terça-feira, 31 de março de 2015

Olhos do viajante, recorte do pensamento*


“A alma jamais pensa sem fantasia.” Aristóteles

Quão estúpidos são os homens que creem que a vida é só viver; a vida é, também, renuncia, é deixar de viver momentaneamente para se dedicar ao não vivido. Viver não é só gozar a vida, é tudo, até mesmo morrer para viver melhor outro dia após outros dias. 

Andei pensando esses últimos dias, enquanto viajava, lia, via coisas novas, coisas que já tinha visto mas meus olhos renovados já passaram pela negação da vida, questionava ao total abandono de um absoluto nas imagens. Tudo parece novo, mesmo que já tenha visto, imagino o novo diante dos olhos, o sentir desse espaço infinito por onde o pensar foge da imagem. Vejo outros mundos dentro do mundo em que me adentro a ver. 

A vida do viajante é interessante porque nunca consegue descansar a cabeça, sempre quer olhar e pisar mais o todo de qualquer canto por onde passa. O viajante difere do turista, ele é quem conduz o roteiro, quase sempre aleatoriamente, mesmo que organizado, ele consegue se perder, mais adiante, ele consegue se achar e encontrar lugares já existentes; para o viajante tudo é novo e eterno. O desconhecido é um livro a ser lido. 

Um eterno retorno dentro de um conceito de vida, de viver e morrer por onde passa, pelos cafés, pelos bistrôs por onde aporta seu barco. Cansado, toma seu café a perder de vista os sentimentos, e, já a pensar como é bom esquecer sua origem, de onde veio. É como os tempos em que os cafés reuniam o mundo, as ideias, agora alguns viajantes. Nunca pensar o fim daquele momento que mais parece um descanso para o corpo. 

A melhor forma de viver sem esperar o que encontrar, é viajar, é poder ler descolado do leitor comum, é ler, sorver um gelado, um doce ao lado da praia mais cheia de gente, é como ficar no sossego do rio, ouvir o som das águas, ver o vento arejar as ideias, e retomar do esquecimento um pouco de sua história deixada em cada lugar por onde cravou seus dentes. Assim, voltar para casa um dia, é sempre bom quando esquecemos um pouco do caminho de casa e nos perdemos para nos encontrarmos.

*Prof. Dr. Luis Antônio Gomes
Prof. PUC/RS, Editor Sulina
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 30 de março de 2015

Ah! Os Relógios*


Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

*Mário Quintana, in 'A Cor do Invisível'

domingo, 29 de março de 2015

Vida de Livreiro...*


Isto vale muito a pena...  mas cansa , às vezes.

Vida de Livreiro. Nunca gostei da expressão "vendedor de Livros". Comercial em demasia. Livreiro apenas. Para dizer mais. Para dizer tudo.... Aliás, nunca me senti confortável vendendo livros. Ou cobrando livros. No fundo, no fundo ensejava ser doador de livros. Ou emprestador de livros. Imaginava e tinha certeza que me daria melhor numa biblioteca. Ou numa livraria beneficente....

Sempre digo que livreiro tem que ser curioso. Não pode ver pacote de livros, necessita abri-lo. Não pode ver livro de contracapa, necessita virá-lo. Não pode ver livro fechado, necessita abri-lo..

Singular profissão a nossa, não é Mauro Messina. Conversávamos, eu e o Mauro. Havia época em que livreiro tinha também a função de pesquisador de temas e autores para os clientes. Lembrei-me de uma historieta:

Procurou-me, certa feita, uma amável senhora que estava se preparando para um concurso. Trazia somente as temáticas do concurso. Eu, como sempre, me dispus a ajudá-la. Sabia que seria função dela pesquisar obras e autores. Lá fui eu, por duas ou três semanas, juntando o melhor material possível.

Tempos depois encontrei a senhora na Feira do Livro. Lembrou-me ela daquele fato. Agradeceu-me mais uma vez. Falou que tinha passado no concurso e estava muito bem....

Eu que não sou de perder a viagem disse-lhe que não havia necessidade de agradecimento. Todavia , me sentia feliz. Jeitosamente, disse-lhe que poderia deixar minha conta bancária para depósito de uma ínfima porcentagem....

Até hoje nunca conferi detalhadamente meu extrato bancário

Deixa estar.....

