segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Um mar no olhar*


Quando me defronto com um olhar marejado
É como se me visse no reflexo dum lago no momento da chuva.
Algumas coisas me afetam em demasia
Olhares marejados me paralisam
Me deixam fora dos eixos
Estaciono. Sento no chão. Baixo a cabeça
Meus pés não andam mais
Perco as palavras. Fico analfabeto
É assim como num sonho:
Tento correr
Para me salvar
Ou oferecer alguma salvação
E não saio do lugar.
Olhos marejados afogam meu choro seco
Por instantes fecho os olhos meus
Para voltar a olhar outra vez
Minha vontade é de estender um dedo
Para amparar a lágrima passada
O que vejo não são dois olhinhos
Enxergo duas poças d'água
Sobre gramas de outono
Misturo-me e mergulho no lago dos olhos
Para fazer o tempo voltar
E impedir que os olhos marejassem....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS 

domingo, 30 de agosto de 2015

Mesa dos sonhos*


Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.

*Alexandre O'Neill

sábado, 29 de agosto de 2015

A poesia do agora*


Ler nos olhos de alguém o melhor que podemos ser é uma experiência transformadora, surpreendentemente feliz. E em paz, refletir na alma alheia a justa medida de uma correspondência perene em tudo aquilo que realmente importa e que fora buscado numa obra de plantar o melhor que se podia e, por isso, colher frutos saudáveis. 

Porventura, pela lealdade, pelo cuidado de se colocar no lugar do outro e pela responsabilidade de assumir os próprios atos, conquista-se a capacidade de saber o que se planta - única forma legítima de impedir o temor da colheita. 

É lindo perceber que a medida do amor é infinita e misteriosamente desmedida sem sufocar, sem jamais faltar ou falir, sem ferir, sem prender, sem sequer invadir ou invalidar. 

Afinal, quando pensamos que a vida nos surpreendeu nos dando demais, além do nosso próprio merecimento, basta meditar fechando os olhos por alguns instantes para rapidamente compreender sentindo melhor o que plantamos para viver a poesia de um agora tão maravilhoso. Musa!

*Dr. Pablo Mendes
Professor. Filósofo Clínico. Cronista do cotidiano.
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Confidência do Itabirano*


Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

*Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Movimento*


“A arte só está próxima do absoluto no passado, e é apenas no Museu que ela ainda tem valor e poder.”
Maurice Blanchot

Meu grupo é tão seleto que não existe, vivo no limbo da desatenção, permaneço só na multidão, mordo a cauda da serpente, vejo no espelho o movimento do corpo, vejo a luz difusa, a névoa de um domingo cinza. 

Corro feito louco para ver o mar, nado fundo para não mais voltar, sigo em braçadas até o fim do livro. Vejo a mesma cena do filme que passa aos olhos, ouço o som no fundo do pensar, marco a linha imaginária na tela para traçar minha fuga.

*Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Editor. Professor. Escritor. Livre Pensador
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um bom poema leva anos*


Um bom poema  leva anos. Cinco jogando bola,  mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra,  nove namorando a vizinha, sete levando porrada,  quatro andando sozinho, três mudando de cidade,  dez trocando de assunto, uma eternidade, eu e você,  caminhando junto.

*Paulo Leminski

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O que nos leva ao consultório?*


A primeira questão fundamental é: o que é para cada pessoa o "consultório"? Bem como: o que é para cada pessoa o "terapeuta" e a "ajuda"? Tem-se como noção geral que quem procura a terapia procura a ajuda. Isso se mostra em Filosofia Clínica uma falácia, mais um dos pré-juízos generalizados, termos universais da nossa época. Em grande monta, sim, podemos dizer que a grande maioria das pessoas procura o terapeuta buscando ajuda, porém, não podemos tomar isso como universal, como se soubéssemos que aquele que adentra ao nosso consultório buscasse obrigatoriamente ajuda, esquecendo-se da velha máxima filosófica "só sei que nada sei", esquecendo-se que nada sabemos sobre aquela pessoa, nem mesmo se ela procura ajuda.

Há pessoas que vêm até o consultório, por exemplo, não para pedir ajuda, mas apenas para ter alguém com quem conversar, procurando um espaço de diálogo, um espaço de relação, não no sentido de um socorro, mas no sentido de poder viver algo que em outros lugares da sua vida, da sua existência, não há possibilidade. Há também aquelas pessoas que buscam o consultório com um objetivo historiográfico, elas querem poder relatar para alguém suas questões, querem ter alguém para repassar seus feitos e pensamentos, alguém que sirva de testemunho, alguém que ouça os seus relatos e que saiba o que se passa em sua vida. Muitas vezes pessoas assim rejeitam toda e qualquer intervenção por parte deste que hora chamamos de terapeuta, Filósofo Clínico.

