domingo, 30 de junho de 2013

Louvor do Revolucionário*



Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?

Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.

Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.

Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

*Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
**Tradução de Paulo Quintela

sábado, 29 de junho de 2013

Fragmentos de vida e poesia*



"Amo as pessoas. Todas elas. Amo-as, creio, como um colecionador de selos ama sua coleção. Cada história, cada incidente, cada fragmento de conversa é matéria-prima para mim. Meu amor não é impessoal, nem tampouco inteiramente subjetivo. Gostaria de ser qualquer um, aleijado, moribundo, puta, e depois retornar para escrever sobre os meus pensamentos, minhas emoções enquanto fui aquela pessoa. Mas não sou onisciente. Tenho de viver a minha vida, ela é a única que terei. E você não pode considerar a própria vida com curiosidade objetiva o tempo todo..."

*Sylvia Plath

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Fragmentos poéticos, filosóficos, delirantes*



" (...)Depois de algum tempo, você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la, por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama, contudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto... plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!"

*William Shakespeare

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Fragmentos poéticos, filosóficos, delirantes*



"(...) Quem Poderá Calcular a Órbita da sua Própria Alma?

As pessoas cujo desejo é unicamente a auto-realização, nunca sabem para onde se dirigem. Não podem saber.

Numa das acepções da palavra, é obviamente necessário, como o oráculo grego afirmava, conhecermo-nos a nós próprios.

É a primeira realização do conhecimento. Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria.

O derradeiro mistério somos nós próprios.

Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios.

Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma? (...)"

*Oscar Wilde, in 'De Profundis'

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Lembrando Lou Salomé*











A alma rufla para longe.
O ser se vai em momentos de desespero da alma engaiolada.
Em dor, o corpo exige primazia.
Em posse dela, os seres se assemelham.
Se arrastam pela noite da alma
barbarizam seus rostos insanos
arranham as paredes da vaidade
não vêem a hora de dizer adeus
a cada prova mais amarga
a cada dia mais exposta e inexplicável.
Sim, a vida da alma dói
de tal modo que a irradiação nociva atinge camadas
e vai penetrando pele e peles internas - mucosas;
glândulas;
seivas;
veias rupestres;
fibras nem tão inocentes;
e, quando é funda demais, atinge os ossos
e diz que veio pra ficar.
Sim, a alma se vai
como vão-se os anéis.
É o divórcio imediato
do qual resulta a depressão.
Mas, se queres viver, viva por ela
neste mundo de Maya.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

terça-feira, 25 de junho de 2013

Os dons das fadas*


Era um grande encontro de fadas para proceder à distribuição de dons entre todos os recém-nascidos, chegados à vida, nas últimas vinte e quatro horas.
Todas essas antigas e caprichosas Irmãs do Destino, todas essas mães bizarras da alegria e da dor eram bem diferentes: umas tinham o ar sombrio e ranzinza, outras um ar caçoador e malicioso; umas jovens que sempre foram jovens e outras velhas que sempre foram velhas.
Todos os pais que tinham fé nas fadas vieram, trazendo, cada um deles, seu recém-nascido nos braços.

Os Dons, as Faculdades, as Boas Sortes, as Circunstâncias invencíveis estavam acumuladas ao lado do tribunal, sobre o estrado, para uma distribuição de prêmios. O que havia ali de particular é que os Dons não eram a recompensa de um esforço mas, pelo contrário, uma graça concedida aquele que ainda não vivera e que poderia determinar seu destino e tornar-se tanto a fonte de sua infelicidade quanto a de sua felicidade.

As pobres Fadas estavam muito ocupadas, pois a multidão de solicitantes era grande, e o mundo intermediário, colocado entre o homem e Deus, é tão submetido quanto nós à terrível lei do Tempo e de sua infinita posteridade: os Dias, as Horas, os Minutos e os Segundos.

Na verdade, elas encontravam-se tão atordoadas quanto os ministros em dias de audiência ou os empregados do Montepio (penhor) quando um feriado nacional autorizava os resgates gratuitos de empenhos. Creio, mesmo, que elas olhavam de tempo em tempo os ponteiros do relógio com tanta impaciência quanto os juízes humanos que, trabalhando desde manhã cedo, não podem se impedir de sonhar com o jantar junto à família, e com seus caros chinelos. Se, na justiça sobrenatural, há um pouco de precipitação e de acaso, não nos espantemos que assim seja, também, na justiça humana, algumas vezes. Nós seríamos, nós mesmos, nesses casos, injustos juízes.

Também foram cometidos alguns enganos nesse dia, que poderiam ser considerados bizarros, se a prudência, mais do que o capricho, fosse um caráter distintivo, eterno das Fadas.
Assim, o poder de atrair magneticamente uma fortuna foi concedido ao herdeiro único de uma família muito rica que, não sendo dotado de qualquer senso de caridade, nem de qualquer cobiça por todos os bens visíveis da vida, deveria se achar, mais tarde, prodigiosamente embaraçado com seus milhões.

Assim foram dados o Amor ao Belo e o Poder Poético ao filho de um pobre sombrio, pedreiro de profissão, que não podia, de nenhum modo, ajudar as capacidades nem suavizar as necessidades de sua deplorável progenitura.

Esqueci de lhes dizer que a distribuição, nesses casos solenes, não tem apelação, e que nenhum dom pode ser recusado.

Todas as Fadas se levantaram, crendo concluídas suas cansativas obrigações porque não havia mais qualquer presente, nem generosidade a distribuir para toda aquela massa humana ignara, quando um homem de bem, um pobre pequeno comerciante, eu creio, levantou-se, e, agarrando a roupa de vapores multicores da Fada que estava mais próxima e a seu alcance, gritou:
“Ei! Minha senhora, esqueceu-se de nós?! Há ainda o meu pequeno. Não aceito ter vindo aqui por nada!”

A Fada poderia ter ficado embaraçada, porque nada havia restado, Entretanto, ela se lembrou, a tempo, de uma lei bem conhecida conquanto raramente aplicada no mundo sobrenatural, habitado por deidades impalpáveis, amigas dos homens e freqüentemente constrangidas em se adaptar às paixões deles, na qualidade de Fadas, Gnomos, Salamandras, Sílfides, Silfos, Nixos, Ondins e Ondinas: “Desejo falar sobre a lei que concede às Fadas, em casos semelhantes a este, quer dizer, o esgotamento dos lotes de presentes, o poder de dar, conceder ainda mais um, suplementar e extraordinário, desde que ela tenha suficiente imaginação para criá-lo imediatamente.”

