quarta-feira, 30 de abril de 2014

Estações*


Nossa vida caminha no compasso de certos ritmos e ciclos. Como a imitar a natureza. Semelhante as estações do ano. Tudo nasce. Tudo cresce. Tudo parece ter o seu tempo.... Se renova. Muda. Se recria. Se transforma. Na natureza, como na vida, nenhum dia será igual ao dia anterior....

Ah, a terra e a natureza e seus encantos e mistérios. "GAIA" para os gregos. A grande Mãe Terra. Viva, ela mesma. Se auto regulando. Reverberando vida por todos os lados. Muito generosa. Porém, vingativa, quando muito agredida. "PACHA MAMA", para os índios andinos. Nossa Pátria Grande. Acolhedora. Onde haveria espaço suficiente para todos. Terra grande, sustentadora da vida....

A terra e a natureza dançam e se embalam conforme seus ciclos. Nossa vida se assemelharia aos ciclos da natureza? Parece nunca se repetir a mesma em seus acontecimentos. Nossos próprios corpos pulsam no compasso de certos ciclos. Nossa existência não é linear, nem decidida nas vésperas. Embala-se conforme as ondulações das ondas do mar. A cada dia outras e renovadas...

*José Mayer
Filósofo, estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 29 de abril de 2014

O Poeta é Belo*


"O poeta é belo como o Taj-Mahal
feito de renda e mármore e serenidade,
O poeta é belo como o imprevisto perfil de uma árvore
ao primeiro relâmpago da tempestade,
O poeta é belo porque os seus farrapos
são do tecido da eternidade,"

*Mario Quintana 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A palavra busca*



"A ficção não põe em dúvida a verdade, ao contrário, realça seu caráter complexo; não descarta a verdade objetiva, ao contrário, enfatiza sua turbulência. Ela não deseja explicar ou fixar nada; não se interessa por balanços e conclusões. Aposta, apenas, na verdade do singular. Verdade que, a cada vez, é outra verdade."
                                                         José Castello

Na proliferação de um cotidiano qualquer, suas derivações anunciam a imprevisibilidade dos roteiros por vir. Seu deslocamento precursor sustenta uma poética de interrogar refúgios.

Em um mundo para acolher impossibilidades, cultiva pluralizar vislumbres. Seu avanço descontinuado, ao ampliar territórios, descreve utopias, exercita a captura provisória do instante fugaz.

Existem momentos de rara inspiração à quem examina seu aparato precursor, no entanto, ainda assim, muita coisa escapa, refém dos ímpetos de seguir em frente. Nessa complexidade indecifrável por inteiro, as lógicas do sobressalto investigam possibilidades.

Um teor híbrido a indicar caminhos, numa linguagem, às vezes imprópria à pessoa. Nesse monólogo subjetivo a solidão se reveste de convivências, cria cenários, inventa retóricas, redesenha o mundo. Sua sustentação aprecia a incapacidade de oferecer respostas por inteiro, sua força advém daquilo que a consome.

Ao possuir um caráter de ação, modifica territórios, emancipa fronteiras. A matéria-prima desses anúncios é a própria reinvenção das trajetórias. A interseção das novas ideias com o sentido da singularidade realiza essa fonte de amanhãs.

Nesse universo de intenções o sujeito exercita seu ser para além das sínteses conhecidas. A objetividade inconformada persegue-se noutras direções. Sua ênfase na realização das utopias aprecia roçar o inatingível.

A palavra busca qualifica os rituais de introspecção ao ser projeto_ação. Ao reinventar a noção_percepção de espaço-tempo-lugar, acolhe a inquietude da representação aprendiz que se persegue.

*Hélio Strassburger

domingo, 27 de abril de 2014

O ponto de encontro*


Da alma do homem
Com a alma do mundo
É a Psique
Não há encontro sem dor
Não há encontro sem morte
No mais profundo de nós
Os deuses esperam
Só nos jogando
Só nos entregando
Só nos analizando
A vida em sua dialética
Diz Sim!
E mesmo dizendo Não
Se realinha!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filosofa Clinica
Juiz de Fora/MG

sábado, 26 de abril de 2014

Desculpe, foi engano*

                                               
Depois de tudo o que vivemos, precisamos ter a sobriedade de ser honestos com nossos próprios sentimentos e admitir que apostamos em nos amar, mas ficamos longe disto.  Foi bom, mas não foi amor. 

