De que serve a execução de projetos, posto que o projeto, em si, é já um gozo suficiente?"

*Charles Baudelaire

domingo, 28 de abril de 2013

O Poeta é Belo*



O poeta é belo como o Taj-Mahal
feito de renda e mármore e serenidade

O poeta é belo como o imprevisto perfil de uma árvore
ao primeiro relâmpago da tempestade

O poeta é belo porque os seus farrapos
são do tecido da eternidade

*Mário Quintana

sábado, 27 de abril de 2013



meus olhos correm horizonte
brumoso rio
esconde navegantes
som chega
anunciando naus
fantasmas deslizes
secretos "piratas"
aguardam
pleno sol...

Idalina Krause
Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Talvez*



Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

*Pablo Neruda

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Lua Sol_25 abril 2013*



E eis que seu parceiro chega. Mas ela rodopiou tanto entremundos que deve saber da necessidade de um tempo para aterrissar e concebê-lo. E não é sempre dessa forma tão próxima que essa visita acontece. Ele agora está aí, bem ao seu lado. A torcida é para que uma dialética acorra. Numa tradução literal do grego διαλεκτική ou do latim dialectĭca ou dialectĭce = caminho entre as ideias.

É também como aquele antibiótico que, após a segunda ou terceira dose, já faz com que os sintomas sejam quase inexistentes. Chega essa força solar e gera maior luz nesta Lua. Mas, a princípio, não recebemos de forma fluente ou tranquila essa claridade, já que nitidamente cegante. Talvez também por falta de costume ou proximidade. Mas não há como não aceitá-la, pois ela caminha entre as ideias, em uma dança possível somente por esta Lua Sol.

Há muito na natureza que nos escapa. Isto se reflete na sequência de signos e números em que, o anterior sempre apresenta algo bem diferente do posterior e assim por diante. Áries é muito diferente de Touro, assim como o 1 muito diferente do 2. Claro que as semelhanças e fluências são retomadas ao longo das sequências, mas o que se mostra aqui – esse Sol e essa Lua – representam uma própria diferença, que fortuitamente produz um caminho único e valioso, cônscio de sua sabedoria.

É o momento de pensar mais, e pensar em temas além-nós, além-umbigo. O momento traz o poder Sol Lua_Lua Sol, forças pilares de nossa existência, essência e, diante de escolha, de nossa própria fenomenologia. Que possa haver referência reverente para um construtivo uso e proveito desses mesmos e também de outros sequencialmente. Somos continuidade e não adianta querer findá-la. Ela continua. Os desafios a acompanham e, exatamente por isso, recantos preciosos podem ser alcançadas.

Estamos caminhando para a possibilidade de usufruto que se apresenta em breve e coincidirá com a parada de retrogradação de Saturno. No entanto, para isso, deve haver dose suficiente de conscientização do que aqui possa ser visto e sentido. Devemos intensificar uma dialética conosco mesmos.

A vivência da Lua passada (Lua Lua), nos deixou com uma possível sensação de fragilidade, pós intensidades que certamente se apresentaram na vida de cada um. “Loopings” podem ter ocorrido. Houve despertar de alguma forma e agora, é como se não acreditássemos que algum tipo de fortalecimento ou empoderamento possa ocorrer assim, de uma hora pra outra, como agora acontece de forma clara. Do mesmo modo, quando queremos ver muito uma pessoa e de repente, ela aparece bem na nossa frente, em plena luz do dia. As situações ficarão claras.

Vamos mais além, pois o momento é pra isso mesmo. Sairei um pouco do contexto para tentar me aproximar mais do que pretendo dizer. Vamos pensar, no recente atentado em Boston e sobre os irmãos envolvidos e responsáveis pelo mesmo. Claro que não há justificativas para o que fizeram, dando fim de forma aleatória a vidas tanto infantis como adultas. O ponto é, esses “combatentes inimigos”, como passaram a ser chamados, possivelmente acreditam de alguma forma que estão fazendo algum bem. Mais ou menos semelhante à morte de mendigos em SP que eram fuzilados enquanto dormiam por homens que chegavam de moto. Mortos em série durante as frias noites paulistanas. Quem matava não devia ter isso como hobby, mas sim acreditar, no mínimo, estar fazendo algum tipo de bem. E se esta minha colocação é certa, e não saberemos ao certo, de que por mais passível de inaceitação sejam esses atos ou decisão pelos mesmos, há uma crença por trás dos mesmos de que as escolhas feitas são certas. Do mesmo modo, sabemos que a briga Oriente Ocidente é antiga, e que nada facilmente entendemos os modos de cada um dos lados pensar. Todavia, há imensas trocas construtivas também ocorrendo entre esses mundos, prova disse são o Yoga, o Budismo e autores que trabalham com sabedorias milenares e as congregam com o que o lado Ocidental pensa. E falar do Oriente, todavia, como uma coisa só é bobagem. O lado crítico dessa relação está nos pontos ditos “religiosos” e não relacionados ao hinduísmo nem ao budismo ou ao taoismo. Mas muito aos muçulmanos ou islâmicos que na figura de Alá (palavra que designa Deus em árabe) depositam toda sua fé e orientação.

Este conflito de difícil solução ou ao menos, dissolução, nos diz muito claramente que formas de pensar podem ser e são significativamente diferentes, mas talvez o exercício possa ser antes desconsiderar isso, e enfrentar isso. Não sei realmente se esse enfrentamento deva ser bélico. Não tenho condições para falar disso, ao menos se estivesse envolvida direta e praticamente em algum desses lados de tensão, poderia quem sabe, escolher ou opinar. Mas o que tudo isso tem a ver? Ou ainda, o que não tem a ver? Pra dizer que, mesmo que não se aceite no Ocidente que se opere desta maneira como estes “combatentes inimigos” fazem – tornar civis vítimas em situações de despreparo e de forma imprevista -, há contundência perigosa de suas crenças para quem não partilha de suas convicções, e mundos que são entendidos por eles (e talvez apenas por eles!), mas mesmo assim, possíveis de legitimidade e compreensão. Não tenho especialização na área e, mesmo que tivesse, suponho que seria um assunto de difícil argumentação, porém há condições de perceber, e qualquer um nascido de 1900 pra cá também pode ter, que ou se aceita a guerra como caminho sem questionar ou se inicia um processo de pensar de forma diferente e não combatente, seja de ideias, seja de crenças ou de atitudes.

Deveria haver uma Lei Universal (e há, mas parece somente “parecer haver”) que fosse respeitada e punitiva entorno da Mãe Terra, em direção a quem eliminasse ou ameaçasse eliminar qualquer espécie humana, animal e vegetal. E aí inclusos também processos de extinção provocados não somente nestes mundos vegetal e animal, mas também humano, no que se refere a valores de hoje, que só com muita perspicácia e capacidade distintiva, podem ser encontrados, visualizados e preservados.

E o que dizer do tráfico infantil?