Então a boa Fada respondeu com arrogância, digna de seu cargo: “Eu dou ao teu filho... eu lhe dou... o dom de agradar!”
“Mas agradar como? Agradar?... Agradar por quê?”, perguntou obstinadamente o comerciante, que era, sem dúvida, um desses questionadores tão comuns, incapazes de se elevarem e alcançarem a lógica do Absurdo!

“Por quê? Porque sim!”, replicou a Fada furiosa, virando-lhe as costas; e, juntando-se ao cortejo de suas companheiras, lhes dizia: “O que acham vocês desse pequeno francês vaidoso que quer saber tudo e que tendo obtido para o filho o melhor dos prêmios ousa inda questionar e discutir o indiscutível?”

*Charles Baudelaire

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Presente Lunar*














O ponto é de chegada e, em breve, de partida novamente.

O presente é esta estação que nos permite voltar a considerar e reconsiderar.

Celebremos, pois muitos foram os contatos com vibrações felizes em nosso ser.

A Lua anterior nos libertou de estados anteriores e nos aproximou de caminhos que desejamos mais, tanto de forma individual como coletiva, e a imobilização saiu de cena.

Chegamos a este tempo lunar que abrirá as possibilidades de recomeço, quando tudo poderá ser mexido após ou ao final desse momento, mas ainda não.

O silêncio é nossa recompensa para que haja usufruto e regozijo, de diversos modos, pois há ainda quem desfrute de forma violenta, devendo muita sutilização ser alcançada.

O tempo localiza-se no agora, no estado corporal, com a respiração tranquilizadora.

Reverências ao nosso esqueleto que nos permite elevação. Reverências também ao nosso anahata chakra (do coração) que nos permite enlevarmo-nos. E que sua fala, mesmo baixinha, possa ser ouvida por todos os tempos.

Coloque-se a prumo e junto de sua respiração. A viagem não vai começar, você já está nela. Reconheça-se em sua não parada, pois o momento é apenas de chegada. E nela há o poder de perceber que um sorriso é nosso principal passaporte, além de os dentes serem a única parte visível do nosso esqueleto.

Bons frutos _/|\_ Namaskar

*Renata Bastos
Filósofa, mestre em filosofia, astróloga, filósofa clínica
São Paulo/SP

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Gaia*












Você sabe como eu sou despreocupada
que me encerro neste quarto e me permito
todas as divagações, as fantasias
obsessões, perseguições, todos os dias
você sabe que eu me viro de inventos
que eu me reparto e dou crias
que eu mal me resolvo e me aguento
carrego pedras no bolso
e enfrento ventanias.

Você sabe como eu sou desorientada
raciocínio pelo instinto e cometo
fugas de túnel de ladra de galeria
uso malhas e madras manhas e lenhas
e percorro superfícies
em que você escorregaria

Mas você sabe como eu sou de subsolos
de subterfúgios, de subversos subliminares
como eu sou de submundos
subterrãneos, de sub-reptícias folias
meio de circo, meio de farsa
ervas, panfletos, fluídos, presságios
quebrantos, jeitos, gírias, reviras
de sensações e cismas, filosofias

de como eu sou de estradas, andanças, pressentimentos
atmosférica e vadia
gato da noite, de crises, guitarras
ouros e danças e circunstâncias
de vinho azedo e companhia.

Que eu sou de todas as misturas
todas as formas e sintonias
e enfrento esse aperto, essas normas
forças, pressões, imposições, o poderio
os intervalos, o silêncio da maioria.

Você sabe de toda minha luta
mesmo quando a intenção silencia
que eu não cedo, não desisto
a todo custo,, a toda faca, a todo risco
eu sobrevivo de paixão e de anarquia.

Você sabe bem de minha fraude
Você conhece as minhas alquimias.

*Bruna Lombardi

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Pretéritos futuros*














“Mas a função do filósofo não será a de deformar o sentido das palavras o suficiente para extrair o abstrato do concreto, para permitir ao pensamento evadir-se das coisas ?”
Gaston Bachelard

A concepção de um esboço de como seria a tradução de ideias em atitudes, poderia dizer a vida em retrospectiva de amanhãs. Um lugar onde se alcançaria a perspectiva imaginada, como se fora uma invenção a transbordar oceanos.

Uma linguagem do futuro pretérito se oferece na palavra tentativa de superar o instante_antítese entre o vivido e sua descrição. Existem pessoas aprisionadas nalguma página do grande álbum das suas vidas. Numa dialética entre passado, presente e futuro, nem sempre conseguem realizar uma desconstrução de qualidade, capaz de alterar aquilo que já deveria ter sido. Raros transitam com leveza e desenvoltura entre um lugar e outro de sua estrutura existencial.

Partindo do viés singular, numa percepção reflexiva da realidade plural, é possível desconstruir as ideias conhecidas, para deixar entrever o novo vocabulário sobre antigas verdades. Nesse sentido, exercitar a flexibilidade existencial pode ajudar, deixando-se surpreender com os eventos de transgressão.

É possível desfocar a atenção e permitir outros movimentos a intencionalidade. Um ensaio onde se deixar perder pode anunciar novos instantes de reencontro. Entrementes, o ponto de vista subjetivo costuma ser impactado e fundir-se naquilo que vê, ouve, sente, vivencia, moldando personagens em roteiros de lógica retro_por vir.

Talvez ao reconsiderar sobre as miragens do instante, se possa conceber a aproximação da perspectiva vivaz de um Dionísio com a vontade justaposta de um Apolo. Aqui se vislumbra o embate da ilusão de continuidade e sua ruptura empírica por algum fato novo, capaz de apontar outros rumos ao entendimento e intuição das coisas. Na representação de cada um, a especulação sobre a simultaneidade desses diálogos interiores pode ajudar.

Nas lógicas do improvável poderíamos imaginar a realização de utopias pela palavra fora de si. Um roteiro incrível, onde a quintessência poderia ser vivenciada como uma arte de desvendar horizontes, resgatar o dialeto a margem dos consensos. No vão das idas e vindas o ser aconteceria na conjugação para reviver um tempo que ainda não chegou.

Esta aprendizagem inaudita dos rascunhos sugere termos de quase delírio. Numa estrutura fugaz, refugiada nas entrelinhas do cotidiano, é possível ser a impermanência a própria essência da vida. Uma semiose onde atuam múltiplos jogos de linguagem.

