sábado, 28 de fevereiro de 2015

Categoria Tempo*


Não te iluda, isto não é um texto.
São tão somente anotações
Devaneios, divagações
Sobre o tempo interno
Aquele que cada um tem o seu
Mas o tempo depende do momento
Aquele que cada um tem o seu
Momento e tempo tomam uma só forma
Aquela que cada um tem a sua
Mas o tempo depende também da forma
E a forma depende dos sentidos
Os seis, além dos cinco
Tempo momento formam um sentido!

Quero que o tempo demore quando vejo beleza
Quero que o tempo pare quando estou na natureza
O tempo e o momento do brilho no olhar
A forma que os sentidos te esclarecem
O exato momento da plenitude
Acorde da guitarra espanhola
Acordando todos teus sentidos…
Este é o tempo que quero só meu
Momento que de forma alguma divido!
Divido com quem tem o mesmo tempo
Divido com quem tem a mesma forma
De sentir todos os sentidos ao meu tempo

Hoje resolvi brincar com as palavras
Porque preciso que o tempo se apresse
Que o tempo encontre alguma forma
De apressar também os violinos
Que os girassóis girem mais rápido
E todos os sentidos, de alguma forma
Conspirem para que eu divida
Com quem tem o mesmo tempo
Com quem quer o mesmo momento
Das guitarras, violões e das cigarras
Neste momento, de alguma forma
Fará sentido se o tempo parar
Este é o meu tempo interno,

Quero dividir contigo.

*Liane Hopf de Barros
Médica, Poetisa, Estudante na Casa da Filosofia Clínica 
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Ser Poeta*


Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

*Florbela Espanca

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Reflexões, apontamentos, poéticas*


Quando julgamos o outro a partir das nossas próprias fragilidades, nos afastamos muito de quem a pessoa é realmente e passamos a crer em mais um preconceito. Pode surgir desse fenômeno hábitos traduzidos em sofisticadas formas de mentir para nós mesmos e quanto mais mentiras construímos e acumulamos mais nos enganamos, nos iludimos e adiamos ou anulamos conquistas capazes de nos tornar realmente felizes. É mais fácil perceber e se encantar com a estética das formas ou da retórica do que captar as verdades, a essência dos conteúdos, das intimidades das coisas e da vida. Porventura, esse talvez seja o grande desafio e desafeto da linguagem, da poética e de toda a arte. O poeta e todo artista pode até dominar a estética, mas no fundo, visa mesmo é tocar a essência da sua arte na essência do outro, na essência da vida. É surpreendente como em tempos de cólera se torna cada vez mais difícil captar as verdades presentes nas essências dos discursos e dos gestos até mesmo por quem já nasceu poesia. É preciso mais tolerância e esperança, mais arte e mais poesia nesse mundo como apelo e resgate da capacidade de ouvir e sentir as belezas presentes em tudo, sobretudo, de dentro para fora. Enfim, beleza mesmo vem do íntimo de tudo que é vivo e é isso que contagia e faz a coletividade vibrar e transcender; e quando o belo se detém apenas a superfície, sufoca porque o que impera não é beleza, é ilusão viciante muito bem disfarçada em fetiches convincentes demais. Musa!

Pablo Mendes
Filósofo, Analista de Sistemas, Mestre e Doutorando em Educação, Filósofo Clínico
Uberlândia/MG – Porto Alegre/RS

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Apontamentos de Estética Helênica II*


Toda arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer – falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projeções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama. (...)

A palavra é, numa só unidade, três coisas distintas – o sentido que tem, os sentidos que evoca, e o ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos.

(...) É por isto que o mais claro dostextos começa, quando é aprofundado ou meditado por este ou aquele, a abrir-se em divergência de íntimo sentido de um para outro; é que, havendo acordo, em geral, quanto ao sentido direto ou primário da palavra, começa a o não haver quanto aos sentidos indiretos ou secundários.

(...) A arte que vive primordialmente do sentido direto da palavra chamar-se-á propriamente prosa, sem mais nada; a que vive primordialmente dos sentidos indiretos da palavra – do que a palavra contém, não do que simplesmente diz – chamar-se-á, convenientemente literatura; a que vive primordialmente da projeção de tudo isso no ritmo, com propriedade se chamará poesia.

