sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A palavra indizível*



Esse texto busca aproximações com o teor discursivo contido em um não dizer. Trata-se de fenômenos refugiados antes da palavra compartilhável. Sua expressividade aprecia surgir na vizinhança do que se possa nomear.  
 
Sua origem marginal reside na própria estrutura onde atua como sombra. Para surgir a luz do dia se utiliza de subterfúgios como: desrazão, delírio, devaneio. As tentativas de tradução, a partir do referencial especialista, costumam desqualificar sua autoria.  

A história muito íntima de cada um, nas entrelinhas dos saltos temporais (por exemplo), é possível encontrar vestígios de sua existência. A matéria-prima da palavra indizível costuma se esconder na historicidade mal resolvida, nos apagões, deslizes, contradições. Esse universo pessoal de aspecto indizível é igual ou superior ao vocabulário reconhecido.

O estudo dessa imensa região subjetiva pressupõe:

- compreender os eventos da esteticidade
- acolher os movimentos do silenciar
- qualificar a interseção com o viés pessoal desestruturado
- investigar subentendidos
- verificar a origem dos termos inadequados
- emancipar o olhar em direção às margens da estrutura

Sua simbologia, nem sempre compreensível a primeira vista, encontra-se em permanente nascimento. Esses eventos apreciam a clandestinidade para qualificar a interseção entre dizível e indizível. Um desses indícios diz respeito aos conteúdos que surgem fora de foco e, ao se tentar ajustá-los, desaparecem.

Quando isso acontece, sua essência já é outra, como se fora uma estrutura dentro da própria estrutura. Que segredos pode conter essa fonte de matéria-prima ? Muitas vezes interditada ao próprio sujeito, essa dialética do não-dito parece querer revelar algo mais. Talvez sua existência sem voz reivindique um novo vocabulário.  

Seu caráter híbrido se mostra em não evidências. Assim, o que resta, são esboços reflexivos, analíticos, intuitivos sobre a natureza de uma esteticidade em busca da linguagem. Essas aventuras pelos labirintos da singularidade não permitem uma descrição adequada  com o dicionário conhecido.  
 
Nesse imenso território, uma fonte inesgotável de novidade tenta encontrar jeitos, associar tempos e momentos, ampliar seu campo de visão, qualificar-se nalguma semiose. Um abrigo onde acontecimentos e personagens sem rosto convivem, interagem entre si mesmos e sugerem lacunas para espreitar novas verdades.

Assim se evidencia algo mais que nasceu para não morrer. De tempos em tempos seu indizível se insinua como uma subversão hermenêutica à um leitor de raridades. Quando isso acontece, trata-se de redefinir o conceito de realidade, ajustando-o as necessidades da interseção por vir.

*Hélio Strassburger
www.casadafilosofiaclinica.com
www.casadafilosofiaclinica.blogspot.com

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Dor elegante*


Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

*Paulo Leminski

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Perplexidades*









a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado

*Ferreira Gullar

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Casa *


Aos poucos construo minha casa.
Ela tem um telhado tradicional,
grande varanda por toda a volta para driblar o calor
excessivo
dos dias maiores.
Há passarinhos no final da tarde
e a calma ali é muito grande;
estamos bem e tranquilos.
Nessa casa posso receber quem quero
com o agrado que tiver:
pedacinhos de pão para os gatos,
água para as samambaias e os beija-flores.
Sem dúvida, ali poderei discutir o que quiser com os
colegas;
falarei do que faço
e planejarei um progresso contínuo deste ser,
a partir da única vigilância que existirá: sobre a mente.

Esta casa - de tão confortável, simples -
está em meio à natureza,
coisa que não existe tanto hoje.
Atrás de nós há uma montanha bonita, arredondada
estamos ao pé dela.
Uns quilômetros aqui à frente está o mar.
E ficamos um bocado sozinhos da civilização.
Não há tecnologia que nos importune
nem a necessidade de nos curvarmos a ela,
que não nos salvará de nós mesmos.

Alguns momentos na vida consigo residir neste local.
Vejo que é tão fácil quanto imperceptível;
a solução está em nós.
Por isso, só aos poucos posso me reforçar
e ver que meu universo é bem melhor
do que esse pedaço de materiais
que tento tanto juntar
para me ver abrigada.
A casa é quem sou.

* Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Um título com medo*


Medo. Medo de escrever e não sair nada. Não rimar condão com fada. Não confrontar a metáfora com a ênclise, atrás da porta que acabei de grafar. Medo do til ter medo de altura, e transformar meu ão em um monossilábico ao, com a redução do o a u, uma semivogal. Medo do i não aceitar o pingo, e ao lado de um zero, formar uma facção de códigos binários. Medo do ar não entrar pelo fonema, e este nunca sair nasal. Medo do texto atonal. Medo da falta de rimas métricas e assimétricas. Medo de sequestro de letras. 

Do papel em branco. Medo do silêncio do teclado. Do estado hiperbólico das sentenças. Morrer de medo. Estar aquém de um grande verso. Medo do reverso da poética. A metálica forma do medo. Medo de escrever plástico só por sua acepção. Medo das crases. 

Dos acentos circunflexos, por não existirem os circônflacos. Medo dos flancos do dois pontos. Medo do assombro sem exclamação. Medo do não com ponto final. Do mal uso da cedilha. Das filhas da letra ésse quando se unem aos verbos. Do que fazem com eles. Medo da interrogação. Medo de títulos e epígrafes. Medo de gafes. Medo da origem das palavras. Se nascem mortas de medo. Medo das línguas esquecidas serem as mesmas das quais me lembro. Medo de abuso do texto. 

Do limite de linhas. Dos rodapés e rubricas. Medo que o trema não seja nunca mais utilizado. E com ele vá-se embora toda a intriga. Medo da falta de idéias. Ou do extremo oposto. Algumas delas ressurgirem do esquecimento para o repetido uso. Medo do p e b mudos. Do hífen do contra-ataque da curva dramática de um texto. Do abandono entre parênteses das reticências por medo. Medo do travessão e da vírgula. 

Do narrador e da terceira pessoa. Do protagonista. Do epílogo. De uma frase sair à toa. Medo de assinar o final do texto. Da confissão do confuso. Do mal hábito de sentir tudo muito absurdo. E saltar. Soltar a folha cheia de medos por cima do resto do mundo.

*Ana Peluso

domingo, 26 de janeiro de 2014

Pensar como uma montanha*


Querido leitor, que você esteja bem. 

Como sabemos, a montanha foi usada por muitas civilizações e continua assim até nossos dias. O filósofo, professor e montanhista Arne Naess, por exemplo, usou o termo "pense como uma montanha", para ressaltar sua crença de que devemos primeiro reconhecer que somos parte da natureza e não separados dela, se queremos evitar uma catástrofe ecológica.

Corrobora com o que o ex-reitor da Unipaz, Pierre Weil, sempre defendeu como o grande paradigma de nossos dias, que é o paradigma da fragmentação.

O ecologista Aldo Leopold em seu livro cujo título é “Pensar como uma Montanha”, também diz que devemos, inicialmente, pensar como uma montanha, reconhecendo não apenas nossas necessidades ou a dos seres humanos, mas as de todo o mundo natural, de todos os seres vivos. 

Ele chegou a essa conclusão trabalhando como guarda florestal no início do século XX, quando atirou numa fêmea de lobo em uma montanha, e disse que alcançaram a velha loba a tempo de ver um brilho verde selvagem morrendo em seus olhos, percebendo que havia algo novo naqueles olhos, algo conhecido apenas pela loba e pela montanha. A partir dessa experiência, ele sugeriu que, com frequência, não percebemos as implicações mais amplas de nossas ações, se considerarmos apenas o benefício próprio e imediato.

Pensar como uma montanha significa se identificar com o ambiente mais vasto e estar consciente do seu papel em nossas vidas. Pensar como uma montanha é compreender que somos parte da biosfera.
Pensar como uma montanha é entender nossa responsabilidade em relação a todos os seres vivos.

Conscientes deste fato devemos pensar sobre as necessidades de longo prazo no meio ambiente como um todo. O filósofo, professor e montanhista Arne Naess diz que em lugar de ver o mundo separado de nós, devemos descobrir nosso lugar nele, reconhecendo o valor intrínseco de todos os elementos do mundo em que vivemos.

Onde está o dentro, onde está o fora? Podemos fazer um breve exercício para tentar entender o que estes mestres querem nos mostrar como fragmentação. Feche os olhos. Preste atenção agora na sua respiração. Observe o ar que entra em seus pulmões, o ar que entra e o ar que sai: onde está o dentro, onde está o fora do ponto de vista do ar? Assim como o ar, também poderemos ter essa experiência com a terra, a água e o fogo.