*Hélio Strassburger

terça-feira, 18 de junho de 2013

Fragmentos poéticos, filosóficos*

Minha vida não é essa hora abrupta
Em que me vês precipitado.
Sou uma árvore ante meu cenário;
Não sou senão uma de minhas bocas:
Essa, dentre tantas, que será a primeira a fechar-se.

Sou o intervalo entre as duas notas
Que a muito custo se afinam,
Porque a da morte quer ser mais alta…
Mas ambas, vibrando na obscura pausa,
Reconciliaram-se.
E é lindo o cântico.
(...)
As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.
E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.
E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.

*Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A Filosofia da Criança*

A observação é realmente algo bom para se começar um estudo. Antropologicamente falando, a observação de nós homens é boa para termos idéia de costumes locais, crenças, culturas e outras coisas mais. Filosoficamente falando, podemos compreender os sistemas éticos e morais e que nos cercam e nos formam. Mas observando, ainda sob o olhar filosófico, uma outra população formada por gente miúda, as crianças mesmo, podemos ter uma idéia muito boa sobre nós mesmos e sobre nossos sistemas políticos etc..

As crianças são extremamente sinceras e estão sempre prontas a “jogar” sua sinceridade na nossa cara. Não me canso de pensar que elas são o retrato mais puro do que há dentro de nós mesmos e nós nem nos damos conta do quão verdadeiro isso pode ser. Por exemplo: quando aprendemos a dividir? A criança não divide, é dela e ponto! Ela luta pelo que entende ser bom e seu, somente seu. Já tentaram tirar um brinquedo da mão de uma criança? Ela não deixa! Faz uma força incrível para continuar com o brinquedo.

E quando dizemos que não pode bater no coleguinha que está querendo brincar com o carrinho dela porque o carrinho é dela, o que ela faz? Chora, grita, esperneia e não aceita o empréstimo, voando no pescoço do colega que tentou pegar seu carrinho! Pois é... esse sentimento de posse é totalmente intrínseco a nós mesmos e a criança nos prova isso sempre que tentamos pegar algo dela, mesmo que seja apenas emprestado e que daqui a dois minutos devolvamos.

Mas esse não é o único sentimento que ela traz dentro de si e mostra com tanta desenvoltura sem se preocupar com julgamentos externos sobre o comportamento dela perante a sociedade e à própria família. Há uma música do Natiruts chamada Quem Planta Preconceito com o seguinte trecho: “Crianças não nascem más/crianças não nascem racistas/aprendem o que a gente ensina”. Isso não é verdade. Isso vem daquela velha máxima que sempre ouvimos por aí e continuaremos a ouvir de que as crianças não puras. Mentira! Crianças nascem más, tão más que nós é que precisamos ensiná-las a não serem assim. Claro que com isso, ensinamos os preconceitos e racismos também. Mas quero chamar a atenção para o fato de que não podemos dizer que elas são “anjinhos” e que nós as transformamos em “monstros”. Elas sempre foram monstros e apenas deixam isso transparecer sem nenhum pudor ou constrangimento, é só observarmos quando elas vão crescendo sem nenhum tipo de regra.

Os sentimentos que achamos incompatíveis com a vida em sociedade afloram de tal maneira que elas se transformam em adolescentes sem respeito algum pelos pais, irmãos, tios, primos, amigos, enfim por quem cruzar seu caminho. Por quê? Porque elas querem fazer valer os seus direitos de ser exatamente aquilo que são, sem que precisem se esconder. As regras morais e sociais existem para dar conta não somente da vida em sociedade, mas também desses adultos que se criaram sem que houvesse um mínimo de respeito pelos que estão a sua volta, para dar conta da vida.

Observando, podemos perceber que aquilo que Hobbes coloca de que o homem é mal por natureza é totalmente verdade no âmbito das crianças. Elas têm no seu íntimo uma vontade de que tudo seja do jeito que ela quer muito forte e somos nós que falamos para elas que nem tudo deve ser como elas querem. O estado de natureza hobbesiano é instaurado na criança e em suas vontades: para brincar com a boneca da coleguinha, ela bate, morde, puxa o cabelo da outra até conseguir. Mas essa “luta” só acontece porque a coleguinha não quer e nem vai largar a boneca que não lhe pertence, mas ela a quer. A criança é egoísta, possessiva, materialista, não é submissa, e se pararmos para analisar bem, veremos que esses sentimentos continuam presentes em toda as fases de crescimento da criança até chegarmos à fase adulta.

Esses sentimentos nos acompanham por toda a vida e é por causa deles que modificamos a nossa postura em favor de uma união em sociedade. Não poderíamos conviver uns com os outros sem nos estapearmos por causa dos nossos objetivos e desejos particulares que na grande maioria das vezes não é a vontade geral de um determinado grupo ao qual pertencemos. Faltou dizer também que a criança é bastante interesseira.

Basta usarmos uma experiência simples com reforço positivo: se fizerem o que queremos, ganham algo em troca. Por exemplo: você tem dois filhos com diferença de dois anos (não que essa diferença seja uma regra, é apenas para constar como exemplo). Um tem um carrinho azul e o outro vermelho. O do carrinho azul quer brincar com os dois, pois o do carrinho vermelho está brincando com bonecos. O dono do carrinho vermelho não vai gostar de ver seu irmão “pegando algo que não lhe pertence” e vai tentar tomar da mão do irmão.

Mas você é esperto e sabe que ele gosta muito de chocolate. Então você diz a ele: filho, se você deixar seu irmão brincar com seu carrinho vou te dar um chocolate. Pronto! Já conseguiu fazer com que ele deixe o irmão brincar. E viva o interesse! Agora, imagina o que não fazemos por fama, reconhecimento, dinheiro e outras coisas que achamos importantes para inflar nosso ego?

Assim, observando melhor o comportamento de nossas crianças podemos entender exatamente aquilo que se passa conosco e podemos entender porque agimos de determinada forma perante as situações que se nos apresentam. É claro que temos que levar em conta também que elas às vezes nos surpreendem com algum carinho ou qualquer coisa da qual nos vemos impressionados e extremamente babões por essa gente miúda.

Conforme nos tornamos adultos fazemos coisas parecidas, mas na maioria das vezes há algo pouco espontâneo e mais de interesse do que qualquer outra coisa. Mas essas pequenas demonstrações de carinho e afeto são importantes para que possamos continuar nos envolvendo e organizando em sociedades e fazendo bem aos nossos corações que não conseguem viver sem ter sequer um amigo.

