domingo, 30 de novembro de 2014

Roupas velhas, vida nova*


Quando a dor impede dormir e se resolve a escrever pouquinho, pode-se chegar a uma tentativa de regeneração. Falam sobre reinventar. Revi essa palavra num cartão com a linda fênix de fogo subindo ao céu....

Sim, se pode reescrever o passado. A tentativa de ser outra pessoa persiste. Afinal, Por todos os lados se propaga a famigerada correção.

O passado que nos fez ser quem somos! Para deixarmos de sê-lo há que se resignificar vivências, memórias e valores, embora estes estejam mais próximos ao essencial e ao presente... ou estariam ancorados em eventos mudos para o dia de hoje?

Procura-se a chave da prisão da casa-corpo. Procura-se a vida nas dimensões sutis quando a matéria é campo minado.

Os alunos percebem que além da letra há o intertexto, o contexto, a intenção, a entonação e a falácia. Os mundos dentro de mundos sugam para o interior do redemoinho o espírito indócil.

Fatalmente, as roupas velhas, ainda no corpo, já não servem mais.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

sábado, 29 de novembro de 2014

Uma noite*


o tio cuspia pardais de cinco em cinco minutos.
esta grama de lágrimas forrando a alma inteira
(conforme se diz da jaula de nervos)
recebe os macios passos de toda a família
na casa evaporada

mais os vazios passos
de ela própria menina.

a avó puxava linhas de cor de dentro dos olhos.
uma gritaria de primos e bruxas escalava o vento
escalpelava a tempestade
pedaços de romã podre
no bolor e charco do tanque.

o pai conduzia a festa
como um barqueiro
puxando peixes mortos

nós
os irmãos
jogávamos no fogo
dentaduras pétalas tranças
fotografias cuspes aniversários
e sempre
uma canção
só cal e ossos
a mãe de nuvem parindo orquídeas no cimento.

* Afonso Henriques Neto

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A palavra território*



Existe um lugar_esconderijo diante de cada possibilidade. Nele as singularidades deixam entrever vontades, ensaios, buscas. Com os termos agendados descrevem um ser determinado. Desse endereço de onde exercita-se existencialmente, a pessoa elabora rituais, se apropria de atitudes, pensamentos, indica regiões da subjetividade, propõe uma gerencia para manutenção de seu entorno.  

Ao localizar existencialmente esse vislumbre de um chão por traduzir, o sujeito, em seus desdobramentos cotidianos, refere a expressividade como chave de acesso à essa intimidade, nem sempre acessível diretamente. Seu teor concede a duração possível para ser esboço. As possibilidades da linguagem derivam do contexto onde a pessoa vivencia seus dias e noites. 

Nessa geografia, impregnada de eventos nem sempre localizáveis, é possível visualizar fronteiras, descobrir um continente a se mover. Assim a realidade se institui, significa-se, desdobra-se em deslocamentos imprevisíveis. Seu aparecer inédito, contrapõe-se à previsibilidade e domesticação. A crise, nesse contexto de pretensão definitiva, costuma se instalar com o surgimento de ideias, sentimentos estrangeiros, evasivas, delírios precursores.   
  
Uma confluência de gestos, menções, ideias sobre as delimitações do possível, ao desconsiderar a utopia, costumam alimentar a fome de irrealidade. Os eventos assim classificados, instituídos por alguma forma de decreto, indicam clara e objetivamente até onde se pode chegar. Antecipadamente, se pode circunscrever, mapear, tipologizar a pessoa contida nos limites da palavra território. Nesse sentido, o hábito, quando corrompido pela surpresa, tende a reagir contra as ameaças da transgressão.

Esse fundamento, ao contribuir para a identidade singular, também pode rastrear princípios de verdade. Ao tornar visível esse mundo subjetivo, pode-se incorrer na equivocidade de crer ter visto tudo o que existe.  

