domingo, 31 de agosto de 2014

Suplantando Fronteiras*

           
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
                                     Fernando Pessoa


Transcender é ir além, ultrapassar limites. É a capacidade e o desejo de romper limitações, de superar e violar os interditos.

É o desejo e a capacidade do ser humano para transcender a si mesmo, ou seja, sair de seu estado atual para buscar algo novo. Podemos exemplificar a atitude de Adão e Eva no jardim do Éden como expressão de transcendência, de sua transformação em ser humano. Interessa-nos apontar a transcendência como uma experiência mais sentimental – o apaixonar-se, o êxtase como uma experiência, o deslumbramento diante de uma realidade nova, a admiração, o espanto.

É ceder, se deixar aventurar à outra singularidade. Penetrar e se deixar penetrar. Ir ao encontro do desconhecido rumo, do maravilhoso milagre que habita cada ser. É interligar-se, envolver-se. Despir-se de máscaras e preconceitos. É expressar o melhor de si com autenticidade. É causar emoção, sentindo no íntimo a absorção do milagre da transformação, que ocorre a partir desse belo instante.

Não é possível segurar ou prender as emoções e os pensamentos do ser humano. Rompemos tudo, ninguém nos aprisiona.
O ser humano é um ser desejante e ilimitado. Podemos inquirir: quem preenche esse vazio profundo dentro do indivíduo? Qual é o objeto adequado ao desejo infinito, que satisfaz e traz descanso? Por que desejamos o infinito e só encontramos o finito? Queremos o ilimitado, a totalidade, e só encontramos fragmentos? Aqui se revela o ser humano como um ser protestante e insatisfeito.

Quando Nietzsche anuncia “a morte de Deus”, ele fala do Deus que deve ser eliminado, pois não passa de fantasia ilusória da mente humana; é o Deus inventado, o Deus da metafísica, o Deus que não é vivo. Deus só tem sentido existencial se for resposta à busca radical do indivíduo por luz e caminho a partir da experiência de escuridão e de errância.

Somos seres essencialmente transcendentes. Não nos acomodamos com a realidade. Seguimos em busca de evolução, de satisfazer nossos desejos. Possuímos a capacidade para transcender a nós mesmos, ou seja, de sair do estado atual para buscar algo novo.
Transcender é ir à busca de outro ser para envolver-se em si mesmo. É o processo evolutivo da existência, é relacionar-se VERDADEIRAMENTE com outra essência.

Quando duas singularidades se permitem uma incidência dessa natureza, nenhuma das duas será mais a mesma, visto que invariavelmente, ocorrerão transmutações positivas e desenvolvimento interno. Desse modo, o encontro transcendental permanecerá vivo dentro de cada individualidade, no mais profundo de cada ser, como momento raro e eterno.

Mariah de Olivieri 
Filósofa, Mestre em Filosofia, Artista Plástica, Estudante de Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

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