sábado, 30 de novembro de 2013


“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis. E é incrível a força que as coisas parecem ter, quando elas precisam acontecer.”

*Fernando Sabino

Quero amor...*


Amor de verdade, de carne, de alma, de luz, humano, verdadeiro, necessário!
Quero beber, comer, dormir e acordar amor, quero acreditar, e ser, e amar, e amar muitas pessoas, e coisas, e vida!
Quero, preciso da fruta proibida, da bebida embriagante que faz sanar qualquer ferida...
Quero esquecer só para lembrar amor, sentir amor, dar, receber amor, viver por amor e para o amor.
Que seja maior que meu Ser, que seja infinito como as estrelas do céu, que seja terno, eterno e subversivo, apenas amor!!!
Amor sem forma e sem culpa, sem pudor, sem vergonha, entregue! Puro, misturado, melado, lambuzado, úmido, quente, forte, firme, incondicional!!!
Quero beijos de amor, abraços de amor, toques de amor, calor, lágrimas de amor. Se for amor pode ser até doído, apegado, enlouquecedor...
Já não me importa mais nada! Ser feliz por amor é minha busca atual, cheia de vontades, desejos e segredos. Eu sou amor, eu sou a flor, aquela, pequena, sensível, delicada, resistente. Firme e convicta, contente!
Se não for amor, não quero! Não espero. Nem perco minhas horas sagradas para um empenho, uma reação, qualquer movimento...
Nada menos que amor na minha vida, agora! Coração apertado, sufocado de tanto amor, amor que não vendo, nem alugo, apenas troco!
Quero amor, amor colorido, amor de novela, amor exagerado, suado, respirado, transpirado, conquistado...
Já não importa mais! Que seja sempre meu, que seja sempre eu, que seja sempre...

*Vanessa Ribeiro
Filósofa, matemática, atriz, dançarina, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Intimidade*


Sonhamos juntos
juntos despertamos
o tempo faz e desfaz
entretanto
não lhe importam teu sonho
nem meu sonho
somos trôpegos
ou demasiados cautelosos
pensamos que não cai
essa gaivota
cremos que é eterno
este conjuro
que a batalha é nossa
ou de nenhum
juntos vivemos
sucumbimos juntos
porém essa destruição
é uma brincadeira
um detalhe uma rajada
um vestígio
um abrir-se e fechar-se
o paraíso
já nossa intimidade
é tão imensa
que a morte a esconde
em seu vazio
quero que me relates
o duelo que te cala
por minha parte te ofereço
minha última confiança
estás sozinha
estou sozinho
porém às vezes
pode a solidão
ser
uma chama

*Mario Benedetti

O vestido de noiva*


Branco. Puro. Imaculado. As rendas são francesas. Os bordados da mais perfeita sintonia. O véu é tão grande quanto foram meus sonhos. Os convites já amarelados pelo tempo ainda deixam exalar as esperanças de um sonho não realizado. As letras foram desenhadas com tamanha delicadeza que nem mesmo as melhores gráficas de hoje seriam capazes de fazer iguais. Restaram alguns convites que não deu tempo de serem entregues devido a correria diante dos últimos detalhes da organização da festa e dos enfeites na Igreja. Guardo-os comigo. São relíquias da saudade de um tempo que não se cumpriu.

A primavera ficou com as flores a desabrochar. As noites nunca mais foram as mesmas. Mesmo depois de tantas décadas ainda acordo muitas vezes ao longo da noite chorando. Durmo com minha dor e acordo com a tristeza. Não consegui divorciar-me da decepção. Não casei com Francisco, mas vivo em união estável com a dor.

Minha alma é povoada de perguntas. Meu coração tem as respostas bem claras. Naquela noite que antecedia o nosso casamento, uma amiga foi até minha casa, dizer-me que havia visto você de mãos dadas com a Zefina. Dei risadas. Imagina! Você que sempre foi fiel. Que jurava dar-me a lua caso eu pedisse?  Jamais. Mas a insistência foi tão grande que deixei a caixa com o vestido de noiva ainda aberta para mostrar a minha amiga que ela estava completa e absolutamente louca.