(...) O poeta superior diz o que efetivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.

*Fernando Pessoas

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Infância*


Passa lento o tempo da escola e a sua angústia
com esperas, com infinitas e monótonas matérias.
Oh solidão, oh perda de tempo tão pesada...
E então, à saída, as ruas cintilam e ressoam
e nas praças as fontes jorram,
e nos jardins é tão vasto o mundo —.
E atravessar tudo isto em calções,
diferente de como os outros vão e foram —:
Oh tempo estranho, oh perda de tempo,
oh solidão.

E olhar tudo isto à distância:
homens e mulheres; homens, homens, mulheres
e crianças, tão diferentes e coloridas —;
e então uma casa, e de vez em quando um cão
e o medo surdo trocando-se pela confiança:
Oh tristeza sem sentido, oh sonho, oh medo,
Oh infindável abismo.

E então jogar: à bola e ao arco,
num jardim que manso se desvanece
e por vezes tropeçar nos crescidos,
cego e embrutecido na pressa de correr e agarrar,
mas ao entardecer, com pequenos passos tímidos,
voltar silencioso a casa, a mão agarrada com força —:
Oh compreensão cada vez mais fugaz,
Oh angústia, oh fardo!

E longas horas, junto ao grande tanque cinzento,
ajoelhar-se com um barquinho à vela;
esquecê-lo, porque com iguais
e mais lindas velas outros ainda percorrem os círculos,
e ter de pensar no pequeno rosto
pálido que no tanque parecia afogar-se — :
oh infância, oh fugazes semelhanças.
Para onde? Para onde?

*Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

São Brás: protetor da garganta*


Conheça a história de São Brás, o protetor da garganta.

 São Brás protetor da garganta. Brás, bispo de Sebate (Sibus, na Turquia), foi uma das últimas vítimas das perseguições romanas. Sua popularidade deve-se a um milagre atribuído a ele, quando retirou com as mãos uma espinha de peixe que sufocava uma criança, quase causando-lhe a morte.

Tal milagre fez de São Brás o protetor das doenças da garganta. Pouco sabemos da história deste santo. As informações que chegaram até nossos dias, relatam que foi capturado pelos romanos e martirizado no ano 316.

Celebrar a memória litúrgica facultativa de São Brás, bispo e mártir, nos leva a pedir a Deus, pela intercessão deste santo, a proteção contra todos os males da garganta. Mas também nos compromete a levarmos sempre uma boa palavra a nossos irmãos e irmãs.

No dia de hoje, muitos acorrem as Igrejas para receberem a benção da garganta. O Diretório da Liturgia traz a seguinte proposta de benção para a garganta: “Por intercessão de São Brás, bispo e mártir, livre-te Deus do mal da garganta e de qualquer outra doença. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Resposta: “Amém”.

De que adianta pedirmos a benção da garganta e continuarmos a proferir calúnias e fofocas contra nossos irmãos e irmãs? Que nossa voz seja bem-dita e nos livre da palavra mal-dita.

São Brás, rogai por nós e intercedei a junto a Nosso Senhor pela proteção de nossa garganta.

Pe Flávio Sobreiro
Escritor, Poeta, Estudante de Filosofia Clínica
Cambuí/MG

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Apontamentos de Estética Helênica I*


Pela própria natureza do seu ideal, é a civilização helênica essencialmente a civilização artística. Fazer arte é querer tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte, uma vez feita, constitui beleza objetiva, beleza acrescentada à que há no mundo. (...)

Há, porém, uma outra razão, esta mais emotiva e profunda, para que o ideal helênico seja, de todos, o que mais diretamente conduz à criação artística.

O cristão é metafisicamente feliz. Tem os olhos da alma postos naquela perfeição divina em que não há mudança nem cessação. Pesa-lhe pouco a vileza do mundo: viver e ver são para ele um mal-estar transitório. Ao índio nada dói o haver mundo; volta para o lado o rosto, e contempla em êxtase o Todo a que nem o nada falta. É metafisicamente feliz também.