Sua presença desconhecida se insinua nos deslizes à nova realidade. A mescla das águas do rio com o mar, antecipam a integração do antigo com o novo, restando, momentaneamente, um caos a embalar travessias. A distorção, o erro, a contradição, possuem um caráter de afrontar os limites conhecidos. Dessa coexistência problemática vão surgindo os rumores do vocabulário síntese. 

Ao mesmo tempo em que permite a percepção das finitudes, traz consigo a infinidade de possíveis. Um paradoxo que se alimenta da fuga das contradições, enquanto aguarda ser incapaz repetir-se. Assim pode situar tramas discursivas, entender a origem dos relatos, desdobramentos pessoais, oferecer uma leitura apropriada para ampliar o olhar.   

Nesse espaço investigativo, a releitura denuncia a obra em nova perspectiva. Por esse caminho descritivo, interpretativo, analítico, se pode detectar o contexto de onde brotam as palavras. Talvez a reflexão sobre a palavra território, contribua com a subversão a ampliar fronteiras.   

*Hélio Strassburger

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Bem no fundo*


No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

*Paulo Leminski

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Num passe de mágica*


Amar nos ajuda a compreender palavras e silêncios; momentos e atitudes. E isso, nos convoca a perceber que por teimosia da precariedade da observação, às vezes, podemos dar passos dissonantes, mesmo estando dentro de caminhos repletos de boas consonantes, que surgiram tão somente para nos promover e libertar. E podemos sim, deixar passar ou abraçar oportunidades que nunca virão ao acaso nos convidando à transcendência ora lado a lado, ora a quatro mãos. Porventura, o mais sábio a fazer possa mesmo ser começar agora, de onde estivermos, na condição que estivermos, simplesmente fazendo o melhor que pudermos, sem desmerecer o cuidado com o nosso coração para que o amor e a paz nos faça transbordar e florescer em dias lindos. Na verdade, quando transcendemos pelo menos uma vez, instantaneamente, como num passe de mágica, percebemos que julgar o outro nunca o definirá, mas sempre servirá para revelar a verdadeira face do opressor. Enfim, um grande segredo para sermos felizes, condiz com o exercício de aprendermos a investir e nos importar mais com quem realmente se importa conosco. Musa!

*Pablo Mendes
Filósofo, Filósofo Clínico, Professor Universitário, Músico, Poeta.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Fenomenologia de fragmentos*









“A utopia é o campo do desejo, diante da Política, que é o campo da necessidade.” Roland Barthes


A irreverência de Nietzsche, em fazer a transvaloração de todos os valores levou o filósofo a transbordar o século XX com aforismos, e um estilo de pensar sem as rédeas da cavalaria oficial do pensamento racionalista.

A idiossincrasia do pensador, dado à polêmicas, foi o que estigmatizou-o, porém seu estilo é uma nova forma de pensar a realidade. Atrevidamente sempre atentou contra a moral. No Crepúsculo dos Ídolos, o pensador ataca:

"Se nós, os imoralistas, causamos dano à virtude? Tanto quanto os anarquistas o fazem aos príncipes. Só depois que se atira contra eles é que eles voltam a estar firmemente assentados em seu trono. Moral da história: é preciso atirar contra a moral."

É preciso passar da lógica cartesiana, aristotélica para uma nova forma de pensar a cultura.
Michel Maffesoli, herdeiro do pensamento fenomenológico e da sociologia compreensiva, faz a crítica à modernidade de forma lúcida. Sem vacilar, num estilo próprio, o sociólogo fará o contorno crítico do pensamento do século XX. Por que contorno? Maffesoli se vale dá mais autêntica tradição nietszchiano de escrever no traço de Bataille.

Na linha marginal do pensamento, o sociólogo faz a crítica do pensamento moderno à crítica de sua valoração teleológica. Aquilo que Bataille retira de Nietzsche para ver o mundo cristão com sua moral, Maffesoli o faz na sociologia e na política para desconstruir a projeto salvador do pensamento moderno.

