terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Entre partir e ficar*


Entre partir e ficar hesita o dia,
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é uma baía:
em seu quieto vai e vem se move o mundo.

Tudo é visível e tudo é ilusório,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o vaso, o lápis
repousam à sombra de seus nomes.

Pulsar do tempo que em minha têmpora repete
a mesma e insistente sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
Um espectral teatro de reflexos.

No centro de um olho me descubro;
Não me vê, não me vejo em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem mover-me,
eu permaneço e parto: sou uma pausa

*Octavio Paz

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Palavras e poesia*


“sabe...a poesia nasce sem querer nada de mim...
as palavras vem vindo...
caminhando ao meu lado...
surgindo
e eu vou recebendo cada uma delas...acariciando-as..
e colocando nas frases.. nas sentenças..
e elas sendo moldadas..
como um poema...
é assim a poesia para mim...
olha o que acabo de escrever...
um poema...sem querer..”

*Eduardo Silveira
Poeta, Estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 29 de dezembro de 2013

Fragmentos filosóficos, poéticos, delirantes*


"Toda a minha vida não passa de conflitos. E se não há conflitos por aí, ora, invento um, num piscar de olhos. Ontem eu disse que não estava mais amando? Estou mais apaixonado hoje do que nunca.

Tudo voltou… […] Ela é tão jovem, tão bonita e tão triste que eu seria capaz de chorar. Esse é meu sentimento. […] Em seu mundo, todos penduram um Picasso em um local de destaque.

Então está muito bem, por ela eu também penduraria um Picasso em um local de destaque. Como meu conhecimento da decadência do modernismo e a loucura cega do progressivismo como um estado de ânimo, uma rebelião estúpida e óbvia contra ressentimentos imaginários, medida contra meu amor por uma garota de 50 quilos?

O que importa se eu alcancei grandes verdade sociais & espirituais na solidão do meu quarto e em meu livro enorme e em anos de meditação cuidadosa e compreensão psicológica - o que é minha arte? Meu conhecimento? Minha poesia? Minha ciência? - comparado a seus pezinhos? Sim, sim, sim, acabei de notar a “ondulação de seus dedinhos”.

O velho Dimitri, já falei? Aqui não sou Dimitri, sou maior que Dimitri, porque sou o pai de Dimitri, o próprio pai Karamazov. Sou eu desperdiçando fortunas e o amor dos filhos por uma garota - e olhando com ansiedade da janela de minha miséria esperando por ela.

Picasso… eu gostaria mesmo de pendurar Ticiano e Grant Wood. Paris… o que quero mesmo ver é Montana. O balé… são os filmes que passam a noite inteira na Times-Square que quero ver. Mozart… O que quero mesmo ouvir é Allen Eager.

Mas por ela eu usaria um cavanhaque, fingiria ser um gênio literário, faria observações proustianas, e seria, é óbvio, sensível."

*Jack Kerouac

A vida secreta das palavras*


Sábado foi dia de reunir uma porção de gente que adora filosofia pra assistir um bom filme e conversar a respeito. Os filmes apresentados pelo professor Hélio Strassburger são escolhidos a dedo para tocar o nosso íntimo. Sempre me fazem refletir além da tela a respeito da minha própria vida e daqueles que fazem parte dela.

A vida secreta das palavras conta a história de uma bela jovem que passou por um grande trauma durante a segunda guerra mundial, as emoções sentidas naquele tempo foram tão intensas que ela preferiria não ter sobrevivido. Ela rezou pedindo pelo fim da sua vida, porém isso não aconteceu e dali em diante ela levou uma vida monótona, mecânica e apática, até o dia em que foi obrigada a quebrar a sua rotina, então Hanna propôs-se a fazer quase tudo diferente durante um mês em sua vida e assim foi. 

Nesse meio tempo em que ela resolveu aceitar o novo quase tudo em sua vida mudou, adquirindo novos hábitos, experimentando novas sensações, gostos e prazeres. Ainda havia ali uma alma feminina, como uma bela alma adormecida e Hanna passou a se entregar a cada momento que surgia.