*José Mayer
Livreiro, Filósofo, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 28 de março de 2015

Talento não é Sabedoria*


Deixa-me dizer-te francamente o juízo que eu formo do homem transcendente em gênio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes. O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo proclama virtuosos e sábios. Deixá-los proclamar. 

O talento não é sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espírito sobra a ciência. O talento é a vibração convulsiva de espírito, a originalidade inventiva e rebelde à autoridade, a viagem extática pelas regiões incógnitas da ideia. Agostinho, Fénelon, Madame de Staël e Bentham são sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron são talentos.

Compara as vicissitudes dessas duas mulheres e os serviços prestados à humanidade por esses homens, e terás encontrado o antagonismo social em que lutam o talento com a sabedoria. Porque é mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio um espinho envenenado ? Essa esplêndida taça de brilhantes e ouro porque é que contém o fel, que abrasa os lábios de quem a toca ? Aqui tens um tema para trabalhos superiores à cabeça de uma mulher, ainda mesmo reforçada por duas dúzias de cabeças academicas! 

Lembra-me ouvir dizer a um doido que sofria por ter talento. Pedi-lhe as circunstâncias do seu martírio sublime, e respondeu-me o seguinte com a mais profunda convicção, e a mais tocante solenidade filosófica: os talentos são raros, e os estúpidos são muitos. Os estúpidos guerreiam barbaramente o talento: são os vândalos do mundo espiritual. 

O talento não tem partido nesta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do contacto do mundo, e curte em silêncio aquele fel de vingança, que, mais cedo ou mais tarde, cospe na cara de algum inimigo, que encontra desviado do corpo do exército. Aí tem a razão por que o homem de talento é perigoso na sociedade. O ódio inspira-lhe a eloquência da traição.

*Camilo Castelo Branco

sexta-feira, 27 de março de 2015

Canção da saudade*


Canta a canção das horas que não vejo
Das veias que dilatam
Dos urros que esbravejo
Segue o contorno desses dias ancorados
A um presente que resiste
Por força do passado.
Canta a canção das horas que eram tuas
Alegria do som da tua voz – a minha cura
Ainda ronda os sentidos, ainda te procura.
Horas debruçada nos limites do teu rosto,
E plena de teu mundo, de teu gosto,
Retinha teu carinho em desmesura.
Canta a canção e acorda a que tão bem conheces
Que sonha, que sabe de delírios
E algumas alegrias porque não te esquece;
Acotovelada à janela da eternidade
Anda mouca para os sons que antes ouvia
Enquanto teu cantar não acontece.

*Sônia C. Prazeres
Filósofa, Poeta, Filósofa Clínica
São Paulo/SP

quinta-feira, 26 de março de 2015

Qualquer Tempo*


Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver.

*Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 25 de março de 2015

Mulher sertão*


Venho da educação sertaneja do outro século,
quase XIX,
das casas de farinha de mandioca
e polvilho torcido à mão.
Dos mutirões de pamonha,
da fiação de algodão,
dobando meada.
Capina roçado,
levanta casa de placa de concreto
e pintura de caiação.
A mulher recato
passou pela mulher hippie,
virou mulher livre,
hoje, mulher política,
mas sempre mulher trabalho.
Não me dou com essas manipulações
que juntam sorriso e mal.
Minha sinceridade é dura;
esse é o preço da verdade.

*Vânia Dantas
Filósofa Clínica
Brasília/DF

terça-feira, 24 de março de 2015

A Essência da Poesia*


Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.

Encontrei, naquela longa jornada, as doses necessárias para a formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma ação passageira ou solene em que entram em doses medidas a solidão e solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade da própria pessoa, a intimidade do homem e a revelação secreta da Natureza. E penso com não menor fé que tudo se apoia - o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia - numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos, pois assim os une e confunde.

E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao cruzar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio de uma vaca, ao banhar os pés na água purificadora das mais elevadas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para se comunicar depois a muitos outros seres ou era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigência ou embrazamento. 

Não sei se aquilo o vivi ou escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei naquele momento, as experiências que cantei mais tarde.

De tudo aquilo, amigos, surge um ensinamento que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos conduzem ao mesmo ponto: à comunicação do que somos. E é necessário atravessar a solidão e aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico em que podemos dançar com hesitação ou cantar com melancolia, mas nessa dança ou nessa canção acham-se consumados os mais antigos ritos da consciência; da consciência de serem homens e de acreditarem num destino comum.