Outra é a vida espiritual do homem de ideal helênico. Este vê que a vida é imperfeita, porque é imperfeita; porém não rejeita a vida, porque é na mesma vida que tem postos os olhos. Mesmo que veja no mundo dos deuses naquela beleza suprema, pela qual anseia, anseia também por essa beleza nos homens. (...) Por isso, dos três idealistas, é o heleno o único que não pode rejeitar aquela vida a que chama imperfeita. O seu ideal é, portanto, humanamente o mais trágico e profundo.

(...) Se é este, porém, o efeito do ideal puramente objetivo nas almas inferiores, nos espíritos superiores, que são os suscetíveis de criar, o efeito é outro. Não podendo buscar consolação espiritual na religião, força é que a busquem na vida. (...)

A arte é, com efeito, o aperfeiçoamento subjetivo da vida. (...)

Quando o ideal helênico assume o aspecto criador ou ativo, são três as formas de manifestação por que se revela.

Na primeira, e mais alta, dessas formas, o heleno, vendo que a vida é imperfeita, busca criar, ele, a perfeição, substituindo a arte à vida; e busca incluir em cada obra, para que a substituição seja perfeita, ou toda a vida ou um aspecto supremo da vida. (...)

Na segunda, e média, dessas formas, o heleno sentindo que a vida é imperfeita, busca aperfeiçoá-la em si próprio, vivendo-a com uma compreensão intensa, vivendo de dentro, com o espírito, a essência do transitório e do imperfeito. (...)

Na terceira, e ínfima, dessas formas, o heleno, vendo e sentindo vagamente a imperfeição das cousas, porém sem força espiritual, quer para construir uma perfeição que as substitua, quer para se consubstanciar emotivamente com a sua imperfeição, decide aceita-las como se fossem perfeitas, escolhendo em cada uma aquele momento, aquele gesto, aquela passagem que de tal modo encheu a nossa capacidade de sensação que naquele momento, naquele gesto, naquela passagem, a sentimos perfeita. (...)

*Fernando Pessoas

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Coisas que eu não sei*


Anunciam-se relâmpagos e trovões.
Vai chover....
Alegra-me esperar a chuva
Que a chuva lave o mundo!!!!
Que bom!!! Andarei na chuva
O dia inteiro
Contarei os pingos da chuva
Farei coisas que eu não sei....
Não são os dedos que escrevem versos
Não é o pensamento que constrói poesias
É alguma coisa da alma
Que eu não sei bem o que é....

José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Síntese do Vagar*


 “Nada mais fácil do que dizer o eu é multiplicidade ou que é unidade ou que é a síntese de ambas.”
Henri Bergson

Nada mais fácil do que viver em meu espaço, nele consigo refazer a casa do pensar. Digo que é um espaço livre, absoluto, de todas as imposições de ordem moral... por que da moral, se não estou aqui me refazendo do mundo totalitário das coisas? Apenas aqui, é o espaço do pensar.

Estou a dedilhar o acontecimento, o mundo dentro do mundo, o fora do mundo, o mito de viver bem, o mito da solidão etc. No meu espaço, convivo com os sonhos, as maquinações desse pensar, as tentativas de inventar o menor espaço possível para escapar com a palavra, atravessar a imaginação de mundos possíveis.

É óbvio, a razão diria, isso é um monstro. Não quero meus sonhos em companhia da sensatez, prefiro a música, o pensamento, o livro que invade o tempo dos contrários. 

A contramão das ideias pode tudo mas não corrompe as pontas do pensar nesse meu espaço que bifurca em ruas do século XXI. O movente é a razão metafísica que me joga ao externo, ao desconhecido jogo de linguagem.