*Vinicius Gomes de Fontes
Filósofo, estudante de Filosofia Clínica
Rio de Janeiro/RJ

domingo, 16 de junho de 2013

Fragmentos filosóficos delirantes*














"Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.

*Antonin Artaud

sábado, 15 de junho de 2013

Avaliação*

Se hoje eu lhe convidasse para ser avaliado como pessoa, como profissional, como pai, enfim, fazer uma análise de você nos diversos papeis que você exerce, o que você acharia?

A avaliação é uma ferramenta que muitas pessoas usam para saber se estão ou não no caminho certo, para identificar seus pontos problemáticos e mudar.

Avaliar tem o significado corriqueiro de determinar o valor de algo ou seu preço (lembrando que preço pode ser entendido como uma avaliação quantitativa enquanto o valor como qualitativo). Sendo assim, algumas pessoas quando param para se avaliar fazem uma avaliação própria tendo em vista valores quantitativos, ou seja, o quanto acumularam, seja dinheiro, títulos, lotes, casas, mulheres. Outros já partem para uma avaliação quantitativa, analisando como eram quando tinham tal idade e como estão agora, como eram quando começaram na empresa e onde chegaram na atualidade.

Algumas pessoas são muito duras ao se avaliarem e se cobram além do que poderiam alcançar, pode-se dizer que são juízes de si próprias. Outras já se avaliam sempre de maneira positiva, até mesmo atitudes que causaram grandes males na sua vida são entendidos como bem vindos. Enfim, cada um tem uma maneira de se avaliar, o que interessa aqui são as pessoas que não avaliam a si próprias, mas são avaliadas por outras pessoas.

São muitos os casos de pessoas que não conseguem se avaliar e ficam a mercê de seus avaliadores, sendo que, o que eles disserem será aceito como verdadeiro. Pessoas assim escolhem alguns ou muitos avaliadores e a eles atribuem o direito de crítica sobre si próprias, sejam elas positivas ou negativas. O problema é que alguns desses avaliadores são muito duros, entendem que avaliar é apenas ver os defeitos, as falhas. Imagine uma criança que pede a opinião de seu pai sobre seu rendimento escolar. O pai olha as notas e vê algo entre sete e oito, vira-se para o menino e diz: “Isso é pouco, exist
em muitos melhores que você”. O menino acompanha a sua avaliação e entende ser menos que os outros pela nota que tem.

O exemplo do filho que se submete a avaliação do pai pode ser algo muito próximo de um marido que se deixa avaliar pela família da esposa. Este tipo de avaliação delegada a outros muitas vezes pode se comparar a um bom vinho que é avaliado por aquele que nada sabe sobre o assunto. Quanto você receber a avaliação de alguém observe o quando a pessoa que está lhe avaliando conhece a você, seu trabalho ou seu produto.

Deixar-se avaliar não é problema, o problema é ter um avaliador que não conhece o que está avaliando. Muitos pais avaliam os filhos pelos amigos dos filhos, avaliam a esposa pelas amigas da esposa, avaliam seu rendimento pelo rendimento de outras empresas. Uma avaliação comparativa é sempre uma avaliação que precisa de ajustes, ou seja, não existem duas realidades iguais.

Muitos bons profissionais não crescem na organização porque seu “superior” não sabe avaliar e quem é avaliado acredita naqueles dados. Muitos grandes profissionais foram recusados em outras áreas de trabalho, na escola, mas encontraram alguém que os avaliou de acordo com suas capacidades e viu onde poderiam chegar. Se você está sendo avaliado e percebe que há dureza excessiva, que o que dizem não reflete exatamente quem você é, reveja seus avaliadores. Sua esposa talvez não tem a clareza de quem você é no trabalho para avaliá-lo como profissional, assim como seu chefe provavelmente não pode avaliá-lo como pai.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Mario por ele mesmo*

Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo.

Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente.

Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas...

Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.

Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim.

Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação.

Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.

*Mário Quintana

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Do que você tem se alimentado?

Querido leitor, do que você tem se alimentado? Vamos fazer um daqueles exercícios imagéticos: uma pessoa conhecida sua, com um daqueles empregos modernos, bancário, escriturário ou outro emprego que não exija tanto esforço físico, ok? Imaginou?

Agora vamos juntos descrever o dia desse colega: no café da manhã ele se alimenta de bacon com ovos mexidos, suco de laranja com bastante açúcar, depois café com leite integral e bolo de chocolate. Às 10 horas, no lanche da manhã, ele opta por um big mac com coca-cola; no almoço, caipirinha para abrir o apetite, feijoada com bastante sal acompanhada de cerveja e, de sobremesa, pudim de leite com calda de chocolate. No lanche da tarde um X-Egg com refrigerante e à noite joelho de porco com costeletas fritas e de sobremesa banana Split; na ceia, um mousse de chocolate com pudim de leite. Exagerei?

Pois é isso que algumas pessoas têm nutrido sua mente dia a dia, mês a mês ano após ano.

Na música preferem Lacraia, Eguinha Pocotó, Na Boquinha da Garrafa, Segura o Tcham, Arocha... Na televisão, gostam daqueles noticiários policiais que falam de sequestros, mortes, Big Brother Brasil...

Na política preferem ouvir somente sobre políticos corruptos e adversários mostrando apenas o lado ruim da política.

Nas novelas preferem ver o início onde tem sempre o maldoso aprontando para a mocinha; assim como no Jornal Nacional, gostam apenas de ver o início onde tudo é catástrofe. Já notaram que tanto no Jornal Nacional quanto nas novelas o bom vem somente no final? Isso para não falar dos programas sensacionalistas.

Do que sua mente tem se alimentado nas rodas de conversas com amigos? De frutas da estação, saladas frescas ou ecos dos programas e dos noticiários que também seus amigos viram ou ouviram?
O que você tem lido ultimamente? Facebook? Jornais e revista que apenas falam de situações sem saídas?

Tenho conversado com algumas pessoas que caíram nessa armadilha social, estão cativos e ficam repetindo dia a dia, mês a mês, ano a ano, colando um dia ao outro com os mesmos vícios. Participam de rodas de conversas onde só se fala coisa ruim e que ele detesta, mas não consegue fazer diferente e aí vem o mau humor, o stress, para não falar de outros problemas da sociedade moderna.

