sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Tabacaria*











Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

*Fernando Pessoas

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Cotidiano, poesia, filosofia*












Fico a pensar... E a pesar...
Tempo sem tempo
Excessos e tantas faltas
Modelos de saúde perfeita e tanta doença
Marginalidade por todo lado
Corrupção aplaudida em votos
Mundos paralelos no entorno
Alienação midiática...
Carnaval e futebol para mascarar
O desamor fantasiado em amor
- Quem é o Homem?
- Quem somos nós?

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, escritora, filósofa clinica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Literal_idades*










Uma expressão levada ‘ao pé da letra’ gostaria de significar-se sem intermediários. Descrever a alma do autor através das suas palavras, gestos, visões, inspirações. Traduzir estados de espírito tal e qual. Propor sua própria objetividade – nota promissória – da ciência tradicional.

O dado literal reivindica a busca por uma intencionalidade sem rasuras. O sentido da autoria num instante, uma fotografia da estrutura de pensamento.

Para acessar a região onde a representação tem origem se exige um conhecimento da subjetividade. Um fenômeno assim, em seus aspectos preliminares, requer uma aproximação de maior qualidade. Uma descrição para registrar a essência da linguagem singular.

Ao sujeito, em busca de compartilhar-se, nem sempre é possível elucidar suas vontades. Eis um risco da interpretação especialista, a qual, distanciada da fonte discursiva, costuma cegar diante dos rastros da intenção primeira.
 
A partir dessa correspondência entre pensar e dizer, um querer entrelinhas, também atua para expandir a revelação singular. No entanto, sem o recurso dos padrões, refugiados na categoria tempo, o que se tem são esboços fugazes, muitas vezes interrompidos no devir da historicidade.

Um dos aspectos mais confiáveis, nesse exame das narrativas, é a integridade retórica que brota da inscrição literal. Ainda assim, cogita-se sobre a infinidade de eventos no desvão dos testemunhos sem nome. Episódios inéditos podem desconhecer a luz do dia por não ter meios para se mostrar.

Para manter uma referência unívoca, de acordo com o sujeito da palavra, não se deve analisar, interpretar, criticar, caso contrário, já teremos uma desleitura em direção à outros caminhos. Ao não sugerir essas percepções derivativas, reivindica-se a íntima coerência entre as razões e o léxico de quem diz o que diz, antes de instigar outras leituras.

Por outro lado, a semiose que ultrapassa a referência inicial, pode inaugurar novas possibilidades de interseção. A partir dos sujeitos envolvidos na relação, é possível uma trama complexa de interpretações. Nesse mundo de ideias em constante ponto de partida, insinuam-se múltiplas verdades, nem sempre possível elucidar adequadamente.  

As conjecturas a partir da objetividade comunicativa efetua uma dança de originalidades, quase sempre minúsculos focos de resistência para descobrir mundos inexplorados.

Nesse imenso território, impregnado de pontos de fuga, as vivências subjetivas pluralizam-se na palavra – inicialmente – restrita, para, logo após, destituída do sentido originário, perseguir-se noutras fontes, conceder outros sentidos, instigar novas verdades.

*Hélio Strassburger

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A um ausente*


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

*Carlos Drummond de Andrade 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O fim das certezas*


Heráclito com o devir, Platão com sua dialética, Aristóteles com potência e ato, Kant com os limites da razão, Kierkegaard com a angústia, Husserl com as críticas às certezas das ciências contemporâneas, e tantos outros pensadores, dos quais esses são apenas de caráter ilustrativo, mostram o limite e as incertezas diante da busca de dar um caráter absoluto ao saber humano. 

Filosofia é busca pelo saber. O que há de mais comum no universo filosófico é o reconhecimento de que não se está dando a certeza absoluta para suas buscas. Não há frustração por isso. Aqui a humanidade mostra uma de suas realidades mais originais, o reconhecimento da limitação.

Albert Camus postula que diante do mundo, o homem vive o sentimento de absurdo quando reconhece que sua razão não pode abarcá-lo. Heidegger apresenta a angústia diante da limitação humana com a morte, como passo necessário para existir autenticamente. Sartre apresenta a falta de determinação ou destino e a angústia diante da liberdade humana para construir-se.

