quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A(pro)fundando Narciso*












Inclino-me uma vez mais sobre Narciso. 
Para tentar entendê-lo. Ou salvá-lo...
Narciso puniu-se a si mesmo por ter se olhado no reflexo das águas. 

Não parece ser tão simples assim. Parece que Narciso perdeu-se a si mesmo por não ter conseguido mais sair deste movimento fixo. Movimento que saía de si mesmo e retornava sobre si, sem nada lhe acrescentar. Preferiu sua própria imagem, oca e vazia, a si mesmo. Tentou buscar-se onde ele se via, isto é, onde ele não era. Nada mais desviaria seu olhar sobre si mesmo.

Acontecia assim: Narciso sorria e a imagem lhe sorria. Chorava e a imagem vertia-lhe uma lágrima. Aproximava-se ou se afastava do espelho das águas e a imagem lhe retribuía com o mesmo movimento de aproximação ou de afastamento. Ensaiava um abraço e sua imagem retribuía-lhe de braços abertos. Porém, Narciso não se sentia abraçado...

Narciso tornou-se refém da armadilha de um olhar que nada mais lhe acrescentava. Imagem sem substância, que se desfazia com o redemoinho das águas ou do toque de sua mão sobre o espelho das águas. Duplo sem corpo.

Tentou ainda falar. Mas falava consigo mesmo. Somente a ninfa Eco lhe repetia o final de sua própria fala, do fundo das cavernas.

Narciso dizia: "Existe alguém perto de mim?"
E eco respondia: "De mim"
Narciso falava: "Alguém mais poderia me amar?"
E eco duplicava: "Me amar"

Imagem e fala sem substância e vazias...

Se, ao menos, seu reflexo pudesse lhe mostrar e advertir outra coisa além do seu duplo falso. Talvez o persuadisse a abandonar-se e desviar o seu olhar. Para começar a agir. E direcionar-se para o mundo que o cercava. E volver o seu olhar para o Outro, que significaria a sua existência.

Salvaria a si mesmo, abandonando-se de si...

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Estudante de Filosofia Clínica na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

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