“As ruas são a morada do coletivo. O coletivo é um ser eternamente desperto, eternamente agitado que vivencia, experimenta, reconhece e imagina tantas coisas entre as fachadas quanto os indivíduos no abrigo de suas quatro paredes.” (Passagens, p. 958 – Walter Benjamin)

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Professor PUC/RS, Editor Sulina

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Era uma vez...*


“Às vezes, eu acredito em seis coisas impossíveis antes do café da manhã”
(Alice no País das Maravilhas, Tim Burton, 2010)


As singularidades adentram os espaços terapêuticos das mais improváveis formas. Alguns chegam indecisos sobre o porquê de estarem ali, afinal nem sempre existe obviedade; outros talvez não saibam que seja uma porta para descobertas tão incômodas quanto difíceis. Existe a probabilidade de que um turbilhão os perpasse, podendo arremessá-los até a mais insana possibilidade de ser. Na verdade, percorrer caminhos de encontros pode ser tão inusitado quanto permanecer inerte no estado catatônico em que a normalidade desavisada costuma nos mergulhar.

Cada um tem sua estrada, suas histórias na bagagem, que muitas vezes arrastam melancólicos ou sem vontade, desgostosos do que mais desejam. Na verdade, as histórias se misturam em potes, cujo fundo nem sempre é visível. Falas entrecortadas de peculiaridades trazem à tona que um dia fui assim... há muito tempo não sei mais quem sou... não sei se percebi o tempo que passou  nem mesmo sei se me terei de volta... em tese, é a mesma pessoa; mas na versão real, pode ser qualquer outro alguém. É como um mistério e um desafio, uma nota dissonante de uma canção que não se acaba. Não há réquiem para os corações que pulsam.

A dádiva de penetrar mundos e se colocar disponível a compreender historicidades, preencher lacunas e reunir pontos nem sempre visíveis requer uma disponibilidade que se pretende única e que se traduz através da escuta e da presença, onde o jogo de olhares e silêncios torna-se cúmplice de atitudes que se preparam para uma de suas mais belas facetas: abrir-se ao seu papel existencial do ser cuidador.

Em alguns momentos, essa escuta apenas se faz presente, e observa, antevendo possíveis suspiros ou brilhos molhados que pendem de olhares suplicantes por se fazer ouvir. Parece tarefa árdua, mas apenas para quem não se importa. Na verdade, é como perceber universos inteiros em seus maravilhosos contos de fadas reais, onde mocinhos e vilões dançam abraçados no decorrer das páginas. Hora de ler nas entrelinhas e nas literalidades, plantando atalhos e promovendo os dados divisórios e os enraizamentos que permitirão a compreensão do quebra-cabeça existencial.  O que torna a escuta capaz é saber que participamos e coexistimos da mesma matéria daqueles que ouvimos e somos tão imortais quanto os sonhos e as vicissitudes que alimentam a todos. Então, é preciso buscar forças e bases e convocar a alteridade latente que nos permite navegar em mares tanto rasos quanto profundos.

Nos antigos e etéreos reinos distantes dos contos de fadas era fácil acreditar que os destinos se desdobravam, suspensos por mágicos eventos, revelando realidades que se confundiam e se tornavam o que quer que se desejasse. Lá, tudo (ou nada) fazia sentido e acreditar em coisas impossíveis era tão banal quanto admirar os mistérios da vida ou se colocar na condição e na ordem de um universo imaginário, sem nexo, sem limites... Em nossos tempos existenciais nem sempre os instantes se sucedem como a lógica da vida parece querer demandar. Cada história singular se confunde com si mesma, agarrando-se à fugacidade do instante presente, numa tentativa desesperada de se fazer existir. Então, só fará sentido o que estiver impresso na alma e ressignificar os caminhos percorridos.

Assim, desde que se acredite, não há limites para a os desdobramentos de qualquer relato. É papel de quem ouve estabelecer, em tácito e firmado acordo, filtros para que as essências (ou o que de fato importa) se revelem, o mais claro e limpidamente que se possa observar nas bordas cristalinas da autenticidade permitida. Porque as histórias nem sempre têm começo, meio e fim como parâmetro. Ao contrário, são capazes de ir, vir e se reproduzir a cada segundo, como centelhas inesgotáveis de matéria-prima que compõem os versos da estrada que as conduz. Histórias saltam, retrocedem, vislumbram, se alternam, coexistem e não se esgotam... como flashes existenciais que se propagam na infinitude de tudo o que poderiam ser.