Nos cadernos de formação em Filosofia Clínica uma das palavras mais comuns é “Não sei!”. E a questão que fica é “Como em um curso o próprio estruturador da área estudada afirma não saber?”, e a resposta é que a Filosofia Clínica é, antes de tudo, Filosofia. O método é apresentado. O aluno aprende o que são basicamente as categorias, a estrutura de pensamento e os submodos. Mas, como se darão as nuanças do trabalho clínico na prática e como agir diante disso é o que não se sabe.

Quando na academia o conteúdo é passado, é como se a certeza, a sabedoria, ali estivesse presente. Não há espaço para dúvida. Aliás, a certeza tende a se dar pela quantidade de informação decorada para a avaliação. Como Lúcio denuncia nos cadernos, os originais geralmente não são lidos durante a graduação. O conteúdo é assimilado a partir de comentadores, de manuais de história ou introdução a filosofia. O aluno universitário tende a terminar o curso com uma formação baseada em manuais de filósofos. E, às vezes, acredita que sabe muito sobre o filosofar.

Dizem algumas sabedorias orientais que o melhor da busca não é a chegada, mas o caminho que se faz. O processo do pensamento é o que faz da filosofia um exercício de edificação humana; um caminhar para o reconhecimento do que Nietzsche chama de “humano, demasiadamente humano”. A Filosofia Clínica vivencia esse processo diante da interseção com o partilhante. Depois de várias consultas a única certeza quanto aos resultados é, previamente: “Não sei!”.

O fim das certezas é o início da investigação filosófica. A Filosofia Clínica, enquanto filosofia, é o abandono das certezas e o início da busca pela melhor qualidade possível de interseção para uma maior aproximação das questões do partilhante.

Somente aproximando ao máximo da Estrutura de Pensamento do partilhante, é que se torna possível uma ação do filósofo para buscar uma melhor resolução dos conflitos existenciais apresentados. A limitação em reconhecer todos dos detalhes do partilhante, é completamente normal. Não se aspira a ter uma formula definitiva ou inteiramente eficaz na resolução dos problemas apresentados. Há apenas a finalidade de auxiliar o partilhante, mediante as ferramentas oriundas de 2500 anos de tradição filosófica, da melhor forma possível.

E os resultados obtidos são únicos. Tentar descrevê-los antecipadamente é uma ilusão. O que se sabe previamente a respeito do fim de um acompanhamento clínico, um filósofo clínico poderá claramente informar: Não sei!

*Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O Mapa*



Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

*Mário Quintana

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Motivos para se desapaixonar*












Sempre fui apaixonado por futebol. Acho até que era um tanto fanático pelo meu clube, o Internacional de Porto Alegre.  Ia ao estádio assistir todos os jogos, com chuva, frio ou vento forte. Ganhando ou perdendo estava lá para ver meu time jogar e torcer por uma vitória.

Aos poucos fui perdendo o interesse a ponto de hoje não assistir nem aos jogos transmitidos pela televisão. Mas a apatia não foi sem motivo. O futebol se profissionalizou demais, virou muito mais técnica que talento. O amor pela camiseta e a garra que marcaram minha infância já não são os mesmos. E quando as coisas deixam de ser feitas por amor e paixão e o dinheiro passa a ser o combustível, a graça e a beleza murcham como flores sem água no deserto.

Meu fascínio pelo futebol acabou, mas lá no fundo ainda ficou a lembrança dos bons tempos e o desejo de resgatar a paixão de ir à campo vestindo a camiseta do clube, pintar o rosto com a cor vermelho-paixão e voltar orgulhoso ao final da partida com o show de bola que “meu” time apresentava. Tenho muita vontade de conversar com jogadores e técnicos sobre futebol arte, competição e filosofia no esporte. Resolvi postar algumas idéias na internet. Quem sabe o poder viral as dissemine e de uma maneira indireta possa atingir meu objetivo?

Embora pareça que jogadores, clubes, dirigentes e torcidas estejam juntos e unidos no mesmo propósito e falem a mesma língua, cada grupo tem posições diferentes quanto ao que acontece dentro e fora de campo. Como torcedor posso afirmar que brasileiro vai a campo para assistir futebol bonito. Quer ver o drible que deixa o adversário caído, a tabelinha que envolve, a jogada de calcanhar, o chute indefensável, a mão milagrosa do goleiro. Resumindo, torcedor gosta de ver futebol espetáculo.

