sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A palavra reminiscência*


   
Em uma recordação se pode reescrever fatos, reviver memórias esquecidas, alterar evidências, efetivar desconstruções, reconstruções, reinventar a própria estória. Sua matéria-prima, ao mesclar-se com a ótica atual, é capaz de apontar novas interseções, propor inéditos achados. Inicialmente por fragmentos sem conexão aparente, esses relatos apreciam multiplicar-se, emancipar periferias, descrever vontades marginais. 

Ao rememorar eventos, esses já são outros eventos. As novas ideias, representações, vivências, ainda na perspectiva subjetiva, podem promover modificações de grande alcance no cotidiano de cada um. Esse movimento permite a contemplação das próprias ideias em deslocamento na malha intelectiva, alternância de endereços existenciais.   

É comum as antigas referências de lugar, tempo e demais circunstâncias, expressarem, ao olhar atualizado, um território de verdades estranhas, as quais, ao transbordar num aqui_agora, já são outras. Assim, as relembranças, em sua reapresentação, descrevem a transformação que a estrutura pessoal teve de realizar para sobreviver. 

A aptidão de rememorar, ao transportar e modificar representações, esboça uma arte para decifrar incógnitas. Ao ser ativada pelas narrativas da historicidade, pode contribuir para qualificar buscas, verdades, compartilhar roteiros. Essa nostalgia, por si só, pode se encaminhar em vários sentidos: desviar, retomar, acrescentar. Assim, é possível acordar o que dormia ou adormecer o que acordava.

O imenso território da estrutura de pensamento aprecia essa dialética, por onde experiencia novos lugares dentro de si. A palavra reminiscência acolhe e desenvolve múltiplas conjugações de fatos, sua aventura descritiva se movimenta em várias direções. Os eventos desconsiderados numa época podem ser resignificados em outra, adquirindo nova conformação existencial.  

Seu teor, como chão de possibilidades, pode ampliar a medida de todas as coisas em cada um, nele a fantasia se permite ensaiar novas realidades, favorecer a exploração de improváveis territórios, conceder estéticas de transformação insensível.  

A arte da reminiscência também é uma confidência muito íntima. Um ponto de interseção da historicidade empírica com sua atualização discursiva. Uma atividade para revisitar os arquivos pessoais esquecidos, desmerecidos, por onde a natureza de algo improvável possa se expressar. 

*Hélio Strassburger  

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