De acordo com a visão poética de Robert Aitken Roshi, professor da tradição Zen, quando o ser humano pensa como uma montanha, pensa também como um urso negro, de modo que o mel escorre por sua pele enquanto toma o ônibus para o trabalho.

Lembrando que isso é assim para mim hoje.

*Beto Colombo
Administrador, filósofo clínico, escritor, coordenador da filosofia clinica na UNESC
Criciúma/SC

sábado, 25 de janeiro de 2014

Pensamentos que reúnem um tema*


Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranquilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o céu
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um numero ficarei
Até que minha vida passe.

*Adalgisa Nery

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Bipolar!*


Segundo o DSM IV a bipolaridade ou Transtorno Afetivo Bipolar tem como característica básica “a alteração de humor com episódios maníacos e depressivos ao longo da vida”. No que se refere à bipolaridade, a psiquiatria tem como base única para o entendimento do transtorno as alterações do humor. 

Em Filosofia Clínica o humor está ligado ao tópico 04, as Emoções. Sendo assim, a bipolaridade pode ser entendida como a troca de conteúdos em um mesmo tópico, ou seja, ou estou emotivamente muito feliz (maníaco) ou estou emotivamente muito triste (depressivo).  

Segundo o próprio DSM estas alterações episódicas se dão ao longo da vida, ou seja, tanto podem se dar em poucos minutos como podem levar muitos anos. Enfim, a alteração de qualidade das emoções faz com que uma pessoa possa ser considerada Bipolar pela psiquiatria.

Não há aqui a intenção de concordar ou discordar com a nomenclatura ou o diagnóstico sintomático da bipolaridade, mas propor outros entendimentos. Até o momento se fala em bipolaridade, mas existem pessoas que são “tripolares” ou “tetrapolares”. No consultório, uma bipolaridade muito comum que encontro é a briga entre as emoções e o raciocínio. Acontece algumas vezes de encontrar pessoas que estão saindo de um casamento, e, ao falar do amor que sentia pelo marido ou esposa, a dificuldade com os filhos, a pessoa sofre, chora, fica desolada. No entanto, quando o assunto é divisão de bens, cálculo de valores, ajustes judiciais, a pessoa se ilumina, os olhos brilham, ela adora isto. 

Há ainda pessoas para as quais podemos chamar de “tripolares”: são pessoas que apresentam vivências pontuais em cada um dos tópicos. Seria o caso de uma pessoa que quando está na Igreja, rezando, se porta como o maior dos fiéis, se compromete com Deus, é um exemplo de fé. Porém, saiu da Igreja, viu seu carro sendo riscado por um rapaz, pega o mesmo e quase o espanca. Pergunta: onde está a fé? O perdão? O detalhe é que neste momento ao viver o conteúdo das emoções, no caso a raiva, ele a vive intensamente, ficando cego para a fé. Acontece que ainda chegando na delegacia para lidar com o problema gerado pela agressão ao menino ele se apresenta calmo e extremamente calculista. Agora, frente ao delegado é o raciocínio quem comanda, nem a fé da Igreja, nem a emoção do momento estão presentes, é apenas o pólo da razão que comanda agora. 

Os “tetrapolares” também são pessoas que tem vivências pontuais de acordo com o momento.

Outro tipo de bipolaridade se encontra nos papeis existenciais. Provavelmente você já deve ter ouvido a expressão: “Meu pai com os amigos dele é uma pessoa, em casa é totalmente outra”. E quando a pessoa se referia que seu pai era totalmente outra pessoa, estava falando de um homem agressivo, bravo, frio, calculista. 

Essa bipolaridade vem do exercício dos papeis existenciais, onde ele aprendeu que como amigo não tem compromisso, é momento de falar bobagem. No entanto como pai ele tem o compromisso de educar, orientar, ensinar, mostrar como o mundo funciona. A quebra que o papel existencial amigo e pai mostram, na maior parte das vezes não são compreendidos.

Quando as vivências são pontuais elas podem se apresentar como polares, ou seja, voltadas a um extremo. Provavelmente cada um de nós somos bipolares, uns mais, outros menos.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Manifesto*


Sim ao prazer sem custo.
Acatar, beber, dividir o bom
que venha feito o sol, gratuito.

Quem sabe se o dom, o sem-razão
e o sem-motivos possam mais
do que exigimos. Nem se duvide

do que é capaz a coincidência
entre as coisas. Nesse mundo
em que gênios são servos de si mesmos,

pratique-se o descanso, para
que o povo nunca esteja frio
e o coração passeie seus cavalos.