Preocupado em não mais repetir o erro, revisei a literatura e descobri que não existe um gene especifico do amor, que dotaria alguns felizardos com esta capacidade e impediria outros. Não se nasce carimbado ou proibido de amar. Ainda bem, estamos salvos. Amor se aprende, constrói, cria, sente. Amor não é complicado para surgir, mas pode ser difícil de manter.

A vida me ensinou que se pode amar várias pessoas ao mesmo tempo. Amo meus pais, meus irmãos, meus amigos. Mas amo do meu jeito e com cada um fui criando um código diferente de amor.

Acontece que amor fraternal é uma coisa e amor entre um casal é outra. A diferença é mais ou menos como andar de carrossel ou de montanha russa. Num você sobe quando criança e fica dando voltinhas sem maiores riscos ou emoções, no outro você só pode entrar um pouco mais crescido, e no inicio, precisa se amarrar prá não cair. Se der certo e aprender a andar, é mais seguro que carrossel e mil vezes mais emocionante. Mas não é para todos. Amor não é o que faz o mundo girar, isto é bebedeira ou labirintite. Amor é o que faz o giro valer a pena.

Aquele “nosso amor” envolveu tantos altos e baixos, tantos porquês, tantas expectativas frustradas, que foi deixando de ser algo gostoso pra se tornar  pura cobrança. Aquele friozinho gostoso na barriga que sentíamos no início, se transformou em dor de cabeça crônica. Pois é, amor também pode adoecer.  Não nos abraçamos direito e quando um dos dois não tem mais força pra pegar o coração do outro no colo, o amor se perde, escorrega, cai da montanha russa e abandona o parque e o casal.

Dei tudo que sabia, dentro e fora da cama, mas ao invés de aproveitar, julgavas. É mais ou menos como andar na montanha russa, ficar calculando velocidade, altura, tempo, ondulação e não sentir o vento bater no rosto, o coração disparar, o corpo flutuar. A diversão se transforma em apreensão, a emoção cede lugar para a razão e não se aproveita aquilo que é o melhor da vida. Amar é ter certeza que se você cair, ou tropeçar, ou falhar, o outro vai estar ali pra te amparar.

Quando o amor acontece, tudo faz sentido. A verdade é que cuidar, renunciar, dividir, emocionar, acompanhar, partilhar, sonhar, escutar, acarinhar, discutir, perdoar, não foram percebidos por ti como formas de amar.   Nossos conceitos e formas de demonstrar e sentir amor não são as mesmas. Aquilo que era para ser um casal se dividiu em dois. Paciência, não dá pra lutar contra o que não se pode mudar.

Fiquei triste, porém tranqüilo. Reconheço minha parcela de responsabilidade em nossa separação, mas continuar juntos se tornou impraticável. Não havia clima nem para tentar um recomeço afetivo. Andar de montanha russa e  sentir que as mãos estão dadas, se tocam, mas não mais se seguram, não é viver um grande amor. Quero e mereço bem mais. Quero alguém que extraia o melhor e o pior de mim, dividindo aquilo que nem sei que preciso. Às vezes paz, outras vezes confusão. Às vezes carrossel, outras vezes montanha russa.

Contigo foi este o limite, com outra pode ser que o ultrapasse. Agradeço-te por me acompanhar e trazer até aqui, Lembrarei de tuas palavras como ensinamento e não mais como acusação. Como dizia Nietzsche, a memória foi feita para esquecer. Cada vez que eu disser te amo para outra mulher, terás uma parcela nesta conquista. Tua dúvida  me fez crescer. Obrigado. Valeu, mas não foi desta vez. Desculpe, foi engano.

 *Ildo Meyer
Médico, Escritor, Filosofo Clinico
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Assim me vi*


Um papel de presente prateado
bolinhas douradas, vermelhas
de tamanhos diferentes;
ramos de flores aqui
riscos de céu ali.
Embalagem para o quê de bom, não sei
presente é surpresa...
o papel é melhor que o produto
porque este tem história,
mão-de-obra e mais valia.

*Vânia Dantas
Filosofa Clínica
Brasília/DF

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Espanto*


Espanto é a palavra base de toda a atividade filosófica, não há como ser filósofo se não houver a capacidade de se espantar.  Espantar-se é tomar algo como novidade, algo que chame a atenção a ponto de tirar o foco de qualquer outra coisa. Em outras palavras, espantar-se é ser surpreendido. Neste artigo conto duas situações que chamam a atenção pela simplicidade e banalidade como são normalmente vistas. 