Há também aqueles que chegam até o consultório, não por desejarem ali estar ou por ser essa uma busca própria, mas por indicação, alguém os disse: você precisa de ajuda. E essa pessoa, mesmo não buscando pela ajuda, ouve tal conselho e vai. Assim como há aqueles que estão ali por curiosidade ou para conhecer esse novo tipo de terapia, bem como aqueles que são literalmente arrastados, e vemos muito isso em terapia de casal, com adolescentes e crianças, que não estão ali por livre e espontânea vontade.

A questão de quem é o terapeuta? Para alguns o papel do terapeuta será significado como “um amigo”, alguém para ouvi-lo, alguém que irá acompanhá-lo ao longo da sua jornada. Alguns inclusive já procuram a terapia buscando justamente alguém que possa acompanhá-los em longo prazo, independente do que se suceda na sua vida, querem alguém que os conheça, que esteja passo a passo ao seu lado na jornada da vida.

Para outros o terapeuta é muito mais a figura distante e respeitosa de um conselheiro. Alguém que tem condições de lhe indicar caminhos e possibilidades. Também têm aqueles para os quais o Filósofo Clínico é nada mais do que o "último alento", o fim da estrada. É a ultima chance de “salvação”, alguém que eles procuram quando a vida está em trevas, está pesada, sendo visto como uma última luz para sua existência, uma luz que às vezes a pessoa sabe que talvez exista e que ela procura sem talvez nem mesmo enxergar.

O que tratar?
Vemos no dia a dia que a grande maioria das pessoas é movida até o consultório principalmente em decorrência de elementos sintomáticos, é a febre da infecção. A grande maioria não é movida pelos seus elementos últimos, pelos seus assuntos derradeiros, mas exclusivamente pelo fato de haver tantos elementos sintomáticos que já é impossível, doloroso ou muito difícil caminhar deste jeito. Em grande parte isso corresponde a uma característica de época da nossa sociedade, característica essa em que a saúde existencial é a última a ser considerada. Em muitos lugares, para muitos brasileiros, ir até um terapeuta ainda é considerado como algo humilhante, como um "rebaixar-se", como algo feio, doloroso.

Constantemente recebemos em consultório casais para os quais a terapia é a ultima possibilidade antes de o casamento acabar, como ultima opção, pessoas que já entraram em todo um quadro de choques existenciais, trilharam uma grande estrada rumo a uma existência que nada tem a ver com elas, e que se houvessem anteriormente ido procurar ajuda é bem provável que não tivessem chegado a este ponto.

Não se pode considerar a terapia apenas para aqueles casos que comparativamente em medicina seriam considerados "casos terminais".

Mas o que se busca em terapia? Em Filosofia Clínica, para cada pessoa uma resposta diferente se apresenta.

*Gilberto Sendtko
Especialista em Filosofia Clínica
Professor de Pós-graduação
www.facebook.com/terapiachapeco
Fone: (49) 3329-8102

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Poema*


Se morro universo se apaga, como se apagam as coisas deste quarto, se apago a lâmpada:  os sapatos - da - ásia, as camisas  e guerras na cadeira, o paletó -  dos - andes,  bilhões de quatrilhões de seres  e de sóis morrem comigo. 

Ou não: o sol voltará a marcar  este mesmo ponto do assoalho  onde esteve meu pé;  deste quarto  ouvirás o barulho dos ônibus na rua;  uma nova cidade  surgirá de dentro desta  como a árvore da árvore. 

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens  a mesma história que eu leio, comovido.

*Ferreira Gullar

domingo, 23 de agosto de 2015

Varal de Poesias*


De uma forma ou de outra
Somos todos escritores
De sonhos, de utopias, de palavras
Costuramos poesias. Melodias
Escrevendo nossas vidas.
Falamos ao ritmo de poemas
Escrevemos em forma de poesias
Cantamos ao ritmos de versos
Dançamos ao som de músicas
Vivemos poeticamente nossa vidas.
Eu amo, amando
Amo escrevendo o que amo
Amo falando o que amo.
Conto baixinho...
Fiz minhas melhores viagens
Sem sair do lugar....
Fiz -me nuvem de chuva
Para despertá-la do sono
É que ela andava adormecida
Até pedi-lhe de vez em vez:
"Volta a escrever
Pequena e serena"
Por ti...
E também por mim....
Devo esperar
Ainda não é o tempo dela.
Enquanto isto
Pendurarei minhas poesia
Tristes e incompletas
Num varal sobre a estrada
Que cruza rumos no horizonte
Para balançarem ao vento....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Formação na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sábado, 22 de agosto de 2015