Orquestras, bandas de rock, peças de teatro, circos são outras formas de espetáculos grupais. Mesmo atuando em equipe, cada vez que um artista tem a chance de fazer uma performance isolada, tocando seu instrumento, cantando ou equilibrando-se no alto de um trapézio, aproveita a oportunidade de se destacar e procura mostrar toda sua competência e experiência naqueles poucos segundos de fama. Geralmente dão o melhor de si para encantar a platéia. Aliás, o objetivo de um artista sempre é deixar a platéia extasiada, aplaudindo de pé, pedindo bis.  Não é isto que está acontecendo no futebol.

Cada vez que um jogador recebe a bola e tem chance de mostrar sua excelência, imediatamente a repassa para o companheiro mais próximo, como se tivesse medo de fazer alguma bobagem. Esta é a nítida impressão que tenho dos jogadores: medo de ousarem jogar futebol. Não querem se comprometer. Parece que a bola vai lhes machucar. Precisam se poupar. A oportunidade não bate à porta, ela se apresenta quando você derruba a porta. Quarenta mil pessoas pagam caro e lotam um estádio para assistir onze jogadores com medo de outros onze. Se fossem gladiadores, já teriam sido devorados pelos leões.

Até mesmo nas entrevistas, utilizam-se de frases genéricas, totalmente descompromissadas e sem qualquer responsabilidade com a torcida que eventualmente frustram. Sem contar quando o jogador já está vendido para outro clube e a torcida é a última a saber. Que saudade dos jogadores que choravam quando o time perdia, permaneciam em campo mesmo sentindo dor, beijavam a camisa e declaravam seu amor ao clube. Era com esta paixão que nos identificávamos.

Não sei se é orientação dos técnicos ou da direção. Não sei se existe alguma ameaça velada de que jogadores que se destaquem e façam boas jogadas serão mais visados, receberão mais faltas, se machucarão com mais freqüência, e por conta disto, fogem da bola. O fato é que parece que a bola morde os jogadores. Quando acontece um gol, este é muito mais por um acidente, uma falha do adversário, uma bola parada ou um erro de arbitragem. Nos dias de hoje, gol construído com categoria e habilidade chega a ser raridade, vira noticia e é reprisado durante toda a semana nos programas esportivos. Eu tive o privilégio de assistir isso todos os domingos. 

Ganhávamos jogando bonito. Às vezes perdíamos ou empatávamos, mas sempre havia show de bola. Quando jogávamos futebol no campinho de areia, cada amigo escolhia um nome: Pelé, Tostão, Falcão, Rivelino. Espelhávamos nestes ídolos, tentávamos repetir suas jogadas. A tensão e a ansiedade não nos deixavam dormir direito antes dos jogos. Chorávamos quando o treinador nos colocava no banco de reservas. Trocávamos as festas e até mesmo as brincadeiras da juventude por jogos nas frias manhãs de domingo. Vivíamos e respirávamos futebol.

Em algum momento, a mentalidade dos clubes mudou e o importante passou a ser a vitória, mesmo jogando mal, com gol roubado ou nos descontos. Por um tempo isto funcionou, mas terminou contaminando o esporte, jogadores e torcida. A conseqüência é que hoje o futebol é feio, apático, sonolento, quase sem emoção, e ainda por cima, perdedor. A vitória nos conforta, é paliativa, mas não nos anima mais.

Temos consciência de que o futebol perdeu sua graça e ainda assim, torcedores que somos, continuamos resistindo e apostando nesta paixão antiga. Acreditamos que  trocando o  treinador, fazendo duas ou três novas contratações, inaugurando um fardamento novo, daremos jeito na casa.

Filosoficamente falando, paixão é assim mesmo, não tem muito a ver com razão, mas tem tudo a ver com futebol e com a vida.  Mesmo escancarando todos os motivos para não se gostar mais de futebol, a paixão é um sentimento tão forte que mantêm o torcedor sofrendo obsessivamente, no desejo de que o encantamento e  deslumbramento que lhe arrebataram um dia, retornem e permaneçam eternamente lhe alimentando a alma.

Apaixonar-se é uma sensação maravilhosa, mas a gente não se apaixona porque quer, a paixão é que nos abraça e envolve. Nem sempre existem motivos e quase nunca temos escolha. Simplesmente acontece. Permanecer neste estado pode ser a benção ou a desgraça de cada um.

