quinta-feira, 30 de abril de 2015

Filosofar sobre o lance de dados*


“Os pontos singulares estão sobre o dado; as questões são os próprios dados; o imperativo é o lançar.”
Gilles Deleuze

O que é a sorte grande? Essa é a indagação que me faço já um bom tempo, talvez desde minha tenra idade em apostar na vida venho à busca de um método. Claro, a vida é mais complexa se olharmos do ponto de vista existencial mas nada se compara ao imbricado mundo da sorte no jogo. Digo, o “jogo de azar”, o jogo de apostar em números, em apostar na intenção de ganhar algo. 

Esse algo pode ser acumulativo, pode ser o princípio do prazer e como alguns preferem que seja, a perdição de uma vida.  Chegam até profetizar, exorcizar sobre o tema, eu diria, quanto mais sorte se tem menos se ganha em qualquer coisa, até porque não sei o que é ter sorte, mesmo no ato de jogar ela vem de forma do acaso.

É um impulso que me leva a apostar em algo. Penso que o ato de escolha dos números é algo que se perde no infinito combinatório dos números, isso no plano de consciência do jogador. O jogador acha que está fazendo combinações, mas ao fim, se ele for mesmo vasculhar seu arquivo da memória encontrará centenas de vezes a combinação se repetir. 

Creio que o jogador tem medo do infinito, como também, do outro lado do pensar, tem medo da morte. Se nada existir, aí o jogador se ferra de vez. Por isso, inconscientemente ou não, um dia ele acaba se repetindo. O jogo já faz parte da vida do jogador assim como da vida do não jogador, daquele que abomina o jogo por achar que é jogar fora suas energias em algo que não lhe trará nada compensatório. 

Para o Bem ou para o Mal, o jogador, é uma espécie de crente que já não acredita mais em nada, e apenas os números podem lhe dar alento. O não jogador, esse olha de longe, mas quando vê um jogo de alta cifra no painel que diz ‒ aqui é a sua chance de se arrumar na vida ‒ é o momento de que nadar é não mais morrer na praia, lá vai ele apostar, entre milhões, querer colocar no bolso os milhões do “azar”. 

É nesse momento que o não jogador entra no páreo... se triplicam até as últimas possibilidades de jogar. Todos jogam...Quem será o ganhador? Não sei, só gosto de apostar e filosofar sobre a vida e o jogo. A morte é o fim do jogo. Como é bom driblar os imperativos.

*Prof. Dr. Luis Antônio Gomes
Escritor, Poeta, Editor Sulina
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Aprendendo a Viver*


Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.

Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas «melhore o momento presente», exclamava. E acrescentava: «Estamos vivos agora.» E comentava com desgosto: «Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar.»

A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.

Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.

Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.

Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam — ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos — ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.

Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. «É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.»

E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: «Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?» Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.

Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: «A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos.» É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois «o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino».

E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. 

«Creio», escreveu, «que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força.» E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas — e quem de nós não faz isso? —, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!

*Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

terça-feira, 28 de abril de 2015

Para fazer uma leitura da vida é preciso usar as lentes da existência*


Como fazer uma leitura de sua vida ? 

Há leituras que nos aproximam de nós mesmos, e há aquelas que nos distanciam. Nossas lentes da alma se adaptam melhor aos contextos que nos ajudam a ver a vida com menor grau de miopia. Vivemos em busca de olhares que veem o mundo a partir das perspectivas de nosso ser. Talvez seja por isso que não digerimos aquela música, ou aquele autor. Por mais profundo e sensível que alguém seja, ele somente atingirá a raiz de nossa alma se aproximar-se da leitura que fazemos da vida.