*Pablo Neruda, in 'Discurso na entrega do Premio Nobel'

segunda-feira, 23 de março de 2015

Vida de Cão*


Como vai amigo Tião?

Estou escrevendo pra te contar as coisas estranhas que estão acontecendo nas minhas férias aqui na praia de Jurerê Internacional. Já ouvistes falar? É um lugar fantástico, nunca vi nada igual. Praia de gente rica e famosa. Mar azul, calmo, água quente, areia fininha, lanchas, iates, vendedores ambulantes, comida e bebida à vontade. Mas não pude aproveitar nada disto, nem vais acreditar.

Logo que chegamos no prédio onde iríamos veranear, bem em frente à praia, já estranhei. Parecia uma vitrine de loja. Todo envidraçado, com mármores, espelhos e lustres de cristal enormes. Quase fiquei cego de tanta luz e mal conseguia caminhar naquele piso escorregadio. De repente, apareceu um homem vestido de terno preto e gravata, me pegou no colo e me carregou até nosso apartamento. Nunca ninguém havia feito isto comigo, e por pouco não o mordi de tão assustado que fiquei.

Depois me explicaram que não permitem animais circulando nas áreas comuns do prédio. Dizem que podemos morder alguém, fazer baderna, quebrar os enfeites e sujar o piso das residências. Afinal de contas, fomos domesticados ou não?

Só me deixavam caminhar dentro do apartamento ou na rua. Mas caminhar não é aquilo que estamos acostumados a fazer, correndo atrás das carroças, dos carros, da boiada. Nada disso. Prenderam uma coleira em meu pescoço, amarrada numa corda de mais ou menos dois metros, e me obrigavam a andar no ritmo quase parando de dona Maria. Quando queria cheirar alguma árvore ou o traseiro de alguma cadelinha, recebia um puxão que quase me arrancava a cabeça fora. Precisei me acostumar a andar no passo dos humanos.

Mas isto não é tudo. Imagina a minha vergonha quando colocaram sapatinhos em minhas patas para que eu não as sujasse durante o passeio. Ainda bem que não encontrei nenhum conhecido por aqui. Nem latir eu podia. Cada vez que tentava dizer alguma coisa, expressar minha alegria ou reclamar de algo levantando a voz, imediatamente me mandavam calar para não perturbar os vizinhos. Sabe o que é ficar um dia inteiro sem falar nada, sem latir pra ninguém? Imagina então um mês inteiro.

Descobri também que nas minhas férias eu teria horário pra fazer xixi. Duas vezes por dia, na hora que eles determinavam, me pegavam no colo ou me colocavam num carrinho de bebê,  e me levavam  pra urinar na rua. Por via das dúvidas, colocaram um tapetinho em um canto da sacada para uma emergência, caso não conseguisse me controlar. Aquele nosso costume de marcar o território urinando em todos os postes e árvores foi abolido nas férias.

Outra coisa esquisita era ver o pessoal recolhendo minhas fezes na rua. Cada vez que eu fazia cocô na grama ou na calçada de alguma daquelas mansões de cinema, meus donos faziam cara de vergonha, olhavam em volta para ver se ninguém estava vendo, e, em seguida, colocavam minha “obra” num saco plástico e ficavam carregando aquilo como se fosse uma sacola de compras. Às vezes encontravam um conhecido, paravam e conversavam com aquela bolsa pendurada no braço por um bom tempo. Depois, jogavam no lixo.

Lembra como eram gostosos aqueles nossos banhos de chuva ou quando nadávamos horas a fio no rio? Pois aqui animais não podem entrar no mar, nem caminhar na praia. Muito menos ficar se rolando na areia. Sabe como eu tomava banho em Jurerê Internacional? Levavam-me para uma casa muito sofisticada, de nome Luxury Pet. Uma espécie de salão de beleza onde havia enormes banheiras de mármore importado, com hidromassagem, sais aromáticos, música relaxante e uma tal de cromoterapia. Muita frescura para um banho. Deixavam-me mergulhado meia hora naquele caldo perfumado, depois secador de cabelos e uma mulher quase arrancando meus pelos com uma escova pra ficarem lisinhos como os da Malvina Cruela, aquela dos 101 dálmatas.

Na saída, baforavam litros de perfume importado e então vinha a vergonha maior: um lencinho atado no pescoço, como se eu fosse um galã francês.  Nestas horas, esquecem que somos animais e nos tratam como humanos. Dona Maria chegava para me buscar no carrão com motorista, me cheirava, fazia carinhos e dizia sempre a mesma frase: -meu amorzinho querido, filhinho da mamãe.