O homem criou e alimenta uma sociedade que tem como valores a importância da qualidade de vida. E qualidade de vida pra cada um significa uma coisa. Para uns, ter motorista representa qualidade de vida, para outros, poder andar a pé que a geraria. Bom, mas parece haver uma imposição do que seja aceito como qualidade de vida pela sociedade. Então, pessoas que traficam crianças de pais viciados em crack ou sem lar, e os enviam para lares de países mais abastados, com melhores condições sócio-econômicas, em tese acreditam que estão fazendo algo bom ou melhor para a criança. Eu nem vou entrar no mérito de que tais pessoas possam nem estar ligando para isso, mas atentas somente a um mercado que demanda por essas crianças e elas existem aos montes aqui no Brasil e, claro, esse algo acena com uma alta rentabilidade. Não dá pra entrar nessa possível intenção/ação de quem faz isso. Mas dizer que, as leis ou valores criados pelos homens ou pela sociedade atual, de que o que importa é ter uma boa escola, uma boa alimentação, um bom quarto… claro, sem dúvida, importam.

Mas definitivamente isso não é tudo e nunca será, além desses “bons” serem relativos a cada vida humana, além de muito difícil saber o que seria bom para uma criança, mesmo quando nós mesmos somos os pais delas. Porém, aonde quero chegar: por mais complexa que seja a situação, entregar uma criança sem consentimento, via tráfico, a outros pais e País é sabidamente crime. Crime ao natural vital. Pois se o cenário é complexo, isso não nos autoriza a torná-lo postiçamente complexo, diante de medidas que passam por cima de leis que desde sempre fluíram independente de nós. O reforço que damos a esse tipo de crença e valorização de que a estrutura material é suficiente para gerar estrutura interna em uma pessoa é minimamente onipotência. Vamos culpar essas pessoas? Sim, pelo crime que cometem. Mas vale ressaltar a forte miopia que habita nosso cenário, que tem como referência centralmente valores criados por nós mesmos e não dados de maneira natural, como nos é recebida a vida.

Não é momento para haver baliza por fatores internos sem antes eles estarem bem fundados e averiguados de forma sensível pela gente mesmo. Há de se ter respeito a toda forma de vida. Creio que muita gente assuma matar pernilongos e baratas sem dó, sem culpa. E se eu tiver que me encontrar com eles algum dia para um acerto de contas, ficarei feliz de poder negociar com um pernilongo e, mais ainda, se ele ao invés do barulho impossivelmente irritante possa ter outro tipo de linguagem, imaginarei contente que estou diante de uma (re)evolução. Mas devemos sair do umbigo, não? Porém, o que esse umbigo tem a ver aqui? Que a responsabilidade deve entrar em cena. E se isso é ponto de partida, devemos saber que essa responsabilidade deve ser de frente, nunca de costas, para alguém que dorme, para alguém que ainda não é crescido e, ainda, para quem nem espera e nem está preparado. Essa responsabilidade tem que ser dupla e simultaneamente de frente, para os outros e para nós mesmos.

Matar em nome de Deus é algo, por incrível que pareça, também legítimo e religioso, porém imensamente ignorante. Ignorante dos homens e de todos os outros. Se a humanidade sempre esteve amparada por exemplos elevados ou divinos, infelizmente igualmente apoiada por sua ignorância e não sabedoria do que seria um desdobramento desses próprios exemplos.

Sei da dificuldade de haver leis universais que valessem para a Mae Terra como Mãe “solo” desta Terra. Mas aqui posso dizer que deveríamos nos esforçar para suspender nossos pré-juízos, como bem preconiza a Filosofia Clínica, e conseguir nos aproximar de um entendimento desse outro ou desse mesmo, no caso, numa ótica oriental religiosa haver a concepção de matar em nome de Deus e numa ótica ocidental, a permissão de traficar uma criança e levá-la para um lar abastado ou tirar um mendigo da rua que não tem condições materiais além de um corpo, um coração que sangra e pulsa e um pulmão que respira e o mantém vivo. Quem somos? Como exercitar um raciocínio aqui sem condenar? Como compreender o que nós mesmos consideramos como atrocidades? Um lado a exaltar o Espírito, o outro a agir sem limites em direção à Matéria. Ambos necessários, desde que sabiamente respeitados ou magicamente compreendidos.

Chegamos num ponto de discórdia já conhecido porém, num momento de possibilidade de ao menos nos antenarmos mais sensivelmente para essa questão. A de quanto o homem, nesses dois casos, está embriagado por uma noção de mundo que, mesmo sendo-lhe legítima, em muitos graus não legitima um outro, e isso por si só deveria ser condenável. Mas ainda, possível ver como essas posturas estão impregnadas de uma regra que é tão somente humana. E deveria haver consideração que somos parte e não representantes únicos da Natureza, a qual, de tão complexa ou simples, nos extrapola sem dúvida e sem medidas. Não damos conta de compreendê-la e isso por si só deveria fornecer automaticamente humildade e reverência apropriadas. Não sou contra pessoas que tenham ou elejam alguma religião, mas sou contra e, claro que sou, a Deus ou Deuses que autorizam matar. Ou melhor, matar em nome d´Eles. Como poderia ser isto? É uma desafiante dialética a ser feita com quem elimina vidas alheias de forma justificada e reforçada por crenças, sem dúvida e, no mínimo, estrábicas.

E não importa se Deus exista ou não. Realmente não vem ao caso. Particularmente, tenho uma fé enorme. E se Vida for sinônimo de Deus ou do Diabo, isto não mudaria em nada esta minha dis_posição.

O que importa é: o momento prioriza questionamentos mais sérios, mais profundos, mais sensatos e mais sensíveis. Conosco, com o mundo e com qualquer outro ao nosso lado e até mesmo distante de nós. Vamos enxergar primeiro que possa haver crença de que uma criança seja melhor cuidada na Suíça do que no interior do Piauí. Mas vamos antes de tudo ver que esse é um mundo que estamos construindo, e essa construção ela mesma propicia isso, distanciamento de sua própria bioconstrução. E se isto é óbvio, precisamos revisitar, revisar, (re)considerar esse mundo e chegar perto de seus defeitos. Estamos construindo um mundo defeituoso. E isso não parece ser óbvio. Saber supor isso com certa clareza pode ser fundamental e o começo de uma migração para algo mais autêntico, original, íntegro ou benéfico de forma indiscriminada.

Vamos exercitar sem condenar, antes enxergar para compreender, mesmo que posteriormente, rejeitar. Difícil necessário. Sobretudo, conseguir imaginar como tornar possível proibir “matar em nome de Deus”.

E assim voltar a fortalecer a ideia do quanto uma dialética é importante. Caminhar somente entre e por entre as ideias. E ideias se relacionam com movimento, em tese, podendo gerar outras. Saber que ideias fixas, cristalizadas, via de regra, são mancas e perigosas. Talvez a única ideia fixa possa ser a de que há ideias e crenças. Devemos ter em mente a necessidade de uma metavisão, já que não é fácil enxergar quando há um estado próprio de fixação. Neste caminhar, oriente-se pela sensatez, tendo o outro como grande balizador, qualquer que seja ele. É nesse caminho dialético que essa outridade, que nos é estranha muitas vezes, deva ser vista como digna de um suficiente estado de outro. Se há pessoas impregnadas de crenças fanáticas aos nossos olhos, ou materialistas em excesso, busquemos entender suas bases, suas origens, isso minimizaria nossa apressada condenação do seu modo existencial de encarar a vida. Ao menos, poderíamos concebê-lo.

