quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Contagem regressiva para 2015*


Uau! Diria ou dirá meu querido professor e amigo Hélio.

Um dia depois de outro minha filha, diria ou dirá minha mãe.

Dieta, parar de fumar, fazer exercício físico, estudar algo novo, meditar mais, estudar mais...

Pois,
Sou dessas que faz de tudo o que ouve para ter um ano de luz e paz e digo; tem dado certo!

Se na praia estou, pulo sete ondas, subo em cima da cadeira na contagem regressiva, uso roupas brancas, fitas coloridas na roupa íntima, uma cor para cada significado, flores para Yemanjá, para minha cigana rosa vermelha e paz peço a Deus meu pai!

Sempre fui assim, desde bem novinha. Antes tinha uma fé quase fanática, hoje faço algumas coisas por puro hábito, mas o ritual é importante.
Penso que já vivi, vi, sorri, sofri tanto...

O simples me toca o coração. O sorriso das crianças me faz lembrar a minha própria infância. Ah! Saudades da minha infância. Quanta inocência! Menina sonhadora, cria num futuro mais que feliz, colorido. Sem dor ou desamor! Ilusão.

Entretanto, a própria vida é uma ilusão, uma pequena passagem cheia de expectativas vazias, tolas, necessárias.

Qual o sentido da vida? Questionava e pensava que, ao crescer e me tornar adulta, saberia responder pergunta tão tola. Tola? E, aí? Qual o sentido da vida pessoa adulta? Qual? Responda rápido? Sem demora, qual?

Nem todas as perguntas que fazia enquanto criança eram tão tolas assim. Hoje respeito todas os questionamentos das crianças.

E pensar que existiam adultos que me achavam cansativa e chata, por querer saber o por quê de tudo!
Contagem regressiva, para que mesmo? Mais um dia apenas! A passagem dos anos, dos dias é simbólica, por vivermos num mundo onde o temido senhor Tempo manda em tudo.
Pode ser bobagem pular sete ondas, flores para Yemanjá, roupas brancas...

A sorte é a colheita de muito trabalho, dedicação para uma vida melhor, plena e feliz... Porém, aquela criança ainda mora no meu coração, preciso nutri-la de amor sempre. Só para justificar essa ingenuidade, para não perder o costume de ter esperança num mundo melhor, passarei o ano de 2014 para 2015 toda de branco, como não irei a praia não pularei as sete ondas, nem jogarei flores para Yemanjá. Mas subirei numa cadeira na hora da contagem regressiva.

Ih! Estamos em horário de verão! Meia noite, não será meia noite, então. Pra garantir, vou comemorar duas vezes. Meia noite e uma da manhã! Ufa! Estou cansada!
Esse negócio de ritual dá um trabalho!

E, sigo perguntando, qual o sentido de tudo isso mesmo?

Contudo, questionar é minha vida, profissão, papel existencial, meu sentido de vida, aquele que a criança-menina queria saber. Qual o sentido do sentido da vida?
Feliz 2015 para os filósofos clínicos e para os que não são nem filósofos nem clínicos!

*Vanessa Ribeiro
Atriz, Dançarina, Filósofa, Filósofa Clínica
Petrópolis/RJ

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2015*


Em 2015 continuarei habitando minha casinha de livros.
Feita com paredes de livros... para sustentar.
Com portas de livros.... para acolher.
Com janelas de livros... para espiar esperanças e utopias... e alegrias.
E com teto de livros.... para proteger.
Farei-me uma pandorga em forma de livro. Com livros "voantes". Puxada por um gurizinho moleque.... serelepe. Por um fiozinho em forma de "S". Farei-me uma prece...
Farei-me um sofá de livros. Para algum descanso. E farei-me um balanço. Enganchando letrinhas... corrente... Para embalar vidas. Para cá e para lá. Para lá e para cá.... Em todos os dias do ano vindouro...
Aos amigos: Um 2015 embalado por boas leituras. E poesias....

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Olhar para trás*


(...) Olhar para trás após uma longa caminhada pode fazer perder a noção da distância que percorremos, mas se nos detivermos em nossa imagem, quando a iniciamos e ao término, certamente nos lembraremos o quanto nos custou chegar até o ponto final, e hoje temos a impressão de que tudo começou ontem. Não somos os mesmos, mas sabemos mais uns dos outros. E é por esse motivo que dizer adeus se torna complicado! Digamos então que nada se perderá. Pelo menos dentro da gente... (...)

