quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Cadernos da Primavera II*


“Aquele que escolhe vê-se livre em sua escolha. Ele pode até mesmo arrepender-se dela e ele demonstra de todas as maneiras que ele assume sobre os ombros os seus próprios atos.”                                                                                                                Hans-Georg Gadamer

A razão ocidental de tradição aristotélica e kantiana teve um grande revés ao longo da modernidade no século XX e no que se inicia, no século XXI; e, hoje, demonstra sua força contra aquilo que ela mesmo criou e cuidou com zelo quase moral, a saber, endureceu sua lógica em nome da unidade, destruiu os argumentos que se voltavam contra o silogismo. 

O que vemos já um bom tempo desde o tiro certeiro no método e na razão é o raciocínio anapodítico como hábito no cotidiano beirando a legitimar a razão de “cachorro louco”, já dizia um amigo meu analítico, um ex-amigo por conta da razão absoluta dele.

Como a razão nunca teve um dono, como ela nunca foi uma casa que se entra, se mobília, se dá nome às coisas como sendo verdadeira, então, tudo começou a valer. Então, o que vimos durante o fim do século XX foi não a derrocada mas a constatação da inteligência superlativa das cavernas que tanto se almejou e se detestou.

A ciência foi o único erro que deu certo nisso tudo, transformou o homem em objeto e sujeito. Este século não será fácil, mas o que importa pensar no futuro? ... se o relógio do tempo nos der tempo ‒ o que nos dava a garantia de poder elucubrar em nome do bem pensar ‒, se já não sabemos mais como compreender os ponteiros, se o que cruza a fronteira do real é o que vivemos realmente, como descobrir o pensamento além do pensamento?

O propósito para as cabeças que pensam é pensar em desenredar o nó da lógica que enredou na teia do absoluto e nas águas da mesmice do rio poético. Assim se traça as lógicas que estão soltas nesse nó da vida.

*Luis Antonio Gomes
Doutor em Comunicação. Editor Sulina
Porto Alegre/RS

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