sábado, 4 de abril de 2015

Onde há fumaça, há fogo*


Então você tem uma vida romântica e sexual esplendorosa?

Então você grita, esperneia, fala coisas que nem está pensando de verdade para demonstrar o seu nível de prazer na cama?

Você grita? Pode ser que o seu prazer seja mesmo do tamanho do seu grito, que ele seja de nível incontrolável, inacreditável do tipo, vou morrer aqui agora e nem ligo. Pode mesmo ter a ver esta coisa do grito, dos gemidos enlouquecidos, próprios de um beijo sufocante para abafar o caso, com um clímax merecedor de fogos e fanfarras. Isto pode até corresponder a uma realidade, pode mesmo ser o seu jeito de expressar prazer, contudo cabe avaliar alguma hipótese de descontrole, ou medo, ou aflição, ou desejo sincero de nem estar ali.

Você fala coisas que nem percebe, nem concebe de verdade? Jargões decorados, palavras de baixo calão daquelas bem diferentes, mas bem diferentes mesmo das que você usa para conquistar o parceiro ou viver em sociedade?

Então você tem uma vida romântica e sexual esplendorosa? Você e seu parceiro vivem trocando carícias em público e anunciando aos quatro ventos o quanto cada um de vocês é competente na cama, o quanto expandem o prazer de vocês, quantas vezes transam por semana, quantos orgasmos tem em cada transa.

E você rapaz, que pega todas as menininhas, às vezes mais de uma por semana ou dia ou mesmo noite? Então o senhor sultão é o berço da felicidade em pessoa? Todas as mulheres o desejam e ele da conta de todas?

As redes sociais, as revistas e os jornais, a vida das celebridades e dos anônimos em seus mundinhos, anunciam, obedecendo a uma lei que obrigada todo mundo se declarar inserido e realizado no contexto da atual vida sexual feliz.

O assunto nas rodinhas não é outro e quem não conta, não deixa ouvir os gritos e grunhidos pelas janelas, paredes e corredores, quem não mostra de alguma forma que tem alguém ou alguns para compartilhar, é infeliz, incapaz, tem preferências sexuais “anormais” e tantas outras características que hoje são comuns e passíveis de julgamento, principalmente por aqueles que se exibem muito, mas que na verdade se nutrem das criticas que fazem aos discretos para viverem da ilusão, que são realizadíssimos neste âmbito.

Existe um universo que tenta obrigar um singular a comprar a fórmula mágica da realização no amor, mas existe um singular que não se rende, não se enquadra, que resiste e se faz especial para alguém especial e a divindade reconhece neles um encontro ideal para a fórmula do amor continuar existindo além do vulgar e do profano ainda que em êxtase, ainda que em um prazer desconhecido, enorme e inatingível para quem vive completamente fora de si.

Quem tem mesmo, não conta.

*Dra Jussara Hadadd
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Especializada nas questões do feminino
Juiz de Fora/MG

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