terça-feira, 14 de outubro de 2014

A palavra indefinida*



Existe uma infinidade de expressividades alojadas nalgum ponto entre a percepção de uma quase ideia e sua adequada manifestação. Esse discurso persegue a ordem  de um caos. Nele os subterfúgios se destacam das evidências objetivadas pela definição. Sua tez de promessa extraordinária permanece em aberto. 

É possível ser o convívio com as lógicas da desrazão, a fonte de onde jorra a matéria-prima em busca de descrever-se. Numa atitude de estado nascente, sua inexatidão aproxima a inteligibilidade do absurdo discursivo. Sua noção descortina-se nas páginas da originalidade por vir.  

Um relato assim, longe de instituir fechamentos, refere uma atitude de não-propriedade em relação ao conhecimento. Seu discurso inacabado aguarda preenchimentos. As clausuras recém desconstruídas, acolhem as dúvidas, abrigam especulações irrefletidas. Num traço assim descrito, a ressonância dos deslocamentos pessoais permanece em aberto, parecem querer dizer sobre a presença de uma ausência. 

Nessa poética do desassossego, o termo indefinido permite desdobramentos para além da página inicial. Seu teor exibe tentativas para apreender eventos desconhecidos. Ao admitir novas versões ao que se considerava sabido e definitivo, uma atitude de estranheza reconhece no cotidiano, aquela região de onde se pode re_nascer por inéditos apontamentos. Os manuscritos que resultam desse convívio com o inesperado, perseguem uma lógica das lacunas, dos deslizes da epistemologia convencional.

Por essas confidências de um texto em aberto, algumas noções se apresentam na caricatura do novo território, esboço de uma arte da experimentação as singularidades. Sua provisória nitidez, ao permitir focar e desfocar verdades, concede a ampliação do vocabulário.  

Ao abrigar vertigens, olhares de soslaio, intuição e demais manifestações ainda sem tradução, esse jeito de se pronunciar anuncia ditos de exceção. Assim a palavra indefinida, acolhendo a pluralidade de fenômenos, qualifica a interseção com a eternidade de cada instante.  

*Hélio Strassburger

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