Entretanto, há uma chance de não sermos pegos de surpresa pelo jaguadarte que generosamente deixamos que nos fira. Se abrirmos as portas da imaginação e simplesmente nos soltarmos, lançando nossa alma no turbilhão, talvez nos seja permitido acreditar em algo impossível: que somos capazes de fazer valer o que realmente desejamos, seja lá o que for. De preferência, antes do café da manhã.

*Luana Tavares 
Filósofa, Mestre em Filosofia, Filósofa Clínica
Niterói/RJ

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Cantiga de Malazarte*


Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo, ando debaixo da pele e sacudo os sonhos. Não desprezo nada que tenha visto, todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola. 

Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos, destelho as casas penduradas na terra, tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando. 

Desloco as consciências, a rua estala com os meus passos, e ando nos quatro cantos da vida. 

Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido, não posso amar ninguém porque sou o amor, tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos e a pedir desculpas ao mendigo. 

Sou o espírito que assiste à Criação e que bole em todas as almas que encontra. Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo. Nada me fixa nos caminhos do mundo.

*Murilo Mendes

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Tempo do sem fim*


Noite a dentro
silêncio no entorno
os deuses me povoam
Hermes me possui
entre Dioniso e Apolo
poemas de Gullar e Pessoa
suspiro estrelas
navego pela escuridão
guiada por pirilampos
driblo o sono
na vastidão de mim
multidões plurais
benzem meus devaneios
ancoro-me nesta fresta
a deleitar-me
na relva imaginal
porque sou não ser
dissolvida no espaço
no tempo do sem fim

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Canção do dia de sempre*









Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

*Mario Quintana

domingo, 15 de fevereiro de 2015

A palavra número*



As possibilidades contidas na estrutura de pensamento, encontram, na palavra número, um viés especulativo sobre sua equação matriz. Um lugar para visualizar e descrever os diálogos, as fronteiras e transgressões da subjetividade.      

Os referenciais indicativos de quantidade, ao multiplicar, subtrair, dividir ingredientes estruturais, numa ordem descabida, recoloca a leitura singular como imprescindível. Assim a contagem histórica, ao conceder o padrão, o dado atual, a literalidade dessas variáveis, ensina a dialética de uma intimidade, em que pese seu aspecto de refém das lógicas do improviso.    

Ao tentar desvendar essas indicações, em cada página descrita, surgem novas questões, problemáticas. A partir daí, pela via da nova semiose: o número, menciona aquilo sem palavras para se dizer. As verdades surgem em conjecturas, cálculos, simbologias, tentam mensurar a natureza do transbordamento pessoal. 

Talvez se encontre, nessa questão, um modelo para compreender a pluralidade dos papéis existenciais, os desdobramentos da expressividade. Não é incomum encontrar um sujeito de 40 anos (certidão de nascimento) com as emoções cristalizadas nos 08, a epistemologia em 50, buscas nos 15 e pré-juízos em 100 anos. Desenvolvendo uma interseção curiosa com o meio (princípios de verdade) onde  exercita sua vida passando.    

Noutros casos, também se verificam pessoas, com o tópico sensorial congelado nos 10 anos de idade, representação de mundo nos 20 e forte agendamento de interseção de estrutura (pai, mãe, tios, avós...) fazendo a manutenção de pré-juízos em 60, axiologia em 30 e buscas em 70 anos, com a idade da certidão igual a 25. Nessa arquitetura subjetiva, é importante decifrar a qualidade dos deslocamentos internos,os ruídos, a relação dos aspectos determinantes entre si. 

Nesse sentido, uma estimativa dessa conversação íntima, pode conceder ao Filósofo Clínico, uma aproximação com as origens da movimentação existencial de cada um. O que pode e o que não deve ser conciliado, as desconstruções possíveis, surpresas, descobertas. Computar, com o chão dos exames categoriais, o território dos raciocínios convergentes, divergentes, as contradições, rupturas, esboçar as formas de uma coexistência duradoura. 
  