Ela era jovem e tão bela que sem fazer esforço algum podia encantar os homens a sua volta. Um deles, em especial, conseguiu tocar seu coração. Entre as confissões e os devidos cuidados Josef se entrega aos seus encantos e apesar de não poder vê-la, apaixona-se! Hanna deixa-se envolver pela sinceridade do tom das palavras de Josef e os dois acabam compartilhando suas dores. 

Assim como Hanna era habilidosa na arte da escuta, Josef soube respeitar silenciosamente ao ouvir sua história de vida e quando as lágrimas não puderam mais ser contidas, abraçaram-se e beijaram-se. Foi o que bastou para que Josef fizesse planos de construir uma família com Hanna. Parece-me que nesse momento suas dores os uniram.

No entanto Hanna partiu sem despedir-se de Josef e voltou a sua rotina no trabalho, porém com alguma modificação, afinal "a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original." (Einstein).
Josef se desesperou quando viu que Hanna não estava mais ao seu lado e gritou em vão pelo seu nome. 

Tempos depois, já tendo restabelecida sua saúde ele vai em busca dela. Naquele reencontro houve o verdadeiro resgate de Hanna. Josef pediu que ela fugisse com ele, pois gostaria de passar o resto de sua vida com ela, mas Hanna hesitou dizendo que não daria certo, pois um um dia ela choraria tanto que inundaria o quarto e Josef iria se afogar, pois não sabia nadar! Esse fora um dos segredos que Josef contou à Hanna e os dois riram muito juntos, é a única cena do filme que vemos Hanna gargalhando. Então é nesse momento em que Josef diz as palavras certas que conquistam de vez o coração de Hanna: - Eu vou aprender a nadar! Os dois se abraçam e se beijam e na próxima cena vemos que eles construíram uma família juntos que deu um novo sentido a vida de Hanna que agora já não era mais uma morta-viva.

É um belíssimo filme, é forte e emocionante, nos revela a importância do saber ouvir o outro, da confiança estabelecida quando a escuta tem qualidade e acontece sem julgamentos. O filme deixa várias questões em aberto, como em um quebra-cabeças o expectador tem de juntar os fatos para entender o que aconteceu. Josef trabalha em uma plataforma de extração de petróleo e sofre um acidente que o deixa com o corpo cheio de feridas e temporariamente cego. 

Ao que parece, esse acidente ocorreu quando ele tentou salvar a vida do seu melhor amigo, mas o mesmo não sobreviveu. Josef se encantou pela esposa do seu melhor amigo e lhe deu um livro: Cartas Portuguesas que foi escrito por uma freira no século XVII e fala sobre AMOR. Josef mostrava-se arrependido por não ter controlado seus sentimentos, não fica claro se houve ou não uma traição, mas fica a questão: seria possível controlar os sentimentos? Da minha parte eu afirmo que não. Por mais que eu sofra por viver um amor impossível, ele é latente.

Outra questão a respeito da história de vida de Hanna é a vontade de não mais viver. Com tudo o que sofreu Hanna parecia ter motivos o suficiente para não querer mais viver. Sua história é contada através de outros personagens que ela inventa e ao que tudo indica ela passou pela dor de ser obrigada a matar sua própria filha, além de ser torturada intensamente. Parece que foi aí que Hanna ficou surda, na tentativa de não ouvir mais os gritos das pessoas a sua volta, além dessa outra marca que ela guarda desse tempo são as cicatrizes por todo corpo. Manter-se viva diante disso tudo é uma superação, ainda que sem alegrias, ela resignou-se a viver. Uma vida sofrida, sem dúvida, perturbada pelas suas angústias.

Em nenhum momento do filme indica uma tentativa de suicídio, mas essa questão me surge ao vislumbrar tamanho sofrimento. Infelizmente eu sei de pessoas que por muito menos do que isso tentaram acabar com suas próprias vidas, mas não nos cabe julgar o tamanho das dores alheias, pois cada um sabe o que pode suportar.

