segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O auto-retrato *


No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

*Mário Quintana

domingo, 29 de setembro de 2013

Lilith*














Um conto... uma lenda... um arquétipo feminino materializado em forma de história de um amor que supera o tempo, os limites da vida e da morte, transcende emoções e transporta entre mundos a existência. Uma interação amorosa, visceral e profunda, selada pela força sobrenatural que governa o mundo e todas as fronteiras.

O encontro de seres distintos – um, espiritual, racional e masculino com armas malignas; o outro, sensorial e feminino, com fluidez da subjetividade que impregna e transforma tudo que toca.

Dois seres que, na força do amor, do poder e da paixão, revelam o avesso do sentir e a mácula do desejo não possuído, da incompletude amorosa, da ânsia dos contrastes de amar sem ser amado, do desejo contido que implode no gozo solitário que jamais sacia, em ao pertencer sem ser pertencido ou ao amar sem ser amado.

 Lilith, forjada no mundo como a primeira mulher, surgida da sedução cósmica, que encanta não somente por sua beleza, mas por seus aromas e fluidos. Mulher feita de magia e adorada por entidades malignas, criada à imagem e semelhança do homem, mas que se deixou seduzir pelos encantos da paixão dos demônios e de Samael, que lhe revelou todos os segredos do sexo e da luxúria. Ela mesma talvez apenas uma mulher na expectativa de um amor profundo, que não lhe negasse a manifestação de sua inteligência e vivacidade.

Ela desperta o lado improvável do amor sereno, que flui racional, que acalma e caminha junto no lado obscuro da pura paixão, abraçando demônios que vibram na mesma sintonia que qualquer ser em busca de plenitude. Um êxtase de almas livres, que encantam e vivem a mais profunda história de paixão do Oriente. Uma história de amor que em nossos devaneios de emoções mais profundos, imaginamos liberta na atemporalidade da imaginação.

Almas livres atravessam universos contraditórios e incongruentes. Tudo em nome do que acreditam. E elas acreditam nas essências sublimes do amor e no vigor da vida que pulsa e forja possibilidades que o destino não previu. Ultrapassam limites, pois a paixão que motiva e destila emoção, instigando devires alucinados, não suportaria ser confinada.

Seus intervalos sublimam e bailam para além do que cogitam ser e quase cegam quem atravessa seu caminho.  Mas não porque intencionam o cegar, e sim porque a força avassaladora dos seus padrões e sutilezas existenciais não perdoa os que hesitam. A inalação que as sustenta é tão provocante e inebriante quanto o canto das sereias desnudas que as ondas insistem em fazer mergulhar, deliciando a imaginação dos que se deixam levar.
Almas livres são subjugadas apenas ao que anseiam com ardor, ao que acreditam, ao que lhes escapa ao controle... exatamente por ser incontrolável. Pelo que baila e converge em brilho em suas entranhas rasgadas por não desistirem e por desafiarem seus destinos supostamente traçados.

São como contrastes de realidades que mal se suportam ou se tocam, mas que não conseguem se diferenciar nas entranhas dos seus sentimentos loucos e profanos, intensos e sagrados. Fêmeas guerreiras que se lançam em busca de essências, tal qual fontes de um esplendor quase inimaginável. Seres imaginários que podem tudo, até mesmo amanhecer na luz diáfana e primeira da vida a perpetuar seus sonhos, esperanças, luzes e devaneios, perfurando a eternidade como lanças em chamas a rasgar as almas que desejam habitar.

Através de um abraço improvável e de um afeto que transborda o surreal desejo de penetrar corpos de outros ventos e ou aragens, Lilith se lança, impetuosa e enigmática, ao encontro de sua vontade, desafiando a ordem dos tempos. Busca acordar e retomar o que lhe pertence, fazer valer seu direito de ser única, intensa e dona de seus sonhos, ainda que sombrios. Seus instintos determinam apocalipses, mas se escondem nas profundezas ferozes de seus próprios pensamentos.

