domingo, 14 de junho de 2015

Traduzir-se*









 Uma parte de mim
 é todo mundo:
 outra parte é ninguém:
 fundo sem fundo.
 Uma parte de mim
 é multidão:
 outra parte estranheza
 e solidão.
 Uma parte de mim
 pesa, pondera:
 outra parte
 delira.
 Uma parte de mim
 almoça e janta:
 outra parte
 se espanta.
 Uma parte de mim
 é permanente:
 outra parte
 se sabe de repente.
 Uma parte de mim
 é só vertigem:
 outra parte,
 linguagem.
 Traduzir uma parte
 na outra parte
 - que é uma questão
 de vida ou morte -
 será arte?

*Ferreira Gullar

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