segunda-feira, 31 de março de 2014

A clínica do filósofo*



"Qual é esse projeto secreto, inacessivel e inexistente cuja pressão constante se exerce, de fato, sobre os homens, e particularmente sobre os homens problemáticos, os criadores, os intelectuais, que estão, a cada instante, como que disponíveis e perigosamente novos ?"
                     Maurice Blanchot

Venho pensando sobre o lugar onde a clínica acontece. Não o endereço físico do consultório, seja ele na beira da praia, um café, entre quatro paredes. Essas investidas tentam dar visibilidade ao território onde a imaginação se realiza. Talvez uma transcendência ao esboço dos propósitos, seus contornos, as derivações, os significados.
 
Essa inquietude sobre as dialéticas do instante terapêutico, busca pensar sobre a natureza dessas estéticas distanciadas da razão comum. A própria eficácia das sessões é refém desse vazio à espera de preenchimento.

Nesse vislumbre de foco caleidoscópio, o filósofo clínico exercita sua arte cuidadora. Um perambular aprendiz desloca-se pelas vias de um labirinto, inicialmente, desconhecido.

Ao possuir o dom da irrealidade, cabe ao filósofo considerar as coisas desconsideradas. Seu teor não cabe na gaveta das tipologias, no armário das classificações, na contenção das alopatias. Aqui a farmácia de maior valor se encontra no vocabulário da singularidade. Esse ponto de partida reivindica um ajuste dos limites da expressividade (de lado a lado da interseção).

Nessa região integrativa, onde a busca de tornar-se já é ser, um fenômeno de muitos nomes acontece. Ao deslocar-se pelo universo interior, o sujeito aprecia novos horizontes, investiga-se na arte dos convívios, vivencia uma quase levitação. Ao ser preenchimento, a narrativa da historicidade, por si só, pode atualizar vislumbres sobre o velho álbum. Esse deslocamento, partindo de um aqui_agora aprecia expandir-se.
 
 O discurso ao pé da letra possui intencionalidades nem sempre possíveis de entender. A escolha da palavra pode ser suplemento, mediação, esconderijo. A fidelidade ou infidelidade dos relatos possui a mesma origem estrutural. Assim, nessa posição excepcional aos eventos excepcionais, uma lógica da irrealidade pode ser matéria-prima à qualificar transgressões, inventividades, descobrimentos.
     
Uma fonte de inspiração se movimenta de si próprio para os outros de si mesmo. Ao se buscar a extraordinária condição, instaura-se um recanto para experienciar àquilo fora do cotidiano. O chão onde a clínica do filósofo acontece, deixa-se entrever nos rastros de uma fenomenologia das sessões, assim, é sempre outra a geografia que se mostra.
 
A atuação do filósofo clínico regula-se pela natureza dos acordos, a plasticidade do papel existencial, a apropriação da linguagem - porta de entrada - à esse panorama de inéditos. Seu teor transita, apropriando matéria-prima, entre a hora_relógio e o tempo subjetivo. As repercussões e ressonâncias dessas intervenções prosseguem bem depois, como aliadas às propensões existenciais.

Algo de novo acontece quando duas ou mais pessoas se encontram, visitam um lugar comum, que se altera com sua presença. Assim, pode-se antever a quimera do retirante de si para si mesmo. Ao acessar essas lonjuras reivindica-se o teor discursivo da categoria lugar, para, quem sabe, acolher a tentação irresistível de ser aquilo que ainda não é.

*Hélio Strassburger

domingo, 30 de março de 2014

Incompletudes*


A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.

