sexta-feira, 31 de maio de 2013

CARTAS A UM JOVEM POETA*



"PRIMEIRA CARTA"

" Paris, 17 de Fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes.

As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas.

Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?"

Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade.

Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela.

Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente.

Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.

(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

*Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Fragmentos poéticos, delirantes*



Receita para fazer um poema Dadaísta:

Pegue um jornal.
Pegue uma tesoura.
Escolha no jornal um artigo com o comprimento que pensa dar ao seu poema.
Recorte o artigo.
Depois, recorte cuidadosamente todas as palavras que formam o artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Seguidamente, tire os recortes um por um.
Copie conscienciosamente pela ordem em que saem do saco.
O poema será parecido consigo.
E pronto: será um escritor infinitamente original e duma adorável sensibilidade, embora incompreendido pelo vulgo.

*Tristan Tzara

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Fragmentos filosóficos_delirantes*



"Passarei a minha vida a provocar as confidências dos loucos. São pessoas de uma honestidade escrupulosa e cuja inocência só encontra um igual em mim"

"Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação"

"Uma palavra e tudo está salvo / Uma palavra e tudo está perdido"

"O acontecimento que com direito traz a cada um a revelação do sentido da sua própria vida, este acontecimento que ainda não encontrei, mas para o qual caminho, não se concebe ao preço do trabalho"

"Querida imaginação, o que mais me agrada em ti é nunca perdoares"

*André Breton

terça-feira, 28 de maio de 2013

Fragmentos poéticos, delirantes*



Arte poética

Antes de tudo, a Música. Preza
Portanto, o Ímpar. Só cabe usar
O que é mais vago e solúvel no ar
Sem nada em si que pousa ou que pesa.

Pesar palavras será preciso,
Mas com certo desdém pela pinça:
Nada melhor do que a canção cinza
Onde o Indeciso se une ao Preciso.

Uns belos olhos atrás do véu,
O lusco-fusco no meio-dia
A turba azul de estrelas que estria
O outono agônico pelo céu!

Pois a Nuance é que leva a palma,
Nada de Cor, somente a nuance!
nuance, só, que nos afiance
o sonho ao sonho e a flauta na alma!

Foge do Chiste, a Farpa mesquinha,
Frase de espírito, Riso alvar,
Que o olho do Azul faz lacrimejar,
Alho plebeu de baixa cozinha!

A eloquência? Torce-lhe o pescoço!
E convém empregar de uma vez
A rima com certa sensatez
Ou vamos todos parar no fosso!

Quem nos dirá dos males da rima!
Que surdo absurdo ou que negro louco
Forjou em jóia este toco oco
Que soa falso e vil sob a lima?

Música ainda, e eternamente!
Que teu verso seja o vôo alto
Que se desprende da alma no salto
Para outros céus e para outra mente.

Que teu verso seja a aventura
Esparsa ao árdego ar da manhã
Que enche de aroma ótimo e a hortelã…
E todo o resto é literatura.

*Paul Verlaine

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Fragmentos poéticos, delirantes*



Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

*Arthur Rimbaud

domingo, 26 de maio de 2013

Fragmentos poéticos, filosóficos, delirantes*



“[o sentido da minha vida] é inventado a cada momento, mas é claro que eu necessito da poesia, eu necessito da arte, eu necessito de estar discutindo essas coisas, de estar pensando nessas coisas que dão transcendência à vida. Eu não tenho dúvida alguma de que a arte é necessária porque a vida não é suficiente, porque senão qual era a necessidade de inventar a arte? A necessidade é essa: as pessoas necessitam dela, por mais que aconteça coisa no mundo, a arte sobrevive, como uma forma de acordo com o momento, com a época, ela é uma coisa necessária, como a ciência é necessária, como a filosofia é necessária, como a religião é necessária, como a política é necessária. “

*Ferreira Gullar

sábado, 25 de maio de 2013

Liberta_lua*



E houve Sol na maior parte do mês que passou… em céus de brigadeiro.

A sensação muitas vezes foi a de que se atravessava um deserto, sem água, sem gente, só com a gente mesmo. Foi uma Lua seca, com mais luz e calor.

Houve claridade, com e sem dor, sendo possível somente enxergar. E, de tão claro, o desejo foi muitas vezes por não ver, aparecendo um tipo de escuro inédito.

A Lua desse mês oferece alívio aos andarilhos, seja porque o Sol está aí junto de outros companheiros já, seja porque é uma Lua_Liberta que vem para aliviar de uma ou de muitas formas.

O mês passado deixou algo nítido, expresso e forte. Simples, por isso também complexo. As chances agora são de passear por lugares mais refrescantes e fluentes, com mais leveza sim. Libertações já estão presentes como presentes.

Há maturidade para isso, pois existem memórias significativas de vivências que somente puderam ser decodificadas através dessa condição. Senão, não o foram. E a principiância é desejada. De ambas as formas, é disso que precisamos. Desse olhar iniciante sem algum tipo de iniciação. Possível? O mês propiciará esse abandono de concepções prévias. Elas já atingiram um limite.

E a percepção será a de um tempo que passa mais rápido, pois ele corresponde ao tempo do tempo e não ao do cronômetro, e haverá menos bagagens em exercício também. Quando o mês lunar acabar, uma sensação de agradável flutuação, e não de rasura, mas de fluência e concatenação, se apresentará. Já está aí/aqui.

Mesmo diante de tantas notícias difíceis e desanimadoras, o tempo é de caminhar para esta boa e nutridora conclusão própria, e de integralmente ir rumo ao encontro do que nos faz vibrar, sorrir.