Eu e tu sabemos que nosso amigo lá do começo do artigo provavelmente em dez anos estará com veias entupidas, obeso, com problemas de pressão alta, diabetes, etc.

No corpo é fácil enxergar nossos problemas, o espelho mostra, os exames mostram. E com nossos pensamentos não é diferente, alguns de nós também estão se tornando obesos de abstrações, mas o espelho não mostra.

Preste atenção no seu humor, no seu índice de stress, no seu comportamento com pessoas queridas, isso pode estar relacionado com a nutrição de seus pensamentos. Do que você tem se alimentado?

Lembre-se que isso é assim para mim hoje.

*Beto Colombo
Empresário, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Prece por um bom amor*

Que o amor seja entendido como doação.

Que ele seja visto como estrada para fazer o outro feliz.

Difícil entender amor atrelado a responsabilidade, sofrimento, compromisso e obrigação antes de liberdade, felicidade, desejo e enorme vontade de estar perto de alguém que nos provoca tamanha sensação de bem estar.

Como assim, estar perto de alguém em nome do amor, que não seja por livre e espontânea vontade?
Como assim, culpar alguém por não te amar, exigir que alguém te ame ou que viva a seu lado por algo qualquer que não seja amor. A qualquer custo, até mesmo o da humilhação. De qualquer jeito, até mesmo em subjugação. Em opressão, em prisão, em pura obrigação.

Que ninguém esteja sujeito a um amor fanático, dependente, incompetente, principalmente.

Que ninguém jamais julgue amar apenas por precisar se escorar, segurar seus fracassos e insucessos perante a própria vida. Que ninguém mais no mundo seja capaz de tirar de alguém a oportunidade do amor verdadeiro, por um desejo rampeiro de não viver em lameiro.

Que as pessoas sejam capazes de se amarem, se edificarem e buscarem parceiros para somarem em alegrias, projetos e vida ainda que no caminho surjam dores onde os amores se manifestam em companheirismo e solidariedade voluntaria e desinteressada.

Que as pessoas não sejam mais capazes de se usarem, de usurparem em nome do amor. Porque isso não é amor.

Que o amor seja entendido como doação. Que ele seja visto como estrada para fazer o outro feliz e que o retorno seja merecido antes que revindicado.

Que os casais não se traiam, não mintam. Que não traiam seus corações.

Que os casais tenham olhos para ver e ouvidos para ouvir os sinos que anunciam afinidades capazes de unir em felicidade, almas cansadas de andar por aí, sem saber por aonde ir. Que não se percam ante o medo ou o orgulho.

E ainda que não seja amor, que o amor abrace a causa e faça dos momentos de partilha o mais puro, limpo, lindo e honrado encontro que um casal já pôde viver quando em busca de alento para seus dias solitários.

Feliz dias dos namorados.

Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 11 de junho de 2013

NAMORADOS PARA SEMPRE*



Conheceram-se pela internet. Moravam em países diferentes, tinham vinte anos de diferença de idade, falavam, torciam, votavam e rezavam para Deuses distintos. E mesmo com tudo diferente, os dois se falavam todo dia e a vontade de ficar juntos crescia, como tinha de ser.

Estavam apaixonados e juravam que opostos se atraem e se completam. Quem disse que existe razão nas coisas feitas pelo coração? Apostaram nisto e decidiram casar. Familia, amigos e preconceitos jogavam contra, previam um choque cultural seguido de desilusão com a convivência conjugal.

Recomendaram um curso preparatório de noivos, O casal estava tão entusiasmado, que qualquer motivo para ficarem juntos era bem aceito. Logo na primeira aula, o rabino, um senhor de meia idade, com uma longa barba ruiva e sotaque meio russo, meio francês, comunica ao jovem casal, em tom solene e ao mesmo tempo suave, que se quiserem mesmo casar, terão de fazer uma escolha: “ Felizes” ou “Para sempre”.

Uma opção ou outra, as duas juntas não combinavam. Aquele final tradicional dos livros românticos, casaram e foram felizes para sempre, só existia no papel. Na vida real essa possibilidade era muito remota. Deveriam, naquele momento, se conscientizar e escolher entre um relacionamento estável que lhes trouxesse paz ou uma vida de romance que acelerasse seus corações.

Foram pegos de surpresa. Estavam cheios de expectativas felizes para a nova vida que se anunciava e agora, de onde menos esperavam, recebem um balde de água fria. Queriam e sonhavam ser felizes e sequer cogitavam uma separação. O rabino percebendo o mal estar, ofereceu uma xícara de chá com limão e continuou sua prédica. Casamento é como tocar violino em cima de um telhado, é preciso ficar tentando arranhar uma simples e bela melodia, enquanto se cuida para não cair e quebrar o pescoço.

Como manter o equilíbrio? O amor é quem vai sustentá-los. Alguns dias dançarão felizes, em outros precisarão se abraçar para não caírem, talvez precisem jogar fora o violino, mas o amor vai mantê-los firmes no telhado. Não existem garantias, apesar da precariedade da incerteza, tudo pode ser refeito, recomeçado. Sob a perspectiva do medo, nada será suficientemente seguro, sob a perspectiva do amor, nada é necessário.

Ainda inseguros, decidiram deixar de lado a religião e casar apenas no civil. Consultaram um advogado, amigo da família, que aconselhou o regime de separação total de bens acrescido de algumas cláusulas específicas protetoras em caso de divórcio. As chances da união do jovem casal funcionar eram de apenas cinqüenta por cento e deveriam se resguardar de um possível fracasso amoroso.

Apavorados com os riscos, sabiam que não tinham mais para onde correr. Teriam que escolher entre desistir ou apostar naquilo que sentiam um pelo outro. Quando o amor precisa acontecer, sabe onde e como encontrar os amantes.. Não adiantava fugir. Além disto, existem os riscos que jamais se deve correr, mas existem também aqueles que não se pode deixar de correr. Decidiram simplesmente morar juntos. Formar um casal. Dividir e compartilhar armários, despesas, emoções. Nada de formalidades, apenas a vontade de dar certo.

Estão juntos há 15 anos.

Ele trabalha numa fábrica de computadores. Ela largou o emprego.

Ele engordou 20 quilos. Ela precisou tirar um seio.

Ele faz as compras no supermercado. Ela busca os filhos na escola.

Ele faz o jantar. Ela dá banho e põe as crianças pra dormir.

Ele abre um vinho. Ela coloca uma musica.

Eles se beijam.

*Ildo Meyer
Médico, escritor, palestrante, filósofo clínico
`Porto Alegre/RS

**Livre adaptação das músicas Eduardo e Mônica - Legião Urbana e Violinista no telhado - Jerry Bock e Sheldon Harnick

segunda-feira, 10 de junho de 2013

ORAÇÃO DO CORPO*



Vejo meu corpo se reconstituir como se lentamente fossem brotando galhos de goiabeira, de um bege claro, nas costas, com flores de cerejeira que emergem para os braços.

Cálices rosados acomodam pistilos com pólens arredondados de amarelo vivo. Assim, os músculos se enfeitam de filetes de saúde a ser cuidada com o carinho que pedem os filhos novos.

É bonito ver brotar a vida verde de troncos resistentes e superficialmente secos. Primavera já me vem dizer bom dia, pois o sol aquece a umidade do ar e a vegetação obedece à própria lógica, em conexão com o todo.

Sim, vou florir em azulejos e buscar ver a vida que pode existir nas matérias não comunicáveis por via verbal. Minha meditação é o silêncio das coisas; elas nos deixam ser e permitem que as conheçamos; só exigem um desabrochar que a cognição por vezes impede.

Dê-me teus braços de tendões sensíveis para te mostrar os rios que correm neles. Perceba as ondas naturais que existem por toda parte e, neste momento, sinta a fluidez do sangue pelos canais das veias indo e, abaixo da pele, vindo... para te oxigenar mais cedo; o corpo nunca dorme.

Não apresse o rio, não maltrate o coração. Ouça o ritmo da respiração que controla o seu pulsar. Tens tanto movimento interno quanto as engrenagens fabris. Emites tantas outras ondas para o universo em pensamento, energia, calor, vitalidade... Te deixes ser um irradiador do Bem em vez de coletor ostensivo.

Ao que foges para o intelecto, o social e a matéria externa, te perdes de si, autômato complexo subutilizado.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

domingo, 9 de junho de 2013

Provérbios do Inferno*



No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.
Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.
A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.
A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
O verme partido perdoa ao arado.
Mergulha no rio quem gosta de água.
O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.
Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.
A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.
As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.
Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.
Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.
Nenhum pássaro se eleva muito, se eleva com as próprias asas.
Um cadáver não vinga as injúrias.
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.
Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.
A loucura é o manto da velhacaria.
O manto do orgulho é a vergonha.
As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é a glória de Deus. A fúria do leão é a sabedoria de Deus. A nudez da mulher é a obra de Deus.
O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.
A raposa condena a armadilha, não a si própria.
Os júbilos fecundam. As tristezas geram.
Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.
O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O sorridente tolo egoísta e melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.
O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.
A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte derrama.
Um só pensamento preenche a imensidão.
Dizei sempre o que pensa, e o homem torpe te evitará.
Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade. A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.
A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.
De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.
Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.
Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Da água estagnada espera veneno.
Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.
Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!
Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.
O fraco na coragem é forte na esperteza.
A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa. Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.
Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.
A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.
Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.
Criar uma florzinha é o labor de séculos.
A maldição aperta. A benção afrouxa.
O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.
Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!
A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.
Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.
A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.
A Exuberância é a Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.
O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.
Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.
Onde o homem não está a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.
É suficiente! Ou Basta.

*William Blake

sábado, 8 de junho de 2013

CHEGO ONDE SOU ESTRANGEIRO*



Nada é tão precário quanto viver
Nada quanto ser é tão passageiro
É quase como gelo derreter
E para o vento ser ligeiro
Chego onde sou estrangeiro

Um dia passas a margem
De onde vens mas onde vais então
Amanhã que importa que importa ontem
Muda o cardo e o coração
Tudo é sem rima nem perdão

Passa na tua têmpora teu dedo
Toca a infância como os olhos veem
Baixa as lâmpadas mais cedo
A noite por mais tempo nos convém
É o dia claro envelhecendo

As árvores são belas no outono
Mas da criança o que é sucedido
Eu me olho e me assombro
Deste viajante desconhecido
Seu rosto e seu pé desvestido

Pouco a pouco te fazes silêncio
Mas não rápido o bastante
Para não sentires tua dessemelhança
E sobre o tu-mesmo de antes
Cair a poeira do tempo

É demorado envelhecer enfim
A areia nos foge entre os dedos
É como uma água fria em torvelim
É como a vergonha num crescendo
Um couro duro corroendo

É demorado ser um homem uma coisa
É demorado renunciar totalmente
E sentes-tu as metamorfoses
Que se passam internamente
Dobrar nossos joelhos lentamente

Ó mar amargo ó mar profundo
Qual é a hora da preamar
Quanto é preciso de anos-segundos
Ao homem para o homem abjurar
Por que por que esse gracejar

Nada é tão precário como viver
Nada quanto ser é tão passageiro
É quase como gelo derreter
E para o vento ser ligeiro
Chego onde sou estrangeiro

*Louis Aragon

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Prefiro ser aprendiz*



Eu não tenho nenhuma pretensão de achar que sei. As vezes, aquele que acha que sabe, corre um grande risco. Neste sentido, prefiro figurar como um quadro exposto na galeria do aprender, do desaprender e do reaprender.

Entendo que, em Filosofia Clínica, o encontro com o partilhante, é um caminho de mão dupla, ou seja, ao partilhar o filósofo clínico também aprende, neste processo relacional, emerge um ambiente de construção.

Assim, quando me refiro aprender, estou querendo dizer que, o filósofo clínico deverá está embebido num momento de construção com o seu partilhante, cujo momento é compartimentado e sigiloso, ou seja, tudo o que é dito pertence ao que diz. Pode-se saber por aquele espaço de fala.

O que foi dito, foi dito para o filósofo clínico e que fique exatamente assim. Sob a égide da singularidade de cada partilhante, o filósofo clínico tem que desaprender (adotar uma postura do não saber), impulsionado por uma outra abordagem fenomenológica, no exato exercício de “ingenuidade”.

Mas é bom frisar, que a Filosofia Clínica é dinâmica e o reaprender, está adstrito a flexibilidade da estrutura de pensamento de cada partilhante, a qual não é rígida e na sua atualização sob o ditame da evolução do assunto imediato, dado padrão, dado atual e dado literal, irá ser enriquecida com novos dados, o que possibilita um novo aprendizado, porque a prática da Filosofia Clínica demonstra uma contínua modificação subjetiva de vida em dados sutis da semiose, aflorando aqui, a Estrutura de Pensamento aprendiz.

A Estrutura de Pensamento Aprendiz, conforme ensinamento apreendido, diz da Estrutura de Pensamento do filósofo clínico. Cabe neste contexto, citar uma elaboração de Mônica Aiub, em Como ler a filosofia clínica: “{...} o filósofo clínico terá, sempre, um conhecimento limitado: limitado ao relato do partilhante, limitado a sua compreensão a tal relato, limitado ao que o instrumental da filosofia clínica lhe permite conhecer [...]). Em assim sendo, o filósofo clínico manterá no não saber, objetivando uma constante investigação.

Dessa forma, abstrai deste ensinamento que, a Estrutura de Pensamento Aprendiz é uma EP que procura não ser gessada; é inconformada (no bom sentido), procurando aprender com as circunstâncias; ela não tem problema com a autogenia; é regida pela curiosidade e investigação.

*Valter Silveira Machado
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Reinvenção*



A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

*Cecília Meireles

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Meu amigo Harvey e a lógica delirante.*



Nos dias 25, 26 e 27 de maio de 2012, estive participando do primeiro colóquio de filosofia clínica e lógica delirante, ocorrido no Hospital Espírita em Porto Alegre/RS. A parte que me coube nesse latifúndio foi referente às formas com as quais o cinema retratava as lógicas delirantes, o que comumente conhecemos por ‘loucura’.

Estávamos com uma bela turma de proseadores: Pedro Leopoldo, diretor do hospital, que tratou da relação entre a Filosofia Clínica e a Psiquiatria, posteriormente, junto com Hélio Strassburger, falou sobre o trabalho realizado pelos filósofos clínicos junto ao hospital psiquiátrico; Gustavo Bertoche, filósofo do Rio de Janeiro fez uma linda explanação sobre Bachelard, o sonho e a razão; Jussara Hadadd falou sobre a questão do amor, da sexualidade e da razão fora de si; Letícia Porto Alegre, Rafael Gabellini e Jane Kopzinzki falaram de sua experiência nos atendimentos aos internos do hospital; Vânia Dantas trouxe a arte e a loucura para o debate.

O encerramento deu-se com a fala de Lucio Packter sobre sua experiência como filósofo clínico nos hospitais psiquiátricos no início de seus trabalhos como terapeuta. Esse foi o mosaico que os colegas do sul presenciaram.

Minha fala foi um pouco além do cinema. Iniciei pelo mantra de Stephane Mallarmé, que sempre alertou “definir é matar, sugerir é criar” e mesmo assim, busquei tentar definir a Lógica Delirante, apresentei o Alienista, de Machado de Assis; a seguir vieram as obras de três grandes pintores: Van Gogh, Salvador Dali e Marciano Schmitz, uma antevisão dos filmes: Um estranho no ninho (1975), O pescador de ilusões (1991), As loucuras do rei George (1994), Don Juan de Marco (1995), Shine (1996), Bicho de 7 cabeças (2001), Uma mente brilhante (2001), Estamira (2004) e Meu amigo Harvey (1950), este último o objeto de estudo apresentado.

Elwood P. Dowd (James Stewart) é uma pessoa amável, cordial, que sempre estar com um olhar bom para o ser humano, acreditando que cada um só que praticar o bem. Seu único defeito, se é que podemos chamar assim, é visitar todos os bares e botecos da cidade cotidianamente, retornando sempre embriagado para casa. Sua irmã Veta (Josephine Hull) querendo ascender socialmente resolve internar Elwood, pois além de ébrio ele tem o estranho costume de apresentar um coelho de dois metros de altura chamado Harvey, que sempre lhe acompanha. Veta, na tentativa de internar o irmão, ao no conseguir se expressar para o médico é internada no hospício. Olhando para o filme fica dúvida, quem realmente é louco, nós em nossas máscaras sociais ou aqueles que conseguem vivenciar, dentro de nossa compreensão, sua plenitude?

DICA: Um dos grandes artistas plásticos que me auxiliou, com suas obras, a contar um pouco sobre a lógica delirante. O sítio virtual de Marciano Schmitz que fica em Lomba Grande www.marcianoschmitz.com.br

Ficha Técnica
Direção: Henry Koster
Ano de produção 1950 (EUA)
Duração : 104 min.

*Márcio José de Andrade e Silva
Filósofo Clínico
Campinas/SP
Médicos cubanos ou extraterrestres?*



Como médico e escritor não posso negar, o assunto que está em discussão na mídia e nas ruas me agradou. O argumento é fabuloso. 6000 médicos importados para trabalhar no Brasil. Seis mil! Ótima inspiração para um livro da categoria realismo mágico: fatos insólitos, fantásticos, inseridos em um contexto realista, cotidiano, comum.

Comecei a dar asas à imaginação. De onde viriam estes médicos? Qual lugar do planeta poderia se dar ao luxo de dispensar seis mil profissionais sem alterar o equilíbrio de seu próprio sistema de saúde? Talvez um país super desenvolvido, ou um planeta extraterrestre, preocupado com o bem estar mundial, apoiado por Organizações Não Governamentais, com a intenção de formar médicos sem fronteiras, dispostos a viajar para lugares miseráveis e cuidar das vidas que por ventura ainda lá existam.

Continuei com a fantasia. O que estariam fazendo neste momento estes médicos? Seriam desempregados, recém formados, aposentados, ou uma espécie de alienígenas produzidos em série e prontos para serem embalados e exportados à preços de banana? Viriam sós ou acompanhados de familiares?

Realismo mágico é um estilo literário que permite devaneios oníricos e ilógicos de maneira natural, sem espantos e sem dar ao leitor uma explicação razoável de como se tornaram reais. Assim sendo, passei a imaginar o Brasil montando uma operação de guerra para trazer, receber, acomodar e treinar estes profissionais. Tudo super organizado, em grande escala, sem desperdícios ou desvios de verba.

Escolas para ensinar nosso idioma (português e língua indígena) aos estrangeiros. Cursos de aprimoramento sobre doenças endêmicas, tropicais, desnutrição, mortalidade infantil. Treinamento para utilização de equipamentos novos de ultra-som, eletrocardiografia, radiologia e análises clinicas que acompanhariam os médicos e lhes dariam condições mínimas de trabalho, segurança e dignidade.