Assim se consegue entender uma mulher de 60, apaixonada e, num excelente relacionamento com um rapaz de 22, lidando bem com as idades do calendário normal ao dividí-las com seu companheiro, em que pese as influências do mundo ao seu redor. Um homem de 70 (idade atestada pelo cartório) pilotando sua motocicleta com amigos de 30 e namorada de 20, ou, ainda, um sujeito de 50 anos, diretor numa grande empresa, mostrar-se sisudo, frio, racional e de difícil convívio no cotidiano profissional, sendo alegre, comunicativo, expansivo, cedendo lugar aos outros de si mesmo em uma festa.

Os exemplos se multiplicam: razão, proporção, desproporção. No entanto, para decifrar a fonte dessas incontáveis verdades, não basta classificar atitudes, diagnosticar representações, moldá-las aos limites do tipo legal (quando chegam as leis, o fenômeno há muito se foi!). Eis aí um saber que se pluraliza no chão de fábrica_consultório. Seu denominador incomum, conhecido como singularidade, aprecia deslembrar, conceder vida nova a tópicos desmerecidos, reinventar-se por inteiro na parte que lhe cabe. 
   
As feições de cada um, expressos por algum gesto, fisionomia ou atitude, podem indicar a idade aproximada, no instante onde a leitura acontece. Assim também, as cogitações e interseções da malha intelectiva, apreciam deixar rastros da idade tópica cristalizada ou em desenvolvimento. Lembranças de um lugar onde se chega arrumando as malas para partir. 

Nessa sinalização se busca abrir espaço, conceder a palavra a verdades, até então, irreconhecíveis. Ao se traduzir subtrações, excessos, é possível antever vontades, significar dialetos, expandir as fronteiras da lógica conhecível. Essa matemática, ao descrer nos labirintos indecifráveis, sugere emancipá-los no discurso da palavra número.  Talvez essa mão que nos escreve tenha algo mais a dizer.   

*Hélio Strassburger

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Ideais Insanos*


Um homem louco é aquele cuja maneira de pensar e agir não se coaduna com a maioria dos seus contemporâneos. A sanidade mental é uma questão de estatística. Aquilo que a maioria dos Homens faz em qualquer dado lugar e período é a coisa ajuizada e normal a fazer. Esta é a definição de sanidade mental na qual baseamos a nossa prática social. 

Para nós, aqui e agora, são muitos os de mentalidade sã e poucos os loucos. Mas os julgamentos, aqui e agora, são por sua natureza provisórios e relativos. O que nos parece sanidade mental, a nós, porque é o comportamento de muitos, pode parecer, sub specie oeternitalis, uma loucura. Nem é preciso invocar a eternidade como testemunho. A História é suficiente. 

A maioria auto-intitulada de mentalmente sã, em qualquer dado momento, pode parecer ao historiador, que estudou os pensamentos e ações de inumeráveis mortos, uma escassa mão-cheia de lunáticos. Considerando o assunto de outro ponto de vista, o psicólogo pode chegar à mesma conclusão. Ele sabe que a mente consiste de tais e tais elementos, que existem e devem ser tidos em conta. Se um homem tenta viver como se certos destes elementos constituintes do seu ser não existissem, está a tentar viver, num sentido psicológico absoluto, anormalmente. Está a tentar ser louco; e tentar ser louco é insânia.

Aplicando estes dois testes, o do historiador e o do psicólogo, à maioria mentalmente sã do Ocidente contemporâneo, que verificamos? Verificamos que os ideais e a filosofia da vida agora geralmente aceites são totalmente diferentes dos ideais e da filosofia aceite em quase todas as outras épocas. O Sr. Buck e os milhões por quem ele fala estão, esmagadoramente, em minoria. Os incontáveis mortos preferem a sentença a seu respeito: estão loucos. 

Os psicólogos confirmam o seu veredicto. O êxito – «a deusa-cadela, Êxito» na frase de William James – exige estranhos sacrifícios daqueles que a adoram. Nada menos do que automutilação espiritual pode obter os seus favores. O homem coordenado para o êxito é um homem que foi forçado a deixar metade do seu espírito fora da sua personalidade. E se ele aceitar os ideais e a filosofia da vida que a deusa-cadela tem para oferecer, achar-se-á condenado, ou a uma estrénua irreflexão ou a um cinismo poeirento e descolorido. 

