sexta-feira, 31 de julho de 2015

Sonhar*


"Será que um sonho, depois de sonhado, acomodará mudanças no sonhador?", essa é uma pergunta intrigante que o protagonista do livro "Quando Nietzsche Chorou" elabora.

Longe de responder ou concluir o tema, que penso ter raízes na poesia, gostaria sim perguntar mais, esquadrinhar uma série de dúvidas destinadas aos sonhadores que estão lendo essas linhas. A quem os sonhos são mais que um gosto doce ou amargo ao acordar, mas um alento na dureza dos dias.

Penso que o próprio sonho, para alguns, pode ser um submodo, ou seja, uma maneira da pessoa lidar com suas questões íntimas. Ao lembrar e reviver o que foi sonhado, em alguns casos, se encerram questões existenciais, significados são atribuídos, para que a vida tome outros rumos.

Mas ainda assim, o que é lembrado e o que é esquecido? Qual o sentimento que cada um traz de um sonho? O que acalenta ou o que atormenta? Como saber o universo de possibilidades em tantos infinitos particulares de quem sonha?

A teoria de Freud sobre sonhos, que data de meados de 1900, fala que esses são uma maneira de se deparar com o que realmente incomoda, e durante o dia foi descartado no pensar, soterrado entre afazeres cotidianos. O que com certeza acontece, em determinadas singularidades, já em outras vai ser de maneira diversa.

Pois se estamos em constante modificação, porquê não podem ser os sonhos, o dispositivo que denuncia o ponto cego, o que não estamos vendo, ou o que não temos a sustentação para perceber acordados?
A Filosofia Clínica, ao ter como pressuposto o conceito da singularidade, do respeito à escuta singular de cada pessoa, respeita também todas as possibilidades de manifestações, seja de comportamentos, pensamentos ou sonhos. A cada sonhar é acordada também outra singularidade, que só encontra a maneira de se manifestar no devaneio.

Para outros talvez o sonhar seja somente uma vaga lembrança, que não ecoa ao longo do dia, não ressoa os passos de quem acordado, não atribui importância ao seu próprio sonhador.

Hanna Harendt, em "A Vida do Espírito" , disse que "nada do que vemos, ouvimos ou tocamos pode ser expresso em palavras que equiparem ao que é dado aos sentidos". Esse ser sonhador que  se revela a cada sono, é mais abstrato ainda, mais etéreo pois se esvai a cada despertar, deixando um rastro fugidio, que cada um, a sua maneira, persegue acordado.

Como diria Drummond:
"Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência."

*Luz Maria Guimaraes
Diretora da Santo Expedito – Design Gráfico. Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Pensamento vem de fora*


Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento. 

*Arnaldo Antunes

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Porque é Primavera*


Da natureza em cores e formas
Do esplendor das açucenas
De tantas flores
De novos tempos

Tantos afazeres e desfazeres
Desprezamos um amor-perfeito
Caminhamos por entre as flores
Sem perceber o tempo

Desperte minh'alma
Para alcançar as rosas
Sentir o vento
Florescer nesse tempo

*Fernanda Sena
Filósofa. Filósofa Clínica. Poeta.
Barbacena/MG

terça-feira, 28 de julho de 2015

A Fragilidade dos Valores*


“Todas as coisas 'boas' foram noutro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprudência de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Cambodja o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, benévolos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os «valores por excelência»; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza.

A submissão ao direito: oh! que revolução de consciência em todas as raças aristocráticas quando tiveram de renunciar à vingança para se submeterem ao direito! O 'direito' foi por muito tempo um vetitum, uma inovação, um crime; foi instituído com violência e opróbio.

Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos suplícios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumeráveis mártires; por estranho que isto hoje nos pareça, já o demonstrei na Aurora, aforismo 18: ‘Nada custou mais caro do que esta migalha de razão e de liberdade, que hoje nos envaidece’. Esta mesma vaidade nos impede de considerar os períodos imensos da ‘moralização dos costumes’ que precederam a história capital e foram a verdadeira história, a história capital e decisiva que fixou o carácter da humanidade.