E daí me coloco a refletir sobre o valor da vida e lembro-me da passagem bíblica onde Jó perde todos os seus bens, em seguida, perde toda a sua família e também a sua saúde e o que resta para Jó? Jó, ao se sentir abandonado pelo Pai, exclama: Por que se dá luz ao miserável, e vida aos amargurados de ânimo? Que esperam a morte, e ela não vem; e cavam em procura dela mais do que de tesouros ocultos (Jó 3:20-21). 

Quem dera que se cumprisse o meu desejo, e que Deus me desse o que espero! E que Deus quisesse quebrantar-me, e soltasse a sua mão, e me acabasse! Isto ainda seria a minha consolação, e me refrigeraria no meu tormento, não me poupando ele; porque não ocultei as palavras do Santo. Qual é a minha força, para que eu espere? Ou qual é o meu fim, para que tenha ainda paciência? É porventura a minha força a força da pedra? Ou é de cobre a minha carne? Está em mim a minha ajuda? Ou desamparou-me a verdadeira sabedoria? (Jó 6:8-13). Então o que resta a qualquer um que perca tudo, bens, família e saúde? 

Penso que é importante não depositar o valor da nossa vida às coisas materiais, nem tão pouco às pessoas que amamos, senão corremos o risco de não encontrar mais sentido para viver. Tão pouco devemos atribuir a carne, ao nosso corpo físico, o sentido da vida, pois ele está além disso. Através do auto-conhecimento é que podemos entender o real sentido da vida, conforme já dizia Sócrates: "conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses." Não se trata de não amar o próximo, pelo contrário, é através do amor por si mesmo que alcançaremos o verdadeiro amor e conhecendo o verdadeiro amor poderemos amar ao outro.

Através desse filme concluí que há pessoas que se unem pelo amor e outras que se unem pela dor. No caso de Hanna e Josef creio que tenham se unido pela dor, mas juntos conseguiram construir o amor. Creio que a união pela dor seja a mais corriqueira, as pessoas ficam juntas por suas necessidades e carências, porque não querem conviver consigo mesmas, não conseguem ser felizes sozinhas. Pois bem, amar não é pra qualquer um, cabe somente aos loucos, aos que sabem amar a si mesmos e sendo assim podem estender esse sentimento ao próximo. Enfim, o assunto é complexo, extenso e as derivações que faço a partir do filme são tentativas de elucidar para mim mesma a respeito dessas questões, na esperança de algum dia poder viver um verdadeiro amor.

*Débora Perroni
Filósofa, Professora de Filosofia, Especialista em Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 28 de dezembro de 2013

Fragmentos filosóficos, poéticos, delirantes*



"(...) Há em nossos dias muita gente, às vezes agentes de cambio, frequentemente notários, que diz e repete: A poesia está morrendo. É pouco mais ou menos como se dissessem: não há mais rosas, a primavera entregou a alma a Deus, o sol perdeu o hábito de se erguer, percorrei todos os prados e não encontrareis uma borboleta, não há mais luar, o rouxinol não canta mais, o leão não mais ruge, a águia não mais planeia, os Alpes e Pirineus se foram, não há mais garrulas moçoilas e belos rapazes, ninguém mais cuida dos túmulos, a mãe não mais ama o filho, o céu se extinguiu, o coração humano morreu.

Se fosse permitido misturar o contingente ao eterno, seria antes o contrário que seria o verdadeiro. Jamais as faculdades da alma humana, perquirida e enriquecida pelo escavamento misterioso das revoluções, foram mais profundas e mais altas.

E esperemos um pouco de tempo, deixemos que se realize esta iminência de salvação social, o ensino gratuito e obrigatório, que será preciso para isso ? Um quarto de século, e representemos a incalculável soma de desenvolvimento intelectual que contém esta unica frase: Todo o mundo sabe ler! A multiplicação dos leitores é a multiplicação dos pães. No dia em que Cristo criou este simbolo, entreviu a imprensa. Seu milagre é o prodígio. Eis um livro. Com ele eu alimentarei cinco mil almas, um milhão de almas, a humanidade inteira. Em Cristo fazendo surgir os pães, há Guttenberg fazendo surgir os livros. Um semeador anuncia o outro.

Que é o gênero humano desde a origem dos séculos ? Um ledor. Soletrou por muito tempo, soletra ainda; muito em breve lerá.

Este menino de seis mil anos esteve inicialmente na escola. Onde ? Na natureza. No começo, não tendo outro livro, deletreou o universo. Teve o ensino primário das nuvens, do firmamento, dos meteoros, das flores, dos animais, das florestas, das estações, dos fenômenos. O pescador da Jônia estuda a vaga, o pastor da Caldeia soletra a estrela. Depois vieram os primeiros livros; sublime progresso. O livro é mais vasto ainda que este espetáculo, o mundo; porque ao fato acrescenta a ideia. Se alguma coisa é maior do que Deus visto no sol, é Deus visto em Homero. (...)"

*Victor Hugo

Correria sem sentido*


A palavra que mais se escuta neste final de ano é “correria”. Para onde e porque as pessoas estão correndo? Se não souberem onde querem ir, não chegarão a lugar algum. Qual o sentido desta correria? Qual o sentido da vida? Depende.

Vamos aprofundar um pouco mais a questão?

Depende do significado da palavra sentido. Se for para designar a direção e orientação de um movimento, como nas expressões “sentido único”, “sentido obrigatório”, minha resposta é que o sentido da vida deve ser para frente. Não precisa de mapa, nem GPS. Siga vivendo, ultrapasse as barreiras, contorne as curvas e então comece a subir.

Se for para designar as trocas de informações com o meio ambiente através dos órgãos dos sentidos, diria que o sentido da vida se conjuga no verbo sentir, e não no verbo ter. Toque, cheire, prove, deguste, escute, veja e então comece a subir.

No âmbito dos sentimentos e emoções, como nas expressões “esta pessoa tem um sentido muito apurado” ou “tenho sentido sua falta”, ousaria dizer que pessoas que estão em sintonia com seu sentido de vida não têm dia ruim, mau humor na segunda feira, nem levantam com o pé esquerdo. Viver bem faz todo o sentido.
Felicidade, virtude, amor, desejo, ética, observância das leis divinas, reverência à Deus, contemplação da vida e tantos outros caminhos também já foram apontados como os sentidos da vida.

Entretanto, o sentido mais procurado é aquele que tenta explicar o significado da vida, o por quê das coisas. Quando alguém tropeça em uma pedra, caí, machuca e quebra o braço, isso precisa ter um sentido ou pode simplesmente ser fruto do acaso? Alguns não acreditam em casualidade e rotulam estes eventos fortuitos e inexplicáveis de “Karma” ou destino. Outros simplesmente chamam de vida.

Afinal de contas, por que as pessoas precisam tanto de um sentido que explique suas vidas?

Talvez porque entender o que está se passando, aparentemente as deixe tranquilas. As coisas precisam ter uma explicação lógica, ou mais ou menos lógica. É preciso que a vida forme uma história coerente que possa ser seguida. Muitos chamam este fio condutor de “sentido”. Se a história correr durante anos no mesmo sentido, pode até ser oficializada e chamada de identidade.

Fomos criados com histórias. Bem antes de surgir o pensamento científico, o mundo nos foi explicado através de histórias que faziam sentido, nos orientavam na vida e nos identificavam. Acontece que histórias distorcem e simplificam a realidade, reprimindo tudo que não se encaixa ou não faz sentido. Mas não tem jeito, o ser humano sente-se atraído por histórias e têm aversão à fatos abstratos.

Assim, para entender o “sentido” de suas vidas, muitos seguem este princípio: modelam os fatos, deturpam a realidade, constroem estórias que se encaixem numa linha de pensamento racional e desta forma, dormem tranquilos. Convencem a si e aos outros de que aquela história meio vivida, meio fantasiada é a que vale. Em outras palavras, o “sentido” da vida vai sendo construído a posteriori dos fatos.

O resultado podemos prever. Consciência tranquila, história bonita ou triste, discurso  congruente, qualidade das decisões eventualmente prejudicada. Vale a pena? Não sei, a decisão é individual. De minha parte, tentarei não interferir em seu livre arbítrio de viver. Solicito que também retribua do mesmo modo.

Se algum dia encontrar o sentido da sua vida, parabéns, mas, por favor, guarde este trunfo só com você. Não conte a ninguém. Permita que cada um descubra o sentido de sua própria vida ou até mesmo o ignore. Eu, por exemplo, prezo muito mais uma história bem vivida na qual o final me surpreenda.

Além do mais, se a vida tem algum sentido, desconfio que o motoqueiro que atropelei, o bandido que assaltou minha mãe, a lua sob o mar de Cascais, o voo para o Panamá que perdi, as borboletas azuis, tudo se relacione com isto.

Que possamos surpreender e ser surpreendidos em 2014. Se possível, pra melhor.

Ildo Meyer
Médico, Escritor, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A luta amorosa com as palavras*


Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. 

Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há! Mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade.

Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez du peu.

Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. 

Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros ?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. 

Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam), o que é a luta amorosa com as palavras.

*Mário Quintana

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ainda sobre representações*


Hoje tentei reconstruir-me pela representação de mim mesmo. Desmontei-me e remontei-me peça por peça como num jogo de quebra cabeças. Preparei meu próprio palco com todo cuidado, atento aos mínimos detalhes. Escolhi meus trajes, pintei-me dos pés à cabeça. Já não me reconhecia mais.

Preparei a minha encenação com uma frieza visceral. Catei máscaras de todos os tipos. E olhava-me diante do espelho. Espantado? Não, sem sentimentos. Frio como uma lápide mortuária. Jurei para mim mesmo que nenhuma cena importante ficaria de fora.

Tornei-me diretor e roteirista de mim mesmo. Detalhista ao extremo. Dirigindo-me como ator e personagem, usando os mais diversos disfarces para descobrir-me. Ocupei até o lugar do público para aplaudir ou zombar de mim mesmo.

Quanto mais pensava que me conhecia, mais estranho ficava para mim mesmo. Um estrangeiro habitava dentro de mim. Nada mais sabia sobre mim. Pensei aproximar-me de alguma sabedoria maior. Esqueci de tudo sobre mim. Não sei mais quem sou eu.

Busquei na representação de mim mesmo a minha autenticidade. Ser eu mesmo sempre travestido de Outro. De vários Outros. Afinal, o Outro sou eu... amanhã... Observei-me a mim mesmo representando no palco, sentado na primeira fila dos bancos. Espiava atentamente para tentar descobrir-me. Algum pequeno detalhe... 

E os personagens iam se alternando no palco:um trágico; outro cômico; um terceiro sarcástico; chamou-me atenção um romântico e ingênuo ao extremo; ainda um frio e calculista; mais outro racional do qual eu só via a cabeça. Alternavam-se outros, quase esquecidos, mas nem por isto menos importantes: um que era somente bondade; outro que só amava e não era amado;um estranho que parecia só existir na imaginação esvaindo-se como fumaça ao vento. Entre os intervalos da representação apenas alguns pequenos espaços para algum choro, ou algum riso...

Num dado momento puxei você para o palco. Para contracenar comigo. Como coadjuvante é claro. Ah, não abriria mão do papel principal. Deixei até você se iludir de que estava no papel central. Ilusão sua. Não tinhas a mínima idéia das artimanhas que o meu coração tramava para continuar te prendendo no emaranhado de teias que eu costurava ao teu redor.

A vida, porém, é cruel e não nos oferece maiores intervalos entre os atos da representação. E espiei pela janela para ver o que tinha sobrado de mim.

Declinei e entreguei o jogo mais uma vez, cansado.
E congelou minha face na mais profunda tristeza.
Recolhi-me para dentro de mim mesmo.
Fez-se noite ao redor e dentro de mim.

E na noite insone os fantasmas, zombeteiramente, continuaram representando mil cenas de todos os tipos diante de mim. Encolhi-me como uma criança ao útero da mãe.

