sábado, 31 de janeiro de 2015

Sobre Singularidades*


Com licença, amigos. Eu enxergo "coisas". "Coisas" , assim meio malucas. E que os outros não enxergam.

Mas, você diria:
- Ah, mas todos nós enxergamos "coisas", que os outros não enxergam. Sim. sim. assim realmente é.

Gosto de pensar "coisas" complexas e complicadas. Para depois simplificá-las. Sou um privilegiado: é que eu convivi dia e noite, com uma pessoa querida, e que pela medicina tradicional apresentava sintomas de esquizofrenia.

Creiam-me: como aprendi com a minha amada!!! Desde momentos de desespero, no início, quando não sabia o que fazer. Até momentos que conseguíamos compartilhar nossas fantasias. As dela e as minhas.Umas mais significativas que as outras. E conversávamos e ríamos sobre nossos mundos encantados. Aprendemos, eu e ela, a visitar o mundinho um do outro....

Creiam-me, uma vez mais: Como aprendi "coisas" com a minha amada!!! Agora compreendo um pouquinho melhor. Acompanho aulas de Filosofia Clinica. Onde aprendemos a chamar isto de "singularidade". Onde cada pessoa é única no seu modo de ser, e de pensar, e de viver....

Ainda tenho um certo temor, de que pela medicina tradicional eu seria classificado como "meio-esquizofrênico". Por influência, ou por contágio....

Depois de algumas viagens fantásticas, puxávamos-nos de volta:
- Minha amada, vamos tomar um banho gostoso. Depois dormiremos....

- Vamos, amado....

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Felicidade Neurótica*


(...) - Não te assustes, continuo a ser a mesma velha Madeline. 

Ouve o que encontrei hoje na biblioteca, quando estava a ler os jornais. 

Escuta. - Tirou um pedaço de papel da algibeira do jeans. - Copiei de um jornal. Palavra por palavra. Journal of Medical Ethics. «Propõe-se que a felicidade» - levantou os olhos do papel e esclareceu: - o itálico na felicidade é deles - «Propõe-se que a felicidade seja classificada como perturbação psiquiátrica e incluída em futuras edições dos manuais de diagnóstico especializados sob a nova designação de importante perturbação afetiva, do tipo agradável. Numa resenha da literatura relevante está demonstrado que a felicidade é estatisticamente anormal, consiste num discreto aglomerado de sintomas. Está associada a uma ordem de anomalias cognitivas e provavelmente reflete o funcionamento anormal do sistema nervoso central. Persiste uma possível objeção a esta proposta: a de que a felicidade não é avaliada negativamente. No entanto, esta objeção é rejeitada como sendo cientificamente irrelevante».

*Philip Roth, in 'Teatro de Sabbath'

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Magia, loucura, poesia*


Nem sei o que pensar
somos todos dementes
e nossa loucura tem
suas magias.
há um mundo de possibilidades
ah! nadar no oceano de livros
decifrar Enigmas
mil portas abertas
mistérios a serem desvelados
matemáticas e filosofias
psicanálise e alquimias
herméticos
construímos caminhos de pedras
é possível jogar xadrez
no túnel do kairos
E,enlouquecer em Roma
de amor

*Rosangela Rossi
Psicoterapeuta Analítica, Escritora, Poetisa, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Aprender a Ver*


Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. 

Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo a-filosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo — tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. 

Em muitos casos esse ter que é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, — quase tudo o que a rudeza a-filosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. — Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. 

Ao estranho, ao novo de qualquer espécie deixar-se-o-á aproximar-se com uma tranquilidade hostil, — afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa «objectividade» moderna é mau gosto, é algo não-aristocrático par excellence.

*Friedrich Nietzsche, in "Crepúsculo dos Ídolos"

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Médicos e detetives***


O diagnóstico de uma doença é como uma tarefa sherlockiana. Cada paciente fornece uma série de sinais e sintomas exclusivos, que precisam ser interpretados para se chegar a um diagnóstico.  O paciente vai contando uma história, mostrando algumas pistas, deixando alguns sinais, para que sejam investigados. Cada caso é um caso. 