E tudo sofrerá mudanças para melhor, pois essa Lua oferece sabedoria para que iniciemos nela própria (sabe_d_ouro).

E há uma intenção: a sua felicidade.

Você sabe dizer mais sobre ela? Se não, terá muitas chances para senti-la.

*Renata Bastos
Filósofa, mestre em filosofia, astróloga, filósofa clínica
São Paulo/SP

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Fragmentos filosóficos delirantes*




"(...) De que serve acumular dinheiro! A morte tem uma segunda chave do vosso cofre. Os Deuses vendem todas as coisas a preço modico, diz um poeta antigo.

Poderia acrescentar que vendem as melhores pelo mais baixo preço. Tudo o que nos é verdadeiramente necessário pode adquirir-se por pouco dinheiro; só o supérfluo é posto á venda por um preço elevado.

Tudo o que é verdadeiramente belo não está á venda; é-nos oferecido como um dom pelos deuses imortais.

É-nos permitido ver o nascer e o pôr do sol; as nuvens errantes no céu; as florestas e os campos; o mar maravilhoso, sem dispender nada. As aves cantam para nós de graça; temos o direito de colher as flores silvestres, pelos caminhos, quando passamos. Não ha preço de entrada sob a abobada iluminada de estrelas, de noite.

O pobre dorme melhor que o rico. A alimentação simples tem melhor gosto que a do Ritz.

Contentamento e paz interior prosperam melhor numa casita do campo que num palácio da cidade. Poucos amigos, poucos livros, muito poucos, e um cão, eis tudo o que vos é necessário, enquanto vos possuirdes a vós próprios. (...)"

*Axel Munthe
O livro de San Michele
Publicação de 1938 da Editora Globo de Porto Alegre

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O ESTRANGEIRO*



— A quem mais amas tu, responde homem enigmático:
teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
— Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— Tens amigos?
— Eis uma palavra cujo sentido, para mim, até hoje permanece obscuro.
— Tua pátria?
— Ignoro em que latitude está situada.
— A beleza?
— Gostaria de amá-la deusa e imortal.
— O ouro?
— Detesto-o como detestais a Deus.
— Então a que é que tu amas, excêntrico estrangeiro?
— Amo as nuvens... as nuvens que passam... longe... lá muito longe...
as maravilhosas nuvens!

*Charles Baudelaire

quarta-feira, 22 de maio de 2013

DESTINO*



Podem acreditar, o destino vai mandar algumas cartas inesperadas. Boas e ruins. Não há como prever. Está além de nossas capacidades. Como lidar quando estas circunstâncias surgirem? Boas noticias não constituem problema e podem ser aproveitadas e curtidas na sua devida hora. Resta saber o que fazer com as más novas? A imprevisibilidade inerente não permite nenhum conselho, entretanto, podemos trabalhar nossos pensamentos para não ficarmos sem chão quando a hora ruim chegar.

Ler muito ajuda. Perder-se nas páginas dos livros é um dos instrumentos libertários mais poderosos para a sobrevivência humana. Além da cultura e experiência de outras pessoas, teremos a chance de conhecer mais do mundo e de nós mesmos.

Ao conseguir se projetar e levar para dentro de um texto sua vivência pessoal, emoções, buscas, preconceitos, o leitor mergulha e se confunde com o que lê. O único limite para a amplidão da leitura é a imaginação do leitor. Se este for suficientemente tocado pelo texto, poderá construir imagens, refletir e até mesmo libertar temporariamente seu ego. Mesmo não sendo a intenção original, uma boa leitura proporcionará, consciente ou inconscientemente, a aquisição de ferramentas emocionais capazes de ampliar horizontes e expectativas.

Além da leitura, podemos abastecer pensamentos com informações, sensações, emoções que nos fazem bem no dia a dia, para que fiquem indexadas. Meditando, escrevendo, falando, tocando, ouvindo. Quando as cartas inesperadas chegarem, nossa estrutura de pensamento se encarregará do trabalho de seleção, direcionando as coisas indexadas para o nosso lado e providenciando um descarte para as demais.

Pode parecer complicado, mas não é. Você gosta de escutar música clássica, Vai e volta do trabalho se deliciando com Mozart, Beethoven, Bach, Vivaldi. Alimenta seus ouvidos e sua alma com sinfonias eruditas. O que acontece quando ao ligar o rádio a emissora está tocando uma música popular? Assim como imagino que você deverá trocar de estação, de modo semelhante, suponho que quando o destino enviar algo que lhe seja estranho e desconfortável, seu pensamento logo vai direcionar você para aquilo que lhe faz bem.

Resumindo, quando algo de ruim acontecer, ao invés de manter o foco na adversidade, podemos aproveitar todas as experiências agradáveis adquiridas na leitura e nos bons momentos vividos para tentar descolar esta situação de nosso pensamento. Ela não estará indexada no arquivo daquilo que somos ou gostamos e aos poucos será descartada. Não haverá espaço para estes infortúnios. Cabe a cada um de nós apenas fornecer substratos para que a estrutura de pensamento conheça nossas satisfações e realize o processo de depuração.

Selecionei algumas felicidades pessoais. É um exercício diário. Amanhã posso adicionar outras sensações ou reconsiderar determinado prazer. Serve para minha forma de pensar. Para você, pode e deve ser diferente. De qualquer forma, talvez meus sentimentos, aspirações e expectativas lhe inspirem e façam refletir.