Ao longe um vento frio tocou meus cabelos. Um frio cortou-me a espinha. Na praça poucas pessoas. Dois casais de namorados em cantos separados. Ao longe consegui ver o chapéu marrom que sempre usava quando saiamos aos sábados para tomarmos sorvete na esquina. Nunca mais tomei aquele sorvete. O doce que um dia me dava alegrias, hoje se tornou fel que me faz mal.

Fui chegando de mansinho... Nem notou minha presença. Estava tão entusiasmado com a Zefina que minha presença era quase invisível.

- Francisco? – disse eu já com lágrimas nos olhos.

- Calma Marta... Posso explicar tudo. – disse-me você, que naquele momento parecia mais assustado que um rato na cozinha sendo perseguido.

Não deixei você explicar. Os anos de fidelidade não foram maiores que minha decepção e raiva. Não consegui perdoar. A noite que antecedia nosso casamento nunca terminou. Estacionei meus sentimentos naquela praça escura e com vento gelado. Ouvi mil vezes o padre dizer-me para te perdoar. Não consegui. Também não consigo me perdoar. Poderia ter-lhe dado uma nova chance. Mas minha mágoa foi mais forte que os nobres sentimentos divinos.

O convite continua aqui. O vestido também. O buque com flores que eu mesma havia colhido no jardim de casa secaram. O laço rosa que amarrava aquelas lindas flores desbotou com o tempo. Meu amor também desbotou. Esta amarelado pela tristeza e não há indícios de que um dia seja alvejado com a misericórdia do perdão.

Zefina casou-se. Não com você. O namorico de vocês não durou mais que duas semanas. Acredito que tenha terminado com o susto que tiveram. De você nunca mais soube. Não se vive ou já morreu. De mim sei apenas que nunca consegui te esquecer. A saudade ainda dói por não ter dado uma chance ao amor de muitos anos. Destruiu nossa fidelidade por uma aventura. Nossos sonhos foram destruídos pela traição de uma paixão que não te fez feliz.

Dobro meu vestido e guardo-o com novas lágrimas de uma dor de saudades... O véu que não conheceu as alegrias dos convidados deslumbrados com sua beleza serve de lenço para enxugar meus arrependimentos.

*Pe Flávio Sobreiro
Escritor, poeta, estudante de filosofia clínica
Cambuí/MG

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Meu mundo*


No meu mundo não cabem sonhos vazios
O copo estará sempre meio cheio.
No meu mundo as idéias vão e vêm
Mas deixam marcas expressivas na mente.
No meu mundo corro com os braços abertos
Meu amor me espera do outro lado da ponte.
Aqui ou lá serei feliz enquanto viver, pois
No meu mundo os pensamentos são sempre positivos.
Deixo-me viver a solidão, pois
Ela também faz parte do meu mundo, mas
Não a deixo tomar conta do meu corpo,
Porque no meu mundo não me sinto solitário.
No meu mundo sou cercado por pessoas confiáveis
Elas estarão sempre presentes porque
Meus amores são sempre sinceros.
No meu mundo haverá sempre sol, calor e dias nublados
Porque fazem parte da vida e
Eles serão sempre bem-vindos.
No meu mundo os romances têm nome e sobrenome
São livros abertos à leitura de todos,
Trazem tudo que há de melhor,
Pois a positividade me abre a infinitas possibilidades.
Quem quiser compartilhar do meu mundo poderá entrar
Quem agregar amor e positividade poderá chegar
No meu mundo há lugar para quem quer ser feliz.
No meu mundo serei feliz com meus sonhos;
No meu mundo meus sonhos são agradáveis;
Meu mundo não é um mundo particular:
Ele é e sempre será o que quisermos, pois
Meu mundo é um mundo em construção
E será sempre um lugar agradável.