* Eucanaã Ferraz

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sou eu ou sou o outro?*



Há um trecho da música do Caetano Veloso que diz: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é”. Note que a frase afirma um conhecimento de si que não diz respeito ao outro. Podemos observar  que a ideia que a frase passa costuma estar presente num imaginário coletivo como um princípio de verdade. Mas, a filosofia clínica (FC) nos ensina que as coisas não são tão simples quanto parecem. Para melhor compreendermos esta questão, vamos nos remeter ao tópico da Estrutura de Pensamento (EP) denominado espacialidade intelectiva.

A espacialidade intelectiva compreende nossos movimentos existenciais. Podemos apresentá-la em quatro possibilidades: inversão, recíproca de inversão, deslocamento curto e deslocamento longo. Inversão é quando a pessoa está intelectivamente voltada para si. A recíproca de inversão refere-se a quando nos deixamos envolver pelo que o outro está nos apresentando e nos colocamos a vivenciar, em alguma medida, seus relatos, suas experiências. O deslocamento curto acontece quando estamos voltados para algo espacialmente e concretamente próximo a nós, como algo que posso tocar, observar ou sentir. O deslocamento longo se dá quando a pessoa volta-se intelectivamente ao que está distante espacialmente de si, como lembranças, imagens ou desdobramentos de ideias.

A supramencionada frase de Caetano Veloso, portanto, não pode ser generalizada, pois não é assim para todas as pessoas. Embora empiricamente não entramos no corpo do outro para sentir suas “delícias” e “dores”, há quem faça essa experiência intelectivamente. Quando afirmo intelectivamente, não estou querendo dizer intelectualmente. Ou seja, não trato de uma experiência da dor do outro de modo racional, lógico ou mensurável nos eletrodos ligados em ratos num laboratório, mas trato de uma experiência vivencial dos modos mais diversos possíveis.

Um exemplo para ilustrar a experiência da recíproca podemos ver numa pessoa assistindo a um filme. Quando fica muito envolvida, uma cena de suspense leva o espectador ao desespero, uma cena de perda, às lágrimas, ou uma cena de ação, à aceleração dos batimentos cardíacos. Ninguém “vê” o espectador dentro do filme, mas não se pode “provar” que ele não estava quase o tempo todo efetivamente participando da cena.

O movimento intelectivo exemplificado acima é chamado de recíproca de inversão. Mas, essa pessoa pode sair do filme sem voltar a seu eixo existencial e manter-se fora de sua inversão. Assim, quando sai do filme, mantém-se em deslocamento longo, imaginando cenas possíveis, criando roteiros, e as possibilidades se multiplicando. Nesse momento, o deslocamento curto, que poderia nos atentar para os degraus da sala de um cinema, falta. Então, num tropeço ou tombo, a pessoa desperta seu deslocamento curto, volta-se para seu eixo num movimento de inversão, e segue para casa.

Se em um mero filme, essa espacialidade já apresenta tamanha dinamicidade, imagine para as pessoas que tem uma inclinação para as relações interpessoais, chamadas em FC de interseção. Uma mãe pode esquecer totalmente de si quando se depara com a dor de seu filho num estado de enfermidade. Nesse momento, a mãe pode esquecer da própria fome, sono, cansaço. Quantas vezes já não vimos pessoas que depois de uma longa jornada acompanhando um ente querido hospitalizado, quando este é liberado, se dão conta de seu cansaço, estado físico e de si de modo geral. Trata-se de uma recíproca, muitas vezes reforçada pelo amor**, mais forte do que a consideração referente a si***, que somente é enfraquecida quando o amado apresenta melhoras.

Esse movimento pode ser percebido até nas mais inocentes conversas. Quantas vezes alguém já não se queixou de outro não ter prestado atenção ao que foi dito? Provavelmente estava inversivo e não se atentou ao outro. Quantas vezes já vimos um professor se surpreender com a resposta de um aluno que respondeu a uma questão, quando parecia não estar prestando atenção a nada? Estava fazendo recíproca com o professor, embora aparentemente mostrava-se desenhando ou olhando para fora. As possibilidades de exemplificação são tantas que as apresentadas são infimamente representativas.

Note que a FC é uma abordagem de sutileza. Os movimentos intelectivos comumente são muito dinâmicos. Algumas pessoas até privilegiam um deles. Mas, de modo geral, são bem entrelaçados na vivência hodierna.

