segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O verdadeiro significado de uma produção artística*


A verdadeira arte só encontra força para germinar em meio ao caos, ao desespero e a confusão.
André Cardoso Czarnobai

A arte trabalha com signos, ícones que atravessam nossos sentidos e se dirigem ao inconsciente. Cada vez que acontece a manifestação artística através da produção de uma obra, o artista deseja, entre tantas coisas, extirpar seus demônios; essa é a maneira que ele encontra para se expressar; sendo um perscrutador de caminhos, desnuda sua alma.

Marcel Duchamp afirma que o artista tira as certezas, mas sem colocar outras no lugar das que desaparecem, ele é um eterno buscador de novos paradigmas; provocando através da observação de sua obra a procura por um novo olhar, tão urgente em um mundo ávido por formas criativas de comunicação.

O artista desenvolve e torna visível um universo próprio; mantendo sua inquietação através de sua obra, buscando em seu cotidiano elementos que se tornaram invisíveis ao olhar humano, muitas vezes desavisado e rotineiro, tornando-os novamente visíveis.

Para haver a criação artística é necessário que o artista possua capacidade de entrega e de diversidade, aliados ao conhecimento de técnicas diversas, para que ocorra o exercício dessa expressão. Desse modo o artífice permanece fiel a si próprio, porém se concede redefinidas inovações, soltando a imaginação e permitindo que a criatividade o possua inteiramente.

Através da produção artística, o artífice tenta organizar o caos interior profundamente instalado em seu íntimo, transformando sentimentos em objeto; sua obra expõe toda a expiação transmutada no fazer aquele objeto.

Neste ponto de nosso entendimento podemos inquirir: haverá realmente uma criação genuína? De onde são resgatados os símbolos contidos na obra?

Por meio de sua criação, o fazedor é movido pelo prazer da experimentação e pela incessante busca de aspectos originais do cotidiano, traduzindo e corporificando seus sentimentos através de sua obra. Em cada objeto nascido das entranhas do artista, fica gravado um quê de sua alma e repare que esse indivíduo nunca não é o mesmo de instantes atrás, pois está em constante evolução.

Seu mais recôndito anseio é estreitar o diálogo entre ele e sua obra, fazendo brotar o rico universo das sensações; dessa maneira a emoção vivida se corporifica.

Inúmeras vezes o artista não tem a pré-ocupação em ser entendido, aceito ou admirado; sua motivação mor é a auto-expressão. Toda a experiência vivida no cotidiano remete-o a seu íntimo, ao epicentro de si e torna-se fonte de inspiração; é assim que ele produz, atribuindo significados ao mundo através de sua obra.

Qual o sentido para o fazedor de uma obra de arte? Acreditamos que acima de tudo, seja o de preencher um vazio, profundamente existencial, pois todo artista é um ser complexo, assoberbado de emoções, inúmeras vezes contraditórias; no momento em que as expressa, já não se sente tão atormentado por elas.

O artista nos alicia a ver que a percepção tem algo de único e pessoal, e assim nos inclui no momento presente, abertos a intuir seus desdobramentos futuros; ele nos convida a aguçar nossa percepção – pois cada indivíduo é oportunizado a alargar seus horizontes, através do sentimento desperto pela obra.

O artífice busca desmanchar qualquer sentido que se insinue, para que, ao contemplarmos sua criação, retornemos à percepção; esse é o traço humano que devemos eleger, traço não óbvio e nada figurado, porém urgente num mundo carente de tal qualidade.

A produção artística retira a solução, para colocar ao espectador – a cada um de nós – a tarefa de perceber sua própria busca por sentido, no olho que olha e no espírito que sente.

Adorno profetiza a busca da felicidade através da arte. Sabemos que nada fala mais forte em favor da arte: o diálogo da alma da obra com o espectador é esse seu fidedigno sentido.

*Mariah de Olivieri
Filósofa. Mestre em Filosofia. Artista Plástica. Poeta. Estudante de Filosofia Clínica na Casa da Filosofia Clínica em Porto Alegre/RS 

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