Mesmo assim, com urgência, um Ministério Cósmico estaria indicado, para separar a briga no ringue, para impedir bombas caseiras ou para brecar a embarcação além mar de um ser que não sabe nem ainda o que é mar, muito menos navegar. Eu sou ocidental, mas consigo entender que certos orientais acreditam estar fazendo um bem para o mundo e por isso, consigo vê-los como seres humanos e não como pessoas não humanas, como imagino que muitos o veem. Isso já faz uma mínima, porém, significativa diferença. Não vou e não posso julgar crenças. O que posso julgar e não aceitar seria matar de forma justificada por uma crença. Melhor se matar. Sei que isso não seria um bom exemplo de dialética. Pois ela nem sempre é um caminho fácil. Mas ela oferece caminho. E talvez o único que permita às ideias evoluções nelas mesmas e ao redor. Evoluções que consideram a Vida como principal corrimão. Se não sabemos ao certo como e por que chegamos aqui, vamos tratar bem desta primeira parceira e assim imaginar que ela nos encaminhe bem às outras.

Sol Lua, Lua Sol. Primeiro dentro, depois desde dentro pra fora. Essa parceria é nossa com a gente mesmo – Lua e Sol internos. Saiba caminhar da sua fragilidade para sua fortaleza. E novamente perceber e acolher sua fragilidade. Lembre-se que há luz na luz da Lua e escuridão na luz do Sol. Que vida sem dialética é perda de tempo, pois se todos nós estamos aqui como seres humanos, não há acaso nisso. E se há acaso, vamos nos dispor a entendê-lo. Pois a condição apresenta-se igual aí. Vamos em direção ao que nos distingue e assim também ver que estamos na mesma. Que meu escuro pode ser claro aos olhos do outro. E que eu mesma possa enxergar a minha escuridão. Oh! Até porque somos vice versa, frente verso e trás, claro escuro. E se não nos é fácil sintetizar isso, deve haver motivos. Vamos atrás e convivamos de forma especial com isso. É uma causa-prima humana. Que o trazido para fora seja antes traduzido dentro de cada um, e não desovado ou praticado automaticamente sem questionamentos do que esteja vigente no mundo hoje.

É urgente ter olhos cada vez mais atentos ao que nós mesmos construímos. E se essa é uma necessidade contínua, cada vez mais ver que nossas criações não devem ser desprovidas de uma entrega, pois não somos nós que criamos a vida, por isso mesmo não deveríamos destruí-la. E já que não criamos tudo então, não podemos considerar que toda nossa criação esteja acertada. Ela tem que ser exercitada mas igualmente criticada. Temos que acionar uma metavisão em relação a ela mesma. Em suma, não podemos ter nossas produções como não passíveis de inalteração ou completas em seus referenciais. Principalmente, temos que conseguir enxergar os valores que parecem estar cristalizados como perigosos. E assim, não parar de questionar se um bebê nascido em um lar sem condições econômicas terá necessariamente um futuro melhor fora do País somente porque lá haverá garantias maiores de boas condições sócio-econômicas. E nem defender que estou fazendo bem a um morador de rua, tirando sua vida enquanto ele dorme, já que meu olhar provavelmente o enxerga como alguém que perdeu tudo, que não tem nada e por isso não deva estar vivo. Ab_solutamente ab_surdo. Mas agora sim, e mais difícil, nos aproximar igualmente do olhar de uma pessoa dessas. E ver que muito da sua construção é alimentada por outra construção que lhe dá base e cenário para atuar. Para desconstruí-la, temos que enxergá-la antes.

Desejo que consigamos ver antes e mais nossas primeiras luzes com a chegada dessa Lua Sol. A época é para aproveitar essa substanciosa combinação rumo a uma autonomia: de pensamento, de avaliação, de escolha e de opinião. E torço pessoalmente, para que essas mais incorruptíveis luzem possam clarear pra cada um que nossas criações podem ser aplaudidas mas igualmente desprezíveis. Torço antes para a Visão, tanto do claro como do escuro, da luz e da sombra, e não do bem e do mal. Eles nunca existiram, por incrível que pareça, mas sempre receberam formas para que assim fossem. Já não deveriam ser mais. Antes enxergar e não enxergar. Há uma difícil ponte, mas igualmente permite e sinaliza não se importar com o que você pense, desde que consiga perceber suas ideias em movimento e se dispor a compreender a dos outros, naturalmente haverão trocas. Se as ideias ancoraram, atente-se. Leve isso como uma bússola de sabedoria. Não significa, no entanto, sempre pairar no ar e não fazer necessárias paradas. Mas perceber que deve-se voltar a andar, que ideias evoluem e, sobretudo, deveriam gerar passagens. Contrariamente, estancá-las brecaria o caminho de outras ou, muito pior, de outros.

O caminho entre as ideias. Esta deve ser a seta, que permite que ideias habitem tanto o claro como o escuro e não sejam dependentes destes, pois caminham. E, o movimento Sol Lua foi talvez o primeiro a ser observado de forma panorâmica por grande parte dos seres habitantes desta Terra, apresentando, quiçá, a expressão da primeira dialética. Como não comemorar e aproveitar essa visita tão rara! Você já sabe qual é o caminho: siga adiante. Tudo nele poderá parecer escuro, pois nele há percalços, já que, contrariamente do se imagina, o Sol nos oferece também sua escuridão e a Lua sua clareza. Mas neste caminho haverá sempre luzes, pois a escuridão o habita. E, por isso, será possível caminhar.

*Renata Bastos,
Filósofa, Mestre em Filosofia, Filósofa Clínica, Terapeuta Astral
São Paulo/SP

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Encantador de Jardins*



Queridos leitores, paz!

Era uma vez um senhor muito sonhador. Sonhou com sua casa com grama, árvores frutíferas, vários jardins. Tanto sonhou que, um dia, conseguiu realizar o seu intento.

A grama era um tapete sob seus pés, as árvores frutíferas no pomar exalavam cheiros de frutas e de flores. Nos jardins, ele cultivava diversos tipos de flores das mais variadas cores. Flores rasteiras e pequenas, flores grandes e com arbusto. Flores brancas, vermelhas, rosas, amarelas, lilás e roxas.

Tudo aquilo gerou um fato novo talvez não previsto em seus sonhos. Vieram alguns pássaros, dezenas, e aos poucos eram centenas, e há quem diga que apareceram milhares deles. Diante de tamanha surpresa, ele começou a apedrejar os pequenos animaizinhos. Em alguns, as pedras foram longe, em outros, as pedras passaram de raspão, em outros, elas acertaram em cheio, comprometendo o voo de retorno ao ninho, onde alimentariam seus filhotes.

Todas as pessoas que observavam aquela situação sem entender o porquê aquele homem fazia aquilo, também observaram que grande parte dos pássaros não retornou aquele lugar, sequer passavam próximo. Mas tinha alguns que corriam o risco de serem apedrejados, mesmo assim vinham ao pomar e ao jardim do homem sonhador.

A metáfora desta parábola é que algumas pessoas passam boa parte do tempo atraindo pessoas para próximo de si, das diversas formas, e quando conseguem, algumas simplesmente as repele, as repulsa, as afasta para longe com atos surpreendentes.