Nascido potencialmente são, ele aprende a sua loucura. “Porque todo o Homem”, como Sancho Pança observou, “é como o céu o fez, e algumas vezes muito pior do que isso” – algumas vezes, também, muito melhor; depende, em parte, dos seus próprios esforços, em parte das tradições, das crenças, dos códigos, da filosofia da vida que acontece ser corrente na sociedade em que ele nasceu. 

Onde esta herança social é uma loucura, o indivíduo naturalmente mais normal está moldado à semelhança de um louco. Em relação à sociedade em que vive, ele é, sem dúvida, normal, porque se parece com a maioria dos seus pares. Mas eles são todos, falando em absoluto, conjuntamente loucos.

A Natureza permanece inalterável, quaisquer que sejam os esforços conscientes feitos para a deformar. Os Homens podem negar a existência de uma parte do seu próprio espírito; mas o que é negado não é por isso destruído. 

Os elementos banidos vingam-se nos indivíduos, nas sociedades inteiras. Uma coisa apenas é absolutamente certa quanto ao futuro: que as nossas sociedades ocidentais não se manterão por muito tempo no seu presente estado. Ideais loucos e uma filosofia lunática da vida não são as melhores garantias de sobrevivência.

*Aldous Huxley

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Nem todo mundo gosta de sexo*


Então você não gosta de sexo? E de você, você gosta?

Há ainda muita controvérsia sobre o sexo ser ou não uma necessidade básica fisiológica, estar inserido no mundo do homem como algo sem o qual ele não pode viver ou algo como uma alternativa que o homem inventa para reproduzir a espécie ou justificar a união com outro ser ou ainda, sobre o sexo ser fonte de alegria, paz, saúde e coisas desse tipo.

Você está vivendo o seu tempo ou está em algum lugar do passado ou do futuro?

Você escolhe o que, como fazer para sua vida ser mais tranquila, sorridente, pacífica e integrada aos outros seres humanos? O que você escolhe como fonte de equilíbrio para você?

Há quem possa não gostar de sexo? Claro que sim, contudo antes há de se pensar se esta é mesmo uma primeira verdade para o indivíduo que afirma que o sexo não é necessário ou algo do qual se deva gostar.

Pessoas que não gostam de si mesmas, do próprio corpo, com auto estima muito rebaixada, costumam arranjar desculpas para não interagir em sexo. Maldizem e diminuem sua importância para justificar passar sem.

Outros, comungados desonestamente, aqueles que partilham seu tempo de vida com parceiros cujo propósito da união é escuso ou interesseiro, costumam inventar maneiras de adiar, despistar e até mesmo negar a possibilidade de fazer sexo com o outro. Arranjam milhões de tarefas, ocupações, dores e tudo o que há para passar sem.

Tem os muito novos, coitados, na flor do tesão, com espinhas brotando de todo o canto da mente e dos hormônios endoidecidos, indefinidos, que por cultura, influencia doméstica ou religiosa, quando não conseguem compartilhar em sexo com alguém, ainda se proíbem a auto satisfação. Arranjam um monte de planos para o futuro, pecados absurdos, um cansaço sem fim, para passar sem.

Existem ainda os velhos, cujos corpos mal cuidados ou mal fadados, proíbem o sexo onde a vida deveria ser mais tranquila e propícia a ele. Onde a vida toda cumprida, deveria permitir prazeres além de toda obrigação imposta no seu caminhar. Arranjam atividades de toda ordem para enganar o tempo que ainda lhes falta viver, para passar sem.

Neste “hall”, não podemos esquecer os temerosos de se envolver, os covardes em amar que preferem se abster, os aflitos em não adoecer, embrenhados em cavernas escuras negando a luz que traria muito mais claridade que seus livros, pílulas de falsa alegria, viagens, orações vazias a preencher um vazio a aumentar a distância do encontro com outro sexo. Arranjam todo tipo de peripécias para passar sem.

Hoje existe ainda, a tal moda de se ver mais em espírito que em carne, todos completamente encarnados, enervados à flor da pele pretendendo quase ocupar o lugar do espírito mais elevado que a terra já conheceu em toda sua invenção contra a acepção da morte e respiram, inspiram quase todo ar do mundo, entram em processo de quase vacuidade, para não dividir sua carne com outra carne. Arranjam misticamente todo tipo de desfaçatez, para viver sem.

Mas o pior de todos é o mentiroso, do qual eu não preciso nada dizer.

Pessoas vivem se abastecendo de recursos materiais de toda ordem para garantir a vida e até a morte.

Céus!

Não estou me lembrando aqui, agora, de nenhum filme – deve até existir algum, é claro – cujo enredo não proponha em algum momento dentro da realidade ou da ficção, um encontro sexual romântico amoroso entre algum jovem, adulto, velho, deficiente físico, alienígena, animal irracional, personagem de desenho animado, ser espiritual, oriental, ocidental, comercial. Vocês se lembram do clássico Coccon, onde velhinhos já descrentes de tudo, encontram seres alienígenas e diante de um sopro de vida, a primeira coisa que pensam é namorar?

Queridos, por favor, se vocês não estiverem completamente imóveis ou completamente fora de suas faculdades mentais, por gentileza, por caridade, cuidem de sua sexualidade, de qualquer forma, exceto através do que transgride o direito do outro e, distribuam doces, sorrisos, abraços, luz, paz, amor, pelo mundo a fora.

Faça amor, não faça guerra

*Jussara Hadadd
Terapeuta sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Antes de vivermos, a vida é coisa nenhuma*


O homem começa por existir, isto é, o homem é de início o que se lança para um futuro e o que é consciente de se projetar no futuro. O homem é primeiro um projeto que se vive subjetivamente, em vez de ser musgo, podridão ou couve-flor; nada existe previamente a esse projeto; nada existe no céu ininteligível, e o homem será em primeiro lugar o que tiver projetado ser. 

Não o que tiver querido ser. Porque o que nós entendemos ordinariamente por querer é uma decisão consciente, e para a generalidade das pessoas posterior ao que se elaborou nelas. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me: tudo isto é manifestação de uma escolha mais original mais espontânea do que se denomina por vontade.

(...) Escreveu Dostoievsky: «Se Deus não existisse, tudo seria permitido.» É esse o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem encontra-se abandonado, porque não encontra em si, nem fora de si, a que agarrar-se. 

Ao começo não tem desculpa. Se, na verdade, a existência precede a essência, não é possível explicação por referência a uma natureza humana dada e hirta; dito de outro modo, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos em face de nós valores ou ordens que legitimem a nossa conduta. 

Assim, não temos nem por detrás de nós nem à nossa frente, no domínio luminoso dos valores, justificação ou desculpas. Estamos sozinhos, sem desculpa. É o que exprimirei dizendo que o homem está condenado a ser livre.

Se suprimi Deus Pai, cumpre que alguém invente os valores. Temos de tomar as coisas como elas são. Aliás, dizer que inventamos os valores não significa senão isto: a vida não tem sentido a priori. Antes de vivermos, a vida é coisa nenhuma, mas é a nós que compete dar-lhe um sentido, e o valor não é outra coisa senão o sentido que tivermos escolhido.

Jean-Paul Sartre, in 'O Existencialismo é um Humanismo'

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Refulgor*


A cor do seu momento é verde.
Respire-o na essência líquida.
Veja-o nas folhas brilhantes de citros,
comunidade à sua volta.
Mastigue-o, ramo e talo de salsa,
ouça-o no orégano seco
semeado na trilha da conversa.
Sinta o aroma entre os aromas,
faça-se brilho a partir desse reviver.
Renascimento e forças,
mas forças da luz sutil que encanta.
Difere a força bruta
com a qual as flores massacra.
Deixe as malícias (erva sensível ao toque)
e os espinhos à sua sorte
porque assim escolheram.
Reconduza-se a um objetivo profícuo.
Retome seu rumo
com coragem para romper vínculos - não mais inocente.
Outras chances, locais, pessoas.
Respire a vida como vier
mas impeça o ar impuro.
Abstenção é uma escolha, não uma luta.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF