terça-feira, 30 de junho de 2015

Gente que eu gosto*


Antes de mais nada gosto da gente que vibra,
que não é necessário empurrar,
que não se tem que dizer que faça as coisas
e que sabem o que tem que ser feito
e o fazem em menos tempo que o esperado.

Gosto da gente com capacidade de medir
as conseqüências de suas ações.
A gente que não deixa as soluções para a sorte decidir.

Gosto da gente exigente com seu pessoal e consigo mesma,
mas que não perde de vista que somos humanos
e que podemos nos equivocar.

Gosto da gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos,
produz às vezes mais que os caóticos esforços individuais.

Gosto da gente que sabe da importância da alegria.
Gosto da gente sincera e franca,
capaz de opor-se com argumentos serenos e racionais às decisões de seus superiores.

Gosto da gente de critério,
a que não sente vergonha de reconhecer
que não conhece algo ou que se enganou.

Gosto da gente que ao aceitar seus erros,
se esforça genuinamente por não voltar a cometê-los.

Gosto da gente capaz de criticar-me construtivamente e sem rodeios:
a essas pessoas as chamo de meus amigos.

Gosto da gente fiel e persistente
e que não descansa quando se trata de alcançar objetivos e ideais.

Gosto da gente que trabalha para alcançar bons resultados.
Com gente como esta, me comprometo a tudo,
já que por ter esta gente ao meu lado me dou por satisfeito.

*Mario Benedetti

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Confiança...*


Há momentos de fragilidade de alma que a única alternativa para continuar caminhando é confiar. São nesses momentos que nos conectamos com o mais profundo que há em nosso "EU". Momentos de muitos desafios, dores por reconhecermos nossas sombras e hiatos de fé por um amanhã mais confortante. Se mantivermos nossos pés no chão da razão e nossos corações no divino que existe em nós, esses momentos poderão servir para um aprimoramento pessoal de grande valia. A reforma íntima tão pregada por muitas crenças se inicia a partir de nossas dores pessoais, entretanto, se faz necessário uma reflexão e um alargamento de consciência.

Eu, particularmente acredito, que nada, absolutamente nada nessa existência é por acaso! Acredito que uma dor tenha um significado tão importante quanto a lucidez de uma vida saudável. Se aprendermos a significar de forma imparcial os acontecimentos diários, conosco ou com um próximo, perceberemos que a própria vida com sua habilidade de ensinar nos esclarece muito.

Ainda que tudo pareça desconexo e sem sentido, como numa tarde cinza, sem sabor, sem aparente significado definido, pode ser que nas entrelinhas das ruas percorridas por nós, existam muitas cores camufladas e sentidos imperceptíveis num primeiro contato no mundo das sensações pessoais. É necessário ter coragem para tentar identificar as entrelinhas, mergulhar fundo em nosso universo infinitamente único, estar disposto a deixar-se quebrar internamente para que haja uma reconstrução integral.

E, nesse momento de entrega, a confiança se torna uma parceira indispensável. Não é fácil confiar. Algumas singularidades possuem muita dificuldade nesse processo de entrega total!!! Mas a esperança que é irmã da fé, talvez seja a única solução para muitos. Buscar ajuda para fortalecer essa esperança pode ser um caminho viável e muito rico que trará uma calma para a alma no processo de entrega.

Aos poucos, as cores vão começando a ressurgir diante de olhos antes nublados de dor, a vida vai sendo reconstruída a partir de uma lucidez de autoconhecimento profundo. O que antes havia sido despedaçado por tristezas emocionais, pode em muitas situações, revelar a verdadeira identidade de um caminho para a cura e para a luz.

Confiar é deixar fluir, não como num barco sem leme, mas um deixar fluir diante das decisões tomadas no dia-a-dia com reflexões e consciência de nossa imperfeição enquanto seres humanos! Nesse momento de entrega, a culpa e o medo devem ser extirpados da alma fragilizada, a meditação diária e o autorrespeito são ferramentas preciosas dentro dessa transformação pessoal!
Confiemos, pois!!!

*Vanessa Ribeiro
Professora, atriz, dançarina e filósofa clínica.
Petrópolis/RJ

domingo, 28 de junho de 2015

Despalavra*


Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidades de sapos.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades de árvores.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que todos os poetas podem humanizar as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas.
Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes, podem ser pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem compreender o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto.

*Manoel de Barros

sábado, 27 de junho de 2015

Espaços vazios*


Não vem a poesia
Quando a alma entristece
Ou vem triste
A dor é dor mesmo
Fria como este inverno
Pedra áspera...
O que deveria acontecer
Não acontece
Consome
O que deveria ser consumado
E se sofre
Tudo sofre
Sofre ele
E sofre ela...
Falta alguma coisa
Para ele
Ele sabe:
É ela
E falta alguma coisa
Para ela:
É ele
E ela não sabe
Ou não quer saber.
Perambulam por aí
Ele e ela
Fazendo coisas erradas...

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Existencialismo da Imagem Nua*


“O olhar do outro afeta o meu de um índice de cegueira. Mas a cegueira provoca a imaginação.”
José Gil

Eis a questão que me envolve às vezes na reflexão, se existe existencialista pós-moderno, depois, em outra linha do pensar, digo a mim com a convicção própria de um homem do século XXI, se é que existe mesmo, é o pós-moderno existencialista.

Se existisse ainda existencialista, certamente não seria pós-moderno, seria um herdeiro do marxismo, seria um saudoso homem diante de questões pós-cartesianas, dentro de um embate profundo sobre a objetivação do sujeito.

Só que isso passou. Se hoje se fala de existencialismo porque existe um resquício sartreano na linguagem que atravessou o século XX, e permanece no corpo de muito pós-moderno existencialista a extensão do tempo que se metamorfoseou, deixou de ter um único ideal.

Tenho o pensamento no pêndulo do tempo, nas ruas de Paris, assim como tenho o olhar na imagem da história e disso posso ter uma certeza ‒ não a verdade que alguns intelectuais procuram ‒, mas o prazer de ver essas contradições que habitam o homem deste século.

Esteticamente, na imagem das pequenas percepções vive um existencialista, talvez o que resta do pensamento sartreano no contemporâneo, no homem que bem ou mal, é o registro vivo de um tempo que se modifica incessantemente.

Esse homem que vive no pensamento está consciente de que o pós-moderno talvez não exista mais, a modernidade tratou de matar toda e qualquer alternativa para a recusa do sujeito que ela mesmo forjou, sua obra, hoje, está na agonia das incertezas. Não se deve culpar o homem por suas escolhas erradas em princípios morais, em conjecturas filosóficas, muito menos em ideias totalizantes. O homem é resultado dessas escolhas.

 A história jogou ao tempo um homem que hoje pode viver como um pós-moderno existencialista, até mesmo num esforço de força metodológica, um homem estético da modernidade tardia existencialista. 

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Professor. Escritor. Editor Sulina.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Viver o Hoje*


Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro.

Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua polpa.

O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta.

Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto.

Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a ideia de imobilidade eterna. Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide.

De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje. O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia.

*Clarice Lispector

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Instinto de Rebanho*


Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avaliação e uma classificação hierárquica dos instintos e dos atos humanos. 

Essas classificações e essas avaliações são sempre a expressão das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: é aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe é útil em primeiro lugar - e em segundo e em terceiro -, que serve também de medida suprema do valor de qualquer indivíduo. 

A moral ensina a este a ser função do rebanho, a só atribuir valor em função deste rebanho. Variando muito as condições de conservação de uma comunidade para outra, daí resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. A moralidade é o instinto gregário no indivíduo.

*Friedrich Nietzsche

terça-feira, 23 de junho de 2015

Escritas e reescritas*


quando chega a noite,
o silêncio convida a quietude.
nem as estrelas podem
contar os segredos da alma.
fica o gosto do vivido
além do desejo de mais um dia.
tudo vira história no já passou
e o vir-a-ser será tecido.
quem escreverá o conto será
nossa ação.
o resto é agora, no agora, do agora...

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora. Poeta.
Juiz de Fora/MG

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Meu deus, são estrelas demais!*


Imagine-se cercado de estrelas. Ali do lado, ao alcance da mão

É fácil enlouquecer durante a semana de cinema brasileiro, em Gra­mado. Sem falar no choque cultural com a cidade europeizada, sem nordestinos nem mendigos; sem falar na estranha neblina que desce de repente do pico das serras, a qualquer hora do dia, para ir embora sem o menor aviso; sem falar no ar tão limpo e na luz tão clara que chegam a doer nos pulmões e nos olhos acostumados ao cinza urbano. Mesmo sem considerar isso tudo ajudando no processo de loucura— há as estrelas.

E estrelas, você sabe, não são de carne e osso. Pelo menos no meu coração de guri criado no meio dos campos da fronteira com a Argen­tina, vendo estrelas só no céu — o céu do Rio Grande é o mais belo do Brasil, sem bairrismos — e nas revistas. As estrelas das revistas mais intocáveis até do que as do céu, que numa determinada época do ve­rão costumavam desabar aos montes em direção ao horizonte. Fazía­mos pedidos. As outras, as da terra, não víamos nunca. No máximo, Vi­cente Celestino e—Jesus, como sou antigo!—Procópio Ferreira. Fiquei não só extasiado, mas, para usar o adjetivo exato, estarrecido também.

Agora, imagine-se você cercado de estrelas durante uma sema­na inteira. Ali do lado, ao alcance da mão. É pirante. Você sai do quarto e dá de cara com a moça do quarto ao lado. E a moça do quarto ao lado é nada menos que Nicole Puzzi. Você pega o elevador e uma lourinha simpática faz um comentário rápido sobre o tempo: é Débora Bloch. Aí você vai tomar um café, e o gatão ao lado pede o açúcar: é Nuno Leal Maia. No corredor, meio estonteado, você esbarra sem querer em Marieta Severo. Enquanto pede mil desculpas, alguém esbarra em você: é Arnaldo Jabor. Você resolve ir ao banheiro molhar os pulsos — e quem está fazendo xixi ali do lado, como se fosse a coisa mais normal do mundo? Chico Buarque de Hollanda. Você pensa, meu Deus, pre­ciso sair urgente deste hotel, dar uma volta na rua, ver gente comum, banal, mortal, normal.

Até conseguir chegar à rua, você já tropeçou em Cláudio Marzo, Bruna Lombardi, Fernanda Torres, Riccelli, Roberto Bonfim, Miriam Rios e — socorro, assim também é demais! — Tom Jobim. De cabeça baixa, para não ver mais ninguém, porque chega! você corre para o bar mais fuleiro da esquina. Um bar onde estrelas não entrariam. Mineral com gás, por piedade. O cara ao lado, um de bonezinho, acha a idéia boa e pede uma também. Você olha para a cara ao lado. Embaixo do bonezinho está Ney Latorraca. Você desiste da água, sai a mil pra rua. E choca-se com uma senhora alta, elegantési- ma: Ilka Soares. Logo a tia Ilka, de quem eu colecionava fotos recor­tadas de O Cruzeiro, Vida Doméstica e Cinelândia?

Não, eu não agüento. Não fui feito para essas alturas. Uma vez em que Caetano me sorriu na praia, baixei os olhos e passei batido com o ar mais remoto que consegui armar na cara. Tenho medo-pânico de estrelas. Do céu, da terra. Elas devem permanecer no espa­ço, nas telas, nos palcos. Não andar se misturando por aí, nos bares, nos balcões, nos elevadores, nos banheiros — feito fossem seres co­muns. Preciso — como o Molina, de O beijo da mulher-aranha — ter certeza de que as estrelas são todas como a Leni Lamaison, de Sônia Braga, fumando com gestos largos, cobertas por metros de tule ne­gro, longe do insensato mundo.

Caso contrário, digo ao povo que piro. Não vou admitir de jeito nenhum que as estrelas tenham um cotidiano assim pobrinho que nem o nosso. Como meu irmão Felipe, quando tinha uns dez anos, que me perguntou:

— Caio, a Brigitte Bardot também faz cocô? Até hoje, eu juro que não.

*Caio Fernando Abreu
O Estado de S. Paulo, 15/4/1986

domingo, 21 de junho de 2015

Majora***


“Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre”
                              José Eduardo Agualusa


Certos universos nos surpreendem, mais ou menos como a máxima de achar que de onde menos se espera, surgem preciosidades, ou, pelo menos, algo se mexe no espírito meio adormecido. Foi assim com a lua de Majora, prestes a cair, caso o tempo não se incumba de encontrar soluções favoráveis aos destinos incertos de cada um de seus habitantes (com seus dramas e seus sonhos inacabados). O que parecia ser uma simples brincadeira revelou-se uma reflexão curiosa sobre percepção e valores.

No interior deste belo e enigmático ambiente, crianças brincam a desafiar dilemas e nos convidam a tirar nossas máscaras, expor nossas questões e nos revelarmos.

As crianças indagam:

“Seus amigos, que tipo de pessoas eles são? E essas pessoas te veem como um amigo?”

Amigos... são como criações divinas,  diante das quais só nos resta nos curvarmos para agradecer. São eles que tanto nos confortam quanto nos incitam a prosseguir. São como alvoradas após a densa obscuridade da noite, onde muitas vezes nos desesperamos. Também são onipresentes e alguns parecem mesmo dotados de um sexto sentido, pois se acercam nos momentos mais peculiares.

A questão é se sabemos quem eles realmente são. Adorar alguém, estar disponível, mesmo com tanto afeto, não necessariamente implica saber com quem você está falando. Na verdade, não conhecemos o outro, pois este se fragmenta em inúmeros outros, muitas vezes desconhecidos até dele mesmo.

Muito menos sabemos como somos vistos, pois as infinitas facetas existenciais não possibilitam esta abertura. No fundo, somos desconhecidos deles e de nós, numa ininterrupta roda viva de conhecimento em tantos sentidos.

A amizade não é exatamente uma via de mão dupla, então sermos amigos de alguém não nos credencia a sermos vistos como tal. Mas acredito que sempre haja uma vontade, uma intenção, de querer vir a ser especial a quem queremos bem.

“Você... o que te faz feliz? O que te faz feliz deixa os outros felizes também?”

Ser feliz tornou-se uma norma, uma ilusão a ser perseguida. Para aqueles que nos acessam, podemos parecer felizes e muitas vezes até o somos realmente, provavelmente no sopro do momento eternizado pelas lentes frias. Mas e o que vai ao âmago? Desde quando ser feliz é o que importa? Devemos sê-lo simplesmente porque alguém ou alguma lei desavisada, assim o decretou? O que te faz feliz, afinal?

O que é ser feliz para você? Importa definir ou vivenciar? Algumas pessoas são felizes apenas naquilo que imaginam ou nas suas possibilidades. E isso não é bom nem mau. Para alguns, a realidade pode não ter espaço suficiente para merecer o status de participação ativa. Então, talvez a felicidade seja apenas um ínfimo momento mágico, concebido pela fugaz química jorrada em nosso ser.

Assim, o que te faz feliz não está exatamente vinculado à felicidade do outro, pois o outro tem uma química diferente da sua. Seus instantes serão, sempre, somente seus. Se for desta forma, a felicidade é singular e pode ser, quem sabe, apenas compartilhada.

“A coisa certa... o que é? Pergunto: se você fizer a coisa certa, isso realmente deixa todos felizes?”

Esta é uma questão tensa porque implica em saber do que se trata fazer a coisa certa. Implica, portanto, em desenvolver um aguçado senso de percepção para entender o mundo que nos cerca. Isso é quase uma aberração. Muitas vezes, o que é para mim – vital, digno, essencial – pode significar a dor alheia. Então, somos obrigados a criar novas dimensões para compor estatutos de existências, para que continue a ser possível continuar coexistindo. Arrisco-me a dizer que não... que se cada um fizer a coisa certa para si, quase ninguém ficará realmente feliz.

“Seu verdadeiro rosto... que tipo de rosto é? Me pergunto...  o rosto debaixo da máscara é seu rosto verdadeiro”

Se fosse possível perscrutar esse tal rosto verdadeiro, aí quem sabe pudéssemos restringir a amplitude das faces debaixo da máscara, e nos perguntar qual seria ele e onde estaria. Há tantos e tantos rostos. Nossa singularidade, afinal, não é tão singular assim. Ela comporta inúmeros eus que se formam e se deformam ao longo do dia, do tempo, da vida. Mais provável que não exista um rosto por baixo da máscara. Talvez as máscaras sejam nossos verdadeiros rostos. Não para nos ocultar, mas sim para nos revelar através do turbilhão de sentimentos e vivências que nos compõem.

Tudo isso não significa que não sejamos íntegros ou que não exista uma essência escondida em algum chacra oculto. Significa tão somente que somos complexos demais, densos demais, para permitir reduções simplistas. Assim, as máscaras podem cair ou permanecer intactas... o que importa é que sejam plenas e significativas para fazer valer seus momentos.

*Luana Tavares 
Filósofa. Mestre em Filosofia pela UFF. Escritora. Filósofa Clínica na Casa da Filosofia Clínica. Niterói/RJ

**Texto inspirado em um trecho do game: "A Máscara de Majora" que, por sua vez, teve seu nome inspirado na lenda de uma tribo indígena brasileira, Marajora, que era conhecida por fabricar máscaras. 

sábado, 20 de junho de 2015

Jürgen Habermas – o pensador no século XXI*


Hoje é o aniversário de Jürgen Habermas, nasceu em Düsseldorf ‒ Alemanha ‒ 18 de junho de 1929. Filósofo e Sociólogo, um dos grandes representantes da Teoria Crítica, soube como poucos atualizar o legado de Marx, de Adorno, Horkheimer e Marcuse.

Atuante em questões de seu tempo, chegou neste século com sua obra em plena forma, atualíssimo. Conseguiu trazer temas tão importantes para as Ciências Humanas com uma renovação criativa, como por exemplo, a Teoria do Agir Comunicativo.

O Mundo da Vida causou uma tempestade, o autor ganhou interlocutores críticos e, também, atraiu vorazes inimigos nessa esteira teórica que ele nos presenteou em livros. É isso que se quer de um pensador, a potencialidade da obra é, também, a luz que reflete e reflexiona, como pode ser a luz a ofuscar ideias pretensamente únicas e definitivas.

Até hoje, Habermas, é um indicativo de que o pensamento crítico ainda vive. O pensador da emancipação, crítico dos exageros do cientificismo e da especialização do conhecimento. Um participante ativo da esfera pública política encontrou ao longo de sua trajetória grandes debatedores, críticos ferozes e nem isso o afastou do debate sobre temas que ainda são mais dos que atuais.

Habermas, a meu ver, é um dos grandes, um dos últimos protagonistas do debate que procura ainda ver no homem uma saída para o presente. O futuro sem grandes pensadores está ameaçado?  

“Onde as teorias se encontram numa relação de complementaridade e de pressuposição recíproca, a coerência passa a ser o único critério de avaliação, só sendo verdadeiras ou falsas as proposições particulares que puderem ser inferidas das diferentes teorias.” (p. 720-721 ‒ Teoria do Agir Comunicativo: sobre a crítica da razão funcionalista, Vol. 2, Editora Martins Fontes, 2012)

 Sobre a União Europeia:

“A União se legitimou aos olhos dos cidadãos, sobretudo, por seus resultados, e não tanto pela satisfação de uma vontade civil política. Isso se explica não só pela história de surgimento, mas também pela constituição jurídica desse constructo peculiar.” (p. 117 ‒ Na esteira da tecnocracia, Editora Unesp, 2014)

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Editor Sulina. Prof. PUC/RS. Escritor. Poeta
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Meu canteiro de Flores*


Juro como fiz tudo direitinho
Preparei bem o terreno
Afofei a terra. Fiz carinho
Deitei as sementes. Uma por uma
Grãozinho por grãozinho
Aguei com cuidado
Tentei fazer tudo direitinho.
Protegi do sol muito forte
Fiz guarda-chuva contra temporais
Ao dormir, cansado, conferia meu canteiro
Cedinho, pela manhã, espiava meu canteiro
Pela janelinha do meu quarto
Esperando algum brotinho
Deu nada não...
Deu nada não
Desconfio que a semente seja transgênica
Faz mal nada, não
Vou refazer tudo de novo:
Preparar o terreno
Afofar a terra
Deitar a semente
Aguar com cuidado
Velar dia e noite
Montar guarda se preciso for
Até que o brotinho apareça...
Depois vou contar pra todo mundo...