O dia seguinte trouxe a paz. E o sentimento de bem estar. E decidi continuar aprimorando minha arte de representar todos os papéis imagináveis para buscar manter a minha autenticidade.

*José Mayer
Filósofo, estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Entendendo Descartes*








A essência subjaz ao mundo material.
Preciso cuidar mais da casa,
ter prazer nela,
emoldurá-la, aromatizá-la
adorná-la.
Meu templo, estádio/estágio.
Ah! Saudade, felicidade.
Alegrias no ser em si.
A casa é o corpo.

*Vânia Dantas
Filósofa, Filósofa Clínica
Brasília/DF

Ausência*


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

*Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Melancolia!*


Há uma melancolia salutar no meu ser. Não a destrutiva que deprime e oprime, mas aquela reflexiva, da sensibilidade de quem sente compaixão pelo outro, pela dor do outro e identifica a fragilidade nas pequenas expressões diárias, nos gestos mais comuns e minuciosos.

Essa melancolia arranca pequenas lágrimas dos meus olhos, seja na mais profunda sensação de vazio ou de completude! Sinto a cada dia que não preciso mais mascarar-me para melhor ser percebida e compreendida, pois, por mais que eu sinta, por causa do meu ego, que queira agradar multidões, jamais agradarei. Isso me faz tão bem!!! Na verdade não tenho mais a necessidade de agradar a ninguém, nem a mim mesmo.

A obrigação do sorriso diário saiu da minha representação de mundo... Vivo melhor e cada vez mais transparente nesse mundo de teres e poucos saberes. Daqui para frente pretendo SER a cada palavra proferida, a cada gesto expressado, a cada movimento dançado!

É justamente essa melancolia que trás para mim os questionamentos e as mais profundas reflexões. Sim! Sem sofrimento! Só pequena melancolia...

Sou mais mulher e menos moça sonhadora a cada deslocamento, longo ou curto. E, por mais estranho que possa parecer, estou mais feliz assim. Concretizar também faz parte do meu processo, sem histórias de princesas encantadas, moças salvas por um príncipe. Sou muito mais guerreira hoje. Estou mais feiticeira, faceira e dona dos meus caminhos! Sem rumo, entretanto, com minha bússola interna ativada, viva!

Se quero partir, simplesmente parto, não olho mais para trás. Tudo o que passou já não é mais. Eu vivo cada vez mais o agora, o hoje, o aqui. E o futuro???

Não tenho pensado no futuro porque sei que é resultado do plantio do hoje... Simples e descomplicada, sinto-me no momento. Vivo em constante mudança!!! Amo o movimento transformador, descobridor dos meus segredos íntimos que se revelam claramente para meu verdadeiro EU.

E assim sendo e vivendo procuro suspender cada vez mais o juízo e observo o mundo ao redor. Sinto o cheiro e o vento da noite estrelada. Durmo o sono daquela que merece repousar com os anjos e os querubins, acordo purificada, iluminada, disposta a continuar aprendendo a vida a partir do outro e para representar-me pelo outro e junto do outro.

Aprendi, nessa minha longa pequena caminhada, que todos nós, seres humanos, dependemos de nós e do outro para construir o mundo particular, singular... E isso não é palavra, nem grande constatação, é expansão de consciência, é busca, é luta para compreender essa engrenagem confusa e muitas vezes sem a menor lógica chamada: vida.

* Vanessa Ribeiro
Filósofa, matemática, atriz, dançarina, estudante de filosofia clínica
Petrópolis/RJ

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Ser e Aparecer*


História de vida, o que é isto? Quanto você olha para o passado e o faz reviver faz com os olhos do presente, mesmo que tente fazê-lo a partir do ponto de vista que tinha no passado ainda assim ele é presente. Esse olhar sempre atual da própria história de vida precisa de certo treinamento, sendo que o primeiro deles é entender que a história de vida não é a pessoa, mas um registro daquilo que viveu, por onde esteve. 