Então a dor passava por virtude, a vingança por virtude, a renúncia da razão por virtude, e o bem-estar passivo por perigo, o desejo de saber por perigo, a paz por perigo, a misericórdia por opróbio, o trabalho por vergonha, a demência por coisa divina, a conversão por imoralidade e a corrupção por coisa excelente.”

*Friedrich Nietzsche
In Genealogia da moral

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A noite em mim...*


Transformo minha dor em poesia, música e movimento. Sinto saudades de coisas ainda não vividas. Essa é minha vida!

Desencontros familiares me chegam dizendo que muitos dos meus, pessoas do meu sangue, são estrangeiros na minha estrada. Tão estranho ter e não ter pessoas verdadeiras e reais no convívio familiar. Buracos emocionais foram construídos dentro do meu ser, procuro explicação para tentar aliviar a dor. Mas, nem sempre teremos acesso a todas as explicações de nossa existência, pois a própria existência escorre pelos dedos da mão. Apesar de tudo, eu acredito na lua, acredito na noite perfumada e acredito no movimento para anestesiar os dramas do dia a dia.

Cada um sabe quais são os vãos de seu existir. Nunca devemos, ou deveríamos julgar atitudes do nosso irmão, mais ou menos próximo de nós. As feridas existenciais têm me mostrado o quão pequenos somos diante da imensidão da vida e do universo, seja o universo particular ou o universo em que estamos inseridos como seres humanos.

Buscar-se é tarefa complexa, entretanto, em muitos casos é a única forma de curar o universo particular desajustado de alguns. Se algo dói, paralisa os sentidos e impede a sua expressão, está na hora de olhar para dentro da casa coração e tentar perceber se há algo que se possa fazer para atenuar essa dor.

A vida é cheia de surpresas, agradáveis e desagradáveis, a noite é simplesmente o mistério de um novo amanhecer, uma nova surpresa, boa ou ruim. Mesmo sabendo de tudo isso, eu gosto da noite. Gosto de sentir a esperança de que o amanhã poderá ser melhor que o hoje, gosto de imaginar que em um "passe de mágica" acordarei mais feliz, mais viva, mais disposta a recomeçar.

A noite me faz criativa e mais ativa, meus pensamentos transbordam e se enchem de ideias, soluções que com o barulho do dia não havia tido acesso. Parece que a vibração da noite traz muitos insights para os poetas e os profetas. Não tenho a pretensão de pertencer a nenhuma das duas categorias, porém, as maiores e mais nítidas ideias e inspirações me chegam numa noite quieta. 

Descobri que gosto do silêncio quando não quero interagir com o outro. Prefiro calar-me e sentir o ir e vir das ações cotidianas. O barulho da televisão ensurdece minha alma, procuro respirar e fugir desse barulho. Realmente a televisão tem se tornado cada vez mais inútil nesse meu processo de reconstrução!!! Nem filme me agrada no momento, estou mais amiga dos livros e das tintas das canetas. Se isso é bom ou não, não importa, é um processo muito particular.

Sinto falta daquela vaidade quase histérica com o meu cuidar de mim, entretanto, sinto que quando esse processo passar a histeria voltará com mais mansidão, sem pressa, sem tantos excessos. Sem culpas e cobranças externas. A seriedade ainda me acompanha, o sorriso ainda está apático, a esperança ainda está tímida mas a fé continua escondida num compartimento secreto do meu coração!

Por agora, nada mais para compartilhar. Só meu fascínio pela noite que nunca cessará.

*Vanessa Ribeiro
Filósofa, professora, dançarina, filósofa clínica, atriz
Petrópolis/RJ            

domingo, 26 de julho de 2015

O Poeta*


Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora. 

*Rainer Maria Rilke

sábado, 25 de julho de 2015

Todos recebem a mesma luz*


Uns se assemelham
A superfícies brancas
Que refletem a luz
- São os que tem mais inocência -

Outros assemelham-se
A superfícies coloridas
Que absorvem e refletem os raios de luz
Mudam de brilho e tonalidade ao longo do dia
- São as almas mais sensíveis -

Outros, ainda se assemelham
A superfícies transparentes
Deixam passar toda luz, sem nada reter
- São os mais próximos de Deus -

Alguns outros
Podem ser comparados a espelhos
Onde a natureza e os amigos
Se refletem e se vêem
- São os mais próximos de nós -

Alguns, enfim
Imitam prismas multicores
Onde a luz branca
Se abre em arco-iris
- São os que cantam a glória da natureza
Pela arte, pela música, pela poesia....