A primeira situação ocorreu quando a mãe de um menino de cinco anos foi a uma reunião de professores na escola de seu filho. Ao longo da reunião a mãe ouviu o seguinte: “Nossa, como seu filho é ingênuo! Ele não tem maldade, os outros meninos já paqueram as meninas e ele não”. A mãe ficou espantada, pois de acordo com sua educação era justamente assim que deveria se comportar um menino de cinco anos, ou seja, brincar de carrinho, viver a inocência da infância e não pensar em namorar. A segunda situação aconteceu no dia em que a mãe foi buscar o filho na escola. 

Na saída da escola o filho vinha contente pois havia recebido um pirulito da professora, mas ao abrir a mochila não o encontrou. Falou para a mãe: “Mãe eu ganhei um pirulito da professora, mas não está aqui”. Com o auxilio da mãe revistaram a mochila, sendo que o bolso da mochila onde o menino disse ter colocado estava aberto e seu pirulito não estava lá. A mãe perguntou: “Mas tem certeza que você não perdeu?”. Diz o menino: “Não, eu o coloquei aqui e fechei o reco”. A mãe conclui: “Então alguém deve ter pegado o pirulito da sua mochila”. O menino retruca: “Mas mãe, cada um ganhou um pirulito”.

Em boa parte das casas isso é absolutamente normal, com cinco anos o filho já está interessado em meninas e sabe que pode ser roubado. De acordo com a visão de mundo dos pais este é o mundo onde o filho está sendo inserido e se não for preparado passará por bobo. Na visão destes pais os valores a serem seguidos estão estampados nas revistas, jornais, novelas. 

As crianças desde cedo são “adultizadas” sexualmente e os adultos são infantilizados moral e legalmente. Não é mais espantoso um menino de cinco anos tendo interesse sexual pelas coleguinhas da escola, é tão normal que algumas vezes perguntam a ele quem é sua namoradinha. Também é visto com normalidade jovens se apropriarem do que não é seu, matarem, depredarem propriedades públicas com a certeza de que nada lhes acontecerá. Como não se espantar?

Aos que leram até aqui e pensaram consigo que estamos perdendo os valores, afirmo: não, não estamos. O que está acontecendo é que estamos mudando nossos valores, como sempre estivemos, deixando os valores de nossos avós, de nossos pais e assumindo os nossos. Infelizmente ou felizmente cada geração é julgada pela geração futura pelos seus valores. Algumas gerações duraram milênios por cultivarem valores sólidos e outras pereceram. Se olharmos para o oriente, povos de culturas milenares, costumes há muito chamados de arcaicos resistem ao tempo e são exemplos em muitos quesitos.

Um bom exemplo está na Índia, povo dominado pelos ingleses que seria explorado como tantas outras colônias pelo mundo. Como modo de expulsar seu invasor os indianos simplesmente se recusaram a abandonar sua cultura, resistiram basicamente fazendo o que sempre fizeram, sendo indianos. A resistência pacífica de Ghandi se baseou na luta pela preservação dos costumes de seu povo. 

A Índia tem problemas sérios hoje causados justamente pela introdução dos costumes ocidentais, uma cultura milenar que lentamente está sendo desconstruída. Estão perdendo seus valores? Sim, diriam os antigos. Não, dizem os contemporâneos. Valores antigos ou novos serão necessários para no futuro verificar-se o que foi feito de errado no passado.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Poema em linha reta*


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
(…)

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

*Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa )

terça-feira, 22 de abril de 2014

Então queres ser um escritor?*


Se não sair de ti explodindo
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração e da tua cabeça e da tua boca
e das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que sentar por horas
olhando a tela do teu computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes porque queres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como algum outro escreveu,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás pronto.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas estúpido nem enfadonho e
pedante, não te consumas com auto-
-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te esteja a queimar as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra forma. 
e nunca houve.

*Charles Bukowski

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Reflexões do ser e não ser*


Caminhar...
Respirar a relva
Nas entrelinhas da vida
Do ser e não ser.
Das certezas,
Incertezas.
Das paisagens,
Os caminhos no ar...
Sob as folhas,
As casas pequenas
A morada do ser,
...não ser.

*Fernanda Sena
Filosofa Clínica
Barbacena/MG

Nostalgia do Presente*


Naquele preciso momento o homem disse:

«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»

Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.

*Jorge Luis Borges

domingo, 20 de abril de 2014

A palavra dialética*



Existe um dizer inconformado na rigidez dos raciocínios estruturados. Antítese da comunicação bem definida, esse teor descompassado e de maior alcance se oferece, ao ser contradição, em rituais discursivos precursores.