Se ao longo da vida você por um acaso cometeu “erros” isso não quer dizer que você seja uma pessoa errada, mas uma pessoa que cometeu erros. O contrário também é válido, fazer coisas boas não torna ninguém uma pessoa boa, mas uma pessoa que faz coisas boas. As atitudes de cada pessoa não necessariamente refletem o que ela é, mas sim o que ela faz com aquilo que ela é.

Certa vez conheci um jovem senhor de 70 anos, uma pessoa que cuidava das crianças do bairro, encaminhava para o escotismo, circo, cinema, leitura, enfim, cultura. Por muito tempo me pareceu uma pessoa muito boa, uma pessoa com uma história que dizia que ele era um homem muito bom. 

Cresci e tive a oportunidade de conversar com este mesmo homem anos depois, já em faze terminal, disse a ele que ele era um homem bom, exemplo de pessoa. Sua resposta me deixou confuso na época, hoje entendo perfeitamente o que ele disse. 

Disse ele: “Não sou um homem bom, vivi minha vida para mim, fiz sempre o que quis, sou orgulhoso, mesquinho, arrogante, prepotente. Quando vocês eram pequenos eu via em vocês bichos do mato e me achava muito melhor, por isso mostrava um mundo “melhor” para vocês, queria poder dizer para mim mesmo que fui eu quem os salvou da ignorância. Dei-me o direto de achar que o que viviam na pequena vila deveria ser mudado, a começar pelas crianças, por isso me arroguei o direito de intervir. Eu me achava a melhor das pessoas, porque ninguém ao redor sabia o que eu sabia, tinha viajado o que eu tinha viajado, por isso não escutava, falava, dava conselhos”.

Passei anos discordando, entendendo que se ele fez coisas boas é porque era uma pessoa boa. No entanto, anos mais tarde, depois de muita filosofia percebi que, ele via em suas atitudes a intenção por detrás delas. Filosoficamente a questão fica bem complicada, pois será que interessa o mérito interior de uma boa ação? Os mais religiosos provavelmente dirão que sim, mas e a história de fé sem obras é morta, será o oposto também é verdade? Que obras sem fé também são mortas? 

Voltando ao caso citado, esse homem mostrou e, mesmo depois de seu falecimento, ainda mostra que as atitudes de uma pessoa não mostram quem ela é.

Por isso, quando olhar para a própria história, com suas escolhas, acertos e erros, é necessário perceber que suas atitudes não são você, mas o que você faz com o que você é. Aos que cometeram erros ao longo da vida e sentem-se julgados pelos outros, basta lembrar que estes outros têm suas histórias. Podemos não ter orgulho de algumas escolhas que fizemos, mas podemos nos orgulhar das escolhas que são feitas agora, neste momento.

Por isso, se sua história contém coisas das quais você não se orgulha, veja o que pode ser feito deste momento em diante para se orgulhar. Se sua atitude no casamento mostra uma pessoa que você não é, pode ser feito diferente. Há uma única coisa que não pode se feita: legar a responsabilidade ao outro pelo passado que tenho, pois mesmo quando outorgo ao outro a escrita da minha história sou responsável por ela. Meu amigo fez muitas cosias boas mesmo se achando mau, uma pessoa pode fazer muitas cosias más se achando boa.

*Rosemiro Sefstrom
Filósofo, Filósofo Clínico
Criciúma/SC

domingo, 22 de dezembro de 2013

Folhas das folhas de relva*



" (...) Tenho dito que a alma
não é mais do que o corpo e tenho dito que o corpo não é mais do que a alma,
e que nada, nem Deus,
para ninguém é mais
do que a própria pessoa,
e quem anda duzentas jardas
sem vontade
anda seguindo o próprio funeral
vestindo a própria mortalha,
e que eu como vocês
sem um tostão no bolso
posso comprar
o que o mundo tem de melhor,
e dar uma vista d'olhos
ou mostrar uma vagem no seu galho
confunde o aprendizado
de todos os tempos,
e não existe emprego ou desemprego
em que um homem não possa ser herói,
e coisa nenhuma há de ser tão mole
que não sirva de cubo às rodas do universo,
e a qualquer homem ou mulher eu digo:
- Deixem que se levantem as almas de vocês
tranquilas e bem postas
ante um milhão de sóis! (...)"

