quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Antes de adormecer o corpo, é preciso convencer a alma*


Durante anos trabalhando como anestesiologista, acompanhei milhares de pacientes e aprendi que é possível planejar a qualidade do sono que lhes  é oferecido. No inicio da profissão, realizava o procedimento de maneira estritamente técnico-científica. Instalava um cateter no braço do paciente, injetava o anestésico, fazia-o dormir,  mantinha seus sinais vitais estáveis, e, finalmente,  acordava-o devolvendo-lhe o controle de sua vida. Fazia o papel de uma sentinela que zelava pela segurança física durante o sono involuntário.

De tanto observar o sono alheio, percebi que nem todos adormeciam da mesma maneira, e nem todos despertavam igual. Mas isto não tinha nada a ver com o tipo ou dose de anestésico que estava utilizando. O estado emocional dos pacientes é que fazia a diferença no  dormir e acordar.

Enquanto uns se entregavam ao sono, outros resistiam. Enquanto alguns dormiam serenamente, outros se agitavam. Enquanto outros aparentavam felicidade, outros mais estavam contraídos e lacrimejando. Aprendi também que se o sono for bom, o acordar é melhor ainda. O contrário também é válido, aqueles que vão dormir intranqüilos, não terão paz e o sono será um verdadeiro castigo. Acordarão massacrados e enfrentarão um péssimo dia seguinte. Quem dorme com dúvidas, passa o dia sem certezas. Por conta de tudo isto, passei a encarar o sono como algo sagrado e me preocupar com o ritual da entrega ao sono.

Nunca vi um paciente dormir tranqüilo e acordar chorando. A exceção a esta regra são os pesadelos. Por outro lado, quase todos que dormem angustiados e chorando, acordam da mesma maneira. Adormecer em paz  é um privilégio. Às vezes é preciso dormir, dormir muito. Não para fugir, mas para descansar a alma. Quando se dorme bem, volta-se a ser criança, como se houvesse um refúgio, um lugar secreto na vida em que os pensamentos adormecem e os sonhos despertam.

Alguns até fazem um trocadilho dizendo que é dormindo que acordamos os sonhos, pois é justamente quando se perde a consciência, que os sonhos têm o poder de despertar emocionalmente aqueles que conscientes encontram-se em sono existencial profundo, quase em coma. Dizendo de outra forma, é dormindo que relaxamos e deixamos as emoções livres para se manifestar através dos sonhos. O sonho é para a alma aquilo que o sono é para o corpo.

Fisicamente falando, não tenho dúvida alguma de que para um paciente dormir tranqüilo é preciso estar seguro de que não será molestado, roubado em seus pertences, e que acordará novamente em condições iguais as que foi dormir. Quem dorme está indefeso, frágil, a mercê, e nunca  pode ter certeza do que vai acontecer enquanto dorme.  Emocionalmente,  o dormir é mais trabalhoso e difícil de generalizar.

Lembram quando éramos crianças? Nossos pais contavam histórias e cantavam na hora de dormir. Repetiam as histórias ou nós mesmos pedíamos que repetissem. Não cansávamos de escutar. .A história não era importante, queríamos alguém ao nosso lado. Não queríamos dormir sozinhos, precisávamos estar seguros que seriamos cuidados enquanto dormíamos.  A função da canção de ninar e das histórias era tirar o medo a fim de que o sono fosse tranqüilo.

Quem dorme volta a ser criança. Frágil, carente, ansiosa, medrosa. Por isto, na hora de anestesiar assumo o papel de pai e mãe. É minha função fazer da conversa pré operatória uma canção de ninar. Transformar a  sala de cirurgia, fria e impessoal, em um berço aconchegante. Segurar na mão do paciente enquanto dorme e assegurar que vou continuar ao seu lado até que abra os olhos novamente e acorde.
Não é qualquer pessoa que tira o medo de dormir de uma criança. Não é qualquer conversa que espanta o medo de um paciente e o faz dormir tranqüilo. Não é bom dormir enquanto não houver paz. É preciso transmitir acolhimento, carinho, compaixão, envolvimento. Antigamente anestesiava apenas o corpo fisico, hoje converso e peço licença à alma antes de fazer o corpo adormecer.  Dependendo de como se diz, um "dorme bem" vale muito. O paciente dorme e acorda sorrindo.

Este artigo foi escrito originalmente visando o paciente anestesiado num leito hospitalar, mas os cuidados valem para todos os  tipos de camas, sofás, redes, tapetes. Durma bem, conta comigo, te vejo amanhã, te amo, são palavras que quando entregues sinceramente, funcionam melhor que anestésicos. Despertam a alma.

*Ildo Meyer
Médico, Escritor, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

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