O médico vai sendo desafiado todo instante a entrar no mundo do paciente e conhecê-lo. Pode perceber, por exemplo, que a dor referida não coincide com o local da lesão, que não existe ferida alguma que justifique aquele pranto ou dor, que a chaga se apossou do paciente, mas a causa está na família, que os sinais e sintomas direcionam para o lado oposto da história relatada, que não é a morte o maior medo do paciente, que não é a doença o motivo do sofrimento. Como decifrar estes enigmas?

Ao entrar realmente no mundo do outro, identificando-se com seu modo singular de viver, não se volta o mesmo. Volta-se com todas as experiências adquiridas. Alguns médicos não suportam esta pressão, preferem não se envolver e seguem sua carreira diagnosticando e tratando seus pacientes de acordo com os compêndios e classificações generalistas. 

Outros, imbuídos do paradoxo socrático (só sei que nada sei) e do estilo investigativo sherlockiano,  não se prendem ao mundo das aparências e dos manuais: investigam, surpreendem-se, colocam-se no lugar do outro, lutam e torcem por seus pacientes, que sentem e sabem não estar mais sozinhos em suas jornadas. Desta forma, juntos, médico e paciente, passam a procurar um final feliz. Nem sempre a cura, nem sempre um final, mas quase sempre a busca do não sofrer. 

*Um pedacinho de meu novo livro. Ainda não disponível. Aviso quando do lançamento, provavelmente no primeiro semestre 2015.

**Ildo Meyer
Médico, Escritor, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Respeite a você mais do que aos outros*


Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. (...) Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. 

(...) Pretendia apenas lhe contar o meu novo carácter, ou falta de carácter. (...) Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... 

Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. (...) 

Uma amiga, um dia desses, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou essa calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinquenta anos. (...) o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. 

Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.

*Clarice Lispector in 'Carta a Tânia [irmã de Clarice] (1947)

domingo, 25 de janeiro de 2015

A palavra conjectura*



Um pouco antes das novas conjugações existenciais, existe um período onde se rascunham estimativas, elencam suposições, roteirizam probabilidades. Nesse espaço de ensaio, insegurança, dúvida, desenvolve-se uma poética da insuficiência, por onde as incompletudes perseguem ânimos de experimentação. 

Assim permite a aproximação com um lugar estranho, de onde nascem categorias, verdades, suspeitas. Sua essência, de querer ser, aponta regiões inexploradas para si mesma. Talvez seu maior desafio, seja superar a incompreensão da pluralidade do que vai aparecendo, os agendamentos e repercussões no mundo dos outros.   
Esse procedimento reivindica uma disposição do sujeito para extrapolar seus limites existenciais. Aqui os sobrevoos são insuficientes. É necessário um mergulho atento, circunstanciado, pelas possibilidades do horizonte singular. 

A frequência devaneio, ao surpreender-se por algum ideal de natureza intuitiva, dependendo da estrutura de pensamento onde atua, pode emancipar e configurar um novo território subjetivo. A efetividade da palavra conjectura, ao destoar do mundo conhecido, reverencia e acolhe a parcela de infinito refugiada no instante. 

Ao possuir uma silhueta de relatos incompreendidos, compartilha a aptidão de reavivar expectativas, com elas pode descrever, inventar, descobrir, ampliar o ângulo de visão. A prática dessas suposições, como uma transcendência, pode conceder vida nova aos jogos de linguagem. 

Por essas investidas com o que ainda não veio, é possível desenvolver a aptidão de multiplicar-se. Um referencial onde imaginação e memória se mesclam em roteiros inusitados. Nesse movimento aprendiz se pode testar um amanhã ainda sem nitidez. 

A categoria tempo, ao desenvolver-se em pressuposições, cuida das novidades no estágio de promessa. Sua feição de impropriedade na própria casa, ao anunciar inéditos, se utiliza da imaginação para reverenciar opções. Aqui se apresenta uma tentativa de gerenciar contrastes, refletir sobre a arte de perscrutar subsolos. 