(Inspirado em Louis Lavelle - O Erro de Narciso.)

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Tempos Difíceis*


“Inteiramente diverso é o que se passa com o tempo linear.”
Karl Jaspers

Estamos vivendo tempos difíceis, essa evangelização nos sentimentos, na cultura, na forma desapegada que se tem para levantar os braços e agradecer a torto e a direito a tudo que é de ordem divina, do esforço de cada um, do cérebro de cada um, o que é da Vida passa a ser a mão do senhor. 

A criação dos homens virou uma dádiva, logo agora que não existe nada de criativo nas atitudes e nem no que se apresenta como sendo cultura, música, literatura e outros fazeres dos homens que se acham donos da Terra.

Estamos vivendo esse tempo de gerúndio, de poente nas histórias; na política, o pensamento de esquerda está mais perdido que papel ao vento, a direita, está cada vez mais orgulhosa de suas atitudes, de seus propósitos e agradece ao senhor do egoísmo... 

Mas esse tempo é mortal. Felizmente. Estamos a viver todos os tempos num só século. 

A água está suja, o plástico é uma ilha para os olhos dos homens, então, alguém poderia me dizer uma coisa: onde andam os deuses e seus sons, onde está a pintura dos girassóis e os cineastas libertários, onde estão todos? 

*Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Professor. Editor Sulina. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Poéticas*


tudo é...não é...
impermanente,
imanente.
no ver o invisível,
a arte transcende
o artista.
em sua inutilidade
tão útil...
permite a liberdade.

*Dra Rosângela Rossi
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica. Escritora
Juiz de Fora/MG

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Fragmentos filosóficos, delirantes, libertários*



"(...) o cotidiano é o verdadeiro princípio de realidade, melhor ainda, da surrealidade"

"A verdadeira vida está por toda parte, exceto nas instituições. Não se reconhece mais esses escritores e escritos vãos e em suas múltiplas imposições. Ela é feita de ensaios-erros, marca, por excelência, da vitalidade, no que ela tem de aventureira. Indico no princípio deste livro: a verdadeira vida não tem projeto porque não tem objetivo definido. Daí o aspecto pulsante de suas manifestações"

"O excesso é simplesmente revelador de um estado de espírito latente"

"(...) o estilo decadente na pintura ou na vestimenta, em resumo, o nomadismo ambiente traduz bem o retorno dos bárbaros aos nossos muros, isso significa a fragmentação do universo policiado, ordenado pacientemente por três séculos de modernidade"

"Mas além ou aquém desta aparente submissão, existe uma não menos sólida resistência, a de 'ficar na sua' ou a da secessão, que não faz ruído, mas se expressa nas múltiplas ironias, versatilidades e revoltas que vêm pontualmente à luz nas sociedades ditas democráticas"

"Acrescentarei que o redobramento é a marca simbólica do plural. Por isso, cada um torna-se um outro. Comunga com o outro e com a alteridade em geral"

"(...) nenhum problema é definitivamente resolvido, mas que encontramos pontual e empiricamente, respostas aproximadas, pequenas verdades provisórias, postas em prática no cotidiano, sem que se acorde um estatuto universal, oralmente válido em todo lugar, em todo tempo, e para cada um"

"Há aqui uma antinomia de valores que merece ser pensada: a morosidade do instituído, a alegria do instituinte. Antinomia que se manifesta, cada vez mais, com toda clareza, em particular nas voracidades festivas, no culto ao corpo, na exacerbação da aparência, tudo, certamente, fundado sobre a saturação do projeto longínquo e a celebração de uma espécie de instante eterno"

"(...) o excesso sobrevém como uma vibração que legitima e dá sentido à monotonia cotidiana. A transgressão e a anomia necessitam de limites, ainda que seja somente para serem ultrapassadas"

"As obras culturais e científicas se constroem, com frequência, na desordem e na loucura. Isso é ainda mais claro para a conjunção cultura e ciência"

"Lógica da disseminação também, que fecunda a partir do que é plural e diferente"

*Michel Maffesoli
**O Instante Eterno. Ed. Zouk. SP. 2003

terça-feira, 21 de julho de 2015

A Maternidade, esse coelho saltitante*









Alice, quando se aventura atrás do coelho no País das Maravilhas, percebe ao cair que: "ou o poço era muito fundo, ou ela caía muito devagar, porque enquanto caía teve tempo de sobra para olhar à sua volta e imaginar o que iria acontecer em seguida."

