sábado, 23 de agosto de 2014

A palavra devaneio*



É incomum notar a existência de algo que restaria silenciado, não fora um olhar absorto, indeterminado, sentir improvável de um sonhar acordado. Esse lugar de refúgio aos desatinos da criação, concede uma estética de acolhimento ao viajante das quimeras.  

Nessa região, onde eventos sem nome rascunham invisibilidades, é possível intuir vias de acesso de essência não epistemológica. Seu teor, ao pluralizar versões desconsideradas, faz acordar aquilo que dormia. Ao desalojar esses fenômenos, desconstrói o aspecto irrealizável das promessas. Seus rastros reivindicam a singularidade alterada para se mostrar. Assim a pessoa, deslocando-se por esses refúgios, ao ser ela mesma, já é outra.

Uma estética do devaneio, ao convidar para o exercício da ficção, oferece achados imprevisíveis. Inicialmente desconfortável nesse chão desconhecido, o sujeito pode vivenciar insegurança, dúvida, receio. No entanto, ao persistir as visitas por esse ambiente especulativo, pode desvendar-se em projetos, reminiscências, criação. Assim, não é raro um transbordamento da irrealidade no mundo real. 
  
Nesse treino de aproximação com o inesperado, algo se acrescenta, se perde, modifica-se ao divagar entre nada e tudo. Sua brisa leve, ao convidar singularidades, redesenha esconderijos, onde o sujeito acorda para seguir sonhando. Quase sempre é improvável saber ser a alma do sonhador, um terreno onde o devaneio acontece. Num endereço habitado por infinitudes, ao tentar descrever-se nos múltiplos fatos, faz desaparecer a realidade como conhecemos, deixando surgir outra, desconhecida.  

Aprender a conviver com as lógicas da inconclusão, da provisoriedade discursiva, do ponto final resignificado em vírgula, pode valer muito. Na relação com a incerteza a alma se permite rascunhar em novas direções. Aqui se cuida de encontrar algum vocabulário para contar, traduzir, interpretar os pensamentos, as ideias, os deslocamentos por onde os inéditos se apresentam. 

Pensando em termos da clínica filosófica, uma viagem interminável elabora seus convites. Quando traduzíveis, encontram, em seu cotidiano, uma base para as construções compartilhadas, um chão aos ensaios, elaborações da subjetividade alterada. Talvez daí consiga desdobrar a irrealidade em obra de arte. Seu teor, ao roçar as dialéticas do absurdo, denuncia eventos de lógica extraordinária.   

*Hélio Strassburger

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