Seu caráter de paradoxo com o dicionário das normalidades, ao formular perguntas, questionamentos inicialmente irrespondíveis, apresenta horizontes ao olhar desconhecido. Um viés interminável se expressa na associação dos textos livres. A palavra conjectura, assim descrita, pode significar uma tradução para prosperar raridades.   

*Hélio Strassburger

sábado, 24 de janeiro de 2015

A Grande Literatura*


Os romances nunca serão totalmente imaginários nem totalmente reais. Ler um romance é confrontar-se tanto com a imaginação do autor quanto com o mundo real cuja superfície arranhamos com uma curiosidade tão inquieta. Quando nos refugiamos num canto, nos deitamos numa cama, nos estendemos num divã com um romance nas mãos, a nossa imaginação passa o tempo a navegar entre o mundo daquele romance e o mundo no qual ainda vivemos.

O romance nas nossas mãos pode-nos levar a um outro mundo onde nunca estivemos, que nunca vimos ou de que nunca tivemos notícia. Ou pode-nos levar até às profundezas ocultas de um personagem que, na superfície, parece-se às pessoas que conhecemos melhor.

Estou a chamar a atenção para cada uma dessas possibilidades isoladas porque há uma visão que acalento, de tempos a tempos, que abarca os dois extremos. Às vezes tento conjurar, um a um, uma multidão de leitores recolhidos num canto e aninhados nas suas poltronas com um romance nas mãos; e também tento imaginar a geografia de sua vida quotidiana.

E então, diante dos meus olhos, milhares, dezenas de milhares de leitores vão tomando forma, distribuídos por todas as ruas da cidade, enquanto eles leem, sonham os sonhos do autor, imaginam a existência dos seus heróis e veem o seu mundo. E então, agora, esses leitores, como o próprio autor, acabam por tentar imaginar o outro; eles também se põem no lugar de outra pessoa.

E são esses os momentos em que sentimos a presença da humanidade, da compaixão, da tolerância, da piedade e do amor no nosso coração: porque a grande literatura não se dirige à nossa capacidade de julgamento, e sim à nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.

*Orhan Pamuk

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A Filosofia Clínica na minha vida...*


Andei questionando que papel o estudo da filosofia clínica tem cumprido em minha vida e cheguei a inúmeras conclusões. Sou habilitada para a pesquisa dentro da filosofia clínica pois ainda não conclui meu pré-estágio terapêutico. Aliás, não tenho pressa em continuar, tendo em vista, os ganhos que tive com esse estudo.

A filosofia clínica abriu meu conhecimento de mim mesma. E creio que esse deva ser o primeiro passo para as pessoas que pretendem atender outras pessoas. Antes da filosofia clínica em minha vida eu escrevia e simplesmente detestava tudo o que escrevia. Mas, sempre gostei de me expressar pela escrita. Meu professor e filósofo clínico Hélio percebeu isso, essa minha singularidade. Eu não só fui incentivada por esse mestre-amigo, mas também, fui descoberta como um ser que necessita expurgar pela escrita as dúvidas da existência e as dores de existir.

Desagendei muito durante meu processo. Cresci como ser humano, me desnudei de complexos e recatos. Sou mais coerente comigo mesma. Descobri que sou expressão pura e profundamente reflexiva e questionadora. Hoje eu consigo aceitar um pouco melhor minha singularidade, percebo que não há tanta necessidade de me identificar, porque descobri que nenhum ser é igual a outro. 

A coisa mais linda dessa abordagem terapêutica é a questão da importância da singularidade. Sim!!! Não podemos tratar uma pessoa com pré-juízos. Não existe classificação. Somos únicos. Isso é lindo demais!!! E, se somos únicos, não deveríamos julgar tanto como o outro se apresenta dentro dos inúmeros papéis existenciais que a vida o apresenta. Digo não deveríamos pois ainda exercito essa "suspensão de juízo" tão presente na história da filosofia antiga.

