segunda-feira, 30 de junho de 2014

Fui Sabendo de Mim*


Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

*Mia Couto

domingo, 29 de junho de 2014

Caminhantes*


O que acontece
Nas sombras?
O que acontece
Na luz?
Somos isto e aquilo!
Imperfeitos
Em fruição!
Nem bem
Nem mal
Apenas humanos.
Meio bicho
Meio anjo
Caminhantes
Peregrinos no existir.
Em processo
Nunca acabados.
Para que complicar
Se o que basta
É viver?

*Rosangela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sábado, 28 de junho de 2014

Fragmentos poéticos, filosóficos*


Viajar? 

Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as
paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo”. Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o principio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens tem paisagem. 

Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como ás outras. Para que viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e gênero das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

*Fernando Pessoas 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Mundos*


Olhando pela janela, dentro de casa e até mesmo dentro de cada um há uma representação de mundo. Quando alguém diz que o mundo é ruim, mau, bom, certo, errado, isso é assim para a pessoa que disse, da maneira como ela disse. Isso pode ser algo que ela construiu a partir das próprias vivências, pode ser algo gravado do que outras pessoas disseram, também pode ser o resultado de uma longa e bibliográfica reflexão e assim será para cada um. 

O mundo como uma representação foi uma teoria criada pelo filósofo Protágoras, do qual já se deve ter ouvido falar. Mas outro filósofo mais atual foi além, falou que o mundo é a minha representação, que não existem duas pessoas que vivam no mesmo mundo, assim como não existem duas representações. Sendo assim, em cada um de nós existe um mundo completamente diferente do mundo do outro e é a partir desta visão de mundo que a pessoa se posiciona diante daquilo que a cerca. E é justamente sobre isso que aqui vamos tratar.

Algumas pessoas olham para o mundo como um cenário pronto onde elas precisam se encaixar. Estas pessoas, quando olham para o mundo entendem que ele já está feito e o seu papel é ver o que precisam fazer para se colocar, ou seja, arrumar o seu espaço. Esta visão trata o mundo como coerção, uma realidade esquadrinhada que obriga o ser humano a se adaptar. Em certo ponto Rousseau concordaria com estas pessoas, lembrando que para ele o “homem nasce bom e a sociedade o corrompe”.  

Pessoas que vêem a realidade deste jeito comumente usarão frases como: “está tudo pronto, tenho que ver onde me encaixo”. Dentro de uma empresa é aquele funcionário que acha o seu cantinho na estrutura e permanece ali, talvez tenha ambição de evoluir, mas o mais que conseguirá é evoluir para outro cantinho.

Há outras pessoas para as quais o mundo é uma questão de representação: estas são aquelas que entenderão que o mundo é diferente em cada um, como o pregado por Protágoras e Schopenhauer. As poucas pessoas que conseguirem chegar a este ponto terão uma vida em que o outro é um ponto de referência para suas considerações e não uma sentença. 

Para estas, o fato de alguém não gostar de sua cor preferida, de não entender como alguém pode achar que Deus existe será apenas mais uma opinião. Para saber quem tem o mundo desta maneira basta observar frases como estas: “Isso é assim para você”. Elas entendem que há opiniões diferentes e que devem ser respeitadas, mas não significa que tenham de aceitar. Numa empresa, o funcionário entende que seu gerente vê a empresa de determinada maneira, que não é bom nem mau, mas é assim para ele. E vendo diferente deste, encontra outros caminhos para chegar aonde deseja.

Muito mais raros que os anteriores, será possível encontrar pessoas que tem o mundo enquanto criação. Um mundo que tem sua estrutura pronta, que é diferente em cada um, mas que pode ser recriado a cada dia. Pessoas que olham para a realidade como um caminho de possibilidades, os poucos que ficaram conhecidos pela história ganham títulos diferentes: desbravadores, inventores, criadores, empreendedores e assim por diante. Estes raros seres humanos percebem que é possível ir além do discurso formatado criando possibilidades de ser e fazer diferente. 