Que história é essa de filhinho da mamãe? Acho que estes humanos não regulam bem das idéias. Minha mãe está ai na fazenda, com meus irmãos, correndo e latindo felizes pelos campos. Nascemos e fomos criados em volta da casa grande, onde nos colocavam restos de comida nos pratos e lambíamos os lábios com os ossos que atiravam para pegarmos. Desde pequeno me ensinaram a respeitar os donos da casa e obedecê-los. Depois me disseram que além da casa, eram nossos donos também. Nunca entendi direito esta relação de posse. Só porque vivo nos campos deles e me dão comida, isto significa que são meus donos?  Em todo o caso, a idéia de ter dono já foi incorporada desde que nasci, mas achar que eles são meus pais, chega a subestimar nossa inteligência.

Falando em comida, aqui não adianta fazer aquele nosso olhar de “cachorro pidão” implorando por algo comestível. A única coisa que me deram pra comer, durante todo o mês que aqui passamos, foram umas bolinhas industrializadas, importadas, antialérgicas, com gosto artificial de churrasco. Falsificado e ruim.  É uma tal de ração com proteínas e ômega 3, que promete uma vida mais saudável para nós. Que saudade das ovelhas carneadas, chego a sonhar com aqueles ossos de costelas assadas no braseiro.

Acho que é por isto que os cachorros daqui tem um olhar triste, parece que estão sempre deprimidos. Dificilmente abanam o rabo, lambem seus amigos ou pulam de alegria. Estes dias fui me engraçar com uma cadelinha bem bonita que estava passeando no calçadão da beira mar. Assim que me aproximei ela foi avisando baixinho, quase sussurrando, que não me excitasse, pois havia sido castrada para evitar problemas para seus donos. Não entrava mais no cio e nem tinha mais apetite sexual. Contou-me que agora está freqüentando uma clinica psiquiátrica anti-stress.

Tião, amigo velho, se isto aqui é o que os humanos chamam de férias, nunca mais quero sair de nosso velho e querido pago. Estes cãezinhos de madame,  aprisionados dentro de casas e apartamentos de luxo, não sabem mais se são cachorros ou humanos. Perderam a identidade. 

Em algumas situações são considerados animais, em outras são domesticados e em outras, são humanos. É uma confusão que nem cachorros, nem humanos entendem. Para o meu gosto, não são nem uma coisa, nem outra. Nem cachorros, nem humanos. Nem animais, nem domesticados. Nem felizes, nem tristes. Nem mortos de fome, nem bem alimentados. Nem vivos, nem mortos. Viraram uma nova espécie de animal. São os Pets. Coitados.

Contando os dias pra voltar a ser cão.

*Ildo Meyer
Médico, Escritor, Filósofo Clínico
Porto Alegre/RS

domingo, 22 de março de 2015

É Preciso Repensar a Nossa Vida*


É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. 

Para que elas possam existir… Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo.

Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… 

Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo.

*Al Berto, in Entrevista à revista Ler (1989)

sábado, 21 de março de 2015

Trânsito Carioca*


Parado, estocado, findado, amarrado
Alguns poucos passos à frente
Nada de muito significativo
Nos encontramos numa carruagem
Onde os cavalos nos levam a algum lugar
Do qual não sabemos nada
Mas esse não-devir incomoda a todos.
Inocente, postergado e puto
Nessa onda louca, baixa e sem efeito sobre o mar
Continuamos caminhando.
A passos de tartaruga, seguimos adiante
Mas o adiante continua distante.
A música que toca não nos toca.
Não nos enxergamos sendo parte,
Mas o mar nos leva em alguma direção.
Quando chegaremos lá?
Depende de quando sairemos daqui.
Apressados e estressados encontram outros
Que não ligam para o derredor.
O derredor é ignorado,
Pois vivemos nossas vidas.
Quando finalmente caminhamos como coelhos,
Nos vemos parados novamente.
Detidos por alguma forma natural
Que nos empurra para a parada
O não-devir nos faz continuar na nossa condição primordial: parados.
Pareados com o não-movimento
Vamos nos abastecendo de paradas
E nossos nervos continuam à flor da pele
As palavras de baixo calão fluem de bocas nervosas
Mas isso é o menor dos problemas,
Pois o não-devir nos move ao mesmo lugar
E nos deixa na mesma posição. 

*Vinicius Fontes
Filósofo, Filósofo Clínico, Mestrando em Filosofia UFF
Rio de Janeiro/RJ

sexta-feira, 20 de março de 2015

O Conflito entre o Conhecimento e a Fé*


Durante o último século, e parte do século anterior, era largamente aceite a existência de um conflito irreconciliável entre o conhecimento e a fé. Entre as mentes mais avançadas prevaleceu a opinião de que estava na altura de a fé ser substituída gradualmente pelo conhecimento; a fé que não assentasse no conhecimento era superstição e como tal deveria ser reprimida (...)

O ponto fraco desta concepção é, contudo, o de que aquelas convicções que são necessárias e determinantes para a nossa conduta e julgamentos não se encontram unicamente ao longo deste sólido percurso científico. Porque o método científico apenas pode ensinar-nos como os factos se relacionam, e são condicionados, uns com os outros. 

A aspiração a semelhante conhecimento objectivo pertence ao que de mais elevado o homem é capaz, e ninguém suspeitará certamente de que desejo minimizar os resultados e os esforços heroicos do homem nesta esfera. Porém, é igualmente claro que o conhecimento do que é não abre diretamente a porta para o que deveria ser. Podemos ter o mais claro e mais completo conhecimento do que é e, contudo, não ser capazes de deduzir daí qual deveria ser o objectivo das nossas aspirações humanas. 

O conhecimento objectivo fornece-nos instrumentos poderosos para a realização de determinados fins, mas o objectivo último propriamente e o desejo de o alcançar têm de provir de outra fonte (...) Aqui enfrentamos, portanto, os limites de uma concepção puramente racional da nossa existência (...)

Se nos perguntarmos donde deriva a autoridade de semelhantes fins fundamentais, na medida em que não podem ser enunciados e justificados meramente através da razão, apenas podemos responder: existem numa sociedade saudável como tradições poderosas, que influenciam a conduta e as aspirações e os julgamentos dos indivíduos; existem, isto é, como algo com vida, sem ser necessário procurar uma justificação para a sua existência. Nascem, não através da demonstração, mas através da revelação, através da mediação de personalidades poderosas. Não devemos tentar justificá-los, mas apenas apreender a sua natureza de uma forma simples e clara.

*Albert Einstein, in 'Conferência (1939)'

quinta-feira, 19 de março de 2015

Se...*


Se não houverem braços acolhedores
E longos o suficiente
Negue-me o seu abraço.... por favor.
Se o olhar não abrir janelinhas
Para algum paraíso
Desvie seus olhos dos meus.... por favor.
Se a alma não tiver
Um pequeno cantinho para mim
Não me acene com acolhimento
E algum colo para o descanso...
É que eu ando de mãos dadas com a ilusão.

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 18 de março de 2015

A embriaguez do artista*


Para que haja arte, para que haja alguma ação e contemplação estéticas, torna-se indispensável uma condição fisiológica prévia: a embriaguez. A embriaguez tem de intensificar primeiro a excitabilidade da máquina inteira: antes disto não acontece arte alguma.

Todos os tipos de embriaguez, por muito diferentes que sejam os seus condicionamentos, têm a força de conseguir isto: sobretudo a embriaguez da excitação sexual, que é a forma mais antiga e originária de embriaguez.

Também a embriaguez que se segue a todos os grandes apetites, a todos os afetos fortes; a embriaguez da festa, da rivalidade, do feito temerário, da vitória, de todo o movimento extremo; a embriaguez da crueldade; a embriaguez da destruição; a embriaguez resultante de certos influxos meteorológicos, por exemplo: a embriaguez primaveril; ou a devida ao influxo dos narcóticos; por fim, a embriaguez da vontade, a embriaguez de uma vontade sobrecarregada e dilatada.

O essencial na embriaguez é o sentimento de plenitude e de intensificação das forças. Deste sentimento fazemos partícipes as coisas, constrangemo-las a que participem de nós, violentamo-las, — idealizar é o nome que se dá a esse processo.

Libertemo-nos aqui de um preconceito: o idealizar não consiste, como se crê comumente, num subtrair ou diminuir o pequeno, o acessório. Um enorme extrair os traços principais é, isso sim, o decisivo, de tal modo que os outros desapareçam ante eles.

*Friedrich Nietzsche, in Crepúsculo dos Ídolos

terça-feira, 17 de março de 2015

Convite Oficial



É com muita honra e alegria que a Casa da Filosofia Clínica e a Editora Vozes convidam para o lançamento da obra inaugural da coleção de Filosofia Clínica: "Ser Terapeuta" da multitalentosa Rosângela Rossi.

Nossa busca é qualificar os estudos, as leituras, pesquisas, atendimentos. Compartilhar sabor e saber através de uma seleção dos textos de profissionais comprometidos com a prática, a pesquisa desse novo paradigma de cuidado e atenção à vida: Filosofia Clínica

Desejamos a todos boas leituras e releituras!

Muito bem vindos!

Hélio Strassburger
Casa da Filosofia Clínica
Coordenador da Coleção

segunda-feira, 16 de março de 2015

Estéticas da palavra*


“Queremos ao menos uma vez chegar no lugar em que já estamos”

“(...) logos. A profundidade dessa palavra permanece, no entanto, para mim muito obscura. Aguardo sempre a vinda de um anjo apocalíptico trazendo a chave desse abismo”

“A grandeza de uma obra consiste, na verdade, em que o poema pode negar a pessoa e o nome do poeta”

“A poesia de um poeta está sempre impronunciada. Nenhum poema isolado e nem mesmo o conjunto de seus poemas diz tudo. Cada poema fala, no entanto, a partir da totalidade dessa única poesia, dizendo-a sempre a cada vez”

“A conversa do pensamento com a poesia busca evocar a essência da linguagem para que os mortais aprendam novamente a morar na linguagem”

“A linguagem da poesia é essencialmente polissêmica e isso de um jeito muito próprio. Não conseguiremos escutar nada sobre a saga do dizer poético enquanto formos ao seu encontro guiados pela busca surda de um sentido unívoco”

“Deixei uma posição anterior, não por trocá-la por outra, mas porque a posição de antes era apenas um passo numa caminhada. No pensamento, o que permanece é o caminho. E os caminhos do pensamento guardam consigo o mistério de podermos caminhá-los para frente e para trás, trazem até o mistério de o caminho para trás nos levar para frente”

 “Dizer e ser, palavra e coisa, pertencem um ao outro num modo velado, pouco pensado e até impensável”

“Citando Humboldt: ‘(...) Apreendida em sua verdadeira essência, a linguagem é algo consistente e, a cada instante, transitória. Mesmo a sua preservação na escrita é sempre uma preservação incompleta, mumificada, mas necessária quando se busca tornar perceptível a vida de seu pronunciamento.’”

“A linguagem foi chamada de a ‘casa do ser’. Ela abriga o que é vigente à medida que o brilho do seu aparecer se mantém confiado ao mostrar apropriante do dizer. Casa do ser é a linguagem porque, como saga do dizer, ela é o modo do acontecimento apropriador”

*Martin Heidegger

domingo, 15 de março de 2015

Colorindo o conceito de prazer*


Sendo apenas humana e bem levinha, me permito debochar do garanhão malvado do filme 50 Tons de Cinza.

Queridos, ler não li, não consegui passar do primeiro capítulo, mas não resisti e fui ver através da sétima arte e comprovar o que de cinza tem naquela estorinha água com açúcar produzida para vender bilhões de dólares de ilusões acerca de um prazer que pode servir a uns e aterrorizar a outros. Meu ponto de vista.

Fantasia romântico erótica que tenta impressionar e causar sensações sem atingir, e de longe, os contos disfarçados de estórias de amor dos populares, Júlia, Sabrina e Bianca, vendidos a um real nos sebos da cidade. Minha crítica e não minha verdade.

Tentativa frustrante de uma versão muito piorada do espetacular: Nove e meia semanas de amor com a deusa Kim Besinger e o lindíssimo (na época) e mau de verdade, Mickey Rourke. O cinema que me perdoe, mas roubar até a cena do gelo, foi um papel muito feio. Plágio ridículo.

O romance, na minha opinião, propõe apenas mais uma alternativa de prazer dentre as muitas a serem escolhidas pelo homem e cabe aí, o espaço para o respeito de quem escolhe ser feliz assim e por isso aprecia e defende a obra de E. L. James. Não é a minha praia e talvez não seja a de muita gente, mas a verdade é que há quem goste, embora haja também os pobre de imaginação, os infantis e pouco experientes que acreditam que a obra arrasa no sexo. Uau!

Sendo apenas humana e bem levinha, me permito debochar do garanhão malvado do filme 50 Tons de Cinza, que de malvado não tem nada. Menino traumatizado por abuso sexual na infância, mimado por uma família despreparada e pelo mercado financeiro onde ele se alicerça para bancar o machão, daqueles, que mulheres pobre de espírito consideram tesouro para sustentar suas incompetentes vidas. Elementar, clássico, básico.

Gray encontra em Anastasia uma fêmea de verdade escondida na imaturidade e na virgindade que ela conserva até encontra-lo e cai de quatro. Coitado. A menina gosta da coisa e não representa. O mocinho se apaixona. Minha percepção.

Bom, não vi o resto. Não li a trilogia e não sei no que isto vai dar.

Ainda fazendo um comparativo com o Nove e meia semanas de amor, no final o bandidinho se dá mal, porque a mocinha que parece ser ingênua é muito inteligente e deixa o rapaz que se achava, com a peteca na mão, digamos assim.

E no filme atual, quem já leu tudo me diga: ela também se cansa e vai embora?

Vida real pode ser bem mais legal. Construam uma própria, descubram do que gostam, sejam autênticos, gentis, se amem e distribuam amor por aí. Combatam seus complexos e tentem se tratar de impressões que não permitem que vocês vivam muito bem o dia de hoje e sigam, amorosamente doando o que tiverem de melhor. Algo de bom certamente lhes será devolvido.

*Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual, Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sábado, 14 de março de 2015

Para ampliar os limites da compreensão*


“Pronunciar uma palavra é, por assim dizer, tocar uma tecla no piano da representação”

“Podemos ver nossa linguagem como uma velha cidade: uma rede de ruelas e praças, casas velhas e novas, e casas com remendos de épocas diferentes; e isto tudo circundado por uma grande quantidade de novos bairros, com ruas retas e regulares e com casas uniformes”

“Representar uma linguagem equivale a representar uma forma de vida”

“Somente dentro de uma linguagem posso ter em mente algo como algo”

“A palavra não tem significado algum quando nada lhe corresponde”

“O significado de uma palavra é seu uso na linguagem”

“(...) o que Frege tinha em mente quando dizia que a palavra só tem um significado no contexto de uma frase”

“Não existe um método em filosofia, o que existe são métodos, por assim dizer, diferentes terapias”
“A língua é um labirinto de caminhos. Você vem de um lado, e se sente por dentro; você vem de outro lado para o mesmo lugar, e já não se sente mais por dentro”

“Até que ponto não é a minha mão que sente dor, e sim eu na minha mão ?”

“(...) entender é uma vivência específica, indefinível”

“A intenção está entalhada na situação, nos costumes e instituições humanas”

“Não se pode adivinhar como uma palavra funciona. É preciso que se veja a sua aplicação e assim se aprenda”

“E esta linguagem, como todas as outras, está fundada em acordo”

“Os nominalistas cometem o erro de interpretar todas as palavras como nomes, portanto, de não descrever realmente o seu emprego”

“Todo signo, sozinho, parece morto. O que lhe confere vida ? Ele está vivo no uso. Ele tem em si o hálito da vida ? Ou é o uso o seu hálito ?”

*Ludwig Wittgenstein

sexta-feira, 13 de março de 2015

Fragmentos poéticos, filosóficos, delirantes*


“Todo estado mental é irredutível: o mero fato de nomeá-lo, de classifica-lo – implica um falseamento”

“São numerosos os sistemas incríveis, mas de arquitetura agradável ou de caráter sensacional. Os metafísico de Tlon não buscam a verdade nem sequer a verossimilhança: buscam o assombro. Julgam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica”

“A base da geometria visual é a superfície, não o ponto. Esta geometria desconhece as paralelas e declara que o homem que se desloca modifica as formas que o circundam”

“Inútil responder que a realidade também é ordenada. Talvez seja, mas de acordo com leis divinas – traduzo: com leis inumanas – que nunca chegamos a perceber inteiramente”

“Logo refletiu que a realidade não costuma coincidir com as previsões; com lógica perversa inferiu que prever um detalhe circunstancial é impedir que este aconteça”

“Hladik preconizava o verso porque ele impede que os espectadores se esqueçam da irrealidade, que é a condição da arte”

“Depois refleti que todas as coisas sempre acontecem precisamente a alguém, precisamente agora. Séculos de séculos e só no presente ocorrem os fatos”

*Jorge Luis Borges, in Ficções