*Vinicius Fontes
Filósofo, estudante de filosofia clínica
Rio de Janeiro/RJ

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Um assombro remoto*


Na mitologia poética de Fernando Pessoa, o que caracteriza o discípulo _ me lembra George Steiner em um memorável ensaio, "Chuva de fogo" _ é "a capacidade de ser hipnotizado". Na linhagem de seus célebres heterônimos, tanto Ricardo Reis como Alvaro de Campos se definem como discípulos de Alberto Caeiro. Ao ouvir a primeira lição de Caeiro, lembra Steiner, Campos experimentou "um choque sísmico". A sentença proferida pelo mestre é, de fato, perturbadora: "Tudo difere de nós e é por isso que existe".

Quando conversava com Caeiro, lembra ainda Steiner, Alvaro de Campos tinha a sensação física de "estar a discutir não com um outro homem, mas com um outro universo". O paganismo de Caeiro, sua maneira direta e sem filtros de observar o mundo, é, sim, muito particular. Mas, em vez de fugir, Campos _ relatava Pessoa _ dele se aproximava mais ainda. A partir do contato com Alberto Caeiro, o discípulo chegou a uma conclusão difícil e um tanto repulsiva: "Pessoas inferiores não podem ter um mestre, posto que não têm o que é necessário para terem um mestre". E o que é necessário para ter um mestre? Justamente estar disponível para a experiência da hipnose, para o tal "choque sísmico" que revira o mundo de ponta cabeça e nos leva a ver o que, antes, parecia inexistente. E para isso, o nobre Campos me perdoe, não é preciso ter status social.

 Foi o que senti quando, em 1969, preparando para as provas do exame vestibular, tive uma conversa decisiva com José Rodrigues, meu professor de literatura francesa no Colégio Santo Inácio _ hoje um diplomata em alguma parte do planeta. Desde menino, queria me tornar escritor. Minha ideia inicial era tornar-me poeta. A leitura de Bandeira, Vinicius e Cabral, em particular, feita ainda de calças curtas, me abalara de tal modo que eu não podia imaginar outro caminho a seguir.

Meu pai me advertia: "Pare de sonhar e faça engenharia" Sim: mesmo tendo desistido depois da poesia, eles foram, continuaram a ser, e ainda hoje são _ mesmo ausentes _ meus mestres. Com Bandeira aprendi o amor lírico pelas coisas simples. Com Vinicius, o primado absoluto da paixão, elemento sem o qual nada se faz que realmente preste. Com Cabral, o papel decisivo do corte. Disse-me ele, muito mais tarde, que cortar é ainda mais importante que escrever. Mais ainda: que cortar é a verdadeira maneira de escrever. Você não pode ter piedade da palavra, nem se deixar enganar por sua falsa beleza, me aconselhou. Deve ser rígido, ser firme, ser intolerante, e cortar, cortar, cortar, até que o osso (a pedra) da palavra apareça à sua frente.

Mas retorno a meu diálogo decisivo com José Rodrigues, meu professor de literatura. Eu queria me tornar escritor _ e por isso me preparava para o vestibular de Letras. Parecia-me o caminho natural. Rodrigues foi duro comigo (e recordo que era um brilhante professor de literatura francesa): "Se você quer ser escritor, faça tudo, menos Letras. Fazendo, sua mente será tomada por teorias, teses, gêneros, classificações, experimentações intelectuais. Tudo aquilo de que um poeta não precisa. Tudo aquilo que barra o caminho da poesia"; Sua apreciação, a princípio, me assustou. Ela arrancava de minhas mãos o fio em que eu me apoiava rumo à escrita.

Cambaleei, o chão me fugiu, e ainda tonto perguntei: "Mas, então, o que devo fazer?" Rodrigues parou um pouco para pensar. Ruminou algumas palavras que não chegou a concluir e depois, num ímpeto, me disse: "Faça jornalismo!" Jornalismo? Meu pai, José Ribamar, foi jornalista profissional. Durante muitos anos foi o setorista de O GLOBO no Senado Federal, quando o Rio de Janeiro ainda era a capital da República. Talvez "contra o pai", em busca de minha afirmação individual, jamais pensara em me tornar jornalista. E agora um professor de literatura me dizia que, para me tornar escritor, tinha que estudar Jornalismo, e não Letras?