- Que as mentiras pareçam mentiras

- Que um minuto de reconciliação valha mais que toda uma vida de amizade

- Que ser honesto não saia tão caro

- Que ser covarde não valha a pena

- Que mesmo não sabendo onde ir, saiba para onde voltar

- Que meu coração continue falando

- Que meus amores continuem em mim

- Que o beijo não termine

- Que a lua de mel não se ponha

- Que a vontade de ir embora não me alcance

- Que minha cama seja aquecida

- Que as esperas sejam deliciosas

- Que minhas mágoas não tenham âncoras

- Que exista outro amanhã, outros sonhos, outros risos, outras coisas

- Que os porquês se respondam com sentimentos

- Que o fim do mundo me pegue bailando

- Que o destino me chame na hora certa

* Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

terça-feira, 21 de maio de 2013

Dicas de narrativas poéticas:

Narrativas Poéticas - Coleção Santander Brasil
De 22 de maio a 14 de julho
Entrada Franca



A exposição Narrativas Poéticas leva ao público, pela primeira vez, a Coleção Santander Brasil de obras de arte. Reunindo trabalhos de pintores como Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Tomie Ohtake e poetas como Antonio Cícero, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes, o recorte conceitual adotado pelos curadores Helena Severo, Franklin Espath Pedroso, Eucanaã Ferraz e Antonio Cícero propõe um diálogo entre a produção de artes visuais e de poesia brasileiras. Além das obras, a mostra conta com elementos multimídia, como áudios com fragmentos de poemas recitados por seus autores e projeções dos textos poéticos no espaço expositivo.

Santander Cultural Porto Alegre
Rua Sete de Setembro, 1028
Centro Histórico. Porto Alegre/RS.
Tel. 51 3287 5500
De terça a sábado, das 10h as 19h
Domingos e feriados, das 13h as 19h
Fragmentos poéticos, filosóficos, delirantes*



Manoel por Manoel

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância.

Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho.

Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.

Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.

Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas.

Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor.

Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

*Manoel de Barros

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Apontamentos sobre fenomenologia husserliana*



A fenomenologia surge no século XX propondo uma volta das pesquisas filosóficas ao homem abrangendo seus aspectos racionais e irracionais. Ela aparece como crítica tanto ao idealismo, que visava a ideia ou consciência como a instância última de criação de realidade, quanto ao positivismo que afirmava o conhecimento com sua origem estritamente vinculada aos sentidos.

O método fenomenológico abre mão de afirmar uma realidade ou coisa-em-si kantiana para voltar-se ao homem e sua experiência, oriundas tanto dos aspectos racionais quanto irracionais. Seu foco está em avaliar a experiência humana do mundo no âmbito das coisas como aparecem (fenômeno).

Husserl, grande desenvolvedor desse método, buscou trabalhar aquilo que se manifesta, rompendo com a pretensão de pensar a coisa-em-si como anteriormente se fazia. Seu método consiste em dois pontos iniciais: a via negativa e a positiva. A primeira propõe uma epoché, suspensão de juízo, para analisar a coisa como é conhecida, como aparece ao sujeito. A segunda é o movimento próprio de dirigir-se a coisa após essa suspensão.

O fenomenólogo critica três métodos epistemológicos: psicologista, aristotélico e cartesiano. O psicologismo (que nada tem a ver com a psicologia atual) concebia o conhecimento reduzido à esfera das sensações. Segundo a crítica, os princípios da matemática e geometria provêm da intuição e não tem vínculo com o dado sensorial. A visão de Aristóteles postulava o método de conhecimento pelas categorias. Estas, para Husserl, são estabelecidas sem exame crítico. Por fim, o método cartesiano buscava a clareza e distinção. Entretanto, o método de Descartes, segundo a crítica, baseia-se numa evidência ingênua da epistemologia tradicional.

A fenomenologia, portanto, está baseada na análise da experiência tal como se manifesta. O conhecimento é essencialmente intencional. O que significa isso? Primeiramente, é importante saber que para conhecer é necessário compreender três elementos. (1) A hýle (matéria) que são os dados sensíveis. (2) A noesis (forma) que dá o sentido ao objeto apreendido pela sensibilidade. (3) A noema é o significado ideal da coisa. Entretanto, esta podendo existir ou não, como nos enunciados judicativos, S é P, por exemplo: “Husserl é fenomenólogo” ou “Husserl é engraxate”.

Segundo Batista Mondin, para Husserl “o objeto da filosofia é o ser que tem um sentido, isto é, o ser pelo conhecimento”. Este conhecimento se dá por duas reduções: a eidética e a transcendental. A redução eidética é a suspensão do juízo do objeto para examinar as representações enquanto tais, prescindindo da divisão sujeito/objeto. A redução transcendental é a suspensão sobre qualquer conhecimento para ater-se à consciência pura.

É o estudo do conhecimento, do eu que conhece. Ou seja, trata-se não de um eu pessoal, mas de um eu transcendental enquanto ser que conhece, sente, quer, deseja, etc. Esse eu transcendental não é um eu desvinculado do objeto. Seu estudo é do eu que se manifesta em todos os seus atos como intencionalidade. Pois sua tendência é para o objeto. A esse respeito dirá Mondin: “A intencionalidade é precisamente a propriedade do conhecimento e de todas as suas manifestações de tender para um objeto”.

As obras tardias de Husserl tratavam dessa intencionalidade sob o aspecto absoluto, nos pólos subjetivo e objetivo. Por isso, foi criticado por tratar do eu absoluto semelhante ao de Hegel. Entretanto, para Husserl é a “fonte e origem constitutiva do ser que tem sentido, enquanto dá sentido ao mundo” (Mondin).

