quarta-feira, 30 de julho de 2014

Piglia aprisionado*


          Tento escrever meu terceiro romance. A experiência é aflitiva: imitando a improvável domesticação dos animais selvagens, lido com um material que, à minha revelia, a toda hora se transforma e se rebela. Em definitivo: não sou eu quem comando. É muito doloroso aceitar isso. Aceitar que escrever uma ficção é, quase sempre, uma experiência fora de controle. Que o livro segue seu próprio caminho, em absoluta indiferença para com seu autor. Que, quanto mais avançamos, mais contato perdemos.

          Encontro consolo lendo uma entrevista de Ricardo Piglia publicada na revista "Otra Parte". A entrevista se chama: "A narração como iminência do fecho". O remate, ou conclusão, é o enervante destino de qualquer relato. É nele - é a partir dele - que toda a narrativa se desenha e encontra sua forma. Que toda narrativa se forma. "Penso que teríamos que partir da ideia do fecho como lugar de cruzamento entre experiência e literatura". É ali, onde o real enfim se impõe, que um autor ganha uma assinatura e um texto recebe, enfim, sua legitimidade. É ali, na conclusão, que tudo se organiza e ganha corpo.

          Por outro lado, prossegue Piglia, devemos entender o fecho como "uma espécie de constrição, no sentido do Oulipo, isto é, uma condição da forma". Oulipo foi um grupo literário francês que pregou o estabelecimento de regras rígidas como condição essencial para a escrita literária. O Houaiss define a contrição como "uma pressão circular que faz diminuir o diâmetro de um objeto". É essa pressão final, como o arremate de um costureiro, a alinhavada final, que acomoda e organiza toda a dispersão anterior. Até chegar ao fecho, toda a experiência do escritor é de desorganização. É de caos. Só o destino final empresta à ficção sua face. Chega-se, então, nos diz ainda Piglia, não a um sentido abstrato, mas "ao sentido para o sujeito mesmo". Ali uma autoria se ergue e se impõe. Ali o caos se represa e é contido na barreira de um sujeito. O sujeito da ficção. 

          Mas a parte que mais me interessa _ que mais me consola _ na entrevista de Ricardo Piglia é aquela em que ele admite seu absoluto descontrole sobre sua escrita. Cheio de coragem, ele nos diz: "Nunca termino de escrever a história que está na origem da narrativa que escrevo. Sempre estou escrevendo uma história que se converte em outra e a ficção toma uma forma que não estava prevista". O autor pensa que escreve um relato e escreve outro. Pensa que caminha em uma direção, quando na verdade marcha na oposta. Tudo isso é motivo de muita angústia. É a aceitação dessa angústia, porém, que conduz à ficção.Essa experiência de descontrole - que todo escritor sempre experimenta _ é, na verdade, a condição de sua escrita. Sem ela, ninguém escreve.

          Só porque se descontrola e se perde um autor chega a escrever. Só porque não sabe onde está ele encontra, enfim, seu lugar e sua autoria. Essa aflição primordial exige do escritor uma grande paciência. Precisa suportar a cegueira na qual trabalha. Precisa estar disposto a arriscar-se em caminhos que desconhece. Precisa, enfim, se dar uma intensa dose de liberdade interior, ou a escrita emperra. O mais difícil não é, portanto, escrever, mas se conceder essa liberdade. Por isso mesmo, liberdade podia ser o outro nome da ficção.

              Curiosa liberdade, que exige que se passe antes pela experiência de aprisionamento. Mas não podia ser de outra maneira. A liberdade não é tudo, não é ter tudo. A liberdade é a possibilidade de escolher e acessar uma forma. De tomar uma posição, e não outra. O aprisionamento - o limite -, portanto, é condição primordial da liberdade. Sem essa experiência do limite - sem essa experiência da contrição _ ninguém consegue traçar um corpo, seja ele físico, ou literário. Prisão e liberdade estão, por fim, intimamente associadas. Só depois de atravessar uma prisão, um escritor pode encontrar a posse de si mesmo.

*José Castelo 

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