E você, tem plantado árvores frutíferas, tem feito jardim, tem atraído borboletas e beija-flores? E o que tem feito com aqueles que se aproximam?

Lembrando que isso é assim para mim hoje.

*Beto Colombo
Empresário, escritor, filósofo clínico, coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

terça-feira, 23 de abril de 2013

Liberdade*



Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro pra ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha quer não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.

*Fernando Pessoa

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Poetando*



Fui poesia quando não podia ser vida
enquanto diziam que eu fazia poesia da vida.
Assim, me amaram nos textos,
mas neles eu sublimava.
Fazia os personagens dos filmes, sorria por dentro, chorava na carne.
E um dia, de tanto papel escrito empilhado,
a poesia se materializou.
Pensamentos repetidos se fizeram coisas
e junto às coisas apareceram pessoas.
Junto com as coreografias que imaginei para a bailarina,
de sapatilha em ponta e tutu de tule,
me apresentaram o espetáculo com cenário de luzes
a céu aberto.
Assim, há chance para recompor a identidade;
Talvez não seja Marte,
Mas uma outra vida.

*Vânia Dantas
Filosofa Clínica
Brasília/DF

quinta-feira, 18 de abril de 2013

DESCULPA LETÍCIA*



Estava noivo, casamento marcado para o mês seguinte, quando fui abordado por uma namorada da adolescência, pedindo que abandonasse todos os planos e voltasse para ela. Parece até enredo de novela mexicana, mas a vida nos reserva surpresas que superam a ficção.

Sabe aquela fase em que você está apaixonado, só tem olhos para sua amada, decoram juntos o apartamento onde vão morar, planejam detalhes da festa de casamento, entregam convites e sonham acordados com a lua de mel? Neste clima surge a Letícia jogando areia, propondo terminar meu casamento e re-iniciar um romance antigo.

Havíamos namorado durante quase cinco anos. Foi um namoro ótimo, até o dia em que o pai dela foi transferido para outro estado e a família o acompanhou. Trocamos cartas com juras de amor durante um tempo, mas a distância foi nos afastando até que perdemos totalmente o contato. Quase dez anos sem noticias, para agora receber este furo de reportagem dizendo que sou o amor de sua vida e que está disposta a largar tudo por mim.

Junto com ela, voltaram recordações, todas boas. As únicas lembranças tristes foram as lagrimas da despedida, que foram amenizadas na época com um mantra que nos prometemos repetir todos os dias: “Há sorrisos que dizem adeus e lágrimas que dizem até logo”.

Enquanto conversava, Letícia pegou minha mão e pude sentir de novo aquele toque familiar, até o perfume ainda era o mesmo. Eu é que havia mudado, mas não a ponto de ser insensível e não ser tocado pela sinceridade daquele apelo. Existem pessoas que entram em nossa vida, cumprem seu papel e vão embora, mas existem outras, muito poucas, que ficam pra sempre em algum cantinho de nosso coração. Letícia foi uma destas.

Estava decidido a casar, iniciar uma nova vida, não poderia ficar pensando na Letícia, nos bons momentos do passado e em sua disposição por recomeçar. Teria de colocar um ponto final em todas as vírgulas que sobraram. Será que conseguiria? Por outro lado, não podia desmanchar um casamento com a mulher que amava só porque uma namorada do passado caiu de pára-quedas dizendo que agora me queria. Também não podia ficar com as duas. Não tinha tempo de consultar um psiquiatra. Talvez um vidente.

A escolha precisava ser feita e só eu poderia fazê-la. A decisão estava em minhas mãos, ou melhor, em meu coração, que parecia ter crescido tanto, ficado tão forte, que apertava todo o peito. Não podia escolher o que sentir naquele momento, mas podia escolher o que fazer a respeito e sabia muito bem por onde começar.

Precisava urgentemente contar para meu melhor amigo, que por coincidência, afinidade, companheirismo e cumplicidade era a mulher com quem estava prestes a casar. Não podia esconder este segredo dela. Arriscava colocar tudo a perder, mas estranhamente, estava muito seguro e contei todos os detalhes. Como é que eu pude? Enquanto falava, ela também segurou minhas mãos, mas não conseguiu segurar nossas lágrimas. Chorando confessamos um ao outro, o que nossos corações sentiam.

Já estava decidido há muito tempo, e a escolha não havia sido feita pela razão. Amar alguém não é algo que se escolhe, acontece. Não existe certo ou errado, nem dia ou hora para acontecer. A única escolha que me restava era enxugar nossas lágrimas e dizer um adeus. Desculpa Letícia.

*Ildo Meyer
Médico, filósofo clínico, escritor, palestrante
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Apontamentos, poéticas noturnas XIV*



Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

*Adélia Prado

terça-feira, 16 de abril de 2013

Mozarts e Saliéris*



Existe um tema quase invisível, talvez por seu teor ideológico: o convívio professor- aluno (destaque), ao qual ofereço algumas reflexões.

Numa relação conturbada, muitos mestres, no convívio com seus alunos de maior competência, buscam desmerecê-los. Em uma sucessão de atitudes contraditórias: algumas vezes hostis outras elogiosas, propõe alijar o aluno de algo que lhe pertence.

O crime deste? Ter habilidades e talentos singulares na disciplina do professor, muitas vezes até, ultrapassando os limites dos seus ensinamentos.

A história nos ajuda a recordar o teor clássico do tema. Na premiada peça de teatro Amadeus de Peter Shaffer (1979), inspiradora do filme Amadeus de Milos Forman (1984), ganhador de vários prêmios, se vê retratado um período da vida e a convivência de Antonio Saliéri e Wolfgang Amadeus Mozart.

No filme aparece um Saliéri, compositor italiano, integrante da corte de José II da Áustria como um mestre competente. Professor de gênios como: Beethoven, Hummel, Liszt, Schubert. No entanto, existe ao menos uma coincidência nas versões do teatro e cinema: ambos revelam um professor Saliéri ressentido pela obra de Mozart.

Um homem, ao mesmo tempo invejoso, apreciador de sua genialidade e alegria de viver.

O roteiro faz referência ao Saliéri copista de Mozart, algo que conseguia com escasso sucesso. Mozart parecia despreocupar-se com a triste, sorrateira e decadente figura do mestre, o qual vivia a sua sombra, como um arremedo das obras publicadas ou executadas. Há notícias de que Saliéri teria envenenado Mozart.

Nos dias de hoje o fenômeno se repete em muitas escolas, faculdades, institutos, onde professores, ao constatar o aparecimento de algum virtuose em sua área, tratam sutilmente de sufocá-lo, desviar seus interesses a guisa de orientação, sujeitá-lo aos objetivos da instituição à qual representa ou usar o trabalho do ex-aluno sem qualquer menção as fontes.

Até quando faz algum elogio o professor deixa entrever, a quem tiver olhos para enxergar, sua mágoa a transbordar nas entrelinhas, o sorriso torcido, as palavras escolhidas para colocar o desafeto ao padrão dos seus horizontes. Nesse sentido, a adição de pequenos venenos em meio a uma conversa qualquer ou a humilhação em reuniões particularíssimas, longe dos holofotes e testemunhas tende a funcionar.