Força e delicadeza se misturam, como tintas de matizes ao mesmo tempo vibrantes e suaves. Não se prende aos desígnios e enlaça seus demônios carinhosamente, como se pudesse carregar em si toda a força da paixão que os domina. Revestida de sua sensualidade, despojada de pudores, ela se torna capaz de desafiar as leis que criaram mundos e instituíram dogmas, ao revelar a eternidade a seus pés.

Em plena mutação, reconhece-se seduzida por seus próprios instintos, mas transforma-se e entrega-se à sua essência, inundando de cumplicidade e segredos o seu escolhido. Ao penetrar as entranhas ocultas pelas ondas de cor e prazer que os revestem, consolam-se da dor e da estranheza de se verem perdidos entre os paralelos confusos da razão. Porém, ao se entregarem, libertam o que há de mais surpreendente e então se fundem pelo tempo e se perdem em brumas distantes de dúvidas e temores. São assim ornados da sublime fragilidade, forjando sentimentos da mais pura substância, em contrapontos entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas.

Desta fusão incandescente surge o mais pleno amor, anseio de gozo e desejo. Na fluidez de suas lutas internas, consolidam a força suprema da paixão e desintegram ilusões nas sutis diferenças que os atormentam, abrindo perspectivas aos mortais que ainda engatinham na compreensão do sentido que os movem.

*Alba Bonotto
*Luana Tavares
*Sandra Sucupira
Filósofas Clínicas em Curitiba/PR, Niterói/RJ e Teresina/PI, respectivamente.

AQUELE OLHAR*



Quando ela me olha,
Com aquele olhar inocente,
Parece que nasce na gente,
Uma outra vida, que não esta,
Tudo se transforma em festa,
quando ela chega sorridente.

Com seu olhar inocente,
Eivado de ingenuidade,
Pura poesia...
O que ele quer dizer não parece verdade,
Mas com muita veracidade,
Diz coisas que só o poeta vê.
É a vida que floresce,
E por falar em flores,
Você é a minha preferida que começa florescer.

Aquela pessoa pequena que mal começa falar,
Balbucia palavras soltas,
Com sentido incompleto,
Mas traz um discurso completo,
No seu inocente olhar.

O seu olhar brilha como as estrelas,
Enfeitiçando o meu ser,
Olhar que me acalma,
Bálsamo para minha alma,
Dentre o brilho das estrelas,
No céu do vovô,
A  estrela que mais brilha é você.

*Valter Silveira Machado
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

sábado, 28 de setembro de 2013

Exageros ?*


"Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim.
Há o mundo continuando a fazer o que faz.
E eu não estou lá. Muito estranho. Penso
no caminhão do lixo passando e levando o lixo
e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim
e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível.
E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser
verdadeiramente descoberto. E todos aqueles
que tinham medo de mim ou me odiavam
vão subitamente me aceitar. Minhas palavras
vão estar em todos os lugares. Vão se formar
clubes e sociedades. Será nojento.
Será feito um filme sobre a minha vida.
Me farão muito mais corajoso e talentoso do que
sou. Muito mais. Será suficiente para fazer
os deuses vomitarem. A raça humana exagera
em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância."

*Charles Bukowski

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O novo, o velho e o paradoxo*












            Gostaria de conduzir a presente reflexão a partir do título. Segundo suponho, nele está a síntese, ainda não explicada, do que vou postular a seguir.

            Primeiramente vamos esclarecer o novo: a Filosofia Clínica. Por que novo? Porque é uma proposta criada no fim do século XX, formulada ao longo da década de 1980, consolidada em meados da década de 1990 e estendida até hoje. Trata-se de um método cuja riqueza reside no postulado de seu caráter inacabado, continuamente se reinventando, sempre em desenvolvimento. Levando em conta que o saber da área de humanas geralmente leva tempo para se consolidar, a Filosofia Clínica é uma proposta extremamente nova.

            E o que é o velho? Antes de explicá-lo, gostaria de contextualizar o porquê deste termo. Comecei a cursar a Filosofia Clínica em 2010, quando estava na segunda faculdade, cursando a licenciatura em filosofia – na primeira havia cursado o bacharelado na mesma área. Quando conheci a Filosofia Clínica, a perspectiva – que se mantém até hoje – era a de que se tratava de um olhar novo que permitia compreender de modo menos engessado as pessoas e a nós mesmos.