*Guimarães Rosa

domingo, 28 de dezembro de 2014

Queijo ou mortadela ? Depoimento de um historiador sobre filosofia clínica no café da manhã*



            Subindo a Rua General Câmara, aos 40o no verão de Porto Alegre, não penso em mais nada a não ser uma Coca-Cola gelada, mas algo se destaca no meio do caminho. Olho a minha esquerda e vejo uma edificação antiga rabiscada pelos pichadores, é a Biblioteca Pública do Estado. Sei por que somente neste momento em particular este prédio me chamou a atenção, eu estava orientado a olhar o passado, não importa o que seja... estava com os olhos no ontem. Eu estava embriagado, por aquilo que a maiorias das pessoas esquecem.

            Não existe país, continente, povo ou pessoa sem sua história. A realidade que conhecemos está formada com base na sua história, conhecendo-a conhecemos a sua formação, suas dores, suas vitórias, suas derrotas; falo isso por um determinado ângulo de visão, pois o conceito de heróis e vilões são conceitos políticos e não nos compete discutir se queremos queijo ou mortadela, sim observar Clio, a antiga musa da história, escrever com sua pena.

            Com base na ideia de historicidade, podemos analisar a estrutura, tendências, culturas, fenômenos singulares e gerais. A partir da ideia também de totalidade, avaliamos de forma fenomenológica o desenvolvimento de fenômenos históricos, não tendo como preocupação a origem, mas desenvolvimento deste a partir da sua história. Cada canto do mundo há seu processo de desenvolvimento sociocultural e econômico, contudo para fazer uma avaliação mais profunda destes, não se deve pensar em uma linearidade, mas na sua singularidade. Seja povoado, vilarejo exibe sua história em particular, não podemos pensar que os indígenas “brasileiros” contém a mesma estrutura de pensamento, os mesmos moldes socioculturais que o Baiano, ou o Catarinense. Portanto, é impensável realizar um molde estrutural universal dos povos.

            Assim como na história, em seus estudos sobre os povos com suas particularidades, a Filosofia Clínica surge como alternativa para o autoconhecimento, em busca de rompimentos com determinadas estruturas criadas a partir de convenções padronizadas, as quais ignoram a singularidade. É impensável colocar no mesmo grau histórico o Brasil e os Estados Unidos, podem estar no mesmo período temporal, mas suas caminhadas são diferentes, ou seja, o modelo político colonial, a metrópole, os territórios, o clima, os nativos americanos, tudo isso influencia o seu desenvolvimento.

            A clínica tradicional padroniza sofrimentos a partir de códigos, chamados doenças e diagnósticos, para o tratamento. Um “Check List” é usado para criar o diagnóstico, ignorando a historicidade do indivíduo; ou seja, a vida da pessoa desde o nascimento até o canetaço do terapeuta é ignorado. De acordo com esta convenção um aborígene australiano poderá sofrer da mesma doença, em âmbito psicológico, que um estadunidense. “Porco Dio! Esse jacaré entalhado na árvore é o que?” – perguntam alguns espantados ao se depararem com um aborígene australiano conversando com tal árvore. Ignorar as crenças culturais, o território geográfico, prejudica o processo de avaliação. Além de tudo, convenções são criações políticas de ocidentais.

            Istvan Meszaros em uma de suas obras cita o “fardo do tempo histórico”, pensando de modo vulgar: carregamos em nosso íntimo todo um fardo de historicidade de nosso “mundo”, a religião territorial, os preconceitos, as ideologias, os medos! Sendo assim, somos escravos de nossa temporalidade. E a criação de um código para doenças mentais é uma ampliação de uma fronteira ideológica. Estamos praticamente em uma guerra... Queijo ou mortadela, meu amigo?

Diego Baroni
Historiador. Pós-Graduando na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 27 de dezembro de 2014

Ser Livre*


Eu não nasci com fome de ser livre. Eu nasci livre - livre em todos os aspectos que conhecia. Livre de correr pelos campos perto da palhota da minha mãe, livre de nadar num regato transparente que atravessava a minha aldeia, livre de assar maçarocas sob as estrelas e montar os largos dorsos de bois vagarosos. 

Contanto que obedecesse ao meu pai e observasse os costumes da minha tribo, eu não era incomodado pelas leis do homem nem de Deus. (...) Só quando comecei a aprender que a minha liberdade de menino era uma ilusão, quando descobri, em jovem, que a minha liberdade já me fora roubada, é que comecei a sentir fome dela. (...) Calcorreei esse longo caminho para a liberdade. Tentei não vacilar; dei maus passos durante o percurso. 