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Legente*


Há muito tempo, desde que a tarde se ouvia
Com o murmúrio da chuva nas janelas, eu lia.
O vento lá fora, já o não escutava:
O meu livro pesava.
Como se fossem rostos, as folhas sob o meu olhar
Escurecem de tanto pensamento
E, envolvendo a leitura, avolumava o tempo.
De súbito desce sobre as páginas um fulgor,
E em vez de confusas palavras - um tormento -
Há em todas só... noite, noite só, a nascer.
Não olho ainda para fora, mas já as longas
Linhas se desfazem, e as palavras rolam
Do fio que as liga, vão para onde querem...
E então eu sei que há céus sem fim
Sobre o esplendor e a plenitude dos jardins;
O sol teve de nascer mais uma vez. -
E agora é verão e noite o horizonte:
O que andava disperso em grupos se une,
Poucos, e há gente pelos caminhos escuros,
E longe, estranhamente, como se outro sentido
Tivesse, ouve-se o pouco que ainda acontece.

E ao levantar do livro o olhar agora,
Nada me é estranho, tudo tem grandeza.
O que aqui dentro eu vivo, está lá fora,
E aqui e lá não tem limite o mundo;
Só eu me teço mais com tudo isso,
Quando os meus olhos se ajustam às coisas
E à grave singeleza dessa gente -
O mundo cresce então, num golpe de asa.
O céu inteiro o abraça, é o que se sente:
E a estrela d′ alba é como a última casa.

*Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Vinho: a Bebida Sagrada dos Cristãos*


“Bebei, isso é meu sangue” disse Jesus ao levantar o cálice com vinho. E concluiu dizendo: “fazei isso em minha memória”.

Na Bíblia, no livro de Mateus, o autor faz um relato do nascimento de Jesus descrevendo que os Reis Magos levaram ao Messias três presentes especiais: ouro, símbolo da realeza; incenso, símbolo da espiritualidade; e mirra, símbolo do profetismo, que não passa de um fortíssimo alucinógeno comparado a morfina utilizado em rituais religiosos na África antiga. No Evangelho de Marcos, a mirra aparece mesclada ao vinho, oferecida a Jesus torturado antes de o crucificarem. Ele rejeitou a bebida.

Ao longo de toda a história, o uso de alucinógenos e outros aditivos químicos teve início em rituais religiosos. No Brasil, por exemplo, temos ayahuasca utilizada pelos adeptos do Santo Daime e União do Vegetal, religiões nascidas com o povo da floresta amazônica.

Muitas religiões e seitas têm suas bebidas sagradas e o vinho é a bebida sagrado dos Cristãos, instituída pelo próprio Cristo na Santa Ceia.

A filosofia também disserta sobre o assunto. O filósofo inglês Roger Scruton em seu livro “Bebo logo Existo” faz uma descrição detalhada de como os antigos encontraram uma solução para o problema do álcool: envolver a bebida em rituais religiosos. Tratá-la como a encarnação de um deus e marginalizar o comportamento destrutivo como obra do deus, e não do adorador. Uma boa artimanha, pois é bem mais fácil reformar um deus do que um ser humano, conclui o filósofo.

Hoje as substâncias químicas obtidas de plantas superaram o âmbito religioso e terapêutico e se tornaram iscas à dependência química com suas nefastas consequências. Um exemplo catastrófico é o da coca, cuja folha é mascada pelos indígenas andinos em seus rituais para facilitar a respiração em regiões de ar rarefeito.

Além da religião, outras soluções foram encontradas para não excluir os alucinógenos do uso entre os povos. Os gregos, por exemplo, fizeram do vinho um elemento reunidor daquela sociedade. Nos banquetes, eles descobriram que uma reunião regada à bebida alcoólica fazia aquele povo sorrir para o mundo e também o mundo sorrir para eles.

A bebida sagrada e consagrada pelos Cristãos, muitos séculos mais tarde, também era usada pelos franceses após cada batalha vencida ou perdida, quando celebravam a vitória ou a vida, regada com seus bons vinho. Quem não se lembra da célebre frase sobre o vinho dita por Napoleão Bonaparte em um desses encontros se referindo ao vinho? “Na vitória merecido, na derrota necessário”.

É sabido que se consumido de forma adequada, o vinho melhora o convívio humano e tem o poder de colocar o amor e o desejo a uma distância que os torna possíveis de serem discutidos. E na dose certa a sagrada escritura nos recomenda a bebida quando diz que “o bom vinho alegra o coração dos homens”.

Para os filósofos, o vinho, quando consumido socialmente durante ou depois de uma refeição, deve ser acompanhado de um bom tema de conversa, tema que se espera, perdure juntamente com a bebida. Se for bebido na ocasião, no lugar, com as companhias e com tema adequado, o vinho é o caminho para a boa meditação e o arauto da paz. “Ao pensar com o vinho, aprendemos a beber em pensamentos e a pensar em goles”, nos diz Roger Scruton.

Para Cícero, filósofo romano, é com o vinho e com o tempo que conheceremos os seres humanos, para ele, “os vinhos são como os homens, com o tempo os maus azedam e os bons apuram”.

Sem mais delongas e com um bom tinto na taça eu fico com Epicuro, o filósofo do prazer sábio. Ele nos alerta que “nenhum prazer é em si um mal, porém, certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior número de males que de prazeres”.  Por isso, recomenda o prazer sábio, isto é: saber até que ponto o vinho ainda é prazer, é ser tão educado em nossas sensações ao ponto de chupar uma jabuticaba e saber parar antes do amarguinho. Assim também deve ser com o bom vinho.

Para mim, onde há vinho, há conversa, há amizade, há vida. Saúde!

*Beto Colombo
Administrador de empresas. Filósofo. Filósofo Clínico. Coordenador da Filosofia Clínica na UNESC.
Criciúma/SC

terça-feira, 16 de junho de 2015

A que bebeu poesia*


A louca que passa
Deixou na vidraça
Um olhar que no fundo
Tem muita desgraça.

Será minha mãe
A pobre da louca
Que nada mais tendo
Conserva a ternura?

Será minha noiva
Que louca ficou
Depois que parti
No barco da guerra?

Será minha filha
A louca do bairro
Que a vida judiou
Depois que morri?
                 
Ou foi a poesia
Que a louca bebeu
Que lhe deu esse ar
De ser doutro mundo?

*Luiz Guilherme do Prado Veppo

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Nem todos os quebrantos, toda alquimia e nem todos os santos*


Acontece sim, com frequência, de casais não resistirem.
O que não tem juízo, não faz sentido e não se explica.

O que se sente e prende, quando em laço os sentidos atende e, se cuidado, regado e amparado com carinho e respeito, nada, nenhuma mandinga, pai de santo, nada vai desfazer. Nada vai separar um casal que se ama.

O pecado é que acontece de muitos casais não resistirem às influências externas. Acontece, tristemente, aos olhos dos que apostavam naquela linda e promissora relação, o fim.

Acontece, para decepção e angustia de uma das partes que apostou que deu o seu melhor e que confiou, do outro desistir. De o outro sucumbir ao entorno, muitas vezes egoísta e injusto que julga, condena e cobra momentos, presenças e recursos os quais por preguiça ou pura maldade, faz apenas, exigir, exigir e exigir.

Acontece, para decepção de alguém que luta contra tudo e todos para permanecer em um amor, apesar de toda dificuldade, daquele que esperava as coisas melhorarem, perder a paciência, ir embora, não acreditar mais nos esforços do seu amado, não acreditar mais na providência divina e em dias verdadeiramente melhores, pacíficos.

Os casais, as pessoas que se unem em nome do amor, os defensores do amor romântico, modelo de família que rege um viver bem acompanhado, onde um cuida do outro, só faz sexo com o outro, tem afeto, respeito, esses são passíveis de serem afetados pelo entorno, sim.

Acontece sim, com frequência, de casais não resistirem. Não cumprirem o seu propósito. Acontece de casais descobrirem que o que sentiam não era tão grande, tão forte ou verdadeiro. Acontece mesmo, de nem ao menos ter havido um propósito. E é aí, na falta de propósito, que começa como um pequeno sonho, que muitos casais deixam tudo para trás.

Quando um casal é forte em um ideal, somado a uma química potente, mais educação e dedicação, nada os separa. Nada os impede. Nenhum dos motivos citados acima ou tantos outros não mencionados aqui. Mesmo uma maldade disfarçada de amor, de dependência, de carência ou de direitos, nada separa um casal fortalecido na vontade de permanecer juntos.

A alegria da maldade é ilusória.

Está dito!

*Dra Jussara Hadadd
Terapeuta Sexual. Filósofa Clínica. Escritora
Juiz de Fora/MG