Como no filme Matrix, são pessoas que não se encaixam no que vêem, acreditam no que vêem, mas, muito mais do que isso, acreditam que vai muito além do que está dado. Numa empresa são aquelas pessoas conhecidas como pessoas de criação, que vêem portas em paredes, janelas em muros. Aqueles que imaginam e colocam de tal forma o mundo imaginado que este se torna real.

A boa nova, como diz Lúcio Packter, é que não estamos presos a nenhum destes mundos. Cada pessoa tem a oportunidade de mudar, ir além do momento presente e se construir como um ser melhor. O mundo como coerção, representação ou criação não são bons e nem maus por si só, mas são de acordo com a história de vida de cada um. Quantos empreendedores deixaram de ser um sucesso por verem o mundo por coerção? Observe sua história e veja para onde está caminhando. Se não está gostando do destino de sua caminhada, pode redirecionar.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Ainda para as moças*


Não há nada de muito novo atualmente.

Só mais tarde, bem mais tarde, as meninas darão conta das escolhas que fizeram, ainda que não definitivamente, quanto ao modo de se comportarem, quanto às amigas que elegeram para frequentar, quanto às prioridades, aos rapazes e a relação com os pais.

Não há nada de muito novo atualmente e observo articulações bem parecidas entre as moças de hoje com as das moças de algum tempo atrás. Vejo as moças de hoje e faço análises e comparações com a mocidade que eu vivi. As mesmas armações, ilusões, decepções e batalhas travadas entre ser e ter, ser e ser ou não ser.

Ainda se roga por liberdade, ainda se pretende ser diferente e especial. A mais bonita, a mais sabida. Ainda se espera a felicidade, mesmo nos tempos de hoje, onde tão pouco se acredita no futuro, em Deus e na família. Ainda procuram o amor, ainda que disfarçado em autonomia sobre a sua sexualidade. Ainda querem amar e pobrezinhas, divididas entre os conceitos feministas, mal entendidos e exagerados às vezes, e os conceitos de amor romântico e formação de família, se atordoam. Compadeço-me de tamanha falta de norte em que as vejo.

Alguns pais propõe uma vida econômica bem resolvida onde a moça não dependerá de um homem mesmo que ela opte por se casar. Outros aconselham a nunca se casarem. Ter filhos na atualidade, jamais. Outros, temerosos, perdidos, mal amados, traídos, carentes, solitários, cansados, não sabem que orientação dar e as meninas ficam sem referência.

E é neste vai vem da nossa história em relação à busca interminável pela felicidade, que vemos nossas moças ainda iludidas, graças a Deus, que serão felizes através do amor. E não teria nenhum problema nisto se não fosse por elas, como disse acima, não saberem mais como fazer isto. E não sabem por que não podem mais se assumir, e não conseguem amar em paz, porque amar ficou ridículo e para amar tem de se expor como jamais gostariam, talvez. Ainda assim, qual seria o problema.

Elas precisam ser descoladas, modernas, resolvidas, mas elas ainda veem os filmes de princesas que o berço do cinema distribui aos quilos propondo o “felizes para sempre”. Elas veem novelas que trazem uma proposta “tupiniquim” de felicidade em par para o nosso país, onde os referenciais de família se confundem, são totalmente deturpados pela cultura emergente, consumista, populista, que diz ao mesmo tempo: ame, não ame, case-se, traia, não traia, divorcie-se.

Da dó! Mas, quantas de nós passamos por isto através de nossas histórias de vida? E ainda nos tempos atuais, com a expectativa de vida tão alargada, quantas de nós ainda espera ser feliz no amor? Nossas mocinhas então? Tão jovens, tão inteligentes, com potenciais intelectuais enormes, divididas, confusas quanto o que vem a ser felicidade.

E é neste ambiente confuso que vejo os trejeitos, o vestuário, o vocabulário, as escolhas. As moças não sabem mais como se comportar. Outro dia, ouvi uma moça de 15 anos se referindo a rapazes da mesma idade talvez, com adjetivos próprios de quem os conhece sexualmente. E ela nunca esteve intimamente com eles!