Quando comecei a pensar em como seria a distribuição regional destes médicos, minha imaginação fundiu. Prefeitos, vereadores, deputados, ministros discutindo critérios, privilégios, verbas, cotas, modelos de saúde, protocolos de atendimento, tratamentos preferenciais, vacinas, ambulância terapias. Foi demais para mim. A realidade superou a ficção.

*Ildo Meyer
Médico, escritor, palestrante, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

terça-feira, 4 de junho de 2013

Mito e Filosofia*



Toda civilização possui seus mitos. Mitos, em suma, são modos encontrados nas sociedades primitivas (termo sem sentido pejorativo) para dar conta de uma série de questões suscitadas pelos homens acerca da vida, da natureza e de si.

O mito é compreendido em dois aspectos: mito-verdade e mito-fábula. Este diz respeito a estórias que nada mais visam do que expor um conto fantástico acerca de qualquer coisa sem compromisso com uma verdade nem mesmo por quem conta. Já o mito-verdade busca expor o sentido de uma determinada questão da realidade tendo em vista uma verdade, expondo-a a partir de um conto fantasioso.

Os mitos cumprem basicamente três funções: religiosa, social e filosófica. Em outras palavras, a partir do mito (1) se fundamenta sentidos transcendentes para as coisas, (2) une-se um grupo em torno de um sentido comum e (3) busca-se compreender a realidade questionada.

Na Grécia, com a filosofia, o mito passou a ser questionado há vinte e cinco séculos. A filosofia surge como tentativa de pensar as coisas a partir puramente do logos, da razão. Com isso, a história da filosofia Ocidental, por séculos, caminhou numa oposição entre o mito e o logos. Mas, desde o fim do século XIX, pensadores como Eliade, Freud, Heidegger, Lévi-Strauss e Bultmann, em suas áreas de atuação deram grande valor ao mito. Segundo eles, de modo geral, há uma tentativa de explicar a realidade que talvez tenha até passado despercebido por outros âmbitos. Para esses pensadores, há um valor a ser reconhecido no modo mitológico de interpretar o mundo e que não deve ser desprezado.

Mesmo com a supramencionada ressalva, a filosofia surge em vista de – baseando-se no âmbito lógico, rigorosamente racional e teórico – explicar a realidade. O que diferencia a tentativa filosófica da científica, nascida na modernidade, é que enquanto esta se baseia em dados pontuais, fragmentários, para compreender a realidade, a filosofia busca, na maioria dos casos, explicar o todo da realidade.

Note que a princípio, toda afirmação é generalizada – às vezes excessivamente. Mas, devido ao fato de ser um resumo de um texto-base em si conciso – não sem um ar crítico, que à frente será mais evidenciado – as afirmações de cunho generalista serão, com o passar das exposições, destrinchados e a reflexão melhor compreendida.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo, Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Fragmentos literários, filosóficos, delirantes*



"(...) Quanto mais envelhecia, quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava, tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida. Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo.

O dinheiro não era nada, o poder não era nada. Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.

A beleza não era nada. Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar de sua beleza.

Também a saúde não contava tanto assim. Cada um tem a saúde que sente.

Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam angustiados pelo medo de sofrer.

A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar. Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.

O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar."

*Hermann Hesse

domingo, 2 de junho de 2013

O rio do tempo*



O tempo não existe,
nem dentro nem fora.
Esses peixes de opala
são nomes que nadam na memória:
são rostos, são risos, são prantos,
são as horas felizes.

O tempo não existe,
pois tudo continua aqui, e cresce
como se arredonda uma árvore
pesada de frutos que são peixes,
que são nomes de nomes, são rostos
com máscaras.

O tempo não existe. Sou apenas
o aqui e o presente, e o atrás disso,
como um rio que corre mas não passa
- pois ele é sempre, em mim, agora.

*Lya Luft

sábado, 1 de junho de 2013

Fragmentos poéticos, filosóficos, delirantes*



"Na realidade, todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo. A obra não passa de uma espécie de instrumento óptico oferecido ao leitor a fim de lhe ser possível discernir o que, sem ela, não teria certamente visto em si mesmo"

"No solitário, a reclusão, ainda que absoluta e até ao fim da vida, tem muitas vezes por princípio um amor desregrado da multidão e tanto mais forte do que qualquer outro sentimento, que ele, não podendo obter, quando sai, a admiração da porteira, dos transeuntes, do cocheiro ali estacionado, prefere jamais ser visto e renunciar por isso a toda e qualquer actividade que o obrigue a sair para a rua"

"Os seres não cessam de mudar de lugar em relação a nós. Na marcha insensível mas eterna do mundo, nós consideramo-los como imóveis num instante de visão, demasiado breve para que seja percebido o movimento que os arrasta. Mas basta escolher na nossa memória duas imagens suas, tomadas em instantes diferentes, bastante próximos no entanto para que eles não tenham mudado em si mesmo, pelo menos sensivelmente, e a diferença das duas imagens mede a deslocação que eles operavam em relação a nós"

"Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido, aqueles que passámos com um livro preferido. Tudo quanto, ao que parecia, os enchia para os outros, e que afastávamos como um obstáculo vulgar a um prazer divino: a brincadeira para a qual um amigo nos vinha buscar na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da página ou a mudar de lugar, as provisões para o lanche que nos obrigavam a levar e que deixávamos ao nosso lado no banco, sem lhes tocar, enquanto, sobre a nossa cabeça, o sol diminuía de intensidade no céu azul, o jantar que motivara o regresso a casa e durante o qual só pensávamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, o capítulo interrompido, tudo isto, que a leitura nos devia ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contrário gravava em nós uma recordação de tal modo doce (de tal modo mais preciosa no nosso entendimento actual do que o que líamos então com amor) que, se ainda hoje nos acontece folhear esses livros de outrora, é apenas como sendo os únicos calendários que guardámos dos dias passados, e com a esperança de ver reflectidas nas suas páginas as casas e os lagos que já não existem"

"Mentimos para Proteger o nosso Prazer. A mentira é essencial à humanidade. Nela desempenha porventura um papel tão importante como a procura do prazer, e de resto é comandada por essa mesma procura. Mentimos para proteger o nosso prazer, ou a nossa honra se a divulgação do prazer for contrária à honra. Mentimos ao longo de toda a nossa vida, até, e sobretudo, e talvez apenas, àqueles que nos amam. Só estes, com efeito, nos fazem temer pelo nosso prazer e desejar a sua estima"

*Marcel Proust