Procura-se um amigo*


Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

*Vinícius de Moraes

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A plenitude do agora*


Pode não haver sol,
porém, sempre há beleza.
A natureza, em sua sabedoria,
contrabalança luz e sombra.
Pode não haver sorrisos,
porém, sempre há silêncios.
A natureza, em sua dialética,
promove a pausa harmónica.
Pode não haver antes e depois,
porém, sempre há agora.
A natureza, em sua plenitude,
nos presenteia com o existir.
Isto nos basta!

*Rosângela Rossi
Psicoterapeuta Analítica. Filósofa Clínica. Escritora.
Juiz de Fora/MG

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Poética*


Estou farto do lirismo comedido. Do lirismo bem comportado. Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. Abaixo os puristas. Todas as palavras, sobretudo os barbarismos universais.

Todas as construções sobre tudo as sintaxes de exceção. Todos os ritmos, sobretudo os inumeráveis. 

Estou farto do lirismo namorador. Político, Raquítico, Sifilítico. De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. De resto não é lirismo. Será contabilidade tabela de co-senos, secretário  do amante exemplar, com cem modelos de cartas  e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. 

Quero antes o lirismo dos loucos. O lirismo dos bêbados. O lirismo difícil e pungente dos bêbedos. O lirismo dos clowns de Shakespeare - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

*Manuel Bandeira

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O sentido do sentimento*


“Mas só sabemos que sentimos uma emoção quando percebemos que essa emoção é sentida como algo que está acontecendo em nosso organismo.”
António R. Damásio

“For I never dreamt that you'd be loving…”
Duke Ellington

(Ler ouvindo "In a sentimental mood" com Duke Ellington and John Coltrane)

Já escrevi esse texto antes alguns anos atrás, acho que lá por 2002. Deve estar em algum lugar da memória, guardado na nuvem, está dentro de um romance que comecei, parei, no “Editor de romances”. 

Acordei no meio da noite, zonzo, como se tivesse sido atropelado por algo, pelo sonho, pela música que tocava distante... Olhei para os lados, me certifiquei que estava na minha casa, não reconheci a cama, mas o velho teto mofo estava bem acima de mim. Acendi a luz. Fui até a peça que tinha o som, onde costumava tocar meus discos, era John Coltrane e Duke Ellington ao fundo. Não tinha nada ligado, voltei ao quarto, a velha TV ligada, um filme na madrugada que estava tocando “In a sentimental mood”. 

Levei susto, nunca passa nada que presta nesses canais abertos, mas a música era uma das minhas preferidas. O filme terminando, passava os créditos, enquanto isso tocava o som que se tornou mais sensível ao meu acordar de sobressalto. Fui envolvido com o silêncio da madrugada. 

Naquele ano eu ainda estava fixo em uma teoria absurda, ficava sempre imaginando que meus sonhos poderiam ser uma saída para minhas próprias deficiências de pensar a realidade, aí comecei a ler tudo sobre a consciência. 

Até que cheguei há alguns resultados; primeiro, parei de pensar que isso era um absurdo, ou seja, pensar sobre o próprio sonho, se ele tinha alguma implicação além daquelas já estudadas, muitas desmitificadas do velho Freud. Depois, no momento que me acostumei com a insônia, que era cada vez mais presente em minhas noites, descobri que dormir mal não era dormir pouco, que dormir era necessário, mas ficar pensando era tão importante que dormir muito. 

Demorou mais uns anos para ter a plena certeza de que eu precisava acordar muito cedo. Acordar e ir nadar, que a água me salvaria da depressão. Meus dias se tornariam melhores. Mudei tudo. Alojei os pensamentos em outros lugares, refiz meus compartimentos da caixa de pensar, só não desisti de tentar compreender como se pode ter mais consciência no ato de sonhar, quando é que se poder decifrar a realidade sem que tenhamos medo de apagar com o tempo por completo.

*Dr. Luis Antônio Paim Gomes
Professor. Escritor. Editor. Livre Pensador.
Porto Alegre/RS

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Sou um evadido*


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

*Fernando Pessoa

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Paixão*


Sim! É muito possível um casal se manter apaixonado até o ultimo dia de suas vidas juntos e, consta da lista de fatores que contribuem para esta proeza, o nosso antigo amigo respeito que gera admiração, autoestima, segurança e, enfim, tesão em viver junto, em cuidar do bem-estar do outro em querer proporcionar prazer.