*Manoel de Barros

sábado, 29 de março de 2014

És tu o teu próprio negreiro*


“Comecemos pelo Zé Ninguém que habita em mim: Durante vinte e cinco anos tomei a defesa, em palavras e por escrito, do direito do homem comum à felicidade neste mundo; acusei-te pois da incapacidade de agarrar o que te pertence, de preservar o que conquistaste nas sangrentas barricadas de Paris e Viena, na luta pela Independência americana ou na revolução russa. Paris foi dar a Pétain e Laval, Viena a Hitler, a tua Rússia a Stalin, e a tua América bem poderia conduzir a um regime KKK – Ku-Klux-Klan. Sabes melhor lutar pela tua liberdade que preservá-la para ti e para os outros. Isto eu sempre soube. O que não entendia, porém, era porque de cada vez que tentavas penosamente arrastar-te para fora de um lameiro acabavas por cair noutra ainda pior. Depois, pouco a pouco, às apalpadelas e olhando prudentemente em torno, entendi o que te escraviza: ÉS TU O TEU PRÓPRIO NEGREIRO. A verdade diz que mais ninguém senão tu é culpado da tua escravatura. Mais ninguém, sou eu que te digo!”

Wilhelm Reich
Escuta, Zé Ninguém


Angústia é o que te prende. Transporta-te para o objeto que compras. Familiariza-te com os pets, excluindo os sistemáticos de sangue. És patrulha do trânsito, funcionário público digno de respeito, impiedoso em tua própria lei.

No mesmo tom de Reich na obra citada, escrevi “O Himeneu” no final da década de 80. Como a mulher moderna poderia se resignar ao casamento? Presságios do que viria.

Décadas depois, nova descoberta, novamente me rendi ao peso do destino do qual se foge, quando para ele mais rapidamente se caminha, tal como A hora da estrela, de Clarice. À semelhança de Reich, apliquei o método filosófico clínico em mim. Por 25 anos investiguei a categorização do ser pela ciência. A última visita a hospital psiquiátrico me mostrou que o filme não havia acabado, apenas cortaram as cenas.

Há muito a desvendar abaixo dos incêndios criminosos que expurgaram 100 anos de história no Centro Hospitalar de Franco da Rocha. Arrepio com as lembranças do caminhar pelos antigos jardins do prédio da Administração Central, foi apenas o que sobrou para ter contato. Todo o trabalho de valorização da arte como terapia, iniciado em torno de 1920, pelo mestre Osório César, de notoriedade internacional, conhecido a partir de livros, parecem agora residir apenas nestes. 

O museu com as obras dos “artistas loucos” inaugurado em 1985 está fechado, sob vigilância constante. Mas na distância, é o Complexo do Juquery que aparece; foi em razão dele que a cidade se fez em torno. O holocausto de Barbacena, que arrebatou 60 mil vidas, começou a ser exposto em 1978, com a luta antimanicomial. Entretanto, do hospício de Franco da Rocha pouco se sabe.

Ironia ainda maior do que a trajetória da pesquisa sobre a loucura caiu sobre meu ser, abatido em lutas de tópicos e categorias, procurando no abstrato resolver choques práticos, buscando a anestesia pelo exercício dos sentidos para aliviar a dor. Fazer malabarismos com tempo, espaço, relações. Desfocar assuntos imediatos. Abandonar os textos. Esquecer a mente. A ansiedade continuava; o coração soluçava aos saltos, mas o holter nada acusava. Restou, no último grito, o psicotrópico. Mas como poderia, após essa longa caminhada de luta pelo alternativo?

Tanta leitura, e me transporto para o lado de uma das mais comoventes histórias, dentre os 200 livros pelos quais passei durante o mestrado sobre a loucura: o relato sobre a mente inquieta de Kay Jamison, que sorvi durante meu retiro profissional em Iturama/MG, no início da década de 2000. Médica psiquiatra, Jamison descreveu seus episódios criativos de mania, de que até tinha orgulho, e os profundos ocos da depressão. Difícil ser casa de ferreiro.

Pois bem, um leve antidepressivo e a espiritualidade me ajudaram a atravessar o que em poucos meses se revelou, em cidade estranha, longe da família e amigos, ser uma situação de risco à vida a exigir acompanhamento sistemático. Venci as emoções negativas, enfrentei as circunstâncias e, o mais extraordinário do depois: modelo a vida a cada dia conforme a dor que se apresenta, de momento a momento, sob pura estratégia; ora lhe fazendo concessões, pois é preciso descansar; ora afirmando que a vida também é imprudência, senão, inexiste em toda sua capacidade de virar ato.