O processo de se desapaixonar é o mesmo, só que no sentido inverso, e ao contrário do que possa parecer, não é tão doloroso assim. Mas é chato, não tem graça. Como bem disse Rubens Fonseca, “o que me mantêm vivo é o risco iminente da paixão e seus coadjuvantes: amor, ódio, prazer, misericórdia”.

Entre tapas e beijos, no final das contas, estar apaixonado é muito bom. Ruim mesmo é se apaixonar pela pessoa errada, pela coisa errada ou até pelo time errado. Mas isto não é motivo para desanimar,  para tudo nesta vida, sempre há uma saída.

*Ildo Meyer
Médico, escritor, filósofo clínico
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A solidão*


Um jornalista filantropo disse-me que a solidão é má para o homem, e, em apoio a sua tese, cita, como todos os incrédulos, as palavras dos Padres da Igreja.

Eu sei que o Demônio frequenta prazerosamente os lugares áridos e que o Espírito do assassínio e da lubricidade inflama-se maravilhosamente na solidão. Mas é possível que esta solidão não seja perigosa senão para almas ociosas e divagantes que povoam suas paixões e suas quimeras.

É certo que um tagarela, cujo supremo prazer consiste em falar do alto de um púlpito ou de uma tribuna, se arriscaria a tornar-se um louco furioso na ilha de Robinson. Eu não exijo de meu jornalista as corajosas virtudes de Crusoé, mas peço que ele não acuse os amantes da solidão e do mistério.

Há, em nossas raças faladoras, indivíduos que aceitariam com menos repugnância o suplício supremo se lhes fosse permitido fazer do alto do cadafalso uma copiosa arenga, sem medo de que os tambores de Santerre lhes cortassem intempestivamente a palavra.

Não me apiedo deles, porque adivinho que suas efusões oratórias procuram volúpias iguais àquelas que outros tiram do silêncio e do recolhimento; mas eu os desprezo.

Desejo, sobretudo, que meu maldito jornalista deixe que eu me divirta a meu modo. “O senhor nunca aprova”, disse me ele, com um tom anasalado muito apostólico, “a necessidade de compartilhar suas alegrias?” Vejam vocês o sutil invejoso! Ele sabe que desdenho as alegrias dele e vem se insinuando nas minhas, o horroroso estraga-festas.

“Essa grande infelicidade de não poder estar só!...”, disse em algum lugar La Bruyère, como para envergonhar a todos os que correm para se perderem na multidão, temendo, sem dúvida, não poder suportar-se a si mesmos.

“Quase todos os nossos males nos vêm de não termos sabido ficar em nossos quartos”, disse um outro sábio, Pascal, creio, lembrando assim na sua cela de recolhimento todos estes enlouquecidos que procuram a felicidade no movimento e numa prostituição que eu poderia chamar de fraternária, se quisesse falar na bela língua do meu século.

*Charles Baudelaire

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Amores Modernos*


Indivíduos realizados, alegres e com vidas próprias, compõe casais mais interessantes, interagentes, interativos.

É bom pensar que uma característica marcante do amor é a clara percepção do outro, e o cuidado em não frustrá-lo nem coagi-lo gratuitamente.

Indivíduos realizados, alegres e com vidas próprias, compõe casais mais interessantes, interagentes, interativos.

Tentar impedir que o outro se cuide fisicamente, que estude, que dance, que jogue bola, para não correr o risco dele se interessar por alguém em uma dessas oportunidades, empobrece a relação, limitando a mente e o corpo. Tolhe a libido, inibe o desejo sincero e a vontade de impressionar o parceiro se fazendo atraente.
A insegurança e o não permitir que o outro evolua, respire e viva, faz com que os casais fiquem atrofiados, sem papo, sem entrosamento e sem graça.

… mas se o outro der claras mostras de querer estar sozinho, lá se vão todas as declarações de compreensão, maturidade, responsabilidade, diz Gaiarsa em A família de que se fala e a família de que se sofre.

Um casal deve poder manifestar autenticidade, personalidade e encontrar no parceiro um grande amigo capaz até de não julgar comportamentos desmedidos que expressam raiva, ou ciúmes ou fraqueza perante a vida. Confiar na integridade e educação da pessoa que escolheu para amar pode facilitar bem o convívio e evitar embates, muitas vezes desnecessários e capazes de trincar um amor para sempre abrindo portas para uma relação duradoura, porém hipócrita.

Existe hoje, uma urgência em ser feliz. As pessoas estão abrindo mão de seus sonhos de amor eterno, brincando de casinha e de formar família. Subjuga-se o companheiro ou a família sentindo-se merecedor de uma vida nova ou de aventuras que renovem suas energias e que promovam alegrias fora do contexto conjugal sem nenhuma cerimônia. Não sabemos esperar o tempo das fases, do desamor momentâneo do crescimento dos filhos, do amadurecimento do ser amado. Não amamos.

Contudo, apesar de os tempos parecerem ser “líquidos” porque tudo está mudando muito rapidamente, ainda assim, acreditar que o amor pode durar, pode ser “sólido”, evitando a paranoia com a segurança e a instabilidade dos relacionamentos amorosos, pode ser gratificante. Lutar por uma causa nobre e vencer, sempre é gratificante.

Existe um desespero no homem pós-moderno, e ele corre em busca do novo, do mais emocionante, da resposta imediata aos seus anseios por amor, do amor que ele tanto quer ter e paradoxalmente deve negar. Ele quer amar e se libertar.

Muitos casais modernos ainda vivem fundamentados em conceitos morais, em valores sociais e religiosos que impõe a permanência na união mesmo que vivam em celibato involuntário por anos, por uma vida a fio, desde que aparentemente a família seja feliz. E não tem idade para que este fato seja observado. Casais jovens já vivem dessa maneira.

A obrigação pelas leis judaico-cristãs e pela imposição social e econômica criam casamentos como eventos sociais que hoje estão muito na moda. Os casamentos interesseiros, também. Famílias abastadas ainda se unem para solidificar patrimônio e status social. Mas, o casal que se ama, que é feliz de verdade, esse sim, gera harmonia familiar e tem força para permanecer juntos. 

Uma união estável deve ser de verdade, por escolha e determinação do casal que vai compartilhar dias de suas preciosas vidas. Deve ter prazer e beleza.

Mas, e quando desistem? É muito improvável que alguém deixe alguém porque ele ficou gordo, ou se acidentou ou adoeceu ou tem alguma limitação física. Ou ficou pobre, ou velho ou impotente sexualmente. O que pode fazer com que o saudável não consiga permanecer na relação é o fato de o doente, não administrar bem a sua condição, viver em drama e se tornar um grande chato, inconveniente. Neste caso, quem lutava de alguma forma para se manter reto, diante de tanta desilusão, pode sucumbir a instancias mais leves alegres, saudáveis e belas. Pode até preferir a solidão.

Então, qual seria a ideia para uma possível vida a dois, já que entendemos que precisamos disso para ser felizes.

Talvez, esperar o tempo dos ajustes, do passar a gostar, do passar a amar, do querer agradar. Saber onde são mais compatíveis, traçar afinidades.

Não se obrigar, amar sem esperar recompensas, não cobrar, não desejar promover mudanças no outro, não criticar destrutivamente. Aceitar o parceiro como ele é, sem expectativas irreais.

Não abnegar do sexo quando gozar de boa saúde, condenando o parceiro à solidão conjugal. Ser sincero e manifestar a insatisfação evitando manter-se em um silencio criminoso capaz de dilacerar a relação.

Tornar-se um indivíduo inteiro, feliz e realizado promovendo a autoestima e a segurança, fatores que somam sobremaneira para uma relação saudável.

Não trair. Trabalhar em favor da união. Não pensar e não falar mal do “amado” aos quatro ventos. Você ama de verdade?

Libertar, incentivar, confiar.

Estas atitudes deveriam ser pensadas no tempo da conquista e podem ser adotadas no tempo da reconquista, mesmo depois de se perderem e de fazerem um monte de bobagens até se separarem, ainda que se amando. Acontece com frequência.

“Todos os amantes desejam suavizar, extirpar e expugnar a exasperadora e irritante alteridade que os separa daqueles a que amam. Separar-se do ser amado é o maior medo do amante, e muitos fariam qualquer coisa para se livrarem de uma vez por todas do espectro da despedida. Que melhor maneira de atingir este objetivo do que transformar o amado numa parte inseparável do amante? Aonde eu for você também vai; o que eu faço você também faz; o que eu aceito você também aceita; o que me ofende também ofende você. Se você não é nem pode ser meu gêmeo siamês, seja o meu clone!”

Zygmunt Bauman

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, filósofa clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O menino que escrevia versos*


"De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)"



— Ele escreve versos!

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.

— Há antecedentes na família?

— Desculpe doutor?

O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:

— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.

Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas  confissões de amor. 

Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.

— São meus versos, sim.

O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?

Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.

— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.

Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe  espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.

Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:

— Dói-te alguma coisa?

—Dói-me a vida, doutor.

O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:

— E o que fazes quando te assaltam essas dores?

— O que melhor sei fazer, excelência.

— E o que é?

— É sonhar.

Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.

O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:

— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.

A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.

Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.

— Não continuas a escrever?

— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.

O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.

— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.

— Não importa — respondeu o doutor.

Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:

— Não pare, meu filho. Continue lendo...

*Mia Couto 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

E se...*












            E se um dia você acordasse e tudo a sua volta tivesse mudado? Se todas as coisas tivessem mudado de lugar? Se as árvores já não crescessem do mesmo jeito? Se as pessoas comessem coisas diferentes e de modo totalmente distinto do qual você havia se habituado a ver? Se todo constructo educacional prévio, tivesse se tornado obsoleto e outro modo houvesse se consolidado sem que você tivesse se dado conta antes? Se o mundo que você conhecia antes, já não fosse, em nada, parecido com o que você acaba de se deparar ao acordar?

            E se você resolvesse levantar de sua cama, no desconserto das novas perspectivas, e resolvesse se aventurar nessas novidades? Se resolvesse comparar menos as coisas que vê agora com as que antes havia se habituado? Se, então, se permitisse tocar as coisas de forma única, nova? Se, semelhante a uma criança, se permitisse o maravilhar-se ante tudo o que nunca viu? Se deixasse com que as coisas que causassem alegria, levassem você ao sorriso e as coisas que magoassem, ao choro? Como acha que seria?

            E se ao longo do dia, você experimentasse novas linguagens cotidianas utilizadas entre as pessoas? Se, experienciando essas novas linguagens, você começasse a fazer novas amizades? Se essas amizades trouxessem novos hábitos? Mas, se na posse desses novos hábitos, costumes, amigos e vivências, você fosse advertido de que aquele é apenas um momento de novas experiências e que, após uma noite de sonho, você acordaria exatamente para a vivência anterior, à qual você ao longo dos anos havia se habituado? Mesmo tendo passado um dia inteiro vivenciando o novo, o inédito em sua vida, você voltaria para sua rotina sendo a mesma pessoa?

            E se eu dissesse a você que experiências semelhantes são vivenciadas diariamente? Se dissesse que um filósofo clínico se vale de um princípio muito próximo para trabalhar com seus partilhantes na prática terapêutica? Se dissesse que a experiência de uma hora semanal não exime o filósofo de vivenciar, não só um dia, mas toda a vida do partilhante? E se dissesse que ele as comparações com as perspectivas próprias fossem suspensas não só por um dia, mas ao longo de toda historicidade e visão de mundo do partilhante? Se dissesse, também, que um bom exercício de interseção entre filósofo e partilhante leva aquele a não mais voltar o mesmo? Se dissesse que o mundo dele fosse expandido devido às novas vivências, experiências e perspectivas de mundo?

            E se toda essa experiência experimentada pelo filósofo fosse trazida para seu cotidiano? Se ele resolvesse acordar e ver o mundo com menos pré-juízos e com mais ineditismo? Se ele não mais visse as árvores somente pelo modo ao qual você havia se habituado, mas se permitisse outras formas de vê-las, tocá-las, pensá-las? E se isso fosse estendido a toda experiência do seu dia? E se você sendo, se preparando ou vislumbrando a possibilidade de ser um filósofo(a) clínico(a), pensando nessa experimentação mental, resolvesse colocar um pouco dessa vivência em suas experiências cotidianas? E se...

**Miguel Angelo Caruzo
Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O cântico da terra*


Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

*Cora Coralina

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Modelo Mental*


Kant, filósofo alemão, diz que o homem tem um esquema mental que o permite reconhecer e agrupar as coisas de acordo com suas categorias. Para ele as categorias já estão em nós, ou seja, é uma característica inata do ser humano, aspecto que a Filosofia Clínica discorda. Outro filósofo, chamado de Arthur Schopenhauer, diz que o mundo é de acordo com minha representação, ou seja, existe um mundo diferente para cada pessoa. Unindo as ideias destes dois grandes pensadores pode-se dizer então que para cada um o mundo é vivido de maneira diferente e ainda que cada um tem um modelo mental através do qual percebe e classifica o mundo que está a sua volta. Desse modo, alguns modelos mentais permitem que algumas pessoas andem pela cidade e percebam certas coisas, como carros, pessoas, estradas, prédios, mas não lhe permitem ver as flores, os pássaros, os cachorros, a grama verde.

Agora, imagine que você gerencie uma organização. Nela, de acordo com o seu modelo mental que orienta a sua representação de mundo, existem muitos problemas. Ao longo de sua vida como gestor procura acertar as questões que percebe para tornar seu negócio cada vez mais rentável, mais competitivo, mais viável. Um pai de família faz o mesmo em sua casa, quando percebe que tem problemas em sua família procura corrigir, conversar, ensinar. Assim também acontece, provavelmente, com um professor, pois este identifica o que precisa ser ensinado e começa seu trabalho. Enfim, de acordo com o modelo mental de cada um e a representação de mundo gerada pelas vivências só é possível resolver algumas coisas, muitas outras ficam de fora.

Um gestor pode, ao longo de sua caminhada, perceber que resolveu todos os problemas que parecia ter e ainda não conseguir chegar ao seu objetivo. Ao perceber isto contrata um consultor, uma pessoa que vai auxiliá-lo na identificação das questões que limitam seu desenvolvimento. O consultor, pelo seu modelo mental percebe muitas coisas que são tão ou mais importantes do que as questões trabalhadas pelo gestor. O consultor faz o levantamento, aponta as questões e sugere soluções, que em sua visão terão o melhor efeito para as questões propostas. Cada um a partir de seu ponto de vista percebe algumas coisas e não percebe tantas outras. Um gestor atento se apropria do conhecimento trazido pelo consultor e agora também ele tem em seu modelo mental abertura para as questões observadas pelo consultor.

Em uma família, assim como na gestão, cada qual tem seu modelo mental diferente. Há casos encontrados no consultório onde marido e mulher já não se entendem, estão com dificuldades em afinar suas conversas. Ao observar cada um em separado, existe a vontade de melhorar o relacionamento, mas cada qual a seu modo está tentando do jeito errado. O modelo mental do marido aponta que o problema no casamento só pode ser de ordem financeira, enquanto pelo modelo dela o problema no casamento só pode ser de ordem extraconjugal. Assim, ele procura cada vez ganhar mais para tentar solucionar o problema do casamento com dinheiro e ela tenta resolver o problema do casamento marcando em cima. Como terapeuta é preciso apontar ao casal que existem diversos problemas que podem afetar o relacionamento e assim abrir aos olhos para uma questão simples: talvez o problema do casamento é o fato de que não conversavam mais antes de tomar uma decisão.

Kant estava certo sobre os modelos mentais, sua incorreção estava em entender que todos tínhamos o mesmo modelo. Em Filosofia Clínica percebemos que para cada ser humano existe um modelo mental único, e assim precisa ser tratado em cada contexto. Um modelo mental está em constante construção, algumas vezes o que a você é impensável alguém já pensou. Se em seu modelo mental existem problemas, podem haver modelos mentais nos quais existam soluções para os seus problemas.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Tréguas*








Neste momento não sou mais o guerreiro.
Escudo no chão, espada ao alto,
o clamor é pela glória
do que em si é superior a nós, egos tortos,
e inominável.
Por isso mesmo, sem definições.
O ser é.
O que não é ser...
Um Deus antropomórfico a agradar vaidades
e dizem d’Ele fiel, generoso e bom cumpridor de promessas.
Rompida a farsa
sua comunicação virá por assombros
e flashes raros de intuição.
Apaziguando corpo e mente
o silêncio domina
e nele a Sua essência se faz.

*Vânia Dantas
Filósofa Clinica
Brasília/DF