A relação sujeito/objeto é concomitantemente o fenômeno primeiro, sem que haja um sujeito separado de objeto. A máxima husserliana na qual “toda consciência é consciência de algo” faz com que a separação seja de cunho metodológico e não se dá de fato.

Finalmente, cabe uma colocação de Mondin acerca do legado do método fenomenológico husserliano para a filosofia que o sucedeu no século XX.

“Com a elaboração do método fenomenológico, Husserl oferece uma contribuição decisiva para o desenvolvimento do existencialismo, fornecendo-lhe um método de pesquisa que correspondia perfeitamente à sua exigência de fazer uma análise minuciosa da experiência humana em todos os seus múltiplos aspectos” (Mondin, B.).

Vale lembrar que a fenomenologia não só foi importante para filósofos posteriores como também surtiu interesse na psicologia terapêutica e foi fundamental para a recém-criada Filosofia Clínica.

Referência Bibliográfica:
MONDIN, Battista. Curso de Filosofia: os filósofos do ocidente. Vol. 3. São Paulo: Paulinas, 1987.

*Miguel Ângelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Flor*



Escondida na terra adormecida, nem sonhava ser espinho e dor!
Inocente caule rompendo a mágoa de ser só, buscava abrigo na vastidão iluminada...

Folha por folha, nascia sua identidade. Viu sua beleza se transformando dia a dia em pétalas de paixão, rubras delicadezas de sua juventude inquieta.

Apaixonou-se pelo Bem que a colheu, com mãos cálidas que seguravam sua juventude pulsante.
Jovens amantes incautos, bendiziam a alegria dos dias entre sonhos e ternura.

(Tempo, selvagem alado sem forma, Ser impiedoso que desfaz as certezas e que destrói silenciosamente o que vive).

Dos seus espinhos brotaram lágrimas de tormento pelo Bem já distante, e pétalas caíram numa espera desesperada.
Sentiu seus espinhos arrancados à vida, e da beleza encarnada fez-se amargura pálida.

(Tempo, indefinível movimento que transpassa toda a vida, ciclo que faz e desfaz destinos).

Do passado irrecuperável, de sua certeza inexorável...
Um sopro de vento em seus ramos trouxe o desfolhar da dor.
Flor madura, machucada, afogada em espera, de novo sentia o afagar das mãos suaves do Bem desvanecido.
Era outra vez ambos, renascidos da terra, da dor, pelo Amor.

*Helena Monteiro
Poetisa, estudante de Filosofia Clínica
Petrópolis/RJ
Fragmentos poéticos, filosóficos, delirantes*



"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."

*Jack Kerouac

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Primavera Lunática*



Pinto paredes
Fome de tudo

Ousadia

Comer as cinzas
Do vulcão que me habita

*Mariah de Olivieri
Artista plástica, escritora, mestre em filosofia, estudante de filosofia clínica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 14 de maio de 2013

PENSAR É TRANSGREDIR*



Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

*Lya Luft

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Pretéritos imperfeitos*



“A experiência trivial do dia-a-dia sempre nos confirma alguma antiga profecia (...)”
Ralph Waldo Emerson

Existem eventos que possuem um começo sem fim. Perseguem uma in_de_termin_ação futura na travessia pelas antigas pontes. Neles é possível vislumbrar uma sombra suspeita, como algo mais a perturbar a lógica bem ajustada das convicções. Assim a grafia parece se orientar por um ontem a perdurar.

Atitude rarefeita de olhares a perseguir buscas contaminadas. Esse contágio parece querer singularizar a pluralidade de cada um. Apreciam a menção de fatos acontecidos no prolongamento do instante. Aparecem como atuação simultânea de um em outro, seu paradoxo dilui-se numa dialética de integração.

Uma de suas características é realçar fatos no momento em que ocorriam. Essa incerteza quanto ao amanhã, parece coincidir com o desfecho provisório de seu inacabamento.

Nessa terra de ninguém uma infindável trama de acontecimentos se refugia. Parece com algo que não se deixa esquecer, quiçá ocasião para a expressividade integrar-se num tempo passado com os rastros do hoje depoimento. Aí se tem uma dessas fontes de matéria-prima à farmácia do terapeuta artesão.

Um peregrino caminha pelo deserto recheado de jardins imaginários. Desvãos de uma procura por algo desconhecido. Através dele as antigas verdades revigoram sua epistemologia em novos jogos de linguagem.

Para situar alguma aproximação discursiva com a lógica dessas itinerâncias, surge a reivindicação de um sujeito incomum, com aptidão para a sintonia dos enredos discursivos da anterioridade a insinuar posteridades. Um desses veículos por onde o signo faz referência ao passado descontinuar-se. Uma de suas características é ser estética para acolher a novidade escritura.

A ideia de uma relação inconclusa revigora a possibilidade de perseguir um espaço-tempo, por onde o presente acolhe o que já se foi nalguma forma de reescrita. Esse movimento existencial desdobra-se no autor da própria história, ainda quando não tenha clareza da própria estrutura narrativa. As formas pretéritas imperfeitas apreciam qualificar desconstruções pessoais por estes rastros de um passando.

*Hélio Strassburger

domingo, 12 de maio de 2013

Fragmentos poéticos, filosóficos delirantes*



(...) Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reação aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára, meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!

Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer cousa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como pairam em taças
Aquelas que o vinho tem e amodorram o vinho.

*Fernando Pessoas

sábado, 11 de maio de 2013

Bem vinda seja tu,mente que pensa...*



Sobre a proposta para sair do reducionismo.