Penso que muitas das situações que eu já me deparei como mãe, são semelhantes às aventuras de Alice, correndo atrás do coelho. Seja esse coelho o meu filho pequeno, seja esse coelho as questões que ele me trouxe, e continua trazendo.

A aventura de Alice, em analogia com a minha e de tantas mães, é a da transformação através da experiência, ou ainda, da jornada da maternidade que nos transforma, ao mesmo tempo em que criamos e transformamos nossos filhos em adultos. Pois estamos também, a cada passo, nos transformando em mães e pais. O que vai acontecer em seguida, ser mãe, sempre é uma surpresa, mesmo a Alice quando cai no poço, "tentou olhar para baixo e ter uma ideia do que a esperava, mas estava escuro demais para se ver alguma coisa."

Não sabemos o que nos espera quando estamos esperando um filho, temos somente a expectativa, a experiência dos outros e os nossos sonhos. Vai ser no cotidiano de fraldas, brincadeiras, mau humores adolescentes, formaturas e primeiros empregos, que vamos desenhar nosso papel de mãe.

A jornada pode ser escura, mas a minha foi iluminada pelos desenhos dos smurfs e tundercats, que eu e meu pequeno assistíamos hipnotizados. O que eu não percebia na época, é que esse divertimento entre mãe e filho transformava os dois, até por trazer um interesse em comum.

 Na infância foram os desenhos, depois as palavras cruzadas, os livros de Harry Potter, o interesse pela música, as séries de tv, a literatura, e agora acabamos de voltar de uma viagem à Flip em Paraty. O interessante nessa relação, é que somos extremamente diferentes, sendo parecidos.

Tem sido uma caminhada inusitada essa, de ser mãe, que ao mesmo tempo é igual e diferente da experiência de outras mães. Igual porque muitos sentimentos e reações se aproximam do que minha mãe e minha irmã sentem em relação aos filhos, mas diferente porque cada filho é único, com sua personalidade e opiniões. Afinal, toda mãe tem a certeza absoluta que seu filho é o mais bonito e inteligente do planeta, e não sou exceção!

Alice, ainda atrás do coelho, tem a sensação de estar "caindo, caindo, caindo. A queda não terminava nunca?" A riqueza de experiências de ter um filho não acaba nunca.

*Luz Maria Guimaraes
Historiadora. Publicitária. Diretora de Criação na Santo Expedito. Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Poema*


Se morro universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto se apago a lâmpada: os sapatos - da - ásia, as camisas  e guerras na cadeira, o paletó -  dos - andes,  bilhões de quatrilhões de seres  e de sóis morrem comigo. 

Ou não: o sol voltará a marcar este mesmo ponto do assoalho onde esteve meu pé; deste quarto ouvirás o barulho dos ônibus na rua; uma nova cidade surgirá de dentro desta como a árvore da árvore. 

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens a mesma história que eu leio, comovido.

*Ferreira Gullar

domingo, 19 de julho de 2015

Prefácio***



Esta obra é uma descontinuidade das 'poéticas da singularidade' publicada em 2007 no RJ. Busca tecer críticas, provocar reflexões e insinua caminhos para a desconstrução das práticas ideologizadas a partir das tipologias do desatino. Compartilhar vivências de atendimentos, impressões e pesquisas sobre a raridade existencial da pessoa em refúgios de internação, sejam eles dentro ou fora dos muros do manicômio. Lugar onde a palavra usual encontra dificuldades para chegar e manter interseção com a epistemologia da loucura. 

A singularidade desfigurada pelas intervenções da tradição mostra, antes de mais nada, a aptidão de exclusão das analíticas da correção discursiva. Ao se levar em consideração a distorção, o erro e as contradições do sujeito, reivindica-se o estudo do entorno da pessoa em crise: o contexto, família e o psiquiatra, que são coadjuvantes com poder (jurídico) para transformá-lo em paciente, ao prescrever suas drogas de lógica normal. 