Ao se tentar aprisioná-lo, ele se revolta à transgredir os limites da imprópria coerência. Os rumores da não-palavra conseguem dizer muito, parecem apontar as formas indizíveis, os refúgios da estética, a inventividade da desrazão. Uma estranha realidade escorre pelo desvão das sentenças.

Relatos de discórdia em busca de autonomia, compartilham rumores ao dizer que poetiza a vida. Sua desconformidade inaugura espaços, oferece ambientes para novas expressividades. Ao quebrar protocolos emancipa aquilo por vir. O teor da palavra dialética contém, em si mesmo, afirmação e negação. Um cheiro de terra nova se oferece ao seu redor. Seu não-ser anuncia horizontes diferenciados.

Na ruptura com aquilo que já foi novidade, se empenha em querer mais. Não entra em desacordo com as crises, muitas vezes é seu anúncio. Consegue estabelecer-se de acordo com as transformações que inspira. Donos da verdade, em seus dogmas e institutos, cuidam para preservar-se dessa lógica ameaçadora. Na interseção entre ficção e realidade se pode notar o quanto são reféns uma da outra.

Contra a soberana rigidez do discurso completo e bem acabado, se oferece a poética das incompletudes. Sua ótica de reverência à vida persiste em ser ensaio criativo. Veja-se o caso desses aparentes paradoxos: quem seria a antítese em guerra e paz ? Entre a vida e a morte ? Amor e ódio ? Saber e não-saber ? Luz e sombra ? Real e irreal ? De onde se vê aquilo que se vê?

Nessa arte de evidenciar frestas acontece uma rasura da norma definitiva. Suas virgulas e espaços em branco acenam um devir de raridades. Sua lógica subversiva, ao denunciar outros pontos de vista, se equipara a uma dissonante premonição.

Assim é possível vislumbrar algo mais além de fracassos e acertos. São muitas as possibilidades pela desorganização da palavra dialética. Uma força emancipadora em anúncios de originalidades.

Sua intencionalidade de negar imprime vida aos cristais bem acabados. A ideia, ao sair de si mesma, desconstrói certezas para inaugurar verdades. Desse ponto de partida uma transcendência atualiza deslocamentos. Quiçá esse devir possa flanar entremeios de toda concepção. Irresolver a sedução do enigma das travessias com a arte de desconstruir fronteiras.

*Hélio Strassburger

sábado, 19 de abril de 2014

Anjos*


Podem não acreditar
Mas, que anjos existem, existem
Chegam na hora certa
Falam o essencial
Desperta-nos da inconsciência
Aquietam nossa tagarelice
Acolhe-nos com delicadeza
Ele está bem perto
Para os que estão abertos
A escutar com coração
São eles pessoas vivas
Que estão ao nosso lado
Com palavras e gestos
Na hora certa

*Rosangela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Seiscentos e Sessenta e Seis*


A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

*Mario Quintana 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Ministério do Interior*


Pensamento é o fragmento fugaz
do caos estruturado
a palavra é o estágio
imediatamente after da sensação
que faz parte do estágio necessário
do aperfeiçoamento humano
de sentir a melhor maneira
de relacionamento franco

a palavra é um domingo de sol
no estádio municipal do pacaembu
se ela pinta tudo mais se cria
não mais que num instante
existindo no mesmo movimento
que a crassa ignorância
em que se fica só naquela
ânsia de comer melância

de comer melância na santa ignorância
de comer melância com muita exuberância
de comer melância com maria constância
de comer melância
de comer.

*Chacal

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Goya contra a repetição*


          Ando sempre a refletir a respeito dos males provocados pelos modelos engessados, pelas fórmulas prontas e pela repetição _ fortes características, infelizmente, do mundo contemporâneo. Lendo "Goya/ À sombra das luzes", de Tzvetan Todorov (Companhia das Letras), encontro um pensamento do pintor espanhol que ilumina algo importante a respeito da arte da transmissão. Escreve Goya, em um relatório à Academia de Arte, datado de 1792: "Não há regras em pintura e a opressão, ou a obrigação servil de fazer estudar a mesma coisa ou de seguir o mesmo caminho, é um grande obstáculo para os jovens que escolhem essa tão difícil, que se aproxima do divino mais do que qualquer outra, por representar tudo o que Deus criou".

          Agora que me preparo para dar oficinas literárias em Santa Catarina (Jaraguá do Sul e depois Joinville) na semana seguinte ao carnaval _ promovidas pelo SESC _, esse pensamento de Goya vem iluminar meu caminho. Ninguém pode saber o que alguém precisa saber, ou deixar de saber, para tornar-se um escritor. Cada um trilha um caminho solitário e único. Trocando a pintura pela literatura, o pensamento de Goya fica assim: "Não há regras em literatura e a opressão, ou a obrigação servil de fazer estudar a mesma coisa ou de seguir o mesmo caminho é um grande obstáculo para os jovens". Mas como então dar uma oficina literária se, a cada aluno, devemos dizer uma
coisa diferente?

          Pois o segredo parece estar justamente aí: levar os alunos a valorizar, em vez de desprezar, as diferenças imensas que existem entre eles. Para chegar a elas, resta ouvir _ e ensiná-los a ouvir também. Comenta Todorov: "A pluralidade dos caminhos que permitem aproximar-se do objetivo é colocada de saída, assim como a necessidade de dar a cada indivíduo o direito de escolher o dele". Dirão os mais temerosos: "Mas isso tira a autoridade do professor". Pergunto: mas quem falou em professor? Uma oficina não é uma aula, em que se trasmite determinado legado, ou tradição. Ao contrário: uma oficina é um desafio, em que se estimula o aluno (mas a palavra, aluno, é péssima nesse caso) a divergir, a desviar-se, a encontrar seu próprio caminho e construir seu próprio destino.

          Falamos muito, hoje, da brutalidade do mundo, mas não percebemos que parte dessa brutalidade é um efeito perverso da repetição. Da obrigação de repetir e de copiar. Vivemos no mundo do "copiar e colar". Caminho perigoso, que só conduz ao tédio e ao desencanto. Ao ódio à diferença e à invenção de si. Prossegue ainda Todorov: "Para isso, o estudo é necessário, mas depende do conhecimento do mundo, e não dos modelos antigos". Cabe acrescentar que o conhecimento do mundo começa, sempre, pelo conhecimento de si mesmo. E que este é uma experiência radicalmente individual, que não permite a cópia, nem a repetição. Pois elas são a morte da arte.

*José Castello

terça-feira, 15 de abril de 2014

Via Láctea*


“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

*Olavo Bilac

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Universo singular*


Tédio? Ah!
Não encontrastes,
"Em ti mesmo"
O drama que em ti
Habita.
Acorda-te
Experimente o mistério
Que se revela
No enfrentamento
Com tua própria sombra
Com teus próprios complexos
Com tua vasta alma.
A completude
Que tanto buscas
É a síntese
De tua dialética.
Tédio? Ah!
Enfrente os opostos
Mergulhe na dor da alma
E estreies na vastidão
De teu universo.
Coragem!
O caminho florestal é longo
A tua função transcendente
Com certeza te presenteará
Com teu Self Luminoso!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filosofa Clínica
Juiz de Fora/MG

Fragmentos de poesia e vida*


Não perco meu tempo com a solidão
Não perco meu tempo com desilusão
Perco meu tempo com música
Perco meu tempo com livros e filmes
Perco meu tempo me doando para o amor
E
Assim
Do meu jeito singular e único
Eu vou tentando não perder nada!
Perder é sempre vazio
Dói
Encontro respostas escondidas
Dói
Aqui
Só eu é que sei tamanha sensibilidade
Mas
Agora já estou a vontade
Eu sumo
Me assumo
Sigo
Sou
vou
E a vida mais uma vez traz surpresas
Sigo na busca de mim mesma
Sigo no caminho da minha estrada particular
Sigo a procura de um lar
Sigo e sigo
Nunca paro de caminhar!

*Vanessa Ribeiro
Professora de Filosofia e Teatro, Filosofa Clínica
Petrópolis/RJ

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Cartas*



"Querida Clarice**:

            Que impressão me deixou o seu livro***!
            Tentei exprimi-la nestas palavras:

            – Onde estivestes de noite
            Que de manhã regressais
            com o ultramundo nas veias,
            entre flores abissais?

            – Estivemos no mais longe
            que a letra pode alcançar:
            lendo o livro de Clarice,
            mistério e chave do ar.
            Obrigado, amiga!

O mais carinhoso abraço da admiração do
Carlos

 *Carlos Drummond de Andrade
 Rio, 5 de maio de 1974."

**Clarice Lispector

*** Onde estiveste de noite.