Mas descobri o segredo: depois de subir uma alta montanha apenas se encontram outras montanhas para subir. Parei aqui um momento para descansar, para gozar a vista da gloriosa paisagem que me rodeia, para voltar os olhos para a distância percorrida. Mas só posso descansar um momento, porque, com a liberdade, vem a responsabilidade, e não me atrevo a demorar, pois a minha caminhada ainda não terminou. 

(...) Ser livre não é apenas livrar-se das próprias grilhetas, mas viver de uma forma que respeite e promova a liberdade dos outros. (...) Eu não tinha a menor dúvida de que o opressor tinha de ser libertado tanto quanto o oprimido. 

Um homem que tira a liberdade de outro homem está prisioneiro do ódio, está fechado atrás das grades do preconceito e da estreiteza de vistas. Não sou verdadeiramente livre se estou a tirar a liberdade a alguém, tão certamente quanto não sou livre quando me é roubada a minha humanidade. Tanto o oprimido quanto o opressor são espoliados da sua humanidade.

*Nelson Mandela

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A morada do ser*


“Impossível escrever a história do inconsciente humano sem escrever uma história da casa.”
Gaston Bachelard 

Pelas ruas,
Extensos bairros,
Estradas de chão.

A morada que abriga,
Os devaneios íntimos,
A imaterialidade,
A estrutura que fala.

As vivências, isolamentos,
Segredos e liberdade,
Daquela morada...
A morada do Ser. 

*Fernanda Sena
Filósofa Clínica
Barbacena/MG

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O apanhador de desperdícios*


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

*Manoel de Barros

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Arquétipo*


Sou a ruiva linda
de cabelos de mousse.
Estou na Idade Média
e tenho cavaleiro
que me procura
de manto e tudo.
A mulher no sótão
é a perfeição ideal platônica.
Eis que presa sim,
pois que recebe, fértil
e tem que se resguardar.
E essa história das musas nas estrelas
da princesa presa na torre
é uma inventio masculina
para suavizar o posto estado
em que ele a coloca
sempre por baixo
Mas
se mulher é frescura e subordinação
não o sou.
Vê, você fala com um anjo:
na busca do ser integral
não há lugar para preconceitos.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Certas Palavras*


Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.
Entretanto são palavras simples:
definem partes do corpo, movimentos, actos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.
E tudo é proibido. Então, falamos.

*Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A palavra ressonância*



Escrever sobre as repercussões de um encontro clínico, reivindica deslocar-se em estado de redução fenomenológica. Se trata de tentar visualizar eventos em sua matriz de desencadeamento compartilhado, por onde acessos inesperados se descortinam, sugerem uma dialética nem sempre traduzível.    

As poéticas da terapia esboçam seus inéditos e os ampliam pela interseção bem sucedida. Esses enredos seriam inimagináveis não fora a alquimia da atuação subjuntiva, a qual, iniciada na hora_sessão, se multiplica no cotidiano por vir. Dos múltiplos aspectos sobre seu alcance, sentido, direção, se destaca a alteração dos pontos de vista. Reinvenção pela aptidão dos procedimentos a se tornar transformação pessoal pela via da introspecção.   

A cooperação da categoria tempo é fundamental, nesse momento irrepetível, onde uma chave encontra sua porta. Ao acolher compreensivamente o que ressoa, é possível modificar representações, redescobrir-se em meio ao ir e vir das conexões.    

Os movimentos assim mencionados possuem um silêncio impregnado de originais. Num presente que se amplia, outros percursos se realizam na estrutura labirinto. Na companhia da solidão esses ecos da terapia vão constituindo sentimentos, ideias, sensações. Sua expressividade atua para organizar-se num agora definitivo. Aqui se trata do território ampliado pela transcendência, lugar de realidade estranha, onde é possível, no viés de um segundo, mesclar papéis existenciais.  

Esses conteúdos do encontro expandido continuam atuando após a hora_clínica. Os agendamentos do Filósofo, ao encontrar acolhimento na perspectiva Partilhante, interagem em desdobramentos à meia-luz. Assim rememora, desconserta, reelabora, significa algo mais até então desconhecido, procura um procedimento singular capaz de fazer ver, assimilar, viabilizar essa via de acesso, por onde a intencionalidade prossegue sua atividade cuidadora. 