Texto entregue, desejo que uma equipe comprometida com o ideal histórico vasculhe os fatos em torno dos manicômios, a partir do final dos anos 70, quando começaram as denúncias contra maus tratos naqueles locais. Algumas instituições humanizaram os tratamentos, em vários municípios existe o hospital-dia e os Centros de Atenção Psicossocial – CAPS com terapeutas diversos, mas há muito a investigar.

Fora os escândalos fúnebres, pois ninguém morre de loucura, é preciso que se saiba que uma pequena porcentagem dos internos permaneceu nos asilos após a transição para o novo modelo psiquiátrico por não saberem mais como sobreviver fora dele, ou por não terem uma família esperando. E há outros cidadãos esquecidos em haldol ou hipnotizados na internet que poderiam estar vivendo conosco.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

sexta-feira, 28 de março de 2014

Canto da estrada aberta*



(...)
Ouça-me! Eu vou ser franco com você:
não ofereço velhos prêmios fáceis,
o que ofereço são novos prêmios difíceis.
Eis como hão de ser os dias que lhe podem suceder:
você não acumulará riquezas, assim chamadas,
distribuirá com mão pródiga
tudo o que venha a adquirir ou ganhar,
nem bem chegando à cidade à qual era destinado
dificilmente se há de estabelecer
e ter alguma satisfação
sem que ouça um apelo irresistível
a de novo partir,
terá de acostumar-se às zombarias
e aos risinhos irônicos
dos que forem ficando para trás,
aos acenos de amor
que receber
você dará em resposta
somente apaixonados beijos de despedida,
e não permitirá
o abraço das pessoas que vierem
com as mãos suplicantes
em sua direção.

*Walt Whitman

quinta-feira, 27 de março de 2014

Anotações e reflexões*


Há momentos em que entro no Facebook e fico pasmo! 

Tenho a impressão de que Globo e Mídia são nomes de sujeitos que se propuseram a alienar um cara chamado Sociedade. Tenho a impressão também de que há um sujeito, muito influente, chamado Indústria Farmacêutica, que está convicto de que deve espalhar falsas notícias para que todo o mundo fique doente para, assim, continuar vendendo seus remédios. 

Fico imaginando um cara chamado Governo que sempre conversa com outro indivíduo denominado Educação, e continuamente fica impondo que ele fique com a qualidade baixa, sem falar de outros possíveis diálogos com aqueles chamados Saúde e Segurança. 

Há também dois sujeitos que têm alguma relação com o Governo; costumam chamá-los de Direita e Esquerda. Parece que vivem em pé de guerra, sobretudo quando o dinheiro do Povo (esse também é famoso) não é bem distribuído entre ambos. Coitado do Povo. Outro cara que parece influente é chamado Maioria, seja ele quem for, está sempre disposto a subjugar outro cara, intitulado Minoria. 

Há também um cruel chamado Igreja; este está disposto a esconder suas falhas e a julgar as do cara chamado Fiéis, sem contar a ambição que tem em ganhar muito dinheiro. Por fim, o mais cruel de todos é conhecido como Relativismo; esse não tem medo de querer aniquilar o fraco e indefeso cujo nome é Verdade Absoluta. Nem vou tratar nenhum desses sujeitos com o gênero feminino para que o Feminismo não me ataque, mesmo correndo o risco do Machismo não aceitar o que fiz. Ambos podem estar me observando.

Como não conheço nenhum desses sujeitos (inclusive alguns não citados) pessoalmente, continuo lidando com pessoas, com indivíduos. Estes com ideias, modos de ver a vida, perspectivas sempre carregadas com uma dose de irrepetibilidade, ainda que o cara chamado Cultura (que só conheço de nome, pois jamais o vi) tenda a querer fazer com que leiamos as pessoas como uma massa homogênea e sem particularidades. 