Ali, naquele segundo semestre de 1969, depois de frequentar durante dois anos e meio as aulas de José Rodrigues, tornei-me, enfim, seu discípulo. Ele me hipnotizara. Sempre acreditei que houve, nisso, um pouco de fraqueza de minha parte; que todo hipnotizado se torna, um pouco, um objeto. Agora, quase meio século depois, releio as palavras de George Steiner em seu ensaio sobre Pessoa: "A capacidade de ser hipnotizado distingue as personalidades fortes. Estas retêm sua individualidade transmutada após terem passado pela intervenção do mestre".

Mas então eu fui forte, e não fraco! Os argumentos de José Rodrigues eram dois e eram simples. Primeiro: o jornalismo me obrigaria a escrever diariamente, não permitiria jamais que eu me afastasse das palavras. Segundo e, de acordo com Rodrigues, a mais importante: o jornalismo nos empurra drasticamente para a realidade, nos lança sobre ela sem nenhuma delicadeza ou mesura, e esse choque direto com o real, que nos contamina quase que como a um veneno, é indispensável para a formação do escritor. Pelo menos para aqueles que não querem ser apenas escritores "de gabinete".

Não me arrependo de ter seguido as instruções de meu mestre. Muito ao contrário, hoje me orgulho de ser jornalista também. Não cheguei a ser poeta. Faço uma literatura oscilante, que estremece entre os gêneros e os estilos. Sei que, como escritor, tenho uma identidade fluida, que alguns talvez vejam como insuficiente. Nada disso me perturba, eu sigo meu caminho. E a ele cheguei, a verdade é essa, graças ao jornalismo. Poderia aqui repetir as palavras de Alvaro de Campos a respeito de seu encontro com o mestre Caeiro: "E, a partir de então, para melhor ou para pior, eu tenho sido eu".

*José Castello

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Esse papo seu tá qualquer coisa. Buscar no outro o sentido da própria existência é algo pra lá de Marrakesh*


"O amor imaturo diz: eu te amo porque preciso de ti.
O amor maduro diz: eu preciso de ti porque te amo. – Erich Fromm" 

Não sabe brincar sozinho e critica o seu “amor” por não realizá-lo.

Mania boba as pessoas têm de pensar que sabem o que o parceiro vai querer, vai gostar, vai gozar. Que petulância, nem ao menos prestar atenção no que o parceiro sinaliza. Nos gemidos, nos suspiros, nas negativas. Perguntar então, tá fora de questão. Investir um tempinho a mais, olhar, ouvir, sentir. Não, basta ler nas revistas, ver nos filmes pornográficos, ouvir na roda de amigos, aplicar e pronto. E se no sexo é assim, imaginem então no contexto do que chamamos de amor.

Às vezes me pego com uma vontade de ser daquelas mães antigas, que davam chineladas e beliscões na turminha que insistia em não entender a ordem do dia.

Vontade de sacudir as cabecinhas, abri-las ao meio e colocar lá dentro a seguinte ordem. Vá trabalhar em favor da sua felicidade. Vá se fazer bonita, sensata, coerente, gostosa, dengosa, sábia, boa companhia, enfim. Acorda e busca dentro de você, no seu manancial de qualidades, a mulher que passa dias, anos esperando que um homem, tão infeliz quanto ela a coloque no pedestal da mulher perfeita.

Não sou muito chegada a dramas, e acho feio comportamentos que denotam a vitimização. A impressão que tenho é que as pessoas estão se especializando em serem assim. Dramáticas e vitimizadas. Coisa feia e antiga. Não tenho indulgência suficiente para entender o não cuidar-se e o culpar a outro pelas frustrações nossas de cada dia.

Não me desce na garganta, mesmo tendo alguma capacidade em entender o ser humano, mesmo com todo estudo acerca dos estados lastimáveis, não consigo aceitar os injustos desfechos que deles brotam. Tenho visto pessoas boas sofrerem os efeitos desses dramas ensaiados. Pessoas de bom coração, presas, envolvidas, se sentindo culpadas pela infelicidade do incapaz em se fazer feliz. Pessoas boas, reféns de parasitas de toda ordem.

No canteiro do amor romântico, tenho visto de tudo sendo nominado de amor. Interesse é amor. Falta de dinheiro, é amor. Projeto de ascensão na vida, é amor. Solidão é amor. Incapacidade de gerir a própria existência, é amor. Tesão é amor. Quantas dessas coisas poderíamos resolver sozinhos, sem incomodar, sem usurpar, sem ferir. Isto não é honesto e poucos se dispõe “arregaçar as mangas” pela própria vida.

Buscar no outro o sentido da própria existência é algo pra lá de Marrakesh. Esse papo seu, ta qualquer coisa…

Agora, o outro lado da moeda é mais difícil ainda de entender. Céus, como existem pessoas que precisam de verdade, que se alimentam vorazmente, das necessidades dos outros para se sentirem importantes.

Os dois precisam urgente de cuidados, de esclarecimento, de discernimento, de algo que faça entender que a base da felicidade não está lá fora, não está no outro. Que mania horrível, nós seres humanos temos, em pensar que não vivemos bem sozinhos e somos imprescindíveis na vida de outra pessoa.

Cegueira. É isso, só pode ser. Nosso olho deveria funcionar tanto para fora, quanto para dentro. Que beleza seria isto. Primeiro eu, depois o outro. Primeiro eu e depois, nós dois.

Saber o que é preciso para ser feliz facilitaria muito o caminho para fazer alguém feliz.

Que delícia ter alguém, além de nós.
Além de nós.

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Tecendo a Manhã*


Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

*João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Ditirambos*



Existe uma lógica superlativa em meio às façanhas usuais. Não fora seu ser extraordinário a desalojar cotidianos, poderia acessar, com mais facilidade, a epistemologia das coisas ao seu redor. Sua encenação de caráter imperfeito escolhe a vertigem para antecipar amanhãs.

Um inusitado cio criativo, de essência exploratória, realiza festejos para representar mesclas de exclusão_integração. Sua perspectiva Dionisíaca sugere achados onde o para sempre vira a página. Um jogo de cena inventa linguagens para redesenhar a vida acontecendo.

Essa dança de consciência alterada ensaia rupturas ao padrão existencial. Pode ser realizada nas ruas, praças, teatros ou diante do espelho. Acontecer de noite ou de dia, acordada em sua tribo ou nos esconderijos da solidão. Seu êxtase menciona um lugar quase esquecido, recém chegando pela expressividade fora de si.

Num estado diferenciado a existência se encontra com sua irrealidade, rascunha novas proposições. Ao surgir numa retórica dançarina, o fenômeno ditirambo prescreve eventos de paixão desarrazoada. Em trânsitos de agonia e êxtase se oferece uma desconstrução avassaladora. Um tempo_lugar onde o sujeito mobiliza forças para descrever-se numa língua intermediária.

Assim, não sendo apenas um ou outro, poderá investir-se nalguma representação. Sua essência de ser avesso transgride as cercas e muros pela esteticidade. A disponibilidade em soltar a voz, balançar o corpo, sacudir a alma, refaz um território singular. Interseção das coreografias e adereços com o palco imaginário das esquinas.

A peça de ficção da irregularidade narrativa aponta mensagens. Seu ímpeto criativo, ao desvestir silêncios refugiados, aprecia emancipar promessas esquecidas. Reconhece e atua sobre o teor da inspiração recém chegada. O fenômeno ditirambo aprecia gerar a própria gravidez.