No saber desajustado dos delírios, algo mais se anuncia entrevistas de tradução. Sua fonte de inspiração ao permanecer incógnita, também se anuncia nas tramas de excesso.

O ethos da loucura encena múltiplos personagens, entremeios de rasuras da normalidade. Diante das pretensões da razão classificatória um viés excepcional assume papéis intermináveis. A internação contrariada, a distorção das originalidades, o saber farmacológico e o alienista fundamentam a exclusão representada pela instituição sanatório. 

Ao expor, com sua grande sensibilidade, os absurdos da sociedade que produz sua loucura, o louco a supera outra vez. Seu discurso de transbordamento possui encantos de língua marginal. Aprecia o não-ser como ponto de partida aos esconderijos, até então desmerecidos dentro de si. 

A indústria da loucura encontra apoio significativo das práticas de alienação, onde o consumo a qualquer preço impõe suas regras. As relações passam a ser mediadas pelas bugigangas ao redor. Aptidão de esquiva à introspecção e ao autoconhecimento. Sua característica principal é a insinuação, constantemente remarcada, de alguma forma de ganho, sucesso ou desempenho diferenciado. 

Como a maioria das pessoas pode passar uma vida inteira na periferia de si mesma e a conviver com um ilustre desconhecido, fica relativamente fácil cooptá-las para as verdades ocultas nas relações sociais de objeto para objeto.

No entanto, os rastros da palavra maldita atualizam silêncios, lacunas e transgressões de paradoxo. Devir descontinuado a ensaiar rotas ao ser extraordinário. A imprecisão dessas teias discursivas realiza um trânsito aprendiz pelos ditos exóticos da razão delirante.

Para permanecer como subjetividade indecifrável, o sujeito, muitas vezes, desloca-se nalguma forma de silenciar. Um território novo e sem vocabulário conhecido esparrama vestígios de multidão. Antecipa uma epistemologia dos excessos. As coreografias desdobram-se no intermédio invisível da sanha diagnóstica. 

Ao lugar inacessível para a sintaxe conhecida, uma incompletude discursiva refere indícios de profecia. Fonte de inspiração desmedida aos esconderijos distantes da normalidade.

A folia do fenômeno carnaval pode desfazer vertentes de uma só verdade. Ensaios de natureza mutante desdobram-se na imensidão dos exageros. O ser errático dos devaneios revela interstícios sem correspondência na realidade conhecida. Saber absurdo nas evasivas de introspecção. Aparente desconexão entre nada e tudo de qualquer coisa. Suas exceções convidam para enxergar através dos escombros da historicidade. 

Episódios inesperados apreciam o esboço em caricaturas de aparência incrível. Um querer dizer nem sempre é capaz de transgredir os dialetos conhecidos. Ao visar exaltado da atitude delirante o mundo pode se mostrar alterado. 

Uma vasta região segue indescritível, em uma zona de sombra e luz. A lógica das diferenças, ao tentar descrever as desconhecidas rotas, prenuncia disparates de invenção. 

Assim, é impreciso resgatar o louco de seu exílio, pois não se trata de considerá-lo a partir do ponto de vista normal, mas de respeitar seu viés existencial em uma busca onde todos se encontram. O fato de não compreender sua língua, rituais ou desvario não justifica sua prisão e tratamento de reconversão. 

A natureza absurda desses abismos sugere outras fontes de razão, mesmo quando desmerecida pela medicina conhecida. A internação involuntária, a camisa-de-força do preconceito e as práticas com base no DSM-IV (manual psiquiátrico americano) encontram ecos de evasiva ao desconsiderar segredos encobertos na desrazão. 

Nesse sentido, o caótico instante, as alucinações ou a falta de jeito podem ter diagnóstico de alguma patologia. Sempre que isso ocorre o discurso estrangeiro do alienista procura traduzir o mundo incompreensível do outro em linguagem própria. Ao classificar como insanidade seu deslumbramento com a vida, institui refúgios em caricaturas de coisa nenhuma. 