Neste momento alguém pode esquecer meu nome e chamar-me de Alienado em relação aos problemas da sociedade. Mas, não ligo. Acordei com vontade de escrever o que escrevi, mesmo que daqui a cinco minutos mude de ideia (acho que o Relativismo está me rodeando).

Miguel Angelo Caruzo
Doutorando em Filosofia da Religião UFJF, Filósofo Clínico
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 26 de março de 2014

Eu*









Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem n orte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada...a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

*Florbela Espanca

terça-feira, 25 de março de 2014

Fragmentos de filosofia e poesia*


"Nuvens escondem o sol
como escondemos as feridas
sem nuvens não tem chuva criadeira
sem consciência da causa do sofrimento
não temos vida bem vivida
nuvens promovem as sombras
sombra é tudo de mim mesmo
que me faz desconfortável
tudo que eu não desejo ser e sou
aceitar as nuvens
encarar as nossas sombras
sem fugir das dores
confrontando-as
veremos o sol da consciência
e seremos mais livres no nosso existir!"

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 24 de março de 2014

Adão e Eva contemporâneos*


A história é bíblica, acredite se quiser. Eva não veio ao mundo por acaso. Existia um propósito: partilhar a vida. Já pensou? Adão estava lá sozinho. De repente surge alguém para conversar, brincar, trocar, ajudar... Na verdade, acho que pra ajudar não era o caso; eles tinham tudo que precisavam.

O certo é que a vida no paraíso ficou bem melhor depois que Eva apareceu. Como foi a passagem do status de amigos para casal não sei dizer. Só existiam os dois e convivendo juntos todos os dias, naturalmente, algo haveria de acontecer. Não havia nada, nem ninguém para atrapalhar. Nem mesmo vergonha eles sentiam. Posso imaginar vários modos de aproximação, e todos, sem exceção, nada angelicais. Fizeram sexo, gostaram, repetiram, desfrutaram.

Não estavam mais sozinhos. Perceberam que um tinha ao outro para abraçar quando o mundo parecia grande demais.  Vamos dar um nome para este tipo de relação? Amor.

Viviam no paraíso. Amavam-se. Nada lhes faltava. Eram extremamente felizes. Será mesmo? Havia uma maça no alto de uma árvore que não podiam tocar. Passaram a almejá-la, sonhar com seu gosto, imaginar uma vida melhor com sabor de maça. Deu no que deu, a tentação os venceu. Provaram do fruto proibido em busca de algo melhor. Quando se deram conta, perderam aquilo que já possuíam. Deixaram de ser felizes?

Não sei, mas imagino que passaram mais trabalho, tiveram algumas desilusões, machucaram-se. Sobreviveram, tiveram filhos e deixaram uma herança emocional que vem sendo transmitida de geração em geração. Reza a lenda que somos a bola da vez, representantes atuais do casal, supostamente aperfeiçoados emocional e intelectualmente. Também gostaria de acreditar nisto.

Vivemos em um lugar nada parecido com o paraíso, as tentações deram galhos,  saíram das arvores e se espalharam por toda a parte, a voz que nos censura agora se chama superego e a Eva anda meio diferente.

Não vamos confundir Eva com Amélia, a mulher de verdade, submissa, que passava fome ao lado do marido e achava bonito não ter o que comer. Falo da Eva que apareceu de mansinho na vida de Adão e tirou tudo do lugar. Mudou seus hábitos, opiniões, sonhos. Mostrou a ele novos lugares, novos sentidos. Virou amiga, companheira, ouvinte, amante, cúmplice, conselheira. Virou tudo pelo avesso, inclusive encorajando-o a fazer aquilo que jamais poderia conceber: desafiar seu superego.

Adão não quis mais se afastar dela. Seu cheiro o embriagava, o toque causava arrepios, a voz o excitava, o gosto do beijo lhe afogava, as conversas o aprisionavam. Adão e Eva cresceram sensorial e emocionalmente juntos. Não precisavam se falar ou tocar, percepcionavam-se mutuamente..