Ao estender-se assim, essa relação atualiza rumores de esboço compartilhado. Com ela é possível recompor buscas, desconstruir certezas, emancipar tópicos marginalizados. Esse norte_sul_leste_oeste, utilizando uma matéria-prima irrepetível em cada pessoa, costuma repercutir-se num processo nem sempre explicável.  

A palavra terapia é a brisa leve, acolhedora, cúmplice das transgressões aos outros que o mesmo anuncia. Ao vislumbrar esses instantes, reivindica-se um acordo de vontades, um chão para compreender a natureza improvável em quase tudo.  
*Hélio Strassburger 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Não me Peçam Razões...*


Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago

sábado, 20 de dezembro de 2014

Perspectivas de uma racionalidade*


O indivíduo, ao fazer filosofia, necessita criticar as perspectivas de sua racionalidade e não apenas sua ideologia. Urge desconstruir a ingenuidade, pois não são apenas alguns argumentos, prova de verdades irrefutáveis.

Existe a necessidade premente de romper com uma cultura onde impere a racionalidade, através de dois princípios capitais: o primeiro, que simboliza serenidade, claridade, medida. O segundo, que representa força impulsiva, afirmação da vida, asseveração da existência e dos impulsos, cotidianamente submetidos ao constrangimento da razão.

Percebemos na cultura ocidental, marcada pela repressão dos instintos vitais e indeferimento ao prazer, um entrave em aceitar e compreender o indivíduo em sua totalidade. Aqui podemos citar o Cristianismo, que representou um dos últimos estágios de decomposição da cultura grega e dos impulsos vitais, inerentes e indispensáveis à condição humana sadia.

A filosofia de Nietzsche abalizou uma densa ruptura da cultura ocidental. Nevrálgico da racionalidade imperante, afirmou a anteposição de tudo que fora recalcado, como a vida instintiva.

Em A origem da Tragédia[1], Nietzsche distingue na cultura grega, dois princípios fundamentais, que serviram de matriz para avaliar a cultura européia: O Apolíneo, oriundo do deus Apolo, que simboliza o lado luminoso da existência, serenidade, claridade, medida, racionalidade e o Dionisíaco, inspirado no deus Dionísio, que representa desmedida, força impulsiva, erotismo, orgia, afirmação da vida, embriaguez de viver.     

Estes dois princípios estavam presentes na tragédia (que é o sentido mais amplo da afirmação, capaz de aceitar e compreender o indivíduo em todas as suas nuances) e na cultura grega antes da influência de Sócrates, que submeteu os impulsos vitais ao cerceamento da razão.  A partir de Sócrates e Platão, a cultura ocidental foi marcada pela repressão dos instintos vitais e a negação do prazer. Isso acarretou um empobrecimento significativo na existência humana.

Nietzsche afirmava que, ao deixar-se conduzir pelo espírito Dionisíaco, o indivíduo era arrebatado até a exaltação máxima de todas as faculdades simbólicas, experimentando e expressando sentimentos até então irrevelados.

Sob esse prisma, a arte surge como uma atividade metafísica liberadora da aflição humana, corporificada na força arrebatadora do erotismo, da orgia, da afirmação da existência e de seus impulsos, volvendo na expressão mais elevada do indivíduo.

Nietzsche, crítico da racionalidade imperante, afiançou a primazia de tudo quanto fora debelado. Era a apologia aos instintos. A arte para Nietzsche se atrela ao espírito Dionisíaco, correspondente à expressão mais elevada do indivíduo. Por um lado, é o excesso de uma constituição florescente que é parida no mundo da imagem e do desejo; por outro, é a excitação da função criadora, mediante imagens e desejos de uma existência intensificada, supra valorizada e estimulante, uma verdadeira ode ao sentimento de celebração da vida.

O Cristianismo, com seus dogmas, é apontado como inimigo da arte, representando um dos últimos estágios de degenerescência da cultura grega e dos impulsos vitais. O mundo é apresentado como obra de um Deus artista, alforriado de preconceitos morais.

Encharcado pelo pensamento reducionista, o indivíduo teórico afronta a existência pelo olhar da lógica e da ciência, encontrando uma ordem cósmica onde impera o caos. Renega tudo que se apresente incerto, irracional e misterioso, onde a força reativa reina absoluta sobre a força ativa, sendo incapaz de aceitar o sofrimento e as contradições da existência, campeando sempre uma consolação para seu infortúnio.

Nietzsche opõe-se a todas as ideias igualitárias, humanistas e pseudo-democráticas. Para ele as mesmas aprisionam. O seu ideal de indivíduo encontra-se nos príncipes do Renascimento: valentes, hábeis, amorais. Criaturas que se deixavam conduzir apenas por sua vontade de poder, ou seja, por sua energia vital. Nietzsche sentenciou que o Renascimento italiano acolheu em si as forças positivas a que devemos a cultura moderna: emancipação do pensamento, triunfo da educação sobre a arrogância da linhagem, desgrilhoamento do indivíduo.

Nessa direção, a arte e a música são justificadas como uma ilusão benéfica e necessária, uma ponte sobre o abismo da existência[2]:

O fato de o artista ter em maior apreço a aparência do que a realidade não se coloca contra essa proposição, pois em tal caso a aparência significa a realidade reproduzida uma vez mais, em forma de seleção, de acréscimo, de correção. O artista trágico não é um pessimista, ele diz sim a tudo que é problemático e terrível, é dionisíaco.

[1] Nietzsche, Friedrich. A Origem da Tragédia, tradução de Alvaro Ribeiro. Guimarães ed. Ltda: 5ª Ed. 1ª publicação: 1892.

[2] Nietzsche, Friedrich. O Crepúsculo dos ídolos: A filosofia a golpes de martelo. Tradução de Edson  Bini e Márcio Pugliesi. São Paulo, Hemus, 1976.

*Mariah de Olivieri
Filósofa, Mestre em Filosofia, Artista Plástica, Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Aviso*


Se me quiseres amar,
terá de ser agora: depois
estarei cansada.
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e simples,
e assim garanto a minha sobrevida.

Se me quiseres amar,
terá de ser hoje:
amanhã estarei mudada.

Lya Luft

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quando é que a vida começa afinal?*


Tum tum tum - olha que legal! Tenho um coração! Tenho duas pernas, e dois braços também! Nossa, que bacana... mas quando será que a vida começa heim? Deve ser quando eu sair desse lugar apertado e molhado e acolchoado e vermelho aqui que eu moro. Lá fora deve ser tão legal. Olha, uma luz, pronto, finalmente vou começar a viver... unhéeeeee, unhéeee. 

Ah, achei que ia começar a viver agora, mas antes eles precisam tirar esse fio preso na minha barriga que me liga à minha mãe. Ih, tiraram, mas tá faltando alguma coisa. Devo começar a viver só depois que minha mamãe me der leite... e carinho... e banho... ah, que nada, já to bem grandinho, a vida deve começar depois que a gente aprende a andar. 

Olha, dei meus primeiros passos, acho que finalmente ela começa depois que eu falar... gugu dada. Hum... tá ficando complicado isso. Depois que eu tomar todas minhas vacinas, é isso! Não, não é. Mas tenho certeza que depois que eu ganhar aquela Barbie que todo mundo tem a vida finalmente começa. A Barbie é linda, mas sem o carro e a casa dela a vida não temo  menor sentido. Tudo bem, tenho tudo da Barbie, e acho que a vida só começa mesmo quando eu passar nesse tal de ensino fundamental, muito difícil essas provas. 

Não, a vida começa quando eu der meu primeiro beijo. Smack. Ela começa depois da festa de 15 anos. A festa foi linda, mas é na Disney que ela começa, ela tá logo ali. Disney é lindo mas faltou só a vida que achei que ia estar lá. Tenho certeza que é quando eu tiver minha primeira transa... ai ui ai. Quando eu passar no vestibular. Tá, estar na faculdade nem era tudo que eu pensava, quando eu tiver meu carro vai ser o paraíso, e eu finalmente puder beber e entrar em todos os lugares... que venham os 18 anos. 

Nossa, essa faculdade tá muito difícil. Quando eu formar e começar a trabalhar, aí sim a minha vida vai começar. Trabalhar não é tão fácil como imaginei, ter que pagar contar, sustentar apartamento e viver longe dos pais... mas a vida vai começar depois que eu casar e tiver filhos. Ai sim eu vou ser feliz e realizada. SIM, eu aceito. E viveram felizes pra sempre.... opa, espera aí, mas eu nem comecei a viver ainda... Oi meu amor, como foi o trabalho?

Estou grávida. Espero que amamentar emagreça porque engordei demais nessa gestação. Oh meu filho, não chora. Tenho certeza que se eu emagrecer e começar a cuidar da minha saúde aí sim eu vou ser feliz e minha vida vai começar... saudade do meu filho, foi pra faculdade. 

Já estou com 40 anos e a vida começa quando mesmo? Sabe de uma coisa, acabei de perceber, ela começou desde o momento que eu pensei que ela poderia começar, e eu na verdade, em vez de esperar pela vida estou esperando pela morte, isso sim. Tá tudo errado. 

Posso começar de novo e aproveitar cada momento em vez de esperar o próximo? E vivi esperando algo lá no final e não percebi que o caminho que era a vida. Posso voltar? Por favor? Não? E agora? ok ok, você venceu, mas de uma coisa eu sei, e aprendi nessa VIDA, se não posso voltar atrás e fazer um novo começo, posso começar agora e fazer um novo FIM.

*Patrícia Rossi 
Psicóloga, Filósofa Clínica, Especialista em Gestão e Recursos Humanos
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Momentos possíveis do imaginário*


“O esquecimento do esquecimento não dá oportunidade apenas às encenações realistas, ele é essencial a qualquer metafísica: ao esforçar-se por apresentar a própria coisa, fundamento último, Deus, ser, a metafísica esquece-se de que a presença é ausente. Ter tudo presente é a bulimia do pensamento ocidental.”
Jean-François Lyotard

A escritura é o fortalecimento e também poder ser o que se esquece durante o passar do tempo. O tempo aqui como conceito diante do que é visto, do que tem diante dos olhos. Tanto faz olharmos por através da vidraça ou mesmo diante de um real supostamente dito, dentro do mesmo espaço, porque o imaginário criado nisso tudo é como o fogo que une o todo.

O que estava separado, o que estava distante acaba se unindo nas chamas. A escritura tem um pouco disso, mas se diferencia por sua unidade de ser, por sua fonte longe do imortalizado, é como Lyotard falou de Beckett que fez a “assinatura sofrer”, e ao longe – tudo tem a clareza e distância, dependendo dos limites próximos e da trajetória, olhamos os traços da escritura como quem se impressiona. Por vezes, no estranhamento, como se nada existisse além do que estamos vendo, mas para alguns nada é mais clarividente do que historicamente está estabelecido.

*Prof. Dr. Luis Antônio Gomes
Editor Sulina
Porto Alegre/RS

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A palavra diante de si*



                "Sonhar é acordar-se para dentro."
                                 Mário Quintana

A palavra diante de si, ao ser a mesma, já é outra. Uma realidade ofuscada pela proximidade excessiva atesta as irreconhecíveis intimidades. É comum não perceber-se no próprio espelho embaçado. Os movimentos dos quais é refém parece desdobrar vestígios de imensidão.  

Na trama dos termos agendados, a contradição entre elogio e crítica, reflete a maquiagem por onde os dicionários tentam defini-la. A imaginação, mesmo aprisionada pelo vocabulário conhecido, deixa-se rastros de algo mais. Sua anterioridade se move em projetos de verdade. 

Por essas franjas inconclusas um teor discursivo, ao desviar convicções, emancipa raridades. Nesse momento de possível tradução, aprecia o refúgio em poéticas de não-ser. A incerteza pluralizada nas afirmações, desveste o texto novo, se permite aparecer nas fissuras do próprio fundamento. Os rastros dessa invisibilidade qualificam a história da palavra. Esse deslocamento, ao visitar antigos endereços existenciais, se autoriza a perseguir novos rumos.    
     
Um olhar impróprio parece denunciar essa fonte inesgotável de distorções. Endereço aproximado a conviver na correspondência de sim e não. Suspeita-se existir um horizonte de possibilidades refugiado num texto assim. Sua menção de propósitos insatisfeitos deixa entrever indícios de vontade subversiva, aprecia rascunhar-se na indeterminação dos desabafos.  

Assim, frente a frente consigo mesma, reivindica uma distância aproximada para refletir-se. Quiçá uma lucidez impossível a realizar-se por inteiro. Nesse sentido, a experiência fotografada pela historicidade, pode não bastar ao fenômeno por vir.   
As revisitas a esses esconderijos de maior intimidade, podem significar uma antevisão ao devir subjetivo. Sua estética das distâncias e das proximidades indica o estranho labirinto diante do olhar. Quem sabe ao ser indeterminável, acolha os múltiplos sentidos, não permita o fórceps de uma só versão.   

Talvez o exílio onde se encontre, ao narrar-se, consiga descrever-se nas lógicas da impermanência. Ao visitar os recantos de originalidade, possa exercitar-se, saber mais sobre a fonte de suas representações, recuperar memórias desconsideradas, emancipar o dialeto diante de si. Um autor assim constituindo-se, reverencia a língua onde se encontra (existencialmente), ensaia transcender o mundo das idéias num agora cotidiano.   

Nessa irresolução diante de si mesma, a palavra busca cogitar-se a perder de vista. A proximidade com as letras embaralhadas sugere um forasteiro. Sua reflexão vislumbra originais para além de toda definição. Um esboço de atração irresistível com o inusitado chegando.  

*Hélio Strassburger

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A Biblioteca*


Chegada a noite, volto a casa e entro no meu escritório; e, na porta, dispo a roupa quotidiana, cheia de lama e de lodo, e visto trajes reais e solenes; e, vestido assim decentemente, entro nas antigas cortes dos homens antigos, onde, recebido amavelmente por eles, me alimento da comida que é só minha, e para a qual nasci; onde eu não me envergonho de falar com eles e de perguntar-lhes as razões das suas ações. E eles com a sua bondade respondem-me; e, durante quatro horas, não sinto tédio nenhum, esqueço-me de toda a ansiedade, não temo a pobreza, nem a morte me assusta: transfiro para eles todo o meu ser.

*Maquiavel in "Carta a Francesco Vettori"

domingo, 14 de dezembro de 2014

Eu Vim*


De lá pra cá eu vim
Caminhante, errante, pedante.
Cansado cheguei, mas não deixei
De lutar e correr e espreitar e esperar
De lá pra cá vi de tudo:
Caminho, erro, pedantismo,
Luta, correria, espreita, espera;
Outrora, fosse eu mais sábio,
Não teria feito o caminho.
Mas de lá pra cá aprendi.
De lá pra cá busquei entender
Qual meu verdadeiro significado.
Como ainda não cheguei,
Continuo no caminho, errante, pedante, “lutante”, corrente, “espreitante”, “esperante”.
Assim como meus neologismos
Sou eu no neologismo da minha vida.
Não busco mais saber pra estou indo.
Se cá cheguei foi porque de lá eu vim.
E se tivesse pensado no caminho,
Chegaria aonde cheguei?
Ou estaria ainda no caminho?
Mas posso me outorgar o direito da chegada?
Se uma chegada é uma parada e eu continuo vindo de lá pra cá,
Será que ainda não cheguei?
Por que esse caminho não me leva a lugar algum?
Já estou em algum lugar?
Quando de lá vim, não fazia ideia
Que cá chegaria, muito menos
Que chegaria.
Ainda no caminho, não sei se um dia
Chegarei.

*Vinicius Fontes
Filósofo, Mestrando em Filosofia, Filósofo Clínico
Rio de Janeiro/RJ

sábado, 13 de dezembro de 2014

Saudade*


Saudade é solidão acompanhada,  é quando o amor ainda não foi embora,  mas o amado já...  

Saudade é amar um passado que ainda não passou,  é recusar um presente que nos machuca,  é não ver o futuro que nos convida...  

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...   

Saudade é o inferno dos que perderam,  é a dor dos que ficaram para trás,  é o gosto de morte na boca dos que continuam...   

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:  aquela que nunca amou.   

E esse é o maior dos sofrimentos:  não ter por quem sentir saudades,  passar pela vida e não viver.   O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

*Pablo Neruda

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Corpo vivo*


Templo das almas azuis.
Ele, terra e tesouros.
Acolhe-nos sem nada perguntar
Da-nos gozo e prazer continuados.
Por que por vezes o negamos?
Platão nos fez anjos.
Em nome de Deus o abandonamos na Idade Média.
Agostinho o aprisionou em culpa.
Hoje, o punimos e o flagelamos em nome da saúde perfeita.
Onde se escondeu sua harmonia e sua natureza livre?
O corpo grita por renascer e percepcionar cada instante desta mãe Terra.
Ele clama o toque sensual dos encontros afetivos.
Que possamos parar e o respirar profundo.
Acordá-lo do sonho alienante.
Trazê-lo de volta à sua casa,
nu e cru, sem medo de gozar,
para alegremente aqui brincar!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Poetisa, Escritora
Juiz de Fora/MG