Uma relação apaixonada não precisa ser somente aquela coroada de sexo a qualquer custo. É certo que sexo com a pessoa que a gente ama é bom de qualquer jeito e a qualquer hora, contudo um casal que presta atenção no que é importante para cada um, consegue manter viva a luz do encantamento em todos os momentos da vida que dividem.

A química do amor é mantida com doses permanentes de cuidados. É bom lembrar que um casal é constituído de duas pessoas e que a vontade de manter para sempre o ar de namoro, depende dos dois.
Buscar encantar um ao outro com paciência, silêncio quando necessário, carinhos inesperados e cuidados com a aparência, ajuda muito. Encantar com a inteligência, com a humildade e com o sorriso gostoso, também. Gestos de desprendimento aos conceitos individuais e as nossas manias, surpreendendo o amor da gente e querendo dizer: sou capaz disso por você e não cobrar do outro o que você disse que daria por amor, são propostas implícitas ao comportamento do homem e da mulher e evitam sobremaneira o desgaste diário na relação cotidiana facilitando bastante o caminho para o desejo.

É bom lembrar que a química do amor, segundo a neurociência, tem prazo de dois anos para acabar e o casal que não descobrir neste prazo como frutificá-la, estará sujeito a buscas permanentes por amores efervescentes.

Nenhum fetiche sexual tem o poder de acender o fogo que foi apagado pela insensatez de um casal que disputou que jogou e brincou com os sentimentos um do outro. Fingir que não precisa do outro, se fazer de difícil demais, desprezar, rejeitar, criticar, cobrar, impor regras, são posturas fulminantes para uma relação que sonha ser apaixonada.

Não tem calcinha vermelha, bumbum empinado, Camaro amarelo ou cartão sem limite, que traga a paixão de volta a uma relação estável desgastada. Artifícios dessa natureza costumam atender apenas a propostas efêmeras de um amor fugaz e sem sentido. Atendem a encontros fortuitos, únicos e isolados entre pessoas que estão radicalmente decididas a viverem só e para sempre.

Por outro lado estas brincadeiras eróticas e quebra de rotina costumam funcionar muito para os casais fortes. É para aqueles que conquistaram este direito regando todo dia uma plantinha frágil. Ou seja, tudo vale e tudo é o máximo quando o casal é feliz. Algemas Pink, cueca de couro, chicote, cheirinhos, dadinhos, tudo isso só tem efeito quando existe vontade. E nos dois. Caso contrário, soa agressivamente, transgressivamente.

Certa vez me contaram uma piada que caracteriza bem o que tento dizer aqui:

Numa noite, um casal desgastado, os dois fora de forma, o marido já sonolento em frente da televisão.

A mulher aparece na sala, fantasiada de mulher gato e faz um singelo, miauuuuu para o marido.

Quando o marido desatento diz:

Fala aí Batman, cadê a janta?

Os casais que se propõe viver juntos estão brincando de casinha. Estão se baseando em novelas e reality shows. Mulheres procuram homens cinzentos** e tão irreais quanto é irreal o seu ideal de compartilhar em amor. Homens dizem amar movidos por um ímpeto erótico apenas. Os desejos são pequenos e falta tempero para fixar o paladar, para manter na memória o bom de estar um nos braços do outro, o bom de esperar pela hora de estar perto do outro. O gosto da boca que já se conhece, o cheiro do corpo familiar e agradável, a voz que acalma ou até irrita à vezes, e que faz rir. A confiança, a certeza de, sem nenhum vestígio de possessividade, aquela pessoa ser sua, ser para você, simplesmente por que vocês querem.

Para mim, a traição é inata à pessoa sem retidão e sem força de construção. A falta do tempero que mantém viva a paixão pode ser apenas um pretexto, muitas vezes criado, engendrado mesmo, por quem se acha merecedor de umas pitadas a mais de prazer e satisfação além da relação.

Para que se esforçar se em cada esquina há alguém disposto a repetir os mesmos erros? Para que perder tempo em conversar, discutir a relação (fora da cama, é claro), aperfeiçoar, saber do que o outro gosta ou precisa se tem gente em qualquer lugar, gente de todo tipo, para recomeçar uma vida novinha em folha?

Se as marcas ainda não ficaram muito profundas, mãos à obra.