Muitos homens, talvez todos, passem a vida na ilusão e na espera do bendito momento em que encontrarão sua Eva, quando então conseguirão retornar ao paraíso perdido. Isto não vai acontecer. Por outro lado, acredito que todo homem precise de uma Eva. O mundo seria muito melhor. Concordo com a idéia do Criador.  Ainda não encontrei a minha, mas cheguei perto.

Não foi retirada de minha costela, mas parecia entender e sentir igual a mim. Cobranças,  mal entendidos, ameaças, chateações, ofensas, dores de cabeça não faziam parte de seu mundo. Chuva, temporal, relâmpagos, nada estragava nossas conversas. Corríamos contra o tempo e nem percebíamos. Era a versão fashion da Eva ancestral. Falava várias línguas, conhecia inúmeros lugares, cabelos bem tratados, alta, forte, bonita, impulsiva, mas sem unhas ou garras para me machucar, sob hipótese alguma.  Sentia-me acolhido, protegido, amado, respeitado, tranqüilo. Até o superego ela ajudou a anestesiar. Pode um homem querer mais? O pior é que pode.

As tentações contemporâneas não são maças. Nem tampouco outras mulheres. Quem tem uma Eva, jamais quer saber de outra mulher. “Evas” são presentes que locupletam, enriquecem e saciam os desejos masculinos. 

A perdição de hoje chama-se medo. Atinge homens e mulheres. Medo de perder a liberdade, de perder o amado, de não corresponder, de não estar pronto, de cair na rotina, de se frustrar ali adiante, de repetir um erro do passado. Pode até ser um medo copiado do dicionário - estado emocional resultante da consciência de perigo ou ameaça, real, hipotética ou imaginária.

Não sei qual dos medos nos assustou. Choramos juntos quando ele mostrou os dentes. Choramos cada um em seu canto quando nos separamos. Não tem graça conversar sozinho quando ouvir o outro era a melhor parte. Dói conversar com amigos, conhecidos, terapeutas e sentir que a partilha fica incompleta. Ninguém consegue se aproximar como fazíamos. Dói ficar olhando o telefone e não conseguir ligar. Dói escrever um artigo e não ter mais para quem mostrar antes de publicar. Dói não ouvir mais a voz, a gargalhada e imaginar que possa estar sofrendo por minha causa. Dói saber que ainda pensa em mim. Dói saber que nos gostamos, nos queremos, nos perdemos, e não conseguimos achar o caminho. Dói, mas não machuca, porque sabemos que a história não termina aqui.  Acredite se quiser.

*Ildo Meyer
Médico, Escritor, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

domingo, 23 de março de 2014

Carta*


Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. 

O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. 

Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. 

Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna). 

Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. 

Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

*Mario Quintana

sábado, 22 de março de 2014

Primeiros Outonos*


Aprendizados nascem de experiências
de antigos passados e novas esperanças
sempre assim
uma lágrima que brota da dor
e muitas saudades sem nome
de despedidas que anunciam
o regresso daquilo que em nós
sempre esteve guardado
nos jardins de nossa alma
saudade é flor que desabrochou
e se perdeu em outras tantas
no mistério que somos
o singular dos múltiplos plurais
que habitam meu ser
perdem-se em mundos
de outras dores
e em sorrisos de novos tempos
viver talvez seja isso
fazer de cada outono
a despedida de processos
que cumpriram seu papel
e esperam as possibilidades
de novas estações que anunciam
as alegrias de sementes
que serão frutos
de um novo tempo que vai chegar

*Pe. Flávio Sobreiro
Poeta, Escritor, estudante de Filosofia Clínica
Cambuí/MG

sexta-feira, 21 de março de 2014

Vivendo*


A chama em folha e grama
tão verde parece
cada verão o ultimo verão.

O vento soprando, as folhas
estremecendo ao sol,
cada dia o último dia.

Uma salamandra vermelha
tão fria e tão
fácil de pegar, distraidamente
move suas patinhas delicadas
e sua cauda comprida. Deixei
a mão aberta para ela partir.