Seu cenário ideal é a con_fusão de possibilidades existenciais. Um desses pontos de encontro onde o canto, a dança, o teatro insinuam vontades ainda sem nome. Ao deslizar das formas conhecidas, recria experimentos, descreve imagens inéditas.

Uma lógica delirante rascunha pretextos de transgressão ao paradoxo realidade_ficção. Sua lírica propicia uma comunicação sem palavras. Versão onde o sujeito se desloca em alegorias para sonhar paraísos.

*Hélio Strassburger

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O crepúsculo da noite*


O dia acaba. Uma grande paz surge nos pobres espíritos fatigados pelo trabalho da jornada e seus pensamentos tomam agora as cores ternas e indecisas do crepúsculo.

Entretanto, do alto da montanha chega à minha sacada, através das nuvens transparentes da tarde, um grande uivo, composto por uma multidão de gritos discordantes que o espaço transforma em lúgubre harmonia, como a da maré que sobe ou a ameaça de uma tempestade.

Quem são os desditosos que a tarde no acalma e que tomam, como as corujas, a chegada da noite como um sinal do sabá? Esta sinistra ululação nos chega do negro hospício empoleirado sobre a montanha; e à tarde, fumando e contemplando o repouso do imenso vale, arrepiado de casas onde cada janela diz: “A paz agora está aqui, está aqui a alegria da família”, eu posso, quando o vento sopra do alto, embalar meus pensamentos assombrados por essa imitação das harmonias do inferno.

O crepúsculo excita os loucos. Lembro-me que tinha dois amigos que o crepúsculo tornava doentes. Um passou a desconhecer todas as relações de amizade e de polidez, e maltratava, como um selvagem, o primeiro que aparecesse. ‘Vi-o jogar na cabeça de um mattre de hotel um excelente frango, em que ele via não sei qual hieróglifo insultante. A noite, precursora de profundas volúpias, para ele estragava as coisas mais suculentas!

O outro, um ambicioso frustrado, tornava-se, à medida que o dia baixava, mais azedo, mais sombrio, mais impertinente. Indulgente e sociável durante o dia, ficava impiedoso à noite, e exercia, raivosamente, suas manias crepusculares não somente em relação aos outros, mas, também, consigo próprio.

O primeiro morreu louco, incapaz de reconhecer sua mulher e o filho; o segundo leva em si a inquietude de um mal-estar perpétuo, e mesmo se fosse gratificado com todas as honras que possam conferir as repúblicas e os príncipes, creio que o crepúsculo acenderia ainda nele o ardente desejo de receber distinções imaginárias. À noite, que introduzia trevas em seu espírito, iluminava o meu, e, ainda que seja raro ver-se a mesma causa engendrar dois efeitos contrários, deixa-me sempre como que intrigado e alarmado.

Ó noite! Ó refrescantes trevas! Vós sois para mimo sinal de uma festa interior, vós sois a redenção de uma angústia! Na solidão das planícies, nos labirintos pedregosos de uma capital, a cintilação das estrelas, a explosão das lanternas, vós sois o fogo de artifício da deusa Liberdade!

Crepúsculo, como sois doce e terno! Os clarões róseos que se arrastam ainda no horizonte, como a agonia do dia sob a opressão vitoriosa da sua noite, os fogos dos candelabros que criam manchas de um vermelho opaco sobre as últimas glórias do poente, os pesados cortinados que uma mão invisível atrai das profundezas do Oriente, imitam todos os sentimentos complicados que lutam no coração do homem nas horas solenes de sua vida.


Dir-se-ia, ainda, uma dessas vestes estranhas de dançarinas, onde uma gaze transparente e sombria deixa entrever os esplendores amortecidos de uma saia deslumbrante, como sob o negro presente transparece o delicioso passado; e as estrelas vacilantes, de ouro e prata, dos quais é semeada, representam estes fogos da fantasia que só se iluminam bem sob o luto fechado da Noite.

*Charles Baudelaire

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Pote Rachado*


Querido leitor, paz! 