Eis que entre todos “ismos” (pessimismo,conformismos,modismos,psicologismos..) se encontra o homem. Ao que parece, todos estes lugares comuns e bem comuns, já não servem e não se sustentam. O ser humano começa transbordar na ordem social que criou. Somos criadores e sempre desde sempre, reféns de nossas criaturas, estas que nos impõe para o andar em sentidos antagônicos e paradoxais.

No entanto se avaliarmos com uma lupa existencial, a que se considerar alguns pontinhos de convergência.

Derruba-se muros e se constrói barreiras. Cai um império sob dominação de outro. Dita-se uma religião e mata-se uma cultura (politeísta Grega por exemplo). Ha neste movimento um quê de sobriedade ante a inconsciência das grandes massas , que reagem automatizadas sobre qualquer verdade que as façam esquecer da dor, das diferenças, da falta de alcance a caminhos dignos a existência. Respondem às vezes hipnotizadas por certos apelos políticos, diante certos silogismos psicológicos, imantados por falácias perversas como maquinas de descontração emocional. Eis o homem, aqui no Sec. 20, refém de seus "brinquedos" refém de seus "Sistemas", refém da solidão.

Toda a construção social parece servir aos que não se alimentaram do conhecimento, dos que existem na resistência biológica, sem se incluir no mundo de discernimentos lógicos. Então precisamente aqui surgimos nós ,minha cara amiga meu caro amigo, que neste ínfimo espaço tentamos "trepidar as paredes", e estas nos respondem em câmera lenta , porque talvez aqui sejam mais prisioneiras as opiniões e manifestações do que em espaço aberto.

Temos que nos fundamentar, não podemos apenas dizer do mundo, temos que arrecadar validação em frases celebres,em mentes já aprovadas pelo alivio das décadas, em respostas empiristas , porém , onde está o novo? Onde esta o homem? Quando vamos ter uma antropologia que nos apresente a este ser que ressurge de si mesmo, que pariu a si mesmo no decorrer de sua própria e recente historia no mundo?

A que se exercitar o bom pensar, transcender as apostilas utilizar o discernimento atualizar nossos dados mentais religar as idéias e estruturá-las no saber (tão reconfortante ) que a revelação dos humanos através da historia podem oferecer. Então se formularmos o seguinte, “eu estou aqui e penso”.

Antes eu existo para depois eu penso, nesta linha chegamos à cultura que é feita e construída historicamente no existir, este existir pode ou não incluir o exercício do discernimento. A bem da verdade, ouso inferir que tudo deságua para nós no processo de expurgar competências, até o ato pleno de existirmos em todos os recantos, que nos viabilizam como seres ai.

*Alba Regina Bonotto
Psicóloga, filósofa clínica
Curitiba/PR

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Via Láctea (trecho XIII)*



“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

*Olavo Bilac

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Ao vivo, a cores e em PB*



Deus pintou a natureza toda de várias cores, inclusive nossos amiguinhos, os animais. Quando chegou ao homem, resolveu usar apenas duas cores e nós não entendemos nada. Queria ver se a humanidade fosse um verdadeiro arco-íris
(Marcos Teixeira**)

Nascemos sem cor... a alma que chega ao mundo está vazia, como um quadro branco a ser preenchido com os tons e sobretons da vida. Não sabemos se somos brancos, pretos, amarelos, pardos, rosados, vermelhos, ou seja lá que nuances existam mais. Nascemos apenas com as possibilidades de escolha à frente, ainda que as condições não sejam tão razoáveis. O fato é que não daremos conta, obviamente, das tantas estranhezas que surgirão e provavelmente nem saberemos dar nome às sutilezas que as entrelinhas insinuarão. Nas fotografias existenciais ocorre que nem sempre preto é preto, branco é branco e as outras cores podem enganar os sentidos mais do que somos capazes de perceber.

A verdade é que não deveria haver distinção de cores num mundo tão fantasticamente repleto de infinitas tonalidades. Mesmo em preto e branco, há tantas variedades como há na intenção da existência de cada ser. Por que então nos separamos tanto? Por que, afinal, determinamos que pele, raça, cor, credo, opções fazem tanta diferença assim? Será que a arrogância de nossa pretensa superioridade racional nos fez melhores em relação às outras espécies? Ou será que, no decorrer de nossa suposta evolução, acabamos por confundir as realidades e as expectativas?

O hábil criador teve o cuidado e a paciência de extrair de suas sagradas entranhas tantas variedades de cores, sons, espécies, formas, tempos e intentos e nós reduzimos tudo a escolhas por vezes tão insensatas quanto o próprio ato de viver de quem levanta bandeiras em torno de qualquer causa que não tenha como propósito a igualdade entre os que nascem irmãos no destino da existência.

Nosso músico, que costuma encantar num maravilhoso e envolvente tom de baixo sugeriu, num delírio imaginativo e generoso, que as pessoas fossem coloridas como um arco-íris e se casassem sem pré-conceitos, sem falsas ideologias a interpor caminhos e que pudessem única e singelamente ser felizes, como uma bela música que desconhece quem a admira.

Poderíamos ainda, numa esplêndida viagem, simplesmente nos dispor a experimentar um intercâmbio de cores, tons e representações, apenas com a suprema intenção de preencher a alma com a diversidade que só a vida é capaz de proporcionar, numa doce e colorida dança que imprime o sentido e a beleza de cada ser. Seria como descobrir ser possível respeitar, tolerar ou talvez até amar àquele que, em teoria, consideramos irmãos, nem que seja somente para identificar à qual espécie pertencemos.

Geologicamente, um dia seremos apenas uma nota da história, um tom cinzento que se perdeu num tempo passado e talvez esquecido. As peculiaridades e as singularidades ficarão sob a areia do deserto, sob as rochas que se deslocaram gradativamente, assim como os oceanos que talvez invadam espaços antes habitados... todos indiferentes à nossa mísera condição e fragilidade. Então, por que não fumar o cachimbo da paz? Por que não valorizar o que temos de mais instigante, que é justamente a nossa diversidade? Por que não permitir que as pessoas apenas sejam o que são, sem amarras, sem fronteiras, sem imposições? Se nossa maior e mais impressionante capacidade é a de amar incondicionalmente, talvez então seja possível suportar diferenças, vazios e incoerências, cores borradas e notas desafinadas... apenas pelo simples prazer de sermos humanamente contrastantes.

*Luana Tavares
Filósofa Clínica
Niterói/RJ

**Marcos Teixeira é músico, professor e dono de uma das mais belas vozes que conheço.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

CONFITEOR DO ARTISTA*



Ah! Como os fins dos dias de outono são penetrantes! Penetrantes até doer! Porque há certas sensações deliciosas cujas imprecisões não excluem a intensidade; não há ponta mais aguda do que a do infinito.

Grande delícia que é a de afogar sua vista na imensidão do céu e do mar! Solidão, silêncio, a incomparável castidade do azul! Uma pequena vela tremulante que, por sua pequenez e seu isolamento, imita a minha irremediável existência; melodia monótona das vagas, todas essas coisas pensam por mim ou eu penso por elas (pois na grandeza dos devaneios, meu eu se perde rapidamente!); elas pensam, digo eu, mas musicalmente e pitorescamente sem perspicácias, sem silogismos, sem deduções.

Todavia, tais pensamentos que saem de mim ou se projetam das coisas cedo tornam-se intensos demais. A energia na volúpia cria um mal-estar e um sofrimento positivo. Meus nervos tensos demais só dão vibrações gritantes e dolorosas.

E agora a profundidade do céu me consterna; sua limpidez me exaspera. A insensibilidade do mar, a imutabilidade do espetáculo me revoltam... Ah! Será preciso sofrer ou fugir eternamente do belo?

Natureza, feiticeira impiedosa rival sempre vitoriosa, deixe-me! Pare de tentar os meus desejos e meu orgulho! O estudo do belo é um duelo em que o artista grita de medo antes de ser vencido.

*Charles Baudelaire

terça-feira, 7 de maio de 2013

A psicologia de Sartre*



Outro dia estava discutindo com uma colega psicóloga sobre a teoria sartriana da existência que precede a essência. Após a discussão, dei-me conta de uma coisa: e se o existencialismo de Sartre fosse já um essencialismo velado? Pois é. Estávamos conversando sobre a ótica da Psicologia e não da Filosofia. Sobre a ótica da segunda, há vários aspectos problemáticos que podem aparecer. Mas é sobre a primeira minha teoria.

O existencialismo de Sartre nos diz que o homem, a sua vida inteira, está sempre se fazendo, ou seja, determinando sua essência através de uma existência prévia. Nesse sentido, há uma primazia da existência sobre a essência. Entendo essência por aquilo que o homem traz dentro de si e que o constitui e, segundo Sartre, o homem não a traz: ela é construída com o passar do tempo.

Porém, se formos analisar, o homem está sempre buscando se conhecer e quando procura um atendimento psicológico, antes de mais nada, ele quer entender como é que ele mesmo se entende e entende as coisas a sua volta. Quer entender como ele mesmo lida com as coisas para melhor interpretar-se e interpretar o mundo de acordo com a sua realidade e vontade.

Nesse sentido, não estaria o homem procurando algo que é interior a ele? Essa foi a pergunta a qual me fiz e a resposta para mim é muito clara: sim. Acredito que o homem está sempre se fazendo enquanto ser moral e ético e nisso as coisas que acontecem a sua volta o influenciam muito e de muitas maneiras. Porém, quando o homem busca conhecer o seu interior, ele não está fazendo nada mais nada menos do que buscando entender sua essência, o seu próprio eu, sua maneira intrínseca de pensar a agir segundo suas representações internas.

Por isso, coloco que o existencialismo sartriano não é, senão, um essencialismo velado que, para opor a teoria clássica de que a essência precede a existência, inverte a ordem para tentar dar mais autonomia ao sujeito e torná-lo responsável por todas as suas ações e todas as conseqüências das mesmas. Isso é importante para que o homem não jogue a culpa pelas suas ações em outros homens. Porém, dizer que o homem primeiro existe e depois forma o seu interior, não me parece ser uma verdade das mais condizentes, uma vez que ele está sempre na busca pelo seu eu mais profundo.

Assim, entendo que o existencialismo é um essencialismo velado pelo fato de o homem estar sempre na busca por si mesmo, tentando se conhecer e conhecer o mundo a sua volta. E, nesse sentido, parece-me que há uma busca pela essência verdadeira do homem desde que o homem se entende como tal. Por isso, num sentido psicológico, vejo que Sartre não está de todo errado, mas dizer que o homem é puramente movimento, que está sempre se fazendo, não me parece ser uma visão totalmente livre de problemas.

*Vinícius Fontes
Filósofo, estudante de filosofia clínica
Rio de Janeiro/RJ

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Fé, Confiança e Esperança*


Querido leitor, paz!

Recebi recentemente uma mensagem em meu e-mail, dessas muitas que recebemos diariamente.

Passei o olho e gostei. Gostei pela simplicidade e objetividade. Inspirado nela, repasso a você. Espero que assim como eu, você também goste.