*Walt Whitman

sábado, 21 de dezembro de 2013

Ambientes Criativos*


Querido leitor, que você esteja em paz. Nossa reflexão de hoje aqui no Café com Mistura é sobre ambientes criativos. Esta experiência ocorreu em nossa viagem de estudo que fiz à Grécia em 2009 com um grupo de filósofos clínicos de todo o Brasil. 

Depois de um dia nos aprofundando no filósofo grego Sócrates e nos prováveis motivos de sua morte, subimos na cobertura do Hotel Titânia, no centro de Atenas.

Sentamos à mesa no restaurante com um bom tinto nas taças. No céu, um luar “sob encomenda” e uma vista deslumbrante para a Acrópole toda iluminada. Um visual inesquecível.

Envolto aquele clima, o filosofar acontecia em torno do que será que atraía tanta gente para Atenas há 500 a.C. Aqueles questionamentos nos faziam refletir e também filosofar por horas naquele ambiente de Jardins de Oliveiras onde tudo refletia história.

Trazendo essa reflexão para hoje, poderíamos fazer a seguinte pergunta: Como explicar a existência de tantos arquitetos, filósofos, escultores e escritores na Atenas de Péricles? E por que houve tantos pintores, escultores, arquitetos, historiadores e poetas, todos juntos, na Florença dos Médicis? Por que viveram tantos físicos, filósofos, escritores, pintores, designers, arquitetos e músicos, de novo, todos ao mesmo tempo, na Viena de Klimt e de Musil?

Uma resposta definitiva provavelmente não exista, porém, podemos sim afirmar que ambientes criativos atraem pessoas criativas e essas pessoas criativas acabam criando lugares ímpares na nossa geografia e na nossa história. Em muitos casos, os ambientes externos influenciam pessoas, mas o inverso também pode ser dito, que pessoas podem influenciar os ambientes externos.

Tenho percebido ultimamente que algumas pessoas plantam cactos e querem colher uvas. Algumas pessoas querem atrair beija-flores e esquecem de plantar flores. Outras gostariam de atrair peixes coloridos e envenenam as águas.

Mais uma pergunta que cabe para esse tempo de mundo acelerado que estamos vivendo. Que ambientes estamos criando para atrair bons fluídos, que tipo de pessoas queremos atrair para perto de nós? Que mundo estamos deixando para aqueles que virão?

Lembrando que isso é assim para mim hoje.

*Beto Colombo
Empresário, Administrador de empresas, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Quando o homem entra na mulher*


Quando o homem
entra na mulher,
como a rebentação
batendo na costa,
uma e outra vez,
e a mulher abre a boca de prazer
e os seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem
dentro da mulher
ata um nó,
de modo que nunca mais
possam voltar a separar-se
e a mulher
trepa a uma flor
e engole o seu pecíolo
e Logos aparece
e solta os seus rios.

Este homem,
esta mulher
com o seu duplo desejo
tentaram atravessar
a cortina de Deus 

*Anne Sexton

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O adeus*


Saí a fotografar
O adeus que retorna
O adeus de todos as tardes
Que fica e renasce
Cheio de glórias

O adeus presente e passado
O adeus...
Da natureza que ilumina
O adeus...
Do sol e do dia.

*Fernanda Sena
Filósofa, Filósofa Clínica
Barbacena/MG

Irreversível*


É tão ruim estar assim
Caminhando em meio às flores
Num campo verde abstrato
Dentro de um plano inexistente
Fazendo verdadeiras todas as coisas
Pensadas, ditas ou escritas
Num lugar onde não há espaço
Para nenhum tipo de sentimento
Ou qualquer coisa
Relativa às atividades do espírito
E o próprio encontra-se perdido
Absorto em manchas verdes-claras
E carrossel de outras cores
Que dançam a sua frente e
Lhe fazem perceber suas existências
inexistentes.

*Vinícius Gomes Fontes
Filósofo, estudante de Filosofia Clínica
Rio de Janeiro/RJ

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas*


Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.

*Walt Whitman