A falta de diálogo diante de tantas invasões das mídias, das infinitas atividades de lazer e da preguiça em manter sólida uma construção que foi projetada e sonhada em parceria com alguém, é muito comum hoje em dia. Tudo propõe que o casal viva cada um para um lado, além do normal. Que o casal deixe de sonhar o mesmo sonho que os uniu. Individualidade é essencial, mas bom senso costuma equilibrar bem à medida como isto deve acontecer quando duas pessoas querem caminhar juntas.

Um sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade.
Raul Seixas

*Jussara Hadadd
Filósofa clínica, psicoterapeuta, especialista em sexualidade feminina, escritora, palestrante.
Juiz de Fora/MG

**Cinquenta Tons de cinza
E. L. James. Editora: Intrinseca

domingo, 16 de agosto de 2015

Permanência*


Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua. Falta-lhe
o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.

O poeta lê apenas os sinais
da terra. Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e
de presença. Sabe
apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil. Conhece
apenas do tempo o já perdido; do amor
a câmara escura sem revelações; do espaço
o silêncio de um vôo pairando
em toda a parte.

Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
- morto redivivo.
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.

*Adolfo Casais Monteiro

sábado, 15 de agosto de 2015

Poéticas do tempo*


Lembro-me do inverno, quando criança. E dos dias prolongados de chuva. Não era preciso ficar triste. O céu chorava por nós...

Muitas vezes não tínhamos o que fazer. Quando não havia o que fazer, fazia-se o melhor.

Tínhamos um potreiro. Com alguns pinheiros. Lembro-me do meu pai. Vestia-se de anjo ou de pássaro. Imitava uma gralha azul. Recolhia pinhões.

E enfiava no chão. Pinheiros levam uma vida inteira para ficar adultos. Isto não importava para ele. Importava a alegria dos que viessem depois.

O potreiro continua lá. Nas terras do meu pai. Não é mais o mesmo potreiro. Existe lá, agora, uma floresta de pinheiros. Quando vou lá descanso na grama junto com meu pai.

Para lembrar-me que ainda sou criança, chupo frutas e cuspo as sementes na terra. Sei que elas germinarão. É que eu tenho mais afeição pelas coisas minúsculas, que pelas maiúsculas.

Lembro-me de amores... Sinto-me menor do que sou com tudo isto. Quebro com facilidade. Contudo, não me jogo fora. Colo e remendo meus pedacinhos estilhaçados.

Não jogo fora, nem sementes, nem amores, nem pedacinhos....

*José Mayer
Filósofo. Livreiro. Poeta. Estudante na Casa da Filosofia Clínica
Porto Alegre/RS

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A felicidade*


O que abraça a uma mulher é Adão. A mulher é Eva.
Tudo acontece por primeira vez.
Hei visto uma coisa branca no céu. Dizem-me que é a lua, mas que posso fazer com uma palavra e com uma mitologia.
As árvores me dão um pouco de medo. São tão formosas.
Os tranquilos animais se aproximam para que eu lhes diga seu nome.
Os livros da biblioteca não têm letras. Quando os abro
surgem.
Ao folhear o atlas projeto a forma de Sumatra.
O que ascende um fósforo no escuro está inventando o
fogo.
No espelho há outro que está à espreita.
O que olha o mar vê à Inglaterra.
O que profere um verso de Liliencron há entrado na
batalha.
Hei sonhado a Cartago e as legiões que desolaram a
Cartago.
Hei sonhado a espada e a balança.
Louvado seja o amor no qual não há possuidor nem possuída, mas os dois se entregam.
Louvado seja o pesadelo, que nos revela que podemos criar o inferno.
O que descende a um rio descende ao Ganges.
O que olha um relógio de areia vê a dissolução de um império.
O que joga com um punhal pressagia a morte de César.
O que dorme é todos os homens.
No deserto vi a jovem Esfinge que acabam de lavrar.
Nada há tão antigo baixo o sol.
Tudo acontece por primeira vez, mas de um modo eterno.
O que lê minhas palavras está inventando-as.

*Jorge Luis Borges

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O mundo e as coisas*


São tão fortes as coisas,
mas eu não sou as coisas
e me apaixono.
É preciso tanto e tão
pouco para ver o mundo
e as coisas.
As coisas, o velho livro
que te acompanha, a
caneta ordinária e um
papel qualquer.
Que inveja sinto
das coisas.

*Luz Maria Guimaraes
Diretora da Santo Expedito – Design Gráfico. Filósofa Clínica
Porto Alegre/RS

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Quem Sabe um Dia*


Quem
sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois

Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

*Mário Quintana