segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Desejos*


Há muito, muito tempo começamos a gestar o micróbio da realidade que temos agora. Os anos calcificaram tanto a percepção até não mais lembrarmos que as agruras enfrentadas são justamente os males um dia pensados, materializados nas condições físicas e materiais do entorno ora vil.

Um ditado para isso: “cuidado com o que desejas, pois pode se realizar”. Naquele tempo, não se sabia do “Segredo”, essa geração espontânea a partir do pensamento. E foi-se, dia após dia, não podendo mudar as circunstâncias nem a si mesmo, elaborando pragas e perjúrios, fornecendo substância para o que seria, no meio da jornada, uma pedra oca a guardar a escuridão.

Numa estrada de terra no meio do quase nada, o motorista diz: “Olhe como são as coisas. Quando eu era menino, ficava andando nas estrada no Ceará, andava muito mesmo; de vez em quando, pegava carona e eu pensava – ainda vou dirigir um carro por essa terra toda. E hoje to aqui, sou motorista”. Por isso a gente precisa planejar o que quer. E livrar-se do mal, que é o mesmo pensamento. Se o desejo afetará negativamente alguém, não pode se realizar, ou será magia negra e virá acompanhado sabe-se lá de que outro pesar.

Ocidente maniqueísta. Parece que tudo vindo do oriente é melhor. A noção do uno, somos todos um. Mas quem é quem está do lado? De que importa viver com a mínima consideração pelos sofrimentos espalhados pelos caminhos, as joaninhas andando lentamente sobre as plantas, igualmente massacradas pelas crianças que pisam nas lesmas, quando não vítimas de sal.

Pois bem, chega um momento em que cada um que envelhece – caso viva tanto – se torna a lesma com sal e já não se volve solene e flexível sobre a terra. A alimentação por ar ou nutrientes e a excreção lhe serão difíceis e aos poucos seu corpo endurecerá como tábua, precisando de ajuda, que é piedade.

Mas cada década revela a menor importância que cada um tem como gente, enquanto não se transforma em cyborg portador de novidades e distrações continuamente, com uma tela na altura dos olhos. É tempo de se recolher e olhar para dentro.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

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