Cada minuto o último minuto.

*Denise Levertov

quinta-feira, 20 de março de 2014

Papéis*


Querido leitor, que você esteja bem. 

Recentemente fui a um evento, desses de premiação dos melhores e maiores do ano, e a mestre de cerimônia, no intuito de ser simpática e acolhedora, perguntou-me: - Como devo anuncia-lo? Ao que respondi: - Como assim? E veio a réplica: - Quem é você, o que faz?

Como se tratava de uma amiga e tínhamos algum tempo, comecei a refletir com ela sobre um tema muito interessante e que tem me atraído nos últimos tempos. Falo de papéis, papéis existenciais.

Com carinho, respeito e abertura, disse-lhe que já não sabia mais quem era! O que faço? Hum, faço tantas coisas! Veja bem: se vou ao campo de futebol sou um torcedor, como vim de avião até aqui sou passageiro, meus filhos me chamam de pai, para o Theo, meu neto, sou avô.

Parece pouco, mas ainda nem comecei. Para a Albany sou marido, para os empregados, sou chefe, patrão; nas reuniões do Conselho, sou conselheiro; na loja comprando, cliente. Na associação industrial, sou empresário; para os apresentadores de televisão, telespectador; para os radialistas, ouvinte; para meu pai sou filho. Quando viajo a lazer sou turista;  para o jornal, articulista; para o Mhanoel, amigo. Quando de bicicleta, ciclista; no consultório terapeuta; dando aula, professor; assistindo aula, estudante. Para o médico sou paciente; quando leio, leitor; degustando um vinho, enófilo; na cozinha, cozinheiro. Se vou a igreja, sou fiel; se por acaso trair a esposa, infiel; dirigindo,  sou motorista; no mesmo carro só mudando de posição, agora ao lado do motorista, já passo a ser caroneiro. Na praia, veranista; quando voto, sou eleitor; quando escrevo, escritor.

Houve um tempo que dizia que era apenas empresário. Depois passei a me identificar como empreendedor, agora tudo que peço é que não me reduzam a um só papel existencial.

Às vezes, como aquela amiga do cerimonial, encontro pessoas que ainda me perguntam: Quem sou eu, o que faço?  Confesso que hoje já não sei direito. Tento viver como se fosse tudo isso e, talvez, não ser nada disso. No dizer do mestre Jesus, “viver nesse mundo sem ser desse mundo”. No corroborar de Carl Jung, “ser e viver todos os papéis sem se apegar a nenhum específico”.

Que tal apenas Beto Colombo? E você, quem é?

Lembrando que isso é assim para mim hoje.

*Beto Colombo
Empreendedor, Escritor, Filósofo Clínico, coordenador da Filosofia Clínica na UNESC...
Criciúma/SC

quarta-feira, 19 de março de 2014

Dia*


De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.
E flutuo, já sem mim, pura existência.

*Octavio Paz

terça-feira, 18 de março de 2014

Há flores no meu travesseiro*


As flores e seus diversos perfumes, a lembrar, suavemente, o quanto é bom estar perto.

As flores da saudade, da esperança, da alegria, do desejo sincero de viver em harmonia, da pureza de sentimentos e total desprendimento aos ensejos mundanos que obstruem as vias de um amor são.

As flores dadas pelos amantes a colorir seus sonhos, seus projetos de vida compartilhada e feliz.

As flores e seus diversos perfumes a lembrar suavemente o quanto é bom estar perto.

As flores e seus sorrisos abertos ao mundo onde a imaginação flui em sentido a uma permanência despretensiosa, apenas deliciosa de que o tempo juntos não acabe nunca.

O colorido, o perfume e o sorriso, alquimia perfeita e poderosa contra o mundo que ataca ferrenhamente e tenta fazer cada dia mais pessoas de bom coração acreditarem que não vale a pena amar.

Meu travesseiro cheira saudade dos tempos onde a maldade não penetrava os sonhos.