O processo autogênico que o estudo da filosofia clínica cumpre em minha existência, é por si só, capaz de responder o porquê de estudar tanto essa abordagem terapêutica. O "ser-terapeuta" é apenas um detalhe para a vida do filósofo clínico. Claro que é um detalhe muito importante e necessário. Entretanto não é o que há de maior valia na filosofia clínica. O método é muito bem estruturado, cada detalhe dos exames categoriais deve ser muito bem pesquisado. Por isso é muito importante fazer terapia antes de ser um terapeuta. Somente alargando o pensamento a respeito de mim mesma poderei ter um olhar mais humano e humilde para a historicidade do outro.

Quem tem o dom de cuidar, certamente, se identificará com a filosofia clínica. Cuidar não é simplesmente escutar e aplicar o método desenvolvido por Lúcio Packter, é muito mais que tudo isso. Cuidar é amar a vida do outro tendo consciência de que grande parte das pessoas que procura um profissional terapeuta está em processo de crise, sofrimento! Sem essa consciência não haverá êxito no processo de terapia com essa abordagem tão singular.

É necessário muita cautela antes de um filósofo clínico iniciar o papel de terapeuta. É necessário muito amor, carinho e dedicação! Temos que nos conscientizar que isso não é uma tarefa assim tão simples. Para muitos, até pode ser simples, entretanto, para outros o "ser-terapeuta" pode ser muito perigoso.

Hoje consigo entender as palavras do professor Hélio Strassburger ao dizer que é um "homem do mundo". O ser-terapeuta é quase um sacerdócio! Uma renúncia de parte de si para a partilha com o outro. Creio que só com esse pensamento poderemos um dia desempenhar papel tão significativo que é o de terapeuta filosófico.

*Vanessa Ribeiro
Atriz, Bailarina, Filósofa, Filósofa Clínica
Petrópolis/RJ

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O Perigo do Especialista*


O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazer ver todo o radicalismo da sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. Não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é «um homem de ciência» e conhece muito bem a sua fracção de universo. Devemos dizer que é um sábio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio.

E, com efeito, este é o comportamento do especialista. Em política, em arte, nos usos sociais, nas outras ciências tomará posições de primitivo, e ignorantíssimo; mas tomará essas posições com energia e suficiência, sem admitir – e isto é o paradoxal – especialistas dessas coisas. Ao especializá-lo a civilização tornou-o hermético e satisfeito dentro da sua limitação; mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia vai levá-lo a querer predominar fora da sua especialidade. E a consequência é que, ainda neste caso, que representa um maximum de homem qualificado – especialismo – e, portanto, o mais oposto ao homem-massa, o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida.

A advertência não é vaga. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam, julgam e actuam hoje na política, na arte, na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os «homens de ciência», e é claro, depois deles, médicos, engenheiros, financeiros, professores, etc. Essa condição de «não ouvir», de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa, chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. Eles simbolizam, e em grande parte constituem o império actual das massas, e a sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização europeia.

*José Ortega y Gasset

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Estórias de livreiro*


Choveu naquele dia. O dia inteiro.

Gilberto era o seu nome. Profissão: leitor. Ele era assim, meio esquisito.Vivia de ler. E parecia ler o que lhe fazia bem. Ou não. Não sei....Percebia-se isso no seu jeito de andar. E no seu jeito de falar. 

Naquele dia falou-me de um livro que estava lendo: As Aventuras do Bom Soldado Svejk.

Observou categórico, mas sereno:
- Mas isto, Zé, é um livro que precisa ser lido no inverno....

Está bem...

Em algumas situações meu pensamento voa rápido. Selecionei já, em minha cabeça os livros para serem lidos no verão. E aqueles para serem lidos no inverno. Outros para serem lidos na primavera. Ainda aqueles que só poderiam ser lidos no outono.

Disse-me ainda:

- Uma vez quis defender esta tese: os livros necessitam ser lidos de acordo com as estações do ano.

Tinha razão meu amigo. Concordei com a cabeça.
É, faz sentido....

Pensei comigo: Existiriam, certamente, também os livros para serem lidos conforme as estações da alma....