Havia na Índia um carregador de água que transportava esse líquido nas duas pontas de uma vara que levava atravessada no pescoço. Levava um pote de barro de cada lado, mas não eram potes normais, pois um deles tinha uma rachadura bem no meio e o outro era perfeito.

O pote que ainda estava intacto, é óbvio, chegava sempre cheio ao seu destino ao final do longo caminho que ia do poço até à casa do patrão. O pote rachado chegava apenas com metade da água. Assim, durante dois anos ininterruptos, o carregador entregou, diariamente, um pote e meio de água em casa do seu senhor.

Conta a lenda que o pote perfeito, é claro, estava orgulhoso do seu trabalho. O pote rachado, porém, estava envergonhado da sua imperfeição. Sentia-se miserável por apenas ser capaz de realizar metade da tarefa a que estava destinado.

Depois de perceber que, ao longo de dois anos, não tinha passado de uma amarga desilusão, um dia o pote disse ao homem, à beira do poço:

- Estou envergonhado e quero pedir-te desculpa. Durante estes dois anos só entreguei metade da minha carga, porque o racho faz com que a água derrame ao longo do caminho. Por causa do meu defeito, tu fazes o teu trabalho a mais e não ganhas todo o salário que os teus esforços mereciam.

O homem ficou triste com a tristeza do velho pote. Recolheu-se em compaixão e respondeu:

- Quando voltarmos para casa do meu senhor, quero que repares nas flores que se encontram à beira do caminho.

De fato, à medida que iam subindo a montanha, o pote rachado reparou que tinha muitas flores selvagens à beira do caminho e ficou mais animado, mas no final do percurso, também vazado mais uma vez a metade da água, o pote sentiu-se mal de novo e voltou a pedir desculpa ao homem pela sua falha.

Então o homem disse ao pote:

- Reparaste que ao longo do caminho só havia flores do teu lado? Reparaste também que quando vínhamos do poço, todos os dias, tu ias regando essas flores? Ao longo de dois anos eu pude colher flores para ornamentar a mesa do meu senhor. Se tu não fosses assim como és, ele não poderia ter essa beleza para dar graça à sua casa.

Algumas pessoas nos procuram para reclamar do possível defeito e não enxergam que é exatamente naquele suposto defeito que está o seu grande diferencial.

Lembrando que isso é assim para mim hoje.

*Beto Colombo
Empresário, filósofo clínico, coordenador da filosofia clínica na UNESC
Criciúma/SC

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Lua Quadrada*


Como assim?
É uma Lua assim
Astuta e resoluta
E traz com ela um Sim.

Neste quadrado há poder
Pois ele reúne condições essenciais
O momento em si é para tecer
E resolver, por fim, questões vitais.

Aproveitemos para demarcar
O que dali em diante receberá muita ação
Mas de um tipo que já obteve âncora
E, por isso, garantia de sustentação.

Sejamos resolutos e éticos
Diante deste poder propício e perfeito
Já que limites precisam ser dados
Para que assim reconstituam nossos direitos.

*Renata Bastos
Filósofa, mestre em filosofia, astróloga, filósofa clínica
São Paulo/SP

domingo, 17 de novembro de 2013

Cantos de Sesmaria*



O leito do rio
          é minha estrada verdadeira.
Vou e não volto.
Salto fora das margens
         e viro paisagem
         de pampa
         e memória de vento.
Sou o mesmo
         e meu canto é meu alarde,
         sono a esmo
         no clamor da tarde.
Me sei invento
        do que fui
        rio abaixo
        e do que sou
        mar adentro.

*Luiz de Miranda

sábado, 16 de novembro de 2013

Antes do nome*










Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o 'de', o 'aliás',
o 'o', o 'porém' e o 'que', esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão,
Puro susto e terror.

*Adélia Prado

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Recomeçar*


Recomeçar nem sempre é fácil. Muitos fazem planos e se desanimam nos primeiros desafios. A vida exige o empenho e a determinação. Contudo nem sempre é fácil encontrar estes sentimentos na alma, principalmente quando os desafios parecem ser maiores que as vitórias.

Há dias nublados e dias de sol na alma. Nem sempre acordamos dispostos a olhar para a vida com as exigências que outros nos propõem. No ritmo da vida vamos descobrindo a velocidade dos nossos próprios passos. Impossível será caminhar na velocidade que as pessoas insistem em nos impor.

Talvez um dos segredos da vida seja descobrir no tempo de nossa alma o ritmo que não nos atropela e que não nos machuque. O recomeço só será frutífero se primeiro nos conhecermos a nós próprios. Quem descobriu quem é conseguirá encontrar em si mesmo a força para o novo. Não há recomeço enquanto continuarmos perdidos em nosso próprio coração.

*Padre Flávio Sobreiro
Poeta, escritor, estudante de filosofia clínica
Cambuí/MG

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dos retratos existenciais*


Certamente você conhece alguma pessoa com quem não tem contato há 2 meses, 2 anos ou 2 décadas. É um familiar que mudou de cidade porque constituiu família, ou um amigo que foi promovido no emprego e teve que mudar também de cidade, uma amiga que foi para o exterior fazer um intercâmbio de estudos. Na hipótese de um reencontro, você conversa com a pessoa, percebe algumas mudanças e logo passa à sua cabeça "nossa, como o fulano mudou!". Isso pode ser um indicativo de que você fez um retrato existencial da pessoa e que ainda a enxerga como ela era tempos atrás.

Teu amigo era viciado em refrigerante e agora só toma água sem gás. Era o primeiro a sentar na mesa para apreciar um suculento churrasco e agora aderiu ao vegetarianismo. Sempre falou em ter um número de filhos que desse para montar um time de futebol e agora expressa a vontade de ter apenas mais um, para fazer companhia ao Júnior, o único filho até então. Tinha asco ao som de guitarras pesadas, pois só ouvia MPB em volume baixo, mas agora ouve rock´n´roll e metal a todo volume. 

Certamente você vai pensar que aconteceu alguma coisa esse amigo, pois ele mudou muito. Claro! Ele mudou de cidade, de emprego, ampliou o círculo de amizades, conheceu uma garota, casou-se com ela, teve um filho. Não é de estranhar que ele tenha mesmo mudado, não é?

Você pode ficar se perguntando como um outro amigo seu não teve essas mudanças, apesar de ter passado por contextos e circunstâncias parecidas. A resposta me parece simples: isso se dá porque cada criatura humana é única, cada pessoa possui um universo singular. E estamos tratando, aqui, de existência, não de lógica matemática.

As mudanças que uma pessoa realiza no decorrer de sua trajetória mundana não necessariamente indicam que ela está sendo contraditória, que não tem princípios, que deixou o poder subir à cabeça, ou coisas assim.

É comum que muitos vejam a pessoa como um retrato existencial que foi feito dela há um tempo atrás. Esse retrato é como uma foto, que cristaliza a pessoa e mantém estática a imagem dela como se ela tivesse a necessidade de ser sempre daquela maneira.

Se olharmos para a nossa própria história veremos que algumas vezes fomos incompreendidos ou julgados por uma imagem existencial que fizeram de nós há muito tempo e que aqueles elementos que tem na foto não estão mais presentes em nossa vida. Por outro lado, provavelmente já utilizamos retratos existenciais de alguém que conhecemos, ou seja, olhamos para a pessoa como se ela fosse a mesma e tivesse os mesmos elementos de algo que não diz mais respeito a ela.

O indicado é que os dados sejam atualizados, ou seja, que verifique-se como a pessoa está no mundo agora (e como estamos no mundo também), para não cairmos em equívocos e dubiedades que possam prejudicar nossas relações.

*Everton Augusto Corso
Filósofo, especialista em filosofia clínica, poeta, cronista
Chapecó/SC

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pensar é transgredir*


Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

*Lya Luft