Meu travesseiro sente o perfume das flores, que lindas, coloridas e sorridentes, propunham caminhos fáceis de trilhar.

O travesseiro de muitas pessoas no mundo insiste em fazer levitar o peso das mentes cansadas de pensar, de prevenir, de orientar e de proibir. Ele insiste em propor noites de fantasias. Em propor manhãs renovadas, em dias de uma consciência alargada em alegrias antes de qualquer agonia.

Muitos travesseiros se entristecem e choram diante da derrota da sensatez exagerada sobre o direito de simplesmente viver em paz.

Guardam segredos, os travesseiros bêbados de recordações. Sentem saudade e aguardam pacientes, coloridos, perfumados pelo dia onde ali se deitarão mentes dispostas a se renderem.

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 17 de março de 2014

Privada I: o homem e sua obra*


"Este ódio de tudo o que é humano, de tudo
o que é 'animal' e mais ainda de tudo que é
'matéria', este horror dos sentidos (...) tudo isso
significa (...) vontade de aniquilamento,
hostilidade à vida, recusa em se admitir
as condições fundamentais da própria vida".
Nietzsche


O Homem é o novo rico da natureza. Assim que nos demos conta de que éramos os únicos na vizinhança que falávamos, fazíamos as quatro operações e conseguíamos encostar o dedão no mindinho, ficamos profundamente, irremediavelmente bestas. Cobrimos a pele com panos, penteamos o cabelo pra trás, passamos uma salivinha na sobrancelha, dissemos: adeus, bicho! e saímos da selva.

Nem mal deixamos o bosque, passamos a esnobá-lo e a condenar as atitudes de todos os seus habitantes. Nós éramos superiores! Nós dominávamos a natureza! Nós usávamos ferramentas, meias e fio dental!

Novo rico que se preze, no entanto, dá bandeira. Há sempre um douradinho além da conta, um sotaque suburbano escapando num momento de exaltação, um conversível rosa com a placa mom ou dad. Com a humanidade também é assim. Por mais que consigamos trocar nossos odores naturais por mentol, eucalipto ou tutti-frutti, gastemos um bilhão de dólares em pesquisa para criar lâminas capazes de raspar perfeitamente nossos pêlos e cubramos toda a crosta da terra com asfalto e carpete sintético, um ato sempre nos denunciará o passado selvagem, a natureza animal: a cagada. Ali não tem desculpa, não tem disfarce.

A merda é nossa ligação perene com a floresta, com o barro de onde viemos. Aí não tem talher nem tailleur nenhum que nos diferencie da arara ou do tamanduá. Nus como as trutas, acocorados como os cães, expelimos a verdade universal, fisiológica, cilíndrica e obscura que por tanto tempo tentamos ocultar. Somos animais!

Temendo uma reflexão mais elaborada sobre o assunto, e sabendo das conseqüências que tamanha verdade traria uma vez revelada, desde cedo cuidamos de camuflar o assunto. Fizemos com a bosta o que fazemos com as putas, as drogas e tudo aquilo que é necessário existir, mas não é preciso divulgar; marginalizamo-la. Condenamos as fezes ao ostracismo.

No início, enquanto vagávamos nômades, a coisa era bem fácil. O sujeito simplesmente se afastava um pouco da horda, fazia o que tinha de fazer e ia embora, deixando as sujeiras para trás. Estávamos literalmente cagando e andando.

Quando os primeiros povos dominaram as técnicas de irrigação e, portanto, a agricultura, passaram a viver fixos num determinado local, e defecar ficou um pouquinho mais complicado. O sujeito tinha que sair da aldeia, andar um pouco, achar uma moita, cavar um buraco, fazer e enterrar. Durante muito tempo a coisa rolou assim, trabalhosa, mas sem maiores problemas.

Foi o crescimento da população e das aldeias que começou a complicar o processo. A moitinha ia ficando cada vez mais longe de casa, corria-se sempre o risco de se encontrar um conhecido por lá e, pior de tudo, cavar um buraco de segunda mão.