E elas querem “pegar” cinco rapazes em um evento. Beijar todos e contabilizar isto no dia seguinte em rodas de amigas. Elas disputam entre elas e com eles. São alienadas quanto à própria vida e estão achando o máximo ser assim. Alegres, fugazes. A vida não precisa ser levada tão a serio. Está bem, concordo. Mas, você já sabe quanto isto vai te custar? Está disposta a pagar o preço. Não custa calcular um pouquinho.

Há algo de muito estranho acontecendo entre os conceitos de vicio e de virtude na cabeça dessas moças. E, com certeza, há conflito, há angústia, há sofrimento. Liberdade sendo confundida com libertinagem. Coisa de hoje? Não. Não mesmo, coisa de sempre, mas que a globalização faz alcançar distancias difíceis de controlar.

Só para lembrar, as regras para quem quer namorar bonitinho, se casar e ter filhinhos, não mudou. Os padrões são os mesmos estabelecidos séculos atrás e a regra dita que reputação ainda vale bem mais que ética e moral verdadeiras. Que lástima, pois amar passa por um viés ético verdadeiro e que não condiz com o julgamento que a sociedade faz das pessoas que optam por um amor “fora da casinha”.

Portanto, se você mocinha, não tem estrutura psicológica, emocional, familiar que te permitam levitar por aí em nome do “amor”, use a cabeça. Viva, dance, ria muito com as amigas, vá a todas as festinhas, namore, beije na boca, mas, sobretudo, busque ter um posicionamento sobre como você quer viver o amor em um futuro que você nem imagina o quanto está próximo.

*Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O sonho*


Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.

*Clarice Lispector

terça-feira, 24 de junho de 2014

A palavra mágica*


Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

*Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sobre a origem da poesia*


A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.

Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.

Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.

A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado.

Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?

Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.

Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica.

Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta).

No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.

Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. 

O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc". 

Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre.

Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.

*Arnaldo Antunes

domingo, 22 de junho de 2014

Mito de Narciso*


Sempre me fascinaram estes mitos de homens que desobedeciam aos deuses Ah, eram muito corajosos!!!.... Muitas vezes , para nós, já nos é difícil desobedecer professores, chefes, papai ou mamãe....

Um deles, o mito de Narciso.

Narciso, "aquele que não deveria se ver". Condenado pelos deuses a não poder se olhar a si mesmo. Deveria evitar espelhos e reflexos na água. O que poderia revelar o reflexo de si mesmo a Narciso? O que revela o reflexo meu sobre mim mesmo? Verdades.... Mentiras... Ilusões.... Autenticidades....

Um belo dia a sede venceu Narciso. Para matar a sede viu a si mesmo refletido no espelho das águas. Enamorou-se de si mesmo. Encantou-se com a sua ´própria imagem... Amor nenhum, nem ninfa nenhuma mais o sensibilizariam.

Diz ainda o mito que a ninfa "Eco" enamorou-se de Narciso. E por ele foi desprezada. Como consequência emudeceu e foi destinada a viver nos penhascos. Apenas repetindo o eco das palavras pronunciadas pelos vales. Narciso simplesmente desapareceu a beira do riacho.

Ah, homens corajosos! E deuses cruéis , muitas vezes... Deixa estar....
Ver-se a si mesmo mereceria tal punição? Quem somos afinal? Quem é este, diante de mim, dentro do espelho?

Fosse eu Narciso, tentaria ludibriar os deuses. Atirar-me-ia n'água para quebrar o espelho... Ou beberia toda a água do riacho.... Ah, Narciso, avise a Zeus que eu continuarei me olhando em todos os reflexos meus.... para me conhecer melhor....

*José Mayer
Filósofo, Estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 21 de junho de 2014

Somos o que Lemos ?*


Querido leitor, que você esteja bem. Dias desses, quando passava por uma das salas onde trabalho, flagrei um colega lendo um livro escrito por uma conhecida socialite. A obra falava sobre regras, normas, formas de agir quando em uma reunião social. Como se não bastasse, ainda dava dicas de roupas, posturas e até algumas frases prontas para diálogos previsíveis.

De repente, ele me deu abertura e me vi falando ao colega de trabalho. Carinhosamente perguntei: “Você não tem um autor ou autora melhor para ler?” Como resposta, recebi outra pergunta dele. “Tem alguma recomendação?”, perguntou-me o colega, fazendo um movimento corporal como se realmente tivesse interessado na resposta.

Diante do exposto e do contraposto, sugeri que ele pudesse iniciar pelas biografias de grandes pensadores, pintores, artistas, pessoas que fizeram a diferença na história. “Por exemplo?”, perguntou novamente ele. De chofre, sugeri Fernando Pessoa, Cecilia Meireles. Ao que foi emendado a um comentário tendencioso: “Sei lá, algo mais produtivo do que essas futilidades que estás lendo”, disse.

Depois daquela conversa, resolvi fazer uma lista de autores para recomendar não só a ele, mas também a algumas pessoas de meu relacionamento que gostam de ler. Procurei ser cuidadoso. A lista começou com Maiakovski, Nietzsche, Wittgenstein, Fernando Pessoa, Cecilia Meireles, Van Gogh.  Refleti mais e melhor e até agora não concluí. Explico.

Nietzsche ficou louco, Fernando Pessoa era dado a bebida, Van Gogh suicidou-se, Wittgenstein alegrou-se quando soube que tinha pouco tempo de vida, pois esse mundo era demais para ele, não aguentava viver com tanta angústia. Cecilia Meireles sofria de uma depressão crônica, Maiakovski também tirou sua vida.

Depois daquela data, continuei a refletir sobre este caso. Por ora, concluo que ainda acredito que educar é dar exemplos. Que as palavras comovem, mas os exemplos arrastam. Isso ainda é um conceito forte em minha formação, mas não só isso.

Agora, se a pessoa não é o discurso, se ela faz uma coisa e fala outra, ainda assim podemos aprender. Sim, podemos crescer com sua obra. Assim como o mapa não é o território, como o diagnóstico não é a pessoa, também algumas obras não são seus autores. É uma referência, mas não traduz quem eles são, pelo menos não o todo.

Hoje, um pouco mais harmonizado, ressignifico minha postura diante de meu colega que lia um livro de etiquetas e concluo que está tudo certo. Ele, o meu colega, não se restringe a um livro, ele é muito mais do que isso. Portanto, aquele livro de etiquetas não é ele, e nem os livros que porventura vou sugerir que leia.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, avalia que somos o que lemos, que os autores são o que escrevem?

Beto Colombo
Administrador de empresas, Filósofo Clínico, Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC
Criciúma/SC

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Soneto da Falta de Sensatez*


Palavras bonitas queria dizer
Mas, hoje, a inspiração me falta.
Sem saber o que escrever
Fico sentado, olhando a pauta.

Querendo ser um pouco sensato
Sem sentimentos abundantes
Vejo coisas, na imaginação, distantes
Fitando a sola de um sapato.

Palavras giram ao meu redor.
Sem nada terem me transmitido
Vão junto ao vento, embora.

E deixando um vazio agora
Vejo um infinito maior
De palavras sem sentido... 

*Vinicius Fontes
Filósofo, Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um cego*


Não sei qual é a face que me fita
Quando observo a face de algum espelho;
No seu reflexo espreita-me esse velho
Com ira muda, fatigada, aflita.

Lento na sombra, com as mãos exploro
Meus invisíveis traços. O mais belo
Fulgor me atinge. Vi o teu cabelo
Que é já de cinza ou é ainda de ouro.

Repito que perdi unicamente
A superfície sempre vã das coisas.

O consolo é de Milton e é valente,
Mas eu penso nas letras e nas rosas,
Penso que se pudesse ver a cara
Saberia quem sou na tarde rara.

*Jorge Luis Borges 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Fragmentos poéticos, filosóficos*


Para mim. A história das minhas loucuras.

Há muito me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e julgava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Gostava das pinturas idiotas, em portas, decorações, telas circenses, placas, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim da igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, estribilhos ingênuos, ritmos ingênuos.

Sonhava com as cruzadas, viagens de descobertas de que não existem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião esmagadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: acreditava em todas as magias.

Inventava a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde. Regulava a forma e o movimento de cada consoante, e , com ritmos instintivos, me vangloriava de ter inventado um verbo poético acessível, um dia ou outro, a todos os sentidos. Era comigo traduzi-los. Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.

*Arthur Rimbaud

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dos sentidos da leitura*



Uma obra pode se traduzir em múltiplas direções. Ao reescrever-se aprecia significar, criticar, derivar, tendo como ponto de partida uma autoria. Os sentidos da leitura se deixam encontrar nos recantos da literalidade, onde a história, seus personagens e roteiros convivem com uma mensagem em movimento.   

A plasticidade de seu discurso se atualiza na re_visão de cada página. Num enredo deslocável, multiplica-se de acordo com a estrutura do leitor. Ao inexistir um só olhar, é possível desler o teor narrativo do autor inicial.

Para superar a primeira vista e reiniciar a obra, muitas vezes, é preciso subverter suas origens, descobrir um não querer ser dito, nas entrelinhas do discurso primeiro. A chance de se reconhecer por inteiro na obra é muito rara, quase sempre restarão acréscimos, discordâncias, críticas à narrativa precursora diante do fenômeno leitor. 

Um texto, embora possa oferecer uma polissemia hermenêutica, possui uma coerência interna com a subjetividade do escritor. O teor originário parece guardar-se à um convidado ideal. Sua referência são os lugares por onde transita, as sensações, a linguagem, os princípios de verdade a sustentar a ótica manuscrita.  

A percepção dos conteúdos parece se oferecer em camadas, nem sempre visíveis ao contato inicial. Se faz necessário tantas visitas quantas puder realizar o leitor, neste caso, também ele, um outro do outro, a emancipar o texto diante de si. Entre uma redação e sua pronuncia, existem nuanças para uma interseção das palavras com as coisas.    

Um acréscimo ou uma nova versão a cada visita, essa parece ser a fonte de problematização sobre a singularidade da obra. Essa re_apresentação surge do encontro, sempre inédito, do texto com suas possibilidades.

Nessas andanças pelo universo das palavras é possível descobrir novas versões. Elas valorizam o encontro das subjetividades no território fértil da página em frente. Existe um eixo comum, mais ou menos consensual entre a obra e seu público-alvo, no entanto, cada narrativa possui incompletudes a espera de algum preenchimento.

Um lugar irresistível ao fenômeno leitura transcender-se na direção dos seus inéditos. Assim a obra se atualiza na impermanência dos encontros de autor e leitor. Um endereço ao esboço de originais, por onde se expandem as poéticas da re_escrita existencial.    

*Hélio Strassburger
Filósofo Clínico não filiado à ANFIC

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Sim e não*


O ponto de encontro
Da alma do homem
Com a alma do mundo
É a Psique
Não há encontro sem dor
Não há encontro sem morte
No mais profundo de nós
Os deuses esperam
Só nos jogando
Só nos entregando
Só nos analisando
A vida em sua dialética
Diz Sim!
E mesmo dizendo Não
Se realinha!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Projeto de Prefácio*


Sábias agudezas… refinamentos…
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre…
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.

*Mario Quintana

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Contato com o Bicho de Sete Cabeças*


Artista, louco, rebelde, incompreendido?

O dono da biografia que inspirou o filme "Bicho de sete Cabeças" foi Membro da Comissão de Saúde Mental do Ministério da Saúde e Representante dos Usuários no Conselho Nacional de Reforma Psiquiátrica. Prestamos a ele nossa homenagem, pela passagem do 18 de maio, dia da luta antimanicomial, por ter sido importante ativista na divulgação dos horrores dos tratamentos físicos e maus tratos que denigrem a alma humana e a condição de ser vivente.

Acompanhamos parte da trajetória e trocamos algumas informações com esse artista das letras e dos palcos. Austregésilo Carrano passou confinado por três anos e meio em instituições psiquiátricas do Paraná e Rio de Janeiro, dos 17 até 21 anos. Sobreviveu a 21 aplicações de Eletroconvulsoterapia – choques numa voltagem de 180 a 460 volts aplicados nas temporas. Seu livro “Canto dos Malditos” é um relato fiel sobre as torturas a que foram submetidos os pacientes psiquiátricos dentro dos manicômios, tendo recebido 53 prêmios no Brasil e exterior.

Carrano afirmou no posfácio da última edição de “Canto dos Malditos”: “Ainda espero ser indenizado pelas torturas psiquiátricas sofridas, pela minha condenação aos preconceitos sociais, danos físicos, emocionais, morais, danos na minha formação profissional, danos financeiros, destruição de minha adolescência. E esses meus direitos de cidadão serão cobrados até o fim dos meus dias. Se não conseguir em vida, algum dos meus filhos ficará com essa incumbência. Justiça plena e total é o que exijo, e mesmo depois de morto continuarei a exigir. Não só para mim, exijo essas indenizações para todas as vítimas do holocausto da psiquiatria brasileira, não desistirei por nada nem que leve o resto da minha vida.”

Dias após o lançamento em 1990, o livro foi retirado das livrarias e voltou a ser publicado em 1991, pela editora Lemos, de São Paulo.

“Canto dos Malditos” foi dos poucos livros proibidos depois do fim da Ditadura Militar, tendo sido retirado novamente das livrarias e proibido em todo o território nacional em abril de 2002. Carrano conseguiu na justiça o retorno do “Canto” em setembro de 2004.

Em 2003, Carrano foi homenageado pelo Presidente da República pelo seu empenho na Reforma Psiquiátrica que está sendo construída em todo o Brasil.

Entretanto, todo o empenho e reconhecimento lhe custaram um grande preço em sua terra natal – Curitiba – perseguido por pessoas contrárias a suas ideologias e do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial.
“Da primeira Ação Indenizatória por erro, tortura e crime psiquiátrico no Brasil, de vítima virou réu, em maio de 1999 foi condenado a pagar R$ 60.000.00 aos donos dos manicômios dos quais foi vítima.

Entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal em Brasília. Em novembro de 2003 foi condenado novamente a pagar mais R$ 12.000.00 em vinte e quatro horas, por citar os nomes dos hospícios e dos médicos na imprensa, por estas citações chegou a receber ameaças de morte. Na sentença desse processo seu direito de livre expressão foi cassado, foi proibido de falar o nome de seus torturadores em público, com uma multa de R$ 50.000.00 a cada desobediência jurídica.”

A luta de Austregésilo Carrano Bueno findou parcialmente em 2008, vitimado por câncer no fígado, mas continuamos a divulgação das torturas manicomiais.

Precisamos de rebeldes!

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

terça-feira, 10 de junho de 2014

Congresso Internacional do Medo*


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

*Carlos Drummond de Andrade 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Manual de mim!*


Vou lhe fazer uma pergunta simples: como é que você funciona? Veja que interessante, quando vamos ao médico, com suas ferramentas, conhecimento da fisiologia, anatomia e outras questões mais, ele sabe dizer se estamos funcionando bem ou mal. 

Quando nos relacionamos com outras pessoas, algumas vezes alertamos sobre o que gostamos ou não, o que aceitamos ou não, assim acabamos, até certo ponto, dando uma ideia de como funcionamos. Quando vamos preparar um almoço ou até mesmo comer em um restaurante escolhemos os alimentos de acordo com aquilo que nos faz bem. Quando compramos um shampoo também temos o cuidado de escolher um que possa tratar bem nossos cabelos, não deixar caspa, ponta dupla, ressecado. Todas estas questões mostram que num nível bem básico boa parte das pessoas tem que se conhecer um mínimo possível para viver bem.

Mas, em muitos casos, boa parte das pessoas não se conhece a níveis mais profundos que os colocados acima. Quando pergunto pelo seu funcionamento estou pensando um pouco além. Pense no seguinte: quais pensamentos lhe fazem bem, ou seja, no seu dia-a-dia quais os pensamentos que você deveria evitar, por exemplo. Essas questões levaram algumas pessoas com quem trabalho como terapeuta a fazerem um pedido: “Bem que você poderia elaborar um manual de como funcionamos, assim poderíamos consultar as vezes que tivermos dúvidas a respeito de nós mesmos”. O pedido é interessante. 

A maior parte das pessoas entende que o funcionamento de si próprio se dá de maneira automática, sem que seja necessário fazer nada. No entanto, desde que acordamos até a hora que vamos nos deitar realizamos diversas atividades e muitas delas vão contra o nosso funcionamento.

Para que possamos respeitar o nosso funcionamento existem algumas coisas que podem ser levadas em conta. Vamos começar pelo bem estar subjetivo, quanto que você se sente bem com você mesmo ao longo do seu dia. Outra questão que pode ser observada é se o seu bem estar subjetivo pode ser visto exteriormente, se as pessoas com quem você passa o seu dia veem que você está bem. 

Também é interessante observar se quando você está bem as pessoas ao seu redor também estão bem. Uma recomendação: estar bem consigo mesmo machucando quem está ao seu redor não vale, estar bem consigo mesmo também pode fazer as pessoas ao seu redor estarem bem. Existem muitas outras questões que que poderiam ser observadas para saber se você está bem, mas estas já servem como início.

A partir do momento em que você começa a se observar, provavelmente vai perceber diversas pequenas coisas que antes passavam despercebidas. Algumas delas boas, outras podem ser que nem tanto. Quando isso acontecer, não fique pensando mal de si mesmo, mas veja como algo a ser melhorado. Ao se perceber procure ver como é que você funciona para cada atividade. Quando chega em casa e conversa com a esposa, o assunto lhe faz bem? Se não faz bem, troque de assunto, fale sobre outra coisa. 

Não estou falando de assuntos necessários, mas de assuntos fúteis, como a briga interminável das mulheres na novela. Quando estiver pensando, pense no que está pensando e veja se seus pensamentos lhe fazem bem.

Ao olhar para você mesmo durante alguns dias muitas questões podem aparecer e serem trabalhadas. Muitas delas, com um pouco de paciência consigo mesmo, se pode melhorar sozinho. Quando tiver dificuldade para fazer, peça ajuda: pode ser a esposa, esposo, amigo, uma boa leitura, filme. Caso seja necessário, existem profissionais que podem lhe ajudar. Elaborar um manual de si mesmo é um caminho para se viver melhor.

*Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

domingo, 8 de junho de 2014

A louca da casa*


Já aqui falei num livro fantástico da escritora madrilena Rosa Montero, intitulado: A Louca da Casa, misto de ficção e verdade sobre essa doida que é a imaginação. 

Pois é a respeito de imaginação que hoje trago uma história, quanto a mim, bem bonita. No último LeV (festival de Literatura em Viagem, realizado em Matosinhos), uma das sessões reunia dois físicos – Carlos Fiolhais e Nuno Camarneiro, o segundo ex-aluno do primeiro – que nos brindaram com uma conversa muito interessante sobre a ligação da ciência e dos cientista às artes e à literatura. 

Ficamos a saber que também eles dão importância à beleza (mesmo nas fórmulas matemáticas) e ficam felizes quando a hipótese certa é bonita (às vezes, há proposições tão belas que têm de estar certas, digo eu); mas o físico mais velho contou uma história deliciosa de Einstein, que hoje partilho com os leitores do blogue. 

Interrogado sobre se achava mais importante a imaginação ou o conhecimento, o genial cientista respondeu que, sem qualquer dúvida, a imaginação. E, quando o entrevistador quis saber porquê, explicou esta maravilha: «É que o conhecimento leva-nos de A para B, mas a imaginação leva-nos de A para todo o lado.» Quem sabe sabe.

*Maria do Rosário Pedreira
www.horasextraordinarias.blogs.sapo.pt