Há tempos tenho pensando sobre as múltiplas leituras que fazemos da vida. Em cada contexto existencial da vida nos adaptaremos a quem escreve os silêncios de nossa alma com a sensibilidade que enxergamos a vida. Talvez encontremos aqueles que questionem tal posicionamento. No entanto quando encontramos tais contestadores, eles já estão impregnados de leituras que se adaptem ao seu contexto emocional. O simples fato de não concordarem com essa premissa revela que eles próprios também buscam leituras existências que se encaixem em seus contextos vivenciais.

Inevitável fugirmos de algo que está implícito em nosso dna gramatical da alma. Buscamos quem escreve a vida com as lentes de nossa percepção. E quando encontramos quem faz parte do nosso mundo existencial nos apaixonamos e entregamo-nos a doce aventura de mergulharmos naquele oceano repleto de possibilidades que nos faz ver outros lados da vida que nossa alma ainda não sabe o nome, mas que complementa a parte que buscamos para complementar o encanto do encontro da sensibilidade com a vida. 

E então loucamente nos entrelaçamos no mundo de alguém que mesmo desconhecido começa a fazer parte do nosso. Nossos mundos se fundem e confundem-se na dança da vida, onde em cada passo vamos bailando ao ritmo das emoções que como em uma noite de festa não vê o dia amanhecer.

Talvez seja por isso que aquele que busca terapia sai à procura de alguém que veja a vida com a mesma sutileza que ele vê. Quando encontra-o, descortina sua vida sem medo de revelar-se porque no mais profundo de sua alma sabe que será compreendido e as suas leituras existências da vida encontraram naquele outro coração o conforto da compreensão necessárias para o seu crescimento humano.

Os poetas sabem bem o significado de ler a vida com lentes alheias. O que sua alma anseia é o desejo de fazer-se compreendido mesmo que nem todos consigam compreender o profundo mistério que aquele poema provoca em sua alma ao lê-lo em um dia chuvoso e triste.

Na jornada existencial da vida cada um irá buscar os textos e contextos que alimentam sua alma. O que por nós é incompreensível para alguns é certeza plena. Talvez seja difícil para quem ouve a vida com Frank Sinatra compreender quem faz outra leitura com MC Guimê. Carregamos em nossa mochila o desejo de querer que todos leiam a vida com as mesmas lentes que aprendemos a ler. Os choques existências acontecem quando absolutizamos a nossa lente como a única possibilidade da verdade.

Pe Flávio Sobreiro
Filósofo, Teólogo, Poeta, Estudante de Filosofia Clínica

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas*


Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.

*Walt Whitman

domingo, 26 de abril de 2015

Oi Amiga.... Aninha*


Compreenda-me
Mas não me "prenda com"...
Vejo um deserto
Tenho perambulado
Por terras áridas
Arde o sol. Queima
Sopra um vento norte
Dizem que é vento
Que deixa gente "maluca"
"O vento da loucura"
Corta a carne.
Aí tu me falas:
- Zé e teus escritos?
Está bem amiga
Acho que você entende
É que o pó da terra seca
Envolveu minhas palavrinhas
Entrou areia
Nas dobradiças das letrinhas.
Juro
Estou preparando o terreno
Virando e revirando a terra
Cavoucando... suando...
Calejaram minhas mãos
Trago água de longe
E minhocas. E outros bichinhos
Visite-me amiga
Daqui a algum tempo
Verás que florescerá aqui
Um pequeno jardim....
Posso te pedir uma coisinha...
Almoce comigo, amiga
Vez em quando.... Aninha

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 25 de abril de 2015

A que bebeu poesia*


A louca que passa
Deixou na vidraça
Um olhar que no fundo
Tem muita desgraça.

Será minha mãe
A pobre da louca
Que nada mais tendo
Conserva a ternura?

Será minha noiva
Que louca ficou
Depois que parti
No barco da guerra?

Será minha filha
A louca do bairro
Que a vida judiou
Depois que morri?
                 
Ou foi a poesia
Que a louca bebeu
Que lhe deu esse ar
De ser doutro mundo?

*Luiz Guilherme do Prado Veppo

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Poéticas*


brinco com as letras
com as palavras
sem regras
sem normas
vou rebelde
transgredindo.
há um impulso
de expressar
de compartilhar
de libertar.
sem ter que...
vive em mim
frida khalo
hilda hilst
clarice lispector.
e, eu sem limite
rompo agendamentos.
teço as teias
de minhas profundidades

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta, Filósofa Clínica, Escritora, Poeta
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Ode I*


O poeta se dirige ao silêncio.
E o diálogo, sua vida.

— Eu vos amo a todos,
ventos, rios, mares,
eu vos amo, meus irmãos.

Ao redor,
nenhuma voz entrecorta
sua solidão palpitante.
Mas ele crê:
de um pequeno murmúrio,
tece ao menos um eco.

Vida de poeta,
no apelo de um brilho,
no encontro de um reflexo.

*Lupe Cotrim Garaude

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Memória*


“Tom é palavra que presta serviços a mais de uma arte.”
Herbert Read

Eu sou antigo, muito antigo, quase uma pintura paleolítica,
Uma imagem na pedra, bosquímane da África do Sul,
Eu sou muito antigo, só não envelheci o suficiente,
Eu sou tão antigo, existo antes do indivíduo, sou parte do coletivo.
Atravessei os tempos, sou milenar, sou o risco da arte pagã,
Vim de longe, sou de todos os lugares eu hoje só a memória pode falar.
Vim do retrato, escalei o adorno da história, morri muitas vezes,
Sou um traço tão antigo, as rugas não conseguem mostrar os tempos existentes em minha carcaça de bronze.
Sou mais antigo que o sentido das coisas, dentro de mim existe o tempo, existe uma máquina de som cromático.
O Outro, a curva do olhar que se perde na abstração da forma, sou mais antigo do que isso, o pólen das estações.
O Outro, o que existe é único – do primitivo não vivi mais do que vivo hoje,
Envelheço nos conceitos, nas cores e nos dias.
Sou muito antigo.

Prof. Dr. Luis Antônio Gomes
Escritor, Poeta, Editor Sulina
Porto Alegre/RS

terça-feira, 21 de abril de 2015

Não te Arruínes, Alma, Enriquece*


Centro da minha terra pecadora,
alma gasta da própria rebeldia,
porque tremes lá dentro se por fora
vais caiando as paredes de alegria?

Para quê tanto luxo na morada
arruinada, arrendada a curto prazo?

Herdam de ti os vermes? Na jornada
do corpo te consomes ao acaso?

Não te arruínes, alma, enriquece:
vende as horas de escória e desperdício
e compra a eternidade que mereces,
sem piedade do servo ao teu serviço.

Devora a Morte e o que de nós terá,
que morta a Morte nada morrerá.

*William Shakespeare, in "Sonetos"

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Saber Poder*


Foucault diz que há um "Saber Poder", que é o saber que tem o poder de dar diagnósticos de valor em função daquele que tem o saber contra aquele que não tem o saber. A partir daí se desenha uma engenharia social baseada em um suposto saber que é efetivo poder, autorizado, é claro pelas instituições e, obviamente, defendido por elas. 

Mas há também muito Poder para um Saber: a psiquiatria. Ela está em todos os âmbitos de nossas vidas, crianças e adultos. Em exércitos, hospitais, empresas e, claro, em escolas. Esse saber tem muito poder (além do Saber Poder) e acaba por definir a sanidade mental daqueles que estão em sua órbita. 

A primeira coisa que as escolas deveriam fazer é cortar esse Poder desse Saber pela raiz e não permitir que desse Saber se marque, principalmente crianças, de forma tão covarde e embrutecedora. Como o Poder desse saber já se espalhou pela sociedade em geral, não apenas pseudo-médicos (os psiquiatras), mas coordenadoras de escolas, supervisoras e até professoras, já admitem a linguagem desse Saber e a usam, inadvertidamente, para olhar e construir sua imagem dos alunos. 

Os professores, através de uma inércia mental e embebidos pelo Poder desse Saber dentro das instituições escolares, hoje, são os primeiros a fazerem um "diagnóstico". São tão culpados quanto os detentores desse Saber em medicalizar e colocar as crianças em marginalização de si mesmas.

Tem a história de um menino que ia para o campo para fazer arapucas e pagar alguns passarinhos, Quando conseguia pegar um, antes de soltá-lo novamente, pintava ele com várias tintas. Colorido em sua plumagem, o menino o soltava e ele voltava alegre e rápido para o seu bando. o menino ficava observando o que acontecia com os pássaros pintados quando eles chegavam perto de seu bando novamente.

Durante um instante os pássaros do bando ficavam confusos. O pássaro pintado voava de um lado para o outro tentando entrar no bando, mas não conseguia. O bando, no começo, não deixava que ele entrasse junto deles, voando para longe do pássaro pintado, mas logo em seguida, com a insistência do pássaro pintado em tentar voltar ao bando, era empurrado por alguns para fora e o colocavam cada vez mais longe dos outros. 

Com a insistência de voltar ao bando, um pássaro atrás do outro começava o atacar violentamente até que o pássaro pintado não resistia e caía ao chão. Isso acontecia todas as vezes que o menino conseguia pegar um pássaro e o pintava antes de soltá-lo novamente. Quando ele corria para ver o pássaro pintado caído, via o sangue que escorria de suas penas e seu corpo todo mutilado pelas ferozes bicadas dos pássaros de seu bando.

Thomas Szasz, em seu livro onde conta essa história - A fabricação da Loucura - diz que os psiquiatras tiram a cor de seus pacientes e esta é a maior estratégia de discriminação, invalidação da singularidade e fabricação de doentes que necessitem de suas assistências. E a sociedade aceita e avaliza uma barbaridade dessas e com a ajuda das instituições escolares e seus professores.

*Fernando Fontoura
Filósofo. Mestrando em Filosofia. Trabalha na Fundação Tênis. Estudante na Casa da Filosofia Clínica.
Porto Alegre/RS 

domingo, 19 de abril de 2015

Livro do Amor*


O mais singular livro dos livros
É o Livro do Amor;
Li-o com toda a atenção:
Poucas folhas de alegrias,
De dores cadernos inteiros.
Apartamento faz uma secção.
Reencontro! um breve capítulo,
Fragmentário. Volumes de mágoas
Alongados de comentários,
Infinitos, sem medida.
Ó Nisami! — mas no fim
Achaste o justo caminho;
O insolúvel, quem o resolve?
Os amantes que tornam a encontrar-se.

*Johann Wolfgang von Goethe

sábado, 18 de abril de 2015

Outonos que há em mim*


A poética do outono nos contextos da vida.

Outonos que há em mim Silenciosamente as folhas vão perdendo seu vigor de outrora. O verde das esperanças dá lugar aos tons avermelhados e amarelos do entardecer. 

Tempo de despedidas e recomeços. Na vida os ciclos se despendem para dar início a novas estações. Alma povoado de tempos, que se perdem e confundem com o ainda não conhecido.

Não há despedidos quando o desejo é de recomeçar. Na saudade do que se foi a alegria de novas chegadas. De novos portos que esperam o desembarque para novas experiências. 

No incerto futuro da vida o desejo é apenas de chegar. Nas imprevisões de uma tarde de outono se escondem as sementes que silenciosamente estão em processo de germinação no coração de novos tempos.

Silenciar a alma para ouvir a si mesmo. Sem perder-se. Mas com a calma necessária para encontrar-se. Nada além de sonhos possíveis. 

Os impossíveis pertencem as estações que ainda não foram geradas. Viver. Sem deixar de lado a esperança. Saborear o tempo de cada momento, eternizando na alma o contexto de outros textos, e rabiscos e rascunhos.

Pe Flávio Sobreiro
Escritor, Poeta, Estudante de Filosofia Clínica
Cambuí/MG

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Recado aos Amigos Distantes*


Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1951)'

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Escuto histórias de amor*


Escuto a minha história de amor e a minha história acerca do amor no mundo e em você.

Escuto a sua história, a minha história, a história do mundo do amor romântico, a história que vai contra a necessidade de amor. Escuto falar bem e mal dele. Escuto com paciência, às vezes com emoção, com todo meu coração.

Escuto sem julgar. Escuto a sua história e não me apresso em querer consertar nada, não pretendo mudar nada, não entendo escuta sem amor, sem entrega, sem desejo sincero de simplesmente colocar você no colo e deixar você despejar ali, todo seu amor.

Escuto a minha história de amor e pretendo, tento filtrar no meu entendimento, todo ensinamento possível e pretendo ainda, juro que sempre pretendo a proeza, a delícia de racionalizar o mínimo possível sobre as lições que a vida a dois me ofereceu, mas apenas, seguir em frente, cada dia mais alegre e capaz de amar.

Apenas isso.

Escuto a sua historia de amor. Sertaneja, seresteira, sambista, roqueira, não importa por onde ela passeie no seu coração, não dou conotação. Não existe o certo e o errado. Te escuto e te alento, se esta graça me couber.

Escuto a história de amor do mundo. Os que julgam ridículas as formas de amar, os que julgam ridículo amar. Escuto dizer do amor, coisas as quais eu não concordo. Escuto o mundo gritar que o amor é coisa de gente pouco inteligente. Escuto tantas barbaridades. Escuto dizer por aí que nem todo mundo precisa de amor para viver.

Escuto a minha história de amor e a minha história acerca do amor no mundo e em você. Me escuto e parto em sua defesa, em minha defesa, na defesa de um mundo melhor a partir de pessoas que se permitem amar.

O projeto “Escuto histórias de amor” de Ana Teixeira, artista, levou em sua jornada comportas de pura alteridade na proposta de divulgar a arte relacional. Ela viajou por lugares do mundo, com postura amorosa, ouvindo histórias de amor em praças públicas, acolhendo almas, aliviando angustias, dores existências, sem nenhuma intencionalidade neste sentido. Foi lindo isso e um dia, esta historia da Ana Teixeira veio parar em minhas mãos, através da publicação de uma foto de trabalho, linda, pura, singela, dela, na posição de simples ouvinte.

O meu projeto “Escuto histórias de amor” propõe em sua jornada, apresentar toda minha capacidade de te amar, te ouvindo pura e simplesmente e se você desejar, no meu acolhimento, juntos encontrar orientação, luz para a diminuição de algum sofrimento.

No meu projeto, “Escuto histórias de amor” existe espaço para você apenas contar das suas alegrias, dos seus sonhos, das suas ilusões, das coisas feias e bonitas que você fez em nome do amor, sem te ridicularizar nem diminuir.

Neste projeto, existe acolhimento. Nossas almas vão trocar experiências e aprendizados. Vamos seguir como seres maravilhosos que somos, ou ainda melhores, se isto nos causar algum bem.

Neste projeto podemos nos ver e nos fala. E isto, pode acontecer no meu consultório, em algum lugar confortável para você, em um café, um jardim ou ainda virtualmente – algo tão atual – caso a gente more em cidades diferentes.

Assim tem sido, desde quando me vi, escutando histórias de amor.

*Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A Espantosa Realidade das Cousas*


A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

*Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

terça-feira, 14 de abril de 2015

Dei-me conta*


De repente dei-me conta
Que quanto mais eu fugia
Em direção ao futuro
Mais eu fugia de mim mesmo.
Falei para minha filha:
"Vou lavar os panos de prato"
Depois faremos um chimarrão
E veremos os panos secarem ao sol....

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS