sábado, 13 de junho de 2015

Invasão oceânica*














Em uma entrevista, o filósofo Pierre Hadot define sua conversão filosófica na juventude a partir da uma visão espetacular do céu noturno e, definindo a emoção que o acometeu naquele momento, diz que foi invadido por um “sentimento oceânico” de prazer e admiração. Vou usar essa expressão dele com uma pequena alteração na linguagem mas tentando manter o significado no sentido de uma coisa que é maior do que aquilo que se pode suportar e que acaba por colocar abaixo os limites que antes faziam parte desse algo bem definido.

No caso, vou usar a frase invasão oceânica. O sentido dessa frase já coloquei, mas em que contexto pretendo usá-la? No contexto familiar. A psiquiatria e seus conceitos já romperam a barreira da própria profissão e assim invadiram várias instituições e áreas que nada tinham a ver com sua atividade inicial e seu território original. Uma dessas instituições e território invadido foi o das escolas.

Elas, por sua vez, invadidas, acumularam os conceitos estrangeiros à sua atividade inicial e original, a pedagogia, e derramaram de forma avassaladora sobre outro território que, agora vou usar a frase, sofreu (e sofre) uma invasão oceânica, a família. É uma invasão de esferas onde uma coloca sobre a outra seu poder-saber e utiliza disso para ter privilégios e prerrogativas “científicas” como argumento da invasão.

O saber-poder de ambas não apenas invade de forma oceânica a esfera familiar, mas esvazia o pouco saber dos pais. Então, a conta fica mais ou menos assim: psiquiatria + escola = invasão familiar. Essa conta se soma a outra, mais ou menos assim: preocupados com seus afazeres + pais ausentes = filhos como estranhos. Fica fácil invadir uma esfera sem proteção, pois além dos pais estarem preocupados com seus afazeres – esses disfarçados de preocupação com a estrutura material familiar – isso faz com que não conheçam seus filhos.

Os filhos, então, passam muito tempo com professores e coordenadores institucionalizados que estão carregados de conceitos estranhos à sua profissão mas que os utilizam como ferramentas para coagir crianças e pais para que seus filhos tenham um “bom aprendizado” e um “comportamento adequado a um bom aluno”. Pais desarmados de uma relação observacional não-interpretativa com seus filhos, isto é, não os veem como são, pois não “perdem tempo” com eles, aceitam facilmente qualquer conselho e comentário sobre o comportamento e sua saúde mental deles. Como não mais conseguem ter uma aproximação real com seus filhos, ouvem professores, coordenadores, psiquiatras, psicopedagogas e todos os tipos de pessoas institucionalizadas dirigidas a um bom enquadramento do comportamento saudável de uma criança para aquele fim, aprender.

O fato é que ninguém medica seus filhos por déficit de atenção ou hiperatividade por brincarem na pracinha ou porque brigam com seus irmãos ou porque nada fazem com atenção dentro de casa, não ajudam a arrumar seu próprio quarto ou nem tiram seu prato da mesa após as refeições. Nenhuma família medica seu filho ou procura um psiquiatra porque ele ou ela só querem fazer aquilo que realmente querem fazer, como, por exemplo, jogar bola e brincar de boneca. Pais medicam filhos porque escolas comprometidas com um ideal de “bom aluno” estão psicologizadas e psiquiatrizadas em seus conceitos e visão de ser humano. A escola virou um ‘puxadinho’ da clínica psiquiátrica. Pais inoperantes emocionalmente com seus filhos se tornaram uma presa fácil para àqueles que fabricam doenças. E é claro que aquele que fabrica a doença também, coincidentemente, tem o remédio para a cura.

Pais não se dão conta que quanto mais populares ficam os conceitos mais eles se separam do rigor conceitual que os originaram. Quando usamos o conceito de depressão para tudo que parece tristeza, dor emocional, falta de vontade, pessimismo e outras variantes, é porque já deturpamos totalmente com seu significado original e sua função. Fazer esse tipo de destruição conceitual só é bom para quem quer usar indiscriminadamente essa confusão para ganhar algo de forma indiscriminada.

Além dos pais não notarem que compram conceitos falsos como originais, ainda os usam para reforçar o poder daqueles que deturparam os conceitos para atingir aos próprios pais. E ainda saem se vangloriando que estão ajudando seus filhos, pois sabem perfeitamente que eles têm déficit de atenção, hiperatividade e qualquer transtorno comportamental. Sabem como? Pelos profissionais invasores com conceitos deturpados.

Essa invasão oceânica da qual as famílias estão sofrendo pelas esferas que nada tem a ver com questões familiares está enfraquecendo a família ainda mais. A criança passou a ser um problema a ser resolvido por qualquer profissional institucionalizado, menos os pais, pois estes não têm diplomas. Essa invasão oceânica institucional não se dá somente por essas áreas que já estão adentrando a vida familiar. Uma segunda ou terceira onda está vindo pegar essa rebarba de famílias desorientadas e afastadas emocionalmente de seus filhos.

Um exemplo que está crescendo é o conselho de educação física. A propaganda deles hoje quer fazer-nos crer que toda e qualquer atividade requer a atenção e acompanhamento de um educador físico especializado, formado e cadastrado no fabuloso conselho. Já estão querendo que naquelas “academias” ao ar livre que estão nos parques do Brasil, estejam presentes profissionais de educação física e que somente com eles as pessoas possam utilizar esses aparelhos.

Não tardará o dia em que, no hospital, a primeira visita de uma mãe e um pai que recém tiveram um filho, será de um profissional de educação física vendendo sua especialidade para um bom engatinhamento de seu mais valioso tesouro, seu filho!

 A coisa está passando de todos os limites e as esferas são invadidas a torto e a direito e todas convergem para a esfera maios fraca, a família. Tudo que adentra o âmbito familiar hoje está institucionalizado. Como dizia Thomas Szasz, até as árvores que estão no meio da avenida foram lá colocadas por uma empresa de paisagismo.

A sociedade hoje é pedagogizada (para tudo é necessário um aprendizado formal em uma instituição de ensino), psiquiatrizada (para todo comportamento há uma explicação cerebral) e institucionalizada (todo produto, de coisas materiais até emocionais, só tem valor quando vêm com um selo de uma instituição ou empresa ou indústria especializada naquele produto. Aliás, o que não é produto hoje?). Prova disso que até a família virou “instituição”.

A barreira necessária para conter essa invasão oceânica que adentra a vida familiar, principalmente pela escola-institucionalizada-psiquiatrizada é simples, porém nada fácil: conhecer seus filhos in natura, sem remédios, sem contos de fadas e expectativas positivas, apenas literalmente, observando como são e como se relacionam. Ouvi-los e aceitá-los como são.

Para isso seria necessário uma visão complexa de ser humano, não determinista e nem simplista. Algo que, pela velocidade em que vivemos, seria quase um mundo paralelo em outra dimensão. Outra alternativa é deixar tudo como está e nos afogarmos nessa onda gigante que não respeita a singularidade e a diferença. 

*Fernando Fontoura
Filósofo, Mestrando em Filosofia, Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

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