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

Meu problema não era a comida*


Hoje não acordei bem. Senti um aperto na altura do estômago, uma sensação de saciedade e uma preguiça daquelas que nos aprisionam na cama. Olhei o relógio e vi que passavam das nove, mas não tinha a menor vontade de levantar. Queria mesmo era voltar a dormir pra ver se acordava melhor.

Não consegui. O pessoal que trabalha na pousada já estava circulando pelo corredor, especialmente dona Maria, que enquanto limpa os quartos, cantarola muito alto e faz alguns barulhos que me atrapalham o sono.

Além disso, fiquei pensando o que poderia ter causado aquele mal estar. Rolava na cama de um lado para outro enquanto tentava lembrar o que comera no dia anterior.

A noite havia sido ótima, não exagerei na comida nem na bebida. A única coisa diferente foi aquele vinho verde português servido durante o jantar. Tão logo vi aquele liquido verde na taça, estranhei a cor. O garçom percebeu minha estranheza mas foi esperto e atencioso. Rapidamente saiu explicando como era a fabricação e envasamento da bebida.

Fui convencido a experimentar. O gosto era um pouco adocicado, porém suave e desceu redondinho. A conversa e a boa comida exigiam acompanhamento de um vinho daquela categoria. Não deve ter sido o vinho. Quem sabe algum ingrediente da comida?

O aperto no estômago continuava, o barulho no corredor aumentou, a cama começou a ficar desconfortável, então decidi levantar e tomar um chá. Vesti aquela bermuda vermelha que comprei na feira de Lisboa, uma camiseta qualquer, calcei os chinelos e desci para a cafeteria. Não tinha disposição para me arrumar melhor.

Sentei naquela mesa perto da janela onde costumávamos tomar café todas as manhãs. Sabia que hoje seria diferente, pois não estarias ali comigo. Ao ver teu lugar vazio, perdi até a vontade de tomar chá. Olhei para o resto do salão e percebi que também estava vazio. Até a música clássica que estava tocando e que curtíamos, já não era mais tão tranqüilizadora.

O vazio da tua ausência estava se alastrando pela casa e pelo meu corpo. Num gesto de desânimo, baixei a cabeça como quem vai chorar e quer esconder o rosto. Neste instante, percebi um envelope com meu nome em cima da mesa, escrito com tua letra.

Foi bom receber aquela surpresa, mesmo sabendo que seria uma despedida. Nem sabia o que estava escrito, mas era como se ainda estivesses ali, me fazendo companhia. Abri rapidamente o envelope, num gesto esperançoso de que magicamente fosses sair dali de dentro.

Não podia imaginar que ali estava a receita para curar minha dor. Três pequenas palavras milagrosas: “Para Sempre Tua”.  O problema não era a comida, minha fome era outra.

*Ildo Meyer
Médico, Escritor, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O Presente Inexistente*


Nunca nos detemos no momento presente. Antecipamos o futuro que nos tarda, como para lhe apressar o curso; ou evocamos o passado que nos foge, como para o deter: tão imprudentes, que andamos errando nos tempos que não são nossos, e não pensamos no único que nos pertence; e tão vãos, que pensamos naqueles que não são nada, e deixamos escapar sem reflexão o único que subsiste. 

É que o presente, em geral, fere-nos. Escondemo-lo à nossa vista porque nos aflige; e se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Tentamos segurá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas que não estão na nossa mão, para um tempo a que não temos garantia alguma de chegar.

Examine cada um os seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.

*Blaise Pascal

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Quando não penso*


Não me preocupo
com rima e métrica
sigo meu coração e alma
brinco de ser poeta
não me segurem
e me ditem regras
escrevo como quero
sem perder meu Eros
Apolo que me perdoe
Dioniso eu sigo
é quando não penso
que a poesia me brota
não faço esforço
brinco com as palavras
e me lambuzo de inspiração
esvazio meus pantanais

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Escritora, Poetiza, Filósofa Clínica.
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Que Todos os Dias Sejam Dias de Amor*


João Brandão pergunta, propõe e decreta:

Se há o Dia dos Namorados, por que não haver o Dia dos Amorosos, o Dia dos Amadores, o Dia dos Amantes? Com todo o fogo desta última palavra, que circula entre o carnal e o sublime?
E o Dia dos Amantes Exemplares e o Dia dos Amantes Platônicos, que também são exemplares à sua maneira, e dizem até que mais?

Por que não instituir, ó psicólogos, ó sociólogos, ó lojistas e publicitários, o Dia do Amor?
O Dia de Fazê-lo, o Dia de Agradecer-lhe, o de Meditá-lo em tudo que encerra de mistério e grandeza, o Dia de Amá-lo? Pois o Amor se desperdiça ou é incompreendido até por aqueles que amam e não sabem, pobrezinhos, como é essencial amar o Amor.

E mais o Dia do Amor Tranqüilo, tão raro e vestido de linho alvo, o Dia do Amor Violento, o Dia do Amor Que Não Ousava Dizer o Seu Nome Mas Agora Ousa, na arrebentação geral do século?
Amor Complicado pede o seu Dia, não para tornar-se pedestre, mas para requintar em sua complicação cheia de vôos fora do horário e da visibilidade. Amor à Primeira Vista, o fulminante, bem que gostava de ter o seu, cortado de relâmpagos. E há motivos de sobra para se estabelecer o Dia do Amor ao Próximo, e o Próximo somos nós, quando nos esquecemos de nós mesmos, abjurando o enfezadíssimo Amor-Próprio.

Depressa, amigos criadores de Dias, criai o do Amor Livre, entendido como tal o que desata as correntes do interesse imediato, da discriminação racial e econômica, ri das divisões políticas, das crenças separatórias, e planta o seu estandarte no cimo da cordilheira mais alta. Livre até no impulso egoístico da correspondência geométrica. Amor que nem a si mesmo se escraviza, na total doação que é converter-se no alvo, pois lá diz o que sabe: «Transforma-se o amador na coisa amada.»
Haja também um Dia para o Amor Não Correspondido, em que ele se console e crie alento para perseverar, se esta é a sua condição fatal, melhor direi, a sua graça. Pois todo Amor tem o seu ponto de luz, que às vezes se confunde com a sombra.

O Amor Impossível, exatamente por sua impossibilidade, merece a compensação de um Dia. Concederemos outro ao Amor Perfeito, que não precisa de mais, mergulhado que está na eternidade, a mover os sóis, independentemente da astrofísica. Ao Amor Imperfeito, síntese muito humana de tantos, retrato mal copiado do modelo divino, igualmente, se consagre um Dia generoso.

Amor à Glória não carece ter Dia, nem Amor ao Dinheiro e seu primo (ou irmão) Amor ao Poder. Eles se satisfazem, o primeiro com uma bolha de sabão, os outros dois com a mesa posta. Mas ao Amor faminto e sem talher, e ao que nenhuma iguaria lhe satisfaz, porque sua fome vai além dos alimentos e é a fome em si, a ansiosa procura do que não existe nem pode existir: um Dia para cada um.

E se mais Dias sobrarem, que sejam reservados para os Amores de que não me lembro no momento mas certamente existem, pois sendo o Amor infinito em sua finitude, isto é, fugindo ao tempo no tempo, e multiplicando-se em invenções, sutilezas, desvarios, enigmas e tudo mais, sempre haverá um Amor novo no sujeito amante, dentro do Amor que nele pousou e que cada manhã nasce outra vez, de sorte que o mesmo Amor é cada dia Outro sem deixar de ser o Antigo, e são muitos outros concentrados e não compendiados na potencialidade de amar. Assim sendo, recomendo e requeiro e decreto que todos os dias do ano sejam Dias do Amor, e não mais disso ou daquilo, como erradamente se convencionou e precisa ser corrigido. Tenho dito. Cumpra-se.