Esse antagonismo costuma ter origem numa rotina de interseção mista, onde amor-ódio-inveja se mesclam na figura do mestre. Este, nutrindo sentimentos de menos valia em relação ao extraordinário desenvolvimento do pupilo, passa a tentar enganá-lo, escamotear mágoas e dores em busca de ocultar seu dissabor pela expressividade do outro.

Na contra mão desses apontamentos, ainda se acredita no educador a se realizar em seu papel existencial. No ato de ensinar e compartilhar descobertas, invenções, a transpirar uma arte pedagógica e se completar com o êxito dos seus alunos.

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Apontamentos, poéticas noturnas XIII*



Subversiva

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.

* Ferreira Gullar
Incertezas*



Hoje estava pensando em como é difícil viver nesse mundo repleto de incertezas de um constante vai e vem por todos os lados. Sentei em um bar – sim, porque à beira do caminho é só para os literatos – para tomar um chope e pensar na vida. Recentemente, li um livro de um filósofo brasileiro chamado Mário Sergio Cortella que nos coloca muitas inquietações.

O livro se chama Qual a tua obra? e eu me peguei pensando nisso enquanto tomava minha gelada. Confesso que não consegui pensar em nada... Só via pessoas indo e vindo em um frenesi que toma conta hoje de qualquer lugar no mundo – afinal, somos mais de 7 bilhões de destruidores do meio ambiente.

Ainda absorto em meus pensamentos o olhando fixamente para o nada, comecei a pensar que poderia estar ficando maluco e que poderia estar sendo acometido pela doença dos grandes filósofos, assim como Nietzsche: a loucura. Sim! Porque nada faz sentido! As pessoas passando, de um lado para o outro, os ônibus e os carros – aliás, já repararam como aumentou, de uma hora para outra, o número de veículos nessa cidade? – e as motos e as bicicletas e eu olhando fixo para o nada sem entender o que estava acontecendo, saboreando minha cerveja. Mas o fato de estar saboreando minha cerveja não me fazia sensível ao passo das pessoas e coisas que se moviam à minha frente – até minha namorada passou, com pressa.

E esse é um detalhe que chamo atenção agora: todas as pessoas me pareciam estar com pressa! Incrível... Sim, pois enquanto eu estava sentado à mesa de um bar, saboreando um chope geladinho e pensava em tudo e em nada, as pessoas passavam de maneira a nem olhar ao redor! Triste... O tempo é curto. Essa é a sensação que tenho sempre. Mas também não adianta tentar viver tudo de uma só vez. As coisas se fazem devagar, no seu próprio tempo.

Mas será que estou ficando louco? Porque não consegui pensar em nada, mas pensava em tudo e não chegava à conclusão nenhuma! Muitos questionamentos... estão me deixando travado... o que eu tenho que fazer pra me movimentar? Pra sair desse estado de paralítico? Voltando ao Cortella, estou tentando entender qual a minha obra comigo mesmo, e ainda não consegui... vida, religião, namoro, família, convivência, trabalho, o que são essas coisas? Onde elas nos levarão? Muitas inquietações... será que um dia terão fim?

O tempo é curto porque assim nós sentimos ser. Henri Bergson nos coloca que o tempo é fluxo contínuo. Se o tempo é isso, ele não é nem mais nem menos demorado, ele é o que é tendo o tempo que ele tem. Engraçado, de acordo com essa afirmação uma brincadeira, tipo trava língua, que fazia quando criança parece ter razão: o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem; o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem o mesmo tempo que o tempo tem. Incrível! A duração do tempo é o próprio tempo e ele não tem um “tempo”, ele é exatamente aquilo que ele é! E por que perguntamos quanto tempo vai levar certa coisa? Não faz sentido essa pergunta!

*Vinicius Fontes
Filósofo, estudante de Filosofia Clínica
Rio de Janeiro/RJ

domingo, 14 de abril de 2013

Texto de consulta *



A página branca indicará o discurso
Ou a supressão o discurso?

A página branca aumenta a coisa
Ou ainda diminui o mínimo?

O poema é o texto? O poeta?
O poema é o texto + o poeta?
O poema é o poeta - o texto?

O texto é o contexto do poeta
Ou o poeta o contexto do texto?

O texto visível é o texto total
O antetexto o antitexto
Ou as ruínas do texto?
O texto abole
Cria
Ou restaura?

O texto deriva do operador do texto
Ou da coletividade — texto?

O texto é manipulado
Pelo operador (ótico)
Pelo operador (cirurgião)
Ou pelo ótico-cirurgião?

O texto é dado
Ou dador?
O texto é objeto concreto
Abstrato
Ou concretoabstrato?

O texto quando escreve
Escreve
Ou foi escrito
Reescrito?

O texto será reescrito
Pelo tipógrafo / o leitor / o crítico;
Pela roda do tempo?

Sofre o operador:
O tipógrafo trunca o texto.
Melhor mandar à oficina
O texto já truncado.

A palavra cria o real?
O real cria a palavra?
Mais difícil de aferrar:
Realidade ou alucinação?

Ou será a realidade
Um conjunto de alucinações?

Existe um texto regional / nacional
Ou todo texto é universal?
Que relação do texto
Com os dedos? Com os textos alheios?

(...)

Juízo final do texto:
Serei julgado pela palavra
Do dador da palavra / do sopro / da chama.

O texto-coisa me espia
Com o olho de outrem.

Talvez me condene ao ergástulo.

O juízo final
Começa em mim
Nos lindes da
Minha palavra.

*Murilo Mendes

sábado, 13 de abril de 2013

O poder das palavras...*



Existem palavras caras, outras baratas, outras bonitas e outras sem graça. A palavra "graça" não tem a menor graça! É vazia, fria, triste... Já a palavra "triste" é pomposa,
forte, elegante, robusta! Sinto até vontade de falar... Oh! Que triste dia...

A palavra "alegria" em compensação trás muita satisfação, não sei se pela pronúncia ou por sua vibração. O que sei, que no campo do saber é quase nada, são que existem palavras que são mais belas e sofisticadas que outras e que por isso costumam ser expressadas.

Entretanto, eu procuro me certificar de todas as palavras utilizadas por mim, pois um simples "oi" pode ter vários significados.

E, como significamos as coisas!!!

Percebo que uma mesma palavra proferida por mim pode ter um significado totalmente invertido ou truncado para um outro...
Amo muito todas as palavras, são elas que preenchem meu vazio quando nada mais vale por perto.
Eu escrevo e relaxo...

É muito bom poder expressar sentimentos confusos através da escrita, lendo mais tarde àquilo que escrevemos perceberemos onde estavam nossos pensamentos. Muitas vezes percebo que os meus estavam em longo deslocamento. E quantos termos desagendo do meu intelecto apenas escrevendo? São tantos quantas são as palavras existentes para expressar minha gratidão!

E, viva as palavras! Pois primeiro se fez o verbo...
Brindemos, então, a possibilidade da expressão! Viva!!!

*Vanessa Ribeiro
Atriz, dançarina, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Apontamentos, poéticas noturnas XII*



AS MULTIDÕES

Não é dado a todo o mundo tomar um banho de multidão: gozar da presença das massas populares é uma arte. E somente ele pode fazer, às expensas do gênero humano, uma festa de vitalidade, a quem urna fada insuflou em seu berço o gosto da fantasia e da máscara, o ódio ao domicílio e a paixão por viagens.

Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis pelo poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só no meio de uma multidão ocupadíssima.

O poeta goza desse incomparável privilégio que é o de ser ele mesmo e um outro. Como essas almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando quer, no personagem de qualquer um. Só para ele tudo está vago; e se certos lugares lhe parecem fechados é que, a seu ver, não valem a pena ser visitados.

O passeador solitário e pensativo goza de uma singular embriaguez desta comunhão universal. Aquele que desposa a massa conhece os prazeres febris dos quais serão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso. ensimesmado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias, todas as misérias que as circunstâncias lhe apresentem.

Isto que os homens denominam amor é bem pequeno, bem restrito, bem frágil comparado a esta inefável orgia, a esta solta prostituição da alma que se dá inteiramente, poesia e caridade, ao imprevisto que se apresenta, ao desconhecido que passa.

É bom ensinar, às vezes, aos felizes deste mundo, pelo menos para humilhar um instante o seu orgulho, que existem bondades superiores às deles, maiores e mais refinadas, Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os sacerdotes missionários exilados no fim do mundo conhecem, sem dúvida, alguma coisa dessas misteriosas bebedeiras; e, no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem rir, algumas vezes, dos que se queixam de suas fortunas tão agitadas e de suas vidas tão castas.

*Charles Baudelaire
Ser Amigo é...*



Saber ouvir os silêncios da alma, expresso em olhares, gestos, sorrisos, lágrimas... É falar quando for preciso sem medo de ser mal interpretado. Pois no fundo do coração, um verdadeiro amigo sabe que somente quem se preocupa com ele tem a coragem de falar a verdade.

Acolher os medos reais ou ilusórios. O medo sempre é maior quando estamos sozinhos diante dele. A presença de um amigo sincero do lado torna a vida mais fácil de ser compreendida. Quem descobriu no sorriso de um amigo o antídoto para seus medos, encontrou um companheiro para a vida toda.

Se alegrar com as conquistas do outro. Muito mais difícil do que acolher uma dor é se alegrar com as vitórias que não são nossas. Muitos sabem ser solidários na dor, mas incapazes de se alegrar com a felicidade de outros.

Cultivar a amizade em pequenos gestos. Um “oi”, ou simplesmente um sorriso, um “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” podem fazer grande diferença na vida de alguém. Amizade que não se cuida, morre por falta de ternura.

Ser amigo é acima de tudo saber caminhar nos ritmo do outro, sem nunca descuidar dos seus próprios passos.

*Pe Flávio Sobreiro
Poeta, filósofo clínico
Cambuí/MG

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Apontamentos, poéticas noturnas XI*



Canção de Outono

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!

*Mario Quintana

terça-feira, 9 de abril de 2013

Apontamentos, poéticas noturnas X*



Penetração do Poema das Sete Faces

(A Carlos Drummond de Andrade)

Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.

*Elisa Lucinda

segunda-feira, 8 de abril de 2013



Âncoras*

'Navegar é preciso; viver não é preciso'
(Fernando Pessoa)

Navegar e viver costumam ser desafios ao sabor dos ventos e das marés, como uma flecha lançada ao vento, sem rumo nem piedade, sem desculpas, sem destino, talvez só aquele que obstinadamente julgamos traçar. Não há garantias e pode não haver volta... e a cada movimento, entropicamente, detonamos o estoque de energia que nos foi reservado, sem nos darmos conta de que alguma coisa se esvaiu, de que algo precioso transmutou.

Sabemos que emergimos do ventre e que vamos findar no ocaso da existência. O rio que corre entre essas duas margens, que por alguma razão somos impelidos a saltar, é que costuma fazer a diferença. Navegar é tão preciso quanto viver e viver é tão impreciso quanto navegar... uns se debatem sem alcançar suas ilhas distantes; outros buscam âncoras que os salvem daquilo que nem mesmo suspeitam, pois para ter qualquer migalha de conhecimento, virtude, experiência, ainda é preciso insistir e navegar, seja como e para onde for.

E há ainda alguns que apenas se deixam levar, provavelmente num lampejo de sábia inércia e de refletida presunção. Mas os rios que deságuam no mar, na origem de novos desafios, de confrontos, de incertezas e na imprecisão de rumos sem rotas precisas, também convidam a provarmos mudanças que inevitavelmente farão banquetes fartos e recheados de vivências ímpares e insólitas...

Nas profundezas de qualquer mar retomamos as essências que nos conformam às ondas que crescem na medida em que surgem obstáculos. Elas tanto podem passar despercebidas, como provocar tsunamis que abocanham, como feras apocalípticas, a razão de um momento, mas que igualmente nos conferem toda a dimensão da intensidade que um mergulho nas águas profundas da existência proporciona.

Na dúvida, muitos preferem a segurança de suas âncoras a mantê-los em seus portos seguros, que redunda naquilo que sempre será e na tranquilidade das mesmas paisagens monotonamente repetitivas. A segurança pode ser o pior de todos os fantasmas, pois não incentiva frios na barriga ou injeções de adrenalina, tão necessários em encantos ou sobressaltos.

Âncoras até podem resguardar integridades e garantir longevidade, mas provavelmente não são capazes de permitir os riscos de uma imersão profunda ou que voos sejam alçados na direção de um vazio que deve ser preenchido com experiências, ainda que impróprias ou amargas.

Quem não se lança, não reconhece em si suas potencialidades, não percebe que os medos permitem que novas e surpreendentes forças sejam mobilizadas em prol do que ainda está por vir, do que ainda pode surpreender e encantar.

Tudo o que prende, seja em nome do que for, impedindo o nado livre e o navegar necessário, nos afunda e nos entrega à sombra triste da inércia e da estática, à mercê da passagem do tempo. Porém, não o tempo que nos oferece a mão para o salto entre as margens, mas aquele que desdenha o que veio presenciar.


*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

domingo, 7 de abril de 2013

Apontamentos, poéticas noturnas IX*



Carta aos Pais

“São Paulo, 12 de agosto de 1987.

Querida mãe, querido pai,

Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado.

Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado.

Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la.

Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.

Amo vocês,

seu filho,

* Caio Fernando Abreu
1948 - 1996
Viver fora da caixa!



Uma das perguntas comumente ouvidas num consultório é: “Doutor, isso é normal?” A pessoa que faz esta pergunta o faz para que alguém, no caso o terapeuta, possa lhe dizer se ela está ou não dentro dos padrões. O padrão é uma medida associada ao que está ao se redor, por exemplo, hoje é um padrão pagar pelo trabalho de alguém, quem não o faz está cometendo um crime, salvo as exceções para este exemplo.

Entretanto, há pouco mais de cem anos o padrão era comprar alguém que fazia os trabalhos de uma casa, ou seja, era padrão ter escravos em casa. O padrão é portanto uma medida que toma por base o que tem ao seu redor. O padrão serve muito bem para questões práticas, para calcular o valor de um carro, para saber se o salário é adequado, para ver se o espaço de moradia está de acordo com a região onde se mora. Mas medir uma pessoa aquilo que há ao seu redor é a pior forma de se fazer isso.