Depois das referidas considerações, podemos nos perguntar, para além da delícia e da dor, buscando maior abrangência existencial: quando sou eu e quando sou o outro? Geralmente vou me dar conta de que intelectivamente sou o outro somente quando já voltei a meu eixo e, num ato de inversão, sou eu. Desse modo, valendo-nos de uma das afirmações mais satirizadas de Caetano Veloso, poderíamos reconstruir sua frase, adaptando-a à reflexão que a FC nos sugere, da seguinte forma: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é... ou não!”.

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo, Mestre em Filosofia da Religião, Doutorando em Filosofia, Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG
** Referente ao tópico da EP chamado emoções.
*** Tópico da EP chamado o que acha de si mesmo possivelmente associado à axiologia.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Agradecimento pelo acesso 90.000*













Queridos alunos, colegas, leitores, amigos,

Esse breve rascunho tem o objetivo de agradecer os 90.000 acessos em nossos escassos três anos de vida. As leituras, releituras, partilhas em nosso blog. A ideia inicial desse espaço foi oferecer qualidade de textos, poemas, artigos, um complemento aos estudos em Filosofia Clínica.

Para nossa surpresa e alegria, os acessos nacionais e internacionais (esses últimos já superam os nacionais, inclusive!) transgrediram os limites de qualquer expectativa. Aqui, as pessoas de vários pontos do planeta, tem qualificado nosso espaço artesanal. Um lugar de interseção sem discriminação de credo, raça, língua, essa casa é de todos nós!

Aqui você será sempre muito bem vindo!

Talvez essa característica tenha sido um diferencial, um aprendizado à todos que desejam trilhar os caminhos dos estudos, pesquisas, a formação em nossa área de trabalho.

Uma gratidão imensa pela companhia imprescindível, a qual nos anima a continuar e qualificar cada vez mais esse espaço de acolhimento e partilha.

Boas visitas e revisitas!
Um abraço fraterno,
Hélio Strassburger
Casa da Filosofia Clínica

Fragmentos filosóficos, delirantes, poéticos*










“O poema filosófico canta, dança aos gritos orgiásticos
de Dionísio...
a filosofia poética encanta nas páginas livres da
cadência literária...
a música transborda o som da alquimia vivenciada...
e na tríade simbólica da vida, correndo aos gritos insanos,
perambulam a filosofia, a música e a poesia...”

*Eduardo Silveira
Filósofo, estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Atenção ao Sábado*


Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.

Domingo de manhã também é a rosa da semana.

Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

* Clarice Lispector

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Fragmentos filosóficos, delirantes*


"Apesar de todos os medos, escolho a ousadia.Apesar dos ferros, construo a dura liberdade.
Prefiro a loucura à realidade, e um par de asas tortas aos limites da comprovação e da segurança.
Eu, (..........), sou assim.
Pelo menos assim quero fazer: a que explode o ponto e arqueia a linha, e traça o contorno que ela mesma há de romper.
A máscara do Arlequim não serve apenas para o proteger quando espreita a vida, mas concede-lhe o espaço de a reinventar.
Desculpem, mas preciso lhes dizer:
EU quero o delírio."

*Lya Luft

Felicidade como semiose*


Há um tipo de mitificação que para se escrever belas palavras precisamos estar tristes, em crise ou deprimidos. Venho por meio de meus escritos quebrar esse "termo universal"! Destruir mesmo, detonar!!!

Sinto o hoje tão mais belo porque estou feliz, contentada com minhas conquistas e realizações! Acredito cada vez mais no ser humano com ser pensante para o bem maior! Sinto o cheiro da noite invadindo meu quarto, percebo o conforto da minha cama e me sinto privilegiada! A vida está cada vez mais colorida na minha representação de mundo. No quesito, o que acho de mim mesma, sinto-me forte, macia e segura. 

Será que estou fora da linha da realidade da vida? Será que teimo em acreditar que a felicidade também pode ser produtiva e poética? Será que tudo que digo, por estar muito bem, se torna "lugar comum"? Será que eu deveria estar lendo Nietzsche, Sartre ou Wittgenstien para ser mais culta, e, portanto mais feliz? Qual o valor real da beleza das palavras? Sofrer? Morrer de dor de amor? Introspecção? Será?

Realmente, não tenho a resposta para nada disso com fundamentações e citações pomposas, na verdade, nem quero saber o que tais filósofos falaram a respeito da felicidade. Embora saiba porque os estudei. Mas e daí?