A unidade e a linearidade são partes de um todo, de um projeto moderno que compõem o ideário moderno. A nova sociologia, se é que se pode dizer, é justamente pôr em cheque o postulado da totalização do sujeito em nome de uma moral teleológica.

O cotidiano é a matéria prima. O estar-juntos pressupõe a polissemia na pluralidade e nas contradições. O que na modernidade juntava, unia através da razão, na sociedade contemporânea é separado. Depois une-se o orgiástico no coletivo tribalizado e o estético, filho da cultura de massas, se emancipa

"E o estetismo estigmatizado pode ser justamente uma sensibilidade teórica, que nos permita apreciar a beleza da desordem aparente, sua fecundidade também.(...) Ao contrário do moralismo, o estetismo remete a uma forma de assentimento à vida. Nada do que compõe deve se rejeitar. É um desafio por aceitar." (No fundo das aparências. p.49)

O espírito dionisíaco permite esse novo homem a sentir a arte. Esse é homem que surgiu nas ruas de Paris com Baudelaire. Perpassa o século XX com Camus, antes na cartografia dos fenômenos de Benjamin que decorre nas passagens da cidade, como quem pinta ou capta as imagens de uma época através dos fenômenos e dos sonhos dos passantes.

Maffesoli é o sociólogo da fenomenologia cotidiana, sabe como tratar com um dos paradigmas mais caro para à modernidade, a política. Aqui perfaço a política do corpo como a extensão de todas as sobras políticas, os restos como residual e clareza na superfície dos comprometimentos e pequenos lapsos das leituras do mundo.

*Prof. Dr. Luis Gomes
Editor Sulina.
Porto Alegre/RS 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Um brinde...*


Sou assim. Espontâneo demais. Não consigo observar algumas normas. Ou seguir etiquetas. Parece-me que tudo pode ser inventado. Criado de maneiras diferentes.Pago, às vezes, por isso. Não faz mal. Sorrio. Tento passar adiante. Emendo bobagens...

Saímos algumas vezes. Para tomar um vinho. E comer um peixe. Erro sempre no brinde. Ela me diz , delicadamente:
"Zé, não é assim que se brinda".

Já tentei. Algo em mim não quer aprender, Digo-lhe:
"Mas é assim que eu faço".

Brindamos novamente. Perco-me na taça. Atrapalho-me nos gestos. Sou assim. Ela é que não me entende.E me fala:
" Zé, olhe para a taça e beba".

E eu olho para ela. Para não perder seus olhinhos. Ela não me entende. Parece fazer força para não me entender. E eu força para não ser entendido. É que eu quero repetir o brinde. Para prolongar o encontro. E não consigo dizê-lo para ela. Ela não me entenderia. E sorri. E sorrimos. Olho em seus olhinhos. tento dizer com os meus:
"Não foi por mal. É que eu faço assim."

Tento ainda de várias formas , Dizer-lhe: Você também é assim. Assim como você é. E eu faço um esforço danado para entender. Ou quando não dá, silencio. Também do meu jeito. Um silêncio profundo. Vazio, mas cheio. Quase desisto.

Então ficamos assim. Às vezes não saímos do lugar. Outras vamos longe demais. Nos perdemos nas taças. E em lugares longínquos. Eu falo-lhe tudo da minha vida. Para mim parece-me tão pouco. E tão simples. Para ela eu não sei....

Uma vez mais, olhamo-nos nos olhos. Digo-lhe:
"Deixa eu ser o seu anjo da guarda?"
E ela diz:
"Zé, você não existe"

Eu fico em dúvida e toco em mim. Como a certificar-me da minha existência. Será que as pessoas me vêem?

Digo-lhe:
"Mas eu estou aqui." Toco ainda em sua mãozinha. Pequena e delicada. Silencio. Já não me atrevo a mais...

Será que ela me entende?...

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 20 de novembro de 2014




Comunicado Oficial:

A Casa da Filosofia Clínica, fora do RS, coordena há 19 anos, sob a liderança de Hélio Strassburger, profs. adjuntos e convidados, vários pólos da Formação em Filosofia Clínica no país. Já são milhares de profissionais formados em todo o território nacional. Recentemente, tivemos denúncias de que pessoas estranhas ao nosso meio, estariam 'abrindo turmas' em algumas dessas cidades. 
Se isso estiver acontecendo, pedimos aos interessados que busquem saber mais sobre a instituição que patrocina tais eventos, quem são os responsáveis, a trajetória e a qualificação dos referidos professores.  
Esta Coordenação de Ensino e Pesquisa, preocupada em manter a lisura e a transparência dos Centros de Formação onde atua, confirma inexistir autorização para o funcionamento desses 'cursos', sob a orientação desta Casa. 
A firma está reconhecida na forma da legislação.   
Atenciosamente

Coordenação de Ensino e Pesquisa
Casa da Filosofia Clínica
Há 19 anos Formando Filósofos Clínicos

Disso que vivo*


A gente vai envelhecendo
As inutilidades pulsando
E, a gente acha tempo
Pra brincar de ser poeta
Os cabelos embranquecidos
Cintura alargada
Fios de ruga enfeitando olho
Vai a gente por este mundo
Ora besta, ora pequeno
Nada fazendo
No ócio deleitando
Vai criando jeito de ampliar
A vida desconjuntada
Contando casos
Rabiscando sonhos
Pedindo licença aos anjos
Para voar em suas asas
E,feliz ir
Brincando de ser criança
outra vez.

Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Poetisa, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sábado, 15 de novembro de 2014

Retrato do artista quando coisa*


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

*Manoel de Barros

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

As palavras iniciais*



As expressões preliminares possuem um teor de anúncio de incertezas. Sua linguagem cifrada, em um discurso incomum, abre espaço, compartilha desafogo, reapresenta as formas do indizível. De antemão, se tem um imenso nada a se mostrar na crise desconstrutiva pessoal. 

Essas palavras desarticuladas realçam um caos subjetivo em ação. Nesses conteúdos de rascunho, já se pode vislumbrar endereços existenciais, descrever a novidade chegando. Por esse começo é possível investigar o mundo das vontades, das representações. Nos ditos de assunto imediato, nem sempre confirmados no discurso posterior, os relatos oscilam em busca de legitimidade. A partir desse acolhimento se pode qualificar a relação clínica, regular o ângulo da visão, ajustar a lógica desse encontro singular.  
  
O teor de con_fusão entre o passado e o agora passando, além de traduzir um viés im_paciente, proporciona atenção à esse sujeito em estado nascente. Após essa antítese com as anterioridades, existe um lugar para restabelecer novos pontos de equilíbrio. Nesse instante de des_ordem, onde uma esteticidade descontrutiva se apresenta, a pessoa deveria ter o direito de realizar ensaios existenciais com autonomia, segurança, cuidado especializado.

Em uma livre associação discursiva assim descrita, a categoria tempo costuma ser aliada das resignificações. Com ela é possível vislumbrar as intencionalidades e desdobramentos da manifestação primeira. Seu incômodo com a paz dos cemitérios sugere uma vida transbordando ao antever horizontes. Conteúdos clandestinos insinuam-se nas entrelinhas das primeiras menções.     
Essas considerações de abertura, muitas vezes, irreconhecíveis à primeira vista, possuem a força e o significado do instante. Seu desconcerto busca redesenhar uma arquitetura subjetiva que desponta.

Suas divagações, desencontro de ideias, falsetes, rascunham impropriedades à quem vai ficando pelo caminho. Esses conteúdos restariam indescritíveis, classificados nalguma forma de loucura, não fora a tradução do olhar diferenciado, a partir da compreensão dessa expressividade singular.  

Nessa ante véspera de novidades, o papel existencial do Filósofo Clínico aprecia ser um cúmplice a sustentar travessias. Os termos desse fenômeno sugere apontamentos para reinvenção existencial. Sua estética de manifestação absurda reivindica um chão as promessas de libertação. A palavra inicial segue inconclusa. 

*Hélio Strassburger

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Uma oração*


Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. 

Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. 

O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. 

A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. 

Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

*Jorge Luis Borges

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Textos e Contextos: as múltiplas faces de uma leitura existencial da vida*



Há leituras que nos aproximam de nós mesmos, e há aquelas que nos distanciam. Nossas lentes da alma se adaptam melhor aos contextos que nos ajudam a ver a vida com menor grau de miopia. Vivemos em busca de olhares que veem o mundo a partir das perspectivas de nosso ser. Talvez seja por isso que não digerimos aquela música, ou aquele autor. Por mais profundo e sensível que alguém seja, ele somente atingirá a raiz de nossa alma se aproximar-se da leitura que fazemos da vida. 

Há tempos tenho pensando sobre as múltiplas leituras que fazemos da vida. Em cada contexto existencial da vida nos adaptaremos a quem escreve os silêncios de nossa alma com a sensibilidade que enxergamos a vida. Talvez encontremos aqueles que questionem tal posicionamento. No entanto quando encontramos tais contestadores, eles já estão impregnados de leituras que se adaptem ao seu contexto emocional. O simples fato de não concordarem com essa premissa revela que eles próprios também buscam leituras existências que se encaixem em seus contextos vivenciais. 

Inevitável fugirmos de algo que está implícito em nosso dna gramatical da alma. Buscamos quem escreve a vida com as lentes de nossa percepção. E quando encontramos quem faz parte do nosso mundo existencial nos apaixonamos e entregamo-nos a doce aventura de mergulharmos naquele oceano repleto de possibilidades que nos faz ver outros lados da vida que nossa alma ainda não sabe o nome, mas que complementa a parte que buscamos para complementar o encanto do encontro da sensibilidade com a vida. E então loucamente nos entrelaçamos no mundo de alguém que mesmo desconhecido começa a fazer parte do nosso. Nossos mundos se fundem e confundem-se na dança da vida, onde em cada passo vamos bailando ao ritmo das emoções que como em uma noite de festa não vê o dia amanhecer. 

Talvez seja por isso que aquele que busca terapia sai à procura de alguém que veja a vida com a mesma sutileza que ele vê. Quando encontra-o, descortina sua vida sem medo de revelar-se porque no mais profundo de sua alma sabe que será compreendido e as suas leituras existências da vida encontraram naquele outro coração o conforto da compreensão necessárias para o seu crescimento humano.

Os poetas sabem bem o significado de ler a vida com lentes alheias. O que sua alma anseia é o desejo de fazer-se compreendido mesmo que nem todos consigam compreender o profundo mistério que aquele poema provoca em sua alma ao lê-lo em um dia chuvoso e triste. 

Na jornada existencial da vida cada um irá buscar os textos e contextos que alimentam sua alma. O que por nós é incompreensível para alguns é certeza plena. Talvez seja difícil para quem ouve a vida com Frank Sinatra compreender quem faz outra leitura com MC Guimê. Carregamos em nossa mochila o desejo de querer que todos leiam a vida com as mesmas lentes que aprendemos a ler. Os choques existências acontecem quando absolutizamos a nossa lente como a única possibilidade da verdade. 

Outras leituras virão. Este é o primeiro ensaio de um assunto que apenas está começando.

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo, Poeta, Escritor, Estudante de Filosofia Clínica
Cambuí/MG

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A arte indomesticada - garantia de sanidade*


Absolutamente não é preciso, nem ao menos desejado, tomar partido em meu favor: ao contrário, uma dose de curiosidade, como diante de uma excrescência estranha, com uma resistência irônica, me pareceria uma postura incomparavelmente inteligente.
                 Friedrich Nietzsche


Nietzsche afirma que: como fenômeno estético, a existência é sempre para nós, suportável ainda. Inúmeras vezes, a desgraça do indivíduo se torna a sua redenção; ele não sabe exatamente, nem como nem porquê; porém, a inquietação que o mobiliza, pode  conduzi-lo, em sua existência errante, à expressão dos tormentos interiores que o consomem, através da arte.

O que é a arte? Qual o sentido da existência? A existência como propósito da arte, a arte como necessária proteção da existência. A arte de criar e parir a si mesmo como obra de arte.

Urge desconstruir imagens, colocando um quinhão de criatividade em nosso algoritmo. Expressar a profunda aflição que remexe nossas entranhas, numa tentativa desesperada de traçar e ordenar as ideias, dando vida aos fantasmas que nos habitam e que assombram nossas noites insones.

A inquietação que nos imobiliza é a mesma matéria que nos impulsiona. Pois, parafraseando Nietzsche: Só como fenômeno estético à existência e o mundo aparecem eternamente justificados.

Nosso desafio consiste em dar luz a essas partes obscuras de nosso ser, onde o conhecimento cego de nosso infortúnio não cabe mais em nossa existência e nem reflete a inquietação que muitas vezes nos envolve.

A arte é o caminho para que possamos emergir desse caos mental, denso e sufocante ao qual nos encontramos. Remexer nossas dores, arrancando do fundo de nosso ser a inspiração contida e trancada dentro d’alma. Urge que juntemos os cacos e que nos reconstruamos com alguma filosofia e criatividade.

Nossa tarefa consiste em sermos o mestre e o escultor de nós mesmos, utilizando as técnicas do artista e, principalmente as do poeta que subjazem  em nosso interior; despertando nossa voz interior para escrever uma nova história, um novo papel existencial.

A imagem é a expressão autêntica, a linguagem própria do inconsciente e como tal, constitui o elo entre nossos mundos interno e externo, onde a vida que pulsa nos emociona, revelando  e desvelando  a  majestosa totalidade que engrandece a existência.

A arte, ao lembrar ao indivíduo, sua condição de criador, excede e transborda uma constituição que se revela e se extravasa no universo das imagens, acresce sentido à existência, torna-se um estimulante para a própria vida. É a embriaguez de viver; a arte como uma  função orgânica.

Nossa sabedoria consiste em percebermos por meio de nosso instinto estético as consequências longínquas e, não se encerrar, por miopia, somente na contemplação das coisas próximas. Propomos esse olhar, para novas, surpreendentes e emocionantes descobertas.

*Mariah de Olivieri
Filósofa, Mestre em Filosofia, Artista Plástica, Poetisa, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

domingo, 9 de novembro de 2014


www.casadafilosofiaclinica.blogspot.com
O ano todo com você!













       Comunicado:

     A Coordenação de Ensino e Pesquisa da Casa da Filosofia Clínica informa que, no período de 10/11 à 10/12/2014, estarão abertas as inscrições para recebimento de propostas de parceria para aulas, estágios, supervisão, publicações, atendimentos, referentes ao período de 2015, em todo o território nacional. Interessados, por favor, contatar:  casadafilosofiaclinica@gmail.com

     Atenciosamente,
     Coordenação de Ensino e Pesquisa

Os Poemas*


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.

Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. 

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

*Mário Quintana

sábado, 8 de novembro de 2014

Buscas*


Ainda escreverei meu livrinho.

Acreditem. Vou ainda escrever meu livro. Ou meu livrinho. Me darei por satisfeito se uma pessoa só o ler. Ou eu mesmo o lerei para mim. Tempos depois. Ou poderá ficar guardado. Para algum momento incerto.

Estive pensando no título. Acho que será assim ó: "Espelho Estilhaçado". Quebrado. Partido. Pedacinhos recolhidos. Da vida. Cacos colhidos e ajuntados. Da vida. Pelos cantinhos do viver. Da vida aos pedacinhos.

Fascina-me remontar pedacinhos de vida. Parece-me que a vida não é um bloco só. Único. Seguro. Fechado. A vida não se espelha num espelho sempre inteiro. Surpreende-nos partindo-se em pedacinhos. Passamos grande parte da vida tentando colar nossas partes que se estilhaçam de nós mesmos. E é bom que seja assim. Mais ou menos inteiros, ou em pedacinhos ...

Assim me desmonto e remonto dia após dia. Nunca me sentindo por inteiro. Nem, tampouco, pequeno demais. Ofereço-me ao mundo e aos outros em forma de pedacinhos. E que é o melhor de mim. E o melhor que posso oferecer....

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Homem e o Mar*


Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.

Gostas de te banhar na tua própria imagem.
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos,
As queixas que ele diz em mística linguagem.

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos;
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos,
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Os segredos guardais, avaros, receosos!

E há séculos mil, séc'ulos inumeráveis,
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem,
De tal modo gostais n'uma luta selvagem,
Eternos lutador's ó irmãos implacáveis!

*Charles Baudelaire

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Cadernos da Primavera II*


“Aquele que escolhe vê-se livre em sua escolha. Ele pode até mesmo arrepender-se dela e ele demonstra de todas as maneiras que ele assume sobre os ombros os seus próprios atos.”                                                                                                                Hans-Georg Gadamer

A razão ocidental de tradição aristotélica e kantiana teve um grande revés ao longo da modernidade no século XX e no que se inicia, no século XXI; e, hoje, demonstra sua força contra aquilo que ela mesmo criou e cuidou com zelo quase moral, a saber, endureceu sua lógica em nome da unidade, destruiu os argumentos que se voltavam contra o silogismo. 

O que vemos já um bom tempo desde o tiro certeiro no método e na razão é o raciocínio anapodítico como hábito no cotidiano beirando a legitimar a razão de “cachorro louco”, já dizia um amigo meu analítico, um ex-amigo por conta da razão absoluta dele.

Como a razão nunca teve um dono, como ela nunca foi uma casa que se entra, se mobília, se dá nome às coisas como sendo verdadeira, então, tudo começou a valer. Então, o que vimos durante o fim do século XX foi não a derrocada mas a constatação da inteligência superlativa das cavernas que tanto se almejou e se detestou.

A ciência foi o único erro que deu certo nisso tudo, transformou o homem em objeto e sujeito. Este século não será fácil, mas o que importa pensar no futuro? ... se o relógio do tempo nos der tempo ‒ o que nos dava a garantia de poder elucubrar em nome do bem pensar ‒, se já não sabemos mais como compreender os ponteiros, se o que cruza a fronteira do real é o que vivemos realmente, como descobrir o pensamento além do pensamento?

O propósito para as cabeças que pensam é pensar em desenredar o nó da lógica que enredou na teia do absoluto e nas águas da mesmice do rio poético. Assim se traça as lógicas que estão soltas nesse nó da vida.

*Luis Antonio Gomes
Doutor em Comunicação. Editor Sulina
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Purpurinas*


Livre voo
Voo livre
Fresta
Entre meus mundos
Na hora da interrogação
Lá vou
Vou para lá
O eterno dança
Não mais estou
Sou
Ventania
Dissolvida no
Efêmero de luz
Purpurina

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora, Poetisa
Juiz de Fora/MG

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Fragmentos poéticos, filosóficos, delirantes*



(...)
Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor que um toque ?)

(...)
Tenho dito que a alma
não é mais do que o corpo
e tenho dito que o corpo
não é mais do que a alma,
e que nada, nem Deus,
para ninguém é mais
do que a própria pessoa,

(...)
Imaginavam que não pudesse existir
mais de um ser supremo ?
De seres supremos pode existir
qualquer número - um não exime outro ou tampouco
uma vida exime outra.

Tudo é elegível por todos, tudo por todos os indivíduos, tudo por ti:
nenhuma condição é proibida,
nem a Deus nem outra qualquer. (...)

*Walt Whitman

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Insubstituível*


 “Ninguém é insubstituível”. Esta é uma pequena frase usada de forma contínua em organizações com o intuito de dizer a uma pessoa que ela tem de se esforçar antes que seja substituída por outra. Há, no entanto, o outro lado desta moeda. Ao contratar um funcionário, uma organização está contratando quem? Uma pessoa ou um profissional? Esta é a questão que vai dizer se alguém é ou não substituível em uma organização. Essa diferenciação pode ser feita, em Filosofia Clínica, falando de dois conceitos: Singularidade e Papel existencial.

O primeiro termo, Singularidade, diz que cada pessoa é única, exclusiva. Pode parecer que esta afirmação é de entendimento comum, o que não é verdade. Diariamente são veiculados nos mais diversos meios de comunicação conceitos sobre como as pessoas são. Assim, aos poucos se acredita que todas as pessoas amam, que todos querem ser felizes, que o sucesso é perseguido por todos, que “todo mundo um dia ama, todo mundo um dia chora”. Não é verdade. Cada ser humano é simplesmente único. As pessoas não são computadores com programas que funcionam ou não de maneira adequada. Cada pessoa construiu ao longo da vida, bem ou mal, certo ou errado, o seu jeito de ser, a sua maneira de funcionar, e isso faz com que ela seja Singular.

Já Papel existencial fala dos diversos personagens que vivemos ao longo da vida. São os papeis assumidos por nós mesmos. Por isso, ter uma esposa e filhos não faz de você marido e pai, mas assumir o papel de esposo e pai faz com que de fato o seja. Cada um dos papeis que vivemos são atribuições que se assume, e em alguns destes papeis se tem maior êxito do que em outros. Como se diz: “Ninguém é perfeito”. Na organização onde você trabalha, assim como em casa, pode ter um papel, lembrando que você somente tem o papel se assumi-lo. Se você tem escrito no seu crachá o nome Gerente, mas não assumiu para si o personagem de Gerente, pode continuar sendo vendedor que recebeu mais atribuições. Neste caso continua sendo um vendedor.

O termo Singularidade mostra que cada ser é único em si, simplesmente incomparável ou insubstituível. Diferente da pessoa o Papel existencial é um personagem que pode ser vivido de acordo com as atribuições que se tem. Como personagem todos podem ser substituídos, desde o personagem de pai até o personagem de Gerente, em todos os casos um outro pode assumir o papel. Nos papeis vividos cada um tem seu jeito de fazer, mas isso não muda o fato de que aquele é apenas um personagem. Até mesmo o proprietário da organização pode ser substituído enquanto proprietário.

Em uma organização as pessoas são insubstituíveis tanto quanto em uma família, em um grupo de amigos. Enquanto pessoa não há e jamais haverá alguém que seja igual a você, e este é um dos problemas de organizações que contratam pessoas e precisam substituir pessoas. São muitos os casos em que o proprietário da organização é uma pessoa e estabelece interseções com as pessoas com quem trabalha e não desenvolve o papel existencial de gestor da organização. Em dado momento da vida sente que é hora de parar, começar seu processo de sucessão. São raros os casos em que este tipo de sucessão acontece com sucesso, pois aqueles que o sucessor irá liderar esperam um substituto para a pessoa, que é insubstituível.

Não se nega a possibilidade e a necessidade de interseções entre as pessoas no ambiente de trabalho, mas se afirma a necessidade da estruturação dos papeis existenciais. Com base nos papeis existenciais as pessoas podem ser preservadas. Haverá o entendimento de que alguns são ótimas pessoas, mas não se deram bem como gestores. Assim uma pessoa pode olhar a si mesmo como alguém que não teve sucesso em um papel, mas que pode ter sucesso em algum outro papel ao longo da vida. Personagens são substituíveis, pessoas não.

Rosemiro A. Sefstrom
Filósofo Clínico
Criciúma/SC