quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Textos e Contextos: as múltiplas faces de uma leitura existencial da vida*



Há leituras que nos aproximam de nós mesmos, e há aquelas que nos distanciam. Nossas lentes da alma se adaptam melhor aos contextos que nos ajudam a ver a vida com menor grau de miopia. Vivemos em busca de olhares que veem o mundo a partir das perspectivas de nosso ser. Talvez seja por isso que não digerimos aquela música, ou aquele autor. Por mais profundo e sensível que alguém seja, ele somente atingirá a raiz de nossa alma se aproximar-se da leitura que fazemos da vida. 

Há tempos tenho pensando sobre as múltiplas leituras que fazemos da vida. Em cada contexto existencial da vida nos adaptaremos a quem escreve os silêncios de nossa alma com a sensibilidade que enxergamos a vida. Talvez encontremos aqueles que questionem tal posicionamento. No entanto quando encontramos tais contestadores, eles já estão impregnados de leituras que se adaptem ao seu contexto emocional. O simples fato de não concordarem com essa premissa revela que eles próprios também buscam leituras existências que se encaixem em seus contextos vivenciais. 

Inevitável fugirmos de algo que está implícito em nosso dna gramatical da alma. Buscamos quem escreve a vida com as lentes de nossa percepção. E quando encontramos quem faz parte do nosso mundo existencial nos apaixonamos e entregamo-nos a doce aventura de mergulharmos naquele oceano repleto de possibilidades que nos faz ver outros lados da vida que nossa alma ainda não sabe o nome, mas que complementa a parte que buscamos para complementar o encanto do encontro da sensibilidade com a vida. E então loucamente nos entrelaçamos no mundo de alguém que mesmo desconhecido começa a fazer parte do nosso. Nossos mundos se fundem e confundem-se na dança da vida, onde em cada passo vamos bailando ao ritmo das emoções que como em uma noite de festa não vê o dia amanhecer. 

Talvez seja por isso que aquele que busca terapia sai à procura de alguém que veja a vida com a mesma sutileza que ele vê. Quando encontra-o, descortina sua vida sem medo de revelar-se porque no mais profundo de sua alma sabe que será compreendido e as suas leituras existências da vida encontraram naquele outro coração o conforto da compreensão necessárias para o seu crescimento humano.

Os poetas sabem bem o significado de ler a vida com lentes alheias. O que sua alma anseia é o desejo de fazer-se compreendido mesmo que nem todos consigam compreender o profundo mistério que aquele poema provoca em sua alma ao lê-lo em um dia chuvoso e triste. 

Na jornada existencial da vida cada um irá buscar os textos e contextos que alimentam sua alma. O que por nós é incompreensível para alguns é certeza plena. Talvez seja difícil para quem ouve a vida com Frank Sinatra compreender quem faz outra leitura com MC Guimê. Carregamos em nossa mochila o desejo de querer que todos leiam a vida com as mesmas lentes que aprendemos a ler. Os choques existências acontecem quando absolutizamos a nossa lente como a única possibilidade da verdade. 

Outras leituras virão. Este é o primeiro ensaio de um assunto que apenas está começando.

Pe. Flávio Sobreiro
Filósofo, Poeta, Escritor, Estudante de Filosofia Clínica
Cambuí/MG

Nenhum comentário:

Postar um comentário