*Carlos Drummond de Andrade

domingo, 4 de janeiro de 2015

Filosofia no cotidiano!*


Filosofia no Cotidiano parece ser uma frase paradoxal, pois filosofia e cotidiano não parecem fazer parte da mesma ideia. Filosofia é exatamente aquilo que não se faz no cotidiano. Filosofia no sentido de um exercício de pensamento radical, e radical em dois sentidos: no de ir até a raiz das questões e no sentido de sair do centro e passar a radial que delimita o círculo. Ou seja, um exercício de pensamento que é excêntrico e extra-ordinário. 

E cotidiano é exatamente aquilo que é lugar-comum, ordinário, mais-do-mesmo, “mesmice”, enraizador e não radical. A proposta, então, de uma filosofia no cotidiano é, dentro do ordinário e do mais-do-mesmo, plantar uma semente de pensamento radical para pensar com crítica aquilo que é dado como certo, natural e irretocável. 

Dentro desse espaço que é o cotidiano, há emoções, mas não são suficientes para que haja desacomodação. Pois cotidiano é acomodação, segurança. Há alegrias, mas não que nos exceda; há tristezas, mas não o suficiente para que provoque mudanças. Sentimentos que nos mantenham a sensação de que estamos vivos e participando do mundo dentro de um espaço que nos acomoda, do habitual, do casual. Dentro do cotidiano, muito se reclama e se lamenta, mas isso também faz parte do cotidiano. Entre emoções boas e ruins, atinge-se um equilíbrio que mantém o cotidiano dentro de um esquema de segurança e controle. 

O cotidiano nos constitui enquanto pessoas (profissão, lazer, entretenimento, obrigações sociais, etc.) mas também nos enraíza em um espaço delimitado sem qualquer possibilidade de grandes mudanças ou novidades. Apenas mudanças e novidades que estão dentro do escopo daquilo que nos constitui enquanto pessoas ligadas àquilo que nos afeta de forma direta: alguma promoção, alguma viagem, filhos, nova casa ou novo emprego. Mas essas coisas não alteram de forma substancial nossa forma de viver e de lidar com nós mesmos.

Além do mais, procuramos as coisas que nos enraízam no cotidiano cada vez mais, como jornais e programas de noticiários que nos informem de nosso cotidiano e de nosso âmbito de contato com as coisas que nos constituem. Aceitamos as notícias como parte daquilo que somos e vivemos e compramos (literalmente) entretenimentos e relações que nos afundem cada vez mais em nosso lugar-comum. Achamos que temos liberdade por escolher uma viagem ao invés de outra ou entre um salão de beleza ao invés de outro, mas estamos condicionados a viajar e a sermos esteticamente de certa forma por aquilo que está dentro de nosso cotidiano nos determinando e nos constituindo. 

Pensamo-nos livres, fazemos escolhas, mas dentro daquilo que aceitamos como opções dadas naquilo que podemos alcançar dentro de nosso cotidiano. Vez por outra fazemos uma grande viagem ou mudamos algo substancial e aí colocamos todas essas experiências em fotos e voltamos ao cotidiano, por ora, mais “recarregados” e animados...para fazer mais do mesmo.

Colocar o exercício do pensamento filosófico, como método, no cotidiano é alimentar um pouco a nossa parte de desconfiança e crítica quanto àquilo que nos é dado. É alimentar a estranheza ao invés do comodismo. É perceber nosso lugar em uma sociedade e reconhecer as mensagens subliminares dessa sociedade em direção frontal ao nosso Ser. Ter em mente uma ponta de teoria da conspiração é saudável para quem pretende colocar sua expressão de seu Ser de forma mais enfática e ampla em relação àquilo que o constitui. É não apenas ser constituído, mas constituir.

O livro de Márcia Tiburi, Filosofia Prática[1], delineia bem esse cotidiano e nos coloca frente a frente à discussão do cotidiano como algo que se naturaliza e, por isso, esconde suas verdadeiras intenções e acaba por mortificar o pensamento e a reflexão. É, assim, um exercício ao contrário do pensamento radical e leva ao vazio do pensamento, à ação pela ação, ao automatismo e à diminuição da qualidade das relações humanas, inclusive consigo mesmo.