            Hoje frequento o curso como ouvinte. Em quase quatro anos de frequência contínua, seja dentro da sala de aula, seja acompanhando trabalhos escritos e audiovisuais, pude notar um certo rechaço em relação aos velhos. Agora cabe finalmente dizer o que é o velho.

            Velho é o “sistema acadêmico tradicional”. A estrutura universitária enrijecida em seu hermetismo, estéril ao lidar com a vida e sem abertura às singularidades que não comportam aquelas exigências limitadas de seu sistema. Trata-se, em suma, do velho, se o colocarmos em relação ao novo que a Filosofia Clínica trouxe. Isto é o que ouvi ao longo desses anos e que continuo ouvindo.

            Pois bem, apresentado o novo e o velho, precisamos compreender em que medida e o que é o paradoxo. Para isso, vamos nos valer, sucintamente, de Thomas Kuhn que, por sinal, tem seu texto tão bem e sabiamente recomendado no decorrer dos módulos do curso de Filosofia Clínica. Em seguida, passaremos à questão do velho, do novo e do paradoxo.

            Thomas Kuhn apresenta na sua obra “A estrutura das revoluções científicas” a mudança do velho paradigma científico para o novo. Segundo o autor, essa mudança, convenhamos que costuma acontecer em vários âmbitos da vida, gera uma tensão. Depois de um tempo o velho paradigma é substituído, tornando-se o vigente até que um novo paradigma surja para questioná-lo e, quem sabe, substituí-lo.

            O que talvez não apareça no discurso kuhniano – e que é muito bem apresentado pelos mais aguçados filósofos clínicos – é que essa descrição não é tão rígida e que sempre há exceções que, por sua vez, não se restringe a casos tão isolados. Em outras palavras, há psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, filósofos e acadêmicos em geral fechados ao velho paradigma e inúmeros abertos ao novo, inovando.

Ainda poderíamos nos estender ao ramo das ditas ciências exatas ou ciências da natureza que, num primeiro momento, são rígidos em seus experimentos mensuráveis e passíveis de serem repetidos; mas, se nos aproximarmos um pouco mais, a linguagem, assim como os wittgeinsteinianos jogos de linguagem de qualquer subgrupo, é de certo modo rígida em sua convenção dada no âmbito regional de seus interlocutores. Entretanto, além da linguagem específica, permanece a abertura ao novo, seja ele qual for.

            Se há não somente a tensão existente do velho para o novo, há paradoxalmente do novo para o velho. Uma das atribuições que tiro de meus pré-juízos (lembrando que estes costumam ser fundamentados em vivências) é que do mesmo modo como o novo é rejeitado pelo desconcerto ou pela necessidade de reconstrução que cabe àquele que está vinculado ao velho, o contrário também acontece, mas por outro caminho. Quando não se chegou a sequer se adaptar ao velho paradigma, quando este era predominantemente vigente, o incômodo sem solução estava presente. Mas, a partir do momento em que o novo surgiu e a adaptação foi muitas vezes mais fácil, o velho foi rechaçado como o que não tem valor.

            Não falo de poucos casos isolados. Percebi muitas situações assim. O que alguns filósofos clínicos não notam – tantos os em formação quanto os formados – é que estão paradoxalmente rejeitando um dos maiores pressupostos da “ciência” que estão adquirindo: a singularidade. Aplicam-na aos partilhantes, aos amigos, à família, à própria vida. Mas, quando se dirige ao âmbito no qual se encontra o velho paradigma, “esquecem” do que aprenderam.

A academia, seja ela na área de humanas, seja na área das ciências exatas, não deve ser vista como um grande monstro que rechaça os que a ela não se adaptam. Muito pelo contrário, ela é feita de pessoas, singulares, portanto, fechadas e abertas. Não considero com essas palavras um juízo de valor, pois, como aprendemos na Filosofia Clínica, a singularidade implica necessidades próprias para viabilizar sua existência como cabe à sua Estrutura de Pensamento; e o fechamento e a abertura é um desses modos.

            Como na Filosofia Clínica sempre somos levados a não nos determos às afirmações universais, uma vez que nossos pré-juízos vem da vida, gostaria de exemplificar. Cursei o bacharelado numa faculdade e a licenciatura numa universidade, ambas particulares, em cidades diferentes. Já a pós-graduação estou cursando numa universidade pública, no estado diferente dos quais cursei a graduação – parte dessa formação foi, e está sendo, paralela ao curso de Filosofia Clínica. 

           Considero essa diversidade de lugares, ainda que mínima, exemplar para minha consideração. Em todas elas conheci pessoas fechadas, herméticas, sem abertura para ouvir nada além daquilo que defendem, fechados inclusive para a discussão propriamente acadêmica. Por outro lado, conheci sujeitos amplamente sensíveis aos novos paradigmas das mais diversas naturezas.

            Hoje curso uma área de humanas que se chama Ciência da Religião. Conceito aparentemente paradoxal, uma vez que ciência remete à rigidez conceitual e experimental e religião, quando não é remetido a dogmas, é pensada como algo extremamente subjetivo. Eis o paradoxo que se complementa. 

          No mesmo curso, a sociologia, a teologia, a filosofia (subárea na qual atuo), a literatura, a antropologia e a psicologia, tratam de fé, da relação da religião com o espaço público, com conceitos acerca da divindade, de mística, do diálogo interreligioso, entre outros. Um curso em que se permite o silêncio diante do mistério e considerações acerca do que pode ser dito. (Lembro aqui que não sou o caso único de quem medeia as filosofias acadêmica e clínica no processo de formação).

A afirmação acerca da limitação acadêmica em geral pode estar mais nos pré-juízos mal fundamentados, mal experimentados ou até inadaptados do velho paradigma, do que no paradigma mesmo; pode também estar restrito a um juízo universal feito a partir do caso pessoal, esquecendo que cada sujeito tem seus próprios meios de viabilizar sua Estrutura de Pensamento, sendo a vida acadêmica uma delas.

            Após a breve exposição das considerações acima, concluo com a seguinte consideração: Se não é possível cobrar dos pertencentes aos velhos paradigmas uma postura de abertura ao novo, cabe aos filósofos clínicos, não por um princípio moral, mas pela constituição da própria formação, uma postura menos rígida, mais plástica. Quando o velho critica o novo podemos considerá-lo uma possível tensão própria do processo de consolidação. Mas, quando o novo critica o velho, sobretudo quando o novo é a Filosofia Clínica que se propõe a abertura plástica e a atenção à singularidade, contemplamos o paradoxo.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo, Filósofo Clínico, Doutorando em Ciências da Religião pela UFJF
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

É disto que eu gosto*


Gosto de brincar com as palavras.
Observar o entorno.
Registrar os instantes.
Fazer das letras uma pintura viva.
Os símbolos dançam e me seduzem.
Escravizando as palavras,
Liberto minha alma.
Egoísmo este meu hábito!
Mas, o que fazer se tanto gosto?
Nem sei, nem quero saber o porque.
É bom e basta!
Estou apaixonada pela literatura,
Essa tecedura de imaginação
Com o dar forma às palavras,
Num dançar instigante e cativante.
Bom e gostoso envelhecer assim,
Entre a biblioteca e as teclas.
Melhor ainda desenhando as letras
Com lápis e papel à forma clássica!
Um mundo se rebela a cada palavra.
Vou tecendo a colcha...
No final apenas um texto
Que compartilho, pois humana
Gosto também de gente
Que, como eu,
Gosta de brincar de ler!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, escritora, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Buscas***










"Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca."

*Dom Quixote
**Miguel de Cervantes

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Filosofando*


Outro dia estava discutindo com uma colega psicóloga sobre a teoria sartriana da existência que precede a essência. Após a discussão, dei-me conta de uma coisa: e se o existencialismo de Sartre fosse já um essencialismo velado? Pois é. Estávamos conversando sobre a ótica da Psicologia e não da Filosofia. Sobre a ótica da segunda, há vários aspectos problemáticos que podem aparecer. Mas é sobre a primeira minha teoria.

O existencialismo de Sartre nos diz que o homem, a sua vida inteira, está sempre se fazendo, ou seja, determinando sua essência através de uma existência prévia. Nesse sentido, há uma primazia da existência sobre a essência. Entendo essência por aquilo que o homem traz dentro de si e que o constitui e, segundo Sartre, o homem não a traz: ela é construída com o passar do tempo.

Porém, se formos analisar, o homem está sempre buscando se conhecer e quando procura um atendimento psicológico, antes de mais nada, ele quer entender como é que ele mesmo se entende e entende as coisas a sua volta. Quer entender como ele mesmo lida com as coisas para melhor interpretar-se e interpretar o mundo de acordo com a sua realidade e vontade.

Nesse sentido, não estaria o homem procurando algo que é interior a ele? Essa foi a pergunta a qual me fiz e a resposta para mim é muito clara: sim. Acredito que o homem está sempre se fazendo enquanto ser moral e ético e nisso as coisas que acontecem a sua volta o influenciam muito e de muitas maneiras. Porém, quando o homem busca conhecer o seu interior, ele não está fazendo nada mais nada menos do que buscando entender sua essência, o seu próprio eu, sua maneira intrínseca de pensar a agir segundo suas representações internas.

Por isso, coloco que o existencialismo sartriano não é, senão, um essencialismo velado que, para opor a teoria clássica de que a essência precede a existência, inverte a ordem para tentar dar mais autonomia ao sujeito e torná-lo responsável por todas as suas ações e todas as conseqüências das mesmas. Isso é importante para que o homem não jogue a culpa pelas suas ações em outros homens. Porém, dizer que o homem primeiro existe e depois forma o seu interior, não me parece ser uma verdade das mais condizentes, uma vez que ele está sempre na busca pelo seu eu mais profundo.

Assim, entendo que o existencialismo é um essencialismo velado pelo fato de o homem estar sempre na busca por si mesmo, tentando se conhecer e conhecer o mundo a sua volta. E, nesse sentido, parece-me que há uma busca pela essência verdadeira do homem desde que o homem se entende como tal. Por isso, num sentido psicológico, vejo que Sartre não está de todo errado, mas dizer que o homem é puramente movimento, que está sempre se fazendo, não me parece ser uma visão totalmente livre de problemas.

*Vinícius Fontes
Filósofo, estudante de filosofia clínica
Rio de Janeiro/RJ        

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Expressão!*












Livre movimento do corpo em ação guiado por várias emoções... Contração, expansão, vida ativa em reação ao belo e para o belo no seu mais sublime conceito. Respiração ativa e sensações à flor da pele.
Bum! Grande sentimento que se encontra através de uma catarse daquele que vive por amor a arte. 

Maravilhas, sofrimentos, descontentamentos, solidão, percepção a cada deslocamento, longo ou curto!
Permitir-se!

Solução para uma melhor compreensão de si e do todo! Vida voando com o coração pulsante e inquieto para melhor decifrar tamanho sentido de todas as coisas sensíveis e metafísicas. Explicações??? Não! Não temos essa intenção...

Queremos arte para suportar a existência nua, vazia, brutal. Sem arte não conseguiremos seguir a diante. Tudo se torna meio bege, sem tom. E a canção poderá ser uma grande fonte de inspiração para muita piração consciente e equilibrada!

Palavras, as guardo no coração. Só o ato de expressar poderá satisfazer tamanha confusão de sentidos sem significados definidos.

Poesia? Também não. Apenas vontade de somente ser nesse mundo cheio de ter. Ideias muito complexas pairam na mente de quem vive por amor ao ato de se mostrar, se desnudar. Transparência nos contornos dos movimentos improvisados. Vida. Paixão. Luz. Ilusão!!!

Desejos escondidos na alma vão se esvaindo em tamanha transpiração... Tentação, vontade, necessidade, verdade.

A vida que escolhi e colhi até então!!! Será preciso mudar o curso do rio? Ou viver nesse universo particular é mais belo que as questões conflitantes e perturbadoras da minha alma? 

Sei não! Por enquanto é o que tenho, esse castelo eu mesma construí em pedras firmes e no chão da casa do meu espírito criativo.
Vulcão quase em ebulição!

Eu sou esse vulcão, mas meus segredos? Não conto, não.

*Vanessa Ribeiro
Filosofa, matemática, atriz, dançarina, professora de teatro, estudante de filosofia clínica.
Petrópolis/RJ

domingo, 22 de setembro de 2013

CONVERSAR*


Em um poema leio:
Conversar é divino.
Mas os deuses não falam:
fazem, desfazem mundos
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.

O espírito baixa
e desata as línguas
mas não diz palavra:
diz luz. A linguagem
pelo deus acesa,
é uma profecia
de chamas e um desplume
de sílabas queimadas:
cinza sem sentido.

A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano.

*Octávio Paz

sábado, 21 de setembro de 2013

Pensamentos não Acabados*


"(...) Tal como não só a idade viril, mas também a juventude e a infância têm um valor em si e não devem de modo algum ser consideradas somente como passagens e pontes, assim também os pensamentos não acabados têm o seu valor.

Não se deve por isso, atormentar um poeta com uma subtil interpretação e divertir-se com a incerteza do seu horizonte, como se o caminho para vários pensamentos ainda estivesse aberto.

Está-se no limiar; espera-se como no desenterramento de um tesouro: é como se devesse estar iminente um feliz achado de pensamento profundo.

O poeta antecipa qualquer coisa do prazer que o pensador tem, ao encontrar uma ideia fundamental, e, com isso, torna-nos cobiçosos, de modo que nós tentamos apanhá-la; esta, porém, passa, esvoaçando, sobre a nossa cabeça e mostra as mais belas asas de borboleta... e, contudo, escapa-nos (...)"

*Friedrich Nietzsche

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Lua da terra*













Da Terra a Lua
Da Lua a Terra

(Lua)

Nua

Crua

Sua


(Terra)

Eleva

Gera

Encerra


(Lua)

Luminar

Circular

Delirante


(Terra)

Espessa

Planeta

Circulante


(Lua)

Inspira

Conspira

Movimenta


(Terra)

Fecunda

Enraiza

Experimenta


Sem Terra não Lua

Sem Lua não Terra


E desde que não é raro errar

Da Terra se vê o Luar


A Lua

Estimula

E compactua


A Terra

Aterra

E desterra


A Terra

Erra

Sem Lua


A Lua

É de Lua

Sem Terra


A Terra sem Lua

Não Terra

A Lua sem Terra

Só Lua


Terra_Lua

Lua_Terra

Nesse Luar

Nada se encerra


E nesta nova vez Lua

A Terra, com sementes, espera

Da intuição prata lunar

Todo desvelo e entrega


Circunda, fecunda Lua,

Pelos nossos plantios na Terra

E em seu inspirado serenar

Dá-nos sábia e sensória trégua.

*Renata Bastos
Filósofa, Mestre em Filosofia, Filósofa Clínica, Astronumeróloga, Astróloga clínica em formação
São Paulo/SP 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Nem Sequer Sou Poeira*


Não quero ser quem sou. A avara sorte
Quis-me oferecer o século dezassete,
O pó e a rotina de Castela,
As coisas repetidas, a manhã
Que, prometendo o hoje, dá a véspera,
A palestra do padre ou do barbeiro,
A solidão que o tempo vai deixando
E uma vaga sobrinha analfabeta.

Já sou entrado em anos. Uma página
Casual revelou-me vozes novas,
Amadis e Urganda, a perseguir-me.

Vendi as terras e comprei os livros
Que narram por inteiro essas empresas:
O Graal, que recolheu o sangue humano
Que o Filho derramou pra nos salvar,
Maomé e o seu ídolo de ouro,
Os ferros, as ameias, as bandeiras
E as operações e truques de magia.

Cavaleiros cristãos lá percorriam
Os reinos que há na terra, na vingança
Da ultrajada honra ou querendo impor
A justiça no fio de cada espada.
Queira Deus que um enviado restitua
Ao nosso tempo esse exercício nobre.

Os meus sonhos avistam-no. Senti-o
Na minha carne triste e solitária.
Seu nome ainda não sei. Mas eu, Quijano,
Serei o paladino. Serei sonho.

Nesta casa já velha há uma adarga
Antiga e uma folha de Toledo
E uma lança e os livros verdadeiros
Que ao meu braço prometem a vitória.

Ao meu braço? O meu rosto (que não vi)
Não projecta uma cara em nenhum espelho.
Nem sequer sou poeira. Sou um sonho

*Jorge Luis Borges

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Tempos Modernos*


Demonstração de afeto, de cuidado, de atenção, de amizade e de boa educação ainda tem lugar e não significam ter que ir para o altar.

É como se a vida estivesse de cabeça para baixo. O mundo todo invertido, chacoalhado e não bastasse toda liberação e aceitação de novos valores e comportamentos, de novas condutas justificadas em parâmetros de evolução da espécie humana e ainda respaldada pelo que cada indivíduo tem de direito como escolha para o seu caminhar, ai meu Deus, não bastasse tudo isto, ainda a deselegância explicada, rebatida, aceita e vivida.

Homens e mulheres de todas as idades estão se relacionando livremente, sem nenhum compromisso ou comprometimento. Tudo bem. Nada de mais no que diz respeito a eternizar a relação, coisa antiga e démodé para muita gente, acho que até já para mim, embora ainda não tenha tanta certeza assim.

Contudo, o que ainda me espanta é a falta de delicadeza, doçura, fineza, elegância, postura, limpeza e trato no linguajar.

Espanta-me, ainda, a falta de criatividade, de enredo, de fantasia e de sonho para viver, nem que seja umas poucas horas de sexo. Fico perplexa com o descaso, o pouco caso mesmo, com que as pessoas se tratam. Tenho ouvido cada história.

Nos adolescentes, algo relacionado ao fim do mundo será amanhã, justifica ir para “uma social”, beber até dar vexame, “pegar” cinco diferentes, beijar todos e no dia seguinte, passar por um ou outro no meio da rua e nem se lembrar disso.

Nos adultos, um medo devorador que impede homens e mulheres, mais os homens talvez, um gesto de carinho, um convite delicado, um agradecimento e um elogio.

Ora, pois então era para isto que serviria a tal liberdade sexual? Para que as pessoas pudessem exercer, de forma explicita, toda a sua essência mal-educada?

O medo, o maldito medo, explicaria tal comportamento?

Vejamos o caso das mulheres modernas, que mesmo liberadas, preferem ser abordadas. Mulheres resolvidas, dispostas a viver um romance que as faça felizes enquanto durar e os homens morrendo de medo de manifestarem qualquer nível de satisfação ou cavalheirismo. Muitas mulheres não gostam de se manifestarem diretamente. Não se sentem à vontade convidando um homem para sair. Coisa antiga?

Tirando as desequilibradas e as dissimuladas – sujeito que alimenta nosso objeto de pesquisa por se comportarem muito mal e denegrirem assim a espécie feminina – a mulher moderna ainda que liberada, espera alguma gentileza. Está bem, vamos abrir um aparte aqui. Eles estão com muito medo. Eles não acreditam que alguma mulher possa estar falando a verdade, eu sei e vai que uma delicadeza gere um mal-entendido?

As meninas, as moças, as mulheres mais velhas, que cuidam de seu caráter, que cuidam de suas próprias vidas, que cuidam de seus corpos, de serem felizes, sorridentes, interessantes, inteiras, livres… Honestas. Essas moças, as que não radicalizam sobre sua autossuficiência, essas moças também precisam amar.

Moças assim, costumam não se atrever, não invadir não se expor não se atirarem. Coisa antiga? Respeito é coisa antiga? Limite é coisa antiga? Certo. Que não seja por nada disso. Talvez apenas uma forma de dar graça a algo tão maravilhoso quanto o encontro de um casal saudável, lindo e disposto a amar. Talvez uma forma de tirar do recinto da banalidade, o que pode ser de Deus. Respeito, carinho, docilidade, como fetiches, como forma de fazer ser mágico, mesmo que seja sem compromisso.

Moças assim, apesar da capacidade de medirem se um rapaz vale a pena ou não, sim porque, mulher também tem esse direito, após decidirem talvez não consigam manifestar seu interesse por eles, partindo totalmente para o ataque. Telefonando, convidando, propondo meios de estarem juntos. E esperam alguma gentileza, alguma abertura para manifestarem seu interesse em relacionarem-se além do casual.

Esta é uma categoria de mulheres, esta é uma maneira de se comportar, o que pode não ser absolutamente certa, mas talvez um caso a se pensar e neste caso, para estas pessoas, o mundo está de cabeça para baixo, sim.

Acontece que hoje e talvez sempre, vá lá, as pessoas sejam julgadas umas pelas outras. Como o velho e antigo bordão que enfatiza que homem não presta. Muitos homens e muitas mulheres ainda prestam sim e tem direito a alegria do amor e do sexo, ainda que sem promessas de que até a morte os separe.

Demonstração de afeto, de cuidado, de atenção, de amizade e de boa educação ainda tem lugar e não significam ter que ir para o altar.

Se o saca-rolhas não for próprio para a delicadeza de uma mulher, por favor, senhor, se preste ao papel e, por favor, senhora, reconheça o seu lugar, nem que seja para os sonhadores sonharem que com o romantismo existe ainda em algum lugar.

E rapazes, por favor, decidam logo se desejam se relacionar com moças livres e sem problemas, mas educadas, porém ou se na verdade, o que gostam mesmo é daquelas que não dão sossego, que perdem a estribeira, para que assim, vocês possam continuar história a fora, estereotipando-as de malucas, de rampeiras de “chicletes”. Isso dá prazer a vocês? Gostaria de entender.

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, filosofa clínica
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Um pequeno recorte da loucura que é viver!*


Durante algum tempo tive a oportunidade de estagiar em um hospital psiquiátrico na cidade de Porto Alegre. Foi um feliz período da minha vida em que percebi o quanto é sutil o limiar entre a sanidade e a loucura. Diversas vezes nos atendimentos a equipe e eu nos identificávamos com o que o interno relatava e algumas vezes tínhamos a impressão de que, quem estava sendo atendido éramos nós, filósofos clínicos.

O hospital psiquiátrico é bastante diferente dos demais hospitais, exceto em momentos de surto, pode-se dizer que existe um ambiente tranquilo e saudável. Na ala masculina os hormônios são mais hostis, o racionalismo impera e algumas questões são resolvidas no braço. Na ala feminina os hormônios também estão à flor da pela, a emoção impera e algumas questões também são resolvidas no braço.

No tocante as historicidades coletadas dos partilhantes, vemos que poucos nasceram com alguma dificuldade psíquica ou social. A maior parte adquiriu sua condição psíquica através das dores que a vida lhe proporcionou. Em alguns casos a vida lhes foi tão dura que seria de admirar que a criatura não tivesse enlouquecido.

Mas também era um lugar onde encontrávamos muitos artistas: atores, artistas plásticos, artesões, músicos, cantores e intelectuais. Pessoas de rara inteligência, que conseguiam perceber o quão caótico é o mundo lá fora, e a alienação em que vivem essas pessoas. A clareza no relato de alguns era de impressionar, a coesão de ideias nos fazia pensar: mas o que essa pessoa faz aqui dentro? Então nos questionávamos se quem devia estar internado não seria o familiar responsável pela internação daquele paciente.

Foi um tempo de quebrar paradigmas, de ver nossa sociedade com outros olhos, com os olhos dos ditos loucos! Aqueles que assumem suas emoções, seus delírios, suas inquietações, que são transparentes e frágeis diante das covardias da selva de pedras! Dos que se indignam com a violência e o abuso, além do preço abusivo do combustível. Que notam o padecimento de um sistema falido, que vive de aparências, no qual o valor do capital está acima do valor humano.

É triste ver a realidade de dentro de um hospital psiquiátrico quando nos deparamos com pessoas sadias, que encontraram na loucura a melhor maneira de se manter sóbrias.

*Débora Perroni
Filosofa, Filosofa Clínica
Porto Alegre/RS