Aos desatinos contidos na racionalidade, nem sempre basta seguir suas prescrições. Para ela, os extraordinários presentes da vida singular surgem como confusão, desajuste ou dúvida. Talvez a interseção positiva consiga re-significar esses instantes de improvável recomeço.  

À pessoa exilada em si mesma pode restar a expressão dos monólogos com suas paredes. Em meio ao denso labirinto ampliado pela farmácia do hospital, as vozes e visões atualizam a sobrenatural descontinuidade dos dias. Na aproximação com os outros de sua aldeia, o devir da loucura pode surgir como genialidade, desajuste ou simulacro. 

A Filosofia Clínica, como paradigma de obra aberta, aprecia a conversação aprendiz com a trama maldita nas subjetividades. Quem sabe a compreensão dos excepcionais discursos possa revelar outras verdades ?

*Prefácio à obra: "Filosofia Clínica - Diálogos com a lógica dos excessos" publicada pela E-Papers/RJ em 2009. Até esse dia, a expressão 'autogenia' era apenas um tópico da estrutura de pensamento. 

**Hélio Strassburger
Autor de Filosofia Clínica - Diálogos com a lógica dos excessos, dentre outras. 

sábado, 18 de julho de 2015

Como quem ouve uma sinfonia*


Um grande e verdadeiro amor pode ser sutil, encabulado, assustado e no fundo encantado.

Esconder um sentimento pode ser um ato de caridade, de compaixão e mesmo de verdadeiro amor. Não dizer eu te amo, mesmo diante de uma certeza inexorável, pode ser muito sábio. É possível que o ser amado não esteja passando pelo melhor momento em sua vida e que isto transmita a ele uma responsabilidade difícil de assumir no momento.

Muitas vezes ele te ama muito mais do que você ou ele possam imaginar, mas não consegue ou tem medo de expressar. Pode estar traumatizado, pode ter sido golpeado recentemente, pode estar sendo vitima de uma pessoa doente que o persegue.

Talvez ele não te ame mesmo, mas existem varias maneiras de sentir isso. E isto é um direito. Talvez ele ainda não tenha descoberto o que sente ou mesmo não queira admitir e é importante respeitar. Entender que existe o tempo de cada um, o tempo que se leva para aceitar que estamos amando alguém.

Às vezes, as pessoas tem muita ansiedade em declarar amor mais pelo medo de perder o outro, de o tempo passar e o outro não saber que é amado e buscar outra pessoa, do que propriamente pelo amor que sente. Às vezes nem se ama tanto assim ainda. Talvez não tenha tido tempo direito de conhecer o outro a ponto de amá-lo.

O fato de alguém não conseguir declarar amor por você, quando você quer, quando é importante para você, não quer dizer que ele não sinta. E pode ser que talvez ele te ame até mais que você a ele. Ele pode ser alguém equilibrado, com propósitos de vida bem determinados. Ele pode estar testando o seu equilíbrio e o seu amor por ele. Ele pode sentir vergonha de falar e a medida que vai se liberando, vai te mostrando amor, através dos gestos, das manifestações de carinho além do normal, da descontração.

Tenha paciência quando sentir que encontrou um bom amor. Não ponha os pés pelas mãos, não jogue fora uma oportunidade de ser feliz só porque não sentiu uma explosão de paixão novelesca logo de entrada.

Um grande e verdadeiro amor pode ser sutil, encabulado, assustado e no fundo encantado. Tente olhar além das evidências. Tente se valorizar e ter a certeza do quanto pode ser amado e entenda quando estiver sendo.

Não, não estou falando de ilusão, de fantasia. Estou falando de percepção de intuição e de sabedoria. Rompantes de paixão, manifestações expressivas demais, muitas vezes atendem a uma volúpia mais que a um sentimento sincero e capaz de fazer você feliz. Um amor forte, mas de expressões contidas, pode te trazer imensa alegria, mesmo que longe dos olhos do mundo.

Avalie.

*Jussara Hadadd
Psicoterapeuta. Filósofa Clínica
Juiz de Fora/MG

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Tudo que é sólido desmancha no ar*


"Se encararmos o modernismo como um empreendimento cujo objetivo é fazer que nos sintamos em casa num mundo constantemente em mudança, nos damos conta de que nenhuma modalidade de modernismo jamais poderá ser definitiva. Nossas construções e realizações mais criativas estão fadadas a se transformar em prisões e sepulcros caiados; para que a vida possa continuar, nós ou nossos filhos teremos de escapar delas ou então transformá-las. É o que sugere o homem do subterrâneo de Dostoievski em seu infindável diálogo interior."

"Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas ao redor - mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. A experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porém, é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, 'tudo que é sólido desmancha no ar'."    

"Arte, ciências físicas, teoria social (como a do próprio Marx), tudo isso são modos de produção; a burguesia controla os meios de produção na cultura, como em tudo o mais, e quem quer que pretenda criar deve operar em sua órbita de poder."

"Baudelaire tem toda a razão em lutar contra a confusão entre progresso material e progresso espiritual - uma confusão que persiste em nossos século e se torna especialmente exuberante em períodos de boom econômico."

"(...) as contradições que animam a cidade moderna ressoam na vida interior do homem na rua."

"Citando Gogol: (...) 'Pishkarev, uma figura bem mais complexa, é talvez o único personagem genuinamente trágico de toda obra de Gogol, e aquele a quem Gogol mais entrega o coração. Enquanto o oficial persegue sua loira, seu amigo, o artista, é tomado de amor pela morena. Ele a imagina uma grande dama e treme ao se aproximar dela. Quando finalmente o faz, descobre ser ela de fato uma prostituta, cínica e fútil. Pirogov, é claro, saberia imediatamente, mas Pishkarev, um amante da beleza, carece de experiência de vida e conhecimento do mundo para compreender a beleza como máscara e mercadoria (da mesma forma, conta-nos o narrador, é incapaz de explorar seus quadros como mercadorias: fica tão encantado quando as pessoas apreciam sua beleza que deles se separa por muito menos que seu valor de mercado). O jovem artista se recupera de seu sentimento de repulsa, primeiro, e imagina a moça como uma vítima inocente: resolve salvá-la, inspirá-la comm seu amor, levá-la para seu sótão, onde viverão de amor e arte."

"São sonhos, sobretudo, que unem artista e rua."

*Marshall Berman 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Síntese do Vagar*


 “Nada mais fácil do que dizer o eu é multiplicidade ou que é unidade ou que é a síntese de ambas.”
Henri Bergson

Nada mais fácil do que viver em meu espaço, nele consigo refazer a casa do pensar. Digo que é um espaço livre, absoluto, de todas as imposições de ordem moral... por que da moral, se não estou aqui me refazendo do mundo totalitário das coisas?

Apenas aqui, é o espaço do pensar. Estou a dedilhar o acontecimento, o mundo dentro do mundo, o fora do mundo, o mito de viver bem, o mito da solidão etc. No meu espaço, convivo com os sonhos, as maquinações desse pensar, as tentativas de inventar o menor espaço possível para escapar com a palavra, atravessar a imaginação de mundos possíveis.

É óbvio, a razão diria, isso é um monstro. Não quero meus sonhos em companhia da sensatez, prefiro a música, o pensamento, o livro que invade o tempo dos contrários. A contramão das ideias pode tudo mas não corrompe as pontas do pensar nesse meu espaço que bifurca em ruas do século XXI. O movente é a razão metafísica que me joga ao externo, ao desconhecido jogo de linguagem.

“As ruas são a morada do coletivo. O coletivo é um ser eternamente desperto, eternamente agitado que vivencia, experimenta, reconhece e imagina tantas coisas entre as fachadas quanto os indivíduos no abrigo de suas quatro paredes.” (Passagens, p. 958 – Walter Benjamin)

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Editor Sulina. Escritor. Poeta.
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A Grande Literatura*


Os romances nunca serão totalmente imaginários nem totalmente reais. Ler um romance é confrontar-se tanto com a imaginação do autor quanto com o mundo real cuja superfície arranhamos com uma curiosidade tão inquieta.

Quando nos refugiamos num canto, nos deitamos numa cama, nos estendemos num divã com um romance nas mãos, a nossa imaginação passa o tempo a navegar entre o mundo daquele romance e o mundo no qual ainda vivemos.

O romance nas nossas mãos pode-nos levar a um outro mundo onde nunca estivemos, que nunca vimos ou de que nunca tivemos notícia. Ou pode-nos levar até às profundezas ocultas de um personagem que, na superfície, parece-se às pessoas que conhecemos melhor. Estou a chamar a atenção para cada uma dessas possibilidades isoladas porque há uma visão que acalento, de tempos a tempos, que abarca os dois extremos.

Às vezes tento conjurar, um a um, uma multidão de leitores recolhidos num canto e aninhados nas suas poltronas com um romance nas mãos; e também tento imaginar a geografia de sua vida quotidiana. E então, diante dos meus olhos, milhares, dezenas de milhares de leitores vão tomando forma, distribuídos por todas as ruas da cidade, enquanto eles leem, sonham os sonhos do autor, imaginam a existência dos seus heróis e veem o seu mundo.

E então, agora, esses leitores, como o próprio autor, acabam por tentar imaginar o outro; eles também se põem no lugar de outra pessoa. E são esses os momentos em que sentimos a presença da humanidade, da compaixão, da tolerância, da piedade e do amor no nosso coração: porque a grande literatura não se dirige à nossa capacidade de julgamento, e sim à nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.

*Orhan Pamuk

terça-feira, 14 de julho de 2015

Expressividade*


Sou assim...
Às vezes as pessoas não sabem
Se falo sério
Ou se brinco
Nem eu...
É que é assim ó:
Preciso me falar por brincadeiras
Pinto-me através de fantasmas
Desnudo-me por entre sombras...
Para conseguir dizer
Um pouco
Destas minhas complicações....

*José Mayer
Filósofo, Livreiro, Poeta, Estudante na Casa da Filosofia Clinica
Porto Alegre/RS

segunda-feira, 13 de julho de 2015

As Virtudes de Cada Um*


Não desprezo os homens. Se o fizesse, não teria direito algum nem razão alguma para tentar governá-los. Sei que são vãos, ignorantes, ávidos, inquietos, capazes de quase tudo para triunfar, para se fazer valer, mesmo aos seus próprios olhos, ou simplesmente para evitar o sofrimento. Sei muito bem: sou como eles, pelo menos momentaneamente, ou poderia tê-lo sido. 

Entre outrem e eu, as diferenças que distingo são demasiado insignificantes para que a minha atitude se afaste tanto da fria superioridade do filósofo como da arrogância de César. 

Os mais opacos dos homens também têm os seus clarões: este assassino toca corretamente flauta; este contramestre que dilacera o dorso dos escravos com chicotadas é talvez um bom filho; este idiota partilharia comigo o seu último bocado de pão. 

Há poucos a quem não possa ensinar-se convenientemente alguma coisa. O nosso grande erro é querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.

*Marguerite Yourcenar

domingo, 12 de julho de 2015

A morada do ser*


Pelas ruas,
Extensos bairros,
Estradas de chão.

A morada que abriga,
Os devaneios íntimos,
A imaterialidade,
A estrutura que fala.

As vivências, isolamentos,
Segredos e liberdade,
Daquela morada...
A morada do Ser. 

*Fernanda Sena
Filósofa, Filósofa Clínica, Poeta
Barbacena/MG

sábado, 11 de julho de 2015

O Poeta é Belo*


O poeta é belo como o Taj-Mahal
feito de renda e mármore e serenidade

O poeta é belo como o imprevisto perfil de uma árvore
ao primeiro relâmpago da tempestade

O poeta é belo porque os seus farrapos
são do tecido da eternidade

*Mario Quintana

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Formas do livro*


Os livros leem, os livros comem, os livros tomam forma,
Desde que o livro é livro, o livro nunca deixou de se mover,
O livro some, o livro morre, o livro errante, o livro erra,
O livro é fuga, o livro liberta, o livro queima, o livro sara.
Os livros não desistem, o livro é folha, o livro é tela,
O livro brilha, o livro é no escuro, o livro ouve, o livro é tátil,
O livro é reza, o livro é anarquia, o livro é corpo, o livro é sublime.
O livro é torto, é página, é linguagem, é música, o livro é nuvem.

*Prof. Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Editor Sulina. Professor. Escritor.
Porto Alegre/RS