Dizem que foi um bretão chamado Walter Collins que teve a brilhante idéia: cavar um buraco bem fundo no quintal de casa e cercá-lo por paredes. Em pouco tempo a invenção de Walter, assim como suas iniciais, já podiam ser vistas em grande parte do mundo. Parecia que o problema havia sido solucionado. Mas veio a revolução industrial, o grande êxodo para as cidades e os quintais, como se sabe, foram pra cucuia.

Talvez tenha sido esse o momento mais difícil da humanidade frente aos seus excrementos, o clímax entre o Homem e sua sombra animal. Tivemos que trazer a bosta para dentro de nosso próprio lar. Para que isso fosse possível, bastava que jamais assumíssemos o verdadeiro fim do aposento que covardemente, eufemisticamente, chamamos de banheiro. Sim, meus caros, para não dar nas vistas, inventamos o chuveiro, a banheira, a higiene bucal, o secador de cabelo, o rímel, o blush e o batom, a acne e os tratamentos antiacne e todas as outras coisas para se fazer ali. Além disso, criou-se um arsenal para se disfarçar o cocô: sprays com odor de rosas, sachês que deixam a água da privada azul, verde ou rosa, exaustores, bidês e papeis higiênicos perfumados.

Ali, naquele ambiente cientificamente controlado, podemos aliviar as nossas necessidades com o máximo distanciamento possível. Após dar a descarga, nosso cocô é mandado para esgotos submersos, que desembocam em rios que vão dar lá longe no oceano. Sanamos o problema por enquanto, mas é só uma questão de tempo.

Todo esse cocô está se unindo, formando o maior movimento underground do mundo. Nossas cidades, nossos países estão boiando sobre rios de merda. Fala-se muito no fim do petróleo e no fim da água, mas não será assim que nós morreremos. Numa incerta manhã um cidadão dará a descarga e, como na piada, ouvirá o estrondo: o subsolo, entupido, explodirá. A verdade, reprimida por séculos e séculos, emergirá. Só nesse dia todos perceberão o tamanho da cagada em que nos metemos desde o dia em que resolvemos sair da floresta. E não haverá sachê nem bom ar que dê jeito. Como se sabe, só as baratas sobreviverão.

*Antonio Prata

sexta-feira, 14 de março de 2014

Penúltimas notícias!*









Depois do sucesso da aula inaugural, na próxima quarta-feira acontece, a partir das 19hs, o início da caminhada de estudos da nova turma na Cidade Baixa (Rua Joaquim Nabuco, 171 - Próximo ao Opinião) em Porto Alegre. Nessa data seguem as atividades de matrícula, distribuição do material didático, juntamente com as aulas.

Muito bem vindos!

*Coordenação Geral
Casa da Filosofia Clínica

Autogenias*


Dê-me tua mão, te ensino a dançar.
Dê-me tua mão, esteja comigo na travessia do vale escuro
Ao tempo em que executo meus desejos apesar das turbulências,
No espaço em que meu corpo é o obstáculo, não só para a alma.

Creia na minha história e invente outras.
A ciência e as explicações não adiantam mais.
Emoções danificadas se encontram.
Trajetórias semelhantes, realidades paralelas.

Mesmo biorritmo,
Buscas e formação em comum.
Mas, se o conjunto é mesmo maior do que a soma das partes,
A união eclipsa/ameaça a estrutura singular?

A interseção, nesse caso, é um terceiro
Não alheio às constituições de cada um;
Triângulo do fogo em graça.

*Vânia Dantas
Filosofa Clínica, Mestre em História Social da Loucura
Brasília/DF

quinta-feira, 13 de março de 2014

Cantiga para não morrer*


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

*Ferreira Gullar

quarta-feira, 12 de março de 2014


“transito entre dois mundos
no chão, penso filosofia
na alma, sinto poesia
no espirito, respiro vastidão
duvido e sinto sem censura
na corda bamba sonho
no limite vislumbro horizontes
enfim, sem rótulos, existo e sou”

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG