domingo, 31 de agosto de 2014

Suplantando Fronteiras*

           
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
                                     Fernando Pessoa


Transcender é ir além, ultrapassar limites. É a capacidade e o desejo de romper limitações, de superar e violar os interditos.

É o desejo e a capacidade do ser humano para transcender a si mesmo, ou seja, sair de seu estado atual para buscar algo novo. Podemos exemplificar a atitude de Adão e Eva no jardim do Éden como expressão de transcendência, de sua transformação em ser humano. Interessa-nos apontar a transcendência como uma experiência mais sentimental – o apaixonar-se, o êxtase como uma experiência, o deslumbramento diante de uma realidade nova, a admiração, o espanto.

É ceder, se deixar aventurar à outra singularidade. Penetrar e se deixar penetrar. Ir ao encontro do desconhecido rumo, do maravilhoso milagre que habita cada ser. É interligar-se, envolver-se. Despir-se de máscaras e preconceitos. É expressar o melhor de si com autenticidade. É causar emoção, sentindo no íntimo a absorção do milagre da transformação, que ocorre a partir desse belo instante.

Não é possível segurar ou prender as emoções e os pensamentos do ser humano. Rompemos tudo, ninguém nos aprisiona.
O ser humano é um ser desejante e ilimitado. Podemos inquirir: quem preenche esse vazio profundo dentro do indivíduo? Qual é o objeto adequado ao desejo infinito, que satisfaz e traz descanso? Por que desejamos o infinito e só encontramos o finito? Queremos o ilimitado, a totalidade, e só encontramos fragmentos? Aqui se revela o ser humano como um ser protestante e insatisfeito.

Quando Nietzsche anuncia “a morte de Deus”, ele fala do Deus que deve ser eliminado, pois não passa de fantasia ilusória da mente humana; é o Deus inventado, o Deus da metafísica, o Deus que não é vivo. Deus só tem sentido existencial se for resposta à busca radical do indivíduo por luz e caminho a partir da experiência de escuridão e de errância.

Somos seres essencialmente transcendentes. Não nos acomodamos com a realidade. Seguimos em busca de evolução, de satisfazer nossos desejos. Possuímos a capacidade para transcender a nós mesmos, ou seja, de sair do estado atual para buscar algo novo.
Transcender é ir à busca de outro ser para envolver-se em si mesmo. É o processo evolutivo da existência, é relacionar-se VERDADEIRAMENTE com outra essência.

Quando duas singularidades se permitem uma incidência dessa natureza, nenhuma das duas será mais a mesma, visto que invariavelmente, ocorrerão transmutações positivas e desenvolvimento interno. Desse modo, o encontro transcendental permanecerá vivo dentro de cada individualidade, no mais profundo de cada ser, como momento raro e eterno.

Mariah de Olivieri 
Filósofa, Mestre em Filosofia, Artista Plástica, Estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 30 de agosto de 2014

Milagres*


Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem
/amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?

*Walt Whitman

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Muito além do currículo*


Qualquer profissional que já concorreu a uma vaga numa entrevista de emprego deve conhecer a palavra currículo ou curriculum vitae. Pessoas com formação acadêmica geralmente elaboram seu currículo na plataforma online do Lattes, fazendo o que chamam de Currículo Lattes. Este fica a disposição de qualquer instituição, podendo ser acessado via internet. 

De acordo com definições de dicionários e internet currículo significa trajetória de vida, mas como documento de qualificação profissional tem como intenção mostrar de modo sintético as qualificações e aptidões do profissional. As qualificações começam a ser descritas pela formação educacional, com informações tais como: ensino médio ou superior, pós-graduação, mestrado, enfim. 

Dentre as aptidões estão tarefas que a pessoa está apta a realizar, as quais podem ser, entre outras: espírito de equipe, liderança, falar em público, etc. Com poucas palavras e de forma objetiva, o currículo descreve o profissional que será entrevistado e posteriormente contratado.

Há muitos casos em que ocorre a contratação de um currículo: a empresa lê o perfil profissional do indivíduo, sua qualificação e aptidões e encontra o candidato perfeito. O mesmo vai para a entrevista e é visto como um bom profissional para a empresa, mas os selecionadores podem esquecer-se de um elemento muito importante neste caminho. 

Como profissional ele pode ser uma ótima aposta, mas e como pessoa? São comuns os casos onde a organização contrata um currículo maravilhoso, confere a este currículo expectativas e se frustra porque a pessoa por trás da qualificação e aptidão não combina com a organização. É interessante ter o entendimento de que o profissional e a pessoa que ele é não são boas ou más, o que pode ocorrer é o candidato não estar em harmonia com o jeito de ser da organização para a qual foi contratado. Alguns destes profissionais, pela expectativa que foi colocada sobre eles, têm sérios problemas para superar o desligamento.

Ao contratar é importante perceber que há uma pessoa por trás do currículo, que esta pessoa tem seu jeito de ser, é singular. A singularidade da pessoa não é menor que a singularidade da organização, eis a grande questão. Alguns podem alegar que a pessoa é do ramo, trabalhou em outras organizações e conhece o negócio, mas estas outras organizações tinham outro jeito de ser. Uma organização situada em São Paulo, com mil e quinhentos funcionários tem um jeito de ser diferente de uma organização situada em Criciúma com trezentos funcionários. 

Um profissional, por mais que tenha um ótimo currículo, pode não ser uma pessoa que vai se adaptar a viver em uma cidade menor, pode ser uma pessoa que não vai se adaptar à cultura da organização. Para saber se organização e profissional contratado são compatíveis é preciso conhecer a cultura da organização e a pessoa que está vindo, não um perfil de currículo, mas a pessoa por trás deste papel.

As contratações de currículo são ruins para os dois lados. Para o profissional, que pode se frustrar por vir para uma organização onde apesar de sua qualificação, não consegue trazer os resultados e para a organização, pois uma pessoa mal alocada pode gerar um desconforto muito grande aos que serão colegas deste novo profissional. 

É comum acontecer tanto demissão em massa quando pedidos de demissão em massa e, neste processo, tanto organização quanto profissional são prejudicados. A organização por perder seus resultados e o profissional por ficar “queimado” diante do mercado. Como já apontado, para não ferir a pessoa que está chegando na empresa e as pessoas que já estão nela, é importante conhecer o perfil organizacional e da pessoa. Somente assim é possível saber se o contratado (a) fará par com aqueles que já fazem parte da organização.

Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Mapa*


Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

*Mário Quintana

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O sexo começa muito antes da cama*


Antes há de acontecer delicadezas dentro dos olhares

Antes há de entrelaçarem-se corações, almas afins em muitos sins para um caminho aonde a alegria seja o fim de um desejo compartilhado, esperado, sonhado, enfim.

Antes há de acontecer delicadezas dentro dos olhares que vislumbram com clareza e comunicam com certeza, antes, ainda na mesa, que a hora da beleza vem chegando, trazendo de mansinho por meio de elogios sinceros e, ao mesmo tempo, temperados com o ensejo acobertado que apetece os sentidos em busca de momentos, suprimentos, alimentos, alentos para os corpos sedentos.

Antes, haverão beijos em meio ao nada das bocas caladas que não justificarão e nem tão pouco se defenderão do amor que querem sentir com o doce nos lábios molhados do outro, tanto amado, desbravado, despido de todo medo.

Antes, haverá respeito e gosto sincero por um jeito que mesmo parecendo ser defeito, desfeito será, inexplicavelmente, aos olhos do mundo que julga e compõe pares óbvios demais, dessalgados demais, conformados demais, muito longe da riqueza da diversidade que propõe enorme e constante novidade no amor vivido por casais ímpares.

Antes, será necessário arregaçar as mangas, combater a preguiça e o depositar mesquinho da felicidade própria nas mãos do seu amor, que como você, também luta, também busca, também deseja receber. Haverá o cuidado consigo, com o próprio corpo e a própria vida com a intenção de encantar o outro, ainda que com simplicidade e limitações e na medida que antecede o sacrifício penoso de deixar de ser.

Será preciso a dose certa e exata de atenção ao anseio do outro antes do egoísmo, antes da presunção, antes da praticidade da vida cotidiana como prova clara do quanto é importante viver sincronicamente instantes de prazeres que pouco a pouco cristalizam gotinhas de uma intenção verdadeira em permanecer, solidificados e em união até onde existir um comprometimento em se fazerem felizes.

Será essencial, antes de tudo, fique muito claro, ser prazer mútuo inteiro e integral, muito antes que uma necessidade vã de se satisfazer.

Assim, dessas premissas irrelevantes aos céticos quanto à felicidade advinda do amor, mas com validade aos que não vivem sem ele, podemos entender que carinho, admiração, respeito, beleza, desejo sincero e alegria de viver, são componentes essenciais para que um casal chegue à cama e desfrute de um sexo sem amarras nem falsidades, sem anulação e com entrega despojada de qualquer má intenção.

*Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Ofício*


Escrevo para sentir nas veias
o voo da pedra.

Antecipação da paz
neste país de granadas
moldadas
no silêncio dos frutos.

Escrevo como quem escava
no bojo da sombra
um mar de claridade.

Pedras vivas de possibilidade
as palavras levantam
o crime, os pássaros do pântano

Escrevo
no grande espaço obscuro
que somos e nos inunda.

Casimiro de Brito

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Desejos*


Há muito, muito tempo começamos a gestar o micróbio da realidade que temos agora. Os anos calcificaram tanto a percepção até não mais lembrarmos que as agruras enfrentadas são justamente os males um dia pensados, materializados nas condições físicas e materiais do entorno ora vil.

Um ditado para isso: “cuidado com o que desejas, pois pode se realizar”. Naquele tempo, não se sabia do “Segredo”, essa geração espontânea a partir do pensamento. E foi-se, dia após dia, não podendo mudar as circunstâncias nem a si mesmo, elaborando pragas e perjúrios, fornecendo substância para o que seria, no meio da jornada, uma pedra oca a guardar a escuridão.

Numa estrada de terra no meio do quase nada, o motorista diz: “Olhe como são as coisas. Quando eu era menino, ficava andando nas estrada no Ceará, andava muito mesmo; de vez em quando, pegava carona e eu pensava – ainda vou dirigir um carro por essa terra toda. E hoje to aqui, sou motorista”. Por isso a gente precisa planejar o que quer. E livrar-se do mal, que é o mesmo pensamento. Se o desejo afetará negativamente alguém, não pode se realizar, ou será magia negra e virá acompanhado sabe-se lá de que outro pesar.

Ocidente maniqueísta. Parece que tudo vindo do oriente é melhor. A noção do uno, somos todos um. Mas quem é quem está do lado? De que importa viver com a mínima consideração pelos sofrimentos espalhados pelos caminhos, as joaninhas andando lentamente sobre as plantas, igualmente massacradas pelas crianças que pisam nas lesmas, quando não vítimas de sal.

Pois bem, chega um momento em que cada um que envelhece – caso viva tanto – se torna a lesma com sal e já não se volve solene e flexível sobre a terra. A alimentação por ar ou nutrientes e a excreção lhe serão difíceis e aos poucos seu corpo endurecerá como tábua, precisando de ajuda, que é piedade.

Mas cada década revela a menor importância que cada um tem como gente, enquanto não se transforma em cyborg portador de novidades e distrações continuamente, com uma tela na altura dos olhos. É tempo de se recolher e olhar para dentro.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

domingo, 24 de agosto de 2014

Este é o Prólogo*


Deixaria neste livro
toda minha alma.
Este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.

Que compaixão dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam!

Que tristeza tão funda
é mirar os retábulos
de dores e de penas
que um coração levanta!

Ver passar os espectros
de vidas que se apagam,
ver o homem despido
em Pégaso sem asas.

Ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se miram e se abraçam.

Um livro de poemas
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,

e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes mete nos peitos
— entranháveis distâncias. —

O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchadas
de chorar o que ama.

O poeta é o médium
da Natureza-mãe
que explica sua grandeza
por meio das palavras.

O poeta compreende
todo o incompreensível,
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chama.

Sabe ele que as veredas
são todas impossíveis
e por isso de noite
vai por elas com calma.

Nos livros seus de versos,
entre rosas de sangue,
vão passando as tristonhas
e eternas caravanas,

que fizeram ao poeta
quando chora nas tardes,
rodeado e cingido
por seus próprios fantasmas.

Poesia, amargura,
mel celeste que mana
de um favo invisível
que as almas fabricam.

Poesia, o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
chamas e corações.

Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
nossa barca sem rumo.

Livros doces de versos
são os astros que passam
pelo silêncio mudo
para o reino do Nada,
escrevendo no céu
as estrofes de prata.

Oh! que penas tão fundas
e nunca aliviadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam!

Deixaria no livro
neste toda a minha alma...

*Federico García Lorca

sábado, 23 de agosto de 2014

A palavra devaneio*



É incomum notar a existência de algo que restaria silenciado, não fora um olhar absorto, indeterminado, sentir improvável de um sonhar acordado. Esse lugar de refúgio aos desatinos da criação, concede uma estética de acolhimento ao viajante das quimeras.  

Nessa região, onde eventos sem nome rascunham invisibilidades, é possível intuir vias de acesso de essência não epistemológica. Seu teor, ao pluralizar versões desconsideradas, faz acordar aquilo que dormia. Ao desalojar esses fenômenos, desconstrói o aspecto irrealizável das promessas. Seus rastros reivindicam a singularidade alterada para se mostrar. Assim a pessoa, deslocando-se por esses refúgios, ao ser ela mesma, já é outra.

Uma estética do devaneio, ao convidar para o exercício da ficção, oferece achados imprevisíveis. Inicialmente desconfortável nesse chão desconhecido, o sujeito pode vivenciar insegurança, dúvida, receio. No entanto, ao persistir as visitas por esse ambiente especulativo, pode desvendar-se em projetos, reminiscências, criação. Assim, não é raro um transbordamento da irrealidade no mundo real. 
  
Nesse treino de aproximação com o inesperado, algo se acrescenta, se perde, modifica-se ao divagar entre nada e tudo. Sua brisa leve, ao convidar singularidades, redesenha esconderijos, onde o sujeito acorda para seguir sonhando. Quase sempre é improvável saber ser a alma do sonhador, um terreno onde o devaneio acontece. Num endereço habitado por infinitudes, ao tentar descrever-se nos múltiplos fatos, faz desaparecer a realidade como conhecemos, deixando surgir outra, desconhecida.  

Aprender a conviver com as lógicas da inconclusão, da provisoriedade discursiva, do ponto final resignificado em vírgula, pode valer muito. Na relação com a incerteza a alma se permite rascunhar em novas direções. Aqui se cuida de encontrar algum vocabulário para contar, traduzir, interpretar os pensamentos, as ideias, os deslocamentos por onde os inéditos se apresentam. 

Pensando em termos da clínica filosófica, uma viagem interminável elabora seus convites. Quando traduzíveis, encontram, em seu cotidiano, uma base para as construções compartilhadas, um chão aos ensaios, elaborações da subjetividade alterada. Talvez daí consiga desdobrar a irrealidade em obra de arte. Seu teor, ao roçar as dialéticas do absurdo, denuncia eventos de lógica extraordinária.   

*Hélio Strassburger

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A estranha efemeridade do ser*


“Não há fatos eternos como não há verdades absolutas”.
(Friedrich Nietzsche) 

Quanto mais as eras se acumulam, mais a humanidade se esforça para permanecer fantasticamente bizarra. Não importa em que raio do planeta sua representação esteja, ela caminha insondável em praticamente todos os seus aspectos. Ao mesmo tempo em que fascina, surpreende, envolve... também insiste em escapar por entre os véus de uma estranheza que parece não ter fim. E não é interessante que se explique ou se justifique no que quer que seja. O (des)encanto de sua natureza exige que continue obscuro. Talvez em troca da garantia de que permanecerá incompreensível – tanto pela insanidade que cultiva perenemente quanto pela insistência em perseguir a trilha oposta à simplicidade que a faria melhor – aos olhos dos mortais que abriga. 
 
Cabe questionar se a entidade criadora presente no caldo primordial previu todas as diversidades, incongruências, incertezas e improbabilidades presentes na dimensão de sua criatura. Talvez ela também não tenha atentado nem mesmo para o alcance das potencialidades preservadas nas essências que vigoravam nos primeiros sabores da sopa que ainda hoje vertemos. Porque permanecemos aprendizes de como funcionam certos atributos desta desestruturada condição de ser. E, ao que parece, ainda estamos muito longe do ápice. Isso se houver um, é claro. Mais provável é que, tal qual o zero absoluto, ultrapassemos o ponto crítico da sabedoria e mergulhemos confiantes na cratera eterna da insanidade total. 

Quando nos deparamos com o piscar entre os instantes da vida, nos damos conta do quanto ela é singular e efêmera. Percebemos que, afinal, de tudo o que somos e sabemos, talvez nada ou muito pouco de fato importe. É a envergadura de atentar para o presente que convence a vida. Não em detrimento da historicidade ou da instância do porvir, mas para fazer valer o aqui e o agora. Ainda que a percepção da efemeridade do tempo mecânico assuste – tanto pela sua fugacidade quanto pela estranheza – ela igualmente consola. E apesar de toda a racionalidade (ou até mesmo por causa dela), ainda pisamos indecisos nos nossos destinos, na tentativa de manipular até mesmo o que não deve ser violado. Infelizmente as pretensas dignidades podem ser tão insanas e peculiares quanto a própria existência. 

Acordar para o instante cristalizado determina o alcance das predisposições futuras. É preciso significado para perpetuar o que somos. Mas também é vital que a magia não se perca entre as brumas e as voltas por onde brincamos de existir.  Existir demanda criatividade para vazar as raias da loucura que não se esgotam e que se alimentam incessantemente das profundezas de uma primitividade que, no fim das contas, sempre faz questão de se reinventar. 

Luana Tavares
Filósofa, Mestre em Filosofia, Filósofa Clínica
Niterói/RJ

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Duplo*


Olho-me adentro sem cessar e no silêncio
e na penumbra de mim mesmo não me exprimo
nesse mim que se esconde e se retrai no vago
espaço de uma célula e vai construindo
outro mim de mim, disposto em gêmeos compassos,
e não aparece ao olho, ao espelho, à imagem
casualmente em máscara, fechado à curio-
sidade de meus olhos lacerados, cegos
de tanta luz enganosa, nem se derrama
sobre a superfície polida e indiferente,
enquanto cresce em mim a presença de estranho
ser não eu, de irrevelada e própria pessoa,
que domina esse meu corpo, casca de angústia
e contradições simétricas envolventes,
e me explora e me assimila; mas sou eu só
a me percorrer e nele me vejo e sinto,
como de dois corpos iguais matéria viva,
e me faço e refaço e me desfaço sempre
e recomeço e junto a mim eu mesmo, gêmeo,
nada acabo e tudo abandono, dividido
entre mim e mim na batalha interminável...

*Fernando Py

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Guga...*


Não há o que fazer. Acontece, assim, sem querer, o apaixonamento. Num movimento. Vem e fica. Toma conta e tudo significa. Pelo tempo que precisar. Com a intensidade necessária.
Pois é, devo confessar. Estou me apaixonando por um homem!! Um menino. Meu neto.
Encontramo-nos, então, olhando um para o outro. Por instantes. Que se prolongam por minutos. E por meias horas. Olhares que tranquilizam. E falam tanto. Brilham os olhinhos dele. E fazem brilhar os meus. O que se passa nesta cabecinha? Não se precisa de respostas....
O tempo para. Diante de um olhar assim puro e inocente. Está aprendendo a sentar. A descobrir o mundo. Tudo ao redor. Construindo suas primeiras palavrinhas. Ainda em forma de sons. Que já podem ser entendidos. Ou imaginados....
Sinto-me assim: netinhos e avôs constroem mundos que somente eles entendem. Pelo olhar. Percebo-me voltando a ser criança outra vez. Faz muito sentido nesta etapa da vida.
Assim me vejo, imaginando, que nos entendemos. E nos entendemos mesmo. O que , porventura, não compreendemos, aceitamos. E deixo-me viajar:
"Ele viverá o final do primeiro século do ano 2000. Como será o mundo em 2100....????
Recobro-me e decido semear esperanças e olhares bondosos. Para nós é o suficiente, por enquanto....

*José Mayer
Filósofo, estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade*


Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
                         como cousas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

*Fernando Pessoa in versão Alberto Caeiro

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

As palavras*


As palavras têm asas
Voam para o mundo
Levam e trazem sonhos
Constroem ninhos
De poesias e prosas
Nos livros e escritos
Cantam e encantam
Pousam na alma dos escritores
E se transformam em pássaros
Hoje é nosso dia!
Amém a todos que se encontraram
E, nas palavras levantaram voo.

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/JF 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Do que nada se sabe*


A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstrato xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

*Jorge Luis Borges

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Literatura anônima*


Escrita, pichada, falada.
Nos muros, nos lares, nos bares, nos mundos.
De direita, de esquerda, pelega, reacionária.
De amor, de dor, de horror, de flor.
Inventada, copiada, esculpida e aclamada.
De ninguém, de todo mundo.
Pra ninguém, pra alguém.
Direta ou indireta, clara ou obscura.
Que fala de algo, que não fala de nada.
Que escuta, que sussurra, que apanha, que esmurra.
Com uma palavra só, com palavras sem dó.
Musicada ou palavreada.
Com licença fonética.
Nos ônibus, trens, metrôs, barcas, aviões.
Nas paradas, nas estações, nos embarques e desembarques.
Sem graça, engraçada, politizada, despreocupada.
Sobre sexo, maconha, rock ’n’ roll.
Em uma imagem fotografada, pensada, sonhada, pintada.
Literatura não é só palavra.
Literatura não é só conto, poema, verso ou prosa.
Ela está em lugar-nenhum e está em todos os lugares.
Assinada ou não ela sempre será literata.

*Vinicius Fontes
Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