Diferente de um carro, o salário e até mesmo a moradia, uma pessoa apresenta estruturas totalmente diferentes, únicas. Padronizar o ser humano é como pegar os galhos das árvores de uma floresta e querer que todos sejam iguais. Pior do que isso, fazer com que aqueles que não estão dentro do desejado sejam cortados e jogados fora como algo sem valor. Assim como as árvores, cada ser humano tem uma única forma de se estruturar, e essa estrutura tem diferentes formas de se manifestar.

Muitas pessoas, por medo, por necessidade ou por conveniência, se mostram como os outros querem que elas sejam vistas. Assim é para a menina que aos seus quinze anos reúne os amigos e faz um lindo baile de debutantes, quando esse padrão nada tem a ver com ela. Infelizmente para a sociedade ela sente que precisa se homogeneizar, ter uma aparência que se espera dela, namorar um namorado que dizem ser o melhor, enfim, ser normal.

A estrutura de uma pessoa, assim como de uma casa ou as raízes de uma árvore têm um formato, suportam um peso diferente. Para uns a base é sua emoção, tudo o que vivem é suportado pelas emoções, são as alegrias, tristezas, ódios, amores, que as fazem suportar a vida ou viver. Em outras pessoas é a razão a base que sustenta toda essa estrutura: suas contas, porquês e lógicas aguentam o prédio que está em cima. Acima do alicerce há toda uma construção que se apóia nesta base, sendo que, para algumas pessoas, a estrutura padronizada é pesada demais para sua base. Pode-se citar o exemplo do filme “Na natureza selvagem”, onde o rapaz tinha a base de sua estrutura na sua identidade. A vida padronizada se fez tão pesada que a base não agüentou e ele perdeu a referência até de si mesmo, ou seja, não sabia mais quem ele era.

Há um exército de seres humanos tratados como máquinas que não suportam a estrutura padronizada que está sobre suas bases. Cada um ao longo da vida deveria construir sua estrutura de acordo com a base que tem, isso seria o recomendável. Em busca da normalidade, algumas pessoas constroem pirâmides que nada têm a ver consigo, mas com o que o padrão recomenda. Padrão este que tem cor certa, roupa certa, música certa, casamento certo, filhos certos, enfim, que acaba por normatizar via Inmetro um ser único. Não há como pregar normalidade quando o próprio padrão está mais próximo da doença.

O seu jeito de ser, as bases sobre as quais você construiu a sua vida indicam como pode ser a estrutura que será edificada. O padrão pode ser um guia, pode ser uma medida de comparação, mas não uma medida de construção. Você é uma pessoa completamente diferente de qualquer outra, isso porque a sua estrutura é única e por mais que se tente encaixotá-la, ela sempre mostrará que não é possível viver na caixa.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

sábado, 6 de abril de 2013

Apontamentos, poéticas noturnas VIII*



Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.

Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha.

* Paulo Leminski
1944 - 1989

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sobre a solidão*



Se eu perguntar o que é solidão, o que você me responderá? Talvez que solidão é se retrair em seu quarto, se afastar de pessoas, coisas, lugares, ocasiões. Ou que solidão é sentir-se sozinho ou sozinha, mesmo que em meio de um tumulto de gente. Quem sabe, ainda, que nunca se percebeu em um estado assim. Enfim, são tantas as possibilidades de resposta, visto que não existe uma definição universal para este fenômeno.

Nos dicionários encontramos como sinônimo de afastamento, distanciamento, isolamento. Isso, além de outros aspectos sociais, é indicativo que, em nossa época, a solidão é vista com maus olhos.
Se a solidão for, de fato, algo doloroso para a pessoa, ela deve receber atenção adequada no sentido de tentar alterar o que está se passando. Mas se for verificado que a solidão é apenas um indicativo do modo de ser da pessoa, ou de um determinado papel existencial dela, não temos que tentar mudar isso. Pode ocorrer, ainda, que o peso da solidão no todo da pessoa não tenho relevância alguma em relação a tudo mais que ela vivencia em sua trajetória existencial.

A contextualização dos fenômenos na historicidade da pessoa costuma ser de suma importância para que alguns comportamentos não sejam tomados a partir do que socialmente entende-se por eles. Como cada pessoa possui uma estrutura singular de representar o mundo, é esta que deve ser levada em consideração e não o que é consenso social ou verdade subjetiva de quem está em interseção com ela.

Retorno, então, a questão inicial: o que é solidão para você? Olhe para a tua história de vida e provavelmente você identificará alguma coisa a respeito. Talvez tenha episódios em que a solidão doeu, machucou. Ou talvez verificará que nem sempre a solidão foi algo negativo ou contraproducente.

Às vezes a solidão pode ter sido aquilo que fez você tomar fôlego para dar início ou continuidade a algum projeto, talvez abrir mão de outros caminhos, ponderar algumas coisas por outros pontos de vista, ou fez parte de uma determinada profissão que você exercia e que lhe cobrava isso. Enfim, para cada pessoa isso se dá de formas singulares, ainda que parecidas, nunca idênticas.

“Sentir solidão não é estar só, é estar vazio”.
Sêneca

Abraço de paz.

*Everton Corso
Filósofo Clínico
Chapecó/SC

quinta-feira, 4 de abril de 2013

CABELO É COISA DE MULHER*



Quando o homem passa a viver ao lado de uma mulher, seu cabelo passa a ser dela.

Vai dar palpites sobre o comprimento, tipo de corte, xampu, condicionador, freqüência de lavagens e até mesmo indicar o salão. Palpites são, na verdade, ordens.

O homem, por mais atento que seja, dificilmente percebe quando a mulher muda o penteado ou corta as pontas. Não tem autoridade.

Talvez contando minha história, possa alertar outros homens a consultar uma mulher antes de mexer em seus pelos. Foi em Atlântida, num verão dos anos 80, quando era moda “parafinar” as cabeças. Os jovens ficavam com os cabelos descoloridos e amarelados, como se houvessem sido queimados de tanto sol. Quis entrar nesta onda. O farmacêutico, muito solícito, explicou que aplicando água oxigenada nos cabelos, ou mais precisamente, um produto chamado Blondor, e depois se expondo ao sol, alcançaria a malandragem.

A idéia era fazer surpresa para minha companheira. Antes de ir para a praia, fui ao banheiro, encharquei os cabelos com Blondor, peguei as cadeiras, o guarda-sol, o isopor com as latinhas de cerveja, e saímos para mais um dia de férias. Tentei ser o mais natural possível e a convidei para jogar frescobol. Enquanto isso, o sol disfarçadamente faria seu trabalho. Quando ela percebesse, meu cabelo, apenas pelo dia intenso de esportes na praia, espontaneamente estaria descolorido como o dos surfistas.

Quem mandou não consultar a especialista? Bastaram 30 minutos de sol para minha cabeça branquear como neve. Quando ela reparou já era tarde, não tinha mais volta, tinha me transformado em um albino. Tive de confessar a safadeza e pedir ajuda. Neste momento comecei a aprender que quando não consultamos a esposa e invadimos seus domínios, corremos o risco de magoá-la e mais do que isto, sermos punidos. Sofreremos, sozinhos, as conseqüências como lição pelo mau comportamento.