Certa vez, o povo de um vilarejo decidiu se reunir no centro do lugar para orar pedindo por chuvas. O solo estava seco e havia muito tempo que não caía uma gota sequer. Diante do acordo com todos os moradores, apenas um deles, um garoto, trouxe guarda-chuva.

Isso tem nome, isso é fé.

Quando você joga um bebê de um ano de idade para o alto, algo corriqueiro, principalmente para nós pais. Fazendo isso na criança, ele gargalha porque sabe que, na queda, alguém irá segurá-lo.

Isso tem nome, isso é confiança.

A cada noite, antes de dormir, não temos garantia alguma de que estaremos vivos na manhã seguinte, de que levantaremos e seguiremos nossa jornada. Mesmo assim, colocamos o despertador para tocar.

Isso tem nome, isso é esperança.

Então, querido ouvinte. Que sua existência seja sedimentada também na fé, não na ingenuidade, a mesma fé que o garoto levou na oração para chover.

Que no seu cotidiano, você possa viver confiante, sem desfocar na segunda possibilidade. Que sua vida seja um portal de esperança, mesmo que um dia o relógio desperte e a gente não desperte com ele.

Desejo isso tudo do fundo do meu coração. Estamos juntos.

*Beto Colombo
Empresário, filósofo clínico, coordenador da Filosofia Clínica ma UNESC
Criciúma/SC

domingo, 5 de maio de 2013

Ah! Os Relógios*



Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são…

*Mario Quintana

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Ciúme*




Sempre achei que ciúme era um sentimento baixo e jamais me atingiria. Confiava na altura do meu “taco” e na mulher que estava a meu lado. Até o dia em que tudo mudou. Fui atacado por um sentimento de perda, uma ameaça de abandono, um medo de não mais ser amado. Algo não andava bem.

Seria ciúme ou quem sabe algum outro sentimento parecido? Talvez inveja, ansiedade, depressão...O nome do que sentia nem era tão importante, mas como desprezava tanto o ciúme e tinha vergonha de estar sendo contaminado por este monstrinho de olhos verdes, procurei ajuda.

Para se caracterizar como ciúme é preciso o envolvimento de no mínimo três pessoas. Aquela que sente, a pessoa de quem se sente e o motivador do ciúme. A diferença entre ciúme e inveja é que o primeiro traz o sentimento de propriedade a ser perdida e o segundo, o instinto de apropriação indevida. Não restava dúvida, estava com ciúme, o que me confundiu é que o ciúme não era por uma mulher, era por um filho.

Inverno, final de tarde, meu filho entra em casa vestindo um sobretudo lindo, elegante, sofisticado. Chique demais para um menino de 19 anos. Disse-me que seu padrasto havia lhe emprestado. Imediatamente o sangue me subiu à cabeça, passei a enxergar tudo com lentes de aumento e imaginar meu filho experimentando, vestindo e gostando de usar as roupas do atual marido de minha ex-mulher. O próximo passo seria ele se afeiçoar mais a ele que a mim. Instintivamente falei que estava com ciúme e pedi que não mais usasse o sobretudo, pois lhe compraria um novo.

Ciúme de perder o amor de meu filho e inveja do sobretudo garboso. Antes que me perguntem, já vou esclarecendo, o ciúme era do amor de meu filho. Nada a ver com o relacionamento atual da mãe dele. Precisei de um tempo para entender que o sobretudo era apenas uma roupa bonita que meu filho poderia pedir emprestado sem problema algum. Já o amor dele por mim não tem negociação, é propriedade nossa, têm valor inestimável e não pode se emprestar, dividir ou perder.

Assim como se investe em roupas de qualidade e no cuidado com elas, o mesmo precisa ser feito com a relação. Estava desconfortável, com medo e precisava dividir este sentimento. Minha crise de ciúme serviu pra nos divertirmos muito e, depois de resolvida, até fazer piada, dizendo que liberava meu filho para usar, sujar, gastar, rasgar as roupas do outro e deixar as minhas limpinhas no armário. Porém, mais importante do que isto, a crise serviu pra confirmar que nosso amor estava acima da moda e cada vez mais clássico.

Será que num relacionamento de casal o corpo do companheiro também pode ser encarado como um sobretudo? Pode ser emprestado ou não? Depois de usado voltará a ser o mesmo? É melhor saber ou ignorar? Alguns vão espionar, questionar, sofrer, procurar a mentira, buscar a indiferença e padecer na dúvida até o dia em que descobrem o segredo que vai confirmar sua infelicidade. Outros tratam de ser felizes cuidando de suas próprias roupas. E você, o que está vestindo hoje?

* Ildo Meyer
Médico, escritor, palestrante, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Canção de Mim Mesmo*



1.
Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,
E aquilo que eu presumir também presumirás,
Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.

Descanso e convido a minha alma,
Deito-me e descanso tranqüilamente, observando uma haste da relva de verão.

Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,
Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,
Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,
Com a esperança de não cessar até morrer.

Crenças e escolas quedam-se dormentes
Retraindo-se por hora na suficiência do que não, mas nunca esquecidas,
Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,
A natureza sem estorvo, com energia original.

2.
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,
Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,
A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.

A atmosfera não é um perfume, mas tem o gosto da essência, não tem odor,
Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado
Irei até a colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,
Estou louco para que ela entre em contato comigo.

A fumaça da minha própria respiração,
Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,
Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,
O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol.

Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?
Praticaste tanto para aprender a ler?
Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?

Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,
Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar),
Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através do olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.
Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,
Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

3.
Eu ouvi a conversa dos falantes, a conversa sobre o início e sobre o fim,
Mas não falo nem do início nem do fim.

Nunca houve mais iniciativa do que há agora,
Nem mais juventude ou idade do que há agora,
E jamais haverá mais perfeição do que há agora,
Nem mais paraíso ou inferno do que há agora,

O anseio, o anseio, o anseio,
Sempre o anseio procriador do mundo.

Na obscuridade a oposição equivale ao avanço, sempre substância e acréscimo, sempre o sexo,
Sempre um nó de identidade, sempre distinção, sempre uma geração de vida.
Não vale elaborar, eruditos e ignorantes sentem que é assim.

Certeza tal como a mais certa certeza, aprumados em nossa verticalidade, bem fixados, suportados em vigas,
Robustos como um cavalo, afetuosos, altivos, elétricos,
Eu e este mistério aqui estamos, de pé.

Clara e doce é minha alma e claro e doce é tudo aquilo que não é minha alma.

Faltando um falta o outro, e o invisível é provado pelo visível
Até que este se torne invisível e receba a prova por sua vez.

Apresentando o melhor e isolando do pior, a idade agasta a idade,
Conhecendo a adequação e a eqüanimidade das coisas, enquanto eles discutem eu mantenho-me em silêncio e vou me banhar e admirar a mim mesmo.

Bem-vindo é todo órgão e atributo de mim, e também os de todo homem cordial e limpo.
Nenhuma polegada ou qualquer partícula de uma polegada é vil e nenhum será menos familiar que o resto.

Estou satisfeito – vejo, danço, rio, canto;
Quando o companheiro amoroso dorme abraçado a mim a noite inteira e depois vai embora ao raiar do dia com passos silenciosos,
Deixando-me cestas cobertas com toalhas brancas enchendo a casa com sua exuberância,
Devo adiar minha aceitação e compreensão e gritar pelos meus olhos,
Para que deixem de fitar a estrada ao longe e para além dela
E imediatamente calculem e mostrem-me para um centavo,
O valor exato de um e o valor exato de dois, e o que está à frente?

4.
Traiçoeiros e curiosos estão à minha volta
Pessoas com quem me encontro, os efeitos que a minha infância tem sobre mim, ou o bairro e a cidade em que vivo, ou a nação,
As últimas datas, descobertas, invenções, sociedades, autores antigos e novos,
Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
A indiferença real ou fantasiosa de um homem ou mulher que eu amo,
A doença de alguém de minha gente ou de mim mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de dinheiro, depressões ou exaltações,
Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem de mim outra vez,
Mas não são o meu verdadeiro Ser.

Longe do que puxa e do que arrasta, ergue-se o que de fato eu sou,
Ergue-se divertido, complacente, compassivo, ocioso, unitário,
Olha para baixo, está ereto, ou descansa o braço sobre certo apoio impalpável,
Olhando com a cabeça pendida para o lado, curioso sobre o que está por vir,
Tanto dentro como fora do jogo, e o assistindo, e intrigado por ele.

No passado vejo meus próprios dias quando suei através do nevoeiro com lingüistas e contendores,
Não trago zombarias ou argumentos, apenas testemunho e aguardo.

(…)

*Walt Whitman

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Descrituras*



“(...) Deram-me esta bela gravata... como um presente de desaniversário! (...) o que é um presente de desaniversário ? – Um presente oferecido quando não é seu aniversário, naturalmente.”
Lewis Carroll

Uma redação se faz página cotidiana na vida de qualquer pessoa, quer ela entenda ou não. Algo que restaria esquecido, não fora a ousadia semiótica a tentar decifrar essa trama de códigos imperfeitos. Por esse esboço a lógica descritura se incompleta para prosseguir inconclusa, aberta, viva.

Nem sempre se escolhe escrever, muitas vezes são as palavras a escolher você para dizer suas coisas. Conteúdos de rascunho, ilação, percepção extemporânea de ideias, reflexão. Aproximações com a zona interdita das margens de cada um.

O tempo aprecia conceder eficácia de tradução aos traços persistentes. O sujeito prisioneiro dessa armadilha conceitual experimenta liberdades nem sempre possíveis de mencionar na forma retórica. A relação do universo singular com o mundo dos outros aprecia se realizar em manuscritos compartilhados.

A trama constitutiva dos termos agendados exibe escolhas se desenvolvendo na pessoa fonte de vivências, como trânsito a mencionar labirintos desmerecidos. Esse olhar inédito a conter invisibilidades se aproxima de um intermediário entre o antes e o depois.

Um refém sugere seu extraordinário teor discursivo em dialetos de novidade. Quiçá à espera de algo que o mantenha vivo, um pouco antes de ser verdade cristalizada nalguma forma de religião. A desnecessidade aparece, ao autor dessas linhas, como um lugar provisório em busca dos textos por vir.

No encontro do acaso com a definição o sujeito desdobra-se numa linha tênue, por onde entreve seu ser passando. Assim as releituras podem conseguir um vislumbre desses traços mal_ditos. Nalguns instantes a invenção de palavras pode sugerir a visão do paraíso pessoal.

Essa teia de signos possui intencionalidade transbordante, a qual, longe da singularidade que a produz nada é. Sua ameaça às certezas oscila com a frequência das interseções do seu entorno. Os rituais de autodescoberta esparramam vestígios de arquitetura indizível. Quiçá tentativa de expandir a janela diante do espelho.

Escreve-se por não saber por que. Quando se sabe já são outras as razões. Nessa dialética da expressividade a descritura pode aproximar o sonho da vida real. Já é outro aquele mesmo que se foi. Convivência absurda a parir virgindades.

*Hélio Strassburger