quinta-feira, 14 de maio de 2015

Artaud*

         
                          

Um artista da palavra em sua louca lucidez. Uma desestrutura dentro da estrutura delirante, criativa, inventiva. Antonin Artaud com sua escrita, seu teatro, parece querer emancipar o homem, apesar do homem. Sua produção em roteiros, devaneios, narrativas do insólito, compõe um convite aos movimentos da lógica difusa.

Interessante seu parecer sobre um artigo do doutor Beer, no qual este dizia ter descoberto em Van Gogh uma esquizofrenia: “Não, Van Gogh não era louco, ou então ele o era no sentido desta autêntica alienação que a sociedade ignora, sociedade que confunde escrita com texto, ela que tacha de loucura as visões exorbitadas de seus artistas e sufoca seus gritos no ‘papel impresso’: Foi assim que calaram Baudelaire, Edgar Poe, Nerval e o impensável conde de Lautréamont. Porque tiveram medo que suas poesias saíssem dos livros e revertessem a realidade” (Lettre sur Lautréamont, março de 1946).

O autor_pensador proclama a nulidade definitiva do olhar clínico da psiquiatria.  Aponta a natureza da atividade estética como um chão nas estrelas. Um ponto de partida para ampliar horizontes, desbravar fronteiras, emancipar territórios desconhecidos. Sua reflexão proclama transbordamentos, sua encenação acolhe inéditos sentidos. 

Em Artaud existe uma reivindicação da genialidade para se ter acesso ao real, o qual, é mais do que se apresenta, superior as estórias, rituais, invenções, misticismos, surrealismos. Quiçá uma nova epistemologia apta a dialogar com esses instantes de loucura criativa, libertária. Para ele, na base dessa rebelião reivindicativa, pode-se encontrar a origem do gênio. Sua inconformidade com os regramentos que não lhe pertencem, denunciam o mundo que já está dado antes de nascer.

Sua revolta adquire contornos de uma transcendência, recriando-se nos múltiplos palcos onde seus textos acontecem. Eventos de um cotidiano estranho, por onde acontece um íntimo acordo com seus personagens. Talvez um refúgio contra os golpes da razão familiar ou as pílulas do alienista.

Ao autor cabe descrever-se no teatro, por ser uma arte integrativa do que é e do que não é. Realiza nos palcos aquilo que nem sempre pode acontecer na vida cotidiana. Acolhe, em seu viés criativo, conteúdos desconsiderados, alienados pelo tratamento de choque da realidade.    

Seus textos apontam uma singularidade fora de si. Um sujeito a desdobrar-se em circunstâncias de anuncio e proclamação das novas verdades. O delírio parece ser a única saída para a ditadura da normalidade.  

*Hélio Strassburger

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