Filosofia no cotidiano revela-se um exercício existencial, assim como nos tempos da Grécia e de Roma como Sêneca ou Epicteto. Guardar um tempo dentro do cotidiano para analisar, reconhecer, repensar, refletir sobre o próprio cotidiano e nosso lugar nele acaba por ser um antivírus pessoal para poder viver de forma íntegra e honesta com nós mesmos neste mundo que nos constitui e no qual também deixaremos nossa marca. E não apenas seremos marcados por ele. 

[1] Tiburi, Márcia. Filosofia Prática: ética,vida cotidiana, vida virtual. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.

*Fernando Fontoura
Filósofo, Mestrando em Filosofia, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 3 de janeiro de 2015

O Desejo de Criar*


Diotima: Qual é, Sócrates, na sua opinião, a causa deste amor, deste desejo? Você já observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando são tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possuídos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necessário alimentar os filhos? (... ) Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do possível, perpetuar-se e imortalizar-se. Apenas desse modo, por meio da procriação, a natureza mortal é capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. 

[... ] Pois saiba, Sócrates, que o mesmo vale para a ambição dos homens. Você ficará assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a não ser que compreenda o que eu disse, e reflita sobre o que se passa com eles quando são tomados pela ambição e pelo desejo de glória eterna. É pela fama, mais ainda que pelos seus filhos, que eles se dispõem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e até mesmo sacrificar as suas vidas. 

[... ] Aqueles cujo instinto criador é físico recorrem de preferência às mulheres e revelam o seu amor dessa maneira, acreditando que pela geração de filhos se podem assegurar da imortalidade e de uma recordação perene de si. Mas existem alguns cujo instinto criador se aloja na alma e que desejam procriar não pelo corpo, mas espiritualmente, gerando filhos que são próprios da natureza da alma conceber e dar à luz. E o que é próprio da natureza da alma procriar? A sabedoria e as virtudes em geral, cujos progenitores são os poetas e os criadores fecundos.

*Platão
427 – 347 a.C

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A palavra inesperada*



Uma suspeita de imensidão aprecia os deslizes da palavra refugiada na palavra. Ponto de fuga em subterfúgios de especulação, ao exibir renúncias de ser previsível, amplia o mundo das possibilidades.   
  
A admissão compreensiva desses desvãos se oferece no acolhimento de um talvez. Uma de suas características é o descompromisso em sustentar verdades a qualquer preço. Seu estado de espírito sobressaltado, qualifica deslocamentos pela arquitetura subjetiva de um mundo fatiado. Aqui o vislumbre repentino das pequenas coisas permite o acesso as zonas de exclusão.   

Por esses episódios a perder de vista, um teor extemporâneo pode desconstruir as fronteiras conhecidas. Seu saber ameaça os fundamentos conhecidos daquilo que se tinha definitivo. Nesse viés de aparência deslocada anuncia novos horizontes, esparrama indícios de originalidade para se fazer ciência.  

O discurso imprevisível onde ela se esboça, procura inseri-la num contexto de notícia compartilhável. Mesmo assim, prefere um caráter marginal, improvável vestígio de escritura a reinventar interseções. Essas lógicas da raridade subjetiva se rascunham em tempo próprio. Com elas, a súbita percepção de algo desconsiderado pode traduzir o novo se constituindo.

Os eventos extraordinários, incompreendidos, inaceitáveis, quando não tratados a golpes pela medicina psiquiátrica, podem anunciar um viés inesperado, essencial ao viver melhor. Por outro lado, em alguns casos, a drogaria do hospício incita aquilo que busca combater.   

Um instante fugaz onde a percepção é capaz de entrever uma perspectiva inacabada para si mesma. Realidades fugidias em um mundo de expressões desconhecidas. Entremeios de um fenômeno estranho, fica a sensação de janela entreaberta, por onde se move a irrealidade em busca de por vir. Existem sinais de alma nova diante das promessas de ser aquilo que não é.   

*Hélio Strassburger

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O Mapa*









Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

*Mário Quintana