Ela ironicamente riu da minha ingenuidade, disse que deveria tê-la consultado e negou ajuda. Desesperado, corri para casa. Precisava me olhar no espelho e ver o tamanho do estrago. Grande mesmo, descoloriu totalmente os fios. Coloquei um boné e mais uma vez fui consultar o farmacêutico, que já não era o mesmo, mas recomendou agora uma tintura para disfarçar. A emenda foi pior que o soneto, fiquei com um cabelo de cor acaju desbotado. Sabem o que é voltar das férias e explicar um cabelo acaju? Ainda dizem que tive sorte, pois se a descoloração atingisse a raiz dos cabelos, poderia perdê-los.

Como aquilo que não nos mata, deixa mais forte, hoje tenho uma vasta cabeleira, que todo dia pela manhã me lembra que pensamentos, assim como cabelos, também acordam bagunçados. Se todo o cuidado que as pessoas têm em arrumar os cabelos fosse dado ao coração, a beleza não estaria mais na forma ou na cor, e sim nas trocas. Homens, enquanto isto não acontece, por favor, para o bem da humanidade, não discutam cabelos com mulheres.

*Ildo Meyer
Médico, escritor, palestrante, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Amor a primeira vista*



Nós já acreditamos em amor a primeira vista. E hoje, depois de tanto estudar a vida e o amor, descobrimos até explicação cientifica para isto. Deus e as artimanhas de sua máquina de procriar nos pregando peças.

Apaixonar-se no primeiro olhar, realmente é maravilhoso. Sentir o peito apertar, o coração acelerar, as mãos tremerem, compõe um conjunto de emoções e sensações que induzem pensar querer ficar para o resto da vida, até morrer, ao lado da outra pessoa.

Entretanto há de se levar em conta que amar assim, com esta intensidade, também é possível depois de uma jornada de conhecimento do outro. Este “start” pode acontecer mais tarde, quando se pensa que está tudo sob controle. Quando se vê, não dá mais pra imaginar a sua vida sem aquela pessoa que a principio era apenas um passa tempo. Olhar, gostar, se encantar e se ver apaixonado, amando tudo que o outro tem, pode ser muito gratificante e, o mais importante, pode ser muito mais seguro a partir daí. Uma escolha, uma opção, um ato inteligente em favor da sua paz.

Esperar um tempinho, canalizar as impressões, observar o comportamento do parceiro e racionalizar um pouquinho, pode te livrar de entrar em uma fria. Este tipo de desenvolvimento do sentimento de amor pode constituir oportunidade de descobrir que não gosta de absolutamente tudo no outro antes de se comprometer com promessas eternas. Que existe algo, determinante e grave, a ponto de fazer você se sacrificar demais, apenas para dizer que tem alguém. Vale a pena isto?

Muitos casais se casam já sabendo que não deveriam prosseguir, contudo diante de tantos compromissos firmados um com o outro, com os familiares e com a sociedade, se enveredam na cegueira que afirma ser aquela pessoa, a sua salvadora.

Amor à primeira vista, muitas vezes pode significar apenas um grande cansaço da vida e a esperança enganosa de que alguém que você nem conhece direito possa te aliviar, te acalentar, te trazer uma felicidade que você não é capaz de ter sozinho. A obscuridade nas intenções e a ansiedade decorrente disso faz com que articulemos tudo em torno de uma relação para que ela prossiga, mesmo que infeliz. Amar não é depender do outro. Amar é algo que deveria ser livre, além de honesto.

Isso é um perigo. Num instante, você filma um olhar, uma intencionalidade e faz uma confusão danada resolvendo que sua vida vai ser melhor a partir dali. Do que aquele alguém vai fazer por você, quando, aquele alguém pode ser de verdade, a sua ruína.

Eu sei, é lindo, é gostoso, é uma das coisas mais deliciosas de se sentir. Sinta, sinta sim. Curta, se entregue, mas enxergue. Tente não se enganar.

Importante ainda é não se iludir sobremaneira quanto ao sentimento alheio. Carinho, tesão, educação, elegância, amizade, compreensão e tudo que alguém pode te oferecer nos bons momentos que passam juntos, não significa necessariamente, que ele queira viver todos os dias, para o resto da vida, ao seu lado. Esta pessoa pode ter a capacidade que você não tem, de amar e ao mesmo tempo, racionalizar. Controle tanto a sua necessidade, quanto a sua vaidade.

Encontrou alguém legal, seu corpo vibrou? Viva cada gota disso, cada dia. Retribua, não tenha medo. Entretanto, se ame e se proteja para mais tarde não responsabilizar quem não tem nada a ver, com a vida que você não consegue dar a você.
Boa sorte.

"O amor imaturo diz: eu te amo porque preciso de ti. O amor maduro diz: eu preciso de ti porque te amo"
Erich Fromm

*Jussara Hadadd
Filósofa clínica, especialista em terapia sexual
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 2 de abril de 2013

Apontamentos, poéticas noturnas VII*



Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

*Cecília Meireles
1901 - 1964

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Arqueologias do texto*



“Os sonhos que viveram numa alma continuam a viver em suas obras.”
Gaston Bachelard

De onde vem e quem escreve aquilo que se escreve? Uma interrogação superposta busca dialogar com a estrutura das fontes. Tratativas para objetivar as franjas da subjetividade onde a concepção se faz autoria. Buscas por rascunhar a frequência existencial de onde o texto se faz contexto.

Um devaneio parece se inspirar em narrativas inacabadas, como a própria essência de viver. Desse mirante intuitivo as regiões inexploradas sussurram dialetos ao reviver a letra desgastada pelo excesso interpretativo. Diante das antigas impressões um convite à admiração reaparece e inaugura o milagre da palavra reinventada.

A leitura marginal contorna a intencionalidade primeira, transpõe a inclinação natural das representações do autor e ressurge como esboço em uma nova inscrição. Uma leitura_escritura assim pensada possui mensagens híbridas de versão interminável.

O discurso escrito e sua pronuncia são diferentes, embora possuam a mesma fonte, sugerem regiões distintas na mesma pessoa. Mesmo o registro mumificado pela definição deixa entrever refúgios incompreendidos.

Nesse sentido, o texto pode reunir percepções de entrelinhas. Existe um tempo para cada página, um lugar para cada compreensão, instantes para a alma aprendiz traduzir-se.

Assim o visionário se vê diante de apontamentos de aconchego ao vislumbrar os eventos sem nome. Ensaio introspectivo anterior à visualização do termo. Uma aventura do autor algumas vezes reconhecida pelo leitor, noutras a desdizer a formatação inicial e derivar originalidades. Sob a pena inicial e aos olhos das releituras essa folha de apontamentos aparece recheada de horizontes.

Os estudos sobre a arqueologia do texto descobrem a raridade distanciada da leitura de superfície. A trama significativa do autor aprecia a singularidade do olhar_leitor a reescrever sua obra.

Numa aproximação e convivência com os rascunhos recém-chegados, cada parágrafo sugere novas alquimias ao traço. Em busca de acolher os jogos da linguagem singular, essa revisita a obra inicial, sendo a mesma já é outra.

*Hélio Strassburger