Não sou mais, nem menos...

Sou uma mulher que desfruta do prazer da vida compartilhada com quem se ama. Sou simples, complicada, inconstante e incoerente como qualquer mulher que tenha esse tipo de representação, de si mesma, em suas estruturas de pensamento. O que importa é que hoje sou melhor do que fui ontem, sou mais liberta de "armadilhas conceituais", que eu mesma havia criado, em ter que provar para o mundo que sou uma mulher inteligente. E como cultivei essa bobagem, reguei, adubei, e me perdi inúmeras vezes.

Quantas bobagens parecidas com essas, nos entorpecem a mente, não permitindo desfrutar da verdadeira vida? Espero, amanhã, não me contradizer e cair em recaída. Não por não poder entrar em contradição com meu pensamento, mas pelo simples fato de querer continuar sentindo o prazer de estar feliz!!!

Aliás!!! Eu quero é ter mais momentos quentes de pura explosão de alegria para gastar essa vida que muitas vezes parece insana. Que pensem e falem mal. Hoje estou firme, segura e muito feliz.

Tenho descoberto que muitos de nós, deixamos, muitas vezes de sentir a plenitude da vida pelo simples fato de estar sendo, ou não, aprovado pelo outro. Em um ponto tenho que concordar com Sartre: " O inferno são os outros"!

Putz! E havia dito que não faria nenhuma citação. Mas desculpem-me, não posso controlar o pensamento de vocês, tampouco o pré-juízo. Citei!!!

Na verdade, muitas vezes, não controlo, nem mesmo o meu pensamento!

*Vanessa Ribeiro,
Filósofa, matemática, atriz, filósofa clínica
Petrópolis/RJ

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A tartaruga que nos habita*












Quando comecei a correr, fazia por esporte. Mais tarde, descobri que além do benefício saúde física, a corrida me deixava tranqüilo, bem humorado e inspirado para a vida. Não sei explicar como funciona, mas a sensação que tenho é que à medida que me desloco para frente, as preocupações vão ficando para trás.

Funciona como uma terapia alternativa. Se alguma ansiedade começa a incomodar, coloco o tênis, calção, boné e saio trotando. Troco percursos, inverto o sentido das ruas, acelero o passo, desço ladeiras. Preciso estar em movimento. Quase sempre, depois de uns 30 minutos de corrida, já me sinto bem melhor, sem apreensão alguma.

Aproveitando esta experiência do bem estar promovido pela corrida, decidi fazer um movimento diferente. Uma viagem sem destino fixo, sem horários e sem data para voltar, com todas as estradas que o mundo oferece abertas. Meus únicos compromissos seriam deixar a vida me levar e dar espaço para as emoções escolherem o melhor caminho.

Juntei um bom dinheiro, arrumei a mochila e parti para a Europa. O ponto de partida seria Cascais, uma cidade litorânea em Portugal, na qual já havia estudado e tinha ótimas recordações. Reservei o mesmo hotel daquela época. Ficava em frente a praia. Uma baía que durante o dia recebia os banhistas e à noite os barcos dos pescadores.

O cheiro de peixe fresco, as aves voando sob a luz da lua refletida no mar, o chope super gelado servido no bar irlandês, a música pop ao vivo pareciam dar uma sensação de paraíso, segurança e tranqüilidade.

Mas não era nada disso, eu estava perdido. Logo percebi que correr mecanicamente com as pernas é uma coisa, viajar com as emoções é outra bem diferente. Sabia fazer programa de turista, visitar museus, parques, restaurantes, mas não tinha a menor noção de como viajar sensorialmente, absorvendo e deixando um pouco de mim em cada lugar.

Minha jornada estava ligada a movimento, mas era um tipo de ação diferente. As surpresas do caminho apareceriam quando eu menos esperasse, ou quando as percebesse.  Exigiria atenção, vivência, sensibilidade. Deveria ser uma corrida diferente das que estava acostumado. Corrida com pausas, ou quem sabe até, mais pausas que movimento. 

Durante três noites seguidas freqüentei o mesmo bar. Entre um chope e outro conversava com o garçom, um senhor irlandês que escolhera aquela praia para fugir de Dublin e montar família. O bar estava quase fechando, cinco horas da manhã, o sol nascendo, mas lembro bem de quando Peter, o velho amigo/garçom entregou a conta das despesas junto com um bilhete. Apenas quatro palavras e um piscar de olhos: Release – Recover – Recharge - Remember.

Apesar do adiantado da hora e da quantidade de bebida, ainda assim, reconheci que aquilo fazia sentido com nossas conversas e poderia me ajudar. O problema é que não vinha com manual de instruções, mapa, caminho, direção. Apenas quatro palavras em inglês.

A viagem era só minha e a vida não funciona como um manual.  Deveria descobrir o caminho e dar o primeiro passo. Já havia começado e nem havia percebido. Minha primeira atitude pareceu um tanto radical: abandonei relógio, telefone celular e computador. Quase ao mesmo tempo, procurei deixar as preocupações rotineiras do outro lado do Atlântico.

Mas a liberação que precisava ser feita era outra. Papel existencial, títulos, currículo, posses (coisas e status atrás das quais algumas pessoas se escondem) também faziam parte do pacote a ser descartado. Na teoria pode parecer fácil, mas na prática é como pedir para uma tartaruga deixar seu casco e andar desnuda, magrela, frágil, se expondo, sem receio de passar por ridícula.

A jornada precisava ser realizada sem adornos ou máscaras. Qualquer portal ou fachada pesariam demais na bagagem. Autenticidade era o preço da passagem.

Precisei de um tempo e algumas recaídas para me acostumar. Sentava no banco da praça e ficava observando as pessoas que por ali circulavam. O pescador voltando para casa com aspecto de esfomeado, a florista de preto arrumando os vasos, a menina de óculos sendo puxada pela coleira do cão, os estudantes fumando maconha sentados atrás da árvore. Imaginava como seriam suas vidas e o quanto representavam ou estavam sendo autênticos.

Volta e meia durante uma conversa, ainda exibia alguma façanha, ressuscitava outra sedução. O período de recuperação terminou quando senti que abandonando estas posturas não estava perdendo nada.

Pelo contrário, ficava mais leve para me recarregar, e isto envolvia deixar de observar as pessoas e passar a senti-las, colocando-me em seus lugares. Tomei coragem e sentei ao lado da florista, uma linda mulher, cabelos pretos e longos com aproximadamente 45 anos de idade. Puxei assunto, ela respondeu sorridente e logo estávamos numa animada conversa. Ela falava português e espanhol. Fácil de entender.

Ensinou-me que existem folhas que funcionam como lixas para unhas e folhas que funcionam como algodão, tamanha a suavidade. Contou-me que assim como rosas podem embelezar casamentos e cemitérios, flores também brotam e murcham proporcionalmente à energia que recebem, no entanto, flores precisam  desabrochar para continuar a viver, pois reter é quase como perecer.

Convidou-me para visitar sua casa. Um verdadeiro jardim multicolorido. Paredes e móveis completamente integrados com plantas. Serviu-me um chá com pétalas e ervas que colhemos juntos,  cuidadosamente para não machucar as flores. Na medida em que ia saboreando, o sabor de campo se misturava ao cheiro das flores. Tudo fazia sentido. Tudo parecia estar no lugar certo. Aquela tranqüilidade que eu não sabia se iria encontrar, ali escancarava sua imponência.

Contou-me que se vestia sempre de preto para realçar o colorido da natureza. Ensinou-me também que a beleza das flores não está na forma e sim na essência. Tapou meus olhos com uma venda preta para que pudesse sentir o perfume exalado e a maciez das pétalas e folhas. Em seguida pediu-me para imaginar a forma e cor daquela experiência.

O perfume iria marcar meu olfato e minha mente. Sempre que o sentisse, independente de estar na presença da planta, a imagem da flor criada naquele instante, brotaria em minha memória.

A noite estava começando e flores dormem cedo. Combinamos de nos encontrar na praça na manhã seguinte. Voltei caminhando para o hotel. Enquanto pensava nas flores e ainda sentia os aromas, cruzei com uma tartaruga na estrada.

Ao sentir minha presença, o animalzinho preferiu se encolher e refugiar-se dentro do pesado casco que se obriga a carregar nas costas e faz com que suas caminhadas sejam lentas, quase arrastadas.  A tartaruga vive em média 200 anos escondida. Vive ou apenas existe?

Viver é a coisa mais rara do mundo, mas para desfrutar desta felicidade, melhor não alimentar demais a tartaruga que nos habita.

*Ildo Meyer
Médico, Escritor, Filósofo Clínico 
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Agendamentos indevidos*


Hoje os especialistas dizem que vivemos a era da informação, cuja característica é o amplo acesso a informações difundidas em vários meios de divulgação. Mas, a quantidade e o fácil acesso não necessariamente significam uma vantagem. Quando não há um critério mínimo, os riscos são massivos. 

Um exemplo do que chamo de risco, são as influências que determinadas informações exercem em nossa vida.

Em filosofia clínica, denominamos de agendamentos toda e qualquer influência exercidas sobre nós. Há os agendamentos mínimos, quando não há tanto impacto em nossa Estrutura de Pensamento (EP), e os agendamentos máximos, quando trazem significativas influências em nossa EP, independentemente de serem qualitativamente boas ou ruins.

Para exemplificar nossa consideração, tomemos três palavras que são cotidianamente expressadas, muitas vezes sem qualquer critério prévio: recalque, inconsciente e projeção.

A palavra recalque hoje é muito expressada no meio midiático, popularizado por algumas músicas cantadas no funk carioca. Já inconsciente é a desculpa para muitas coisas que fazemos sem “pensar muito”, como impulso que nos precede. Por fim, a projeção é bem usada em relacionamentos entre casais ou entre pais e filhos; no primeiro caso, quando alguém diz, por exemplo, que o marido projeta na mulher sua mãe e, no segundo, quando os pais projetam seus sonhos irrealizados nos filhos.

Note que mesmo que a pessoa não seja sequer alfabetizada, carrega esses termos e os utiliza com grande desenvoltura. Não é necessário saber sobre psicanálise para que alguns termos que carregam sua (da psicanálise) interpretação, sejam usados no cotidiano. Freud talvez se reviraria no seu túmulo, se pudesse ver o que fizeram com seus tão caros termos trabalhosamente lapidados para informar questões referentes aos seus estudos da psiqué humana. Essas palavras já existiam antes de Freud as utilizar, mas creio que há uma interpretação antes e uma depois da divulgação das teorias psicanalíticas, mesmo que destorcidas.

Dado esse quadro geral, qual é o ponto no qual queremos chegar? O indiscriminado uso e divulgação destes termos, muitas vezes, com ou sem seu posterior conhecimento da fonte de seu significado, tende a trazer para as pessoas, interpretações de si muitas vezes completamente deturpadas e prejudiciais. São os agendamentos que estes termos e seus respectivos significados podem causar na malha intelectiva de uma pessoa, que podem levar alguém a internalizar elementos que nunca fizeram parte de sua existência.

Quantas pessoas, ao ouvir um “especialista” na mídia explicando uma síndrome ou relatando um problema e sua respectiva interpretação, já não se identificaram com o diagnóstico dado? Quantos ainda andam por aí pedindo para seu parceiro ou pais para que não projetem suas frustrações em si? Quantas conversas de “ponto de ônibus” já não ouvimos explicando que inconscientemente alguém tomou alguma decisão ou agiu? E o tão popularizado recalque que define tudo o que parece ser ação de inveja alheia?

Mas, essa característica não fica só nos meios mais populares da sociedade. Quantas aulas de psicologia, filosofia e pedagogia – para nos ater às que tratam da subjetividade humana – já fizeram alunos saírem da sala se autoproclamando hiperativo (psicologia), idealista ou realista (filosofia), ou com dificuldades de aprendizado devido à “caneta vermelha” de seu “educador” (pedagogia)?

Os exemplos acima são somente ilustrativos. Os casos se multiplicam e são tantos quantos são o número de pessoas existentes. A finalidade proposta com esse texto é o de mostrar o quanto as pessoas podem ser afetadas, agendadas, por termos tão comuns e aparentemente banais que se apresentam no dia a dia. E não são somente os termos, mas a diversidades de elementos que nos agendam cotidianamente são incontáveis.

Mas, se há coisas que nos agendam de modo indesejado, é possível nos agendarmos com coisas que sabemos que nos faz bem, como filmes, livros, amigos, família, passeios, etc. Então, apesar dos agendamentos que nos aparecem indesejavelmente, talvez valha a pena buscarmos continuamente nos “alimentar” do que nos traz um conforto existencial para que nossa EP faça reverberar elementos relevantes para nossa vida. Então, quais são seus “alimentos existenciais”? Quais agendamentos você escolheu receber hoje? Este texto agendou você de forma positiva?

* Miguel Angelo Caruzo
Filósofo, Mestre em Filosofia da Religião, Doutorando em Filosofia, Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG